quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

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Cairbar Schutel   


Gênese da Alma


1924


O Transformismo

e a

Evolução Anímica

“ Fé inabalável é aquela que pode

encarar a razão face a face”

Allan Kardec


Théodore Rousseau

Na Floresta de Fontainbleau



Conteúdo resumido


Vejo homens de fronte erguida para o alto e outros curvados

em busca dos tesouros da Terra; vejo bons e vejo maus, uns

inteligentes e outros estúpidos, uns santos e outros diabos;

vejo sãos e enfermos, bonitos e feios. Pergunto-lhes de onde

vieram, quem são e para onde vão, mas nenhum deles me

responde!" Eis a chave deste livrinho precioso!


Sumário


Breve explicação

I - Nos degraus da evolução

II - As religiões sacerdotais

III - As tábuas do Sinai

IV - Alvorada espiritual

V - Os cegos de espírito

VI - Eunuco branco de dia - Eunuco preto de noite

VII - O berço da alma

VIII - Revendo o passado

IX - Corpos humanos e animais

X - Conhece-te a ti mesmo - "Surge et ambula"

XI - Ciência sem religião

XII - Combate ao preconceito


XIII - A inteligência e o instinto - O raciocínio e a

memória

XIV - O transformismo de Lamarck, Darwin e outros

XV - A lei da evolução anímica

XVI - Exemplo da inteligência dos animais

XVII - Ligeira crítica da psicologia humana

XVIII - O cão de Aubry

XIX - O cão de Manheim

XX - “Zou”, o cão da senhora Borderieux

XXI - Uma leoa do Saara

XXII - O homem decaído

XXIII - O mundo das abelhas

XXIV - Lei providencial do trabalho

XXV - Santo Antão e seu suíno

XXVI - Um gato obedece e reconhece um espírito

XXVII - Visão e percepção dos animais

XXVIII - O leão de São Jerônimo

XXIX - O corvo mensageiro e São Paulo, o eremita

XXX - O progresso da alma - A memória - O perispírito

XXXI - Demonstração positiva da alma dos animais

XXXII - Manifestações póstumas dos animais

XXXIII - O cão Boby do Dr. Jorge Graeser

XXXIV - Manifestação de um cão

XXXV - Os cães da Cruz Vermelha

XXXVI - Ciência e progresso

XXXVII - Advento do espírito - O sétimo dia

XXXVIII - A justiça divina e a lei do progresso

XXXIX - Apelo em favor dos animais

XL – A revelação progressiva

XLI - A Doutrina da imortalidade

XLII - A previsão de Aksakof


XLIII - Prova da existência da alma pela fotografia

XLIV - Prova da imortalidade da alma

Súmula


BREVE EXPLICAÇÃO


O único intuito deste livro é demonstrar, com bases

sólidas, fatos verificados e verificáveis; e, com argumentos

irrefutáveis, a Imortalidade da Alma e, portanto, a Vida

Eterna. E para que conseguíssemos aproximar-nos tanto

quanto possível dessa verdade, patente hoje aos olhos de

todos, era nosso dever traçar as linhas gerais da evolução, a

começar do ponto em que se nos mostra o principio anímico,

embora em seu período embrionário.

Nesta obra, como nas demais que temos dado à

publicidade, nos esforçamos em expor com clareza a

Doutrina que propagamos, e que, como o leitor há de ter

notado, não é uma "doutrina pessoal", mas, sim, um conjunto

de ensinamentos transmitidos pelos Espíritos da Verdade,

Apóstolos da Nova Revelação prometida pelo Maior dos

Enviados - Jesus Cristo, ensinos estes que não são Impostos

como crença cega, sem estudo e sem exame, mas entregues a

todos os Espíritos de boa vontade, a todas as almas que

conseguiram libertar-se dos dogmas do farisaísmo científico

e religioso, que se dispuserem a adotar os métodos Indutivos

de uma ciência positiva, para chegarem ao conhecimento da

Verdade em sua brilhante pureza.


Temos adotado em nossos escritos o trabalho de síntese,

talvez mais difícil do que se deliberássemos fazer largas e

longas tiradas. Com este alvitre procuramos poupar, ao

leitor, enfadonhas e fastidiosas dissertações que, as mais das

vezes, obscurecem os princípios que queremos ver

elucidados.

E não nos temos arrependido de tal deliberação, razão

porque mantemo-la neste livrinho, em que reunimos nossos

ditames em poucas páginas, evitando redundâncias que só

serviriam para fazer volume.

O Divino Mestre, ensinando seus discípulos; a orar,

disse-lhes que não seria, pelo muito falar que seriam ouvidos

por Deus; assim também não seremos compreendidos pelos

homens pela quantidade de palavras, mas sim pela sua

qualidade.

Isso não significa que tenhamos a presunção de haver

feito obra completa; mas a consciência nos diz que fizemos

obra útil.

Se este nosso livrinho conseguir, como um bom

cicerone, levar o estudante ao areópago desses grandes

benfeitores da Humanidade, teremos recebido o salário do

nosso trabalho.


I


NOS DEGRAUS DA EVOLUÇÃO


O orgulho humano cavou um abismo intransponível

entre o reino hominal e o reino animal.


A falta de estudo, de observação, de meditação, em uma

palavra, a ignorância presunçosa permitiu o destaque do

homem, classificando-o como um ser à parte na Criação.

A velha legenda bíblica: "façamos o homem à nossa

imagem e semelhança", tomada à letra, não podia deixar de

concorrer exuberantemente para a desclassificação dos

animais da ordem hierárquica que prende todas as almas,

sem solução de continuidade, sem lacunas apreciáveis.

A escala animal, situada num dos reinos da Natureza,

não pode deixar de obedecer às irrevogáveis Leis de Deus,

que se verificam em toda a Criação, desde o grão de areia

soprado pelo vento dos desertos, ao mais fulgurante Sol que

se agita e caminha com extraordinária velocidade nos

desertos do Espaço, em demanda das grandes constelações,

atraído pela força de gravitação.

Na Natureza tudo se encadeia, tudo se liga; é uma

corrente infinita em que todas as coisas e todos os seres,

presos pelos mesmos elos, tendem sempre para um estado

melhor: tudo tem por alvo o Progresso, a Evolução para a

Perfeição; só Deus, ó Supremo Criador de todas as coisas, é

a Perfeição Infinita, a Luz Misteriosa e Eterna, a Fonte de

Toda a Sabedoria e de Toda a Vida!

Não há santo, nem sábio, por maior que seja, que não

esteja caminhando para estágios de maior perfeição; assim

como não há ente animado, por mais insignificante que

pareça, por mais microscópico que seja, que não esteja

submetido à Lei da Evolução, decretada pelos desígnios

divinos.

Tudo caminha pela grande estrada da Vida rumo ao ápice

da montanha, do progresso humano, realizado para exercitar

passos de maior ascensão pelos degraus da intérmina


escadaria da Espiritualidade, onde, em cada andar, todos

recebem nova previsão de experiências para o

prosseguimento da eterna viagem, na qual conquistam, cada

vez, mais conhecimentos e, portanto, gozam de maior soma

da felicidade que engrandece as suas individualidades.

Quanto mais alto se coloca o ser, mais amplos são os

horizontes que descortina, mas penetrante é sua vista, mais

lúcida a sua inteligência, maior o seu amor, maior a sua

liberdade! Em vez de diminuir, cresce; em vez de perder a

individualidade, aumenta-a; sua razão ilumina-se e os

generosos sentimentos que lhe assinalam a existência são

forças de que ele se serve ao serviço do Bem e do Belo, para

glorificação da Imortalidade, de que se constitui paradigma!


II


AS RELIGIÕES SACERDOTAIS

Os animais e a metempsicose

A providência divina


As religiões parasitárias têm negado com a maior

desfaçatez a alma aos animais. Fascinados pela vida material

e seu bem-estar, que visam a usufruir; cerceados pelo dogma

execrando que condena o raciocínio, oblitera a consciência e

impõe a fé passiva, os sacerdotes, presos às suas doutrinas

restritas, trabalham para manter a ignorância do povo,

negando-lhe o direito de pesquisa e livre-exame, condição


indispensável para a conquista dos conhecimentos que

acionam a Evolução Espiritual.

Dai o desprezo pelos animais, os maus tratos aos

mesmos inflingidos, em completo desacordo com as leis do

amor e da caridade, atrás das quais se escondem os ministros

e confessores para tirarem delas os proventos materiais. E se

é verdade que a caridade tem conseguido fazer alguma coisa

pelos pobres animais, muito mais tem concorrido as

metempsicose dos antigos que ensinava a volta ao corpo de

um animal da alma do homem mau, para pagar o capital e

juros das dividas contraídas pelos seus desvarios.

Só o terror de sofrimentos presentes e futuros consegue

sofrear as índoles más, o que até faz suspeitar da natureza

humana de homens em quem existe a centelha da Luz

Imperecível.

Mas não era só a metempsicose; as lendas antigas, que

passavam de boca em boca e dizendo do sofrimento que

esperava aos que maltratavam os animais, essas estórias

cheias de alegorias, em que se destacavam as "almas

forçadas a impetrar a intervenção das almas dos animais",

também muito concorreram para que fossem diminuídos, em

certo tempo, os suplícios por que têm passado os nossos

irmãos inferiores.


Entretanto, a providência não tem descurado do bem-

estar dos animais, que, se de um lado têm de passar pela


escola do trabalho e pelo cadinho do sofrimento, como o

gênero humano, para desenvolverem as suas aptidões, de

outro lado têm os mesmos direitos que temos do descanso e

do bom trato.

Desde os peixes que vivem no mar e os pássaros que

trinam melodiosos cantos nos arvoredos, até o leão das


selvas e o gorila que habitam os bravios sertões da África, a

Previdência proporciona meios de vida, para todos faz

levantar o seu Sol, para todos faz descer as suas chuvas; aos

peixes dá os rochedos como aconchego; às aves dá os ramos

das árvores, o feno dos campos para seus ninhos; aos

demais; as frondosas matas e as cavernas para habitação!

"Olhai as aves do céu, diz o Mestre ensinando a Fé e o

Amor aos seus discípulos, não semeiam, nem ceifam, nem

ajuntam em celeiros e o vosso PAI Celestial as alimenta".


III


AS TÁBUAS DO SINAI


Ensinos escriturísticos


A justiça de Deus


Quando, no Sinai, explodiu o Verbo Divino e apareceram

as Tábuas da Lei com os Mandamentos do Decálogo, o

Senhor impôs ao homem, como um dos seus sagrados

preceitos, a proteção aos animais, aos quais devemos

proporcionar "o descanso no sétimo dia", conforme se nos

depara em Êxodo, XX, 10: "Não farás nenhuma obra no

sábado (7.° dia), nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem

teu servo, nem tua serva, NEM TUA BESTA, nem o teu

estrangeiro que está dentro de tuas portas". Quando o Senhor

anunciou o "dilúvio" a Noé, e ordenou Ihe a construção da


Arca, mandou-lhe também que recolhesse todos os animais,

como se verifica em Gênese, VII, 1 a 3.

E para que teria o Senhor criado os animais, se neles não

existisse uma alma Imortal, imperfeita mas perfectível,

dotada, portanto, dos atributos essenciais para a conquista da

felicidade na senda da Evolução!

Que deus é esse que cria seres que sentem e que amam,

em quem se verificam os mesmos cinco sentidos que

caracterizam o bípede humano, fá-los passar por uma série

longa de sofrimentos e por fim aniquila-os para sempre,

extingue-os na noite tenebrosa da morte!

Onde está a justiça, a equidade, a caridade, a sabedoria

do Criador, dando a vida a seres inferiores que, não obstante,

irradiam inteligência, demonstram perfectibilidade, externam

sentimentos afetivos; fisicamente mantêm-se como nos

mantemos; suscetíveis ao amor e ao ódio, sentem, sofrem,

choram, e não se lhes permite gozar o mérito do seu

trabalho, as recompensas dos seus gemidos, os resultados do

seu amor, a luz dos seus conhecimentos, a imortalidade da

sua vida!

Como poderemos nós, criaturas imperfeitas, amar de

todo o nosso coração, de toda a nossa alma um Deus que se

compraz no mal, que vive da injustiça, que não ama suas

criaturas?

Não, esse deus tirano, esse pai que cria filhos para os

devorar, não é o Deus Sábio, o Deus Bom em quem Jesus e o

Espiritismo nos mandam crer!


IV


ALVORADA ESPIRITUAL


Princípios espíritas


Graças ao Espiritismo, Revelação que Deus nos envia

pelos Espíritos Superiores, já começa o homem a viver não

só de pão, mas também dos conhecimentos que vai

adquirindo e com os quais se vai engrandecendo para a

conquista do Ideal.

A luta pela vida já não impede ao homem o estudo da

Criação; o brilho do ouro já não lhe ofusca as vistas com a

mesma intensidade, e a Natureza, com toda a sua

magnificência atrai-lhe a alma para o Bem e para o Belo, que

se desdobram por todo o infinito.

A vida, em luta de séculos contra a morte, começa a ver

o seu triunfo, e, daqui a pouco tempo, a morte, na

memorável frase do Doutor dos Gentios, será tragada na

vitória, marcando uma nova era de luz e de verdade para

toda a Humanidade.

A Filosofia dos Espíritos, que tem por ponto de apoio a

alma, com os fatos irrefragáveis por ela provocados e

constatados em todos os pontos do globo, não podia descurar

a solução do problema anímico, ansiosamente esperada pelos

homens livres de preconceito, e tão malfadada pelo espírito

de seita, esse terrível inimigo das grandes idéias que nos vem

libertar da ignorância.

Na verdade, o assunto é tão relevante, digno de tanta

consideração, que logo no primeiro livro, O Livro dos

Espíritos, as inteligências do Alto resolveram abordá-lo com

pena de mestre, deixando claro, patente, que: "os animais


não são simples máquinas; que, se o instinto domina a maior

parte deles, outros operam por vontade determinada, com

inteligência; que eles têm uma linguagem para se advertirem

e exprimirem as sensações que experimentam; que, embora

limitada, eles têm liberdade de ação; que a alma dos animais

sobrevive à morte do corpo; que ela segue uma lei

progressiva, como a alma humana; que o principio

inteligente de que são dotados, tiram-no, como o homem, do

elemento inteligente universal; finalmente, que esses animais

passarão um dia, do reino animal, para o reino hominal,

porque a alma do homem, no seu início, na sua infância, teve

por origem uma série de existências que precedem o período

que chamamos Humanidade".

No cap. XI, 592 a 610, o leitor encontrará explicado o

problema que, sem solução, atravessou tantas gerações!

É que da sua solução dependia o estudo claro e sucinto

do Porquê da Vida, também atirado aos báratros do mistério,

pelos cegos condutores de cegos de que falava Jesus no seu

ensino parabólico.


V


OS CEGOS DE ESPÍRITO


É preciso que se tenha conquistado uma caridade quase

ilimitada, para suportar com tranqüilidade o ataque desleal,

injusto e sistemático que contra o Espiritismo movem os

sacerdotes de Roma e do Protestantismo. E preciso que se

tenha pleno conhecimento dos preceitos cristãos que nos


aproximam de Jesus: caridade para com aqueles que nos

caluniam e injuriam; é preciso que se conheçam os

mandamentos: "Ama aos teus inimigos; faze o bem aos que

te odeiam; bendize aos que te maldizem; ora pelos que te

perseguem. e caluniam, para que sejas filho do nosso Pai que

está nos Céus que faz levantar o seu Sol sobre os bons e

maus e faz descer as suas chuvas sobre os justos e os

injustos".

De fato, é de admirar que haja criaturas humanas,

dotadas de inteligência, que repudiem uma moral, uma

filosofia tão pura como do Espiritismo!

Parece inacreditável que pessoas de grande

responsabilidade perante Deus, em vez de se dedicarem ao

estuda dessa admirável Doutrina, que vem ressuscitar o puro

Cristianismo, empreguem toda a sua vida a difamá-la, a

negá-la, a caluniá-la, como tem acontecido até aqui!

Essas mesmas pessoas, quando nada mais têm que dizer

contra a sublime filosofia que proclama, como nenhuma

outra, o Amor do Pai Celestial, com a mesma malevolência

que a agridem, perguntam: "Que descoberta nos trouxe o

Espiritismo, que novidade nos ensina ele, qual dos mistérios

insondáveis foi por ele resolvido?"

Ainda mesmo que os Ensinos dos Espíritos não tivessem

resolvido: a habitabilidade de outros planetas; a diversidade

de raças e condições, pela pluralidade das existências

corpóreas; os fenômenos psíquicos, pela ação dos Espíritos

encarnados e desencarnados, só este problema da "alma dos

animais", que ele veio resolver, que nenhuma ciência,

nenhuma religião nem sequer tentou estudar, só este seria o

bastante para distingui-lo como uma Revelação Divina, que

marca uma nova fase de progresso para o nosso planeta!


Infelizmente, os que têm olhos não vêem, os que tem

ouvidos não ouvem. Melhor seria que nascessem cegos e

surdos, pois assim é possível que em momentos de

clarividência e clariaudição compreendessem a Palavra de

Vida Eterna!


VI


EUNUCO BRANCO DE DIA - EUNUCO PRETO DE


NOITE


Na sua generalidade, o homem nasce, vive e morre sem

se conhecer e sem conhecer o que existe no mundo!

O ignorante volve os olhos para o que está em torno dele,

e pensa que no mundo todo nada mais existe além do que a

sua vista alcança; e se tem noticias de coisas novas, ou as vê

como miragem, esses fenômenos passam por sua alma como

sonha fugaz que na mesma hora se apaga.

O sábio entronizado na sua sabedoria, como o rei em

palácio, só trata da sua alta individualidade, para quem faz

convergir todas as atenções. E assim anda o mundo! Vêem

cegos, mudos, aleijados, esfarrapados; vêem videntes, ricos,

sábios bem ornados, pela mesma forma que vêem as estrelas

do céu e as areias do mar; não lhes estudam os efeitos, não

lhes procuram as causas!

Existem bugres, cafres boçais, hotentotes? Existem

homens que dificilmente se diferenciam dos gorilas?

Existem quadrúmanos que são quase manos? Que importa!


Não faltando o pão e o pagode; havendo pasto para as

paixões, campo para os vícios, é o que se quer!

"Saúde e dinheiro é o de que todos precisam"!

"A lei é comer, vestir, desfrutar a vida o mais possível;

tudo o que passa dai é banal, irrisório, indigno de cérebros

bem formados e de uma sociedade culta como a sociedade

atual".

E assim deixam os homens o cenário do mundo, sem

roupas, sem bagagem; entram na Eternidade gelados pelo

indiferentismo, apoucadas pela negação; e, entenebrecidos

pela ignorância se debatem contra a luz que os ofusca, até

que, exaustos, atraídos pela materialidade que constituía o

seu tesouro na Terra, voltam a habitar um novo e debilitado

corpo, em que o fogo depurador das paixões cega-lhes os

olhos, torce-lhes os membros para que, verdadeiros párias,

descarreguem sobre essa mesma saciedade que as aplaudia e

admirava, o peso dos seus sofrimentos, das suas misérias, da

sua indigência!

Aqueles que no mundo fecham os olhos à luz da

Verdade, e recusam o progresso que, semelhante a grande

nau, lhes proporciona viagem de instrução e lhes dá grande

soma de conhecimentos, só obterão a cura da sua cegueira no

mundo, onde novamente lhes será facultado ingresso para a

viagem providencial.

O homem precisa conhecer-se, saber quem é, donde veio

e para onde vai, para iniciar-se na Moral Cristã.

O estudo da Moral e da Sabedoria lembra a população de

uma ilha, que só pode chegar ao continente pelos meios

proporcionados pela navegação; enquanto os rejeita,

permanece no meio em que foi colocada.


VII


O BERÇO DA ALMA


Donde viria o homem?

Em que tempos nasceu, em que plagas, chorou pela

primeira vez?

Onde cresceu? Onde estudou? Onde aprendeu o que

sabe?

Vejo homens de fronte erguida para o alto, vejo outros

curvados em busca dos tesouros da Terra; vejo bons, vejo

maus; uns inteligentes, outros estúpidos; uns santos, outros


diabos; vejo sãos, vejo enfermos; bonitos e feios; pergunto-

lhes donde vieram, quem são e para onde vão, mas nenhum


deles me responde!

Mas eu sei que vieram de muito longe, porque trazem no

seu físico os traços indeléveis da animalidade e sua alma

reflete os instintos dos seres inferiores da criação!

Por mais que o homem se mascare, por mais polido que

se mostre, por mais superior que se diga, nunca enganará a

visão penetrante do Espírito, que sonda as profundezas da

Terra e esquadrinha os refolhos do coração!

Se estudarmos com atenção a alma humana, e lhe

remontarmos a origem, veremos o homem desaparecer da

Humanidade, e só poderemos encontrar novamente as suas

pegadas, deixando o reino hominal e entrando no reino

animal, infância espiritual de todos os sábios e ignorantes, de

todos os ricos e pobres, de todos os bons e maus, de todos os

grandes e pequenos que vagueiam neste mundo de Deus!


Todos nós pagamos o nosso tributo ao reino inferior para

chegarmos ao reino humano.

Ninguém adquire, sem trabalho e sem esforços, certa

soma de bem estar, por menor que seja, nem certo grau de

superioridade.

A lei inexorável do destino, que nos leva para estados

cada vez melhores, obriga-nos à luta, e a luta não se faz sem

dores e sem trabalhos, que nos garantem o mérito das nossas

ações.

"Será humilhação para os grandes gênios, o terem sido

fetos informes nas entranhas maternas?" - pergunta um

elevado Espírito numa mensagem que transmitiu para

colaboração de O Livro dos Espíritos.

E nós com ele respondemos: "Não, se alguma coisa deve

humilhar o homem é a sua inferioridade perante Deus, a sua

incapacidade para sondar a profundeza dos seus desígnios e

a sabedoria das leis que regem a harmonia do Universo".

A alma não podia deixar de ter o seu começo, o seu

nascimento, no reino animal, nos seres da criação, onde

passou por todas as transformações indispensáveis ao seu

progresso; onde evoluiu, chorando ali, trabalhando acolá,

brincando além, para após essas alternativas de tristezas, de

gemidos, de lutas e de alegrias, despontar na Humanidade,

onde mediante o seu progresso, mais esclarecida e dotada de

outros atributos prepara o glorioso surto de gênio para a

posse da Vida na Imortalidade!


VIII


REVENDO O PASSADO


Todas as almas têm a mesma origem


Não é sem um sadio orgulho que admiro as florestas por

onde passei, as lutas que enfrentei, as lágrimas que derramei!

Não é sem pesar que conto o tempo que perdi na inércia,

abrasado pelo fogo das paixões más; não é sem gratidão que

me elevo ao Senhor, pedindo-lhe prêmios para aqueles que

foram os guias da minha alma, os mestres da minha vida, o

lenitivo nas minhas aflições!

Cada corpo por que passei, como as contas de um colar

presas pelo mesmo fio, entoa o cântico eterno com que louvo

o meu Criador, pelo amparo com que me cercou, pela vida

que me concedeu!

"Todas as almas têm a mesma origem, e são destinadas

ao mesmo fim; a todos o Supremo Senhor proporciona os

mesmos meios de progresso, a mesma luz, o mesmo Amor".

O cão é sempre cão, como o asno é sempre asno, mas o

Espírito que anima aqueles corpos vêm de longe e destina-se

às esferas elevadas onde reina a felicidade; tudo tem um

alvo, e acreditar que Deus criou seres inteligentes sem

futuro, seria blasfemar contra a sua bondade e justiça!


Estudai a inteligência e a reflexão do cão, o seu amor-

próprio, a sua linguagem, o amor pelo seu dono, os seus atos


de verdadeiro heroísmo, e negai, se fordes capazes, que

aquele corpo inferior encerra um Espírito, uma alma que

pensa, que sente, que quer e que não quer, que ama!

Percorrei toda a escala zoológica, penetrai com espírito

investigador todos os animais que formam os seres inferiores

da Criação e vereis ao lado do instinto que os movimenta, a


inteligência desabrochando como prêmio dos seus

sofrimentos!

A Revelação Espírita soluciona o problema da alma do

animal, ao mesmo tempo que esclarece a Gênese da Alma.

Para estes estudos que vamos fazer, muito nos valeu a

interessante obra Evolução Anímica, de Gabriel Delanne,

obra que recomendamos à atenção dos leitores e que está de

pleno acordo com o O Livro dos Espíritos e A Gênese, de

Allan Kardec, extraordinários missionários que

enriqueceram a Ciência com livros de real valor, não só para

resolver a questão de que tratamos, como também para dar a

conhecer a causa dos fenômenos em geral, da memória, do

inconsciente psíquico, do futuro das almas.

Felizes os que aproveitaram o seu tempo, aproximando

os lábios sequiosos da taça da Revelação e beberem a água

da sabedoria, para se esclarecerem e poderem ver o passado;

apoderarem-se do presente e vislumbrarem o futuro que lhes

acena com as magnificências da Vida Imortal!


IX


CORPOS HUMANOS E ANIMAIS


Que diferença existe entre o corpo dos animais e o dos

homens?

A forma exterior. Mas a forma exterior, mesmo entre os

homens, apresenta enorme diversidade.


Os Docos, de Cafa e Gurage (Abissínia), diz o

missionário Krapf, têm traços físicos que denotam uma

grande inferioridade.

Mesmo entre os homens civilizados a diferença de

corpos é patente: uns pretos, outros brancos; uns peludos,

outros sem pelos!

Nos homens como nos animais, notam-se os mesmos

órgãos, as mesmas funções e modos de nutrição, respiração,

secreção, reprodução. Todos nascem, vivem e morrem nas

mesmas condições.

Não há na carne do homem, no seu sangue, nos seus

ossos, um átomo diferente daqueles que se acham nos corpos

dos animais; todos, ao morrerem restituem à Terra o

oxigênio, o hidrogênio, o carbono, o azoto que se achavam

combinados para os formar.

Ninguém seria capaz de negar que os Quitches e os

Lataucas que habitam a África pertencem ao reino Nominal.

Entretanto o explorador Baker afirma que eles se parecem

mais com macacos que com homens.

Darwin, depois de ter contemplado os Fuegianos,

escreveu: "É difícil crer que são nossos semelhantes e

habitam o mesmo planeta".

Os Vedas, do Ceilão, apresentam tipos verdadeiramente

bestiais; a conformação do seu crânio é como a do macaco;

seu rosto é saliente e alongado como um focinho: seus dentes

são projetados para diante, etc.

Por que, pois; concedem alma ao homem e a negam aos

animais?!

Naturalmente, aos chefes das religiões estacionárias não

convém abordar assuntos desta natureza, que reclamam

completa modificação da fé prescrita pelos papas e concílios,


fé arbitrária que só sabe proclamar a existência de Deus para

fazer do Supremo Criador um verdugo que se compraz no

mal, que vive inconscientemente sem saber o que faz e sem

fazer o que é de seu dever!

Mas, graças às luzes com que o Espiritismo nos vem

orientando, o Deus de Bondade e de Sabedoria anunciado

por Jesus não tem relação alguma com o "deus padre", esse

fantasma execrando inventado pelo espírito sectário, por esse

satanás que se tem transformado em anjo de luz e deixa, por

onde passa, os rastos de um fogo destruidor, de uma "luz"

que queima e arde perpetuamente nas almas vis, feitas de

orgulho e de egoísmo.

Um período de trevas se extingue; uma era de Luz saúda

a Terra, para que os homens despertem e compreendam que

é chegado o sétimo dia em que Deus deve descansar nas

nossas consciências.


X


CONHECE-TE A TI MESMO - "SURGE ET


AMBULA"


Homens de boa vontade! Deixai que os mortos cuidem

de seus mortos!

Levantai-vos e caminhai, vós todos que desejais a

felicidade; acendei as vossas candeias e enchei-as de óleo,

para que as trevas não vedem os vossos passos! Leitor, que

dedicais a vossa atenção a estas singelas letras, não vos


desdenhais ao lado da mulher de Ló, porque a fogo não

poupará a nova Sodoma!

Fugi dos altares onde se cultiva a idolatria! Fugi da

ignorância onde impera o fanatismo! Caminhai em busca do

ideal, do ideal Sagrado da Verdade!

O homem precisa saber donde veio, qual é a sua origem,

onde e quando nasceu.

A lenda de Adão e Eva já fez o seu tempo.

Hoje todos sabemos que os corpos não reproduzem mais

que corpos; que os pais carnais não são pais dos Espíritos!

A diversidade de raças, de condições físicas e morais é

uma flagrante contradição com o dogma que nos faz

oriundos de um único casal.

A Ciência, em seus fatos inegáveis, tem protestado

solenemente contra as concepções absurdas, ilógicas,

inconseqüentes da descendência de todos os homens do casal

que habitou o Paraíso.

O véu do mistério que nos separa da Verdade vai cair, e é

preciso que caia, ainda que para tal nos seja preciso subir ao

Capitólio, para, de um golpe, cortarmos o fio, já fino como o

de uma teia de aranha, que mal o pode suster!

Fugi, homens de boa vontade, para que o crepe negro não

vos envolva!

Deixai que os zoilos, os papalvos, os fátuos de saber,

sejam cara ele cobertos, pois está escrito: "Ao que não tiver,

até aquilo que pensa ter, ser-lhe-á tirado".

Não desperdiceis o vosso precioso tempo incensando os

dogmas dessas igrejas, jazidas de cadáveres embalsamados!

E tempo de vos conhecerdes e preparardes o vosso

futuro.

Surge et ambula!


XI


CIÊNCIA SEM RELIGIÃO

Religião sem sabedoria


Onde está o sábio, onde o padre, que não nos esclarecem

sobre o nosso passado?

Onde a sabedoria da "ciência", e a luz da "religião" que

não ilumina os primórdios do meu Espírito, o nascimento da

minha alma?

Que direito de censores poderão ter os sábios, que

atribuição de "curas das almas", poderão ter os sacerdotes, se

eles são incapazes de desvendar o meu passado, de iluminar

o meu futuro?!

Será que a minha existência espiritual está limitada à

data da minha existência corporal?

Será que a minha alma foi gerada no ventre materno?

Como se explica, neste caso, a inteligência embrionária

de velhos que poderiam ser meus pais, e o desenvolvimento

intelectual, superior ao meu, de moços que poderiam ser

meus filhos?

Como explicar a moralidade admirável de moços em

contraposição com as paixões vis de certos velhos?

Não é a idade que faz a inteligência e a moralidade.

Que será que as gera?

A influência do meio e da educação?


Mas, vemos homens, e as páginas da História deles

fazem menção, cujas façanhas ultrapassam a ferocidade dos

próprios animais, e, entretanto, foram criados em meio de

santidade, privilegiados pela instrução!

De outro lado vemos santos que vicejam entre uma raça

maldita e degradada, como um ramo de açucenas entre

cardos!

Serão, porventura, a inteligência e a moralidade, o

produto do meio e da educação? Vejamos agora se elas são

resultantes, propriedades da matéria; se elas são emanações

do corpo humano pelo funcionamento do cérebro, dos

nervos, do coração, assim como a urina e a bílis são

secreções dos rins e do fígado!

Mas, então, a alma extingue-se com o corpo, assim como

não existia antes do corpo existir: é um vapor que desaparece

reduzido à cinza o último carvão, é uma chama que se apaga

à última gota do combustível, é uma claridade que

desaparece ao apagar-se a última torcida?!

Se assim pensarmos, que são as Letras, as Artes, as

Ciências, as religiões?

Se prevalece a química dos corpos, há de haver

forçosamente uma matéria, um líquido, uma droga para

elaboração do fluido da caridade e da sabedoria!

Quais é esse elemento? Como encontrá-lo? Hoje, que

tudo se mede e se pesa, até os mais longínquos astros; hoje,

que se conhece a natureza dos fluidos pela cor, pelo perfume,

visto que o pensamento se corporifica, como está

demonstrado pela fotografia; como, então, não determinam a

causa material, o elemento que produz a caridade e a

sabedoria?!


Não, nem os sábios, nem os padres serão capazes de

resolver o intrincado problema da alma!

As religiões dos padres e a sabedoria dos sábios estão

encerradas nas igrejas e nas academias, e das igrejas e

academias é que têm saído as mais poderosas forças para

impedir o gênio inovador na sua missão progressista.

Não evocamos os padres e os sábios para alcançar deles,

ou por eles, o que quer que seja; nosso intuito foi demonstrar

a falência dessas instituições, cuja única nobreza tem sido

enobrecer os seus "caseiros", atraindo para eles a admiração

do mundo.

Não apelamos para os padres nem para os acadêmicos

esperando que eles nos dêem solução do problema, porque

eles próprios se desconhecem, não sabem a sua origem, nem

o futuro que os espera!

Não invocamos, pois, os mortos para saber dos vivos.

Não é nos templos, nem nas academias, que

encontraremos o registro da nossa individualidade, mas, sim,

na escala inferior dos seres, no reino animal, de que o nosso

corpo carnal é o mais característico exemplar.

Poderá alguém negar esta verdade, que se evidencia aos

olhos de todos os que querem ver?

Examine o leitor, com espírito perscrutador, o reino

animal e o reino hominal, e verá que não encontra entre estes

reinos limites distintamente traçados.

No extremo do reino animal com o reino vegetal, estão

os zoófitos ou animais plantas, nome que indica pertencerem

eles a ambos os reinos, servindo-lhes de traço de união. E no

extremo do reino animal com o reino hominal encontramos o

orangotango, o chipanzé, o gorila, que a tal ponto


apresentam as maneiras do homem que, por muito tempo,

foram designados sob o nome de homens dos bosques.

Como o homem, eles andam com os pés, servem-se de

bastões, constroem cabanas, e com as mãos levam os

alimentos à boca.

Comparai esses animais superiores com os homens

inferiores, como os Quitches e os Latoucas, com os

Fuegianos, com os Vedas do Ceilão, com os Docos de Cafa e

de Gurage, por nós lembrados em folhas transatas, e dizei se

o reino hominal não está preso pela mesma cadeia ao reino

animal, assim como este último ao reino vegetal?

A Ciência da Terra, é a Ciência sem Religião, assim

como as religiões sacerdotais são sem sabedoria; tanto uma

como outra vão desaparecer para dar lugar à Verdadeira

Ciência, que vem de Deus!


XII


COMBATE AO PRECONCEITO


Exame perfuntório da escala inferior


A mais grandiosa tarefa que o homem pode

desempenhar, e por isso mesmo a mais combatida, é a que

consiste em destruir erros enraizados na alma humana

durante séculos de obscurantismo.

O preconceito sempre se levanta hirsuto contra aqueles

que vêm desbastar o terreno inculto da ignorância, que

guarda os despojos das civilizações extintas.


Já vimos que não há lacunas entre o reino animal e o

hominal.

Entretanto, esclareçamos melhor os nossos estudos.

O zoófito tem a aparência da planta; como planta, está

preso ao solo; como animal, a vida nele e mais acentuada,

pois tira a nutrição do meio ambiente.

Imediatamente após os zoófitos aparece a inumerável

variedade de pólipos de corpos gelatinosos, sem órgãos bem

distintos e que só diferem das plantas pela locomoção.

Depois, vêm, na ordem do desenvolvimento dos órgãos,

da atividade vital e do instinto: os helmintos ou vermes

intestinais; os moluscos, animais carnudos, sem ossos, dos

quais uns são nus como as lesmas, as polpas, os polvos; e

outros, guarnecidos de conchas como os caracóis, as ostras,

os crustáceos, cuja pele é revestida de crosta dura; como os

camarões, as lagostas.

Logo após vemos os insetos, nos quais a vida tem uma

atividade prodigiosa: neles, o instinto laborioso se manifesta,

como acontece com a formiga, a aranha, a abelha.

Estudai esses animais e vereis de quanto são capazes!

Lede á Vida das Abelhas, de Maeterlinck, e negai, se

tiverdes coragem, a inteligência e o raciocínio a estes

pequenos seres.

Na escala inferior, alguns passam por metamorfoses,

como a lagarta, que se transforma em elegante borboleta!

Depois vem a ordem dos vertebrados, animais de

esqueleto ósseo, compreendendo os peixes, os répteis, os

pássaros, e, por fim, os mamíferos, cuja organização é mais

completa.


Entre uma e outra ordem não existe absolutamente

solução de continuidade: e sem transição brusca passamos

dos zoófitos aos animais vertebrados.

Depois de uma nítida pesquisa na escala inferior,

compreendemos que os animais de organização complexa

não são mais do que uma transformação, um

desenvolvimento gradual da espécie imediatamente inferior.

Queiram ou não queiram os pregoeiros do pecado

original, quer riam ou não os entendidos, a verdade aí está,

aos olhos de todos os que quiserem vê-la!


XIII


A INTELIGÊNCIA E O INSTINTO - O RACIOCÍNIO


E A MEMÓRIA


Evolução do espírito


Que é a inteligência? Que é o instinto? Que é o

raciocínio? Que é a memória?

Inteligência é a faculdade de entender, de compreender,

de conhecer.

Instinto é o impulso ou estimulo interior e involuntário,

que leva os homens e os animais a executarem atos

inconscientes.

Raciocínio é a operação pela qual chegamos a uma

conclusão ajuizada.

Memória é á faculdade de conservar a lembrança do

passado ou de alguma coisa ausente.


Estas definições querem dizer que a inteligência, o

instinto, o raciocínio e a memória não são palavras vãs, mas

têm uma significação, designam alguma coisa, e essa alguma

coisa que cada uma delas exprime, é que deve despertar a

nossa mente, quando pronunciamos qualquer dessas

palavras.

Por exemplo: quando dizemos que tal ou qual animal tem

inteligência, afirmamos que ele entende, compreende,

conhece, pois verificamos-lhe a faculdade inteligente em

ação.

Ao surpreendermos no mesmo animal uma conclusão

ajuizada, uma ação que resultou de uma operação por ele

desenvolvida, dizemos que o animal tem raciocínio, porque

pensou para executar aquele movimento. A inteligência, ou

por outra, os atos inteligentes, requerem meditação,

raciocínio.

O mesmo não se dá com as ações instintivas, que são

impulsivas, involuntárias, inconscientes.

Outro fenômeno interessante é a memória, cuja faculdade

é também peculiar aos animais, como verificaremos no

decurso de nossos estudos.


Todos esses atributos do Espírito humano, encontramo-

los também nos animais, embora menos desenvolvidos, o


que vem confirmar nossa tese, segundo a qual o animal tem

uma alma imortal, perfectível, e, não havendo solução de

continuidade entre o reino animal e o reino hominal, claro

está que a alma aperfeiçoada do animal, depois de passar o

ponto de junção que une os dois reinos, começa novo

tirocínio na Humanidade. Donde ainda se conclui que o

homem também atravessou a escala zoológica para chegar a

ser homem.


Assim fica explicada, a contento, a diversidade de raças,

de intelectualidade; o homem fica conhecendo o seu

passado, vê a estrada que percorreu; admira o berço em que

nasceu, compreende que os dotes que possui foram

conquistados pelo trabalho, pelo sofrimento que conduz ao

estudo, que abre a inteligência, exalta o raciocínio, para bem

constituir a nossa individualidade e guiá-la para horizontes

mais dilatados.

Como se vê, esta doutrina proclama a Justiça Divina, ao

passo que a doutrina do pecado original deprime os atributos

divinos.


XIV


O TRANSFORMISMO DE LAMARCK, DARWIN E


OUTROS


O Monismo de Haeckel em face do Espiritismo


Os estudos de Lamarck, Darwin, J. Muller, Huxley,

Haeckel e outros no terreno da matéria, não deixaram de

concorrer para o desbravamento da seara, esterilizada pelas

doutrinas dogmáticas.

Haeckel, em sua obra Enigmas do Universo, tentou

também o estudo da alma, mas com espírito tão

preconcebido que só soube procurá-la no lado material dos

seres; só a encarou pelo lado fisiológico, considerando-a

precipitadamente um produto da matéria: um fenômeno da

Natureza.


Para Haeckel, o mundo espiritual era uma fantasia

poética; por isso, não admitia o livre-arbítrio, etc.

Mas, sob o ponto de vista fisiológico, Haeckel é grande,

porque legou à Humanidade importantes lições que

forçosamente conduzirão o homem à Psicologia Moderna,

como aconteceu com o Professor César Lombroso,

convertido ao Espiritismo, que soube encarar esta doutrina

sob o ponto de vista monista, infundindo na obra de Haeckel

o espírito vivificante.

Sob o ponto de vista filosófico, em face do testemunho

que os fatos espíritas apresentam, a obra de Haeckel,

considerada materialmente, não vale um caracol: é

dogmática, intolerável, inverossímil.

De fato, seu transformismo com abstração do Espírito de

tudo faz obra do acaso, e todos sabem que acaso é uma

palavra que exprime ignorância pela mesma forma que a

palavra mistério designa coisa que se não compreende.

Entretanto, os trabalhos de Haeckel em face do

Espiritismo, que proclama a Evolução, tem real valor.

O acaso desaparece para os espíritas e em lugar deste

aparece o Espírito em evolução contínua.

O mesmo acontece no lado religioso: com o

desaparecimento do sobrenatural e do mistério a alma

sobressai como fator de fenômenos até aqui inexplicados e

inexplicáveis para as Igrejas.

Com o estudo, com o livre-exame, com a

experimentação, tudo se compreende; a Verdade esplende,

demonstrando-nos a imortalidade da alma.


XV


A LEI DA EVOLUÇÃO ANÍMICA

É o orgulho dos titulares


A Lei da Evolução Anímica é a única que explica a

origem da alma, e toda essa diversidade de caracteres que

existem no mundo.

Entretanto, ela sofre tão grande repúdio por parte dos

sábios, dos titulares das academias, que é para admirar o

progresso que, não obstante, tem feito nos espíritos de boa

vontade.

Mas qual será o motivo desse repúdio, desses ataques à

Verdade? E o orgulho, é o personalismo desmedido, a

idolatria que tanto tem deprimido a raça humana!

De fato, haverá maior humilhação para um papa, que se

diz representante de Deus na Terra, o ficar ele sabendo, com

todos os seus prosélitos, que seu Espírito já fez uma longa

travessia pela escala zoológica, já animou o corpo de um

suíno e o de um asno?

Haverá maior blasfêmia, pecado mais digno do Inferno

Eterno, do que publicar tal coisa, ou mesmo pensar que isso

é uma verdade?

O príncipe quereria aparecer diante dos seus súditos, não

só com as honras que tem, mas também mostrando o que

foi? Poderá conformar-se o conde, o barão, o doutor, o

grande do mundo com a lembrança do tempo em que foi

pequeno, ignorante, miserável? Ele que aparenta grandeza,

sabedoria, virtude que não possui, suportará tal humilhação?


Se o mundo costuma conhecer o monge pelo hábito; se é

o hábito que aparenta tudo, com que direito vamos nós tirar o

hábito aos "monges" para estudar a sua natureza, perscrutar a

sua alma, sondar o seu coração, e, ainda mais:

transportarmo-nos ao seu passado, que ele renega, para

destruir-lhe o altar onde, hirto, se adora e é adorado pelos

seus bajuladores?!

E claro que, resolvido o problema da alma animal, sua

imortalidade, sua ascensão ao reino hominal, sendo a Lei

Divina, para todos eterna, irrevogável, os coroados que se

fizeram cabeças do mundo, os pais da pátria, que por ela dão

sua alma, seu corpo e seu sangue, os imortais das academias,

ficariam todos horrorizados quando, num exame

retrospectivo de um passado remoto, suas personalidades

aparecessem como rechonchudos suínos e orelhudos asnos!

Não convém despertar humilhações. Essa gente quer

passar como privilegiada de Deus, até no nascimento!

Ao "grande", as pequenas coisas envergonham,

rebaixam, oprimem: mas, quando eles se mostrarem ante o

Senhor, não serão os corpos humildes que eles negaram ter

atravessado que rebaixarão as suas almas, mas, sim, as obras

más que praticaram, o mau uso que fizeram do seu dinheiro,

do seu prestígio, da inteligência que aplicaram em proveito

de gozos terrenos e das paixões da carne!


XVI


EXEMPLO DA INTELIGÊNCIA DOS ANIMAIS


O Dr. Garner e os macacos


O Gorila do Dr. Hartmann e outros


O ilustrado autor de A Evolução Anímica, Dr. Gabriel

Dellanne, reproduz no seu livro, que já recomendamos à

atenção dos leitores, uma bela coletânea de fatos bem

autenticados, que demonstram sobejamente a inteligência

dos animais. Mas, quando essa inteligência é cultivada,

quando o animal fica sujeito a uma boa educação, então é

que bem ss pode observar que a alma dos nossos irmãos

inferiores, não é tão atrasada como se pensa!

Vamos oferecer aos leitores alguns casos verificados

com animais educados.

Está claro que a educação só produz resultado onde há

inteligência, pois, sendo o instinto um estímulo inferior,

impulsivo, que só produz atos inconscientes, não é suscetível

de educação, que depende de raciocínio e de compreensão.

O Dr. Garner, que começou em 1906 a fazer um estudo

profundo nas florestas do Congo, pois é partidário das

teorias transformistas, pensa que os antropóides nos devem

compreender e são suscetíveis de civilização. De fato,

segundo afirma, tirou ótimo resultado das pesquisas e do seu

trabalho.

O Dr. Hartmann, por sua vez, conseguiu capturar um

gorila, que levou para Berlim, com o fim de estudar a

inteligência desse animal.

Diz o Dr. Hartmann, a respeito do seu gorila:

"Ele não possuía instinto mau. Tinha o defeito de. ser

muito teimoso; empregava vários sons para traduzir as suas


idéias, ora em tom de súplica, ora de medo. Para mostrar seu

contentamento batia as mãos e dava cambalhotas".

Por fim, o ilustre experimentador fez várias observações

e relata as provas de inteligência do macaco que usou em

suas pesquisas.

Não há muito tempo, a imprensa da Europa e do nosso

país muito se ocupou do Cônsul, um Chipanzé que percorreu

a Europa; fumava como um homem e assistiu a, vários

banquetes em Paris, sentando-se em cadeiras com

compostura de um fidalgo.

Outro chipanzé muito célebre foi o Empereur, aplaudido

no teatro Olimpiá de Paris: preparava a seu chá, comia com

faca e garfo, passeava de bicicleta!

Um outro, de nome Esaú, foi muito célebre em Londres,

onde o chamavam o gentleman chipanzé. Andava sempre

vestido segundo a última moda, trajava smoking, comia à

mesa com toda correção; possuía conta corrente no Banco de

Londres, e, diante de seus espectadores, assinava cheques!

Esse macaco morreu de uma pneumonia, contraída ao

sair do teatro, numa noite fria e úmida. Tinha quatro anos; e

o seu proprietário só se consolou com a sua morte pela

perspectiva de receber o seguro que ele fizera da vida de

Esaú, e que atingia a milhares de libras esterlinas.


XVII


LIGEIRA CRÍTICA DA PSICOLOGIA HUMANA


Os cães nos Campos de Marte


É preciso estudar a fundo a Psicologia Humana, para

distinguir os homens dos "homens".

Há homens que pensam e pensara bem, procurando nos

fenômenos as causas produtoras.

Outros "homens" há, entretanto, que só vêem o exterior,

e não querem ver mais que o exterior. A incúria destes

últimos chega ao ponto de fabricar "deuses" a quem

incensam e diante dos quais se curvam, fazendo-lhes

rogativas.

A alma dessa gente está tão ligada à matéria, ao corpo

carnal, que eles chegam a confundir-se com esse corpo; e

mesmo depois de passados para a outra vida, porque se vêem

com um corpo de aparência igual ao corpo de carne que

tinham, não se crêem "mortos", isto é, desencarnados, e tudo

fazem por continuarem na sua vida habitual, como se nela

estivessem!

São "cegos do Espírito", como os há do corpo, por isso

não vêem o Espírito que vivifica! São inteligências que o

peso dos dogmas obstruiu. Dai a necessidade de reproduzir

em letras redondas; à guisa de parábola ou ensino alegórico,

os fatos que se verificam no mundo e se reproduzem em

maior ou menor escala em toda a parte.

Dissemos algo sobre a inteligência dos macacos.

Vamos tratar da inteligência dos cães, começando pelos

"cães de guerra".

A Guerra Mundial de 1914/18, que fez perto de 30

milhões de vitimas, não deixou de aproveitar a muitos que se

foram, e a outros que aqui ficaram.

No número destes incluem-se os cães, que prestaram

serviços relevantes, não só nas linhas de fogo, mas também e


principalmente na Cruz Vermelha, onde ocuparam postos

salientes para a proteção dos feridos.

Ao fim da guerra, só em Paris foram desmobilizados

quatorze mil cães (14.000!), muitos deles condecorados por

atos de bravura, de dedicação, de fidelidade, de abnegação!

Em vista dos fatos observados, não há dúvida que o cão

possui uma alma; sendo inteligente; essa inteligência não

pode deixar de ser atributo do Espírito; inteligência que

chega a conceber a noção do bem e do mal, a ter

conhecimento do dever, a possuir até uma moral admirável,

que poderia servir de exemplo a muitos homens!

A imprensa fez ampla referência à influência dos cães

nos Campos de Marte, de maneira que pedimos aos leitores

nos dispensem a narração desses fatos por demais

conhecidos, para tratarmos de outros menos conhecidos.


XVIII


O CÃO DE AUBRY


Um fato histórico narrado pelo Beneditino Bernardo de


Montfaucon


A primeira estória que nos acode à lembrança quando

evocamos o amor, a inteligência e a fidelidade do cão, é

aquela extraída pelo beneditino Bernardo de Montfaucon, do

Teatro de Honra e de Cavalaria de Colombiere.

"Na corte do Rei Carlos V, da França, havia um fidalgo

de nome Macaire, que muito invejava um dos seus


companheiros, Aubry de Montdidier, favorecido pelo rei.

Macaire decidiu assassinar Aubry.

Um dia esperou-o na floresta de Bondy e matou-o.

Ninguém testemunhou o crime, salvo o cão de Aubry,

um grande galgo.

O assassino enterrou a vítima no mesmo lugar em que ela

caíra, e o cão durante muitos dias dali não se afastou.

Finalmente, impelido pela fome, partiu em direção a

Paris, e foi pedir comida aos amigos de Montdidier, voltando

em seguida para o ponto em que jazia o corpo do seu dono.

Muitas vezes fez o mesmo trajeto.

Finalmente, intrigados por seus gemidos, os amigos de

Aubry tiveram a curiosidade de o seguir; e, na floresta,

removendo a terra, acharam o cadáver.

Alguns dias após, o galgo, que fora recolhido por um

parente do assassinado, avistou Macaire, num grupo de

fidalgos e sem hesitação saltou-lhe ao pescoço.

O rei, que a morte do seu favorito havia entristecido, foi

informado e ordenou que a experiência se repetisse na sua

presença.

Foi trazido o cão, em seguida entrou Macaire,

dissimulando-se entre numerosos cortesãos.

O animal não hesitou um instante: correu a ele e atacou-o

com violência.

Um inquérito determinou certas provas contra aquele

fidalgo, que continuou, no entanto, a afirmar a sua inocência.

- Vamos, resolveu o rei, apelar para o julgamento de

Deus.

Foram conduzidos para a ilha de São Luís, o cão e

Macaire. Começou o duelo:


Num campo fechado entrou Macaire, armado de um

bastão. O galgo tinha por defesa um tonel aberto nas duas

extremidades, onde ele podia refugiar-se.

O combate foi curto. O animal, correndo em torno do seu

adversário, evitava o bastão, quando, de súbito, saltou à

garganta do fidalgo. O homem fez sinal para que o

libertassem, pois diria a verdade.

Conduzido à presença de Carlos V, confessou o crime,

sendo, em seguida, enforcado".

Em um saião do Castelo de Montargis, um pintor

reproduziu a cena desse original duelo. O cão galgo de

Montdidier tornou-se célebre na História, mais célebre talvez

que o próprio Montdidier, miseravelmente assassinado por

um bandido vestido de casaca e que comia à mesa do rei.

Se naquele corpo de cão, não existisse um Espírito, uma

alma racional e sentimental, ele não poderia externar os

grandes sentimentos que eternizaram seus fetos.


XIX


O CÃO DE MANHEIM


Há poucos anos os sábios de todas as partes foram

atraídos pelas extraordinárias faculdades dos "cavalos de

Elberferd" e do "cão de Manheim", cujos fenômenos

interessantíssimos concorreram, com exuberância para o

esclarecimento da Psicologia Moderna, quer na esfera

humana, quer na esfera animal.


Essas provas, facultadas às maiores sumidades do Velho

Mundo, afirmam a existência da alma no animal, alma que

não pode deixar de ser imortal, e, portanto, perfectível.

Concorreram para o desenvolvimento da Psicologia

Humana, porque o homem já não pode mais ser considerado

um ser à parte da Criação, mas está estreitamente ligado,

segundo os efeitos verificados com tais animais, aos seres

inferiores, por onde passam todas as almas, porque,

dissemos, todas têm a mesma origem.

Toda a imprensa brasileira e estrangeira tratou dos casos

acima referidos: os dos "cavalos de Elberfeld" e o do "cão de

Manheim". As revistas salientaram o fato com todo o

carinho.

Os Annales des Sciences Psychiques, a Revue des

Sciences, finalmente, todos, publicaram

circunstanciadamente as experiências dos sábios com tais

animais, ilustrando suas páginas com provas fotográficas. A

maior parte dos estudiosos conhecem esses fatos.

Rolf é o nome do cão, que o Dr. Mockel, advogado em

Manheim, tem em sua companhia, e que chega a resolver

problemas aritméticos, como todos os experimentadores

verificaram.

Dentre os numerosos sábios que têm ido a Manheim,

entre os primeiros Investigadores contam-se: o Dr. Paul

Sarasin, de Basiléia; os Professores H. D. Liégier e H.

Kaemer, de Stuttgart; o Professor Claparéde, de Genebra, e o

Dr. W. Mackenzie, de Gênova. Todos eles conversaram com

Rolf e dele obtiveram respostas para as suas perguntas!

Rolf transmite o seu pensamento por pancadas

correspondentes às letras do alfabeto.


Em 2 de outubro de 1913, o Dr. Volhard esteve em casa

do Dr. Mockel, onde conversou com Rolf, saindo

extremamente impressionado pelo que ouvira e vira. O Dr.

Volhard, entre outras coisas, perguntou a Rolf do que ele

gostava mais no mundo.

Rolf respondeu: "bilder sn Jela (bilder sehen, Jela); quer

dizer: “ver estampas Jela”. Jela é uma cadela da mesma raça,

sua companheira, que, desde algum tempo, e com resultados

satisfatórios, é educada pelo mesmo método; bem assim o

gatinho Daisy, o qual também resolve alguns problemas

aritméticos muito simples e responde na linguagem

tiptológica de Rolf, a algumas perguntas fáceis.

Se o instinto é capaz de produzir fenômenos inteligentes

dessa natureza, vamos concordar que tudo é obra do instinto,

tanto nos animais como nos homens.

Mas assim não é, nem pode ser; a causa de tudo é a alma,

que é dotada de inteligência!


XX


“ZOU”, O CÃO DA SENHORA BORDERIEUX


Os últimos tempos que atravessamos são cheios de

fenômenos interessantes.

No momento em que escrevemos, a imprensa dalém e

daquém mar trata de um "cão que fala..." Esse cão pertence à

Sra Borderieux, diretora da Revista Psíquica.

II Mensaggero, de Roma, assim publica a interessante

noticia:


"Depois do cavalo de Eberfeld, que contava, a da foca

cantante, do Varieté parisiense, temos agora o caso

extraordinário de Zou, o gracioso cãozinho da Senhora

Borderieux, o qual, servindo-se de um alfabeto especial,

análogo ao dos espíritas, está em condições de manter

regular conversação com o homem.

Zou, para se fazer compreender, bate com as patinhas

numa tábua provida de números, que representam letras e

controi, assim, de modo assombroso, a palavras!

Zou lê nó pensamento de sua dona como num livro

aberto e fica todo inquieto quando não lhe pode dar uma

resposta.

Neste caso ele movimenta o pé de tal forma que diz:

"Não sei".

Um destes dias um jornalista parisiense teve a honra de

entrevistar o "cão que fala".

Introduzido na casa de Mme. de Borderieux, o jornalista

foi logo levado à presença de Zou, que estava cochilando na

sua bela poltrona.

Prático já do processo vocabular de Zou, o enviado do

jornal mostrou-lhe diversos números escritos: 9, 17 e 25 -

números que o cachorro reconheceu imediatamente,

repetindo-os no seu alfabeto!

Depois, Zou demonstrou que entendia de operações

aritméticas. Disse num instante que 7 x 4 = 28; que 9 - 6 = 3;

que 9 + 9 = 18; que 5 x 7 = 35. A questão mais difícil para

ele foi a divisão 24 / 6, que afinal resolveu.

- Como te chamas? perguntou o jornalista.

E Zou apontou os números 25 mais 15 mais 21, que

significam as letras z, o, u!


Ao escrever as suas impressões, o jornalista declarou que

esse cão entende-se com homem admiravelmente e que tem

mais talento que muitos colegiais!"


XXI


UMA LEOA DO SAARA


Não há quem possa negar a inteligência dos animais,

ainda mesmo os muito inferiores, bem como os seus

sentimentos afetivos, de piedade, que poderiam servir de

exemplo a muitos homens que ostentam sabedoria e

grandezas, mas que, na frase evangélica, são semelhantes aos

sepulcros branqueados que são belos em sua parte exterior,

mas no interior só contém ossos e podridões.

O pesquisador consciencioso, que tiver suas vistas

voltadas para os animais, que estudar a sua psicologia,

admirar o seu trabalho, os seus sentimentos do bem e do mal,

o seu espírito de sacrifício, não deixará de notar que todos os

animais possuem inteligência.

O leitor certamente conhece a fama do feroz leão, esse

rei das selvas tão temido dos homens e do todos os outros

animais. Pois, o leão não é tão perverso, tão mau, tão

irracional, como lhe corre a fama por este mundo afora.

Segundo parece, ele não é de todo estranho aos rasgos,

aos surtos da bondade com que Deus regenera os corações!

Vamos narrar um fato memorável, noticiado por toda a

imprensa parisiense, por ocasião de uma grande feira que

alvoroçou a capital francesa.


"Lançaram na jaula de uma leoa do Saara, um cachorro,

que, cheio de terror, foi esconder-se num canto, tremulo e

choroso.

A leoa levantou-se lentamente e aproximou-se do pobre

animal, que a mirou com olhar suplicante.

Então a fera deitou-se tranqüilamente sem fazer mal ao

cão.

Chegou o momento da distribuição da ração às feras, e a

leoa foi aquinhoada, mas não esqueceu de deixar parte de

seu repasto ao companheiro de presídio!

Alguns dias depois, o cão comia de camaradagem com

sua protetora!

Afinal, chegou o inverno; o cachorro já tinha tanta

confiança na bondade e na piedade da leoa que dormia entre

as suas patas, aquecendo-se um ao outro".

Este fato não dá lugar a comentários dos partidários do

niilismo animal; é um quadro deslumbrante que vale mais

que todos os catecismos que fanatizam o povo!


XXII


O HOMEM DECAÍDO


O Batista no deserto

Daniel na cova dos leões


Não duvidamos de que os homens estejam em escala

muito superior à dos animais; mas, tão mau uso a grande


maioria dos homens tem feito do seu saber, da sua

inteligência, da sua liberdade; tão depravados têm sido para

com os dons espirituais que Deus lhes concedeu, que não

relutamos, muitas vezes, em fugir dos homens e nos acercar

de animais que melhor nos compreendam.

Foi este "pessimismo" que internou no deserto o maior

de todos os profetas.

Para João Batista, a convivência com os homens era mais

perigosa do que a convivência com as feras.

Sua intuição não o enganou: as feras respeitaram o corpo

imaculado do Grande Precursor do Cristianismo, e os

homens não lhe pouparam a cabeça; e os que lhe mandaram

cortar eram os grandes da sua época; tinham aspecto

humano, sem lhes faltar a beleza feminil, a instrução

intelectual, o pragmatismo social, mas suas almas, cobertas

de lama, transudavam odores de asquerosa podridão!

A História está cheia dessas façanhas, que mostram o

ponto a que chega a malícia humana.

Narra o Antigo Testamento que, um dia, os babilônios,

revoltados contra o Profeta Daniel, por este afirmar, não ser

o Deus Vivo a serpente que aquele povo adorava, exigiram

do Rei Ciro a entrega de Daniel, a quem queriam matar.

Satisfeitas as exigências, lançaram o profeta em uma

cova, onde estavam sete furiosos leões, aos quais

propositalmente haviam negado comida para que com maior

voracidade devorasse o ilustre enviado dos Céus.

Mas os leões, apesar de sua fome, respeitaram o corpo do

profeta!

Abre, leitor, as páginas da História, e admira esse quadro

estupendo!


Um homem repudiado por um povo inteiro, mas

respeitado por feras esfaimadas!

Um homem que trazia como única arma a Palavra de

Deus, pode fazê-la percebida do "rei das selvas", o

intemerato leão, que apesar de toda a sua ferocidade, da

estreiteza de sua inteligência, da pequenez de sua

compreensão, teve, em sua alma, uma fenda por onde pode

passar a Luz da Piedade Divina, para lhe acender a fagulha

do Amor, que o próprio Deus havia inoculado em sua alma

infantil!

O que os homens não puderam compreender; o que ao

imortal rei dos Persas, que se valia de seu poder e da sua

astúcia em todo o reino da Babilônia, não foi dado perceber,

porque o orgulho e o egoísmo lhe obliteravam a

compreensão, os irracionais ouviram com bons ouvidos e

virem com bons olhos!


XXIII


O MUNDO DAS ABELHAS


Amor filial e maternal nos animais inferiores


O mundo novo vem surgindo e os clarins festejam a

alvorada espiritual que indicará à pobre Humanidade a senda

que tem de percorrer.

Nós, que não estamos plantados no chão sáfaro dos

preconceitos, e não trocamos nosso futuro pelo baixo


servilismo que escraviza as massas, marchemos,

caminhemos, tendo por mira o ideal, que é a luz do porvir!

Já dissemos muito sobre os animais superiores; mais

duas palavras sobre os inferiores: Examinemos ligeiramente

o mundo das abelhas.

Sabe muito bem o leitor da inteligência destes insetos e

sua aptidão industrial. Fabricam a cera e o mel, substâncias

que o homem, com toda a sua inteligência, e mesmo munido

de uma Química Industrial é incapaz de fazer!

O espírito de ordem, de obediência; o amor ao próximo;

o sentimento de piedade, tudo isso parece bem desenvolvido

nas abelhas.

Vamos reproduzir um fato elogüentíssïmo, narrado pelo

naturalista Réaumur, a respeita destes obreiros.

Diz ele que, certo dia, observava uma abelha que, caindo

em uma vasilha dágua, perdera os sentidos devido à sua

longa permanência no liquido e aos esforços da sua luta

contra o naufrágio. Logo depois chegaram ao local diversas

abelhas, talvez da mesma colméia, cercaram a companheira

de todo o cuidado e conseguiram retirá-la da água, não

cessando de lhe prodigalizar carinhos, até que obtiveram o

seu completo restabelecimento!

Diga-nos agora o leitor se o Bom Samaritano, da

Parábola, fez mais ao ferido assaltado pelos ladrões!

Qualquer roceiro sabe muito bem que os animais, até os

inferiores, têm amor filial e maternal. Basta ver como a

galinha zela e defende seus pintainhos, como os pássaros,

por mais insignificantes, defendem seus filhos e os tratam

com carinho.

Dizer que os animais não tem alma, é proclamar

abertamente o Materialismo, é abrir bancarrota à Religião!


Mas nenhuma ciência, por mais positiva que se diga,

conseguirá destronar a Religião da Verdade, porque ela está

fortemente amparada por Deus, que envia agora à Terra os

seus mensageiros para tornarem-na conhecida, obedecida e

praticada.

Dizem que estamos no "fim do mundo"; pois é uma

verdade: os homens do mundo são incapazes de governar o

mundo, e a Terra vai passar por uma transformação radical: a

Verdade iluminará os quatro ângulos do planeta e uma nova

era já se inicia para a nova Humanidade que surge.


XXIV


LEI PROVIDENCIAL DO TRABALHO


O mundo das formigas


O trabalho, como lei sábia da Previdência, outra coisa

não é senão um meio de desenvolvimento da atividade e da

inteligência.

Para haver inteligência é preciso que haja alma, porque a

inteligência é um atributo da alma, logo, todos os seres que

trabalham têm uma alma, e não sendo esta o resultado das

funções físico-químicas, é imortal.

Isto é intuitivo, é lógico, é claro!

Estamos na escala inferior da Criação; falamos das

abelhas, levando os leitores a pensar na atividade, no

trabalho industrial que estes insetos desenvolvem; vamos

também dizer alguma coisa sobre as formigas.


Estes pequenos obreiros tem servido de exemplo nas

escolas, pela sua vocação laboriosa.

A formiga, além de tudo, sabe fazer distinção do tempo:

prepara os seus celeiros, abastece-os para poder alimentar-se

no inverno, quando escasseia a vegetação.

No mundo das formigas todos trabalham, e parece existir

entre elas verdadeira disciplina.

Nas suas lutas contra os outros insetos, as formigas

nunca abandonam no campo os seus feridos: nota-se como

que um corpo de ambulância, que percorre o local a

recolherem feridos.

Verificam-se entre as formigas e os demais seres

inferiores, sentimentos do bem e do mal, do justo e do

injusto, finalmente, de caridade e de espírito de sacrifício.

Pode-se até afirmar, em vista dos fatos observados na

escala inferior dos seres, que a moral não é propriedade do

homem, e se ela se tem realçado mais no reino hominal é

porque a observação se tem restringido ao circulo estreito da

Humanidade, desprezando o que lhe está em redor.

Mas quando o homem volta suas vistas para os animais,

não pode negar os belos sentimentos que também enobrecem

essas almas ainda infantis.


Pena é que os homens só vejam os animais para oprimi-

los, maldizê-los, a ponto de lhes negar o principio de vida,


cujos direitos o Supremo Criador não deixou de conceder

aos nossos irmãos inferiores.

Certamente não deveria o homem assim proceder, porque

ao Ser Superior compete zelar pelo inferior, protegendo-o,

amparando-o, ensinando-o, corrigindo-o.

Infelizmente, as religiões que tomaram o encargo de

educar as almas, a este respeito nada têm dito; todas elas,


cujos representantes são infalíveis, têm feito completa

abstração da alma dos animais, julgando estes pobres seres

como produtos mecânicos, espécie de moto-continuo,

entregues ao mundo por limitado tempo.

Nossa Humanidade, ainda em grande atraso moral e

cientifico, tem os sentidos adormecidos; a fascinação do

ouro, os esplendores dos cultos, os cânticos sacros, o fumo

do turíbulo, todas essas práticas místicas paralisaram o seu

raciocínio, o espírito de meditação e de análise, a ponto de os

homens terem olhos e não verem, terem ouvidos e não

ouvirem as belezas e harmonias da Criação!


XXV


SANTO ANTÃO E SEU SUÍNO


Os peixes e Santo Antônio

As "Semanais" da “Ave Maria”


Na escala gradativa dos seres, todos os sentimentos

morais: o remorso, o senso moral, o sentimento do justo e do

injusto, tudo está em germe em todos os animais.

Pode-se dizer que esses sentimentos diferem, na alma

dos animais e na alma humana, unicamente em grau.

O naturalista Agassiz chega a proclamar, a despeito de

seus princípios religiosos, a identidade do principio pensante

no homem e no animal.


E por falar em "princípios religiosos", vamos transcrever

das "Semanais", da revista católica "Ave Maria", alguns

fatos lembrados nessa crônica, a propósito da "morte trágica

de uma porca" na Vila Americana, noticiada por essa revista.

"Na História dos Santos os animais têm um belo relevo.

Santo Antão era sempre acompanhado de um porco que lhe

devia a saúde e a vida. Certa vez, em Espanha, o célebre

cenobita terminava a cura milagrosa de uma rainha quando,

de repente, ouviu um grunhido e um puxão no seu velho

burel. Voltou-se surpreso e viu uma porca cega

acompanhada de um leitão doente.

Condoído do estado do enfermo, curou-o com carinho, e,

desde aí, nunca mais o leitão, que com o tempo ficou adulto,

abandonou o seu médico e amigo.

Ai está o senso moral testemunhando a gratidão suína,

virtude que poderia ser cultivada em alto grau pelos homens,

mas, na verdade, bem esquecida de todos".

Mas, prossegue a missivista:

"'Certos animais até têm dado lições de moral a muita

gente. Vejamos os "Milagres de Santo António" em Rimini;

pregando ao povo pecador, ninguém o ouvia: foi quando os

peixes saíram dágua e vieram escutar o Santo. Os pecadores,

arrependidos ante a atitude dos peixes, correram a Santo

António a confessar o negror de suas faltas".

Não há dúvida de que o homem carece de imagens

impressionantes para se render às exigências da Lei, mas é

bem verdade que essas imagens se desdobram a todos os

momentos a seus olhos, e que às mais das vezes, os olhos

ficam voluntariamente cerrados com o intuito de se absterem

da luz que os ofusca.


O poder sugestivo do Santo atraindo os peixes que se

movimentavam à tona da água, à Palavra do Evangelho,

demonstra cabalmente o espírito de receptividade dos seres

inferiores da Criação, quando não seja para assimilar as

grandes verdades, ao menos para admirá-las no seu

esplendor maravilhoso.

É pena que a "Ave Maria", com os seus padres,

conhecendo essas coisas, não venham também afirmar ao

"mundo romanista" a existência do principio anímico na

escala inferior da Criação e sua evolução para o reino

hominal, onde não paramos, mas prosseguimos, de degrau

em degrau, ao reina espiritual ou angélico, para mais e mais

nos aproximarmos de Deus!


XXVI


UM GATO OBEDECE E RECONHECE UM


ESPÍRITO


A propósito da intuição animal, verificada pelos fatos

que narramos, extraídos dos Anais do Catolicismo,

lembramos uma interessante sessão, em que o Espírito

comunicante queria provar a sua identidade, tão veraz que

chegou a ser reconhecida por um gato russo, muito

inteligente e que havia conhecido a referida pessoa em vida.

Vamos transcrever ipsis verbis, o relato da sessão,

publicado resumidamente pela Revue Spirite, de Paris.

"Freqüentemente os Espíritos, voltando em sessão, aos

meios ande viveram, manifestam interesse por minudências


fúteis, em aparências, e que se poderia crer longe de seus

pensamentos. É assim que em Manchester se manifestou, em

casa da médium Miss Morse, uma entidade, outrora familiar

à casa: a de um jovem australiano, morto na Guerra do

Transval. Em vida este soldado estimava muito um gato

russo de propriedade da dona da casa.

O gato nunca fora à sala durante as sessões, mas, quando

se manifestou a entidade, as primeiras palavras desta foram

que permitissem a presença de Tony; e acrescentou que iria

procurar o gato.

De repente a mesma entidade disse: Encontrei-o, ai vem

ele!

Nesse momento o gato arranhou a porta. Permitido o

ingresso do gato, este saltou sobre os joelhos da médium,

onde ficou até que o Espírito do soldado prevenisse o

encerramento da sessão. Ditas as últimas palavras, Tony

saltou ao chão e manifestou a intenção de tomar ao seu

ninho, no quarto onde o amigo o fora despertar".


XXVII


VISÃO E PERCEPÇÃO DOS ANIMAIS


A inteligência nos animais é coisa verificada. A cada

passo vêm a público os atos de inteligência praticados pelos

cães.

Os cães policiais, os cães de raça, os molossos de guarda,

os fraldiqueiros de regaços, as espécies de raça e os tipos

característicos da canzoada vagabunda, todos eles têm


fornecido fatos em que se evidencia a sua inteligência, ou a

bravura da sua índole.

Entre os cães inteligentes aponta-se os da raça dos

Collleis. Os pastores da Escócia dão constantes testemunhos

disso.

Acontece, às vezes, a ovelha rolar por um barranco

abaixo e ficar estatelada no solo sem poder erguer-se. Nessas

condições, se o pastor está longe e não lhe ouve os berros,

pode recolher o seu rebanho sem dar conta da ovelha

perdida. Se ela não for socorrida poderá morrer de fome ou

ser devorada pelas aves de rapina.

Mas toda vez que um cão Collie encontra uma ovelha

caída, faz todo-o possível para pô-la em pé, a fim de guiá-la

para o rebanho; e quando não o consegue, vai avisar o pastor

na sua linguagem e gestos e latidos.

Interessante ainda é a percepção dos animais e dom de

visão que lhes é peculiar. A este propósito, o Morning Post,

tratando de fenômenos em que intervém os animais, narra

um caso interessante que não quisemos deixar de incluir

aqui.

Eis, como se exprime o autor de referida noticia:

"Os cães vêem e sentem o que nos é invisível e

imperceptível. Outro dia fui a passeio com o meu fox terrier

a Sunbury on Thimes; logo ao aproximar-me de uma casa

isolada, perto do rio, o animal, até ali garboso e folgazão,

deteve-se, ladrou lugubremente e pos-se a tremer; por fim,

em atitude ameaçadora, mostrou os dentes para um inimigo,

que eu não via, como se me protegesse de um ataque

eventual.

Todos os meus esforças para fazer o meu fox continuar o

caminho foram baldados. Ele recusou-se a passar diante da


referida casa, obrigando-me a fazer uma longa volta para

chegar ao meu lar. No dia seguinte eu soube que um homem

havia morrido, na mesma hora, nessa casa, em frente da qual

o meu cão se recusara a passar".

Esses fatos se contam aos milhares.

Os cavalos estacam em frente a uma visão, os cães

uivam; os gatos, quando se tratam de manifestações insólitas,

correm atemorizados.

No interior do Brasil os roceiros possuem uma grande

coletânea de fatos dessa natureza, prova de que a visão e

percepção dos animais é coisa bem verificada.


XXVIII


O LEÃO DE SÃO JERÔNIMO


Contribuição de a "Ave Maria"


O homem estudioso é sempre agradecido àqueles que lhe

proporcionam meios de raciocínio e de desenvolvimento da

inteligência, e o irmão dos animais que escreve estas linhas

não pode deixar de agradecer à Ave Maria, revista católica,

pela contribuição que, embora involuntariamente, veio trazer

a este livrinho, auxiliando-o a projetar sobre o campo inculto

da "evolução anímica" mais essa luz, que será levada ao

crédito dos reverendíssimos padres redatores da mesma

revista, quando se passarem para o Além-Túmulo.

A narrativa inserta na revista é sobre o Leão de S.

Jerônimo:


"Certa vez, nas margens do Jordão, meditava São

Jerônimo.

Nisto, um forte leão, alentado e valente, aproximou-se do

Santo, arrastando a pata, atravessada por um espinho

horrivel.

São Jerônimo, pacientemente, tirou o estrepe e o bravo

rei dos animais, reconhecido a seu benfeitor (diferente de

muitos homens) nunca mais o abandonou; e, quando o seu

santo protetor morreu, deitou-se sobre a sua sepultura e

acabou os seus dias sobre a campa, morto de fome".

Este caso é muito semelhante ao do Cão de Macaire, e ao

de Daniel.

Aceitamo-lo tal como reza a estória.

Mas se raciocinarmos sobre o ocorrido, não podemos

deixar de admitir uma influência do Alto, guiando a leão aos

pés do Santo, para que este o curasse.

Está claro que um leão bravio não poderia saber se um

homem, em vez de o matar, extrair-lhe-ia um espinho da

pata, se não fosse disso intuído ou guiado por alguém. E esse

alguém deveria ser provavelmente um ser espiritual,

encarregado de auxiliá-lo.

Nesse ponto ainda o Espiritismo vem fazer muita luz,

afirmando que os Espíritos, por menores que sejam, nunca

são desamparados por Deus, que lhes concede protetores

espirituais, que os auxiliam na jornada da vida, e, se sofrem

injustiças, estas partem sempre de homens de dura cerviz,

que não cultivaram o Amor e não obedeceram a Lei.

O quadro que a Ave Maria estampou, demonstrando o

espírita de súplica, a gratidão, o amor que o leão

exemplificou é, pois, a afirmação categórica de que no leão,

como em São Jerônimo, a alma se patenteia acima dos


instintos inferiores, manifestos no corpo; a troca de

sentimentos de compaixão, de sentimentos afetivos, de amor,

finalmente, salienta-se tanto no Santo como no leão, com a

diferença de grau e quantidade; este volume aumenta

gradativamente, de acordo com os conhecimentos que se vão

adquirindo e à medida que a alma vai crescendo em

sabedoria e em moral.


XXIX


O CORVO MENSAGEIRO E SÃO PAULO, O


EREMITA


Na História dos Santos existem narrações muito tocantes

a respeito dos animais, e o caráter miraculoso que se lhes

tem atribuído desnatura todo o escopo divino, que não deixa

de demonstrar em tempo algum, a sua ação em favor de

todos os seres da Criação.

O escritor Velasquez, numa das suas obras, tratando da

vida de São Paulo, o Eremita, narra interessante episódio, no

qual entra um corvo, que era portador de alimento para o

referido Santo. Ei-lo:

"No mais esconso deserto do Egito, o Santo tinha fome;

sem outro alimento que umas raízes parcas, abandonado dos

homens, prestes a morrer, veio a socorrê-lo um corvo, que

conduzia no bico uma côdea de pão, oferecendo-a ao Santo.

São Paulo aceitou o manjar, e, desde esse dia, a piedosa

ave, durante sessenta anos, ia pontualmente, todos os dias,

levar o alimento ao cenobita.


Um dia São Paulo, no deserto, recebeu a visita de um

outro solitário, Santo Antonio. Começaram ambos a falar do

corvo amigo e bom, quando, de repente, chega a ave, voando

mais pesadamente. Trazia dupla ração de pão, para São

Paulo e para a visita".

Este caso parece inverossímil, tanto mais que sabemos o

quanto pode a astúcia de Roma em matéria de milagres.

Sessenta anos no deserto, sendo alimentado ricamente por

um pedaço de pão trazido diariamente por um corvo, é muita

coisa!

Em todo caso aceitamos o fenômeno e sobre ele

raciocinamos.

Ninguém pode saber se alguém a ensinou, mas o corvo

recebeu o ensino para o desempenho do seu mister. Mas de

quem, esse ensino? De homem, não foi; conclui-se, portanto,

que uma "entidade extra-terrestre" o guiava e instruía na

tarefa que lhe foi dada, mesmo para a edificação do Santo.

A dupla ração de que o corvo foi portador por ocasião da

visita do ancoreta Santo António, esclarece bem o caso: sem

a intervenção de terceiro, o corvo não duplicaria a ração.

Seja como for, este caso caracteriza, ou deve lembrar aos

católicos, a existência da alma nos animais; alma suscetível

de aprender e progredir.

Ragionare, raciocinar é o de que o homem precisa para

se libertar do obscurantismo que o aprisiona à Terra.


XXX


O PROGRESSO DA ALMA


- A MEMÓRIA - O PERISPÍRITO


Deus nada cria inutilmente; tudo tem um fim

providencial. Tudo progride, tudo evolui no Universo.

Através de mil formas, nos zigue-zagues de uma ladeira

ininterrupta, o Espírito caminha para a luz, para a liberdade!

A luta pela vida é um meio de aprendizagem para

conquista do Bem e do Belo; os sofrimentos, as dores físicas

e morais espiritualizam as almas e as elevam às alturas,

onde, cônscias dos seus deveres e iluminadas pela Verdade

Promissora de seus destinos felizes, compreendem a

harmonia grandiosa das Leis Eternas, e começam a gozar da

bem aventurança: amando a Deus e ao próximo com

incessante atividade, para mais e mais subirem no esplendor

divino.

A existência da alma nos animais é, pois, um fato

evidente, racional, como a existência da alma humana.

O próprio fenômeno da memória, que não tem

explicação sem as propriedades funcionais do perispirito,

aparece na escala inferior dos seres, como no reino hominal.

A inteligência e a reflexão também se notam nos animais

como nos homens; bem como o amor conjugal, o amor

materno, o amor do próximo, o sentimento estético, etc.

Seria justo, pois, que Deus, criando seres com tais

predicados, permitisse que a morte os extinguisse para

sempre? Se assim fosse não haveria também razão de ser da

imortalidade humana!

"Mas para onde vão esses Espíritos?" perguntará o

incrédulo por sistema. Para o Céu? para o inferno? para o

Purgatório?


Que natureza de Céu, de Inferno, de Purgatório será o

deles? dirão os católicos.

Já dissemos que todas as almas evoluem através de

corpos cada vez mais aperfeiçoados até despontarem na

Humanidade. O princípio inteligente, a alma, é atraída

sempre para destinos mais elevados, para um futuro sempre

melhor.

Os Espíritos inferiores da escala, pouco tempo,

relativamente, demoram no Espaça, quando desencarnados, e

Espíritos prepostos, encarregados de lhes fazer progredir,

fazem-nos reencarnar em corpos que estejam de acorda com

o seu progresso, até, repetimos, atravessarem toda a fieira

zoológica e chegarem à Humanidade.

Eis a justiça de Deus manifestando-se nas mínimas como

nas máximas coisas, como o Sol que se levanta sobre os

bons e os maus, como a chuva que fertiliza a seara dos justos

e dos injustos.

A Doutrina Espírita é a luz colocada no altar do

Universo, pára que o homem adore e ame o seu Supremo

Senhor.


XXXI


DEMONSTRAÇÃO POSITIVA DA ALMA DOS


ANIMAIS


A sobrevivência da alma animal está provada, não só

com argumentos de irrefutável lógica, como também com

fatos que a História registra.


As manifestações póstumas dos animais deixam ver

claramente que eles são dotados de um corpo imponderável

que sobrevive à morte do corpo carnal.

A mediunidade vidente tem servido de valioso auxilio

nesses estudos transcendentes, para os quais muito têm

concorrido, por sua vez, o Magnetismo e o Hipnotismo.

E bom se diga que esse corpo espiritual, imponderável,

de que falamos, não é invenção humana, não é uma

concepção filosófica destinada a resolver dificuldades, mas

uma realidade física, um organismo sutil que não se

conhecia, e que, pela sua composição física e ação que tem o

homem, elucida todas as anomalias que as pesquisas dos

sábios e dos filósofos não puderam resolver.

A este organismo é que damos o nome de perispirito,

cuja indestrutibilidade e estabilidade constitucional fazem

dele o conservador das formas orgânicas, o renovador dos

tecidos para a conservação do corpo carnal, tanto nos

homens, como nos animais.

"Não há alma sem corpo", disseram todos os santos e

sábios na Escritura; o perispirito, como o termo bem o

indica, é a vestimenta, o corpo do Espírito.

O pensamento, o raciocínio, o sentimento, são atributos

do Espírito, como o saber e as virtudes são suas aquisições,

conquistas e produtos do estudo e do trabalho.

É pois, intuitivo que, não podendo haver manifestações

inteligentes sem que haja uma causa inteligente que as

produza, não pode, pelo mesmo motivo, haver pensamento,

raciocínio e sentimento, se fizermos abstração do Espírito,

do qual eles são atributos.

Não é preciso repetir a proposição que transparece aos

olhos de todos os que querem ver: que os animais da fiera


zoológica pensam, raciocinam e têm sentimentos tão nobres,

relativamente, como os têm os homens.

Já citamos muitos exemplos, e lembramos ao leitor a

necessidade de estudo mais acurado do tema que nos vem

ocupando a atenção, no excelente livro do ilustre sábio

espírita, Dr. Gabriel Delanne, intitulado Evolução Anímica.

A teoria da reencarnação do princípio inteligente através de

múltiplos e variados corpos, proclama a indestrutibilidade do

Espírito, a sua imortalidade; mostra-nos um destino com

perspectivas sempre mais fulgurantes, ao passo que a

doutrina da vida única aniquila as nossas aspirações no

domínio da matéria e prende o nosso pensamento no círculo

estreito das convenções sociais, sempre funestas para a

proclamação da liberdade.


XXXII


MANIFESTAÇÕES PÓSTUMAS DOS ANIMAIS


A aranha de Dassier


A manifestação póstuma dos animais é um fato que não

se pode negar. Dentre as muitas registradas nos anais da

Psicologia, vamos incluir, neste volume, algumas delas,

narradas por pessoas insuspeitas.

Lembramos como prova demonstrativa da alma, o

interessante caso narrado por Dassier, no seu livro

L'Humanité Postume. O escritor não era espírita e até

ridicularizava essa doutrina, motivo pelo qual tem, para nós,


ainda maior valor a sua observação, reproduzida na obra de

Gabriel Delanne.

Eis como Dassier se exprime: "No fim do ano de 1869,

achando-me em Bordeaux, encontrei um amigo que ia a uma

sessão magnética e que me convidou a acompanhá-lo.

Aceitei o convite, desejoso de apreciar de perto algum

fenômeno de magnetismo, que eu ainda não conhecia senão

de nome.

Essa sessão nada ofereceu de notável. Era a repetição de

reuniões desse gênero:

Uma jovem, parecendo assaz lúcida, fazia o papel de

sonâmbula e respondia as questões que se lhe dirigiam.

Entretanto, impressionou-me um fato inesperado.

Durante a reunião, uma das pessoas presentes, tendo

percebido uma aranha sobre o assoalho esmagou-a com o pé.

- Contenha-se, exclamou no mesmo instante a

sonâmbula: vejo o Espírito da aranha que se evola.

- Qual é a forma desse Espírito? perguntou o

magnetizador.

- Ele tem a forma da aranha, respondeu a sonâmbula.

Comentando o caso, diz o Dr. Gabriel Delanne: "O

Senhor Dassier não soube a princípio como apreciar essa

resposta; ele não acreditava na sobrevivência da alma do

homem, muito menos a admitia para os animais: contudo,

mudou em breve de pensar, pois cita um grande número de

manifestações póstumas de animais, e sempre estes

aparecem sob a forma que tinham na Terra. Crê mesmo

possível o desdobramento de certos animais durante a vida

terrestre".


XXXIII


O CÃO BOBY DO DR. JORGE GRAESER


Nosso grande mestre Camille Flammarion, autor da

incomparável obra Deus na Natureza, publicou na Scena

llustrata, de Florença, uma interessante narrativa que cabe

muito bem neste livrinho, pois é um caso típico das

"manifestações póstumas" dos animais, de que falamos.

Vamos transcrever ipsis verbis o relato de uma dessas

manifestações bem como a conclusão que o ilustre sábio tira

da mesma:

"Um dos meus jovens colegas da Sociedade Astronômica

de França, Jorge Graeser, possuía um soberbo cão chamado

Boby, o qual lhe era muito afeiçoado. Era um São Bernardo,

um colosso que atingia a altura de 1 metro e 80 centímetros,

quando se erguia sobre suas patas traseiras para abrir a porta

ou para brincar com o seu dono.

"Quando este estudava, o cão ficava silenciosamente

estendido a seus pés; seguia-o nos passeios, e não o deixava

um instante, nem durante as observações astronômicas. Mas

tanto quanto era afeiçoado ao seu dono, assim se mostrava

hostil à mãe deste, que não o tolerava, e aos estranhos, que

recebia ladrando furiosamente.

"Uma tarde, perto das 19 horas e meia, J. Graeser

encontrava-se em seu gabinete, absorvido em um cálculo

astronômico, quando ouviu abrir a porta e viu seu afeiçoado

companheiro; Boby parecia sofrer muito e permanecia

imóvel junto à porta.


"O dono chamou-o, mas o cão não se movia. Chamou-o

novamente, e então o cão foi roçar-se nas pernas do dono e

estendeu-se a seus pés. Graeser quis acariciá-lo, porém sua

mão agitou-se no vácuo: nada de palpável encontrou. Boby

só era uma sombra! Maravilhado e inquieto buscou-o por

toda a parte. Depois pensou que o teriam matado, e teve o

pressentimento de que, talvez, sua mãe o houvera mandado

matar. Comunicou-se por telefone com o lugar onde se

seqüestram cães, e, efetivamente, disseram-lhe que Mme.

Graeser o havia levado lá, e que o cão fora morto momentos

antes.

O instante da morte coincidira com o da aparição!

"Então os cães são dotados de uma alma semelhante à

nossa? Podem, como os homens, manifestar-se à distância

em certas condições? Pode existir ente eles e nós

comunicações telepáticas?

O problema é complexo; mas, por que não admitir que,

no momento de receber o golpe mortal, o afeiçoado cão não

tenha pensado em seu dono com a intensidade do desespero

e uma onda etérea tenha ido de seu cérebro ao do seu maior

amigo?

A telegrafia sem fios nos ajuda a compreender a

possibilidade destas transmissões, que nada têm de

sobrenatural, e que levam ao domínio da Ciência, certos

fenômenos que se atribuíam, dantes, ao Diabo e seus

acólitos.

Este fato singular que me foi referido por Graeser não é

único no seu gênero".

E mais adiante conclui Delanne:

"Examinados estes fatos, não podemos deixar de

perguntar: 1.a - Se os animais têm uma alma individual como


os seres humanos. 2.a - Se esta entidade psíquica sobrevive à

morte do corpo. 3.a - Se certos fenômenos podem ser

atribuídos as almas dos animais, especialmente às dos cães.

Que um número de almas humanas não tem valor algum

intelectual nem moral, é evidente. Que a sobrevivência

espiritual não as interessa mais depois da morte que durante

a vida, é provável. Que alguns animais, e entre eles alguns

cães, sejam inconscientemente agarrados ao homem e


possam assim ficar, mesmo além da vida, podemos admiti-

lo.


E uma hipótese, sobre a qual muito se pode trabalhar. A

demonstração de vários casos pode demonstrar esta

possibilidade".


XXXIV


MANIFESTAÇÃO DE UM CÃO

Coleta do "Morning Post"


A imprensa de além-mar nestes últimos anos se tem

ocupado muito dos "fenômenos psíquicos", porque parece

serem eles o assunto predileto dos leitores.

Jornais europeus, de grande tiragem, bem como a

imprensa americana, que tira mais de um milhão de

exemplares, na edição da manhã, e mais ou menos isso na

edição da noite, todos se referem a uma sessão espírita, ou,

pelo menos, não deixam ao vento esses fenômenos que vêm

chamar a nossa atenção para a Imortalidade.


O Morning Post, tratando de fenômenos em que intervém

os animais, publicou a curiosa manifestação que se vai ler:

"Uma senhora ficou muito triste com a morte do seu cão.

Na noite seguinte ela vê o cão aproximar-se de seu leito.

Na outra noite, o cachorrinho apareceu ainda, mas desta

vez acompanhado por um cão dágua.

Ora, esta senhora habita uma casa alugada. E indo visitar

seus proprietários, ela conta-lhes esta estória: então eles

pedem-lhe que descreva o outro cão que ela vira.

Satisfeito o pedido, eles dizem:

- É justamente o nosso pequeno cão; ele morreu há

tempos, quando habitávamos a casa, e foi enterrado no

jardim!

A locatária ignorava completamente os detalhes

retrospectivos".

É outro caso bem interessante de dupla manifestação,

com dupla prova de identidade, de dois cães mortos.

Se não houvesse alma no cão, como poderia ele aparecer

depois de morto?


XXXV


OS CÃES DA CRUZ VERMELHA


Os cães da Cruz Vermelha, já o dissemos, prestaram

relevantes serviços por ocasião da guerra.

Estes animais tão dedicados e inteligentes, tão fiéis ao

homem, são, ao que tudo indica, os mais próximos da

Humanidade.


Lamarck achava qué o cão e o cavalo estavam mais

próximos do homem do que o macaco.

Darwin sustenta a teoria de que o macaco é o último

degrau a subir para a Humanidade.

Haeckel, cujas teorias monistas são claras, participa deste

último modo de pensar.

Pela aparência podemos afirmar que o macaco é o tipo

do "homem de então", do "homem dos bosques", como o

apelidaram.

Mas não há dúvida de que o cão e o cavalo são animais

superiores, os companheiros do homem, os seus

"comensais".

O serviço prestado na guerra pelos cães e pelos cavalos é

incalculável:

The Red Cross Magazine publicou interessantes feitos

em que se salientam os cães.

Na guerra eles procuravam os mortos e os feridos, e

transportavam ataduras, algodão e remédios para curativos.

Outros eram carteiros: levavam cartas de um a outro

ponto e aprendiam e conheciam o nome de cada posto!

Muitos eram auxiliares das sentinelas.

Um oficial francês conta que, uma noite, numa trincheira

avançada os cães começaram, de improviso, á dar sinais de

grande inquietação. Os soldados, ao verem o que se dava,

telefonaram para a retaguarda pedindo reforço; vinte minutos

depois deste haver chegado, os alemães descarregaram um

ataque, que pode ser rebatido graças à sagacidade dos cães!

Os cães, adestrados na Rússia, levavam munições desde

a retaguarda às trincheiras avançadas.

Os cães enfermeiros, como os chamavam, auxiliavam os

cirurgiões; internavam-se nos bosques para descobrir os


feridos, e, quando encontravam um soldado imobilizado e

ferido, acercavam-se dele, acariciavam-no, e, tomando na

boca um objeto qualquer do doente, por exemplo, um quepe

ou uma correia, levavam-no às barracas da Cruz Vermelha:

imediatamente os cirurgiões e enfermeiros aprestavam as

ambulâncias e seguiam, guiados por esses mesmos cães, aos

lugares onde estavam os feridos.

Interessante é que esse serviço era feito diariamente e

com extraordinária dedicação.

Era tal o serviço prestado pelos cães, que os soldados

estimavam-nos extremamente, pois, na verdade, eles eram os

seus fiéis amigos nos momentos de dores.

Às vezes, os soldados de sentinela faziam-se acompanhar

de cães, que farejavam de longe o inimigo e avisavam a

aproximação deles.

Estes fatos são eloqüentes. Todo o espírito de

preconceito, de negação, desaparece em vista da dedicação,

da inteligência, do raciocínio desses animais, bem assim dos

excelentes serviços prestados por esses nossos companheiros

nas agruras da vida.

E assim como acontece com os cães, em menor escala

sucede com todos os animais, e a Ciência, a Filosofia, o

Romanismo e o Protestantismo, todas as religiões

sacerdotais, todos os filósofos e filosofias são incapazes de

provar a ausência de um Espírito que os anima, e a

imortalidade desses Espíritos, que chegam a se mostrar

vivos, mesmo depois do aniquilamento dos seus corpos

carnais!


XXXVI


CIÊNCIA E PROGRESSO


O saber é a melhor fortuna que o homem poda

conquistar. É pela aquisição de conhecimentos que a alma se

desenvolve e se prepara para os surtos da Vida Imortal.

Diz o prolóquio que "o saber não ocupa lugar". Esta

proposição é toda falsa.

Um Espírito sem sabedoria é semelhante a uma casa sem

móveis e desabitada; a ninguém oferece comodidade, e em

breve vê a sua própria ruína. Ao passo que uma casa bem

mobiliada, com todos os requisitos de boa vivenda, bem

iluminada, onde não faltam objetos de repouso para o corpo

e repouso para o Espírito, se constitui num paraíso por todos

desejado.

Assim é a nossa alma: deserta de sabedoria e de virtudes,

embora pareça grande é como um desses antigos castelos

isolados e temidos, teatro fantasmagórico onde se acendem

os "fogos fátuos" da superstição e do fanatismo a denunciar a

noite da ignorância que o entenebrece.

Na alma do ignorante, macilenta, abatida, magra,

perpassam sombras cruéis, espectros vingadores, visões

terríficas!

"O saber ocupa muito lugar", mas quanto mais sabemos,

mais lugar temos para oferecer ao saber, porque a nossa

individualidade cresce à medida que crescem em nós os

conhecimentos; nossa inteligência se dilata, nosso raciocínio

se amplia, nosso sentimento aumenta na razão do nosso

aperfeiçoamento, tornando-se as nossas percepções mais

nítidas, mais puras, mais espiritualizadas! Por isso o saber


precisa entrar no nosso Espírito gradativamente, iluminando

nossos passos na Vida Espiritual, como o Sol que nos

acompanha gradualmente desde o nosso nascimento e sob

cujos influxos exprimimos os primeiros sorrisos.

A alma não começa no berço, nem termina no Túmulo. O

vento sopra onde quer, e não sabemos donde ele vem".

Nasce a criança impulsionada pelo principio anímico, e

também compreendemos que, como o vento, ela vem de

longe. E um Espírito que se envolveu na carne, que renasceu

na carne, e que vem de remotas eras, formando sua

consciência, engrandecendo a sua individualidade, para, um

dia, galgar os cimos da vida superior!

Excelsa e admirável Doutrina que não nos compara à

matéria bruta!


XXXVII


ADVENTO DO ESPÍRITO - O SÉTIMO DIA


"O princípio espiritual é o corolário da existência de

Deus; sem este princípio Deus não teria razão de ser".

O que diríamos de um monarca reinando toda a sua vida

sobre pedras!

Assim, também, como conceber um Deus, que reine

eternamente sobre corpos!

Deus é Espírito; sua Palavra é Espírito e Verdade; seu

sopro é Espírito de Vida; como negarmos à Divindade sua

ação vivificante, criando almas, educando-as, formando-as

para felicitá-las!


O principio anímico denuncia o seu nascimento no

zoófito.

Não o confundam com elemento vital.

Este transmite a seiva da vida material aos corpos, quer

seja à palmeira dos montes, ao elefante dos desertos, ao

ginete das cidades, ao homem das Academias; mas o

principio anímico, que ainda não despontou nas ervas, só

aparece no zoófito; cresce nos répteis e nas aves,

desenvolve-se e aumenta a sua inteligência nos quadrúpedes

e quadrúmanos e brilha no homem com fulgurações dos

talentos!

O princípio espiritual, quanto mais cresce, maiores

aquisições faz, mais se individualiza, porque mais conhece,

maior é a sua individualidade, constituindo-se um ente cheio

de vontade, de saber, de poder, a ponto de procurar imitar o

seu supremo Criador, e tornar-se, também, um criador, com

plena observância dos desígnios divinos.

E assim que ele consegue atravessar os "dias da criação",

e, maravilhado ante o Poder e a Sabedoria de Deus, repete

com o velho legislador dos hebreus: "Deus descansou no

sétimo dia!"

O progresso é lei natural a que se acham submetidos os

Espíritos, tenham eles a categoria que tiverem, porque todos

devem atingir a perfeição.

A escala inferior dos seres é uma cadeia ininterrupta;

nela não existe solução de continuidade, tudo se liga de

forma admirável; é como uma ladeira que subimos

vagarosamente, sem vermos o declive entre um centímetro e

outro.

Aqueles que só olham para cima ou para baixo vêem um

céu ou um precipício; mas os que, com olhares


investigadores, medem o caminho percorrido, compreendem

que nenhum precipício existe, nenhuma lacuna, nenhuma

fenda, mas tudo oferece ao viajor terreno firme, sem falhas e

sem tropeços.

Assim também os que voltam suas vistas para o alto,

seguindo sempre o leito por onde têm de passar, até as

alturas incomensuráveis; ficam cientes de que, como a alma

não pagou nos planos inferiores, ainda com maiores

vantagens se elevará aos planos superiores, onde a

inteligência robustecida permite ao Espírito desferir, pelas

cordas harmoniosas da evolução espiritual, acordes cada vez

mais belos e mais sonoros, provenientes do seu saber e das

suas virtudes.

É o que nos ensina a Doutrina Espírita.


XXXVIII


A JUSTIÇA DIVINA E A LEI DO PROGRESSO


Todos os Espíritos são criados simples, ignorantes, mas

perfectíveis; a todos Deus criou iguais, a todos Ele concede

os mesmos meios de progresso, as mesmas graças, o mesmo

amor.

Todos têm o mesmo ponto de partida, todos foram

criados para a felicidade, que vão conquistando pelo esforço,

pelo trabalho, nas lutas pela aquisição dos conhecimentos

que lhes dão o mérito da fortuna imperecível que gozarão,

com a consciência do custo, do sacrifício com que os

adquiriram!


A luta é longa, é difícil, mais á vitória é certa!

Na Eternidade, a vida imortal que nos é concedida como

penhor das nossas fadigas será aproveitada como felicidade

perene e, então, todos colheremos os frutos do trabalho

regado com suor e lagrimas!

A Justiça Divina não admite concessões, nem

privilégios; filhos do mesmo Amor, todos somos herdeiros

de parcela igual, quota que vamos recebendo na medida dos

nossos méritos, dos nossos trabalhos.

São irrisórios os anexins populares: "Deus criou o cão

para morrer ladrando". "Quem nasceu burro nunca chega a

ser gente".

O progresso é lei inflexível; embora negado, faz valer a

sua autoridade, e aqueles próprios que lhe negam ação

benéfica e regeneradora, submeter-se-ão, queiram ou não

queiram, à influência que exerce todo o Universo.

Todos os animais inferiores, que vivem nos ares ou nas

águas, ou que caminham na terra, contém um princípio

anímica imortal e acessível à perfeição. Todos eles, por

estradas retas ou por caminhos ínvios, despontarão na

Humanidade, como o fruto em germe na semente, depois de

passar pelos processos de germinação, nascimento,

crescimento, florescência, pende dourado, preso às hastes

cobertas de folhas verdes!

O que vive, pensa e age não morre; e o que não morre se

transforma, regenera, progride através das idades, pela senda

da Perfeição atraído pelo Poder de Deus!

As leis materiais com seus fenômenos admiráveis são

exemplos, demonstrações vivas do que se passa nos planos

invisíveis aos olhos humanos, cobertos ainda, estes últimos,

das teias dos dogmas e dos preconceitos!


"Entre a bolota e o carvalho, a diferença é grande, e,

contudo, seguindo-se passo a passo o desenvolvimento da

bolota, chega-se ao carvalho, e ninguém se admirará de

proceder ele da pequena semente. O Espírito também é

pequeno ao nascer, mas cresce e se desenvolve. Como o

carvalho, cria raízes e tronco, braços vigorosos, largas

folhagens, e se constitui na Arvore da Vida, abrigando sob

sua fronde e sob as suas ramagens os Espíritos que

caminham no deserto arenoso da existência terrena" Tal é a

lei; tal é a lei!


XXXIX


APELO EM FAVOR DOS ANIMAIS


Vós que vedes luzes nestas letras, que traçam a estrada

da Evolução Espiritual, e não vos achais mais escravizados

pelo "gênio do mundo'', à erva que seduz, às flores que

encantam, tende compaixão dos pobres animais, não os

espanqueis, não os maltrateis, não os repudieis!

Lembrai-vos, amigos meus, que o Pai, em sua infinita

misericórdia cerca-os de carinhos, e, prevendo a deficiência

de seus Espíritos infantis, lhes dá fartas colheitas sem a

condição de que semeiem ou plantem: prados cobertos de

ervas e Flores odorosas, bosques sombrios, planícies e

planaltos, onde não faltam os frutos da vida; rios, lagos e

mares, por onde se escoam os raios do Sol, a luz da Lua, o

brilho das estrelas!


Sede bons para com os vossos irmãos inferiores, como

desejais que o Pai celestial vos cerque de carinho e de amar!

Não encerreis em gaiolas os pássaros que Deus criou

para povoarem os ares, nem armeis ciladas aos animais que

habitam as matas e os campos!

Renunciai as caçadas, diversão vil das almas baixas, que

se alegram com os estertores das dores alheias, sem pensar

que poderão também ter dores angustiosas, e que, nesses

momentos, em vez de risos e alegria, precisarão de bálsamo

e misericórdia!


Homens! Tratai bem os vossos animais, limpai-os, curai-

os, alimentai-os fartamente, dai-lhes descanso, folga no


serviço, porque são eles que vos ajudam na vida, são eles

que vos auxiliam na manutenção da vossa família, na criação

dos vossos filhos!

Senhores! Acariciai os vossos ginetes, os vossos cães,

dai-lhes remédio na enfermidade, tratamento, liberdade e

repouso na velhice!

Carroceiros! Não sobrecarregueis os vossos burros e os

vossos cavalos como fazem com os homens os escribas e

fariseus: impondo-lhes pesados fardos que eles, nem com a

ponta do dedo os querem tocar!

Lembrai-vos que os animais são seres vivos, que sentem,

que se cansam, que têm força limitada, e finalmente, que

pensam, e que, em limitada linguagem, acusam a sua

impotência, a sua fadiga irreparável aos golpes do relho e

das bastonadas com que os oprimis!

Sede benevolentes, porque também em comparação aos

Espíritos Divinos, de quem implorais luz e benevolência,

sois asnos sujeitos à ação reflexa do bem e do mal!


Senhores e matronas! Moços, moças e crianças! Os

animais domésticos são vossos companheiros de existência

terrestre; como vós, eles vieram progredir, estudar, aprender!

Sede seus anjos tutelares, e não anjos diabólicos e maléficos,

a cercá-los de tormentos, a infringir-lhes sofrimentos!

Sede benevolentes para com os seres inferiores, como é

benevolente, para com todos, o nosso Pai que está nos Céus!


XL


A REVELAÇÃO PROGRESSIVA


Tudo aparece na ocasião própria. A planta não nasce sem

que a semente germine; a árvore não dá frutos antes da

florescência; o progresso não chega sem que a Humanidade

tenha atravessado as fases indispensáveis à maturidade da

inteligência, em que o Espírito começa a indagar o porquê

das coisas e a examinar o que o rodeia.

No tempo de Moisés o povo judaico não podia

compreender o que compreendemos hoje; por isso o grande

legislador hebreu escreveu a sua Gênese de forma mais

compreensível e impressionante aos seus seguidores, sem

aprofundar questões que só depois, com o cultivo do

Espírito, poderiam ser resolvidas. E sabido o atraso

intelectual e moral das gentes daquele tempo, em que

predominava a lei do "dente por dente".

Em virtude de toda essa falta de compreensão, e havendo

necessidade de traçar as primeiras linhas da Gênese, Moisés

fez a raça humana proceder de um único casal, cuja lenda


servia para embalar a imaginação infantil do seu povo, que,

como a das crianças (e até a de muitos velhos) se satisfazia

com a imagem que lhe era apresentada, prevalecendo essa

estória fantástica para dar solução provisória à questão que

começava a ser ventilada pelos Espíritos mais elevados

daquele tempo.

E como poderia Moisés, o inspirado divino, mesmo que

soubesse a estória da criação, ensiná-la a um povo de dura

cerviz e que, depois de tantos prodígios operados pelos


Espíritos para sua libertação do jugo dos egípcios, despojou-

se das suas jóias para o fabrico do Bezerro de Ouro, ao qual


adoraram como sendo o verdadeiro Deus?

Pois se no século dos aeroplanos, automóveis, telegrafia

e telefonia, ainda encontramos muita gente de burel e de

mitra, muitos literatos de borla e capelo, que repudiam com

todas as suas forças o transformismo, a evolução pela escala

zoológica, como poderiam os pobres escravos dos egípcios,

que tinham acabado naquele instante de obter sua carta de

liberdade, receber a Gênese tal como ela é?

A lenda adâmica estava muito bem para aqueles que

começavam a festejar a sua libertação.

Somente duas raças eram conhecidas: a sua e a egípcia.

Os Israelitas seriam os "primogênitos", descendentes diretos

de Adão e Eva; os egípcios descenderiam de Caim (?), que,

condenado por Deus, tornou-se progenitor daquele povo que

depois as escravizou; e assim ficava tudo explicado para

quem não podia compreender outra explicação.

Quanto à origem dos animais, se eles tiveram também o

seu Adão e Eva, os hebreus não trataram de inquirir, e os

nossos católicos e protestantes também não cogitam disso.

Contentam-se em "saber" o que o texto bíblico diz: "No 5.°


dia disse Deus: haja peixes e aves; e no 6.° dia: produza a

Terra animais de toda a casta".


*


A Revelação é a base, é o fundamento sólido da Religião

e da Ciência; e a Revelação é sucessiva, é gradativa. Na

esfera religiosa, a Revelação é o grande ascensor da

Humanidade para o progresso intelectual, moral e espiritual.

Foi sobre esta pedra que o Cristo fundou a sua Igreja.

Desde os tempos patriarcais até a nossa época distinguimos

quatro grandiosas revelações, que se vêm completando e

explicando.

A primeira de todas foi a Revelação Abraâmica, na qual

o Espírito Mensageiro do Alto se limitou a anunciar a

existência de um só Deus, sem prescrever outra obrigação a

não ser a do reconhecimento dessa verdade, de que fora

portador.

Cerca de dois mil anos mais tarde, Moisés recebe, de um

Eloin, Jeová, as Tábuas da Lei, com os Mandamentos do

Decálogo, que constituem o começo do Código Divino.

Outros dois mil anos depois, vem Jesus, não mais

falando a uma família, como aconteceu na Revelação

Abraâmica, que se restringia à gente de Abraão, de Isaac e

de Jacó; nem como na de Moisés, que se restringia aos

Israelitas, mas estendendo o Mestre a sua Palavra, a sua

ação, o seu Verbo à Humanidade toda, confraternizando-a

sob a Paternidade de Deus!

Agora, após outros dois mil anos, vem o Espiritismo,

que, reproduzindo a Palavra de Jesus; explica-a, amplia-a,

como o Mestre havia prometido!


A Primeira, a Segunda e a Terceira Revelações são

pessoais, quer dizer, foram dadas por intermédio de Pessoas,

de indivíduos: a 1.a por Abraão, a 2.a é por Moisés, a 3.a por

Jesus.

A última Revelação, a Espírita, a Revelação das

Revelações, é coletiva, e os representantes dessa coletividade

que a acionam, são os próprios Espíritos, Mensageiros de

Deus, que, sob a direção de Jesus Cristo, fazem prevalecer a

Lei da Fraternidade, que eles assentam no fundamento sólido

da Imortalidade.

Esta Revelação está destinada a fazer lembrar tudo o que

Jesus ensinou e a guiar os homens, "ensinando-lhes todas as

coisas" (João XIV, 26).

Sua base, como dissemos, é a Imortalidade, e o fim a que

ela nos conduz é a Vida Eterna.

A Revelação Espírita brilhará sempre como luz de

primeira grandeza, porque elas não limita à Terra a sua

ciência, os seus ensinamentos. Vencendo as trevas da

"morte", apresenta aos nossos olhos os inumeráveis mundos

que caminham no infinito, as inumeráveis esferas fluídicas

que serão nossas futuras habitações, onde recebemos, como

prêmio dos nossos trabalhos, lições cada vez mais

edificantes e substanciosas, para nossa completa felicidade!


XLI


A DOUTRINA DA IMORTALIDADE


A moderna psicologia


Foi justamente quando o espírito de negação e de

materialidade triunfava no mundo, e quando esses dois

formidáveis exércitos, sacerdotalismo e cientificismo, se

digladiavam e destruíam, com prejuízo para a coletividade,

que as Potências dos Céus se abalaram e o Espírito de

Verdade desceu à Terra, para trazer-nos a nova luz que

deveria iluminar os horizontes da nossa Imortalidade!

Então, uma nova Ciência ergueu-se para enfrentar a

Ciência que nega a Religião; e uma nova Religião bateu às

portas dos templos para pedir, aos seus sacerdotes, contas

das suas negações às provas positivas que a Ciência lhes tem

oferecido.

O velho mundo foi abalado em suas bases e as partes

litigantes, avelhantadas, sem recursos para prosseguirem na

sua luta, voltaram suas armas contra quem lhes vinha propor

paz honrosa.

O Espiritismo foi repudiado, caluniado, injuriado pelos

obscurantistas anchos do saber e do poder humanos; mas a

Verdade devia triunfar, pois soara no grande relógio

universal a hora das reivindicações sociais! A cegueira de

uns e de outros não poderia privar o desenvolvimento da

vidência latente de tantos: a VOZ DOS MORTOS fez-se

ouvir em todos os cantos da Terra e em pouco mais de meio

século o Espiritismo restaurou o Gênio do Cristianismo, ao

menos quanto aos memoráveis testemunhos da sobrevivência

humana.

Ao par de tantas descobertas e inovações, que vêm

transformando nosso mundo num paraíso, o

Experimentalismo Espírita faz reviver, em todos, a certeza

da Imortalidade, cumprindo assim a previsão do Apóstolo


dos Gentios, segundo o qual "a morte será tragada na vitória

dos arautos do Ideal Cristão".

E já não são mais considerações filosóficas, nem floreios

de retórica que vêm exaltar a Doutrina da Vida, mas, sim, a

eloqüência dos fatos persistentes que desafiam todas as

minuciosas investigações e se submetem aos mais

escrupulosos exames!

Precedendo a era nova, que o padrão espírita marcou na

senda que a Humanidade tem de trilhar, o Magnetismo

concorreu com fortes contingentes para abalar as barreiras do

Materialismo, tão bem amparadas por Ernest Haeckel nos

seus Enigmas do Universo.

O magnetismo, com os seus fenômenos de

sonambulismo, desdobramento da personalidade e outros de

não menor importância, tem deixado patente aos olhos de

todos os que querem ver, a existência do Espírito, quer se

trate do Espírito humano, quer se trate do Espírito do animal,

esse mesmo Espírito independente do corpo carnal.

A visão a distancia e no interior dos corpos opacos, os

fenômenos de bilocação, de exteriorização da sensibilidade,

sobrepujam todos os templos de barro e academias de

pedras, construídos pela imperfeita mão do homem.

O Animismo, como o denominou Aksakof, por si só

explica e demonstra, com lógica irrefutável e fatos

irrefragáveis, a existência da alma, independente das forças

néuricas e cerebrais, e sua ação volitiva apesar da resistência

que a matéria lhe opõe.

Não há que tergiversar: existimos, e nossa

individualidade mantém-se indestrutível, sem que para isso

concorram com um ceitil o fósforo, as circunvoluções


cerebrais, ou a cal da carcaça que abriga nosso cérebro. A

memória ai está para testificar esta verdade!

Hoje podemos dizer: Ego sun, fui et ero! - Existo, existi e

existirei!


XLII


A PREVISÃO DE AKSAKOF


Experiências de Puysegur, Deleuse e Du Potet


Com justa razão disse o grande conselheiro russo, A.

Aksakof, que foram precisos cem anos para fazer aceitar os

fatos do Magnetismo Animal, posto que eles sejam muito

mais fáceis de estudar e obter do que os do mediunismo;

mas, depois de muitas vicissitudes, eles romperam as

barreiras do ignorabimus dos sábios, e a Ciência teve de lhes

fazer bom acolhimento, acabando por adotar esse filho bem

legitimo e batizando-o com o nome de Hipnotismo.

E conclui o emérito filósofo com a seguinte predição: "O

Hipnotismo é a cunha que força as barreiras materialistas da

Ciência para fazer penetrar nelas o elemento supra-sensível

ou metafísico. Ele já criou a Psicologia Experimental, que

acabará fatalmente por fazer compreender os fatos do

Animismo e do Espiritismo, os quais, por sua vez,

terminarão na criação da Metafísica Experimental (ou seja o

Metapsiquismo), como predisse Schopenhaur". (*)

(*) Esta predição cumpriu-se cabalmente com a Metapsíquica de Charles Richet,

e ultrapassou-se a si mesma com o advento da Parapsicologia.


Estas sábias considerações demonstram muito bem o erro

em que se acham aqueles que, sem saber o que seja

Magnetismo e Hipnotismo, pretendem explicar as

Manifestações Espíritas com essas palavras, pronunciadas

com completa abstração de sua verdadeira significação. (**)

(**) Ocorre o mesmo em relação à Metapsíquica e à Parapsicologia.

Nos fenômenos do Magnetismo e Hipnotismo, que

obedecem a uma ordem, quer se trate da fascinação ou

credulidade, até o sono letárgico, caminhos esses que

conduzem ao desdobramento da pessoa, vemos a

manifestação da alma, sua existência evidente, independente,

como dissemos, do corpo carnal, que não representa outra

coisa senão o seu instrumento de manifestação no exterior.

Puysegur, Deleuse, Du Potet e outros, depois de acurados

estudos e experiências. concluíram que "o sono magnético,

imobilizando o corpo e aniquilando os sentidos corporais,

restitui à liberdade o ser psíquico (o Espírito), e o faz entrar

em um mundo vedado aos seres corpóreos, mundo cujas

belezas e leis o Espírito descreve".

Em sua Correspondência Sobre o Magnetismo Vital diz

o Dr. Deleuse: "O Magnetismo demonstra a existência da

alma, prova a possibilidade da comunicação das inteligências

separadas da matéria com as que lhe são ainda unidas".


UM CASO DE DESDORRAMENTO


(H. E. Lewis)


A propósito das conclusões dos grandes magnetizadores,

que citamos, lembramos um caso interessante narrado


também pelo Conselheiro Aksakof e testemunhado pelo Dr.

Desmond Fítzgerald, que se vai ler.

"H. E. Lewis possuía grande força magnética, de que

fazia exibição em reuniões públicas. Em Blackheat, no mês

de fevereiro de 1856, numa dessas sessões ele magnetizou

uma rapariga a quem nunca tinha visto.


Depois de a ter mergulhado em sono profundo, ordenou-

lhe que fosse até a casa dela, e que, em seguida, contasse ao


público aquilo que houvesse visto. Ela declarou, então, que

via a cozinha, e que lá se achavam duas pessoas ocupadas

em serviços domésticos. Lewis mandou, então, que ela

tocasse uma dessas pessoas. "Toquei-as, porém elas estão

com muito medo", disse a rapariga a rir-se.

Virando-se para o público, Lewis perguntou se alguém

conhecia a rapariga. Sendo-lhe a pergunta respondida

afirmativamente, propôs que uma comissão fosse ao

domicilio em questão. Diversas pessoas prontificaram-se a

isso, e, quando voltaram, confirmaram em todos os pontos o

que a rapariga havia dito.

A casa estava efetivamente em balbúrdia e em profunda

excitação, porque uma das pessoas, que se achava na

cozinha, declarou ter visto um fantasma, e que este lhe tocara

no ombro!"


XLIII


PROVA DA EXISTÊNCIA DA ALMA PELA


FOTOGRAFIA


O fato que levamos ao conhecimento dos leitores,

escolhido entre muitos que fazem parte dos Anais Espíritas,

suscitou-nos a lembrança de mais dois casos interessantes,

obtidos com o auxilio de fotografia.

Extraímos a súmula do relato do primeiro, do livro

Animismo e Espiritismo, de Aksakof; e a do segundo, da

interessante obra do Dr. Baraduc, L'Ame Humaine, ses

Moviments Lumières.

"O Senhor Humber, espiritualista muito conhecido,

fotografava um jovem médium, o Senhor Herred, que dormia

sobre uma cadeira em estado sonambúlico. Viu-se sobre o

retrato, por trás do médium, a imagem astral da sua própria

individualidade, isto é, do seu Espírito, que se conservava

em pé, quase em perfil, com a cabeça um pouco inclinada

para o sonâmbulo".

O outro caso é o seguinte:

"O Dr. Istrati, indo para Campana, disse ao Senhor

Tasdeu, de Bucarest, diretor da Instrução Pública na

Romênia, que apareceria numa data determinada em

Bucarest, sobre uma placa fotográfica do sábio romeno,

numa distância, mais ou menos, equivalente à de Paris a

Calais.

No dia 4 de agosto de 1893, o Dr. Hasdeu evocou, ao

deitar-se, o Espírito do seu amigo, tendo um aparelho

fotográfico aos pés da cama e outro à cabeceira. Depois de

uma prece ao seu anjo protetor, o Dr. Istrati adormece em

Campana, formando, com toda a força da vontade, o

propósito de aparecer no aparelho do Dr. Hasdeu.

Ao acordar, o Dr. Istrati exclamou: "Tenho certeza de

que me manifestei na chapa fotográfica do Dr. Hasdeu, sob a


forma de uma figurinha, pois sonhei que assim sucedera e

com a maior nitidez".

Ele escreveu ao Dr. P., que, com a carta na mão, foi

encontrar o Dr. Hasdeu, prestes a revelar a chapa.

Transcrevo textualmente a carta do Dr. Hasdeu ao

Senhor R.:

"Sobre a placa A vêem-se três ensaios, dos quais um, o

que marquei nas costas com uma cruz, saiu extremamente

bom.

"Vê-se, nela, o doutor olhando atentamente o obturador

do aparelho, cuja extremidade em bronze é iluminada pela

própria luz do Espírito.

"O Dr. Istrati, voltando para Bucareste, fica muito

admirado ao ver o seu perfil fisionômico; sua imagem

fluídica é muito característica, pelo fato de apresentar uma

expressão mais exata que o perfil fotográfico. A redução do

retrato e a fotografia telepática são muito semelhantes".

A fotografia do Espírito não pode deixar de constituir

uma prova evidente da existência da alma proclamada até

pela placa sensível!


XLIV


PROVA DA IMORTALIDADE DA ALMA


Depois das portentosas manifestações dos Espíritos,

verificadas no mundo todo, e verificáveis a todos os

momentos, sempre que se deliberar investigá-las sem espírito

preconcebido, ninguém mais tem o direito de negar a


Imortalidade, sem que se livre do qualificativo de ignorante,

ou pessoa de má fé.

As materializações, as moldagens, as fotografias, a voz

direta, a escrita direta e os fatos que se dão com o auxilio dos

médiuns aí estão para confirmarem a sobrevivência do

Espírito: Que outra explicação plausível se poderia dar

desses fatos maravilhosos? Qual a causa a que se podem

atribuir esses fenômenos, todos de natureza espiritual,

inteligentes, e cujos efeitos denotam critério, raciocínio, a

execução de um plano sabiamente formulado, a manifestação

da vontade pela força que molda a matéria, dando-lhe as

formas precisas de funcionamento?

O critério sadio proclama os fatos espíritas como provas

patentes da Imortalidade! Abstemo-nos de transcrever

fenômenos que enchem milhares de grossos volumes da

bibliografia do Espiritismo e do Psiquismo.

O grande livro esta aberto a todos, bastando a cada

indivíduo voltar suas vistas para estes interessantes estudos,

indispensáveis à felicidade, porque é deles que nos vem a

certeza do futuro, e é com o seu auxílio que palmilharemos a

estrada do dever, que nos foi aberta pelo Amado Filho de

Deus, para a posse da Vida Verdadeira, da Vida Eterna, na

qual não se conhece a morte!


SÚMULA


O estudo da alma, rico de verdades promissoras; tem sido

desprezada pela quase totalidade dos homens.


Infelizmente, com grande prejuízo para a Humanidade,

as religiões, presas aos cultos, e as ciências, circunscritas à

matéria bruta, não têm esclarecido os homens sobre a sua

procedência, a sua situação na Terra, os seus destinos.

O Reinado do Mundo absorveu toda a inteligência, todo

o raciocínio dos "guias das almas", dos "mestres em Israel",

dos "doutores".

Mas a noite deveria passar, e, com ela, todas as

concepções errôneas que transviavam a Humanidade do

Caminho da Verdade. A aurora do novo dia, finalmente,

raiou nos horizontes do nosso mundo, e o Reinado do

Espírito substituirá, em breves tempos, o Reinado da

Matéria.

Já ficamos sabendo que a "matéria" é o objeto do

trabalho do Espírito para o desenvolvimento das suas

faculdades latentes, e que o nosso nascimento anímico se

perde na noite dos tempos, havendo-se verificado no

primeiro degrau da "escala animal".

Sabemos mais, que a evolução pela "escala zoológica" se

faz sem transições bruscas, não devendo esses corpos ser

outra coisa senão degraus por onde subimos, degraus dessa

longa escada que vai do zoófito ao homem. É nessas


florestas da vida que a alma, principio inteligente, prepara-

se, elabora-se, individualiza-se, desenvolve as suas primeiras


faculdades para chegar ao reino hominal.

Todos partimos do mesmo princípio; a todos o Criador

concede os mesmos meios de progresso, os mesmos meios

de perfeição, a mesma imortalidade; todos nós galgaremos

os alcantis da Espiritualidade, cada vez mais ricos de

conhecimentos, para podermos afirmar com mais lúcido


raciocínio, e mais apurado sentimento, a nossa

individualidade, o nosso "Eu" imortal.

Essa Lei, é a grande Lei da Unidade que se manifesta na

diversidade, isto é, Lei única para todos, Lei Sábia que

preside a toda a Criação, Lei que proclama a Justiça e a

Bondade do Supremo Criador! Só ela dá uma saída, um fim,

um destino aos animais no seu principio psíquico, anímico,

fazendo ver a todos que o Senhor não deserdou esses entes

inferiores por Ele criados, pois encontrarão, no futuro, uma

recompensa dos seus trabalhos, terão a compensação dos

seus sofrimentos!

Só essa Lei grandiosa explica a contento a diversidade de

raças, de condições, de inteligência, de saber, de virtudes. As

vidas sucessivas, a pluralidade das existências corpóreas é o

fundamento da Gênese da Alma. Obscurecida pelos escribas,

condenada pelos fariseus, negada pelos doutores da Lei, a

doutrina da pluralidade das existências é a proclamação de

todos os atributos de Deus; satisfaz a razão, alegra o

sentimento e está escrita no cenário do mundo, em todos os

lares, em todas as sociedades com fatos que se, não podem

negar; a Natureza inteira a proclama como verdade

incontestável!

Folgamos imenso que as nossas demonstrações sejam

proveitosas a todos aqueles que começam a abordar tão

transcendental assunto, ao mesmo tempo que damos graças a

Deus por nos conceder luzes, para, com docilidade,

recebermos as inspirações dos Seus Mensageiros, que

constituem a melhor parte desta obra.

Concluímos secundando o apelo de Allan Kardec,

inscrito na sua Gênese: A CIÊNCIA É CHAMADA A


CONSTITUIR A GÊNESE, SEGUNDO AS LEIS DA

NATUREZA.

A era nova chegou, a época da Ressurreição do Espírito

tardou mas não faltou: os ouropéis, as pompas, os mistérios,

os dogmas, que impediam a visão do Espírito, já começam a

desaparecer, e a Luz brilha em todos os recantos da Terra.

A cada estrofe entoada nos ares à nossa liberdade, a cada

hino dos mundos que nos acenam com suas promessas,

podemos repetir, como estribilho, a vivificante mensagem de

Victor Hugo, que nos foi dada a 7 de julho de 1921:

"O mundo progride; a matéria transforma-se e

aperfeiçoa-se; a força afirma-se e intensifica-se; o Espírito

aclara-se e impera; do atrito de duas pedras chispam faíscas,

das faíscas vem o fogo, e do fogo brota a luz!

O mundo nasceu nas pedras, cresceu no fogo e viverá na

Luz! Tudo brilha, tudo vive, tudo caminha, tudo evolui!

As pedras brilham na Terra, as almas fulgem nos Céus;

os corpos falam e agem; os Espíritos pensam e sentem; tudo

se movimenta, tudo marcha, almas e corpos, estes para a

transformação, aquelas para a Imortalidade!

O mundo nasceu para viver, como o fogo para aquecer, a

luz para iluminar.

O nada não existe: trevas, morte, sepulcros, não são mais

que berços que acalentam as variadas formas da Vida para

entregá-las á Eternidade.

A Natureza é muito grande e muito rica para criar,

educar e dotar os seres que admiram as suas glórias, que se

extasiam aos seus esplendores!

Não há vácuo, hiato, nem lacuna que lhe desvalorize o

mérito; tudo se liga, tudo se afirma, tudo se completa na


Obra Divina da Criação. O mundo sobe e se transforma, a

força vibra e se acentua, o Espírito cresce e se eleva!

Tenhamos fé! A inteligência ilumina suas esferas, e as

consciências despertam maravilhadas para a Luz; os

Espíritos caminham pressurosos para a Verdade!

Tenhamos fé! o mundo progride, o mundo marcha, o

mundo voa; as duas "pedras'" chocam-se e do seu encontro

ressaltam claridades que iluminam a Terra!

O mundo progride, o Espírito impera!

Tenhamos fé! Com os olhos voltados para o céu é que a

alma vê o brilho das estrelas, o poder de Deus!"


FIM

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