A[g1] Nova
Civilização do Terceiro Milênio
Autor: Pietro Ubaldi
Tradutor:
Oscar Paes Leme
ÍNDICE
Prefácio .
A Verdadeira Civilização
O Involuído e a Propriedade
Tipos Biológicos e Métodos de Aquisição
Erros e Ascensões Humanos
As Grandes Unidades Coletivas
A Lei da Honestidade e do Mérito
Rumo a Novo Mundo
Entendimento, Reconstrução,
Progresso
Das Trevas à Luz
O Problema do Mal
A Economia do Evoluído
Pobreza e Riqueza
Problemas Últimos
Conseqüências e Aplicações
O Tipo Biológico do Futuro
Visão (Primeiro Tempo)
Visão (Segundo Tempo)
Comentários e Previsões
O Sermão da Montanha
O Pensamento Social de Cristo
Cristo Perante Roma
Tempestade
Vingança ou Perdão
Nosso Livre Destino
O Dualismo Fenomênico Universal
A Música A Vida Dupla
A Personalidade Humana (Primeira Parte)
A Personalidade Humana (Segunda Parte)
S. Francisco no Monte Alverne (Primeira
Parte)
S. Francisco no Monte Alverne (Segunda
Parte)
Conclusão da Segunda Trilogia
Pietro Ubaldi e Sua Obra
PREFÁCIO
Embora o presente volume também possa
ter significado autônomo e ser lido como tal, vem aqui apresentado como
comentário sobre A Grande Síntese. Este não é livro que se possa retocar,
corrigir, cujo texto se possa ampliar, enxertando-lhe digressões, conceitos
novos. Nasceu de um jato, em dado momento histórico, com determinada função
social e espiritual, através de particular estado psicológico de intuição.
Condicionado por esses elementos especiais e irreproduzíveis, conservou-se
inalterável, como se vazado em bronze, inviolável e firme, qual rochedo que
desafia as tempestades dos séculos. A primeira, por ele prevista e esperada,
desencadeou-se de súbito, quase como resposta da História ao grito de alerta
lançado ao mundo e para confirmar a previsão de seu renovamento. Só hoje, nos
fins desta guerra mundial, se pode começar a entender a verdadeira significação
de A Grande Síntese: ser o livro da nova ordem do mundo, isto é, o código da
nova civilização do III milênio. Livro assim, de essência inspirada e racional
apenas quanto à forma, não pode, portanto, ser refeito ou modificado, pois é
de substância completa, arquitetura equilibrada e estrutura definitiva. Isto
posto, impossível voltar de novo a ele, que é pura intuição e síntese, senão
com outra psicologia e doutro ponto de vista, preponderantemente analítico e
racional, embora muitas vezes a inspiração volte a guiar e iluminar o texto
assim analisado, desenvolvido, completado, aprofundado naqueles pontos em que,
nessa obra não era possível, e ao mesmo tempo lógico, demorar-se. (Foi dito no
capítulo LXXXVI de A Grande Síntese: "A natureza deste livro sintético não
me permite descer a particularidades")
O momento histórico esta adequado a este
comentário. Quem escreve deve saber que alguns conceitos só em determinados
momentos podem ser compreendidos pela psicologia coletiva; é inútil enunciá-los
antes do tempo porque, pelo menos, os leitores contemporâneos não podem
entendê-los. Pois já chegou grande parte da destruição prevista; a dor atingiu
os ânimos; a pobreza, conseqüência da guerra, privando-nos de tantas coisas
humanas, convida-nos e leva-nos compreender a riqueza das coisas do espírito; a
ruína do mundo de nossos tesouros terrestres tornou-as mais necessárias; a
tempestade conduz-nos à razão, através do exame dos pontos fracos do sistema e
do reconhecimento dos erros cometidos. Aí está! A Grande Síntese, o livro da construção, preparado antes do
aniquilamento, quando ninguém o acreditava possível, já está pronto. Este é o
momento de relê-lo, meditando-no, para melhor entendimento. Esse livro é
legado ao atual momento histórico, foi escrito para nele funcionar como viva
força criadora. Evangelho da renovação espiritual, livro da juventude chantado
na soleira do futuro milênio, para além da qual já desponta o dia das novas
construções, essa obra é legada à vida e à sua ressurreição. Universal e
imparcial a sua filosofia, divina filosofia que, como expressão do pensamento
divino, a vida e os fenômenos nos expõem; simples e lógica filosofia dos fatos,
que nos espera para dar nova direção à atividade humana, mais de acordo com o
moderno progresso, isto é, capaz de dar sentido às conquistas mecânicas e
científicas realizadas. Já de tal modo são estas notáveis que, para
conservarem a importância, é-lhe necessário conquistar esta nova sabedoria.
Este volume é o terceiro da segunda trilogia do mesmo autor. A primeira
compõe-se de: 1) Grandes Mensagens e A
Grande Síntese; 2) As Noúres; 3) Ascese Mística. A
segunda, de: 1) História de Um Homem; 2)
Fragmentos de Pensamento e de Paixão; 3) A Nova Civilização do Terceiro Milênio,
com o que completa seu terceiro termo O texto deste escrito (capítulo XVIII)
explicará melhor o sentido das duas trilogias, cronológica e conceitualmente
divididas pelo maior acontecimento de todos os tempos, a guerra mundial de
nossos dias: a primeira trilogia, de espera e preparação; a segunda, de
atividade e reconstrução. Por esta diferente posição do pensamento é que A Grande Síntese se distingue deste
volume. Enquanto na História de um Homem
na luta pela vida terrena se dramatiza essa verdade e nos Fragmentos de Pensamento e de Paixão se
exemplifica essa luta, o ciclo da atuação avança ainda mais, neste livro,
chegando a sua fase de concretização. Aqui se trata, pois, de iluminar, de
clarear A Grande Síntese, de
demonstrá-la melhor, especialmente descendo a pormenores, isto é, à parte
humana, individual, social e moral que nos está mais próxima, com preferência à
parte científica e cósmica, mais afastada e já amplamente desenvolvida. De
fato, o objetivo principal neste trabalho é não só expor e convencer, mas,
acima de tudo, aplicação prática.
Deste modo se fecha este segundo ciclo
da obra, a que seguirá outro, isto é, a terceira trilogia, que começa com o
volume já elaborado: Problemas do
Futuro, seguido por outros ainda em preparo. Tudo isso formará uma só
obra, um único edifício orgânico que, através da solução dos problemas do ser,
se propõe a contribuir para que se construa a nova civilização do III milênio,
preparando a nova era do espírito.
I
A VERDADEIRA CIVLIZAÇÃO
O conceito fundamental de A Grande Síntese pode resumir-se
nestas palavras: ordem em Deus. Esse trabalho[1] apareceu,
com profética vidência, mesmo na véspera do clímax da hora histórica, no limiar
da maturidade dos tempos, a cavaleiro da maior revolução social do mundo, no
momento em que devia produzir-se grande choque de dor a fim de preparar os
ânimos para receber a boa-nova da concepção regeneradora, estranha a este mundo
tão distante ainda do Evangelho. Hoje, que a destruição material e espiritual
de tantos valores antigos preparou o terreno para a reconstrução, podemos
entender muito mais esse livro, filho e precursor dos tempos, paralelo aos
acontecimentos, expressão viva de seu dinamismo, indissoluvelmente fundido
neles e na renovação social e moral que representam.
Os fundamentos desse tratado são
profundos. Ligam-se com a gênese do cosmos, encontramo-los até mesmo no pensamento
criador de Deus. Essa síntese, abrangendo e unificando o conhecimento
científico e filosófico do século, enuncia tão sólido conceito, que é possível
pô-lo como base de nova civilização, e tão dinâmico que pode amparar-lhe o
desenvolvimento. Trata-se de sistema orgânico e compacto em que todos os
fenômenos, do campo cientifico ao moral e social, se prendem em lógica de
ferro, de modo a impor-se à formação mental e racional do homem moderno.
Trata-se de sistema que, ao mesmo tempo, dá a chave para a solução de todos os
problemas, desde os teóricos e abstratos da filosofia até aos práticos e
concretos de nossa vida como indivíduos e como sociedade.
Esta visão orgânica e completa apareceu
pouco antes da hora em que o mundo, saindo da gigantesca experiência, deve
caminhar para a reconstrução. Pode-se, pois, definir tal visão como o plano
regulador da sociedade futura. E, além disso, apareceu em grande curva do
caminho evolutivo do homem, no ponto critico de nova maturação biológica,
cujo grande significado se compreenderá mais tarde; maturação elaborada em
silenciosa e subterrânea incubação milenar e que explode, justamente agora, em
mortificante e necessário banho de dor, que purifica e renova. Nesse momento apocalíptico
e de ebulição, tal pensamento era exposto como orientação e ajuda, porque
orientação é o que nos falta e, acima de tudo, se toma necessário, pois como
hoje em dia, quem sabe, nunca a vontade de Deus esteve, na terra, tão
luminosamente presente e tão ativamente criadora.
Enquanto, pois, a natural maturação
biológica, presente nas leis da vida, possibilita ao homem na atual plenitude
dos tempos a capacidade de compreender e fazer atuar novos critérios de vida e
novas formas de relações sociais, sucedem-se grandes acontecimentos
históricos, com a função precisa de elaborar novos conceitos e acompanhá-los
até a sua aplicação. O mundo agita-se em guerras destruidoras e cruentas para
aprender a assimilar esses conceitos que se não assumissem corpo tangível sob a
forma de destruição e de dor, não seriam percebidos pelo homem surdo e
indiferente dos nossos dias, vivo só na carne, mais ainda adormecido no que diz
respeito ao espírito. Chegou a hora de compreender essa profunda sabedoria da
História, esse sentido criador que possuem os acontecimentos que elaboramos e
seguimos, esse significado divino presente em todos os fenômenos. O homem, em
milenar ascensão, vai despertando formas mais sutis de sensibilidade e de
consciência mais perfeita. Já se percebem no horizonte os clarões da vida nova
do espírito. Lá, no futuro, há verdadeiro incêndio de esplêndidas afirmações e
criações novas; e a divina lei de evolução que o homem, embora lhe resista e se
atrase, fatalmente ali chegue. Chegou a hora de dizer ao homem: Levante-se,
filho de Deus, sob forma de consciência mais esclarecida, em estada social
mais orgânico e completo, supere a ferocidade atual e civilize-se finalmente,
mas a sério. Chegou a hora de compreender que a nossa assim chamada civilização
atual não é civilização, mas barbárie, e no fundo o homem moderno é primitivo e
inconsciente, pobre fantoche completamente ignorante, presunçoso e prepotente
quase sempre, cego e rebelde, e, apesar disso, sem o saber e querer, obediente
à lei que o guia, e que tudo sabe, tudo faz por ele, o manobra como autômato e,
sem que ele o saiba, lhe traça a história, prepara os acontecimentos, entrosa
os choques, apresenta as soluções, impõe as conclusões, elevando os lideres,
edificando e destruindo, exaltando e abatendo, de acordo com sabedoria
desconhecida pelo homem. Chegou a hora de compreender o significado das ações
que indivíduos e povos todos os dias realizam, sem que lhes conheçam o
verdadeiro significado e as conseqüências. Chegou- a hora de tornarmo-nos
conscientes colaboradores de Deus no plano construtivo do que ele criou em
nosso campo terreno ao invés de estúpidos servidores de Satanás, em absurda
obra de rebelião. Chegou a hora de compreender, como mais inteligentes; de
confraternizar, como mais honestos e justos; de colaborar, como mais
conscientes.
A vida não pára, é movimento que não se
pode fazer parar; deve, pois, inexoravelmente, amadurecer alguma coisa. Esse
caminhar da História hoje se aproxima da grande curva, onde com o nosso século
se completa novo ciclo de civilização e se prepara outro. Sintomas sutis
advertem desse fato os intuitivos que sabem percebe-los; isto nos vem indicado
pela concatenação dos ciclos históricos, pela lei do equilíbrio nos
desenvolvimentos e pela lei do equilíbrio entre ação e reação. Esta é nossa
fase, tal como está inscrita na lógica da evolução orgânica do
universo; esta é nossa posição no tempo, na série das maturações milenares;
este é o elo que hoje devemos soldar. Ai
estão os germes, mas os germes foram feitos para desenvolver-se, aí estão as
causas que tendem a atingir o efeito. A Grande Síntese é alarma estridente,
antecipação reveladora, chamamento da atenção para profundas realidades ainda
não vistas, advertência desesperada, apelo que acontecimentos mundiais logo
sublinharam e justificaram. Aquele brado de alerta - já foi lançado e ninguém
pode extingui-lo, do mesmo modo que não há incompreensão humana a quem Deus
tenha concedido o poder de parar a História ou a vida.
Trata-se de concepção que, se nos
princípios adere ao Evangelho, tem agora meios próprios de demonstração e o
escopo de, pela torça da razão, atuar na vida individual e social, onde é
praticamente nova. Nova forma mental, orgânica e harmônica, substitui aqui a
antiga, inorgânica e caótica, mas neste sentido: não mais o indivíduo permanece isolado do
conjunto, mas se enquadra harmonicamente no funcionamento orgânico do universo.
Enquadramento gigantesco, em que a vida se torna imensa. Pode objetar-se que o
indivíduo é o que é. Indiferente a tudo isto, completamente aprisionado na
visão estreita de interesse egoísta, está léguas e léguas afastado de
semelhante orientação. Mas pode-se também responder que essa é ignorância da
mais profunda realidade da vida, ignorância de que ele sofre os danos, até
mesmo nos próprios cálculos utilitários e egoístas; danos que deve sofrer,
porque a sua. inconsciência não pode impedir o funcionamento das leis da vida e
as reações das suas forças. Pode-se também responder que o progresso biológico
é fatal, porque a evolução constitui tendência fundamental do ser e
o homem, embora involuído, inerte e rebelde, deve mais cedo ou mais tarde ser
impelido para o alto e transformar-se, cedendo ao irresistível e divino impulso
contido na essência das coisas. Em A
Grande Síntese, o desusado atrevimento da utopia foi valorizado e
enfrentado com conhecimento. Isso não é loucura, mas resulta do confronto da
vontade e da força, de que o homem dispõe, com a potência volitiva e dinâmica
das divinas leis da vida, possuidoras
dos meios necessários para atingir seu
escopo e que sabem muito bem consegui-lo. Há, de certo, luta entre o anjo e a
besta, mas é da lei a vitória do anjo.
Muito embora o
homem resista; não se lhe pode interromper a ascensão. A vida .obedece a lei e,
através de mecanismo de. instintos, de reações e de fatalidade, de fato o
homem a cumpre, apesar de não compreender ou não querer. O mecanismo que a
executa, o sistema de forças motor desse mecanismo está mesmo dentro do homem,
implanta-se-lhe na própria estrutura, pertence-lhe ao ser. Mas a este
cumprimento da lei se chega através de. erros e de conseqüentes retificações
expiatórias; é, pois, fatigante e doloroso. Em A Grande Síntese se ensina, pelo contrário, a respeitar essa lei
inexorável, à custa do menor dano e com a maior vantagem, possível; e ensina-se
como, nesse complexo sistema de forças que é o universo, há de
alguém movimentar-se, sem doloroso choque a cada passo. O que torna atual essa
síntese, em correspondência estreita com a momento histórico e com a moderna
fase de evolução humana, é a maturidade do tempo, é o
desenvolvimento nervoso e intelectual que torna o homem, hoje, apto a receber
e aplicar na vida estes princípios que, se. tivessem sido enunciados há anos
atrás, não teriam sido aprofundados,
analisados cientificamente, racionalmente demonstrados. Por isso aquele escrito
apareceu em nosso momento histórico como novo ensinamento, paralelo à nova
capacidade de compreendê-lo.
Hoje essa compreensão é necessária e
não apenas possível. O homem vive e move-se em campo de forças inteligentes,
em que se emaranha; forças que, em face de sua agitação inconsciente e
desordenada, reagem e lhe fazem pagar caro o erro. Ora, se por causa de menor
conhecimento e disponibilidade de meios, esse erro era até agora mais limitado
e, portanto, de conseqüências mais suportáveis, hoje que o progresso técnico e
científico dilatou imensamente o raio de ação humano e aumentou o poder humano
de incidir no dinamismo fenomênico do planeta, hoje não se tolera mais a
própria ignorância, porque conduz a conseqüências práticas que, agigantadas
pelo aumentado domínio de meios e possibilidades, podem tornar-se
catastróficas. Vimo-lo na potência destrutiva da presente guerra. Estamos em
período de desequilíbrio, porque o poder de agir é hipertrófico,
desproporcionado ao poder de entender e iluminadamente dirigir a ação. O
desequilíbrio está presente, hoje, em todas as nossas coisas e em toda nossa
vida. Mas o próprio desequilíbrio é criador, luta, esforço genético. Procura
desesperadamente reequilibrar-se, hoje, em plano mais alto, em ordem mais ampla, ordem em que o homem inclua
e assimile elementos novos. Daí a necessidade de pensamento que seja dado como
orientador desse esforço biológico, a necessidade de o homem, esse menor de
idade, aprender ainda, não destruindo o preciosíssimo progresso científico já
alcançado, mas completando-o com paralelo progresso moral; de modo a
equilibrar-se a ascensão da matéria com proporcionada ascensão do espírito. À
vida se rege, como já dissemos, por leis inteligentes que têm fins próprios,
querem e sabem atingi-los, querem a perpetuidade e não a catástrofe, permitem o
perigo, mas como elemento do esforço concluído com a salvação. É,
pois, fatal eliminar-se a desproporção entre o desenvolvimento material a o
espiritual e restabelecer-se o equilíbrio.
A vida quer. Por isso, na certa o espírito retomará amanhã a dianteira.
Aos detentores do poder e aos lideres
das finanças e da indústria pode o problema do mundo parecer simples problema
técnico. Não é, porém, problema técnico somente. E isso porque, se as grandes
agitações sociais se desencadeiam para conquista de objetivos concretas,
utilitários, de interesse econômico, a verdade é que a vida, além de vasta e
complexa, é una e unitária. Se é esse, pois, seu aspecto, sua fase construtiva
de momento, ainda existem sempre, embora momentaneamente adormecidos, em estado
de latência, os outros aspectos da vida, principalmente o moral, hoje
estacionário. É justamente esse o lado oposto, mas complementar, do
hipertrófico progresso material de nossos dias. Ora, uma vez que as leis da
vida impõe, em todos os pontos, desenvolvimento harmônico e progresso
equilibrado, é lógico esperar-se, agora, correspondente desenvolvimento espiritual,
para compensar o contemporâneo excesso de progresso material. Quem conhece a
organicidade funcional do universo deve admitir que o esforço genético das
formas biológicas não pode criar o novo e gigantesco indivíduo coletivo, filho
dos nossos tempos, assim desproporcionado, sem equilibradas
correspondências simétricas, só membros e forças, sem paralela sabedoria
diretora desses membros e dessa força. Esta sabedoria é justamente aquela que A Grande Síntese antecipa e prepara.
O progresso material de nossos dias
representa, assim, desproporcionado desenvolvimento unilateral. O ponto critico
tangível, resultante desse desequilíbrio e revelador dessa desproporção, é a
moderna guerra de destruição. Trata-se de fase transitória, formadora de
excesso que as leis da vida devem corrigir e reequilibrar, reagindo em sentido
oposto. Desse modo, demonstra atrofia espiritual a crença de que o problema do
mundo seja problema técnico, utilitário, de recursos e matérias-primas. Mas por
isso mesmo surge a complementação do organismo com o desenvolvimento do lado
atrofiado. A guerra de destruição nasceu do fato de que, o novo poder da
técnica, sendo mecanicamente acessível a todos e, assim, à maioria involuída,
foi empregado sem discernimento. os resultados práticos do progresso acabaram
indo às mãos do homem ainda não moralmente desperto, sem preparo,
insuficientemente sábio para fazer bom uso do novo poder. Foi o mesmo que pôr
faca em mão de criança. Por isso antigamente a sabedoria era mistério para o
povo. O progresso mecânico acabou sendo entrega de arma perigosa a mãos
inconscientes. O homem de hoje em dia, moralmente deficiente, foi tomado de
surpresa diante das novas possibilidades que a ciência lhe oferecia. Corpo de
gigante com cérebro de criança de peito. Resultado: entrechocar-se o homem com
dolorosa experiência, para que aprenda na dor e ela o obrigue a completar-se do
lado do espírito. Assim, através do sofrimento, as leis da vida hão de
reequilibrar o homem, que, a par de progresso material, conseguirá correspondente
e proporcionado progresso espiritual. A
Grande Síntese não é pensamento isolado, mas força viva que, colaborando
com os impulsos biológicos, tende a reposição, em equilíbrio e contribui para
esse progresso espiritual.
Aquele livro e estes comentários por
isso se dirigem mais aos homens do futuro que aos de nossos dias, isto é, a homens
para quem estas afirmações não serão anacrônicas. O homem de hoje, cético, há
de sorrir. Mas o certo é que todo o plano dessa construção espiritual obedece à
lógica, que não é a lógica míope do momento que passa; visa a objetivos elevados
e longínquos que não se identificam com o de salvar-se e fruir a vida;
corresponde a pressentimento, a visão profética, a fé antecipadora, a sentido
de missão, razão por que o autor deste livro não espera ser logo compreendido,
sabe que em vida nenhum fruto verá e colherá; mas semeia para que outros,
noutros tempos, vejam e colham. Estamos agora na fase negativa. Todavia, quem
conhece o necessário equilíbrio da vida sabe que, por causa de paralelismo
antiético, o não vem antes do sim, do mesmo modo que a noite vem antes do dia.
O cálculo das probabilidades faz-nos crer que os fatos, porque se repetiram
muitas vezes, devam continuar repetindo-se sempre. Mas os equilíbrios da vida
reclamam exatamente o contrário. Exatamente porque determinado fato se repetiu
tantas vezes deve ceder o passo à posição contrária. Por isso, em lugar de
continuação do passado, como vulgarmente se pensa, as situações futuras são,
quase sempre, resultado de retorno ao passado. Confiamos muito nas aparências,
mas especialmente na História, como vimos, as aparências enganam.
Muito na superfície vivemos. E, no
entanto, a natureza é de profunda sabedoria. Se perscrutarmos o íntimo e descobrirmos
o mistério das coisas, aparece algo bem diferente daquilo que habitualmente se
diz, se crê, se faz. Há, no fundo, divina lei, inteligente, boa e sábia, que a
tudo rege e nos guia, como crianças, em direção ao bem. Ela exprime o
pensamento de Deus. O homem, sem grave dano para si mesmo, não pode
substitui-la na direção da vida. Tem todavia, a presunção de fazê-lo e não se
orienta senão por sua ignorância e prepotência. E como hoje em dia essa substituição
se torna cada vez mais extensa e profunda, por causa do aumento da capacidade
intelectiva e da disponibilidade técnica, o perigo correspondente vai ficando
mais e mais grave e ameaçador. Por isso A
Grande Síntese é desesperado brado de alarma solto no limiar mesmo da
catástrofe em que a humanidade poderá encontrar a própria destruição.
Se tudo isso é estranho à moderna forma
mental, alheio à corrente que a maioria segue, se, ao contrário, em geral se
concebe a vida limitada e caoticamente, isso não impede que a ordem e a reação
obrigatória, existentes no mundo astronômico e químico, existam também no
universo moral, naquele mesmo em que, por ignorância das leis que o regulam, os
homens gostam de agitar-se o mais loucamente possível. Essa pobre formiguinha,
a mexer-se tanto na superfície desse grãozinho de poeira cósmica chamado
terra, sabe por acaso o que efetivamente faz e quais as conseqüências do que
faz? A ilusão não é sua herança? Não é absurdo, mesmo, que por ignorância do
modo como funciona a máquina universal, indivíduos e povos vivam eternamente
dando cabeçadas na parede, sem esperança de libertação, oscilando
continuamente entre o erro e a dor? E se se faz algum esforço para sair desse
aperto, por que deve ser tachado de utopia?
Não. Seja qual for a incompreensão, a
resistência, a dificuldade, a fadiga, não é loucura ensinar que se deve superar
a ilusão e a dor e conquistar valores mais sólidos que os valores do mundo. Se
pode parecer utopia, é utopia do Evangelho, utopia decorrente do sublime
paradoxo do Sermão da Montanha, que menospreza a tudo quanto o mundo estima,
utopia de aceitação necessária a menos que se saiba viver como besta ou como
inconsciente ou, então, se volte as costas para a vida tal como a vida é, quer
dizer, a menos que se renuncie à reprodução e se vá em busca da morte. A existência
oferecida por nosso civilizadíssimo mundo moderno não é aceitável senão para
os inconscientes, os involuídos, os desonestos, salvo se, no futuro, complementar-se
em melhor estado, estado que lhe justifique as dores e compense a bestialidade.
Disso se segue: para o homem consciente, evoluído, honesto, a vida é apenas
missão dolorosa, peregrinação de exilado que, passando pelo mundo que não lhe
pertence, se dirige a sua verdadeira e longínqua pátria. Isso tudo pode
parecer utopia; todavia, sem ela nem ao menos a esperança de futura civilização
permanece na palidez mortal do mundo moderno. Animada por essa esperança a
caminhada do Exilado se transforma na fadiga do construtor. Os céticos poderão
sorrir, desviando para a miséria terrena o olhar posto nas nuvens. E haverá até
mesmo quem goze com essa miséria e se sacie. Cada qual julga como quer, mas no
modo como julga revela a própria personalidade.
Não. O Evangelho e as teorias que o
seguem são utopias apenas aos olhos do involuído; o céu só é paradoxo se olhado
aqui do chão. Para quem não é capaz de sentir pela fé ou entender racionalmente
que a vida continua no imponderável, para esses é absurda, por natureza, a
doutrina evangélica da caducidade dos valores humanos. Para o involuído a vida
não é continua, é finita, limitada ao breve período terreno. Questão de
sensibilidade, inteligência, evolução. Mas esta dor dos nossos dias, dor que
acabará por atingir o mundo todo, é dom de Deus para abrir as mentes e
levá-las a compreender a aparente utopia. Estamos numa curva de nossa maturação
biológica, e a dor a acelera. Por isso podemos reafirmar estar próximo o
reino do espírito. O mundo o repele porque, involuído, ainda não lhe compreende
a beleza e a vantagem. Mas sente-lhe a falta, tem fome de algo que lhe falta e
não sabe o que é. O mundo está insatisfeito. Procura e não acha. Por isso se
agita. Só está tranqüilo quem achou. A procura da felicidade preocupa o mundo e
atormenta-o; mas o mundo não a encontra porque se agita desorientado, fora do caminho
certo. Entre ilusões e mentiras perde tempo. Ao invés disso, precisa de conquistar
conhecimento e, como conseqüência, a sabedoria de entrosar-se e colaborar com a
Lei. O novo princípio é ordem. Ordem em Deus e não desordem com Satanás. Em A Grande Síntese não se faz ouvir a voz
deste ou daquele partido, religião ou escola filosófica, mas a voz imparcial
dos fenômenos, que canta as harmonias não só da matéria ínfima, como as das
regiões mais elevadas do espírito. Não se trata aqui de questões puramente
teóricas, de remotos e abstratos problemas filosóficos que não nos dizem
respeito. Trata-se da superação de nossa dor e da ciência que se propõe superá-la
e vencê-la; trata-se de enormes vantagens utilitárias compensadoras do esforço
e do tormento da mortificação a que o homem está submetido; trata-se de,
finalmente, ensinar e viver, não mais como crianças loucas, mas como adultos
cheios de sabedoria. Trata-se de ver com clareza tudo quanto se relaciona com
nosso destino humano, de obter resposta que esgote todos os porquês e todos os
problemas que nos dizem respeito, e de comportarmo-nos, desse modo, com pleno
conhecimento da conseqüência das nossas ações. Loucura continuar a atirar assim
ao acaso e a embater-se continuamente contra reações que estupidamente
desejamos e nos açoitam até sair sangue. Chegou a hora de compreender o
delicado mecanismo dos fenômenos e de civilizarmo-nos, não de brincadeira como
até agora se fez; não mais na superfície apenas, mas em profundidade também;
não só na forma, mas na substância; tanto nos meios como no fim; na matéria e
no espírito.
Completou-se o ciclo de destruição
anunciado por Grandes Mensagens e A Grande Síntese. A divina Lei deixou
atuarem livremente as forças negativas do mal, que desempenharam a tarefa Entramos
na fase construtiva, a vida colhe seus valores positivos e, nos ânimos batidos
pela dor, os reconstrutores encontram o terreno preparado para o trabalho. O
espírito, que através de tanta destruição se libertou de muitas das
incrustações e escórias da matéria, pode finalmente dizer, depois de superado o
profundo desmoronamento da onda descendente do materialismo: eu sou, esta é
minha vez, posso criar. E a vida, que parecia prostrada e morta, torna a
soltar mais forte e mais para o alto, seu eterno grito de juventude. Isso é o
que, irresistivelmente, a lei de Deus quer agora. As forças do mal tiveram o
seu dia. Mas Deus disse: basta. Em todo lugar, ato, fenômeno do universo estão
presentes Seu pensamento e Sua vontade. A História está pronta; os tempos,
maduros. Quer dizer: no ritmo da sinfonia dos acontecimentos humanos, no concatenamento
de causas e efeitos, no desenvolvimento da fatal evolução do mundo, o caminho
do tempo está próximo dessa maturidade e a vida não pode recusar-se a
percorrer e concluir essa evolução.
Aqui como em A Grande Síntese, se
afirma para construir, não se polemiza nem se ataca para destruir. Afirmando
as eternas leis biológicas iguais para todos, aderindo à divina verdade no
Alto, inviolável, a que ninguém escapa e é forçoso obedecer, estamos acima das
divisões humanas. Não falamos de filosofia pessoal e arbitrária, mas objetiva e
pessoal, ditada não por simples homem, mas pela voz dos fenômenos. Essa voz é
verdadeira para todos os vivos, quer creiam nela quer não, quer a confessem ou
a neguem, quer a sigam ou contra ela se rebelem. Deriva de principio diretor,
guia de todas as coisas, exprime o pensamento de Deus. Inútil negá-lo. Esse
pensamento existe. Se às vezes alguém nega a Deus é porque Deus existe e de Sua
existência não existe prova maior do que essa negação. Não se pode conceber e
negar o que não existe. A negação se relaciona apenas com a posição de nosso
pensamento que, seja qual for a verdade, pode oscilar desde o extremo positivo
da afirmação até ao extremo oposto: a negação. A Grande Síntese analisou esse pensamento divino, isto é, o plano
construtivo do universo; a ela remetemos o leitor desejoso de conhecer essa
análise. Ai se diz derivarem as conclusões de caráter moral e social de
premissas tão fortes que se torna impossível removê-las. Aquele livro é, de
fato, demonstração que impõe essas conclusões como obrigatórias para todos os
seres racionais. Porém, com respeito ao "quadro geral", não nos
permitiu demorar em particularidades, exemplificando,. materializando o
conceito no realismo da vida prática. Vamos agora transportar para o plano
humano da ação essa massa de conceitos, transformar em concreto impulso
construtivo a luminosidade desse imponderável, isto é, vamos transformar o
princípio em ação, mas ação que as premissas cósmicas iluminem, sustentem e
justifiquem. Trata-se de dar forma bem mais próxima e tangível, mais
particular, porém mais real (porque mais aderente à hora histórica), mais humana,
atual e prática, aos princípios universais de um tratado universal. Trata-se
de aplicar, dentre as mil e uma verdades humanas relativas, entre as forças
que operam nossa ascensão individual e coletiva, trazer até aos homens cá na
terra, para atuar sobre ela, a eterna verdade de Deus. Trata-se de mostrar nos
fatos o funcionamento ainda ignorado daquelas forças, a ignorância humana no
movê-las e os choques dolorosos que a acompanham. Trata-se de educar para
melhores formas de conduta individual e de convivência social, fazendo o homem
compreender que enormes tolices vinha fazendo até agora, com dano para si
mesmo, e como com um pouco de inteligência e de boa vontade poderia ter-se
poupado a tantas dores. Trata-se de aplicar injeções de bom senso em nossa
sociedade, fazendo compreender que grande vantagem advirá, para cada um e para
todos, de comportamento mais civilizado, independentemente de todo credo e de
todo partido. Civilizar-se é o "slogan" do momento. Isso significa
dever o homem olhar seu próximo com compreensão, superar a ferocidade e o
egoísmo, isto é, a maioria dos inúteis atritos sociais, tão graves para o funcionamento
de toda a máquina, que assim se move com dificuldade, e da qual cada indivíduo
deve suportar a sua parte. A sociedade humana é organismo cheio de passividades
infinitas, gasto por inúteis resistências, sempre em luta interna entre uma
parte e outra. Isto, sem dúvida, exprime a fadiga construtiva do involuído. No
entanto, para que alturas se poderia transferir essa luta, como seria mais
belo e excelente, mais próprio de seres evoluídos, lutar por objetivos mais
sublimes! Como seria mais inteligente e conveniente compreender e admitir as
necessidades do próximo e, dada a necessidade e utilidade da convivência,
torná-la possível com maior senso de concórdia! Que interessam as diferenças
entre os vários planos políticos do mundo, se os imperialismos são todos iguais
e tudo se reduz à substância biológica de vencer para dominar? Não se pode
destruir em ninguém o direito à vida concedido por Deus, não se pode destruir
as forças biológicas que, se golpeadas, ressurgem amanhã em outra parte,
retorcidas pelo golpe, prontas para reagir. Não se pode postergar os
equilíbrios e destruir as leis do universo.
O homem de hoje pode ser ateu,
anarquista, delinqüente, pode crer-se cidadão do caos, árbitro de liberdades
impossíveis. É próprio de cretinos permanecer assim à mercê da desordem e da
ilusão, quando as leis de todos os fenômenos nos falam de ordem, de divina lei
inviolável e onipresente, de ações e reações, de liberdade, mas de
responsabilidade também; falam-nos do enquadramento coercitivo das rebeldes
desordens do mal nos limites da lei do bem; dizem-nos que a dor castiga o
louco que se atreve a violar a lei de Deus. Como é mais útil e sábio para todos
harmonizar-se com essas forças que jamais poderão ser dominadas por nossa
revolta e nos esmagam se contra elas nos rebelamos! Não é insensata essa
brincadeira de desobedecer e pagar pela desobediência, sem nunca sentir vontade
de aprender? A estrutura do universo é o que é, não pode ser alterada. O homem
deve compreender que a dor lhe nasce da desordenada conduta e não está na
criação, que é bem ordenada; não está em Deus, que é perfeito, mas apenas nele,
homem, e que o plano regulador do grande organismo total tende irresistivelmente
para a felicidade, embora pelos caminhos da dor. Isso não é ilusão, mas a
verdadeira meta da vida. Mas buscamo-la onde não está e não deve estar; é
natural que não a achemos. Assim, por meio da dor, a lógica do universo nos
responde à absurda pretensão de subvertê-la. Quanto nos cansamos para errar o
caminho e, no entanto, nosso bem já está escrito na lei natural das coisas;
para atingi-lo bastaria cumprir essa lei expressa na assim chamada vontade de
Deus! Desse modo a felicidade continua sendo meta quimérica, inatingível
miragem. Até mesmo a experiência materialista do século passado a procurou, mas
procurou mal, onde não está. Não a encontrou, naturalmente. Estamos, ainda, no
começo da estrada e precisamos recomeçar tudo. Enganamo-nos. Mas a estrada
existe e aqui o demonstramos.
II
O INVOLUÍDO E A PROPRIEDADE
Começamos das bases concretas da vida,
de seus alicerces no mundo da matéria, de seus aspectos mais realistas, mais
acessíveis e de maior compreensibilidade, mas ao mesmo tempo menos
adiantados Conseguiremos desse modo,
ascendendo pouco a pouco na escala da evolução, atingir no topo os aspectos
mais refinados e espirituais da vida, aqueles a que só os eleitos conseguem
chegar. Em geral, os planos orgânicos segundo os quais se traçam as diretrizes
humanas do funcionamento coletivo são elaborados à luz de concepções
filosóficas, políticas, sociais, todas relativas e artificiosas. Como não se
trata de castelos no ar, de fictícias formas, de produtos de cerebralismo ou
criações de mundo mentiroso, que esconde realidade totalmente diferente, trata-se
então de erigir em sistema o caso particular e relativo do indivíduo que
conseguiu sobressair-se ao ponto de tornar-se expoente. Explica-se dessa
maneira como tais sistemas muitas vezes não se realizam, historicamente
terminem em ilusão, e como ao invés de atingir a meta proposta acabam na
contradição e na luta. É
lícito nos perguntemos agora que é que
de fato acontece sob as aparências da História, que outro plano, diferente do
visto na superfície, atua na profundidade e quais as verdadeiras e efetivas
diretrizes do fenômeno social. O homem comum, de vistas curtas, pode a seu
talante crer em todas as miragens que quiser, sem que a vida se preocupe com
desiludi-lo, exceto diante do fato consumado com que ela termina, não antes.
Esse homem pode imaginar ser a criação o caos a que só a sua vontade saiba e
possa levar ordem, ordem a seu modo e a seu serviço. As forças da vida
deixam-no liberalmente acreditar no que quiser, nisto ou naquilo; somente
quando se trata de concluir na realidade dos fatos, tiram-lhe tudo das mãos e
fazem as coisas a seu modo. Fato é a existência de diretriz dos fenômenos
sociais e dos de toda a vida, independentemente do homem, muitas vezes em
antítese com a sua vontade, muitas vezes para corrigir e dominar sua
intervenção. Na melhor das hipóteses o homem é intérprete, instrumento cuja
trabalho valerá tanto mais quanto mais fiel executor houver sido dessas
diretrizes, quanto mais tiver sabido conformar com elas a própria atividade,
isto é, quanto mais houver sabido agir como função delas, em concordância e não
em choque com o funcionamento universal. A presença de uma Lei, de inteligência
superior aos meios de compreensão do homem normal, e que é mais forte, em
poder de vontade e de ação, do que os meios postos à sua disposição, é fato que
resulta de toda a demonstração de A
Grande Síntese e não se precisa neste livro demonstrar desde o começo.
Essa lei é lembrada, ilustrada e de funcionamento explicado em quase todas as
páginas desse volume, como deste. Tudo quanto, a todo momento, se maneja e se
aplica deve necessariamente existir.
A verdade que, a cada passo, não muda
no espaço e no tempo, o plano firme, o verdadeiro plano orgânico regulador da
História e dos acontecimentos sociais, o real sistema diretor dos fenômenos
coletivos humanos, que de fato age contra as aparências e através delas, não
reside sempre no que o homem diz, afirma e proclama em altas vozes, mas é
estabelecido por essa Lei que, independentemente do homem, conhece e tem nas
mãos as diretrizes da vida. Em outras palavras: se queremos entrar a fundo no
problema e resolvê-lo seriamente, não se entenda o fenômeno social como
fenômeno histórico querido pelo homem, que o dirige e compreende, mas como
fenômeno biológico dependente de leis sábias e poderosas; diante delas o melhor
que se faz é procurar impô-las a si mesmo, mas compreendê-las e a elas
obedecer. Os fenômenos sociais e essa série de acontecimentos componentes da
História, de fato ligados por intima lógica, e que desconexamente na História
relatamos apenas ligados cronologicamente, serão compreendidos apenas se os
reduzirmos ao que efetivamente são, isto é, à substância biológica, a momentos
do funcionamento orgânico do universo e ligados a ele. Plano orgânico diretor
da sociedade humana, se não quisermos andar às cegas na tentativa e cair na
ilusão, só no-lo poderá dar o conhecimento dessa Lei e nossa adesão a ela; as
normas diretoras da vida coletiva não podem ser artificiosa criação humana,
conseqüência de premissas abstratas, fora da realidade, mas devem ser as
próprias normas de toda a vida aplicada ao caso especial da sociedade humana.
Quem no próprio caso se separa do todo, quem concebe os fenômenos isolados,
permanece alheio à organicidade do todo, que é conjunto conexo e compacto,
unitário e impecável. Era necessária tal premissa, que nos garantisse base de
absoluta solidez, premissa indispensável para quem quiser construir seriamente,
construir sem espírito de partido, não para uma classe social apenas, de acordo
com interesse particular, para vantagem de um só grupo ou povo, mas construir
universalmente, com estabilidade, acima da luta e das divisões humanas. As
afirmações e conclusões que derivarem dessas premissas, mais do que opinião,
teoria, produto pessoal, serão simplesmente o resultado da verificação
objetiva do funcionamento das leis da vida, serão a própria expressão delas,
assim proclamada pela própria voz dos fenômenos. Procuramos com isso alcançar a
imparcialidade e a solidez. De verdade partidária e interessada não saberíamos
o que fazer. Nada se cria com isso. A solução do problema já existe; trata-se
apenas de sabê-la ver e com simplicidade expô-la. Ligamos, pois, o fenômeno
social, com o qual ficamos marcados, ao conceito fundamental de A Grande
Síntese resumido no princípio: ordem e Deus.
Os fenômenos
humanos, políticos e sociais, encontram, pois, sua expressão mais simples na
vida animal; nessa, que os encerram em embrião, têm as raízes; são os mesmos fenômenos
levados a mais alto grau evolutivo. Os problemas sociais, no fundo são os
mesmos fundamentais problemas da vida. isto é fames e libido,
conservação do indivíduo e multiplicação da espécie, comida e sexo. Crescimento
demográfico, imigração, guerras, expansão, dominação, vitórias e derrotas,
capital e trabalho, propriedade, coordenação de funções, disciplina das
relações impostas pela convivência, aí estão problemas que a vida conheceu e
resolveu antes de o homem tê-lo feito e, mesmo sem ele, em outros agregados
sociais animais; resolveu-os segundo os princípios eternos, participantes do
sistema orgânico que em toda parte rege todos os fenômenos. Não poderemos
resolver esses problemas, como hoje se nos apresentam, na fase evolutiva ao nível
humano atual senão de acordo com os mesmos princípios por que as leis da vida
os resolveram em graus evolutivos mais elementares, seguindo a lógica íntima
segundo a qual foram construídos, penetrando-os em profundidade, reduzindo-os
à essência. Veremos quanto tudo isto os torna mais claros e simples, lógicos e
harmônicos. Sob as mais desvairadas teorias sociais, sob as mais complexas
superestruturas ideológicas, o homem aplica simples leis biológicas, luta e
progride biologicamente segundo os métodos da vida e para atingir-lhe os
objetivos, seguindo as estradas já praticadas na vida animal, pois a vida é uma
só para todos e guiada por lei única, embora diversamente adequada aos diversos
planos evolutivos. Essa unidade de diretrizes é a base da fraternidade de todos
os seres, que os mais adiantados sentem e não é utopia; fraternidade não apenas
entre todos os seres, mas entre todos os fenômenos. E o homem inclui-se no
âmbito da divina lei que, apenas com um princípio unitário, rege todos os seres
e todos os fenômenos.
Os especiosos apelativos modernos, os
inumeráveis "ismos" com os quais se definem os vários sistemas
humanos podem ser entendidos apenas se assim reduzidos a seu denominador comum
biológico. Essa substância liga-os e reconduz à única verdade mãe de todas as
coisas, à que permanece constante acima de todas as formas, em todos os
climas, tempos e. povos, à verdade aplicada, por todos, embora calada,
combatida, negada. Assim, os problemas sociais se reduzem, na base, à luta para
obter meios de vida, garantir-lhe a posse, proteger-se e à família e os
filhos. Desse modo nascem os problemas do capital e do trabalho, da
propriedade, da família e dos institutos jurídicos fundamentais. Se a
substância do Direito não muda através dos séculos, devemo-lo ao fato de ela
exprimir eternas leis biológicas. O progresso aperfeiçoa as relações,
completa-as nas particularidades, melhora-as na substância, fazendo-as progredir,
cada vez mais, em direção à justiça; mas a raiz não muda. O Direito só pode ser
entendido, se o referirmos a sua substância biológica. Tem sentido apenas como
ato de coordenação que, cada vez mais harmonicamente, exprime essa substância.
Muitas vezes, pois, ao contrário, na base do direito público e privado se
colocam abstrações metafísicas, axiomas arbitrários, premissas não enquadradas
na fenomenologia universal e não justificadas pela realidade dos fatos. As
verdadeiras premissas dos fenômenos sociais, enquanto fenômeno da vida são biológicas e não filosóficas,
metafísicas, políticas.
Isso posto e esclarecido,
classificam-se os homens, não teoricamente, com base em premissas artificiais e
sistemas arbitrários, mas conforme seu real valor biológico, isto é, o grau de
evolução atingido. Essa classificação diz respeito à intima e real natureza do
indivíduo e é a única a levar em consideração a substância. Não é o caso de
demonstrar aqui a realidade da evolução, embora no plano das ascensões humanas.
A verdade desse fenômeno fica demonstrada em cada página de A Grande Síntese.
Resulta da observação que, segundo o próprio grau de evolução, muda a
estrutura orgânica, nervosa e psíquica, e o estilo de vida do indivíduo. As
classificações sociais, face a essas fundamentais diferenças de peso
específico individual, são simples estruturas de todo fictícias, instrumentos
de luta, meios de esconder a realidade que permanece debaixo, inviolável, a
verdade pronta a revelar-se a qualquer momento. A nossa assim chamada
civilização é em grande parte questão de forma, simples verniz: A fase de legalidade
jurídica atingida por nós é manto que cobre bem ou mal essa substância
biológica; o homem, se graças a ele pode parecer diferente, permanece
substancialmente o que é na realidade biológica. Se se trata e ladrão ou
delinqüente, o ordenamento jurídico poderá impedir que continue a prejudicar,
mas ele permanece o que é. Isso, e não o que aparenta, é o que interessa
conhecer. Posição social, poder econômico, valor aparente não tem importância.
E até as classificações sociais, enquanto não corresponderem à classificação
biológica, carecem de importância.
Isso nos permite levantar o véu das
aparências e penetrar na realidade da substância. Tudo fica mais verdadeiro,
mais simples, mais compreensível. Assim, por exemplo, explica-se o
materialismo como fenômeno de involução, fase de descensão evolutiva,
antecedente de novo surto evolutivo, e se compreende a psicologia negadora do
materialista e do ateu como a de primitivo incapaz de sentir as forças do espírito.
Assim, embora mais inferiores, o delinqüente, o anarquista, o gatuno são apenas
tipos biologicamente baixos, ainda não civilizados na substância, não importa
se o sejam na forma. Em nossa sociedade, podem prosperar até mesmo sob as
normas da legalidade, mas em civilização verdadeira, que não considerasse,
apenas a superfície, mas também a substância, isso não deveria ser possível. É
evidente que não se pode levar a sério senão uma civilização em que isto não é
possível. Todavia, quantos e quantos indivíduos hoje folheiam o código e
aprendem a não infringi-lo. Esses aprenderam somente a afiar as armas, a
conquistar em astúcia o que perderam em brutalidade, ao invés de transformar-se
evoluindo, firmam-se na estrada da involução. Permanecem inadaptados à
verdadeira vida coletiva orgânica consciente. Que importa a forma, se na
substância continuam agressivos egoístas, ignaros da sociedade como o homem
das cavernas?
Face à propriedade, primeira disciplina
na aquisição dos bens esse tipo biológico revela-se o involuído que é. Está
sempre pronto a roubar, apenas a reação protetora e defensiva da lei possa ser
evitada, de modo a não produzir-lhe dano. Tal tipo deve ser muito comum pois a
lei e o costume humano foram constrangidos a partir da presunção de má-fé, até
prova em contrário. Não tem senso de propriedade senão da própria e só o temor
de uma punição o induz ao respeito alheio. E a ameaça defensiva pode tornar-se
até mesmo educativa, enquanto este pouco a pouco aprende, através dos séculos,
mais elevadas formas de vida. E, paralelamente, a defesa da propriedade pode
assim tornar-se cada vez menos férrea, brutal, material e cada vez mais
pacífica, simbólica e imaterial. Essa defesa será cada vez menos feita por
muros, por grades, por armas, por sanções materiais e cada vez mais reduzida a
simples sinal indicador, a reações menos violentas, a sanções puramente
morais; mas embora a defesa se desmaterialize, isto é, tenda à própria anulação
no entendimento pacífico, é sempre o temor da pena que inibe esse tipo
biológico e isso o revela como involuído. Mas, involuído que talvez já tenha o
pressentimento de formas sociais mais elevadas, nas quais não domina já a
usurpação e a força, mas o direito e a justiça. Tem o senso da superioridade do
sistema bem diverso do evoluído e nesse sistema procura mimetizar-se para
melhor esconder-se, justificando-se. Por isso eles gostam tanto de recobrir-se
com o manto da justiça e eternizar-se no poder, para fazerem da autoridade, que
é dever e missão, base de direitos e arma de ataque e defesa. Como o assalta a
preocupação de justificar-se com encenação de legalidade! Com que cuidado
procurava o Sinédrio dar forma legal de juízo à supressão de Cristo; com que
trabalho procuravam os assassinos de Luiz XVI aparecer como juizes e não como
assassinos comuns! E que satisfação para os homens poder, em todas as
revoltas, roubar e matar legalmente, isto é, seguramente, sem temor de sanções
punitivas, único obstáculo para eles, e fazê-lo como autoridade alta e
tranqüila e não mais com a incerteza e o perigo de ladrões! E se a coisa dá
certo o resultado da força e do furto assim se estabiliza e se regulariza
depois sob o manto de legalidade humana que, como se crê, basta para tornar
justo o injusto. Pobre autoridade e pobre propriedade! Que triste gênese, que
posição ao nível do involuído e que grande caminho para purgar e resgatar
aquele pecado original! Mas, apenas em qualquer convulsão social o exercício da
sanção jurídica diminui de intensidade, já vemos o involuído, mal possa fazê-lo
sem perigo, tirar a máscara e revelar-se o que é, dando-se abertamente ao
furto, a forma primitiva de aquisição da posse, forma própria do involuído.
Esse é caminho mais breve do que o trabalho, forma própria do evoluído, que o
revela e presume estado orgânico coletivo ignorado na fase inferior do outro.
Todavia, embora seguro da impunidade, o involuído, em, defesa, para
justificar-se perante a própria
consciência e a consciência alheia e a si mesmo dar, ao menos a ilusão
de ter as mãos limpas, gosta sempre de assumir posição de justiceiro como
agressor do rico e protetor do pobre; enfim, de camuflar-se de evoluído para
fazer mais bela figura e não passar, coisa que mais o desagrada, pelo ladrão
que ele percebe ser; e, afinal, para melhor servir-se, mais cômoda e
seguramente, no banquete - seu supremo objetivo, assim vestido de juiz. Por
mais astuto, porém, que o involuído possa revelar-se diante de tudo isso, todos
compreendem que realidade se esconde debaixo da mentira, reveladora de toda a
miséria moral do primitivo. Inútil camuflar-se. Roubando, não se pratica o
bem; não tem valor a esmola que se faz com as coisas alheias. Embora se disfarce,
o ladrão bem sabe que, enquanto ladrão, não está, não pode estar do lado da
justiça. Mesmo que o rico tenha sido ladrão, não é lícito roubar, nem mesmo aos
ladrões. É inútil que o ladrão procure tornar justo seu furto, acusando de
furto quem roubou antes dele. É vã sua desesperada tentativa; belo e bom
pretexto para enriquecer comodamente; simples astúcia que pretende dar a
entender se possa roubar honestamente. O involuído chega até à astúcia, mas
não pode subir mais, isto é, até à honestidade. O método que ele escolheu,
embora camuflado, o revela, em flagrante, tal qual é: involuído, primitivo,
ignorante. Não conhece as conseqüências e ilude-se. Esses justiceiros
fingidos, que pululam, apenas a ordem social enfraqueça a reação defensiva,
não sabem que, embora tenham conseguido, por meio da astúcia, fraudar a lei
humana e apareçam cobertos pelo belo manto da justiça, deverão todavia, por lei
biológica, mais cedo ou mais tarde, pagar com os próprios bens.
Poder-se-ia, porém, virar a medalha e
ver a injustiça, oposta, vinda desta vez da parte da classe dominante, que se
revela disposta apenas a defender-se a si mesma. É verdade: quem rouba é
sempre ladrão; mas, também, muitas vezes é pobre a quem a lei biológica grita:
você tem direito à vida. Esse direito de todos, até mesmo dos deserdados, é
espécie de justiça, seja embora na forma primitiva do involuído. O evoluído
não recorre a ela, nunca, por nenhuma razão, mesmo à custa da própria morte.
Mas o involuído que, falto de outros recursos, deve, todavia, viver, pode ser
constrangido a recorrer. O esmagamento do pobre, sua expulsão da ordem dos
vencedores, ordem imposta para vantagem exclusiva destes, lhe justificam a
revolta. E, então, a vida social reduz-se a luta de igual para igual, entre
igualmente injustos, entre igualmente involuídos.
A rebelião do oprimido, por sua vez,
justifica a posição defensiva e opressiva dos ricos dirigentes. Decaídas as aparentes
distinções humanas, restam a qualidade comum de involuídos, única distinção
interessante, e a característica de injustiça, inerente a seu sistema, que os
iguala na mesma culpa e nas mesmas conseqüências. A vida social é, assim, na realidade,
corrente de injustiças, de afrontas e reações; todos têm e, ao mesmo tempo, não
têm razão; todos são credores e devedores, com a resultante estável, em que
todos se reencontram, de invariável regime de incerteza e de ódio. O tipo
biológico evoluído compreendeu, ele somente, a utilidade de diferente sistema
de agir, de justiça ordenada; compreendeu, acima de tudo, que isso não se pode
inaugurar com a injustiça do lado, exatamente, da parte que reclama justiça
apenas para si mesma, mas tão-só com a justiça praticada, antes de tudo, por si
própria em relação aos demais, sem nada pedir-lhes à injustiça. Só com tal
sistema pode resolver-se o problema. Mas o involuído compreende apenas o
sistema primeiro e este não basta para resolver o problema. Contudo, é de
lógica elementar a compreensão de que a estabilidade só se obtém com o
equilíbrio. Ao invés, o involuído prefere acreditar que se possa obtê-lo com o
esmagamento e o engano. Absurdo. Mas, se compreendesse, não seria involuído;
apenas chega a compreender, muda de sistema e se toma evoluído. No entanto,
hoje de involuídos se formam as massas humanas, que não imaginam serem O poder
obtido pela violência e a propriedade obtida pelo furto é apenas ilusão e
traição e, por isso, prejudicam e não ajudam a quem lhes adquiriu a posse; não
imaginam que isso, por inviolável lei da natureza, é verdade igual para todos,
como é de justiça. O homem comum, crendo-se árbitro de tudo, nem suspeita
mover-se em meio a organismo complexo e perfeito, de forças muito mais inteligentes
e poderosas que ele; se, sabiamente, soubesse mover-se de acordo com elas,
obteria a felicidade; movendo-se, ao invés, loucamente, em choque, obtém apenas
perdas e dores.
Subiremos neste volume, pouco a pouco,
até às mais altas formas de vida do evoluído. Mas, na base da humanidade, o
involuído, em número predominante, se acha presente; a observação do fenômeno
social não nos oferece de importante senão o espetáculo da sua psicologia.
Nossa humanidade é primitiva. riquíssima de energia. mas pobre de sabedoria;
extremamente dinâmica e extremamente ignorante. É fato conhecido. O homem é o
que é e está bem onde está. As dores que o gravam lhe são proporcionais à
sensibilidade e à ignorância. As provas que encontra e deve superar são as da
sua classe, do seu nível evolutivo, adaptadas a suas capacidades. Para sermos
práticos e compreensíveis devemos permanecer ainda nessa atmosfera, com o
objetivo preciso, porém, de levar-lhe a luz que lhe falta. Insistamos, pois, no
fenômeno basilar da propriedade, iluminando-lhe, porém, o conceito. O conceito
jurídico e moral não basta. Nesse campo, estamos cheios de ilusões. O lado
imponderável, que afinal pesa tanto ao ponto de revelar-se e impressionar o
ponderável, nos foge, quase completamente, também nesse caso. Os princípios
jurídicos fazem crer ao involuído que para tornar estável e segura a
propriedade bastam as garantias sociais e jurídicas. Eis, contudo, o que de
fato acontece muitas vezes. Procura-se adquirir a propriedade através de qualquer
meio, aí compreendido, se necessário, o furto. Será descarado e as claras em
períodos de desordem; velado, astuto, nos períodos de ordem, legalizado na
forma, para poder evitar a relativa sanção jurídico-social. Debaixo das
aparências da legalidade trabalhará, imperturbável, o instinto de ladrão,
característico do involuído. Embora atingida a posse, que é o objeto, através
de furto mais ou menos evidente (não é fácil acumular riqueza, rapidamente,
apenas com o trabalho honesto), o primeiro instinto do ladrão é consolidar a
posição, procurando segurança na legalidade que o proteja. Ninguém, mais do que
ele, tem necessidade, para esse fim, do instituto da propriedade porque
ninguém, mais do que ele, está em posição precária e tem urgência de garanti-la
e estabilizá-la. Justamente o filho da desordem tem maior necessidade da ordem,
necessária para gozar em paz os frutos da desordem. Assim, ninguém mais do que
o revolucionário sente a necessidade de, enquadrando-se na legalidade,
justificar essa posição, de, transformando-a em autoridade, garantir a atitude
de violência. Atingido o objetivo, o involuído procura tirar vantagem das
formas de vida mais evoluídas, das conquistas superiores feitas no ordenamento
social, não por tipos do próprio plano, mas por mais adiantados. O ladrão e o
violento apressam-se, então, a limpar de novo as mãos e assumir a atitude de
pessoas de bem, naturalmente merecedoras do respeito de que necessitam pala
gozá-la em paz. Com que ânsia procuram, então, esconder as origens obscuras e o
passado desonesto, cobrindo-se de títulos, benemerência, relações conspícuas,
envernizando-se de incorruptibilidade e senhorilidade! É a sua evolução. Serão,
dai por diante, os mais encarniçados conservadores, os homens da ordem, porque
só agora dela fazem parte. Mas esqueceram quem ficou para trás e, na miséria,
espera a oportunidade, enquanto se civilizam e debilitam no bem-estar, de fazer
nas suas costas o mesmo jogo por eles feito contra os que chegaram antes deles.
O resultado final é interminável subir e descer de indivíduos em constante
regime de engano e de furto, todos em luta entre si; todos igualmente ladrões
e violentos, à caça de conquistas efêmeras, ladrões de miragens. Levando-se-me
em consideração a psicologia e ignorância das leis da vida, é natural esse
modo de agir. Mas, através de tantas fadigas e astúcias, conseguem eles o
objetivo a que se propuseram? A propriedade significa tentativa de
estabilização de fase desse ciclo, mas a tentativa falha. O instituto da
propriedade se reduz, desse modo, por parte da sociedade, ao reconhecimento
oficial do furto consumado, à homenagem que a vida presta ao vencedor só
porque é vencedor. A Revolução Francesa, camuflada de justiceira, não acabou
em nova aristocracia napoleônica? Vale a pena fazer esse jogo de riqueza a
turno? É certo que, com essas alternâncias, a vida atinge uma espécie de
justiça distributiva, mas também é fato reduzir-se a propriedade, entendida
como instituto jurídico protetor e coordenador, a tentativa falha, porque
na realidade não atinge seu objetivo, não constituindo sólida garantia. A
construção humana falha, pois. Vistas assim as coisas, além da aparência, na
substância, podemos concluir que apenas a lei biológica não falha e atinge seu
objetivo, a justiça, seja embora apenas a tornada possível pela ignorância humana.
O escopo da vida não é o enriquecimento de ninguém, mas a existência garantida
para todos, como meio para atingir fins mais elevados. Ela nos deixa a fadiga
da luta, como prova para aprender e evoluir.
Depois dessas reflexões nos damos conta
de quão falso e incompleto é nosso conceito de propriedade. Na realidade, não
é apenas instituto jurídico que as convenções sociais bastem para regular, mas
jogo de forças vivas e inteligentes em movimento no campo da vida de acordo com
leis próprias. Daí segue que a estabilidade não pode ser qualidade exterior,
com a virtude de modificar-lhe a essência intima e corrigir-lhe os erros
cong6enitos; mas é qualidade interior, posição só resultante de estado de
equilíbrio. Daí, ainda, novo modo de entender as formas de aquisição, modo
contrário ao em voga. Em outras palavras, a tão procurada estabilidade não é
absolutamente, dada pelas exteriores garantias jurídicas, mas por íntimo e
substancial estado de equilíbrio dos impulsos constitutivos do fenômeno; ou,
então: por muito tempo poderá reger-se estavelmente não só a propriedade
juridicamente protegida, condição que se torna de importância secundária e
fictícia, como, também, a propriedade constituída de forças equilibradas ou,
seja, a propriedade adquirida pelo trabalho e não pelo furto. Face a essa
realidade biológica mais profunda, desvanece-se a importância da defesa
jurídica do Estado, substituída pela defesa das leis da vida, defesa muito
mais segura e profunda. O conceito de proteção por meio de individual e livre
cumprimento da lei de Deus substitui o de proteção por meio de convenções
humanas. Qualquer pessoa, então, adaptando-se a ela pode pôr-se em posição de
equilíbrio e, pois, de segurança; qualquer pessoa, rebelando-se, pode pôr-se
em posição de desequilíbrio e, portanto, de insegurança. Essa a substância, a
vida íntima do fenômeno, sua vontade, esse o jogo de forças que o animam e o
levam à conclusão. A legalidade é forma, roupagem qualquer, que nada tira ou
acrescenta à substancia do fenômeno.
O ditado popular "O crime não
compensa" já observou que o ganho por mal não frutifica, não nos causa
gozo, acaba em ruína, traz mais dano que vantagem. Há, pois, além do elemento
jurídico, algum outro, decisivo, invisível, mas de força capaz de desconjuntar
os resultados a que a estrutura jurídica se esforça por chegar. Pode existir,
pois, propriedade que, embora jurídica e formalmente justa não o seja, de
fato, em substância. Então, essa diversa estrutura íntima anula a forma; e a
imperfeição da primeira anula a perfeição da segunda. É necessário, para
perdurar, que a propriedade seja sã, íntegra, justa e inteiramente honesta, da
cabeça aos pés, em todos os momentos, até mesmo nas origens, nas raízes. De
outra forma, por mais que se cubra de justiça formal, é edifício construído na
areia. Existe imponderável lei interior, que tão pouco se leva em conta; lei
de funcionamento automático; lei a que, por ser interior, ninguém escapa,
sempre presente, inerente às próprias coisas. O tipo involuído, dominante não
compreende esse fato elementar, isto é, que o furto, embora nobilitado na
forma, não pode, de fato, apoderar-se de nada e, se o faz, não mantém, o que,
para ele mesmo, é o mais importante. Ora, se quisermos subir para formas de
vida que, a sério, se possam chamar civilização, é necessário que o tipo comum
compreenda não ser a propriedade somente fenômeno biológico natural e
indestrutível, comum até mesmo para os animais, que bem o conhecem, mas
fenômeno determinado também por outros elementos além dos comumente levados em
conta; e, entre todos eles, ter a primazia o mais insuspeitado e descurado: o
mérito. É da lei: se existe mérito a propriedade perdura e rende se não existe,
dura pouco e não rende. A Lei é justa e impõe que cada ato nosso nos renda de
acordo com o que de salutar nele introduzimos de bem ou de mal, proporcionalmente,
isto é: tanto gozo quanto a porcentagem de honestidade e de nosso valor
intrínseco em nosso ato contido; e tanto veneno quanto de mentira e de traição
lhe injetamos. Chegou a hora de o homem compreender: é perigoso manipular as
forças do mal porque, embora dirigidas contra os outros, recaem sobre quem as
maneja; a mentira é perigosa porque gera o erro em quem a diz. A astúcia, a força,
consideradas como armas úteis, tornam-se prejudiciais porque automaticamente se voltam contra quem as
emprega.
Poder-se-ia
contudo objetar: não faltam exemplos de ladrões que conservam e gozam as suas
riquezas. Para responder é preciso dar o significado correto da palavra
mérito. Sem dúvida o furto é a forma original de aquisição de bens. Em
sociedade ainda não civilizada o problema é tirar do mundo externo tudo o que
nos serve, seja qual for o meio. Não se fazem, pois, distinções nos métodos de
aquisição; é indiferente atingir o objetivo com o furto ou com o trabalho.
Estes, em fase caótica de formação então se confundem. Todo meio é bom desde
que atinja o objetivo: viver. Em mundo assim não surgiu ainda a idéia do respeito
à propriedade alheia, idéia que é produto de longa elaboração social na
convivência. Se com o progresso a coexistência dos impulsos leva pouco a pouco
a seu coordenamento, o homem todavia aprende a executar o esforço de aquisição
e, aplicando nele múltiplas atividades, forma os instintos que a convivência
disciplinará em formas mais evoluídas e pacificas transformando-os em atitudes
de produção, em qualidades técnicas, em hábito de trabalho. A fase primitiva
de formação é, em seu tempo e lugar, necessária, embora em sociedade
civilizada revele o involuído. De fato, é através do furto que se formam as
capacidades porque estimula a inteligência e a atividade. Se em fase primitiva
as leis da vida premiam, o ladrão com a posse, isso mostra que ao nível dos
selvagens o sistema pode ser justo e servir a determinada função. Começa-se
assim, por este modo, a formar no indivíduo essas qualidades que mais tarde
constituirão o mérito, isto é, o trabalho, habilidade, primeiros dos elementos
constitutivos do direito de posse e, de fato, adaptados a manter os bens nas
mãos do possuidor protegendo-lhes e mantendo-lhes a posse. O processo evolutivo
que parte do furto vai em direção ao instinto e à capacidade de fazer,
representativos do método de aquisição em plano mais evoluído. A propriedade
não deriva de momento único, mas é formação contínua: é economia de caminho.
Não basta conquistá-la; é preciso saber mantê-la. Pode acontecer então ter o
desonesto, que conquista a propriedade através do furto, adquirido aquelas
qualidades de operosidade e de habilidade que lhe formam a base e lhe permitem
a conservação em sociedade civilizada. Sendo sadio e equilibrado, isto é,
correspondente ao mérito, este segundo momento do processo pode, segundo o seu
valor, sanar e equilibrar o primeiro. Assim, produtos da injustiça podem
transformar-se gradativamente em produtos de justiça; e desse modo se explica
por que se mantêm eles de pé, quer dizer, como alguns ladrões possam gozar em
paz riquezas roubadas. Nestes casos, o pecado original da aquisição ilícita
vai pouco a pouco sendo absolvido e neutralizado por aquela dose de trabalho e
habilidade que o sujeito possui e desenvolve. Essas qualidades ele as
conquistou com suas canseiras; constituem-lhe, pois, o mérito, o direito; representam
a porcentagem de justiça com que pode compensar a injustiça. Não podemos parar
no momento apenas de aquisição da propriedade, pois nas trocas e na administração
ela se reconstitui a cada momento. Pode até acontecer o caso oposto: a
honestidade, na aquisição, ser depois corrompida por dose tão grande de
preguiça e de inaptidão, isto é, de demérito que fique neutralizada em sentido
oposto e se chegue à perda de propriedade honestamente adquirida; isso também
é justo. Assim, a posição do justo pode passar a ser a do injusto; e a do
injusto, a do justo. Como na fase mais baixa o objetivo era roubar para viver,
hoje o objetivo é produzir, e a lei do mérito tende a atribuir a propriedade a
quem melhor saiba trabalhá-la e fazê-la dar frutos para o bem de todos. Esta
higienizarão retificadora pode funcionar mais ou menos, mas a propriedade
permanece sempre na dependência da lei do mérito, isto é, em estrita relação
com a porcentagem de mérito contida no fenômeno, porque essa porcentagem é que
lhe estabelece o grau de justiça e de equilíbrio. Simples caso de relação.
Pode-se assim prolongar a vida de posse viciosa até ao caso-limite do resgate
que se verifica quando todo o débito originário esteja pago com trabalho e
rendimento sociais, como, de outro lado, se pode perder posse justamente
conquistada, usando-a, injustamente. Todo caso depende dos elementos constitutivos
particulares e por isso se desenvolve diversamente. Mas o princípio segundo o
qual se desenvolve é único e imutável: o da justiça e do mérito.
Muda assim o conceito da vida a partir
da mais elementar base da sociedade: a propriedade. Se toda aquisição de bens
pode conter dada porcentagem de furto, é em proporção a essa porcentagem que a
propriedade será corrompida e, portanto, levada à destruição. A propriedade
gerada pelo furto nasce enferma de íntimo desequilíbrio e não pode tornar-se
sadia e resistente senão gradativamente se livrando dessa moléstia; isto
significa ser ela constituída por sistema de forças em equilíbrio estável. É o
mérito, pois, filho da honestidade, da operosidade e do valor individual que
vale, pois estabelece o grau de equilíbrio do sistema, o grau de pureza do
organismo e, portanto, o seu grau de resistência. Se há mérito, a propriedade
embora roubada renasce; se não, automaticamente atrai o furto e por natureza
tende a fugir das mãos do possuidor. Assim, a força protetora dos bens, que
compreendeu tal mecanismo não busca proteção, na tutela jurídica e nas astúcias
administrativas, mas no intrínseco direito representado pelo mérito. Esta é a
semente criadora da verdadeira riqueza, a única que a mantém. Só nessa força
há segurança, a que em vão pedimos às defesas legais. Eis tudo quanto
encontramos nas raízes da vida social. Todo o nosso mundo é falso, baseia-se na
ilusão; naturalmente por isso colhe o que vimos. Mas isso é tudo quanto de
fato merece. O involuído infelizmente domina; a ilusão constitui sua natural
herança. Um dia se compreenderá que vale o que somos, queremos e sabemos fazer
e, portanto, merecemos, e não o que possuímos. O objetivo hoje é possuir e o
homem é o meio; no entanto, o possuir e meio e o homem, fim. Pode-se perder o
que se possui; mas a que somos, isso vale e dá mérito. Quem merece e sabe, tem
em si o germe que o fará recuperar, multiplicado por cem, tudo quanto perdeu.
Quem, não merece é usurpador em posição de equilíbrio instável, continuamente
ameaçado pela tendência da lei à justiça, isto é, ao equilíbrio pelo qual as
forças biológicas continuamente o assediam, não se acalmando enquanto não lhe
houverem retomado o que foi mal ganho. O efeito é dado pela causa; toda forma
de vida tem as características derivadas das de seu germe. Assim, todo fenômeno
se plasma e se desenvolve diversamente segundo a natureza das suas forças
determinantes. Só quando o homem começar a compreender esses princípios tão
elementares poderá começar a chamar-se civilizado. Neste capítulo
desenvolvemos, do ponto de vista prático e concreto, começando pelo fundamento
da vida em sociedade, os conceitos de A
Grande Síntese sobre a propriedade. (cfr. cap. XCIII: "A Distribuição
da Riqueza").
III
TIPOS BIOLOGICOS E
MÉTODOS DE AQUISIÇÃO
As considerações do capitulo precedente
levaram-nos ao interior e à substância do instituto jurídico-social da propriedade,
esse com que o homem disciplinou o fenômeno biológico, comum até aos animais,
da aquisição dos bens, fato que interessa sumamente à vida porque representa os
meios necessários da sua continuação. Mas vimos que essa disciplina pára na
superfície e que sozinha não é suficiente para regular estavelmente as forças
do fenômeno. Não se nega com isso a importância dos ordenamentos jurídicos,
mas observa-se que eles não sabem ordenar senão até certo ponto e devem ser por
isso completados com princípios mais perfeitos, que nos permitam penetrar mais
a fundo na substância do fenômeno. Trata-se de progredir e sabemos que a
evolução é processo de progressiva harmonização. Não se trata por isso de
demolir nenhuma das preciosas conquistas já realizadas, frutos de fadigas e
obra de gênio, mas tão-somente de continuar o caminho, de ajuntar coisa nova ao
que já está feito e aperfeiçoar-se mais. Chegado ao mais alto grau de
maturação espiritual, o homem espontaneamente se apercebe da insuficiência da
disciplina jurídica para atingir a justiça, meta instintiva da vida, para
conseguir a estabilidade, condição necessária à fruição. Nasce então a
necessidade de completamento, o que implica em mudança de posição e renovamento
de método. Como na superfície das coisas há imperfeição, caducidade, agitação
e desordem e, na profundidade, perfeição, estabilidade, calma e harmonia, assim
também no fundo das coisas há justiça, embora a injustiça apareça no exterior.
A evolução, levando o centro da vida para o interior, torna atuais e vivos,
fazendo-os emergir do fundo, esses estratos mais inferiores. Vem assim à tona e
se afirma a justiça, a que, também nos eventos humanos, é reservada a ultima
palavra, não importa depois de que longas vicissitudes. Com a evolução aflorará
mais evidente a substância das coisas, mais facilmente esta se revelará,
reduzindo ao mínimo o obstáculo da ignorância humana. Então, o método atual da
força ou da astúcia será considerado como método de primitivos ignorantes das
leis da vida, método de natureza falsa, desequilibrado, destinado por isso à
ruína, método inútil, pelo menos em face do objetivo que se prefixou. Chegado
ao mais alto grau evolutivo, o homem compreenderá que de fato no fundo, na
realidade das coisas, existe balança de justiça, representada pelo equilíbrio
querido pela lei e que nela é inútil pretender colocar pesos falsos para obter
de Deus uma falsa medida em vantagem própria, inútil porque essa força representa
invisível peso verdadeiro, que cedo ou tarde faz tudo voltar à medida certa,
segundo a justiça e a verdade. Dar-se-á então o valor merecido a este intimo
imponderável que, todavia, tanta força possui e a que hoje geralmente fugimos;
compreender-se-á então como os valores reais, interiores, possuem,
comparativamente, maior poder que os valores fictícios, exteriores.
Dado que a posse dos bens é necessária
à vida e é querida e imposta pela lei como necessidade inderrogável, ela
também representa direito. Mas, para este poder realizar-se é indispensável se
verifiquem as condições supra mencionadas. Em tal caso, atua espontaneamente;
em caso contrário, embaraçado pelo próprio homem, não pode obter seu
cumprimento. Se o homem seguisse a Lei, esta naturalmente proveria todas as
suas necessidades. Essa é a base do fenômeno da Divina Providência, sempre
pronta a intervir espontaneamente, apenas nossa conduta lhe permita, pondo-nos
nas condições necessárias para que ela possa verificar-se. A garantia dos bens
não nos pode ser dada por simples enquadramento exterior, que de modo algum é
decisivo, mas acima de tudo pelas íntimas qualidades por nossa conduta
conferidas ao próprio fenômeno, pela força com que o tivermos construído. É
verdade que a posse dos bens constitui direito e o mundo está farto de bens a
serem gozados pelo homem. Eles estão prontos à espera disso, debaixo das nossas
próprias mãos; mas à posse se antepõe obstáculo criado pela ignorância humana,
que não sabe apreendê-lo ou o apreende mal, violando a justiça substancial
jacente no fundo do fenômeno da posse; ele se desfaz sem ela, que é necessária
para que o direito de pose, inerente à vida, possa exercitar-se. Torna-se
necessário compreender o erro e superar a ilusão. O que mais vale não é
possuir, na forma exterior, mas na interior; não nos efeitos, materiais, mas
nas causas, espirituais; não nas garantias legais, mas nas nossas capacidades e
qualidades. A única verdadeiramente segura é essa riqueza inalienável que não
pode ser roubada porque é inseparável da personalidade, dada pelas nossas
próprias qualidades. É segura e duradoura porque é a única verdadeira,
honesta, justa, em equilíbrio com as forças da vida. Isso deriva das próprias
qualidades, é filho do mérito porque as qualidades só com o próprio trabalho
se conquistam e nos tornam conceituados porque foi a nossa atividade e fadiga
que as gerou e fixou. Se as possuímos é porque as conquistamos. Só então os
bens são verdadeiramente nossos porque temos, fixadas em nós como instintos, as
capacidades para sabê-los manter; e se os perdermos, para saber
reconquistá-los. Doutro lado, quando não possuímos as capacidades e, portanto,
o mérito e, assim, o direito, o dinamismo do fenômeno é cheio de desequilíbrio
e se esgota, cedo ou tarde. Então os bens tendem a fugir-nos das mãos;
perdemo-los porque não os sabemos administrar e, perdidos, não sabemos
reconquistá-los. Eis como finalmente, não obstante todas as protetoras
barreiras humanas da injustiça, a interior justiça da lei emerge. Esta, através
das mais profundas forças da vida, tende a exercitar essa justiça, com todos
os seus meios. E o homem que procura usurpar esta justa posição que não
corresponde a seu mérito, é, com seus métodos de usurpação, o construtor da
injustiça social. Bastaria seguir a natural lei de Deus para que
espontaneamente reinasse a justiça econômica e houvesse o necessário para todos
e por si mesmo se verificasse o equilíbrio entre capacidade, mérito, direito e
gozo, equilíbrio que a lei quer e o homem com tanta fadiga procura violar.
Tudo quanto dissemos em relação à disciplina jurídica da propriedade e à posse dos bens não é senão aspecto do
dinamismo fenomênico e dos equilíbrios de que ele se compõe e se sustenta. Pode
dar-se a tudo isso sentido mais universal. Poderemos então dizer que a cada
plano de evolução corresponde grau respectivo de realização da justiça e nada
mais. Quem age no nível das leis animais e lhe segue os métodos poderá obter
posse, poder, domínio, vitória, como prêmio da sua fadiga, mas o prêmio será
efêmero porque a estabilidade é característica de planos de vida mais evoluídos
e harmônicos. Poderá servir-se da força e da astúcia, mas espere também ilusão
e engano. O sistema da vida não contém, naquele nível, maior grau de justiça
que esse. O homem não peça nem espere mais. Não fale mais de justiça verdadeira
quem vive no reino da força; e não a espere também. A verdadeira justiça, que
ele procura em vão, pertence a plano de vida mais alto e dele fica excluído
quem venceu à custa dos métodos do mundo animal. Que ele se contente de
dominar, vingar-se, esmagar. Isto lhe exaure o direito porque já recebeu mercê.
Apenas se enfraqueça, não invoque a bondade e a justiça, mas considere-se inexoravelmente
vencido. Só o evoluído seguidor do evangelho se ri desse alternado jogo de
desequilíbrios, entre vencedor e vencido, rico e pobre, patrão e servo. Mas só
ele tem o direito de liberar-se porque só ele desfez a miragem necessária
para induzir o involuído egoísta a afrontar fadigas e provas que doutro modo
jamais seria induzido a suportar.
Os homens são desiguais; não pertencem
ao mesmo grau evolutivo. Se os bens para manutenção da vida são-lhe indistintamente
necessários, o modo por que os homens os procuram lhes exprimem a evolução,
isto é, assume o papel de índice revelador da natureza humana. Aprofundemos a
classificação dos tipos humanos com base no real valor biológico, de acordo
com a real natureza do indivíduo; em face dessa natureza, como já dissemos, as
distinções sociais têm valor todo fictício. Escalonemos, assim, os vários tipos
humanos conforme os métodos de aquisição dos bens. Três podem ser esses
métodos: furto, trabalho, justiça, próprios de três tipos biológicos que sobem
do involuído ao evoluído, isto é, o selvagem, o administrador, o
espiritualista. Constituem três raças de homens, correspondentes às três leis
da vida: fome, amor, evolução. (Cf. História
de um Homem - Cap. XXIII e A Grande
Síntese - cap. LXXVIII).
O primitivo
escolhe, como meio de aquisição dos bens, o furto, ainda freqüente neste mundo
que chamam civilizado. O raciocínio é este: "Por que hei de cansar-me, procurando,
com o suor do trabalho, ganhar o necessário, se posso facilmente conseguir
tudo, roubando meu vizinho?" Nesse nível, a ignorância das reações das
forças da Lei é completa; inconcebível, o princípio do coordenamento coletivo;
atingem o máximo a inconsciência do indivíduo e sua falta de preparação para
formas de vida superadoras de animalidade. Psicologia desagregadora, caótica,
anárquica. Manifesta-se desregrado e sem controle o instinto de subtrair para
si mesmo tudo quanto satisfaça necessidades e desejos. O progresso é que, cada
vez mais, ordena as coisas, visto que a evolução significa subida ao encontro
de Deus e aplicação sempre maior de Sua Lei. De fato, apenas a humanidade
retrocede, em crises de revoluções ou guerras, e a superestrutura jurídica
desaba, a vida involui e, então, se reativa esse método do primitivo. E a
disciplina jurídica, representada pelo instituto da propriedade, vacila e
retorna ao furto, fase precedente mais involuída, de que a sociedade conseguiu
emergir. No trabalho de construir e manter-se no alto, as coletividades humanas
passam por esses períodos de cansaço, descensão e aniquilamento, em que retornam
às primitivas formas de aquisição. Então, prosperam os involuídos, oprimidos
pelo enquadramento da ordem social. A opressão só é sentida pelos involuídos,
porque imaturos; no entanto, para os mais adiantados, essa ordem constitui a
forma de vida espontânea e normal. Admitem-se os involuídos a conviver, nessa
ordem, com os mais evoluídos, justamente para que aprendam; e, se de qualquer
modo conseguem enriquecer, começam a participar dela; então, de inimigos se
transformam em seus mais estrênuos defensores. Agora lhes interessa, ao
máximo, defender a ordem e as instituições que antes combatiam e são produto de
tipo biológico mais evoluído. Para maior fruição dos resultados do furto e da
conquista violenta, procuram discipliná-los no Direito e estabilizá-los na
legalidade. Assim, lentamente, pelo menos na forma, apropriando-se dos métodos
de vida dos mais evoluídos, os menos adiantados procuram evoluir. Isso, porém,
é apenas forma e sabemos que, na realidade da vida, vale a substância, não a
forma. Os retardatários, os excluídos do banquete, os estratos sociais
profundos aguardam a passagem dos vencedores da vida, que cresceram na forma e
não melhoraram na substância, para fazer-lhes exatamente o mesmo que eles
fizeram aos outros. E assim por diante. Neste plano, formado em grande parte
pelo plano humano, só pode dominar regime de perpétua luta, baseado na força e
no aniquilamento, em estado de instabilidade completa. Esse método de aquisição
não atinge, assim, o objetivo aparente, o de possuir, mas alcança o objetivo
recôndito e real, o de induzir o involuído à aquisição de experiência e,
portanto, a evoluir.
Essa, desordem,
porém, só pertence a este plano evolutivo. O sistema de forças constitutivas
do fenômeno contém até mesmo os impulsos tendentes à própria auto-reordenação.
Do que acenamos se vê como esse caos tende a harmonizar-se em mais evoluídas
formas de vida. A fase da força tende a evoluir para a do Direito; o furto a
estabilizar seus resultados na fase de propriedade; e desponta novo método de
aquisição de bens: o trabalho. Gradativamente se disciplina, desse modo, o
desencadeamento caótico da agressividade conquistadora. O método do furto,
inorgânico e violento, reordena-se no do trabalho, orgânico e pacifico. O
egoísmo sobrevive, mas, suprimida a força, fica disciplinado no hedonismo
econômico do “do ut des[2]”,
primeiro rudimento de justiça expresso no balanço entre o “deve” e o “haver”.
A defesa não é mais a força, os músculos ou as armas, mas o Direito, o
cérebro, a legalidade a astúcia. Aqui o dinheiro é arma e o capital, poder; a
violenta luta biológica para conquista dos bens torna-se a luta econômica de
classe, do capital contra o trabalho e ao contrário. A indústria organiza-se;
o Estado e o Direito regulador intervêm, para garantir, ressarcir, prever.
Estamos em fase orgânica de coordenamento e estabilização. Essa a grande
criação iniciada pelo Direito romano. Mas, ai de nós! Disciplina e não justiça.
Construiu-se a balança; ninguém, todavia, nos garante ser o peso justo.
Cristo, solapando os fundamentos do Império, já pregava, muito mais que a disciplina,
a justiça. Mas também é verdade: para chegar a esta, necessário se tornava
passar por aquela. Não se poderia passar do plano da força ao da justiça, sem
percorrer o trajeto representado pelo equilibrado método do jus romanum.[3]
As fases biológicas são contínuas e sucessivas. Hoje o mundo vive na
segunda fase, a do Direito, isto e; a da disciplina da força e do furto da
organização da conquista, da legalização e estabilidade mais ou menos completa,
de seus resultados. Fase mais adiantada e complexa que a precedente; instável,
mas ainda menos do que ela; tentativa de equilíbrio e não, ainda, o equilíbrio;
e por isso tudo, fase em grande parte insegura, funcionando aos arrancos, em
crises, quedas e novos surtos: tentativa de justiça, não porém justiça.
Civilização de nome e forma, não de fato e substância
A nova conquista
de nosso século, sua grande realização histórica, é o advento da justiça
social. Por isso, tantos sistemas, tantas lutas e destruições. A fase
puramente jurídica e de economia hedonística, fase de disciplina e não de
justiça, não basta para o homem novo do III milênio nem para as novas
consciências coletivas dirigidas para justiça mais substancial. A afirmação
do conceito de Estado; a nova concepção orgânica da vida social a necessidade
de sabedoria espiritual que guie a nova
potência conquistada pelo homem, através da Ciência e da técnica; mais alto
senso critico da vida, que a maturação dos ânimos dá; eis outros tantos
impulsos que se; dirigem para ordem mundial mais justa e abrem caminho para
nova fase biológica, em que a distribuição mais eqüitativa dos bens garanta a
vida de todos e, finalmente, atue o princípio de justiça anunciado pelo
Evangelho. Trata-se de inaugurar o sistema da estabilidade fornecido pelos
equilíbrios espontâneos e substanciais, correspondentes às necessidades e aos
valores intrínsecos, às qualidades e ao mérito; ele substituirá o sistema
precedente, instável e involuído, das violações contínuas e da justiça
trabalhosamente atingida apenas através do exacerbamento de reações
corretivas. Atuação difícil e demorada, porque o novo sistema presume o tipo,
que falta, de homem mais evoluído. Na prática, ao invés, domina o imaturo,
que, apenas com psicologia de involuído, sabe empregar esse sistema e desse
modo o engana, desfruta e destrói. Todavia, o progresso não pode parar e essa é
a sua direção. Trata-se de leis biológicas fatais, de objetivos que a evolução
deve atingir e aos quais encaminha todas as forças, fazendo pressão para
superar os obstáculos; trata-se dessa ordem divina presente na substância das
coisas, ordem cuja realização é o objetivo da vida e deve, pois, cedo ou
tarde, inexoravelmente realizar-se. Assim é que à primeira fase, caótica,
baseada na força, em regime de violência no qual a propriedade se conquista com
o furto, se seguiu a atual fase de disciplina da força pelo Direito, em que o
método de aquisição passa a ser o do trabalho; a esta segunda fase sucederá
terceira, orgânica, coletiva, de mais estreita disciplina do Direito pela
justiça e nessa serão títulos de posse: as qualidades, o mérito, o valor, as
capacidades pessoais.
Temos, pois, três tipos humanos, que se
revelam no método de aquisição dos bens, a saber: 1) o involuído ou selvagem:
concebe apenas a defesa de si mesmo e o sistema do furto; 2) o civilizado: vive
em sociedade, administra, organiza; concebe a defesa da família e do Estado e
emprega o sistema do trabalho; 3) o evoluído: superou o egoísmo individual do
primeiro tipo e o egoísmo coletivo do segundo; o espiritualista, completamente
desprendido dos bens materiais; administra-os apenas porque percebe ser essa
sua missão e emprega-os somente como instrumento de trabalho para obtenção de
objetivos morais; o tipo biológico, que vive conforme a justiça e não aceita
bens senão de acordo com a necessidade, as qualidades, o mérito. Neste último
caso, o limite e a medida das aquisições não se encontram, como nos dois
primeiros; no Código, e não se impõem por meio de sanções punitivas; estão na consciência, espontaneamente
inscritos. Infelizmente, os sistemas coletivos, chamados de justiça social,
necessitam, para serem dirigidos seriamente, desse tipo raro de homem e
dificilmente poderão construir-se, estavelmente, com o tipo de homem hoje
dominante, que em última análise pensa, de si para si, em coisa bem diferente
da justiça social. Para compreender e exercitar essa justiça, princípio
evangélico, é preciso ter alcançado o grau evolutivo do homem evangélico, isto
é, do terceiro tipo. Mas, os sistemas, embora inadequados aos homens, podem,
por outro lado, servir para educá-los, amadurecê-los, prepará-los, assim para a
futura realização. Para chegar a essa realização, torna-se necessária dupla e
paralela maturação, individual e coletiva; sozinha, nenhuma delas basta. A primeira
conduz a nova concepção da vida, do trabalho, da propriedade, a novo modo,
consciente, orgânico e harmônico, de o indivíduo sentir e comportar-se, no
seio da coletividade humana e do funcionamento do universo. A segunda leva ao
enquadramento do indivíduo em sistemas sociais orgânicos e passa, não por vias
interiores, de persuasão, mas por vias exteriores, mais ou menos coativas;
consegue, por isso, resultados formais, e não substanciais, porque, se os
sistemas não são sentidos, sua atuação não é integral.
Para obter essa atuação,. que deve ser
estado espontâneo e de convicção, seria necessário aplicar o sistema ao tipo
evoluído ainda inexistente em grande. massa, de que é ilusão presumir-se a
existência; para a formação desse tipo, todavia, esses sistemas podem
contribuir, através da prática educativa e formadora de novos hábitos e
instintos.
IV
ERROS E ASCENSÕES HUMANAS
Começamos a subir os primeiros degraus
das ascensões humanas. A atual maioria da humanidade vive e age inconscientemente
como fantoche manobrado por instintos, sem saber nada a respeito do porquê das
coisas, sem compreender o que e por que faz, as reações a que dá nascimento,
as conseqüências dos próprios atos. Por esse conhecimento fundamental, que,
segundo a lógica mais elementar, deveria anteceder qualquer ação, o homem de
nossos dias raramente se interessa e prefere, em primeiro lugar, agir, para
depois compreender. Parece que os problemas do animal bastam para encher-lhe a
vida e saciá-lo. Talvez o homem comum se perdesse em meio a essas questões que
devem parecer-lhe de complexidade espantosa, a ele que vive na periferia, na
superfície, e não no centro, na profundidade. O pensamento das filosofias,
apresenta-se-lhe contraditório; o das religiões, insuficiente; o da História,
desconexo; o da política, faccioso e interessado. Em face dos mais importantes
e, contudo, mais simples e necessários problemas da vida como, por exemplo:
"Quem sou? Donde vim? Para onde vou? Por que vivo? Por que sofro?", o
homem se percebe desnorteado e só porque o pensamento humano ainda não soube
encontrar a síntese completa que lhe responda a tudo e, se tivesse sabido,
conseguiria interpretá-la apenas de acordo com sua relativa maturidade. O homem
de nossos dias vive, assim, em uma espécie de resignação à. ignorância, de
adaptação à inconsciência; contenta-se em vegetar. Se isso pode ser dura
contingência de sua evolução, é também triste aceitação e humilhante declaração
de incompetência. Podemos continuar a viver nesse estado? Só o involuído pode
contentar-se com ele. Podemos continuar a agir sem entendimento, somente à
custa de suportar as dolorosas conseqüências dos inevitáveis erros e desastres
de que está cheia a vida individual e coletiva. Não é por isso? certamente, que
aos acontecimentos humanos, individuais e coletivos, faltará diretiva; esta,
porém, não é confiada ao homem, não pode ser revelada a inconscientes; mas
sê-lo-á qualquer dia, quando houver conquistado conhecimento e sabedoria. A
formação de nova civilização do espírito, a formação do novo tipo humano do III milênio significa a conquista de novo
e imenso domínio, com o controle exato das diretivas da vida em nosso planeta.
Não se trata de revolução social, exterior e formal, mas de maturação
biológica, profunda e íntima. Os enquadramentos políticos, nacionais e
internacionais, poderão ajudar; o que decide, porém, acima deles, é o tipo de
formação do novo homem, cuja sabedoria e maturação evolutiva possam finalmente
permitir, não que as forças da Lei o dominem, como se torna necessário fazer
com os inconscientes, por meio dos fios de seus instintos e das reações
próprias, mas lhe revelem o segredo da própria estrutura e confiem a função de
dirigir a vida no ambiente terrestre.
O homem atual crê estar sozinho no
caos; no entanto, participa de imenso organismo. Involuído e, pois, insensível
Inconsciente e ignorante, vê a desordem da superfície em que vive e nem
suspeita a ordem presente nas causas, no interior das coisas. Enquanto evolui,
deve o homem aprender a tornar-se cidadão dessa pátria maior, o universo, e
colaborador consciente desse grande organismo, harmonizando-se com todos os
fenômenos irmãos e criaturas irmãs, com seus semelhantes, com as forças da Lei.
A felicidade e o paraíso consistem, exatamente, nessa harmonização. Semeando,
como fazemos, em ignorância e rebelião, só se podem colher reação e dor.
Semeando em sabedoria e harmonia, colheremos felicidade e paz. Isso significa
civilizar-se a sério e não, ter aprendido a construir máquinas sem, depois,
saber fazê-las trabalharem. Em todo campo, político, social, científico,
filosófico, moral, torna-se necessário passar do sistema caótico ao sistema
orgânico. O sistema do universo é perfeito. Nós, que não sabemos mover-nos
nele, é que somos imperfeitos. Esse sistema contém a possibilidade de toda a
nossa felicidade. Todavia, em nossa inconsciência, apenas dor sabemos extrair.
Culpa do homem, não de Deus. Pode-se eliminar a dor que, conforme a sabedoria
divina, aliás, foi feita para ser destruída. Mas, para chegar a esse ponto,
torna-se necessário compreender. O universo funciona como instrumento musical
de que se pode tirar música divina, alegria infinita. Torna-se preciso, contudo,
sabê-lo tocar. Arrebentamos as cordas e vamos às cegas. Que podem tocar
semelhantes músicos? Então, culpamos o instrumento que toca mal e não a nossa
animalidade que não sabe tocá-lo. Quem insiste contra si mesmo o faz, toca cada
vez pior, cada vez mais se engana e se divorcia da ordem e, dai, colhe sempre
maior quantidade de dor. A Lei faz quanto pode para salvar-nos e de fato salva,
apesar de todos os nossos erros e dores. Somos livres, no entanto: enganando-nos
e sofrendo, devemos aprender porque temos de compreender, porque somos
destinados a empunhar as rédeas do comando qualquer dia; qualquer dia,
trabalhosamente conquistada a sabedoria, poderemos e deveremos empunhá-las.
Ao sábio que se harmoniza, que sabe
conformar-se, como se diz, com a vontade de Deus, a Lei se manifesta como ajuda
amorosa e espontânea, música plena de bondade, proteção e previdência; ao
contrário, ao inconsciente que se rebela e, seguindo Lúcifer, substitui pela
própria a vontade de Deus, manifesta-se como prisão de ferro em que,
prisioneiro, se agita. Quanto mais recalcitra e se debate mais a corrente
magoa, os nós se estreitam. Pode bater com a cabeça nas grades invisíveis:
quebrá-la-á e elas continuarão imóveis e intactas. Para resolver os problemas,
o caminho não é a violência e a imposição, mas a harmonia e a obediência.
Basta havê-lo compreendido, para se porem de lado todas as concepções de que
habitualmente se vive. O homem com muita facilidade crê poder, impunemente,
praticar o mal. Não! A impunidade é ilusão, filha da ignorância humana; a
mentira, feitiço que se volta contra o feiticeiro. O mal não traz vantagem e a
mentira acaba por enganar o próprio mentiroso que a diz. Quem rouba será
roubado; quem mata será morto; quem engana será enganado; quem odeia será
odiado. A Lei o quer; essa, a estrutura do sistema regulador do universo.
Trata-se de organismo de forças inteligentes, poderosas, invisíveis,
onipresentes, indestrutíveis. Por mais que se agite, o homem nada pode contra
elas e toda revolta se transforma em dor. O homem deve compreender que não
pode conseguir a expansão que o espera, à custa do dano alheio, aliás, do
próprio dano. Crê na usurpação, na estabilidade dos desequilíbrios; a Lei
deixa-o à vontade; depois, para aprender, paga com o sofrimento; mais tarde,
porém, o reconduz, inexoravelmente, à justiça e ao equilíbrio. O involuído,
na sua ignorância, presume dominar; ao invés, obedece sempre. A Lei, bem mais
sábia que ele, não lhe permite senão a prática das violações e erros úteis para
sua dolorosa experiência. O espírito de rebelião, filho de Lúcifer, está no
lado baixo e involuído da vida; o de obediência e harmonia, no lado alto e
evoluído. A evolução é, justamente, processo de reordenamento e harmonização,
que atua através da fadiga e da dor, substância da redenção.
As massas humanas,
vastas como o oceano, vão à deriva, na ignorância dessas verdades elementares,
e caem vítimas das próprias ilusões. A realidade é bem diferente da que
comumente se imagina; Quem rouba crê enriquecer, mas empobrece; quem mata não
prolonga sua vida, morre; quem engana se engana; quem odeia se odeia Quem foi
injustamente roubado receberá compensação; quem foi morto injustamente
ressuscitará em alegria; quem é honesto e de boa fé verá a verdade, embora
tenha sido enganado; quem ama será amado, apesar de hoje ser odiado. A chave da
felicidade não está na força ou na astúcia, mas na justiça e no mérito. No
mundo reina a dor porque o homem não segue a ordem divina; é rebelde seguidor
de Satanás. A causa não está em Deus e, sim, no homem. Bem diferente, a falada
seleção do mais forte! Se isto aparece na superfície, na profundidade existe
lei biológica muito diferente, que diz: quem transgride paga. E a humanidade
paga, porque é filha de seus erros milenares. Se olharmos, porém, a outra face
da dor, revelar-se-nos-á seu poder criador e curativo, seu outro aspecto
escondido, onde está escrito: alegria. A Lei é boa e ajuda-nos a pagar e sanar
tudo, se o merecermos; auxilia-nos, tornando-nos possível transformar o mal em
bem, a perda em ganho, a dor em felicidade. A bondade de Deus permite-nos a
redenção, quer dizer, subir de novo através de provas a escada da evolução, que
havíamos descido. Mas se transformam, ainda, outras concepções de que habitualmente
se vive. A posse dos bens, a propriedade referida acima, pela qual tanto se
luta já não é meio de gozo, mas instrumento de trabalho. O princípio de função
e missão substitui o de egoísmo. Nascemos e morremos nus. Durante a viagem da
vida os bens vão e vêm, a riqueza circula de mão em mão, pertence a todos; as
trocas servem para que ela não diminua. Não
há posse, estabilidade garantida. Tudo não passa de usufruto, empréstimo
temporário que uma crise, um furto ou a morte podem a qualquer momento tirar;
empréstimo concedido a título de instrumento de experimentação e trabalho na
terra, de aquisição de qualidade na arena da vida, administrado pelo homem
como meio de construir-se a si mesmo e não para seu gozo. De fato, como
estabilidade, do ponto de vista hedonístico, a riqueza é mal e, do ponto de
vista jurídico, impotência. É, pois, erro biológico conceber egoisticamente a
riqueza, como faz o homem moderno, não obstante todos os coletivismos em moda.
Não somente a propriedade, mas a própria autoridade e toda atividade social,
não devem, egoisticamente, ser concebidas como meios individuais, e, sim,
coletivamente entendidas como função social; todo exercício, atividade, posse e
domínio deve encarar-se como missão. Por mais que procuremos isolar-nos para
fruição dos bens, a vida é unitária; não podemos impedir que sejamos irmãos,
pois nela tudo é intercomunicante e comum, apesar de todas as nossas barreiras
protetoras e divisórias. Os bens não passam de ferramenta. E nada mais.
Aprendido o ofício, são entregues a outros aprendizes. Não se encontra no
caminho certo quem procura enriquecer só para si e seu gozo. Tornar-se-á
incansável escravo do tesouro e condenado ao terror de perdê-lo. A verdadeira
conquista não se dirige às coisas, mas às forças que as geram e movem. Pobres
ladroes, arrivistas, pobres invejados por fácil e rápido sucesso! Como vocês
empobreceram, ao invés de ficarem ricos; como foram derrotados, vocês que assim
triunfaram; como perderam, os que desse modo venceram!
Sem esse inusitado
conceito da vida, sem essa subversão completa das ilusões do mundo, não se pode
imaginar civilização nova. Tão lógico, tão simples, tão natural. Nela deverá
desaparecer a distinção entre valores aparentes e valores reais, chaga de
nossa humanidade. Levam-se em conta as qualidades. O que importa é ser e, não
possuir ou aparentar. Só o que é possui a causa, tem o germe das coisas ou,
seja, a potência e o modelo para reconstruí-las ad infinitum[4].
Não há outro caminho para a posse, no transformismo universal mutável, senão o
domínio sobre as forças genéticas do fenômeno. Na posse das capacidades intrínsecas,
em meio a tanta avidez de furto e á precariedade de qualquer posição social, o
involuído afinal encontra o indestrutível. O homem do futuro, mais adiantado,
saberá dar mais valor ao que não se rouba e não se destrói; e muito menos, ao
que se pode perder; prender-se-á mais a potência intrínseca, geratriz e
reguladora de tudo, do que às suas efêmeras manifestações exteriores. O
evoluído não se amedronta nas horas escuras da desordem; está prevenido e
preparado, quando os acomodatícios são atingidos por golpe vindo de baixas
camadas sociais; aceita-o como enérgica varredura na casa suja da vida e
continua imperturbável, porque já encontrou e possui o indestrutível. Os nós
humanos assim como se fazem, se desfazem; a riqueza e todo poder podem perder-se
exatamente como foram conquistados. O que tem princípio só por isso há de ter
fim. Tudo o que nasce deve morrer. Apenas o eterno não tem fim, o que não
nasce vive para sempre. Só o involuído pode acreditar no contrário. De eterno
não temos senão o espírito, com as qualidades que, vivendo, lhe imprimimos, com
o feixe de forças de seu destino, postas em movimento por nós.
Os fatos de nosso tempo demonstram
quanto é involuída a humanidade atual e quanta sabedoria diretiva lhe falta.
Resolveu-se em destruição medonha todo o progresso mecânico, fruto da ciência
do nosso século e vitória de nossa civilização. A soberba técnica, conquista o
louvor de nossos dias, foi entendida como fim e não como meio; a sabedoria do
espírito não lhe serviu de guia. Sem direção, a máquina não construiu, mas
destruiu. Faltou-lhe sabedoria, predomínio dos valores morais hierarquicamente
superiores. O homem subverteu a ordem natural e paga por isso. O materialismo
moralmente destruidor atingiu, desse modo, a última fase de realização
concreta. A negação, partida do espírito, atingiu a matéria; o ateísmo
nietzscheano deu fruto. A superprodução industrial, ao invés de trazer
abundância, chegou à miséria. Espantosa Nêmesis[5], conseqüência
lógica das forças incluídas no sistema. A orientação espiritual negativa da
moderna civilização mecânica a entrega à destruição total. Os imponderáveis que
ela negou e, negando, moveu em sentido negativo, amarram-na agora, prendem-na
e seguem-na; não poderá parar antes de esgotado o próprio impulso. Só mais
tarde, como homens mais evoluídos, a reconstrução, melhor e posta bem no alto,
surgirá das cinzas do mundo atual. Os destruidores modernos serão excluídos do
futuro, pertencente aos reconstrutores. Está passando a hora dos destruidores,
que serão expulsos da vida do mundo. Nossa miséria será como deserto, mas, também,
como terreno limpo, para reconstrução maior e melhor. Esse deserto atrai as
potências inexauríveis da vida Jamais, qual na profundeza da destruição, a vida
tanto se renova; jamais, como no abismo da necessidade, tanto se manifesta o
poder criador de Deus. Na necessidade, dolorosa e redentora, aparece para Seus
filhos a providência do Pai.
Assim a vida sem
cessar caminha. Por mais que o homem procure cristalizar suas posições através
de laços jurídicos, estabilizar suas conquistas por meio de convenções
sociais, públicas e privadas; fixar seu estado em instituições e formas
definitivas; por mais que procure, a evolução não pode parar e, a cada nova
maturação, a velha construção, tendo crescido, não se encontra à vontade na
velha casca e rompe-a para formar casca mais ampla. Há constantes necessidades
da forma, para se definirem as posições; essa forma, porém, a princípio cômoda
habitação, torna-se prisão mais tarde. Necessária, também, a contínua
destruição e reconstrução da forma, único meio de poder conciliar a necessidade,
imposta pela evolução, de progresso e crescimento, com a de abrigá-la na forma
que exprima exatamente as características atingidas em cada nova maturação
evolutiva. Não só nesse caso, mas em toda a vida se verifica a luta entre
forma e substância: a primeira, imóvel, com o objetivo de definir-se; a
segunda, fluida, tendo em vista a evolução; a primeira, por necessidade que
tem, como invólucro continuamente despedaçado pela pressão interna da segunda.
Exatamente desse contraste de funções opostas e necessárias nasce a
instabilidade de todas as formas da substância, a caducidade dos corpos da
vida. As formas constituem apenas etapas no caminho da evolução, paradas em que
cada fase se define e exprime. Mais tarde, essa roupa não serve mais, pois o
corpo cresceu; torna-se necessário rasgá-la e fazer outra mais ampla, mais na
medida. Assim as revoluções destroem as instituições e as leis, revolucionam
as construções jurídicas e os arcabouços sociais, como a morte destrói os
corpos para que a vida possa fazer outros melhores, mais de acordo com o novo
grau de evolução atingido. O caminho
evolutivo é fatal. Hoje o mundo é o campo da batalha entre o princípio da
força, disciplinado e estabilizado em formas jurídicas, e o superior princípio
da justiça. O homem do segundo tipo cresceu; está para tornar-se homem do terceiro tipo. As velhas instituições, tão
adaptadas antes, à sua natureza, estão para tornar-se a prisão em que ele se
agita, oprimido, e procura arrebentar a fim de fazer casa mais vasta e
proporcionada. Nossa fase não é de estase, mas de progresso e criação. A
destruição precede a reconstrução, momentos sucessivos e ambos necessários do
processo evolutivo. Os destruidores, como os reconstrutores, exercem função
biológica; mas, cada qual em seu posto. Os primeiros fazem seu trabalho e,
então, julgam-se donos da situação e iludem-se, supondo que podem fazer a
evolução parar e progredir em seu plano Eis, porém, superada a fase. E eles,
simples instrumentos da Lei, já esgotada sua função, de acordo com sua
capacidade, são postos de lado. Antes, sua qualidade era ignorância. e a
ilusão, a natural herança. A evolução que não compreendem vai-lhes no encalço
e agarra-os. E, por mais que se agarrem às posições, não podem mantê-las Assim,
as revoluções devoram os próprios homens. Depois, a vida fatalmente impõe a
reconstrução e, para esta, escolhe diferente tipo biológico, a ela adequado, do
mesmo modo como fizera para o trabalho de destruição. E, assim, na essência, os
inimigos que se digladiam e os rivais que se odeiam, são companheiros de
trabalho; confraternizam-se, sem o saberem, na mesma obra de progresso, em que,
ignorando-se um ao outro, trabalham nas sucessivas fases. Mesmo o próprio
antagonismo entre eles existente cifra-se apenas na instintiva e inconsciente
necessidade de exercer ao máximo a própria função, necessidade impelida até à
rivalidade e ao ciúme do trabalho. Somos todos, cada qual em seu posto,
executores da Lei e servos de Deus.
A ascensão evolutiva não pode parar. As
massas não sentem a proximidade dos tempos futuros. Assistimos hoje, de fato,
ao desnorteamento da História, como nos tempos de Cristo. Podemos repetir com
Virgílio: Magnus ab integro sacculorum
nascitur ordo[6].
O futuro pertence à nova geração de homens de tipo biológico mais elevado. É
inútil retardarmos os passos em meio aos progressos do mundo velho. A
ignorância, o egoísmo e a preguiça não podem fazer a vida parar. A lei de
progresso esmagará todas as resistências, porque é também poder de expansão
divino, que é centro e princípio do universo. A História caminhou sempre
assim, ascendendo passo a passo; nela, é normal a realização progressiva de
ideais, em princípio utópicos. Desse modo, da potência íntima do sêmen
desabrocham novas formas de vida. O novo já vibra no ar, no estado fluido e
incorpóreo de vibração, de dinamismo, que é causa das formas, prestes a
encontrar o corpo em que se fixe e se defina. Tipo biológico mais evoluído,
dotado de consciência nova, deverá formar a classe dirigente. Depois do
desenvolvimento mecânico, que termina pela obra de destruição deve
acontecer proporcional desenvolvimento espiritual que torne seus resultados utilizáveis em
obras construtivas. Os equilíbrios da vida e a lógica do progresso impõem que,
fabricado o instrumento para o domínio material do mundo, se produza também a
consciência diretora, capaz de empregar utilmente esse instrumento. Isso
porque, na vida, nenhum passo é inútil, nada se desperdiça e tudo tende
organicamente para determinado objetivo. Só assim o progresso técnico não terá
sido inútil e o homem poderá alcançar, como espera, o domínio não só mecânico
e material, mas inteligente e completo do planeta. Para dominar, a sério, é
necessário princípio de ordem, central e diretivo, que não pode estar senão no
espírito. Só ele pode conferir caráter de organicidade ao conhecimento
científico e à potência técnica. A característica fundamental da nova
civilização será a afirmação de ordem. Partindo do conhecimento da Lei e da
consciência da ordem divina em todas as coisas, chegar-se-á a nova e mais
completa harmonização entre os atos da vida e seus princípios; e daí a novo
superamento da dor e à aproximação da felicidade. Assim eliminadas e
disciplinadas interiormente, as formas de vida individuais e sociais se
transformarão e a existência assumirá novo significado. Carecerão de sentido
amanhã as atuais distinções. O verdadeiro chefe de todas as revoluções e de
todos os poderes é a Lei de Deus; manobra os líderes que podem mandar apenas enquanto
obedientes às leis do progresso e à vontade de Deus. Tendo em vista os
objetivos da evolução humana, a Lei estabelece as posições e distribui as
funções; humilha os grandes e exalta os humildes aos postos de comando;
depois, liquida todos com justiça ou, seja: com honras, se cumpriram a missão;
como refugo da vida, em caso contrário. Interessa é a ascensão de todos; dela
somos, ao mesmo tempo, escravos e senhores. Embora quase todos queiram, com
egoístico isolacionismo, que as coisas girem em torno de si mesmos, qualquer
ação nossa é função coletiva; e toda vida, missão.
A luta moderna se trava, como sempre,
entre o velho e o novo. O primeiro se aconchega entre as gigantescas
construções do passado, mas tem contra si as leis da vida. Não nos ensinaram
elas todo o dia o superamento do passado? Todo dia não vemos, apenas em
homenagem ao progresso da vida, os moços substituírem os velhos em suas posições?
Isso acontece entre as plantas e os animais, como entre os homens. Não se pode
resistir a essa vontade de renovação. A vida não pode existir senão na forma de
ascensão ou como meio para caminhar, cada vez mais, em direção do divino centro
do universo. Trata-se de imponderáveis; poderemos negá-los e até mesmo
rirmo-nos deles; mas arrastam-nos e seguimo-los. A vida pertence a quem sobe e
não a quem pára ou desce; o futuro está sempre mais em cima. A vida faz-se de
construção, embora deva atravessar a destruição. O universo é função imensa e
perfeita, dirigida pelo pensamento de Deus, movida por forças titânicas e
imponderáveis, sempre e em toda a parte presentes e ativas. Tudo está regulado,
previsto, tudo nele se resolve em ascensão.
V
AS GRANDES UNIDADES COLETIVAS
Nos capítulos precedentes desenvolvemos
e comentamos alguns pontos de A Grande
Síntese, especialmente os de caráter social tratados quase no fim do
volume. Foram ampliados, em especial, os capítulos: "Força e justiça — A gênese do direito"; "O problema econômico"; "A
distribuição da riqueza"; "Da
fase hedonística à de colaboração". Os conceitos, ali rapidamente
expostos no quadro de conjunto, foram considerados de novo, mais
minuciosamente e sob aspecto mais prático e atual, tendo em vista mais a sua
aplicação do que a posição por eles ocupada no organismo universal. São
diferentes a perspectiva de A Grande
Síntese e a destas páginas. Partindo de premissas cósmicas, ali os
problemas do homem e da sociedade apenas aparecem por último, à guisa de
conclusão; aqui, pelo contrário, esses problemas representam a base e o ponto
de partida do trabalho; daí a conclusão se eleva pouco a pouco, desde a grande
massa coletiva até ao caso individual mais seleto e muito menos numeroso, mas,
em compensação, mais evoluído. O caminho fatal de ascensão, entrevisto no fim
do capítulo anterior, não se manifesta somente com a formação de tipo biológico
mais elevado e, naturalmente com funções de direção, colocados como guia da
sociedade; manifesta-se, também, de maneira diversa. Esse impulso evolutivo
tende não só ao aperfeiçoamento do indivíduo, mas à investidura das grandes
massas sociais, de maneira cada vez mais extensa. Creia-se ou não no Estado,
aceite-se ou não a estatolatria moderna, basta considerar o fenômeno biológico
universal e imparcial, para verificar, em nossos tempos, tendência à
organicidade social. O povo, considerado mais ou menos sem valor nos séculos
passados, com a Revolução Francesa surge no palco da vida política. Antes
valiam só os indivíduos e as classes dominantes; a aristocracia selecionada estabelecia
os valores coletivos e imprimia seu cunho nas massas populares, que continuavam
obedientes e, exceto nos momentos excepcionais, mudas e sem pensamento próprio.
Os estratos inferiores da sociedade jaziam abandonados. São muito modernos os
conceitos de povo organizado, que exprime seu pensamento e toma parte na vida
política, e o princípio de massa organizada em grandes unidades coletivas.
Ocupar-nos-emos, agora, desse aspecto diferente, coletivista e não
individualista, da evolução humana, isto é, da formação desse novo e múltiplo
indivíduo coletivo, característica de nossos dias, e não, como antes, do sazonamento de novo tipo biológico.
O novo e múltiplo indivíduo humano,
organizado em sociedades nacionais e estatais; com cérebro dirigente, nervos,
órgãos, membros, coordenamento de funções; semelhante ao organismo individual,
embora com dimensões muito maiores e formas muito mais vastas; esse novo ser
físico (massas) e psíquico (consciência coletiva) representa nova criação
biológica, produto da evolução. Enquanto, porém, a maturação do tipo biológico
mais elevado significa desenvolvimento em altura, a formação desse novo e
gigantesco indivíduo representa desenvolvimento em superfície. No primeiro
caso exalta-se a qualidade; no segundo, conquista-se a quantidade.
Completam-se, embora crescendo em direções diferentes e com importância
própria. Ambos necessários, os dois impulsos se fundem na estrada das ascensões
humanas. O individualismo do tipo biológico dominante não desaparece nessa
nova organicidade; ao contrário, nesta, suas funções se coordenam. Como
indivíduo, geralmente primitivo, involuído, pode evoluir, seguindo sempre
caminhos individualistas. Mas é raro; e então o enquadramento coletivo o
educa e faz progredir. Por isso o individualismo não fica mutilado; seus
caminhos continuam abertos aos que têm força para emergir. Nos séculos passados
a vida pertencia apenas ao selecionado que se distinguira da massa. Hoje, é de
qualquer elemento da sociedade humana, a que agora não serve de obstáculo, mas
pertence como membro. A extensão de atividade a todo indivíduo, sua
participação, se representa primeira tentativa de nova e gigantesca construção,
teria de rebaixar o nível social ao do tipo corrente, do homem da rua, que pode
ser tudo menos tipo eleito. O nível social rebaixou-se até o do tipo comum,
ligado, em compensação, ao círculo de vida por ele antes desconhecida. A
formação das grandes unidades coletivas teve, pois, como primeira conseqüência,
o rebaixamento involutivo, até ao plano dos primitivos, do tipo de vida. Não se
pode evitar e, assim, se paga o progresso em extensão. Nasceu, todavia, novo
ser coletivo, que, a principio involuído e primitivo e hoje embrião em
crescimento, exprime a possibilidade de imensos desenvolvimentos futuros. O
povo desperta, sem dúvida, como se voltasse à vida. Nessa nova formação
coletiva o escasso valor individual do involuído cresce e se multiplica em rede
de contatos e trocas; não mais aparece sozinho, reduzido a seu valor
intrínseco, mas vive em função do organismo novo em que, participando como célula,
se multiplica. Nas unidades coletivas o indivíduo vem a conhecer novas formas
de vida e de relação e sente-se transportado para novo plano orgânico, antes
desconhecido.
A nova criação biológica de nossos dias
é, pois, exatamente esse novo indivíduo coletivo, com milhões de cérebros
procurando coordenar o seu pensamento segundo correntes de consciência,
indivíduo que nessas correntes busca formar personalidade própria e unitária,
diferente da dos indivíduos componentes. A psique individual pode assim agir segundo
dois diferentes pontos de vista: o do indivíduo como indivíduo; o do indivíduo
como célula social; no primeiro caso tem funções e objetivos individuais; no
segundo, coletivos. Trata-se de duas posições diversas: entre elas podem
nascer contradições; e o indivíduo, como célula social fará, com finalidade
social, o que jamais faria como indivíduo apenas. Pode, desse modo, sob a forma
de delinqüência, exercer funções de justiceiro. Mas se, no seu conjunto, o
indivíduo coletivo tende a adquirir consciência unitária, própria e distinta da
dos indivíduos componentes, nas peculiaridades e na estrutura interior tende à
especialização das funções. As grandes unidades coletivas são gigantescos
organismos sociais, colossais, monstruosos indivíduos biológicos de que o homem
é célula; as classes sociais, tecidos; as classes dirigentes, cérebro; as
massas, corpo. Estas unidades possuem sistema nervoso, órgãos de sensibilidade
e coordenadores de funções. Nelas o indivíduo exerce as atividades mais de
acordo com suas capacidades peculiares. O involuído se encarrega de desempenhar
as funções mais baixas: agressão, guerra, destruição; o evoluído desempenha
funções intelectuais e de direção. Eis como o tipo biológico mais elevado se
enquadra no novo organismo coletivo. Entre os dois extremos os administradores
se distribuem segundo suas qualidades específicas. Assim, os três tipos humanos,
vistos no capítulo III, encontram lugar e fazem sua tarefa. O indivíduo
coletivo, no entanto, está se formando ainda; não se definiu bem, até agora, o
critério distintivo das funções; há, por isso, entre as partes, a luta e a
incerteza próprias do período de formação. Existe, sem dúvida, semelhança com
o organismo biológico, mas organismo embrionário e experimental, como no
período paleontológico. Percebe-se, como no corpo humano, o princípio de
especialização, o coordenamento das qualidades individuais, mas no estado de
tentativa. Do ponto de vista biológico, torna-se muito importante a observação
do esforço feito hoje pela vida para coordenar suas conquistas individualistas
e, no plano humano, disciplinar as suas forças. Neste período histórico chega
a parecer que o esforço seletivo, de natureza também separatista, ceda o passo
ao esforço orgânico e social, de natureza coordenadora. A primeira tendência se
movia em direção individualista, para produzir poucos exemplares do tipo
eleito; no entanto, a segunda caminha em direção coletivista a fim de que
produza muitos exemplares do tipo medíocre e os valorize pelo número e não
individualmente, transformando-os em grande organismo coletivo. Levamos em
consideração neste livro ambas as formas de expansão vital evolutiva;
necessitamos das duas para completar o fenômeno da ascensão e da construção.
Veremos, enfim, como os altos níveis evolutivos não podem ser atingidos pelas
massas numerosas, mas medíocres; e como os poucos eleitos que os conquistaram
tendem, - uma vez cumprida sua função e alcançado o rendimento das qualidades
por eles adquiridas, - a separar-se da humanidade terrestre. Tornava-se
necessário, porém, completar o exame do fenômeno evolutivo, observando-se
também o aspecto coletivo; mas completar; começando da base, baixa, mas
extensa, da pirâmide social, onde se encontra a grande maioria que, embora de
modo diferente do evoluído, procura ativamente a própria construção biológica
Existem, pois, duas correntes de
atividade evolutiva, dois trabalhos intensos: a primeira conclui na formação do
super-homem, que se separa e afasta da humanidade, cujas formas de vida, para
ele baixas e insuportáveis, seu grau evolutivo não tolera mais; a segunda não
considera a exceção, por mais rara, mas a regra geral, embora medíocre; opera
sobre primitivos e deserdados, para realizar com eles tão importante conquista
como a outra. A vida não abandona ninguém; e a cada qual, de acordo com sua
natureza, oferece atividade adequada e confia tarefa. Este prefere subir
sozinho até aos mais elevados cimos; aquele sabe viver e trabalhar apenas no
meio da massa e em função dela. Ambos os trabalhos, porém, merecem respeito e
importam para o progresso; ambos contêm a incerteza da tentativa e o risco do
inexplorado; representam esforço criador, o trabalho da gênese biológica.
Estes dois pontos resumem a dupla fórmula vital do futuro, no duplo aspecto
individual e social.
Observemos o novo indivíduo biológico coletivo. Como todas
as primeiras formações embrionárias da vida, agita-se desordenadamente,
procurando configurar-se mais estavelmente; sente confusamente; move-se,
desarticulado e incerto, como todas as construções biológicas recentes. Trata-se,
na verdade, de novo e imenso corpo vivo, de corpo social com as
características, as leis, os instintos, as moléstias e as defesas da vida
orgânica e psíquica. O paralelo entre organismo individual e organismo social,
se confirma nossa concepção biológica do fenômeno social, esclarece-o também,
visto como reencontramos nele as leis reguladoras do organismo do indivíduo.
Essa relação nos permite compreender o funcionamento da unidade coletiva e
advinhar-lhe o futuro, utilizando-nos dos mesmos princípios já encontrados no
caso individual. Poderemos, assim, compreender melhor a lei reguladora dos
acontecimentos históricos; considerando-os como fenômenos de biologia social,
poder-se-á fazer, à luz da patologia social, a diagnose das crises coletivas,
e estudar, de acordo com a fisiologia coletiva (ou dos corpos múltiplos), o
funcionamento do novo grande organismo. Dos conceitos próprios da Anatomia
poder-se-ão aplicar-lhes os de: atrofia, hipertrofia, circulação e metabolismo,
centros cerebrais e nervosos e correntes de consciência, gênese, crescimento,
maturidade, senilidade, morte e hereditariedade, ciclos vitais, transformismo
evolutivo Como a propósito do indivíduo, poderemos, a respeito da unidade
social, falar em personalidade, destino, responsabilidade, missão.
Essas comparações
são lícitas e lógicas, pois o universo é dirigido por uma só Lei, quer dizer,
por legislação única, sempre onipresente. O fenômeno social, como o
fisiológico; segue a mesma lei universal expressa pela trajetória típica dos
movimentos fenomênicos e pela lei da unidade coletiva. (Cf. A Grande Síntese - cap. XXVI e XXVII). Na matéria, na vida como no espírito,
as formas desde as atômicas até as siderais tendem para a unidade ou, seja,
para o reagrupamento e a reorganização em sistemas, em associações cada vez
mais vastas e complexas. Toda unidade já representa em si mesma a resultante da
organização de unidades menores. O próprio universo é por excelência unitário
e orgânico; é de alto a baixo edifício único. Desse modo, é fenômeno social,
não somente biológico, mas também conexo e logicamente entrosado no fenômeno
cósmico; representa momento da Lei, processo de mecânica universal. Não
podemos considerá-lo isolado, fora do complexo da vida, dos métodos e da
finalidade da Natureza. Assim, encontramos o fenômeno social, histórico e
político orientados e em sintonia com o mesmo ritmo da lei reguladora de todos
os fenômenos. Em toda parte ambos têm o mesmo esquema fundamental, redutível a
princípio único. Torna-se evidente que: a Natureza age de acordo com esquemas
simples e constantes; suas formações se fazem em modelos, embora não
mecanicamente, em série; seus desenvolvimentos obedecem a um plano e isso os
prende sempre a um princípio diretor central. Retomaremos em melhores
condições, mais adiante, tal conceito. A criação tende para a uniformidade e a
repetição dos modelos. Todas as formas, assim, possuem base comum a irmaná-las
em parentela que mostra derivarem do mesmo e único princípio. Não se copiam,
mas se reclamam mutuamente de todos os pontos do universo e de todos os planos
evolutivos. Por isso na formação e funcionamento das grandes unidades sociais
vemos a reprodução dos fenômenos e o retorno das leis por nós observados nas
unidades minerais, vegetais, animais, desde o átomo até às estrelas.
Isso posto, de modo algum podemos crer
que o fenômeno histórico se desenvolva sem lei, abandonado ao arbítrio
individual ou ao capricho dos acontecimentos. A História nos conta como se
sucedem no tempo os vários momentos do funcionamento dos organismos coletivos.
Estas palavras poderiam constituir-lhe a definição. O funcionamento do corpo
social, expresso pela História não obedece ao acaso, mas segue o mesmo ritmo
por nós encontrado noutros fenômenos. Em outras palavras: o transformismo
fenomênico do complexo vivo do grande corpo coletivo obedece às mesmas leis do
dinamismo universal. Ou mais exatamente: é dirigido enquanto pertencente ao
binário da onda histórica. A vida das grandes unidades coletivas se desenvolve
de acordo com movimento de amplas oscilações ascensionais e descendentes, de
altos e baixos periódicos, movimento que repete o princípio das ondas do mundo
dinâmico de que a vida participa.. Isso naturalmente acontece sempre que se
trata de dinamismo como neste caso. Observemos os períodos e as características
desse ritmo histórico. A História se desenvolve de acordo com respiração
rítmica por nós reencontrada na física e especialmente no eletromagnetismo. A
existência dos retornos históricos, já observados por Vico, é fenômeno de
fácil observação. A trajetória típica dos movimentos fenomênicos de que
falávamos acima segue o princípio desses retornos ou repetições,
reproduzindo-os, todavia, em cada vez mais elevada posição; desse fato deriva
a evolução. Desse modo, funciona também a história. Os acontecimentos humanos,
sucedendo-se, tendem a repetir-se, ligam-se à lei dos retornos históricos que
os obriga a percorrer de novo o velho caminho. Não nos surpreendamos por isso
se a História parece não ensinar coisa alguma e se muitas vezes os mesmos erros
são cometidos de novo pelos próprios dirigentes, que mais do que ninguém devem
tê-la presente. Essa a lei do fenômeno, que só não se repetiria se progredisse
sempre em direção evolutiva; é isso exatamente a coisa mais árdua na vida.
Todavia, como na trajetória dos movimentos fenomênicos, a repetição não se
transforma em cópia autêntica; quem observá-la bem lhe notará alguma
diferença, embora pequena. Esta representa todo o valor da conquista, o
resultado da experimentação. Aconteceu em direção ao alto, em direção
evolutiva. E, se atuou na realidade, é construção acabada e real, embora sob a
forma de força imaterial. Representa novo e indelével traçado, tipo mais
aperfeiçoado de ritmo, fixador do binário em que pela mesma lei de repetição
devem desenvolver-se mais tarde os novos acontecimentos históricos. Estes,
como sempre, retornarão ao passado, mas a passado que já fixou determinada
diferenciação evolutiva, patrimônio já conquistado e ponto de partida para
novas diferenciações e conquistas.
Observemos, pois, as características
dos dois períodos do ritmo histórico. Trata-se de duas posições inversas e complementares,
rivais e contudo irmãs na tarefa de construir. Trata-se de caso a que se aplica
a lei universal da dualidade, já desenvolvida em A Grande Síntese (cap. XXXIX) e que neste livro desenvolveremos
ainda mais. No ritmo histórico continuamente se alternam os períodos clássico
e romântico. O primeiro, masculino, explosivo, guerreiro, materialmente
conquistador, destruidor, fecundante e semeador, violento, involuído,
materialista. O segundo, feminino, tranqüilo, conservador e espiritualmente
conquistador, construtor, preparador e amadurecedor, pacífico, evoluído, espiritualista.
Na trajetória dos movimentos fenomênicos o primeiro período representa a fase
de queda involutiva, de retorno e de recuo; o segundo, a fase de ascensão
evolutiva, de progresso, de ímpeto. Ambos os períodos, porém, são necessários
porque têm funções diferentes e ao mesmo tempo complementares. O progresso
caminha amparado nessas duas forças contrárias, impelido pelos seus choques e
contradições. No fundo os dois períodos criam, embora sob forma diferente,
emborcando-se um no outro; e, embora pareçam inimigos em luta, cooperam,
colaboram em lados opostos na mesma construção. Se o primeiro em plena tempestade
não evidenciasse e no meio da morte não lançasse princípios mais elevados de
vida; se em ambiente de destruição não limpasse o terreno, tirando-lhe as
velhas construções, o segundo na paz não teria nem novos motivos para desenvolver
nem novas construções a levantar. Reencontramos aqui o conceito acima lembrado
e segundo o qual, para poder conciliar a fluidez necessária ao transformismo
evolutivo e a rigidez imposta pela necessidade de assumir formas bem definidas
a vida deve renovar-se, alternando continuamente a vida e a morte, a construção
e a tudo isso exprime, nesse caso, a íntima bipolaridade encontrada em toda
individuação, representa os dois extremos opostos entre os quais, oscilando,
funciona e evolui o fenômeno social; corresponde à característica de harmonia e
equilíbrio fundamental da Lei: os dois extremos, componentes de cada unidade,
devem ser proporcionados e se contrabalançarem. A fenomenologia universal,
reclama e faz-nos encontrar, presente em toda parte, o organismo insecável de
seus princípios.
Mas o equilíbrio não aparece só na
intimidade de cada unidade social, no seu desenvolvimento temporal, mas também
na sua estrutura espacial. Noutros termos: o fenômeno não é equilibrado apenas
no futuro histórico, mas também na distribuição pela superfície da terra das
várias unidades sociais. Quer dizer: há povos que vivem em determinada fase;
outros estão situados em outra, de modo que a humanidade não concentra em
direção única todo o seu dinamismo, mas o faz agir tendo em vista a
compensação tanto no tempo como no espaço. Evitam-se assim demasias e lacunas
perigosas, atrofias e hipertrofias danosas; e em meio a tanto movimento e tal
emaranhado de contrastes a harmonia permanece soberana no espaço e no tempo. No
espaço, a civilização ocidental, mecânica e materialista, equilibra a
civilização oriental, mais madura e espiritualista. No tempo, o fato de
estarmos hoje em pleno materialismo significa que se deve fatalmente esperar a
fase de espiritualismo. Não se poderão saber exatamente o ano e o dia; mas diz
a lógica das leis da vida que o atual ciclo histórico deve encerrar-se; as
forças, que o movimentam e atuam há tempo, devem parar e esgotar-se; e deve
começar precisamente o ciclo oposto. Poder-se-á dizer: "não vejo, não
creio"; mas o leitor, se capaz de raciocinar e compreender a mecânica do
universo, que estamos procurando pôr-lhe sob os olhos em pleno funcionamento,
deverá concluir que as aparências estão na superfície e enganam; deve nascer-lhe
no espírito ao menos a suspeita de que debaixo delas, onde tantos vivem, exista
outro mundo, imenso e muito mais perfeito. Enquanto o ciclo atual percorre a
trajetória, completa a tarefa e descarrega o dinamismo, o outro, presente em
todas as coisas, espera a vez, espera em silêncio e repouso e recarrega o
dinamismo. O leitor olhe em torno, na vida vegetal e animal, no descanso
hibernal e nas florescência primaveris, no sossego da morte e nos trabalhos da
vida, e veja se o fenômeno constitui exceção da regra geral.
No caso humano, os dirigentes,
intérpretes e jamais criadores do momento histórico, jamais árbitros
desordenados e sim servos obedientes à Lei sem a qual não há vida, põem em
funcionamento esta ou aquela fase, de acordo com os tempos, sucessivamente, uma
em conseqüência da outra; e as massas caminham, dando corpo ao impulso. A
alternância das duas tendências permite que depois do período de trabalho
ambas as partes descansem Os componentes do imenso indivíduo coletivo são
levados, assim, alternadamente, a turnos de trabalho e de repouso, exatamente
como as equilibradas leis da vida querem. Enquanto uns repousam, outros, que já
repousaram, agora trabalham; e assim, embora passando de mão em mão, a função
progride sem interrupções. Divisão de trabalho necessária, porque executada
por muito diferentes tipos biológicos, de funções especializadas; necessária
para evitar cansaços e esgotamentos étnicos; necessária para corrigir qualquer
direção individual tendente à hipertrofia unilateral e desse modo compensá-la.
Só assim podemos conseguir desenvolvimento homogêneo e harmônico. Portanto, o
grande indivíduo coletivo, como simples homem equilibrado, divide sua
atividade pelo trabalho físico e pelo espiritual.
Como em todas as formas da vida, os
dois sexos se completam. Há povos masculinos, conquistadores e fecundantes, e
povos femininos, conquistados e fecundáveis. Mas têm ambos todas as outras
características, como acima dissemos, dos períodos opostos, clássico e
romântico. As duas extremidades se atraem, emparelham e compensam no tempo e no
espaço. A unidade completa resulta da fusão dos dois contrários e cada qual
nada pode fazer sozinho. Se a parte masculina não fecundar, a feminina nada
gera. O fenômeno da civilização pode parecer processo de efeminação porque
significa paz, conservação, bem-estar, luxo, refinamento, arte, cultura.
Veremos mais tarde como a maturação, muito impelida nesse rumo, se resolve em
podridão, assim como a oposta atividade viril termina em cataclisma, se muito
forte. A Lei, nos seus equilíbrios, sabe corrigir os excessos, intervindo a
tempo com impulsos contrários e compensadores. Existe proporção entre os de
uma fase e os da sucessiva, como entre ação e reação. Isto faz-nos pensar em
quão grande deverá ser a nova civilização do espírito, se a compararmos com a
atual destruição conseguida pela civilização da matéria. Os preparativos são,
de fato, gigantescos.
Torna-se necessário que, efetivamente,
a onda, por sua mesma estrutura, em dados períodos, eleve das raízes da vida
forma masculina para salvar a humanidade da civilização acelerada demais, isto
é, da efeminização ou, melhor, da maturação levada à putrefação. Então, o homem
domina, tudo se viriliza, inclusive a mulher (como hoje acontece), enquanto no
período oposto, a mulher domina e tudo se efemina, o homem inclusive (como
aconteceu no século XVIII). Quando chega a hora, ele intervém para verificar, à
luz da realidade concreta, as superconstruções do período romântico; arrancar
o que nele existe de falso e supérfluo, quer dizer, de não realmente verdadeiro
na vida; reativar a circulação; dinamizar com novos impulsos. Nessa relação se
encontraram a antiga Roma e a Grécia, na França, a revolução e o império
frente ao período monárquico imediatamente anterior; e no mundo, a fase atual
e o século XIX. E tudo isso para depois civilizar-se de novo com os produtos
das civilizações vencidas, elaboradas na luta e introduzidos em novo ciclo.
Assim, nada se perde ou destrói; se o acessório supérfluo desaparece, a
substância permanece e revive sem cessar. Melindramo-nos com a destruição feita
por essas tempestades, porque só vemos as formas e vivemos na superfície. Se,
ao invés, olhássemos o germe das coisas, veríamos que ele não morre jamais; e
esse perecimento menos nos perturbaria, com essa explicação lógica.
Assim, onde há o perigo de excessivo
efeminamento, onde civilização muito impetuosa enerva e debilita as raças, aí
a vida coloca reforços para, com injeções de virilidade, dinamizarem a
maturidade por demais cansada. Essa a função dos povos jovens, involuídos e
primitivos, mas também mais próximos das origens da vida, transbordantes de
energia, embora pobres de experiência e sabedoria; possuem dinamismo cuja
qualidade, evoluindo, por enquanto não transformaram em qualidade.
Naturalmente oposta é a função dos povos maduros, cujas riquezas espirituais os
primeiros avidamente querem possuir, como se fossem alimento de que carecem
para, assimilando, evoluir. Os primeiros oferecem dinamismo rude e decomposto;
os segundos, sabedoria, produto de longas experiências. Estabelece-se entre os
dois o mesmo equilíbrio existente entre jovens e velhos, uns e outros
necessários à vida, embora com funções opostas. Com isso se obtém, de uma só
vez, dois grandes resultados: 1) o
progresso do involuído por obra e graça do evoluído, que assim dá rendimento
coletivo à sua posição, vindo esta a constituir função biológica; 2) o
recarregamento dinâmico das coletividades civilizadas e cansadas, trabalho do
involuído, que preenche, ele também, função biológica. Desse modo, cada qual
se compensa, dando o que tem e adquirindo o que não tem; todo tipo humano tem
função e missão e os extremos da vida se ajudam alternadamente. A técnica
regeneradora da vida, desde o caso sexual até ao da mistura das raças,
funciona exatamente de acordo com o sistema das cessões e aquisições
recíprocas, isto é, com o das trocas entre elementos contrários.
Se do exame dos princípios passamos ao
nosso atual caso particular, evidencia-se como se encontra hoje o mundo na
fase masculina, em que tudo, inclusive a mulher, tende para a virilização.
Explica-se desse modo o assim chamado despertar político-social da mulher, sua
participação em atividade para que em outros tempos a consideravam incompetente.
Encontramo-nos evidentemente em pleno período clássico, oposto ao romântico,
quer dizer, em período de exaltação das qualidades do tipo guerreiro,
materialmente conquistador, destrutivo, fecundante e semeador, violento,
involuído, materialista. Estão momentaneamente deprimidas as qualidades do
tipo oposto, cujo dinamismo agora se recarrega em silêncio, à espera da vez de
entrar em ação. Quando isso acontecer, exaltar-se-ão as qualidades do tipo
romântico e serão deprimidas as do tipo atual; e assim por diante. As verdades
sustentadas pelo homem não exprimem muitas vezes senão a tarefa particular à
realizar-se. Assim se explica a alternância da moda, - não só nos vestidos.
mas em todas as coisas - forma mental essencialmente mutável e expressa em
tudo. No novo período não se dará valor ao que hoje se admira; ao contrário,
valorizar-se-á o tipo conservador, espiritualmente conquistador, construtor,
preparador e maturador, pacífico, evoluído, espiritualista. A Lei nos obriga,
instintivamente, a prezar o tipo que, no momento, está exercendo função de
valor porquanto corresponde a determinado objetivo biológico e tende a
alcançá-lo, explicando, como missão, suas qualidades particulares.
Chegará, pois, o período de refinamento
espiritual. A ontogênese, diz-se, resume com rapidez a filogênese. Do embrião
a juventude, a história da vida se repete no organismo. Assim toda civilização
ao surgir, recapitula o seu passado de acordo com seu tipo. A nova fase, porém,
como vemos na trajetória os movimentos fenomênicos, não se esgota nessa
repetição sumária, mas continua o caminho para subir mais, conquistando novo
trecho. Isso representa a conquista evolutiva da fase. Em princípio, pois, os
motivos espirituais do precedente período do mesmo tipo serão retomados,
rapidamente recapitulados e em seguida levados até mais longe. O que no passado
foi ponto de chegada será agora ponto de partida, terminada a recapitulação. Os
mesmos princípios, posto haver continuidade na evolução, serão desenvolvidos
sob a forma de construções que antes não haviam encontrado os meios de
tornar-lhes possível a atuação. Já sob bases orgânicas coletivas, a nova fase
poderá ir muito além da antecessora do mesmo tipo, depois de ter sido obtida na mistura de povos, raças
e civilizações a recíproca cessão e aquisição, isto é, a troca em que atua a
técnica regeneradora da vida ou, noutras palavras, depois de dinamizados os
exaustos e tornados maduros os involuídos. Desta vez o impulso espiritual
encontra preparados meios bem diferentes de ação e, principalmente, esse
movimento de massas característico de nossos tempos e em que poderá multiplicar-se,
enxertando-se nele. Os meios de divulgação e de contacto e o aumentado nível
médio de cultura permitirão muito grande alargamento de bases e de
comparticipação. Doutro lado, a concepção espiritual da vida não ressurgirá
como tentativa, tendência ou na forma que para tantos é crença vaga, mas
ressurgirá como conhecimento e consciência das leis da vida acessíveis por via
racional e experimental, no modo evidente da objetividade cientifica. Desta
vez o homem, servido pela técnica, será dono de muitas forças da natureza, de
muitos instrumentos e capacidades novas que antes ignorava. Assim, a sua nova
espiritualidade não se concretizará unicamente nos casos de individualismo elevado
ou, então, como elementar e prévio fermento de massas; mas se desenvolverá na
reconstrução orgânica da civilização, impregnando-lhe todos os estratos e
enquadrando-lhe todos os movimentos. A nova espiritualidade do terceiro
milênio deverá realizar-se em plano coletivo muito mais amplo, mais profundo e
orgânico do que qualquer dos precedentes.
A construção é grandiosa, mas nova em
grande parte; e o novo não está isento de perigos. Vamos assinalar dois. Eis o
primeiro: a formação do organismo coletivo representa moderna conquista que
nossa fase apronta para a seguinte. Ora, toda construção tende à hipertrofia e
à caducidade. Logo, o princípio de organicidade social ameaça tornar-se o
túmulo do individualismo. Este, excelente produto da velha civilização, hoje
deve lutar para não deixar-se absorver pelas novas afirmações do coletivismo.
Causa dano perturbar os equilíbrios. O processo de unificação social não deve
reduzir-se a processo antibiológico, destruidor de valores adquiridos que, ao
contrário, se devem conservar e empregar. Assim, caminhando demais em direção
da vida, arriscamo-nos a seguir caminho diametralmente oposto. A unificação
orgânica coletiva não deve resolver-se no esmagamento e morte do
individualismo, que contínua a ser a "via regia" da evolução; deve,
porém, significar-lhe a coordenação em unidades maiores, em que ele, ao invés
de mutilado e asfixiado, se torne expoente da vida social de relação. Produto
biológico não se destrói sem dano. O novo trabalho consiste em coordenar os
valores resultantes das conquistas realizadas, herança das fadigas humanas no
transcurso dos séculos, e aumentar-lhe o rendimento na coordenação. A Lei quer
o equilíbrio, isto é, não quer Estado onipotente. de corpo social em que o
indivíduo desapareça, mas a afirmação equilibrada dos dois princípios: o
individual e o coletivo, opostos e complementares, por isso feitos para
compensar-se mutuamente. Opostos, tendem a prejudicar-se um ao outro; todavia,
são reciprocamente indispensáveis. O primeiro vale como material construtivo:
sem ele nenhum sistema é atuante; o segundo, como força disciplinadora e
coordenadora sem ela os valores do individualismo se anulam na luta e na
destruição. O primeiro se move em direções e tende a conquistas, ambas
diferentes das do outro. Um, caminha para especialização cada vez mais avançada,
profunda e perfeita ou, seja, é separatista; o outro, anti-separatista,
dirige-se à unificação mais íntima e completa. Os dois princípios preenchem
função: o primeiro forma um por um os indivíduos; o segundo coordena-os em
unidades cada vez mais vastas. Primeiro o princípio coletivo organiza os
indivíduos em organismo familiar; depois, em classe social; em seguida, em
Estado e Nação; mais tarde, em raça; finalmente, em humanidade; e, além de
nosso ambiente terrestre, em organismos de humanidade. O indivíduo, segundo o
grau evolutivo deve sucessivamente tomar parte nessas unidades múltiplas cada
vez mais vastas e complexas, sem destruir a organicidade já atingida, mas encaminhando
a menor para a maior.
Um dos erros do princípio coletivo será
a redução do homem a máquina e a número, à irresponsabilidade, à servidão, à
situação de indivíduo mantido pelo Estado onipotente, em posição crepuscular
de segurança e passividade. Isso é antivital. Os desníveis de todo gênero, o
estímulo do interesse, a liberdade de iniciativa individual, as competições em
todos os campos incitam a atividade necessária para os experimentos de que
nasce a evolução. A propriedade, tão bem conhecida até dos animais, constitui
fenômeno biológico inviolável porque necessária para proteger e conservar a
vida Se o enquadramento chega à absorção; se paralisa a liberdade de movimento
necessária aos objetivos da vida do indivíduo; se a disciplina chega à
destruição da fisionomia individual e à sufocação, o princípio coletivo
torna-se antivital. Seria antibiológico que a estatolatria atuasse, oprimindo
a célula constitutiva, pois o Estado existe justamente para desenvolvê-la.
Deve existir proporção entre cérebro e membros, equilíbrio entre centro e
periferia, harmonia em tudo. Toda hipertrofia é monstruosa. O novo corpo
social tem necessidade de ser plástico, adaptável, multíplice, de partes
compensadas, de elementos substituíveis precisa não emperrar por causa da
excessiva complexidade da organização, tanto mais vulnerável quanto mais
complexa e assim, reduzida a fator de perigo para a vida. Não deve resolver-se
em centralização absorvente, mas compensá-la com descentralização adequada. A
ameaça do novo sistema orgânico está na preguiça do indivíduo, que se adapta e
abastarda, servindo-se dele apenas para deixar-se arrastar, abdicando à própria
autonomia espiritual e ao direito de evoluir porque, guiado pelo Estado e pela
técnica, acredita poder, enfim, furtar-se ao trabalho. A ameaça está em que a
igualdade chegue à podre indolência dos servos e à criação de rebanhos
passíveis se serem dominados. Infelizmente o senso de responsabilidade tende a
decair na razão direta do número. O apoio recíproco encoraja a inconsciência e
por motivo de confiança recíproca enfraquece o autocontrole; é convite à ação
cega que, quando isolada, é mais ponderada. O número, principalmente aos
fracos, dá ilusão de poder, de segurança e também de impunidade. O número
constitui a grande defesa e a única força das nulidades; estas sabem disso e
nele se refugiam. O coletivismo pode ser desfrutado por elas e significar-lhes
a exaltação. Na massa, em que vale a quantidade e não a qualidade, o inferior
se valoriza e o superior se desvaloriza. O número nivela, tira dos melhores e
dá aos piores. Como os primeiros constituem a minoria, todo agrupamento implica
em piora mais ou menos pronunciada. Os primeiros descem até aos segundos; estes
não sobem até aqueles. Assim, toda coletividade vale sempre muito menos que a
soma dos indivíduos componentes. " Senatores boni viri, senatus autem mala
bestia[7]".
E isso também porque o apoio recíproco diminui o esforço individual e,
portanto, o rendimento coletivo. Desse modo, por causa dessa instintiva
confiança de ovelha e da cessão de controle, as forças individuais de qualquer
agrupamento humano se anulam ao invés de se somarem. Basta isolar o indivíduo,
para dar-lhe de novo o senso de responsabilidade. Desfeita a miragem, cai logo
em si. Nesses casos o homem se revela animal gregário. Mas, se deve ser
enquadrado e disciplinado, deve também ser deixado sozinho e livre diante dos
problemas da vida, para que aprenda a resolvê-los por si mesmo. Torna-se
necessário que a evolução como coletividade não signifique supressão do
esforço, tão de boa-vontade abandonado, para evoluir individualmente, porque
nesse caso a evolução trairia seu objetivo, a ascensão. De fato, entravando o
progresso individual, perturba até mesmo o princípio dele resultante.
Eis o segundo perigo, capaz de causar o
naufrágio da nova civilização do espírito, impedindo-lhe atingir as suas metas:
o bem-estar a segurança, o refinamento, se significam civilização, constituem o
primeiro passo do enfraquecimento e da decadência. Para não apodrecer a vida
deve exercitar-se continuamente na luta porque é da lei que a vida não seja fim
de si mesma, mas instrumento de conquista. Ai do homem se, atingido o bem-estar material, se contenta e pára em
plena estrada da conquista, sem avançar mais, em direção ao altiplano do
espírito. A ascensão material, para não degenerar deve ser apenas o meio para
apresentar-se em novos horizontes intelectuais e espirituais, conseguir
realizações mais elevadas, sob novas formas de luta, a fim de que a evolução
continue. Só assim se poderá dar futuro à vida. A História já nos mostra como
se manifesta a decadência tão logo o homem se detém no progresso obtido, como
nas comodidades diminui a intensidade do trabalho evolutivo, e como a todo
período de sofrimento segue período de ascensão. O alto padrão de vida pode
adormecer as limitadas potências criadoras do espírito, que deve ser malhado e
polido como os metais para manter-se brilhante. Para os indignos a vida pára e
quem pára morre. Não se entenda o novo período como resultado de que se deva
tirar gozo, mas como novo tormento de criação. Só se a lei de luta e seleção
for levada para o plano mais alto, a vida não será traída e essa civilização
terá conseguido seu objetivo. Só assim não será inútil e não tombará
esperdiçando os frutos de passado tão longo. As civilizações deste tipo tendem
a desagregar-se na efeminação, no refinamento, na inércia, como as do tipo
oposto tendem a naufragar na violência e na destruição. Tão logo a civilização
do espírito perde a substância e se torna forma brilhante, sem nenhum conteúdo
mais, desperta ameaçador o fermento viril e masculinizante; desperta e sobe
dos planos inferiores para jogar fora a estrutura que se tornou inútil. E isso
lhe assinala o fim.
VI
A LEI DA HONESTIDADE E DO MÉRITO
Nos primeiros capítulos deste livro,
pela verificação de fatos, partimos do que o homem hoje é, e isso deixando apenas
entrever o que deveria e poderia ser. Começamos agora a percorrer a longa
estrada da ascensão. Levar-nos-á a vertiginosas alturas. E a grande massa
humana, de que até mesmo no aspecto coletivo apreendemos os movimentos, irá
diminuindo de tamanho até ficarem somente poucos casos excelsos, florescência
de excepcional beleza e supremo esforço da raça. O problema coletivo só se
concebe na base da evolução humana. A vida não sabe atingir os pontos
culminantes senão sob forma individualista. Todavia, as próprias construções
sociais não podem elevar-se sem adequado material humano, cuja formação
constitui problema individual. Sem novo homem, mais sábio e consciente do que o
involuído hoje em maioria, os sistemas coletivos que nos dias de hoje tentamos
tornar atuantes não podem atingir os objetivos que prefixam para si mesmos.
Mesmo para resolver a questão social torna-se necessário, pois, começar pelo
caso individual, visto como os dois fenômenos, individual e coletivo, se
entrosam e amadurecem paralelamente. O engenheiro poderá fazer projetos
maravilhosos, mas se não dispuser de bom material os edifícios por ele
construídos desabarão. Tal entrosamento de fatos nos impele do aspecto
coletivo ao individualista, da visão de conjunto à de suas particularidades.
Se os cimos constituem exceção e não interessam às massas, os primeiros passos
das ascensões humanas são problema vital também para elas e outras construções
coletivas com elas relacionadas. Para, também sob esse aspecto, construir o
progresso. torna-se necessário começar pela construção do indivíduo, pelo
renovamento da forma mental dominante, a do involuído. Sem o estabelecimento
dessa premissa os atuais sistemas de enquadramento coletivo ou se reduzem a
mentira ou não passam de utopia.
Comecemos então a observar o que o
homem deve e pode ser, precisando cada vez mais o como e o porquê. Comecemos a
demolir racionalmente a psicologia do involuído para substitui-la pela de tipo
biológico mais evoluído: a demonstrar como de fato a vida é bem diferente
daquilo que geralmente se pensa; a destrinçar a meada das falsas aparências a
fim de chegarmos a compreender o engano das ilusões psíquicas que tantas vezes
vitimam o homem. Só se a observação incidir-lhes, além das aparências dos
fenômenos, na intima estrutura de organismo de forças em ação, poderemos
atingir seriamente e sem desilusão o objetivo instintivo e justo da vida: a
felicidade. Como todos os jogos têm regras próprias, cada dinamismo, técnicas,
e cada fenômeno, leis, então, neste caso também, se compreende a necessidade de
disciplina reguladora e diretriz da atividade humana, se quisermos vê-la
atingir o fim a que tende. Todos compreendem que para se tornarem possíveis o
melhoramento e a renovação sociais se necessita de tornar comum o tipo humano
excepcional em nossos dias, no qual predominam as características de
honestidade. Trata-se de revolução biológica, por esta razão: o princípio
separatista do egoísmo agressivo para seleção do mais forte é substituído pelo
elevado princípio coordenador e harmônico do enquadramento do indivíduo no
funcionamento orgânico da humanidade. O involuído não sabe decidir-se a essa
transformação que implica o abandono das armas de ataque e defesa, pois teme
ficar desarmado, sem proteção, e, pensa ele, isso significa seu fim inevitável.
Se olharmos bem o íntimo das coisas, veremos que só o desconhecedor das leis da
vida pode crê-lo e quem pratica o Evangelho não é pessoa iludida, enganando-se
ao seguir utopias, mas homem que descobriu outras leis mais profundas, mais
sólidas e perfeitas e utiliza na própria defesa princípio protetor completamente
diverso. Como vêem, o indivíduo assim não renuncia precisamente às próprias
defesas e, como pode parecer, não se abandona à mercê de todos os assaltos. Ao
contrário, obtém outra segurança bem diferente, pois movimenta mecanismo de
forças muito mais perfeito e resistente que a violência ou astúcia do
involuído, mecanismo não compreendido por este, na ignorância inerente a seu
grau.
Atualmente, a
honestidade é considerada pelo involuído, muitas vezes, como debilidade, peso
moral que embaraça a luta, posição de inferioridade, forma antivital de
inconsciência, desequilíbrio, moléstia do espírito. Essa a perspectiva das
coisas, do ponto de vista em que o involuído se coloca. Mas o ponto de vista
pode mudar e então, obtemos perspectiva completamente diversa. Isso parece
impossível até o momento da efetiva mudança do ponto de vista. Mas quando tal
acontece, a perspectiva muda automaticamente. Como a retidão, a inocência e a
obediência à Lei podem constituir instrumento de defesa melhor que a força, o
egoísmo e a astúcia? Simplesmente absurdo, dirá o involuído. Não. É absurdo
apenas para quem não possui o sentido orgânico da vida. E esta organicidade da
vida é qualidade essencial sua, estado universal e acessível a todos, em
qualquer tempo e lugar, porque depende da própria maturidade e não da
compreensão alheia e do grau de organização social. Essa organicidade acha-se
pronta a receber no seio todo indivíduo que saiba pensar e agir organicamente,
não como arbítrio individual, mas como função coordenada no funcionamento
universal. O indivíduo, ao contrário, pensa e age desorganizadamente. Crê ser
forte e dominador; no entanto, não passa de caótico e destruidor. Seu egoísmo,
que acredita ser-lhe necessário, é o princípio de sua desagregação; seu hábito
de impor-se, para ele meio de poder, não passa de excitante de reações
dolorosas da Lei; o imediatismo da vantagem obtida nos resultados próximos é
apenas a imprevisão do dano que inevitavelmente os resultados longínquos lhe
trarão. Observado à luz da mais profunda realidade das coisas, o involuído não
nos aparece como apanhador de conquistas e de alegria, mas semeador de erros e
dores, míope enredado nas particularidades das coisas próximas e ignorante das
que, embora afastadas, também lhe dizem respeito, louco que em organismo
harmônico, equilibrado e perfeito se debate na falta de compreensão,
chocando-se com forças que, para ele invisíveis, o ferem de morte. O mundo
dirigido pela bondade e pelo amor estaria pronto para acolhê-lo em atmosfera de
felicidade, se o involuído soubesse comportar-se como Deus quer, em harmonia e
cooperação. Pelo contrário, não compreende coisa alguma de tamanha bondade e
beleza e agita-se em atmosfera de revolta e destruição, para acabar
encarcerando-se em férrea gaiola de dolorosas sanções. Então, ainda se debate,
debate-se cada vez mais e os nós vão-se apertando; aí, rebela-se mais ainda,
maldiz, vai de vingança em vingança e, assim, agrava sempre mais sua
autocondenação.
Inútil estar sempre cogitando novos
sistemas sociais, enquanto não se puder dispor de outro tipo humano como
material construtivo. Com esse homem anti-social e caótico não se pode
pretender sólida construção coletiva. Para tanto, esse material deve ser
cimentado pela fé e manter-se no espírito de cooperação, na disciplina material
e moral e, acima de tudo, na retidão interior. Em face desse princípio
fundamental de ordem, torna-se secundária, quase sem importância, a forma do
sistema social, segundo o qual os homens tanto se separam e tanto se batem.
Não é a estrutura do sistema o que importa e decide, mas haver entendido a
lógica e a vantagem, até mesmo individual, da honestidade, esse novo e mais
orgânico utilitarismo e ter compreendido, ao contrário do que (assim dizíamos)
possa parecer ao involuído, como a retidão é força, ajuda na luta, posição de
superioridade, forma vital de consciência, equilíbrio, saúde do espírito.
Algum sábio, sem dúvida, já o disse e redisse. Mas na vida dos povos valem os
atos de muitos e não as palavras de poucos. Isso, verdadeira enfermidade do
espírito, é pelo contrário a decadência do senso de retidão, causada pelo
materialismo e de que tantos se orgulham como se se tratasse de superação.
Significa decadência do senso orgânico da vida, quer dizer, debilidade
biológica, perigo social, perturbação que se paga caro. E, com efeito, a vida
hoje se tornou campo de competições tão torturantes e impiedosas que qualquer
alegria se torna impossível, desaparecem a fé e a segurança, todas as coisas
humanas se envenenam; por todos os atalhos do injusto corremos para o
arrivismo, mas fazemo-lo de respiração opressa porque esse sistema embaraça e
pesa; corremos, supondo-nos dinâmicos, mas é dinamismo fictício e traidor, que
culmina na destruição universal. Neste mundo falso, o honesto é considerado
estúpido e ingênuo. No entanto, é o único que, agindo de acordo com as
verdadeiras leis da vida, pára e constrói parapeito protetor à beira do
abismo. A honestidade constitui sempre o melhor negócio E questão de
compreender. E a desonestidade, diga-se o que se disser, é sempre o pior
negócio, representa, em outras palavras, forma de estupidez.
Para solução de todos os problemas,
repetiremos sempre, necessitamos de compreender a Lei. Não vivemos no vácuo,
em meio ao nada, no caos; estamos, pelo contrário, mergulhados em oceano de
forças e, entre elas, somos força também; não podemos isolar-nos, fugir do
regime de interdependência que liga tudo a tudo. Todo fenômeno tem vida e se
move segundo trajetória determinada; representa impulso, vontade de existir em
dada forma, de progredir em direção a determinada meta; representa dinamismo
inteligente. Forma, vontade ativa e princípio diretor acham-se presentes em
qualquer época e lugar. O conjunto imenso de todas as formas coordena-se em
hierarquia; a rede de todos os impulsos, em sistemas dinâmicos; e o feixe de
todos os princípios, na Lei. Tudo é ligado, sensível, correspondente. Não se
podem evitar as proporcionadas e precisas reações a todos os movimentos. Tudo
ecoa e repercute em cadeias de ações e reações. Qualquer ato nosso deve avançar
fatalmente para o binário do determinismo causal e é, assim, guiado
automaticamente em seus deslocamentos e enquadrado por limites e relações. As
forças boas ou más, por nós movimentadas como causa, correrão ao longo dos
canais do dinamismo universal; depois hão de voltar para nós sob a forma de
efeito. De modo que, pensando com os nossos atos projetar impulso contra os
outros, o que fizemos foi lançá-lo, bom ou mau, contra nós mesmos. As
repercussões são infinitas, as conseqüências parecem inexauríveis, tanto se
prolongam. O impulso do bem se multiplica tanto como o do mal. O violento, que
acredita dominar, impondo-se pela força, constrange milhares de pessoas a
viverem amontoadas para dar-lhe lugar; e, assim, ensina-lhes a se defenderem,
pois lhes impõe substituírem, pelo trabalho ingente da própria defesa, o
trabalho benéfico e profícuo da produção e conservação dos bens. O dano recai
sobre todos, principalmente sobre ele. A psicologia do involuído impôs à
sociedade humana os agrupamentos de classe, obrigando-a muitas vezes, para servir
à defesa, a tornar-se instrumento de opressão. Assim nasce a norma jurídica
primitiva, a sociedade torna-se agressiva e o ser inferior acaba por suportar,
com dano, a última das reações em cadeia por ele mesmo postas em jogo. Toda
forma de vida implica a outra; educa, e é educada. Só a ignorância do involuído
pode acreditar na utilidade do egoísmo. O que o ilude é o imediatismo das
vantagens obtidas. Não compreende, porém, que são momentâneas, se reduzem a
adiantamento a ser compensado depois, a débito a ser pago; não compreende que
são obtidas como imposição dos equilíbrios a que sempre voltamos, e, a que
nenhuma força ou astúcia humana pode com o tempo impedir que devamos voltar.
Por essas razões o evoluído, sabedor de como a vida funciona, prefere seguir
caminho mais estável e seguro, substituindo o princípio da força pelo do
merecimento. Não apelamos aqui para a bondade e para idealismos superiores.
Seria pedir muito. Trata-se apenas de sermos raciocinadores inteligentes para
compreender o que é verdadeiramente útil. Um pouco de inteligência e reflexão
bastariam para mudar não só os fundamentos da vida individual e social, mas
também tanta dor em bem-estar.
Como funciona, pois, essa lei do
merecimento? Como podemos ter-lhe tão profunda fé a ponto de, até mesmo na
defesa e na luta pela vida, fazê-la substituir a lei da força? Se tudo isso é
incrível para o involuído, torna-se verdade e real tão logo escape à rede de
reações que ele pôs em. jogo e agora o envolve. O involuído julga absurdo e
inoperante tudo quanto, simplesmente, está fora de seu campo de compreensão e
de atividade. Basta mudar-lhe a posição evolutiva para que também se lhe muda
a técnica da vida. Quando, por evolução, se passa do plano da força, lei do involuído,
ao da justiça, lei do evoluído, o sistema do merecimento substitui
automaticamente o da violência e astúcia. Já agora não precisamos mais de
armas, mas de qualidade, não encontramos mais extorsões e constrangimentos, mas
equilíbrios. Então, a melhor defesa consiste na consciência tranqüila. Isso é
lógico no regime harmônico de Lei feita de ordem. O problema todo se resume em
sermos adiantados o suficiente para ver e compreender, em possuirmos a
inteligência e a sensibilidade necessárias para manipular forças tão sutis. Eis
porque fogem à psique grosseira do involuído. Trata-se de princípio protetor
de qualidade, grau e potência diferentes do normal e cujo funcionamento não se
pode verificar senão como forma de vida própria de plano biológico mais
elevado. Para o evoluído que aí vive o verdadeiro sistema defensivo não
consiste em acumular obstáculos protetores, mas em não merecer o golpe. A luta
seletiva é substituída, agora, pela consciência da Lei, pelo princípio de ordem
e de harmonia, em que não se trata de aprender a defender-se, como fortes, mas
a merecer, como justos. O involuído nada sabe disso tudo, não sente esses
equilíbrios, não vê esses jogos de forças, é material e materialista, tem no
sangue instintos de revolta e, com esse modo de ser e de sentir, constrói seu
próprio mundo inferior. Crê só no corpo; fora dele não concebe a vida; crê que
com a morte dele tudo acaba, apenas porque, além da morte, sem meios físicos
sensórios, não é capaz de conservar-se consciente como o evoluído, para quem a
morte não significa interrupção da vida. Em última análise, em que posição de
fraqueza vem a encontrar-se o homem que aplica a lei de seleção do mais forte!
Julga-se merecedor da vida e não passa de retardatário no caminho da evolução!
Quando recebe golpes, ingenuamente o
involuído não os absorve e os dilui para eliminar de sua vida essa força, mas
devolve-os e assim se liga sempre mais aos impulsos da reação que, conforme a
lei de equilíbrio, o golpearão tanto mais quanto mais energicamente ele houver
golpeado. O segredo da defesa hábil está, pelo contrário, na libertação; e só é
livre quem conseguiu não merecer a reação. A esse ponto chegaremos se não nos
revoltarmos, mas conseguirmos assimilar os impulsos contrários, absorvendo-lhes
o valor corretivo. O involuído, de método desequilibrado, transforma todas as
coisas em prejudiciais para si mesmo; o homem evoluído converte em vantagem
pessoal o próprio mal. Sabe que todo erro deve ser pago, aceita por isso a
reação como meio de reconquista do equilíbrio, não se revolta para não aumentar
sua dívida. A diferença consiste em ver as causas remotas, e não apenas as
imediatas, do golpe que nos atinge. Assim, para o evoluído toda adversidade se
converte em campo de treino, em escola de progresso ascensional. O sistema de
revolta do involuído que, violentando-lhe os equilíbrios, pretende
sobrepor-se à Lei, aumenta-lhe a dívida em lugar de solvê-la, aumenta-lhe o
desequilíbrio e a desordem ou, seja, a dor. Ao contrário, o evoluído paga,
liquida o débito, melhora de situação, readquire o equilíbrio e se harmoniza,
alivia e elimina a dor. O erro consiste no modo de equacionar o problema. O
evoluído compreendeu a lógica da vida e o significado dos acontecimentos,
percebe a justiça existente na vontade que a dirige e, por isso, a conveniência
de segui-la e não a de sobrepor-se-lhe; de fato, a paciência esclarecida pode
criar mais do que a cega violência. Compreender a Lei e seguir a vontade de Deus
constituem o caminho mais acertado.
O homem é livre, mas a Lei,
inalterável. Livre para atrair sobre si todas as dores que quiser, não pode,
porém, impedir o funcionamento da Lei. Livre para confundir liberdade e
arbítrio, nele acreditar e julgar-se senhor absoluto, nem por isso pode
impedir que liberdade, nesse regime de ordem, implique responsabilidade, quer
dizer, sanção punitiva do erro. O involuído, assim como luta contra todas as
pessoas e coisas, também luta contra a Lei, quase considerando-a obstáculo à
própria expansão. Nela, ao invés, o evoluído, coordenado, não encontra inimigo,
mas amigo, auxiliar, protetor. Sua força não lhe reside no egoísmo, mas em
Deus. Tudo depende da posição em que o homem prefere colocar-se. Chegamos
assim a este ponto: o inerme, que segue o Evangelho e perdoa, pode vencer,
materialmente desarmado, em melhores condições que o involuído, forte e armado
até aos dentes. Parece utopia, subversão, milagre o que não passa de lógica
entranhada no desenvolvimento das forças da Lei, imponderáveis e no entanto
mais potentes do que o pesado armamento das defesas humanas. Tudo isso confere
outro valor e significado à conhecida lei biológica da luta para seleção do
mais forte, reduzindo-lhe a importância a limites bem estreitos. Outra lei se
lhe contrapõe e anula. Ei-la: "Quem com ferro fere com ferro será
ferido".
Quando se compreende o universo como
construção orgânica, compreende-se também ser mais lógico o equilíbrio do
justo manter-se nele mais estavelmente que o esforço do rebelde. Tratando-se de
organismo, aí prevalece logicamente a posição espontânea e harmônica em
detrimento da irregular e contrafeita. No conjunto o universo apresenta-se
como perfeito e completo mecanismo, ordenado e harmônico. Nas exceções e casos
particulares residem as perturbações, previstas, porém, e compensadas,
enquadradas na ordem. Para homens inconscientes e, todavia, livres, o ambiente
humano representa um desses campos de desordem a título experimental. A terra
constitui-se por isso inferno dos evoluídos e, talvez, em paraíso dos
involuídos adequados a esse ambiente. A opinião emitida a respeito deste mundo
nos revela o tipo biológico a que pertence o opinante. Só a raça vale e
justifica distinções. O homem, se quer alcançar determinado objetivo,
compreende a necessidade de coordenar as fases da ação necessária e, assim,
reconhece a ordem presente em todas as coisas; percebe, até mesmo no furto, no
delito e na guerra, o rendimento utilitário da disciplina, do método e da
estratégia, pois tudo isso pertence a seu plano. O que dissemos nos períodos
imediatamente anteriores explica por que o homem, por imaturidade, não chega
jamais, também no campo moral e nas diretrizes da própria vida, a sentir a
falta e a utilidade dessa ordem. A ignorância e a inconsciência de plano mais
alto explica-lhe a ação desordenada, baseada em violações e, por isso, em
reações continuas; mostra como o involuído pode crer na obtenção de resultado
no campo do imponderável, sem coordenamento de ações, sem subordinação
funcional, sem necessidade de seguir a Lei, sem harmonizar-se na organicidade
universal Exatamente a natureza de involuído é que estabelece o funcionamento
de lei de força em lugar de lei de justiça. A baixeza do ambiente terrestre
resulta precisamente das qualidades do tipo biológico que o habita e, cada vez
mais satisfeito consigo mesmo, se julga ente superior. E, até mesmo, culto e
erudito; mas o entendimento não depende de estudo e erudição. Trata-se de
maturação biológica natural e inaplicável ao exterior, como acontece com tantos
produtos de nossa civilização. O que induz o homem de hoje a engano é a miopia
psíquica e o imediatismo do resultado; a psicologia do jogo amarrado e a
ignorância dos fenômenos de longa duração; a suposição de que de tudo quanto
fica distante nada se pode aprender com segurança; a própria mentalidade
caótica que apenas não desorienta e desarticula a fé por nós depositada no que
já nos caiu sob as mãos. Sobra-lhe apenas uma vida defeituosa e truncada, resumida
ao dia de hoje e indiferente ao longínquo amanhã. Sabe que a justiça de Deus
às vezes tarda; não falha, porém, pois Ele para julgar não dispõe apenas dos
poucos elementos de uma só vida, mas dos fornecidos por vida muito mais longa,
- a que, através de longa estrada de vidas e de mortes, se estende pela
eternidade afora.
Outro fato capaz de induzi-lo a engano
é a valoração, apenas sob o aspecto formal, do prazer e da dor, estados
relativos e interiores. Sua posição sujeita-o naturalmente a muitas ilusões
psíquicas que ele toma por verdade. Supondo-os, erradamente, iguais a si
próprio, para avaliar os outros aplica-lhes as mesmas medidas com que mede a
si mesmo. Ao contrário, as reações dolorosas impostas pela Lei variam
justamente conforme a diferente posição moral de cada indivíduo, face aos
equilíbrios da justiça, quer dizer, segundo o mérito ou demérito. As próprias
dores podem, de acordo com a natureza dos ânimos, impressioná-los deste ou
daquele modo e causar-lhes as sensações mais diferentes. O evoluído, em grande
parte liberto, já não possuí tesouros no mundo e torna-se intimamente muito
menos vulnerável que o involuído que se atreve a julgá-lo. O justo sempre se
sente mais tranqüilo do que o culpado. A realidade não constitui o golpe em si
mesmo, como vemos por fora, mas reside na sensação interior com que o
recebemos, no modo diverso de propagar-se na personalidade a repercussão do
golpe, proporcionalmente às diversas qualidades individuais. Eis realizada a
lei do merecimento. O estado moral interior não pode modificar o exterior
determinismo da matéria. Essa verificação engana o involuído. O plano físico
subordina-se a diferente espécie de leis e os fenômenos físicos seguem caminhos
diferentes daqueles do mundo moral. O merecimento, observa-se, não nos
distingue na fuga ao perigo. Justos e malvados, os justos às vezes muito mais,
todos sem exceção recebem golpes. Isso mesmo. Não deixa, todavia, de também
ser verdade que a posição moral muda o estado espiritual e as condições de
nosso eu e, por isso, as repercussões, a receptividade, enfim, a sensação
dolorosa. Assim, se o fato exterior não varia, mudam as posições internas de
defesa, as qualidades de resistência, o estado de equilíbrio, de juízo, de
orientação, de continuidade. Se o mundo exterior, o único que o involuído vê,
não se altera, o mundo interior, - a outra metade do fenômeno, - mostra-se
igualmente poderoso; e se, ao iniciar-se, esse poder nada pode deslocar, tudo
pode fazê-lo à chegada. O involuído não compreende como o estado moral,
invisível para ele, possa mudar as condições do fenômeno na segunda fase
conclusiva interior. Desse modo, divergem muitíssimo as íntimas realidades pessoais,
os campos das sensações finais. A dor é estado interior sobre a qual muitos
elementos influem; entre eles, porém, não ocupa o primeiro lugar o choque
proveniente do mundo físico, dado pelo determinismo físico. Tudo seria tão diferente,
se víssemos as coisas por dentro, ao invés de vê-las por fora! Ver-se-ia a
possibilidade de gozarmos em plena miséria e sofrermos no fastígio da riqueza.
O mártir na cruz pode sentir-se mais feliz do que o rei no trono! Tamanho poder
tem esse mundo interior, na dependência tão-somente do merecimento. O estado de
prazer ou dor não se mostra como fato objetivo igual para todos, mas relativo e
dependente das condições interiores individuais. Prazer e dor, imponderável
resultante do embate de forças e não do determinismo do mundo físico,
fundem-se na intimidade do eu. O invisível escapa às vistas do involuído,
crente de que tudo se desenvolva no plano concreto em que vive e nada mais
possa existir além dele. O evoluído, que em parte superou o mundo material,
também em parte lhe superou o determinismo (cf. A Grande Síntese - Cap. LXVI) e recebe muito do próprio mundo
interior, independente desse determinismo. Por isso sua vida não fica tão
sujeita às sanções das leis do plano físico como às sanções das leis do plano
espiritual e moral, bem diversas. Eis como este principio mais elevado, o do
merecimento, pode entrar em atividade e tornar-se distribuidor e regulador.
Valorações e juízos dependem das diversas perspectivas, mutáveis com as
diversas posições. Daí nascem os desacordos, as valorações opostas. O mesmo
fato pode assumir significado e valor oposto, ser compreendido como dano ou
vantagem. A posição do materialista ou do espiritualista pode subverter o senso
das coisas. Para o primeiro a morte significa o fim; para o segundo, o
princípio de outra vida; para um a vida terrena é tudo; para outro, mero
episódio; para um, a meta que deve conter todas as alegrias e realizações; para
outro, meio de expiação, exílio, missão. Uns ganham, outros perdem com a dor;
estes morrem na morte, aqueles na morte ressuscitam.
Os dois estados, de prazer e dor, não
dependem apenas das leis do ambiente físico, mas também de leis próprias, que
se deixam influir muito pouco pelas primeiras. Se o fenômeno nasce no mundo
externo, continua e conclui no mundo interior. O tangível estado de fato
exterior não tem tanta importância quanto a sensação que consegue produzir.
Vejamos, então, de que realmente depende essa sensação. Prazer e dor
constituem ritmo que lhes regula o aparecimento alternado, a forma de
relação, a intensidade relativa. Os
dois extremos são inversos e complementares, ligados por lei de compensação e
equilíbrio, para verificar-se cada um dos dois estados não basta o choque
exterior, mas torna-se necessário que a lei interior do fenômeno, — a lei do
merecimento, — de acordo com a justiça permita ao choque produzir efeito e
transformar-se na devida sensação de prazer ou dor. Contudo, esse choque, seja
qual for sua natureza, amortece a entrada da alma e não entra. O fenômeno é
olhado em profundidade e entendido como desenvolvimento de forças; assim, liga-se
à ordem universal, que não se pode romper, e deve equilibrar-se na justiça
reguladora de todas as coisas. Principalmente: o aparecimento ou o
desaparecimento dos referidos estados, de prazer e de dor, pode ser determinado
por essa lei e não pelo arbítrio humano ou circunstâncias exteriores. O
arbítrio e as circunstâncias podem ser injustos, mas a lei é justa, boa, protetora.
Assim, o fenômeno se torna rítmico,
equilibrado, compensado. Os dois estados se condicionam e compensam, não podem
existir senão um em função do outro, o prazer em relação à dor e a dor em
relação ao prazer. Desse modo se influenciam, se entrosam, se dosam
reciprocamente. Segue-se daí que quanto mais sofremos mais somos capazes de gozar,
visto como a privação nos permite saborear a menor alegria, que assim se torna
inapreciável; e quanto mais gozarmos tanto mais seremos vulneráveis à dor,
porque, tendo perdido o contato com ela e a capacidade de suportá-la, impressionamo-nos
demais e por isso o menor golpe se torna gigantesco. Quanto mais sofremos,
menos o hábito nos faz sentir a dor e mais nos encouraça para suportá-la e nos
confere certa imunidade; quanto mais gozamos, menos o hábito nos deixa saborear
o gozo, que se dilui na repetição e se esfuma no fastio. Nem a nossa, nem a
vontade alheia, nem as condições do ambiente podem mudar esses íntimos
equilíbrios do fenômeno, sempre reconduzido em cada caso à posição de justiça.
Em resumo: a continuação do sofrimento automaticamente diminui a reação
dolorosa e aumenta a capacidade de reagir em sentido oposto; a continuação do
prazer automaticamente diminui a reação de prazer e aumenta a sensibilidade e,
pois, a vulnerabilidade em direção contrária. Assim não há naturalmente
correspondência entre a soma de bens acumulados e a quantidade de prazer
obtida. As duas progressões não caminham paralelamente; a primeira é
geométrica; a segunda, aritmética. Para os pobres e deserdados, há justiça
maior do que essa? A satisfação diminui na razão direta do aumento dos bens;
desse modo a própria unidade de medida frutifica cada vez menos. O homem pode
dirigir o fato exterior da acumulação de bens e não pode comandar o fato
interior do rendimento. O homem egoísta gostaria de desequilíbrio. eis, porém,
a Lei reconduzindo-o ao equilíbrio e impondo-lhe limitação; além desta torna-se
inútil acumular porque a unidade de medida terá exaurido todo o potencial e não
poderá mais proporcionar prazer algum. O homem egoísta desejaria satisfação
ilimitada; mas, a Lei o reconduz ao equilíbrio e, agindo com critério
diferente, impõe determinada medida de justiça e permite apenas o prazer e a
dor necessários e úteis aos fins da vida. Assim, observamos agora como a Lei
intervém para correção do abuso no sentido da qualidade. No fim do cap. II e
no princípio do cap. III deste livro vimos, ao contrário, como a Lei influi
para corrigir o abuso no sentido da qualidade dos bens, isto é, como permite
que apenas a propriedade justa se mantenha. O primeiro e o segundo casos
constituem aplicação da lei do merecimento.
Vimos, pois, como a Lei tende ao
triunfo dos valores reais e à derrota dos valores fictícios que o homem
desejaria impor. O involuído por ignorância prefere pôr-se em luta contra a
Lei; o evoluído, porque possui conhecimento, prefere pôr-se em harmonia com
ela. Vimos como, não obstante a resistência do primeiro, em última análise
impera a lei do merecimento, embora não a compreendam e não a sigam. O
involuído, rebelando-se, não torce a Lei, mas inflige dano a si mesmo.
Aprenderá, à custa do sofrimento. Não há outro caminho. Cada qual, porém,
tem a liberdade de ordenar o campo de forças do próprio destino e, na própria
vida, obedecer à justiça, embora em meio à injustiça do mundo, tem a
liberdade, enfim, de em pleno inferno construir dentro de si mesmo o paraíso.
Ainda neste caso a lei do merecimento muda o conceito da vida. As causas
encontram-se dentro de nós mesmos e não fora. Quando chegamos a compreendê-lo,
aí nos tornamos livres. Enquanto aceitamos as coisas como provenientes de fora
seremos seus escravos e tremeremos diante da vontade alheia ao invés de
tremermos perante nossa própria consciência. Para quem compreendeu, os valores
normais se subvertem. O que nos golpeia
não provém do arbítrio alheio mas do que somos, fazemos ou merecemos. No sistema
orgânico do universo é absurdo, e impossível o desenvolvimento de forças dos destinos, os momentos
decisivos, as provas importantes, o prazer e a dor, a vida e a morte ficarem a
mercê do acaso ou da vontade de outro homem completamente ignaro. A lógica e a
justiça impõe que tudo quanto nos diga respeito dependa somente de nossa
vontade e seja decidido por nós apenas. Doutro modo, não poderia haver
responsabilidade e a reação da Lei golpearia inocentes. É absurdo que o
arbítrio alheio possa exercer tanto poder sobre nós, a liberdade humana impor
injustiças à Lei e implantar a desordem no universo. Então, o patrão não seria
Deus, mas o homem. Não! Tudo não passa de instrumento, o mal é contido e
guiado, torna-se meio de atingir as finalidades do bem. Coisa tão grave como
pesos de chumbo, tão importante como experimentação instrutiva e prova
redentora, a dor não é força livre para aplicar-se ao acaso, mas força
enquadrada no organismo universal. Essa dor só nos pode atingir, se a
merecemos. Poderá produzir-se desordem particular e momentânea, mas em linhas
gerais reina a lei de justiça. Diz o provérbio: "Quem não deve não
teme". Merecemos tudo quanto nos acontece por "acaso"
Ao invés, o
involuído acredita na lei do mais forte e na seleção à base de força. O
evoluído por sua parte ouve a lei justa da honestidade e do merecimento. O
sistema do primeiro, de conquista através de imposição, reduz-se ao contraímento
de dividas e à miséria. Face aos equilíbrios da Lei, isso constitui erro que se
deve pagar e, se domina o mundo, o transforma em lugar de sofrimento. Aqui em
baixo todos procuram fora as causas que residem em si mesmos. Pertencem-nos.
O problema consiste em saber fazê-las funcionar e não em saber evitar-lhes os
efeitos. A causa é livre; o efeito, fatal. Posta em movimento a causa, a Lei
se apodera dela, o impulso deixa de ser livre e não nos pertence mais. Nem
força nem astúcia podem-nos livrar da obrigação de suportar os efeitos. Se
semeamos o mal, colhemos o mal; se semeamos o bem, colhemos o bem. Mais adiante
desenvolveremos esses conceitos (cap. XXIV e XXV). É justo que, em última
análise, apenas a nós mesmos possamos fazer bem ou mal. Terminado, nosso ato
torna-se inexorável desenvolvimento de forças. O destino é livre na fase inicial
da formação, da determinação das correntes e do início da trajetória; fatal,
porém, na fase de desenvolvimento das correntes e, especialmente, na fase
final de eleito e conclusão da trajetória. Eis a justiça histórica. Geralmente
consideramos o destino apenas nesse segundo aspecto determinista e
ignoramo-lhe o momento mais importante da formação.
O conceito comum da vida desloca-se
ainda. Não devemos temer o sermos desprovidos de força, mas o ficarmos contra
a justiça. Devemos entender que, no fim, a justiça vence a força. As vezes
demora, pois encontra muitas resistências no ambiente terrestre. Essas
resistências conseguem embaraçar e retardar a Lei; jamais chegam a fazê-la
parar. Pode o involuído iludir-se, acreditando no contrário; mas o evoluído
sabe que a Lei acaba dominando. Se dominasse o acaso, o arbítrio, o abuso, a
desordem, a vida se reduziria a cacos. Quem vai salvá-la? Quem vai garanti-la?
Não poderemos, certamente, crer na suficiência dos pobres expedientes
humanos! A vida deve ser protegida de modo absoluto e o homem não possui nenhum
meio seguro de proteção. A incerteza reina na terra. Torna-se necessária
segurança não possuída pelo homem, defesa superior, às ilusórias defesas
humanas. A segurança nos é dada pelo império da Lei, pela onipresença de Deus.
Não nos protege a força, mas a inocência; a única posição de segurança
consiste em não merecer o golpe. Assim, nossas armas se desmaterializam no
imponderável. Mas se o inocente é protegido, a Lei exige a responsabilização
dos culpados. Os meios humanos poderão protelar, jamais conseguirão eliminar a
necessidade de pagamento. Todavia, se a Lei é justa, ferreamente justa, exige
a responsabilização, mas respeita a vida, protegida porque necessária ao
aperfeiçoamento. Eis que a Lei corrige o impulso instantâneo e brutal de suas
forças para ele não terminar em catástrofe; modera-o e amacia com novo impulso:
a misericórdia divina. Podemos defini-la: "a elasticidade da justiça
divina". Neste caso, elasticidade significa esperar, dosar, proporcionar a
reação de modo a que eduque e não destrua. Assim a férrea lei do equilíbrio age
com muito tato, adaptando-se às circunstâncias do caso. No maravilhoso
organismo universal dirigido pela Lei tudo é elástico, provido de válvulas de
segurança e meios de proteção. Conciliam-se desse modo, até se coordenarem em
um só impulso de sabedoria, os dois opostos: misericórdia e justiça. No
principio absoluto de equilíbrio se incorpora o princípio da bondade, ambos
necessários. Parecem contraditórios e, no entanto, não passam das duas metades
inversas e complementares do mesmo princípio. A unidade é sempre par. Assim,
como feminino e masculino, se coordenam o amor e a força, o primeiro para gerar
e conservar, o segundo, vencer e construir. Dessa maneira se compensam as duas
extremidades, postas por nós face a face: coletivismo e individualismo; o
primeiro oferece o desenvolvimento em largura, a formação da massa numérica, a
quantidade; o segundo, o desenvolvimento em altura, a formação do indivíduo, a
qualidade. Mesmo essas duas extremidades tendem a equilibrar-se através das
qualidades e funções opostas. Esse contraste não se chama cisão, mas harmonia.
VII
RUMO A NOVO MUNDO
Tudo quanto foi exposto pode ser
incrível; no entanto, é natural, lógico e simples. Logo depois de curta
reflexão desapaixonada surge novo mundo, até ali aparentemente impossível. No
entanto, é apenas fora do comum, afastado dos caminhos habituais, para lá da
fase atual de evolução humana. Quando o atingimos, o mundo atual fica-nos parecendo
tão espantosamente cretino que não sabemos se havemos de rir ou de chorar;
neste mundo cremos poder eliminar o inimigo, matando-o; criar correntes de
pensamento, com propaganda, ou eliminá-las, sufocando-as no silêncio; não pagar
o mal que fazemos. Mas o inimigo constitui vida indestrutível, pois os mortos
continuam vivos, ressurgem e podem tornar-se instrumento de justiça contra o
assassino; as correntes de pensamento são livres, a opressão as reforça e o
engano ensina-lhes novas astúcias; podemos praticar o mal; porém, somos depois
obrigados a pessoalmente repara-lo.
Este livro é o roteiro desse novo
mundo, o hino dedicado ao novo tipo biológico nele reinante e inicia o culto de
novo ideal de vida. Esse tipo pode ao mundo de hoje parecer super-homem e até
mesmo poderíamos assim chamá-lo. mas super-homem bem diferente do de Nietzsche.
A concepção materialista que lhe serve de ponto de partida poderia dar-nos
apenas a exaltação do primitivo, a glorificação da violência ou, seja, da ignorância,
pois quem só acredita na força demonstra nada haver entendido do funcionamento
universal. Super-homem desse tipo não passa de involuído posto no vértice de
hierarquia de involuídos, rei selvagem de mundo selvagem, prepotente em meio a
outros tantos prepotentes. O novo imperativo não se cifra em enganar e dominar,
mas em civilizar-se. Isso tudo pode parecer utopia, mas, guardando a devida
proporção, no passado a evolução soube transformar em realidade utopias
maiores; por isso essa utopia nos fascina e atrai. De tudo isso, que tem
significado vital, possibilidade de realização e representa impulso biológico,
emana radiação mágica, que nos prende com exato senso de vibração reverencial.
O instinto da vida se manifesta em nós antes da razão calculista.
A luta moderna se trava entre o tipo
biológico hoje em maioria e a lei de evolução. O primeiro parece que pretende
fazer tudo quanto possa para impedir a realização desse novo mundo; a segunda
tudo põe em condições de torná-lo realidade. Trata-se de dois sistemas opostos;
um, ilusório e falaz; o outro, lógico e seguro. Com o método atualmente em
voga, somos obrigados a reconhecer que o homem, apesar das conquistas e
vitórias, não alcançou a felicidade e se agita como presa de insatisfação
contínua. E como acima dissemos em relação ao indivíduo, também a coletividade
não procura dentro de si mesma, mas fora, as causas de seus males. As causas,
porém, residem no método. É fácil entrar no mundo novo; as portas acham-se
abertas de par em par Mas o homem não quer entrar. A posição em que se encontra
o impede. A Lei, sábia e boa, desejaria exatamente o contrário, quer dizer, o
bem; mas a Lei tem de respeitar a vontade humana. O homem prefere viver em
estado de tensão, de recíproca desconfiança e, por isso, de contração, a viver
em estado de calma, de confiança e, em conseqüência, de expansão. Os bens da
terra bastam demais paia todos. A psicologia da insaciabilidade,
generalizando-se, em plena abundância nos torna miseráveis. A avidez de lucro
subtrai dos bens a função de instrumento útil à vida, transformando-os em
instrumento de especulação, acumulando-os apenas para que apodreçam,
sacrificando a vida à potência econômica. Assim se determinam as desproporções
que justificam a revolta das classes pobres contra as dos capitalistas,
impedindo-as de gozar dos bens acumulados. O efeito atinge de novo a causa; não
podemos gozar o que não é fruto da justiça, mas do abuso; toda posição de
desequilíbrio se destina à queda. Para que serve empregar meios ilícitos e
usurpar, se mais tarde a Lei nos constrange ao pagamento? E, de fato, não faz o
homem outra coisa senão pagar. O método atual de busca da felicidade representa
verdadeira falência. Não se deve culpar a Lei, mas o sistema escolhido pelo
homem. A Lei paga na mesma moeda, devolve-nos o que lhe oferecemos. A causa de
nossas misérias reside em nós mesmos. O egoísmo conduz a dispersões imensas,
como, aliás, todo separatismo. Não considerar o próximo como irmão, mas rival,
e não ter-lhe os bens na conta de capital comum a conservar-se e, sim, na de
objeto de conquista, leva à destruição
nociva a todos. O homem, empregando-a mal, reduz a riqueza, em principio
benéfica para a vida e tão útil ao progresso, a instrumento criminoso e
manchado em que o evoluído com desprezo se recusa. a tocar. Que sensação de
bem-estar compensaria a fadiga até mesmo da primeira aproximação evangélica!
Não. O homem não
compreendeu. Na lógica dos equilíbrios da Lei, o método do Exclusivismo não
passa de método de empobrecimento. Esses equilíbrios implicam a formação de
correspondente atrofia ao lado de cada hipertrofia, vácuo econômico a
interessar não só o vizinho, cuja miséria talvez não nos impressione, mas a nós
mesmos, quando chegar nossa vez na corrente dos efeitos. A vida é, de natureza,
colaboradora, forma-se de forças cíclicas, comuns e comunicantes. Os
equilíbrios da Lei dizem-nos: tudo quanto se rouba se perde e tudo quanto se dá
se ganha; a riqueza proveniente do furto constitui débito a ser pago; o ato de
dar pode enriquecer-nos mais do que o ato de tomar. No mundo novo o problema
econômico se transfere inteiramente para outro plano. Perdeu a razão de ser e
está superada a moderna luta entre o capital e o trabalho, representativa de
nossa atual fase econômica. No mundo novo o evoluído possui dentro de si mesmo,
espontaneamente, a medida da posse das coisas, fornecida pelas próprias
necessidades, capacidades individuais e funções sociais e não, como acontece
agora, pelo próprio poder de conquista com emprego da força ou. de astúcia. O
evoluído pede à vida apenas os bens necessários à consecução das finalidades
dela mesma, individuais ou coletivas, e abandona aos outros o resto. O problema
do mundo não passa verdadeiramente de problema de caridade cristã. Bastaria
compreender e aplicar o Evangelho para conseguir a igualdade social e garantir
a todos o pão de cada dia. No fundo, os numerosos problemas que nos afligem,
econômico, político, religioso, social, reduzem-se a um só, o problema da
educação moral. Desse modo o Sermão da Montanha e a pobreza franciscana (cujo
escopo é, através da esmola, substituir no pobre a violência pela humildade e,
no rico, trocar pelo amor o egoísmo desprezível) assumem significado biológico
na lei de evolução. Em verdade, para possuir a própria vida necessário se
torna perdê-la. Apenas quando nos anulamos e não possuímos mais nada, nos tornamos
senhores das maiores forças da vida porque de isolacionistas nos transformamos
em colaboradores do grande organismo universal, entramos no mundo novo em que a
Lei triunfa; passando a ser operários do Senhor, a Lei deve cuidar de
defender-nos e garantir-nos a vida. Se nas mãos de Deus nos reduzimos a nada, parece que com isso perdemos
nosso pequenino eu; e, no entanto,
em Deus nos tornamos tudo pois, entrosando-nos no funcionamento geral, nos
tornamos indestrutível parte orgânica dele, com direito ao necessário na terra
e à futura felicidade no céu. Que vale e de que é capaz, em face dessa
dilatação de personalidade e aumento extraordinário de meios, o involuído rei
da força, prepotente e rebelde, escravo da ilusão e da matéria, jamais
satisfeito, sempre inseguro, sempre abandonado às incertezas de suas pobres
forças? No entanto, esse tipo biológico foi proclamado animal-modelo, posto pela ciência no degrau mais alto da evolução
e considerado o produto mais apurado da raça. Ainda mais: sua lei de seleção
passou a ser considerada como lei da vida, de toda a vida! Mas esse sistema é
o sistema seletivo do animal! Aplicaram-no ao homem, desse modo equiparado ao
animal.
O involuído não quer entrar no novo reino, onde
poderia ser feliz. Contudo, a Lei vê-se obrigada a arrastá-lo; mas o involuído
se rebela, se recusa a sair do inferno, não quer despender o menor esforço para
deixá-lo. A Lei deseja-lhe o bem; não pode, todavia, impô-lo porque a liberdade
humana é sagrada; além disso, através da imposição, a Lei criaria autômato
inconsciente, quando o cidadão do novo mundo deve ser consciente e livre. A Lei
quer felicidade desejada e compreendida e não felicidade imposta e
incompreendida. Trata-se de dom bem mais difícil de obter, mas de valor
imensamente maior. Trata-se de dom que não pode ser gratuito sem representar
injustiça. Deve, então, ser ganho, condição necessária para que seja merecido,
visto como nos equilíbrios de Lei nada pode existir de desarmônico nem vantagem
alguma ser obtida se não for ganha e merecida. Condição necessária para ser
apreciada e fruída Mas, como pode a boa
Lei atingir o próprio objetivo, no caso do rebelde que deve, no entanto,
permanecer livre? Como obrigá-lo e ao mesmo tempo permanecer fiel à justiça?
Como conseguir impor a felicidade a inconscientes, tornando-os conscientes?
Como conseguir, de acordo com a bondade e a justiça, impor-lhes o esforço
necessário para ganhá-la?
A própria estrutura do sistema diretor
do universo encerra, em sábios equilíbrios, o impulso que tende fatalmente a
esse fim Na forma correspondente aos supracitados requisitos necessários, a Lei
põe em jogo o sistema de reações adequado. O homem continua livre, mas
responsável; livre para escolher a revolta e a desobediência, mas obrigado a
responder por elas. É justo que ao erro siga adequada sanção. Assim, ação e
reação equilibram-se e se põe a salvo a harmonia do sistema. E a dor constitui
precisamente o modo mais adequado para despertar a consciência dos inconscientes
e impor aos preguiçosos o esforço necessário à aquisição da própria felicidade.
Por isso esse esforço não aparece, em primeiro momento, na forma positiva de
conquista de alegria e, sim, na forma negativa de libertação da dor. O segundo
momento revela-se cada vez mais evidente à medida que subimos e o evoluído
trabalha, em sentido positivo, para conquistar o bem que já conhece; no caso
comum, porém, o involuído trabalha em sentido negativo, de revolta e fuga em
presença da dor, de luta para fugir-lhe. Normalmente, a evolução assume, pois,
o aspecto de esforço para superar a dor. Através desse esforço a Lei obriga o
homem a entrar no seu novo reino.
A concepção humana da dor resulta
naturalmente de uma das muitas ilusões psíquicas próprias da fase biológica do
involuído. Concebe-a ele como resultante da falta de força para vencer ou de
astúcia para fraudar, como fracasso dos fracos de corpo ou de mentalidade, como
herança natural dos que não sabem revoltar-se nem impor-se. Concebe a dor como
inimigo a ser vencido e por isso acredita que tudo se resume em sermos bastante
fortes o hábeis para vencê-la. Concepção derivada do fato de o involuído
julgar-se colocado no caos, como centro de todas as coisas e árbitro da Lei.
Se essa é sua perspectiva psicológica, própria da sua fase evolutiva, temos
visto quanto ela se afasta da realidade. A dor não é inimiga; não devemos,
pois, olhá-la com hostilidade. Quanto mais a odiarmos mais nos afligirá; se a
quisermos bem, tornar-se-á mais suave. A dor constitui sistema
reativo-educativo de forças cujo objetivo se resume em guiar-nos para a
felicidade. Tende, como reação, a reconstruir o perturbado equilíbrio do
homem, isto é, a harmonia, base de toda alegria verdadeira; e, como educação,
a eliminar a repetição do erro, causa da dor. Por dois caminhos diferentes, é
sempre disciplina e correção que, através das experiências da vida, impele o
homem a rearticular-se no todo, a pôr-se em acordo com as forças da Lei ou,
noutros termos, com a vontade de Deus, fato em que consiste o triunfo do bem
sobre o mal, da harmonia sobre a desarmonia, da felicidade sobre a dor. O
homem deve compreender e todas essas coisas sabem fazer-se compreender muito
bem por todos. Progredir, sem dúvida, quer dizer trabalho; mas também
representa conquista. A ordem, na involução, se desagrega no caos. Ora, a
evolução procura reconstruir a ordem a partir do caos. Em nossa experiência
quotidiana percebemos que o prazer produz o nada e a dor cria. Como a nota
fundamental de toda fase involutiva consiste na dispersão no gozo, a de toda
fase evolutiva e a redenção pelo sacrifício ou, seja, a difícil ascensão depois
de tão fácil descida. Verificamo-lo pela nossa vida como indivíduos, no nascimento
e morte das civilizações.
Libertarmo-nos da dor assume o aspecto
de problema dos mais angustiosos de nossa existência. Depois de tanto progresso
estamos sempre a recomeçar. Prova de que a concepção e os métodos defensivos
em voga estão errados. Contudo, podemos resolver o problema. Torna-se
necessário, no entanto, enunciá-lo de modo diferente. É lógico que podemos
resolvê-lo em universo regido por Deus justo e bom. Aí onde tudo se mostre
lógico e harmônico, e parece-nos tê-lo demonstrado bem, seria absurda a
existência de dor impossível de ser eliminada. Em universo em que tudo tem
objetivo útil, a ser atingido mais cedo ou mais tarde, onde tudo acontece em
função da chegada à meta, não passa de loucura acreditar que fato nuclear,
como a dor, possa existir sem objetivo, e, onde tudo serve para alguma coisa,
exatamente aquilo que mais nos caustica e acabrunha não sirva para coisa
alguma. Mas o homem de nossos dias não concebe o universo organicamente, como
lei e ordem, mas caoticamente, como arbitrariedade e desordem. Se não se compreendem
em primeiro lugar as finalidades da vida e a lógica de todas as suas funções,
é natural que desse modo não possamos resolver o problema da dor. O próprio
homem, pondo-se na posição de quem nada compreende de tudo quanto lhe acontece
em torno, nada pode resolver e, tudo ignorando, só pode cometer erros. Para,
vivendo em determinado sistema, conseguirmos atingir certo objetivo, torna-se
preciso primeiro conhecê-lo e, assim, conduzirmo-nos de acordo com as normas
que o regem, sem pensar em violentá-las e torcê-las. É natural, então, que o
sistema reaja e não se atinja o objetivo.
Embora mudemos continuamente a
perspectiva, percorrendo os vários pontos da periferia, a própria estrutura do
universo nos orienta e sempre faz retornar ao mesmo conceito fundamental ou,
seja, ao pensamento central ao redor de que tudo gira e pode chamar-se: Deus,
Lei, Ordem Não podemos impedir que todos os conceitos desta obra gravitem em
redor desse ponto, pois essa é a estrutura do universo e nosso pensamento deve
amoldar-se a essa estrutura e constituir-lhe a expressão exata. Desse modo,
pode parecer que estamos a repetir sempre a mesma coisa; mas o universo é que é
sempre o mesmo. Podem mudar o ponto de vista da periferia e a forma do
relativo; não o podem, porém, a realidade do centro e a substância do
absoluto. No mesmo modo em que se construiu o universo, através de caminhos infinitos,
de qualquer ponto de que partamos terminamos por atingir sempre o mesmo centro.
A criação apresenta-se variada e, quanto à forma, é mesmo, contudo, em
substância permanece invariável. De modo que não fazemos nada mais senão
fotografar a realidade, quando somos obrigados a repetir do princípio ao fim,
sob infinitos aspectos, o mesmo conceito de sempre: Deus, Lei, Ordem,
Esse é o estado das coisas e não podemos mudá-lo. O princípio permanece
sempre o mesmo; não podemos fazer outra coisa senão retornar sempre a ele.
O problema da dor também nos reconduz
ao mesmo princípio, nosso ponto de partida e de chegada, em redor de que
devemos girar sempre, isto é: o universo constitui sistema, organismo,
funcionamento lógico. Se não respeitarmos as normas e não percorrermos os
caminhos desse sistema, não poderemos resolver o problema da dor. O ateu pode
descrer da existência de qualquer regra; o pessimista, julgar que domina o mal
e a desordem; o epicurista, acreditar possível rirmo-nos de tudo; e o
violento, pensar ser possível impor-se a todos. Mas a Lei continua cada
momento a exprimir sua natureza, que é ordem, sua vontade de continuar sendo
ordem, sua necessidade de sempre maior atuação da ordem em todo ser e em todos
os momentos. Quando não se respeita a absoluta e fundamental exigência de
ordem, a dor aparece, fato cuja gravidade indica como, proporcionalmente, se
mostra importante o princípio a que se propõe defender. No sistema, a dor tem o
papel de campainha que nos adverte do erro, corrige o desvio e impõe a correção,
exatamente como acontece no sistema nervoso do organismo humano, feito à
semelhança do organismo universal. O homem pode pensar e fazer o que quiser;
mas o sistema não tolera em absoluto alteração dos seus equilíbrios e, se os
violam, defende-se, volta-se contra o violador e obriga-o a reconstitui-los à
própria custa. A dor corre por conta do violador; quem errou paga com o que
lhe pertence, pessoalmente. Trata-se de equilíbrio de forças cujos impulsos
poderiam ser calculados exatamente, em qualidade e quantidade, no modo como se
relacionam em causa e efeito, ação e reação. Essa reação reequilibradora é
fatal, a Lei não admite perturbações; se acontece violação, pois o homem é
livre, o efeito não pode recair sobre a Lei, mas sobre o homem. A este se
permite fazer experiências à própria custa e aprender por tentativas; não se
lhe permite, porém, alterar o funcionamento do universo. Essa reação
reconstrutora de equilíbrios por parte das forças da Lei pode parecer-nos ato
de justiça por parte de Deus ou, então, punição da culpa; aos primitivos, no
entanto, pode parecer vingança. À dor não é, então, fracasso ou derrota, mas o
meio providencial de reparação e prova na arena das experimentações humanas.
Constituindo-se compensação expiatória e escola, assume o papel de retorno à
ordem e método aquisitivo de qualidade, isto é, meio de auto-elaboração ou,
melhor ainda, fator de evolução. Assim, a dor se transforma; não é mais, como
na conceituação vulgar, obstáculo à felicidade; não é mais maldição ou vingança
de Deus, mas bênção e ajuda; não é mais vergonhosa posição de inferioridade,
mas nobre instrumento de redenção. Apenas se compreende a lógica do sistema
diretor do universo, logo aparecem a absoluta justiça e a imensa bondade de
Deus.
Todas as vezes que neste livro
qualificamos o involuído como ignaro e primitivo não o fizemos em sinal de
desprezo, de condenação ou de imputar-lhe culpa. O que queremos é apenas expor
o mecanismo do universo e as conseqüências advindas, para cada qual, de sua
conduta. O involuído está, biologicamente, exatamente onde devia, adequando-se,
como selvagem em planeta selvagem, a dureza de suas provas à de sua
sensibilidade. Todavia, os que compreendem como realmente a vida funciona não
podem deixar de adverti-lo, somente no interesse dele, para fazê-lo compreender
como executa mal suas tarefas; de indicar-lhe, se lhe convém, melhor modo de
fazê-las, mostrando-lhe como é estulto alguém pretender construir com as
próprias mãos a sua infelicidade e como é possível corrigir a própria dor e
transformá-la em prazer. O bom e sábio sistema do universo contém a solução do
problema. O sistema é feito de ordem; a dor é conseqüência de desordem. A dor,
logicamente, cessa com a desordem de que deriva e o método para eliminá-la
consiste na harmonização, quer dizer, no retorno ao seio de Deus através da
evolução. A estrutura do sistema implica a cessação da dor, à medida que
caminhamos para a ordem. Reconstruamos, então, a ordem destruída e teremos
eliminado a dor, eliminando-lhe as causas. A evolução consiste exatamente em
dispor mais harmonicamente as forças que somos e as que manejamos,. isto é, da
desordem passar para ordem relativamente mais completa. Relação entre dor e
felicidade significa relação entre dissonância e harmonia. O inferno é estado
caótico de revolta (desordem satânica); o paraíso, estado orgânico de paz
(ordem divina). A sabedoria do sistema consiste exatamente em que a dor é
força auto-dominadora por natureza, isto é, quando se manifesta tende a
gastar-se e inverter-se. Como forma de dor, essa força caminha para o próprio
aniquilamento e auto-destruição; mas, como força, não se destrói e quer
renascer em posição invertida ou, seja, como felicidade. Noutros termos,
evoluímos por meio da fadiga do reordenamento, passamos do inferno ao paraíso
através da própria dor.
Assim a dor nos aparece em toda a sua
importância de reconstrutora da vida; na sua verdadeira função de reequilibradora,
como compensação expiatória; na de educadora, como assimilação de experiência e
formação de consciência; na sua função de reordenadora da desordem, como reabsorção
do mal; enfim, como fator de evolução e instrumento de felicidade. A dor,
devido à natureza equilibrada do sistema, é força que, manifestando-se, se
consome, se esgota e se transforma em força contrária. Constitui-se ao mesmo
tempo em estimulante de atividade, em adestradora e instrutora, isto é, em
criadora de qualidade que lentamente melhora, se fortifica e enriquece. Enfim,
é grande harmonizadora, que leva o ser rebelde e caótico a funcionar
organicamente de acordo com o pensamento e a vontade de Deus. Também nesse
campo o mundo não está, em absoluto, no caminho certo. Não eliminamos a dor por
meio de sistemas exteriores, sobrepostos, coatores, distributivos, mas apenas
através da compreensão e prática da Lei. O homem se irrita contra os efeitos,
mas continua a semear as causas. Torna-se inútil querer suprimir as últimas
conseqüências sensíveis; ressurgirão sempre, enquanto não suprimirmos os
precedentes de que derivam, ou não lhes. determinando a formação ou assimilando-lhes
os impulsos resultantes. Enquanto agimos só externa e mecanicamente, com
emprego da força ou da astúcia, perderemos o tempo. As causas que permaneceram
intactas continuarão a repetir-se e a produzir os seus efeitos. Curam-se
doenças, não pela eliminação coativa dos sintomas reveladores, mas cuidando das
causas e condições do fenômeno e, por conseguinte, não lhes forçando as leis,
mas compreendendo-as.
Por isso apenas de
dois modos podemos libertar-nos da dor. Se já se trata de causas em atividade,
só nos resta sofrer-lhes os efeitos. Então, as forças por nós postas em movimento
continuam inexoravelmente a mover-se no sentido que lhes assinalamos, até se
exaurirem. Nada podemos fazer senão suportá-las até que se esgotem, mas
tentando sempre corrigi-las pela introdução de novos impulsos que lhes
modifiquem lentamente a trajetória. Se escolhemos causas erradas, não podemos
libertar-nos das conseqüências dolorosas senão através da dor. E necessário,
então, expiar, reconstruirmo-nos com tenacidade, trabalhosamente, na miséria
onde jazem os que, neste caso, não foram vencidos pela força, mas pela
justiça. Não há, pois, outro caminho para o paraíso senão o do purgatório. Isto
em relação ao que passou. Existe ainda outro caminho para libertar-nos da dor,
mas esse se refere às coisas futuras. Consiste em não errar mais, em não
movimentar novas forças desarmônicas, causa de novas dores. Quanto ao passado,
se erramos não nos cabe senão pagar; quanto ao futuro, apenas devemos, sem
novos erros, construir-lhe os fundamentos. Neste ou naquele caso tudo se reduz
à harmonização, isto é, a cumprir a Lei, a vontade de Deus. De fato, hoje não
se cuida dessa condição fundamental da felicidade. Julga-se que não tenha
conseqüências a violação dos equilíbrios da vida e a praticam com indiferença
de inconscientes Além de não se respeitar de modo algum a ordem universal,
pretende-se, mesmo, criar artificialíssima ordem humana, como antítese e em
lugar da ordem divina já existente. O involuído mergulha assim em tremenda
ilusão: pensa caminhar em direção à felicidade e, no entanto, corre ao encontro
da dor. Crê na vitória da técnica, no poder econômico, no bem-estar material,
na vitória das armas ou da astúcia. Estas, porem, não passam de condições
secundárias para a realização da felicidade; podem até mesmo representar
condições negativas e obstáculos para essa realização, se essas forças se movem
desequilibradamente contra a harmonia da Lei. Quando não significam ordem, mas
desordem, torna-se inútil supor que vencemos, pois fomos vencidos; inútil crer
que andamos em direção à felicidade, pois andamos foi em direção à dor. E hão
de trair-nos todas as conquistas humanas por que tanto lutamos. As coisas
terrestres não enganam; os traidores somos nós, que acreditamos no abuso e não
sabemos empregá-lo. É justo a Lei da justiça tratar desse modo os que a
violentam.
A harmonização constitui o método de
construção da felicidade; a revolta, o de construção da dor. O problema, para
que possamos resolvê-lo, deve ser proposto de modo oposto ao seguido até agora.
Não se trata de abundância de bens, mas de sabedoria na conduta; nem de possuir
mais ou menos, mas de possuir bens conforme à Justiça. Vitória injusta é
inutilizável; riqueza de origens poluídas dão-nos aborrecimentos apenas. Tudo
quanto dissemos em relação à propriedade vale para toda aquisição, tanto para
os indivíduos como para as classes sociais e as nações. Tudo quanto não é
eqüitativo sofre do mal da desarmonia, se consumirá no próprio veneno, se
queimará em fogo violento e morrerá, reduzindo-se a cinzas. De fato, o problema
do verdadeiro bem-estar não é, como se acredita, exclusivamente econômico, mas
moral, de compreensão e de comportamento. Na terra não faltam bens. Falta é
homem que saiba usá-los. A grande conquista a fazer-se não é tanto a conquista
material das forças do planeta, mas da sabedoria humana. Sem a segunda, a
primeira não constitui vantagem, mas dano. Toda aquisição realizada na desordem
realmente representa perda; toda vitória injusta não passa de derrota. A
felicidade é equilíbrio. A dor aparece tão logo saímos da harmonia. O sistema
de forças se distorce e o fenômeno se degrada assim que abandonamos a medida do
justo. Todo pecado por falta ou por excesso significa erro a ser pago. De fato,
tanto os povos como os homens mais ricos são os mais infelizes. Dadas a
estrutura do sistema universal e a conduta humana hoje em voga, que felicidade
podemos encontrar na terra?
Quando violamos a ordem das coisas,
perturbamos a harmonia das forças e damos nascimento a estado vibratório
desarmônico e discordante, constituímos centro de irradiação arrítmica, cujas
repercussões se farão sentir sob a forma de dor. Sofremos porque somos
desarmônicos. As causas de nossa dor moram em nossa desordem interior. Quando
inocentes, o golpe não nos atinge, resvala, não encontra ponto vulnerável no
organismo de forças de nosso destino, pois em nós mesmos nada oferece
resistência. A desordem exterior não pode entrar em nós senão na medida em que,
como queremos, já se encontra dentro de nós. Os impulsos desarmônicos da dor
podem atingir-nos apenas em proporção à nossa desordem interna. Único remédio:
harmonia. E justamente o de que o mundo de hoje menos cuida é de evitar essa
desordem, causa de todos os nossos males. Ao contrário, parece procurar apenas
acioná-las. Explica-se desse modo como o adiantado homem moderno jamais tenha
sido, como hoje, vulnerável à dor. Não! A dor não se vence, como se crê,
dominando o determinismo físico das causas exteriores. É inútil submetermo-nos
às forças da natureza. É um passo; não basta, porém. Pagamos caro acreditar que
baste.
Assim imaginamos civilizar-nos e
progredir e, no entanto, isso nos torna preguiçosos e degenerados. É lógico
que a natureza seja forçada a abolir as defesas por nós artificialmente
tornadas inoperantes. Desse modo enfraquecemo-nos, quando pensamos
proteger-nos. Isso é verdadeiro tanto para o corpo como para o espírito. A
multiplicação das defesas e a segurança desabituam-nos de ser assaltados e nos
aumentam a vulnerabilidade à dor. Se suprimimos o trabalho da luta, suprimimos
também a resistência. A proteção debilita. Assim perdemos a defesa natural e
nos tornamos escravos da defesa artificial. A elevação do teor de vida é faca
de dois gumes, vantagem e perigo. Há maior segurança na pobreza do que na
riqueza, mais força no preparo para a luta do que em sua supressão. O sistema
de nosso mundo contraria toda ordem natural. Eis que também deste outro lado as
causas da dor se acumulam e não se eliminam. Procura-se por toda parte receber
adiantamentos, endividar-se nos equilíbrios da vida, ao invés de procurar
reconstruí-los e não perturbá-los mais. Toda nossa alegria é novo empréstimo
de pobre, enterrado de dívidas até o pescoço. Que poder, no entanto, se
poderia conquistar, interiormente nos firmando no espírito! Assim é que as
raças mais refinadas decaem e as civilizações se esgotam. Daí se vê como, para
civilizar-se a sério, se torna necessário começar de novo, mas exatamente desde
o princípio.
VIII
ENTENDIMENTO, RECONSTRUÇÃO, PROGRESSO
Com as indicações precedentes
desenvolvemos os conceitos de A Grande Síntese (cap. LXXXI, A função da dor).
Agora podemos compreender mais o significado de diversas afirmações, como esta:
“A anulação da dor opera-se corajosamente por meio da dor". Naquele
capítulo se traçou o processo de desaparecimento da dor através da evolução, pela
qual do mundo subumano para o humano e sobre-humano, com a transformação do eu,
a íntima catarse na personalidade muda também o significado, o valor e a sensação
da dor. E muda a tal ponto que no mundo sobre-humano "perde o caráter
negativo e maléfico e se transforma em afirmação criadora, em poder de
regeneração, em corrida em direção à vida. Canta-se então o hino à redenção:
bem-aventurados os que choram". (A
Grande Síntese - cap. LXXXI). Somente agora podemos, como Santa Catarina de
Siena, exclamar: "Sofrer ou morrer".
Assim, enfrentamos e resolvemos o mais
controvertido e importante problema da vida, sem condenar quem está em baixo,
sem protestar contra a Lei, reconduzindo a dor às causas que são suas, mas
estão em nós. Embora verificando o caráter infernal que o ambiente terrestre
pode assumir para o involuído, sempre na dor reconhecemos a justiça e a
infinita sabedoria de Deus e os equilíbrios da Lei que deixam cada qual no
posto merecido, adequando a violência das provas à sensibilidade do indivíduo.
O natural terror que o reino humano do involuído pode inspirar aos seres refinados
não tira coisa alguma à perfeição do plano divino do universo, à liberdade
individual de redimir-se e progredir, ao otimismo do justo, à fé em Deus, aos
auxílios por Ele concedidos a quem os merece. Deus continua presente e ativo
mesmo em plena desordem do inferno terrestre. Tanto basta ao evoluído para
sofrer com alegria. Sua dor torna-se ato de reordenamento do caos, de
aniquilamento do mal. O evoluído é condenado e expia, mas pode com as próprias
mãos criar o outro para libertar-se e construir a própria felicidade. A ordem
sempre está presente na desordem; Deus e Sua Lei não se separam jamais. Isso
basta para o evoluído possuir, no mais profundo da alma aquela harmonia
chamada felicidade. Desse modo a dor vai sendo cada vez mais empurrada para o
exterior, para a superfície.
Assim, embora descrevendo o infernal
mundo terrestre e sofrendo em meio ao seu estridor e à sua violência, podemos
agora esquecer tudo isso ao contemplar placidamente o plano da criação, divino
e de suprema beleza. Apenas o entrevimos e já ficamos atônitos em face de tamanha
sabedoria, poder, harmonia e bondade. Nossa alma estende as asas e sustenta-se
nos céus. Prossigamos, vibrantes de fé, ardendo na mais nobre paixão, temerosos
da nossa própria audácia. Com efeito, neste livro em verdade perscrutamos O
pensamento de Deus e tentamos entrar em comunhão com ele. Por isso não basta
raciocinar, única coisa que segundo parece se faz neste livro. Para estarmos em
comunhão com Deus também se torna necessário arder de entusiasmo e pregar,
sofrer e intuir, desprender-se e amar. Tanta força se emprega para não nos
perdermos no infinito, não sermos arrastados no turbilhão, para elevarmo-nos ao
mais alto dos céus. Essa contemplação, supremo repouso para as dores desta
vida, tira-nos do campo fechado de nosso eu e, sintonizando-nos com as
harmonias do universo, faz que elas nos absorvam, neutralizando-nos o
separatismo. Que dilatação imensa, que suprema expansão esse dissolver-se no
infinito hino da criação!
Estão no mesmo campo de trabalhos, que
não se pagam, tanto quem escreve como quem lê, ambos arrastados na esteira do
mesmo pensamento que se encontra nas próprias coisas e fala por si mesmo.
Desses trabalhos há muitos na vida, e são os mais importantes, apenas
compensados por íntima satisfação. Quando quer atingir os seus fins, a Lei põe
no instinto humano essa íntima sensação de contentamento. Este trabalho de
reduzir o pensamento diretor do universo a forma racional é daqueles que não se
pagam nem se podem pagar neste mundo, visto não existir valor terrestre capaz
de compensar semelhante esforço. Nisso estamos bem longe dos cálculos da
economia humana; estamos nas raízes mesmas da vida, absortos em maravilhosos
contatos com a eternidade, em vibrações intensas bem longe da terra, somos
convivas do banquete das harmonias divinas, elevados à condição de servos de
Deus, isto é, de colaboradores de Sua Lei, protegidos pelas forças de Sua
justiça. Em alguns momentos o inferno terrestre parece bem longe; a dor,
desfeita; a redenção, realizada e a libertação, completa Por momentos parece
haver-se tornado real o sonho de felicidade que o mundo persegue em vão. Quem
souber ler nas entrelinhas terá neste livro, por trás da lógica dos argumentos,
a sensação de sublimidade e de êxtase, isto é, a sensação das divinas
harmonias do universo inteiro, a que estamos a cada passo tentando levar o
leitor. Este livro em meio à desordem terrestre pretende ser afirmação de
ordem; em meio às dores humanas, foco irradiador de alegria verdadeira porque
pura; corrente de vibrações reconstrutoras de bem-estar no sentido mais
resolutivo; impulso que, embora mínimo, como dique protetor se contraponha aos
rios de dor que o homem de sentimentos caóticos estupidamente despeja sobre si
mesmo. Dá-se pressa em condenar, pensando que se distingue dos inferiores e os
liquida, classificando-os como involuídos! Para que, senão para civilizar-se
estariam na terra os mais adiantados? A fase de involução é de cegueira e
sofrimento, representa estado inferior que causa e merece imensa piedade. Este
livro constitui convite, dirigido a quem não o tenha conseguido ainda, a passar
do estado de involuído ao de evoluído; explica a dificuldade e o método dessa
passagem; se por este lado resolve racionalmente tantos problemas e diz o que é
a vida, doutro lado é convite à felicidade. Explicação e convite. Nada mais. A
justiça da Lei exige que toda alegria seja merecida e, por isso, conseguida à
custa do esforço de cada um.
Baseando-nos nos conceitos até aqui
expostos, olhemos em redor do mundo de nossos tempos, observemos e apliquemos o
que acontece. Essa observação não é movida por interesse algum, não deseja
atingir nenhum objetivo terrestre e parte de ponto de vista situado acima do
plano humano. E, pois, imparcial. Apenas se propõe a expor o funcionamento da
Lei, igual para todos, mostrar as conseqüências lógicas que dos erros decorrem
para quem os pratica. Isso tudo, aliás, sem partidarismo e sem censura também.
Trata-se de simples verificação dos estados de fato determinados livremente pelo
homem e pelas conseqüências impostas pela férrea logicidade da Lei. Seria
presunção julgar. Apenas Deus conhece as capacidades, as medidas e as
responsabilidades de cada consciência. Para julgar tornar-se-ia necessário ser
inocente e superior. Quem o é na terra? Julgamento pode emanar apenas de quem
está acima de todos e é isento de culpa; isso faz presumir superioridade
existente apenas em Deus. e na Sua Lei, sempre justa seja qual for o nível
evolutivo. Todo ser está sempre no lugar certo e tem sempre o que merece,
conforme o que é e faz. A qualificação de involuído não significa condenação.
Ele também está no lugar certo, no ambiente apropriado, sujeito a golpes
adequados e tem o que merece.
Observemos, pois. O homem com sua
conduta demonstra não conhecer os princípios que regem e regulam o funcionamento
orgânico do universo; comporta-se como se a Lei não existisse, transgride-a, e,
sem compreendê-la, sofre-lhe as reações. Nossa humanidade é jovem ou, seja,
primitiva, riquíssima de energia e muito pobre de sabedoria. Essa humanidade
precisa de caminhar muito ainda e de sofrer, antes que aprenda a conhecer a
Lei e a portar-se de acordo com ela. De vez em quando algum evoluído aparece na
terra, como expiação ou para dar cumprimento a missão; cumprida porém, a
tarefa, apressa-se a retomar o convívio da gente de sua raça. Todos os seres se
colocam no lugar certo. Geralmente, ao homem não basta desconhecer a Lei e
fugir-lhe; mas faz até o impossível para revoltar-se contra ela e muda-la,
aproveitando para isso da inviolável liberdade de todo ser. Mas o resultado da
partida acaba por ser-lhe desfavorável, porque a Lei reage. A terra
naturalmente não passa de lugar de dor, não percebida apenas pela insensibilidade
dos que há pouco tempo chegaram de mundos mais baixos. Então, naturalmente
também é lugar de desordem, violência, rebelião e ferocidade. Só o evoluído
percebe o inferno que este mundo é. Mas ele também está colocado no lugar
certo, pois se se encontra cá embaixo é porque merece tal pena. Resta-lhe
apenas isso: a expiação e a fuga. Se veio ao mundo para cumprir missão, deve
fazê-lo. Os homens deste mundo são de raças muito diferentes. A grande
maioria encontra-se no ambiente adequado a seu grau de evolução; é justo e
lógico encontrar-se a maioria em ambiente adequado e só a minoria achar-se em
lugar que não lhe convém. A minoria, embora notável, mais evoluída, aqui se
encontra em caráter de expiação; raríssimos exemplares de raças superiores vêm
para cumprir missão. Os destinos, as provas, as alegrias, as dores, os gostos e
os modos de apreciar as coisas são, pois, muito diferentes, de acordo com a
natureza de cada qual. Todos nós exercemos função. Prova duríssima coloca os
superiores ao lado de inferiores ferozes como demônios; os inferiores são
postos ao lado dos superiores para que com eles aprendam a compreender a vida.
Embora diferentes, todos colaboram e mutuamente se aperfeiçoam. Porque todos
são desiguais, as opiniões variam tanto; contudo, a harmonia se estabelece
pela compensação dos contrários mais do que pela semelhança. A realidade da
vida é completamente diferente da que aparece exteriormente ao homem comum; e
seus verdadeiros problemas, bem diferentes daqueles de que habitualmente
falamos.
Nesse ambiente
naturalmente o que domina é a exaltação da força ou exaltação da involução,
isto é, do tipo biológico humano ainda próximo da animalidade. O que revela o
evoluído é método de vida completamente diferente, fundado, ao invés, no
equilíbrio da justiça; mas o evoluído hoje constitui minoria que, em silêncio e
mergulhada na dor, espera sua oportunidade de vida ativa no mundo. O estudo dos
grandes ciclos históricos nos indica como a fase da animalidade, depois que
atingiu o apogeu, esteja agora se encerrando na autodestruição, seu termo
final, inserida no desenvolvimento lógico do sistema da revolta, do
materialismo científico. Desse modo se esgotará o ciclo da atual pseudocivilização
do involuído e começará o ciclo da nova civilização do evoluído. Quem olhar em
torno de si e tiver capacidade de entender, observa o desmoronamento deste
mundo e admira a perfeição da Lei que, no tempo certo, executa o que é útil e
necessário. A vida, feita de renovamento, necessita dessas destruições. A
pseudo-civilizaçáo da matéria, fechada no ritmo do tempo que se prepara para
encerrar-lhe o ciclo, apressa-se novamente a lançar seus últimos impulsos. Seu dinamismo persegue-a, seu
desequilíbrio íntimo atormenta-a; toda a estrutura do sistema de princípios que
a regem, a natureza das forças que a põem em movimento, representam
concatenação lógica que não pode desenvolver-se senão à custa de aceleramento
progressivo e contínuo sem terminar em total aniquilamento. O bólido foi posto
em movimento e agora deve percorrer a trajetória que lhe foi determinada desde
a abertura do ciclo.
Se olharmos em redor de nós vemos em
todas as coisas dominar o desequilíbrio As vitórias são cada vez mais instáveis;
as afirmações, levianas; tudo está confundido num turbilhão de loucura; a
riqueza e o poder têm algo de raiva e desespero; todo bem é inseguro e dá-nos,
mais do que alegria, o terror de vermo-nos despojados dele. Perdeu-se o senso
da harmonia, da calma, da segurança e, por isso, da felicidade. A técnica, mais
do que para criar e proteger, serve à morte e à destruição. As manifestações
espirituais agonizam. A arte apresenta apenas expressões de bestialidade. Os
cantares das mulheres são uivos de fêmea e estão a serviço da atração sexual.
Os cânticos dos homens são gritos de revolta e servem ao roubo e à destruição.
As maravilhosas descobertas modernas, quando não se constituem instrumento
mortífero, concorrem muitas vezes para a multiplicação dessas expressões
bestiais. As descobertas químicas reduzem-se quase sempre a, na agricultura,
violentar os ciclos naturais; na medicina, a forçar as defesas orgânicas e
impor-lhes efeito imediato, que, ao invés de ser salutar como se pensa, não
passa de exploração mais rápida do organismo. Envenenamo-nos constantemente
com sucedâneos e produtos sintéticos, maravilhas da ciência moderna. O que há
em toda parte é revolta e substituição da Lei pelo homem; logo, deve haver em
toda parte a respectiva penitência. Imposição e violência em lugar de harmonia
e obediência. Parece que a mais angustiosa preocupação da terra é provocar o
nascimento da dor. Se providencial ignorância não a limitasse, a ação humana
chegaria a desintegrar o sistema solar.
Esbocemos mais minuciosamente a
substância do atual ciclo histórico. Podemos resumi-lo em quatro períodos trifásicos,
nos quais se exprime o ritmo de seu desenvolvimento. Cada uma das. três fases
de cada período se expressa por um verbo, pois todo verbo quer dizer ação e, na
vida, o pensamento se exprime concretizado nos fatos. Cada termo deriva de
outro; assim, ligam-se ritmicamente em cadeia, por força da relação universal
de causa e efeito; o efeito por sua vez se transforma em causa; e o termo
final, em termo inicial. Desse modo toda fase é mãe e filha e, gravitando uma
em redor da outra, cada qual amadurece a sua parte e ambas amadurecem o
desenvolvimento do fenômeno. Eis os quatro períodos trifásicos do atual ciclo
histórico:
"Crescer,
conquistar, combater.
Roubar, matar, destruir.
Empobrecer, sofrer, refletir.
Compreender,
reconstruir, progredir".
Esses períodos representam a última fase
de nossa pseudo-civilizaçáo materialista e sua passagem a outra civilização. O
domínio das forças do planeta por meio da ciência e a conquista do bem-estar
material, características de nossos dias, levaram-nos à primeira fase do
primeiro período. O restante não passa de desenvolvimento em série, lógico e
fatal, até que se atinja o termo final. Crescer não é crime nem erro. É a substância
da vida e a vontade da Lei. O crime e o erro residem na direção que demos a
esse crescimento. Se tivesse sido sábia e consciente, dirigir-se-ia
imediatamente ao termo final. Da inconsciência do involuído é que derivou o
longo desvio dos quatro fatigantes e dolorosos períodos. Se se tratasse de
mundo consciente, o primeiro termo, "crescer", poderia coincidir com
o último, "progredir" ou, em outras palavras, constituir-se na
efetiva conquista de conhecimento e felicidade, precisamente como a Lei deseja
ao homem. Esse caminho, todavia, pressupõe aquela sabedoria que é precisamente
o resultado do longo percurso em que aquele se transforma para conquistá-la.
Em face da liberdade e da inconsciência humanas, não há outro caminho. Esse
caminho é gerado por aqueles fatos. A lei se lhe adapta e permite a experimentação
humana a fim de que o homem aprenda. Mas lentamente, através do erro como
dissemos, corrige o erro e reconduz as forças à posição devida e desejada,
reordenando-as e reconquistando-lhes a concessão. Assim, a Lei através da dor
repreende e corrige o homem e leva-o de novo ao caminho certo de verdadeira
conquista da felicidade. Desse modo se atinge o verdadeiro objetivo da vida, o
de evoluir; assim, a ação atinge sua finalidade principal: compreender e
progredir. O processo evolutivo deveria saber desenrolar-se em direção reta e
sem desvios. Bastaria crescer lógica, disciplinada, consciente e
harmonicamente, tudo de acordo com a Lei. Mas vimos como o involuído sabe
apenas crescer desordenadamente, em oposição à Lei. O que necessitaríamos de
possuir no momento da partida só conseguimos ao chegar. Mas conseguimos e isso
basta. O objetivo do trajeto consiste precisamente em conquistar novas
posições. O homem aí chegará cansado e ofegante, mas bom entendedor, e a Lei
não terá sido fraudada. Todas as coisas estão logicamente no lugar certo. A
bondade dessa Lei há de triunfar e o homem aproveitará a experiência adquirida
para não repetir o mesmo ciclo, mas, ao contrário, ir além.
Que tortuoso e cansativo caminho deve o
homem percorrer antes de atingir o objetivo colocado no último período! Tanta
dor e destruição para conseguirmos compreender e, em conseqüência, podermos
reconstruir e progredir. Apenas no caso de já termos compreendido é que o objetivo
seria logo atingido e não deveríamos percorrer tão longo e doloroso caminho. O
grande problema resume-se em compreender. Compreender para em seguida aplicar a
Lei, desse modo evitar a dor e, evoluindo, conquistar a felicidade. Ciência,
filosofia, religião, literatura, arte, sociologia, tudo isso deveria facilitar
o entendimento e a aplicação dessa Lei e a substituição do espírito de rebelião
e desordem pelo de obediência e ordem. A atitude de revolta constitui nosso
pecado capital. Constrange-nos a viver debaixo do açoite da reação. Quanto
mais nos rebelamos mais açoites recebemos. A revolta, que nos parece o caminho
da fuga, é o caminho da condenação. Seguimos a Lei às avessas, por isso
conseguimos o avesso de sua harmonia e felicidade; praticamos a seleção às
avessas, involutivamente ao invés de evolutivamente. Mas a inteligência humana
há de substituir a lei animal de seleção do mais forte por sistema de luta mais
nobre, destinada, ao contrário, à formação do mais consciente e do mais justo.
Torna-se necessário mudar o tipo-modelo, não aquele oficialmente elogiado, mas
o que intimamente e de fato admiramos. Necessitamos de seguir outros métodos de
conquistar vitória, propor-nos outros objetivos e lutar em plano mais elevado.
Ao contrário, o esforço humano parece hoje dirigido à canseira de trocar o bem
pelo mal, a ordem pela desordem, a felicidade pela dor.
Bastaria compreender algumas verdades
elementares como estas: "Quem mais pode ou possui não tem maior porção
de direitos, mas de obrigações". "Toda autoridade não representa
vantagem, mas encargo e missão". "A dor cessará apenas quando
houvermos superado o ódio e a vingança, transformando-os em amor e
perdão". "Seja qual for o golpe vindo de fora, a dor só atinge quem
a merece". O verdadeiro bem-estar apenas poderá
resultar de nova ordem interior, em que a fórmula "a infelicidade alheia
é alegria para mim porque me é vantajosa" seja substituída pela fórmula
mais evoluída "a infelicidade alheia transforma-se em dor para mim porque
é também minha própria infelicidade".
Infelizmente é muito extensa a lista
dos erros humanos. Nada mais lógico que a das dores seja também muito longa.
Que outro rendimento poderiam dar as forças da vida, se dispostas de modo
diferente, obedientes a critérios de harmonia e não a de desordem! Que seria
do mundo se, apesar de todos os erros humanos, não o dirigisse Lei justa e
sábia! E deve, mesmo, ser muito sábia visto como, não obstante as tentativas de
desordem, atinge inexoravelmente seus objetivos. Sua sabedoria substitui a
ignorância humana, a que desse modo se põem limites e se guia em direção ao
bem.
Ao homem traem a pressa, a psicologia
do resultado imediato, conseguido a todo custo, através de quaisquer meios,
inclusive da violência. A vida, no entanto, é fenômeno extenso e equilibrado.
Nela o futuro é eterno, produzem-se efeitos devidos a causas longínquas, preparam-se
objetivos também longínquos. O homem vê o passado e o futuro próximos e nada
mais. E agora? Que coisa a química introduz em nossa terra? A ciência médica,
no protoplasma do homem? A máquina, em nossa vida individual e social? A
orientação moderna, em nossas almas? Não sabemos. No entanto, a vida futura se
construirá apenas do que estamos continuamente a semear para nós e nossos
filhos! Pondo de lado o problema agrário, já particularmente desenvolvido em
outros escritos, observemos, por exemplo, como a ciência médica trata o corpo
humano. Cremos que a imunidade se possa obter artificialmente pela introdução
no corpo humano de pus, de vírus ignorados ou de proteínas desconhecidas. No
entanto, a resistência orgânica não passa de equilíbrio entre contaminação e
defesa, a renovar-se continuamente, equilíbrio que se consegue apenas por meio
de características intrínsecas, adquiridas através de prolongadíssimos períodos
de luta. A profilaxia acertada reside nas qualidades protetoras e defensivas
que o organismo por si mesmo adquiriu em prolongada e necessária luta entre o
campo orgânico e o micróbio. A outra profilaxia é proteção ilusória e fugaz, vitória
fictícia obtida à custa da resistência orgânica, preguiçosamente, sem luta,
através de meios que, ao invés de fortalecerem, enfraquecem; de fato, apenas a
luta esforçada e ativa gera qualidades, isto é, atitudes protetoras. Hoje temos
pressa e tentamos impor à Natureza o resultado por nós desejado. Desse modo
apenas conseguimos vantagem imediata, perturbando os lentos equilíbrios
naturais; vivemos de empréstimos e adiantamentos, hipotecando o futuro.
Aplica-se, pois, ao campo orgânico o perigoso sistema crediário que já
observamos no campo moral e econômico. Pensando em melhorar, praticamos, no
entanto, seleção às avessas que tende à produção de tipo fraco, abastardado pelas
defesas artificiais. E queremos suprimir a luta, sem a qual as qualidades se
perdem e a vida se atrofia. Sabemos, por acaso, que reações se produzirão
amanhã em conseqüência desses métodos de violação e de violência? A medicina
oficial aplica-se há muito pouco tempo para que possamos sabê-lo ainda.
Voltamos sempre ao mesmo ponto: ignoramos a Lei e somos violentadores e
destruidores. E, no entanto, que vantagens poderíamos obter, se ao invés de
nos revoltarmos nos puséssemos de acordo! A força não prevalece contra a lei.
Esta resiste e reage. E, da luta entre ela e o homem, este é que sai com os
ossos quebrados. O homem não sabe que o sistema do universo é inviolável e que
toda revolta resulta em golpes contra si mesmo.
Está hoje estabelecido o método humano
com que tratamos todos os problemas, isto é, aplica-se em todos os casos a
psicologia de inconsciência e violência própria de nossa época. Em nossos dias
exaltamos e adoramos o sistema do sucesso rápido, a qualquer preço. Quantas
ruínas, porém, não semeia ele no caminho tanto para quem perde como para quem
ganha! Hoje o método da luta e da vitória do mais forte já atingiu o campo da
arte e do pensamento, desse modo transformado em ganha-pão, mercado, campo de
competições. O espírito morreu. A Lei fechou-se em rigoroso silêncio e recusa
beneficiar os indignos. Deus abandonou-nos à prova que desejamos, as formas
superiores da vida retiram-se da terra e o homem, querendo tudo conquistar,
perdeu as maiores alegrias e os maiores valores e destruiu a beleza. A
psicologia do mais forte transforma a terra em infernal campo de luta onde
apenas duas posições podem existir, a de opressor ou de oprimido, e onde tudo
se concede ao primeiro e nada ao segundo. Os melhores acabam sendo eliminados,
com dano geral. O espírito de revolta acaba na auto-destruição. Coisa alguma
nasce nas ruínas e, se a força obriga à obediência, nada produzem os homens,
oprimidos e não convencidos. O vencedor não cria no vencido senão a indiferença
passiva da resignação. A vida negativa se retrai. Só a força não basta para
alimentá-la. Sem dúvida, tornam-se também necessárias as tempestades das
guerras e das revoluções para o trabalho de renovação. Mundo tempestuoso,
porém, se convulsiona e desagrega. A vida também necessita de bondade e ordem,
de amor e fé; se não tivermos semeado tudo isso, quando os homens pedirem
trabalho, segurança e bem-estar, a terra, saturada de ódio, de revolta e
desordem, apenas poderá dar-nos o fruto resultante da semente nela atirada; o
ar, por sua vez, estará saturado de ódio, revolta e desordem; e toda a
construção desabará fatalmente.
Eis os grandes empreendimentos do
involuído, que felizmente não representa toda a massa. A minoria, composta de
mais adiantados, embora não se trate de dirigentes, tem a função de
reequilibrar a desordem e salvar a humanidade. Porém, nos períodos de
transição como o atual, em que as civilizações entram em liquidação, o tipo
involuído, encarregado de exercer a função destrutiva correspondente às suas
capacidades especificas, adquire especial violência. Representa o órgão da
destruição. Adormecerá, ficando em estado de vida latente, quando o tipo
evoluído, órgão da construção, estiver funcionando. Assim, cada tipo por sua
vez vive e triunfa, contribuindo para a vida, e tem razão ou está errado,
conforme a função que desempenha. Estamos em fase de declínio evolutivo para
liquidar civilização e, em período assim de destruição renovadora, exalta-se
modelo humano que amanhã será com repugnância considerado ínfimo. Amanhã, em
fase de ascensão evolutiva para construir civilização, será exaltado modelo
oposto, agora incompreendido e perseguido; liquidar-se-á o tipo biológico hoje
em voga e em plena atividade.
Até o involuído desempenha, pois,
função social e, no que diz respeito aos equilíbrios da vida, está colocado no
lugar que lhe compete. E deve também ter sua oportunidade. Ele naturalmente
defende, como qualquer defenderia, os princípios do próprio plano, onde se
sente forte e por isso está sempre com a razão. Como acontece com todos, irrita-o
a afirmação das verdades de outros planos, porque aí se sente fraco e, em
conseqüência, nunca tem razão. Por instinto vital e porque a compreende
melhor, todos sustentam a verdade do próprio nível e do próprio tipo biológico.
Afirmamos o que somos, o que melhor compreendemos, o lugar onde melhor vivemos
e vencemos. O próprio involuído quer afirmar-se e escolhe sua arma: a força.
Sente-se fraco no plano da justiça, arma escolhida pelo evoluído que apenas aí
se sente forte. O primeiro, portanto, naturalmente repele essa defesa que não o
defende, essa arma que não lhe dá razão; antepõe-lhe a força, que ele defende
porque a compreende mais, porque é o método de seu nível evolutivo e o único
meio a oferecer-lhe possibilidade de estar com a razão, embora momentaneamente.
Foge, por isso, dos caminho da ordem e da Lei e prefere os da revolta, mais
trabalhosos e inseguros Em presença da justiça compreende muito bem que está
enterrado de dívidas e não pode valer-se da lei que apenas lhe aplica sanções
dolorosas. Onde o evoluído goza de crédito, o involuído está até ao pescoço de
dívidas; onde o primeiro encontra ajuda, o segundo acha apenas desvantagem e
condenação. Então, renega Deus e a Sua Lei E renega-os exatamente porque
percebe que existem e lhe dirigem exprobrações. Rebela-se, portanto, e como
defesa lhe resta apenas a força. Este é o seu ponto de vista. O evoluído ama a
Deus e à Sua Lei, que lhe garantem alegria e proteção. Sua economia não se
baseia, como para o involuído, na força e no furto, mas na Divina Providência,
que, se não se exerce em favor do outro, funciona plenamente em relação a ele
que preenche as condições necessárias à verificação do fenômeno. Todos
confirmam e exaltam o que são e possuem; e negam o que não são e não têm.
A época atual representa a vitória do
involuído, isto é, da força, da rebelião, da desordem. Mas ele também, embora
rebelde, não passa em última análise de servo da Lei. Em face de seu método
negativo de revolta, seu desenvolvimento e suas vitórias acabaram em
destruição, quer dizer, em sofrimento e humilhação de que nascem o
entendimento e a ascensão. O destruidor é, pois, instrumento da reconstrução;
suas negativas, esgotada sua função e aniquilado seu autor, se transformam em
afirmações; a desordem do rebelde acaba em ordem mais elevada; a dor conclui
pela evolução. O ciclo traz em si mesmo a sua lei, as forças canalizadas
dentro de si são todas reunidas em corrente de acordo com ritmo fatal, que
obriga o desenvolvimento da fase a findar na dor que ilumina, purifica e
redime. De tanto caminhar, nossa época progrediu de modo tal que atingiu a
fase útil e construtiva: a da dor. Ela fará refletir muitíssimo. É a única
estrada da compreensão. E só o havê-lo compreendido nos poderá permitir a
construção a sério, com solidez, para ascendermos cada vez mais.
IX
DAS TREVAS À LUZ
Observamos os erros do nosso velho
mundo, para superá-los no mundo mais adiantado que devemos construir. O ciclo
não é novidade e recorda aquele com que se encerrou a vida do império romano.
Aqui não dizemos coisa alguma ainda não escrita pela Lei na história e na vida.
Acontece apenas que nem sempre a liam, mas nós lemos. Só isso. Para dar contribuição
construtiva à civilização em nossa hora decisiva, tornava-se necessário mostrar
o funcionamento da Lei. A palavra, em verdade, morreu, tanto nos habituamos a
fazê-la e ouvi-la soar falso e a considerar como inúteis os ideais. Porém, a
leitura do pensamento da Lei, aqui feita, não é apenas palavras. Nesta
explanação se garante a ação da Lei maturadora, no íntimo, dos fenômenos que
estamos descrevendo. Na realidade da vida, atrás do pensamento que estamos
lendo, se situa a força operatriz e meio de comando. Essa palavra está, pois,
carregada de fatos, adere ao dinamismo atuante por ela expresso; não é
hipótese ou criação pessoal de um homem, mas derivante da realidade que vivemos
e está amadurecendo. Aqui se fala, pois, de conceitos vivos, de conceitos-força
impelidos em direitura a sua realização. Não se trata de exposição de luxo, de
vitrina de conceitos com idéias em exposição, mas de cadeia de pensamento
cósmico expressa em modo de desenvolvimento racional.
Embora muito triste, a visão dos erros
e dores humanos, não pode diminuir a alegria imensa da leitura do livro da Lei
que, apesar de tamanha imperfeição humana, é o livro das perfeições. Enquanto
penetramos, pouco a pouco, na profunda realidade das coisas, cada vez mais
clara aparece a ordem divina e a alma se extasia ao contemplar as harmonias da
criação. Enquanto subimos, invade-nos o senso de libertação, confiança, repouso
em Deus, adesão a Sua vontade, sintonia com o todo, fusão em organismo imenso,
de poder e beleza supremos. Quanto mais a observamos, tanto mais perfeita nos
aparece a Lei.
Começamos a afastar-nos lentamente do
mundo do involuído e a subir cada vez mais em direção ao do evoluído. Na atual
fase de transição defrontam-se o tipo biológico do passado e o do futuro.
Classificamos desse modo os dois extremos típicos do indivíduo humano, para
tornar mais clara a demonstração. Na realidade, porém, entre os dois extremos
se situam infinitas gradações intermediárias, conforme ao desenvolvimento
evolutivo de cada um. O extremo inferior exprime a quantidade; o superior, a
qualidade. A evolução consiste em transformar a primeira na segunda (como na
desintegração da matéria e degradação da energia). Transformando-se a massa em
energia, muda a forma, mas a substância permanece-lhe indestrutível. Se o
compararmos com a energia elétrica, vamos entender melhor esse fenômeno. O
involuído representa o estado elétrico com muita amperagem e pouca voltagem; o
evoluído, a posição inversa, em que, diminuída a amperagem, aumenta
proporcionalmente a voltagem ou, melhor: a quantidade, embora diminuindo, se
transforma em alta voltagem. Mas, apesar da transformação, nada se criou ou
destruiu, pois a substância, expressa em Watt, permaneceu igual a, si mesma.
Entre os dois estados se estabelece a mesma relação existente entre volumes
d’água (em metros cúbicos), considerados fonte de energia, e a pressão por
eles exercida (desnível). Noutras palavras: a energia se refina, sutiliza, mas
ao mesmo tempo se dinamiza. Assim, a transformação se compensa.
Confrontemos os dois tipos. O involuído
é forte, mas insensível e obtuso; verdadeiro rio de energias, mas de qualidade
má, indisciplinada e grosseira. O involuído desperdiça-as de maneira ilógica,
pois lhe falta a consciência diretriz, que para ser conquistada requer
exatamente, através. da experimentação, esse dispêndio de energia. O mundo de
nossos dias é assim. Ao evoluído aparece como caos infernal, estúpido e
doloroso. O evoluído vive em plano físico menos forte, mas sensível, de
inteligência aguda e penetrante. Representa corrente dinâmica mais limitada
como quantidade, porém de qualidade imensamente superior, refinada, disciplinada.
Com a elevação de potencial essa forma de energia tornou-se mais poderosa,
mais apta a vencer resistências, como acontece na eletricidade (ohm) quando
aumentamos a voltagem. Se a corrente dinâmica é de quantidade mais limitada,
suas qualidades de maior potência e a ordem e a disciplina com que a manipulam,
o modo mais consciente como a empregam dão-lhe muito maior rendimento. A
transformação da quantidade em qualidade, embora a massa se torne mais sutil,
traduz-se em maior poder de penetração; a sabedoria de consciência diretriz já
conquistada significa a poupança de imensos esperdiçamentos de energia impostos,
na experimentação, pela tentativa e pela incerteza. Por isso, não apenas a
natureza mais sutil do novo dinamismo permite transpor mais facilmente os
obstáculos, como também o conhecimento que o dirige elimina as dispersões
inúteis, os erros e em conseqüência as dores e lhes permite maior
aproveitamento em sentido evolutivo, isto é, na direção evolutiva de harmonia e
felicidade e não na involutiva de erro e dor. Nesse plano atingiu-se o objetivo
da luta do involuído, a conquista de consciência; os atritos e os choques de
seu modo de lutar foram superados e eliminados, são agora inúteis; tudo se
tornou orgânico, harmônico, lógico, consciente, sábio. Não apenas a massa se
tornou potência, como também a utilização dessa potência é cada vez maior,
quer dizer, consegue-se, em termos de felicidade, cada vez maior rendimento.
Não só a matéria se tornou energia vibrante e o dinamismo, conquistando mais
forte capacidade de penetração, significa força mais ativa e por isso mais
potente, como também se firmou a arte, antes ignorada, de saber usar tudo isso
com inteligência, o que dá a todos os atos, inclusive aos mínimos, valor e
resultado muito maiores.
No desenvolvimento do universal
fenômeno evolutivo, de uma a outra das três formas sucessivas, matéria, energia,
espírito, a transformação biológica que o homem experimenta corresponde à
transição da fase-energia à fase-espírito. Isso caracteriza o novo tipo
biológico e a nova civilização. Se, coletivamente, com a organicidade
caminhamos para a atuação da ordem da Lei, individualmente marchamos em direção
à espiritualidade. Se a força caracteriza o involuído, a inteligência revela o
evoluído. Isso os distingue e constitui a pedra-de-toque para determinar o grau
evolutivo do homem. Basta observar como este, individual e coletivamente, se
conduz, faz a guerra e vive durante a paz, desencadeia as revoluções e supera
as crises, como trabalha, pensa, comanda, obedece, para ficarmos em condições
de classificá-lo criteriosamente. Não interessa a posição social, mas a qualidade
íntima; nem o bom êxito, mas o método e o comportamento; nem a boa ou má
fortuna, mas a raça. Muitas vezes os ciclos históricos têm ritmo fatal.
Interessa, isso sim, o valor do passo com que marchamos no tempo; o modo especial
de cada homem ou nação escrever a própria história é que decide; impõe-se
tão-somente o valor intrínseco da personalidade, através da qual esse modo
especial transparece. O diferente modo de agir revela e distingue.
No evoluído a força trabalhou tanto que
se transformou em inteligência, sua primeira qualidade. Trata-se de
sensibilização geral de que também derivam sabedoria e bondade, equilíbrio e
harmonia e, por isso, poder. O homem funciona em universo maravilhosamente
organizado e não o nota, move-se em oceano de forças inteligentes e não o percebe,
vive em meio de belezas imensas e não as vê. O homem moderno não passa de cego
e bárbaro. A sensibilização lhe rasgará horizontes insuspeitados, torná-lo-á
senhor de tantas forças sutis que hoje lhe fogem. O imponderável, agora apenas
intuído, é ao mesmo tempo mina e abismo; amanhã se tornará ponderável. São
inesgotáveis os recursos da criação. A força constitui a potência mais fraca
da vida. Quem dela se socorre não sabe quão é o pensamento, que poder tem a
disciplina na organicidade. Apenas um olhar lançado no futuro, para que o
pressintamos, nos enche de estupor. Geralmente, essas espíadelas no futuro
reduzem-se a previsões fantásticas à Wells, limitando-se o escritor ao
desenvolvimento dos motivos já em nossos dias atuantes, à perspectiva ampliada
do atual estado de coisas. Ninguém fala de novos motivos, aqueles que de acordo
com a lógica da evolução se introduzirão na vida. E o futuro reside exatamente
neles. Exagera-se, ao invés, o progresso mecânico, colocado em primeiro plano;
quanto à ciência da matéria, prossegue-se até à hipertrofia, sem suspeitar-se
devam os equilíbrios da Lei, ao contrário, agir em direção oposta e
compensadora, provendo o mais necessário: a sabedoria diretriz, que reordene,
guie e portanto valorize as conquistas já realizadas. Não compreendemos ainda
que os princípios atualmente em vigor, para não acabarem no aniquilamento, são
corrigidos e não persistem; e, se não lhes adicionamos princípios
complementares, não representam vantagem, mas dano. Essas previsões estão,
pois, no caminho errado. Caímos no erro de acreditar que a evolução seja
unilateral e retilínea e não deva o futuro passar de multiplicação, de
continuação ampliada do presente. Por força da lei de equilíbrio, o caminho
percorrido por determinado século não pode ser exatamente o prosseguimento puro
e simples do seguido pelo século precedente. Cada época tem objetivo próprio,
com que, para de todos os lados equilibrar o desenvolvimento, tende exatamente
a compensar o da época anterior. Por isso, toda atividade é levada a
transformar-se, ou invertendo-se na sua complementar oposta ou completando-se
em formas ainda não desenvolvidas. Continuar a conceber o progresso apenas como
exterior e mecânico significa incompreensão do progresso, pois ele seria
apenas o prosseguimento de trabalho unilateral, a continuidade de civilização
que esgotou sua tarefa, não tem mais razão de existir e deve, pois, ceder o
passo a nova civilização de tipo completamente diferente. As novas ascensões,
fixadas e superadas as vitórias da técnica, deverão apossar-se do campo das
qualidades humanas. Há muitos outros germes à espera, hoje invisíveis, que se
conservam latentes, escondidos nos intervalos dos grandes ritmos da história.
Nossos atuais problemas constituem fase de transição e preparação de muitos
outros problemas, completamente diferentes. Superar-se-ão a luta de classe e a
competição entre o capital, e o trabalho, resolver-se-ão tantas incompreensões
e tanta ignorância; a organicidade exterior e coacta deverá transformar-se em
organicidade íntima e estabelecida por livre convencimento. A evolução, que
hoje plasma a forma; deverá penetrar cada vez mais na substância e renová-la
cada vez mais intimamente. Há na vida muitos outros germes que esperam em silêncio,
nela colocados muito a propósito, para germinarem e crescerem, visto ser essa
a finalidade de todos eles. Após compreender-se a lógica do processo, tudo
isso se torna evidente.
A fé por nós depositada no
ressurgimento espiritual do mundo se baseia em profunda visão das coisas, que
estende os braços até aos confins do espaço e do tempo. É impossível que o
homem de hoje, dominando sempre mais as forças da Natureza, não chegue a
aprender algo, embora através de hecatombes e, manipulando cientificamente a
vida, não se lhe mostre a imensa realidade subjacente. A estrutura evolutiva
do universo e o ritmo progressivo da Lei evidenciam a impossibilidade disso.
Como negar a solene afirmação da vida, que apesar de todos os obstáculos,
anuncia eterno triunfo? Os desenvolvimentos são fatais; viver é progredir; toda
trajetória, lógica. As verdades das maiorias modernas não passam de
momentâneas correntes psíquicas e nada provam. O mundo guia-se pelo ritmo dos
ciclos históricos, pelo peso dos imponderáveis. O homem não dirige a história,
segue-a. A Lei a todos arrasta, confiando a cada um função especial. Na
organicidade do sistema diretor existe sabedoria que de seja o progresso e nos
salva malgrado nosso. Os grandes homens detentores do poder, expoentes da história,
desaparecem; mudam os nomes das coisas e as atitudes populares; e, em direção
aos objetivos propostos pela vida, a sabedoria prossegue no seu caminho,
independente e imperturbável, sob muitas formas diferentes. A mesma verdade
continua a desenvolver-se, atuando sob as aparências mais opostas da verdade,
mas superficiais e momentâneas. A visão das grandes coisas de Deus escapa a
quem olha de muito perto as pequenas coisas humanas. Como se fosse cântico
ansioso e aflito, nosso pensamento vagou pelo universo, percorreu-o buscando
sem cessar e saciado se deteve na fé por ele depositada na ascensão, em que
percebe haver encontrado o verdadeiro sentido e o fim supremo da vida.
Qual o sistema de vida do novo tipo
biológico evoluído? Que posição toma na terra, especialmente em face das necessidades
materiais, eixo da vida dos demais? Sua regra pode resumir-se no preceito
evangélico: "Buscai o reino do espírito e tudo o mais vos será dado por
acréscimo". Conquistado o poder maior, consistente no domínio do
espírito, torna-se lógica a conquista do poder menor, que é o domínio da
matéria. Não estamos tratando de admirável utopia, mas de fato suscetível de
verificação. Quem já aplicou essa norma, sabe-a verdadeira. Encontrado o reino
do espírito, o resto nos é dado espontaneamente por acréscimo. Como quem pode
o mais pode o menos, possuir o plano do espírito significa dominar os planos
inferiores e as forças que o regem, significa tornar-se espontaneamente, sem
necessidade do emprego de força, senhor de tudo quanto aí exista. Quem o
conseguiu naturalmente possui dentro de si mesmo o senso da medida justa e não
abusa. Tudo isso mostra conseguirmos maior vitória obedecendo à Lei do que
revoltando-nos. Os atuais assim chamados donos da riqueza na realidade não
passam de seus escravos. O evoluído não aprendeu a servi-la, mas a servir-se
dela, a considerá-la meio e não o objetivo da vida, a construir seus tesouros
com valores superiores aos econômicos e materiais, a amar coisas muito mais
belas do que as da terra. Não prostitui o espírito em presença do mundo e se
mantém senhor das forças da vida. Seu domínio atinge a raiz dos acontecimentos
e a essência das coisas; é mais potente porque mais profundo. O encontro do
reino do espírito transformou-lhe a vida em esplêndido e imenso acontecimento,
isto é, no funcionamento de força indestrutível na organicidade universal.
Como, por causa do equilíbrio interior, é antes de mais nada dono de si mesmo,
constitui-se senhor e não escravo das coisas, que para ele assumem outro valor
e diferente significado por serem vistas de ponto de vista mais elevado.
Maneira tão nova de conceber a vida
representa verdadeira revolução biológica no mundo moderno. Os dois tipos,
involuído e evoluído, personificam a velha forma e a nova, que devem
respectivamente morrer e nascer. Trava-se luta entre esses dois tipos de vida.
Cada um deles tem suas próprias armas. O involuído usa força ou astúcia; o
evoluído, bondade e perdão. O primeiro é violento, mas cego; o segundo,
pacífico, mas de ótima visão. O primeiro suporta, o segundo domina o
imponderável. Estão frente a frente, em posição de recíproca e relativa
inferioridade e superioridade. Mas tudo se reequilibra porque o evoluído, se
possui mais poderes, tem também mais deveres. Eis a grande guerra em que
vencerá o homem desarmado e de que nascerá a nova civilização. O evoluído sabe,
porém, que as recíprocas posições de inferioridade e superioridade não são
absolutas, mas relativas, que a maior quantidade de meios correspondem maiores
obrigações, que essas posições não são definitivas, mas transitórias. Todo tipo
biológico, se não passa de involuído quando comparado a evoluído que o supera,
é por sua vez tipo evoluído, se confrontado com outro mais involuído que ele; e
todo evoluído, se supera o involuído, não passa, a seu turno, de involuído, se
o cotejarmos com tipo mais evoluído. Cada um, seja qual for o nível em que se
encontre, sempre tem superior e inferior. Por isso, nenhuma posição nos dá
direito de ensoberbecer-nos por causa de superioridade absoluta e nenhuma nos
dá motivo de humilhação por inferioridade absoluta. Todos temos superior de
quem aprendermos e a quem prestarmos conta; e, também, inferior a quem devemos
estender fraternalmente as mãos. E o evoluído sabe não dispor de maior
conhecimento e poder senão para execução de maior trabalho. Não é só isso,
porém. No decurso da evolução, todas essas posições mudam continuamente e está
em nossas mãos fazê-las mudarem. Para todos nós, o estado de involução
representa o passado; para todos os homens de boa vontade, o estado de evolução
significa o futuro. Desse modo, o evoluído de hoje foi ontem o inferior
involuído, que amanhã poderá ser o superior evoluído. Essa é a hierarquia dos
seres, que ao longo dela se movem de acordo com o merecimento e a boa vontade.
A luta entre involuído e evoluído é
fatal. Todo ser personifica determinada força e representa determinado elemento
da luta; ninguém pode, na posição de neutro, fugir da luta, pois a vida
consiste na ascensão através da luta. Vida é movimento, é vir-a-ser; a estase
mata-a. E esse vir-a-ser tem de significar ascensão. Esse movimento não pode
deixar de dirigir-se para cima. Resolve-se na morte a vida que não progride
para o alto. Construir ou morrer, avançar ou extinguir-se. Quem pára perde a
vida. se não evolui, morre; o retardatário morre na proporção do próprio
retardamento; quem chega tarde se arruina; quem se recusa se destrói.
Progredir cansa muito; todo aquele, porém, que retrocede caminha em direção do
inferno; enquanto isso, quem progride caminha rumo ao paraíso. A Lei nos
comprime de todos os lados para que nos decidamos ao trabalho fatigante de
avançar em direção do paraíso e tudo retorne ao seio de Deus, de que se
afastara. A vida não tem e não pode ter outro significado.
X
O PROBLEMA DO MAL
A luta entre o involuído e o evoluído
não passa de momento da luta universal entre o baixo e o alto, o. passado e o
futuro, o mal e o bem, e ao contrario. O problema se espraia, desse modo, no
problema muito mais vasto do bem e do mal, os dois termos contrários em que se
divide e se funde a grande unidade do universo. O mal representa o baixo, o
passado, a desordem, o inferno, a revolta contra a Lei, o nosso afastamento de
Deus. O bem representa o alto, o futuro, a ordem, o paraíso, a obediência à
Lei, o aproximarmo-nos de Deus. Como a evolução é apenas a ascensão do primeiro
para o segundo posto, o involuído não passa de retardado e do mesmo modo o
evoluído é tão-somente certo involuído que progrediu. Como os dois termos
contrários, mal e bem, se digladiam, assim o fazem também o involuído e o
evoluído, que pertencem, respectivamente, ao primeiro e ao segundo termo.
Para compreensão de qual devera ser o resultado da luta, analisemos a natureza
e a estrutura dos dois sistemas de forças, confrontando o do mal e o do bem. A
análise nos indicara também, implicitamente, o resultado fatal da luta entre o
involuído e o evoluído e ao contrario.
Analisemos o fenômeno do mal. E
evidente tratar-se de sistema de forças por natureza negativo, quer dizer, cuja
característica fundamental reside na negação. Satanás é representado como o
espírito que nega, como o principio em que a revolta se funda. O Fausto de Goethe desenvolve essa
psicologia a fundo. Aí, onde o bem afirma "sim", isto é, construir,
harmonizar, progredir, diz o mal "não", ou seja, destruir,
desarmonizar, regredir. Isso significa possuir natureza inadequada, desenvolver
atividade em direção errada, constituir sistema de forças que apenas pode atingir
resultado falso. Tudo isso esta implícito no sistema, por força de seu próprio
princípio e estrutura. Desse tipo são a natureza e a atividade do involuído,
vandálico por princípio, enquanto o evoluído é por natureza construtor e
anti-destruidor. A psicologia diferente e o método de ação constituem
exatamente a nota fundamental que os distingue. Essa natureza do involuído,
como acontece ao mal, importa em atividade em direção errada, isto é,
permanecer fatalmente ligado a estrutura mesma do próprio sistema de forças,
de modo a atingir apenas resultado falso. Assim, quem por princípio destrói,
acaba, como destruidor, agindo contra si mesmo; quem constrói acaba construindo
para si mesmo.
Da natureza negativa das forças do mal
resultam três conseqüências importantes: 1ª — Por parte do mal, absoluta
impotência de construir para si mesmo e capacidade de desenvolver apenas
atividade negativa, isto é, de embaraçar o trabalho construtivo alheio.
Portanto, o mal subordina-se ao bem existe apenas como forma de negação do bem,
quer dizer, é função dele, como da luz depende a sombra. O mal, desse modo,
nasceu escravo e seu domínio não passa de domínio negativo, de desagregação.
2ª — Sua irresistível tendência para
auto-destruição. 3ª —A subversão de todo o rendimento de sua atividade, que
assim, na realidade oposta às mentirosas aparências, não se resolve a seu
favor, mas a favor do termo oposto — o bem. A destruição levada a cabo pelo mal
se transforma assim, em construção no campo de forças, inverso e contrário.
Observemos os três pontos. Trata-se de
três momentos do mesmo processo, de três funções tendentes ao mesmo resultado:
a vitória do bem. Conclusão: o mal parece e, no entanto, não é inimigo.
Representa apenas a negação que condiciona a afirmação. Sua posição é de
divergência, mas subordinada; o sistema destrutivo está combinado de modo tão
sábio que deve acabar transformando-se em construção. Particularidades
momentâneas poderão causar-nos impressão contrária, mas a ação do mal, em
conjunto, representa apenas contribuição para a vitória do bem. Quem considera
o mal como inimigo não compreendeu a perfeição da Lei. No capítulo anterior
vimos os empreendimentos do involuído, considerado como órgão da destruição.
Examinando mais intimamente agora, podemos compreender de que maneira, em
última análise, eles não passam de colaboradores do evoluído, de órgãos de
construção. Tudo na Lei deve ser construtivo, mesmo lá onde assume aspectos
negativos, até mesmo sob as aparências de oposta forma. O estudo do problema
do mal faz-nos compreender melhor a verdadeira função do involuído no quadro da
vida; como sua atitude de revolta se transforma em obediência; como, apesar de
tudo, ele é apenas escravo da Lei. Tão sabiamente se acham combinados a
natureza e o desenvolvimento das forças que tudo termina se pondo a favor da
evolução. A revolta, ofendendo a Lei, excita-lhe a reação, que para o homem
significa dor, isto é, experiência, entendimento, redenção. Os que afirmam e os
que negam, todos trabalham em prol da Lei; como, através da dor, esgotando-lhe
as causas, se anula a dor mesma e se cria a felicidade (já se vê); como o mal
fracassa ao manifestar-se, tende para a autodestruição e, no entanto, trabalha
pela vitória do bem; assim, aos poucos, a evolução absorve a involução; e o
involuído, transformando-se desaparece.
O primeiro dos três momentos do
processo de desenvolvimento das forças do mal nos mostra o aspecto negativo da
sua função. Por si mesmo, considerando-se, a sua natureza negativa, representa
força esgotada, equilíbrio instável e provisório, posição falsa e insegura,
apenas capaz de triunfos efêmeros. O tempo, de fato, constitui o grande
inimigo do mal. sempre apressado porque reconhece a instabilidade de suas
posições. Sozinho, pois, nada pode concluir de duradouro. Embora sabiamente
executadas, as construções do mal parecem tender irresistivelmente ao
desmoronamento. Por mais perfeitas que sejam, falta-lhes o equilíbrio completo,
única base estável e resistente. O que é resultado de negativas e destruições
não pode afirmar-se e construir, mesmo no mal. Se a função do mal é para si
mesma negativa, torna-se positiva em favor dos outros, embora contra estes
também se dirija em sentido negativo. Desde que o princípio da subversão esteja
na base do sistema, é claro que, desencadeada força em si mesma negativa, esta
ao chegar deve apresentar-se invertida, isto é, positiva. O trabalho maligno de
embaraçar a atividade construtiva alheia transforma-se, desse modo, no
exercício da útil função de resistência necessária à aplicação do esforço
humano, função de controle e verificação do experimento com que se conquistam
exatamente as qualidades necessárias à evolução; e no da função de elemento
secundário e indispensável para contrabalançar as forças dos dois termos
opostos do binômio, necessários para a luta de que nasce a evolução. Dessa
maneira, a função do mal se transforma
na de estimular e acelerar a atividade das forças do bem, isto é, tornar-se,
embora em sua posição negativa, necessário e útil fator de progresso. Portanto,
o mal, sem querê-lo, torna-se útil ao bem. Assim, Judas, contra a própria
vontade, não trabalha para a desejada destruição de Cristo, mas para seu
triunfo. No plano da criação o mal submete-se ao bem e, como seu servo,. deve,
sem sabê-lo, cooperar na consecução de suas finalidades. A mentira engana a si
mesma; o impulso egoísta nada pode fazer sozinho e, sem compreendê-lo, presta
serviço a. seu rival.
No segundo momento do mesmo processo
verificamos o agravamento do aspecto negativo da função do mal, agravamento que
prejudica ao próprio mal. Não somente o mal pode construir-se por si mesmo,
porque é escravo do bem, como, em face de sua própria natureza negativa,
arrasta-se inexoravelmente para a autodestruição. Tal é a triste posição de todos
os destruidores, de quantos trabalham no campo de forças do mal. Por mais que a
negação do mal pareça projetar-se contra o bem (não o atingindo, porém, senão
sob forma positiva retificada), a verdade é que na sua forma negativa ela se
projeta contra o próprio mal, que, desse modo e paralelamente á função
positiva em prol do bem, submete-se a processo de auto-eliminação. A natureza
negativa das forças do sistema importa em que seu desenvolvimento se traduza
em demorado autodesgaste e progressivo esgotamento. A negação do mal não pode
desenvolver-se e agir senão em duas direções num dúplice processo: com
resultado positivo para o bem e negativo para si mesma, isto é, construindo o
bem e destruindo-se. Segundo parece, em relação a si mesmo o mal não sabe
fazer outra coisa senão gerar o micróbio que o mata. As próprias bases e a
lógica do sistema implicam em que a vida do mal possa apenas consistir num
suicídio, o suicídio de Judas, sua fatal autopunição. Não obstante, Judas foi
utilizado em favor das finalidades do bem.
O terceiro momento do mesmo processo
mostra-nos, ao lado do aspecto negativo da função do mal, o aspecto positivo;
quer dizer, mostra-nos como o mal não só é escravo, nada absolutamente pode
fazer para si mesmo, estando condenado à autodestruição, como, por inversão
ocasionada pela natureza de seu próprio princípio animador, pode tornar-se
construtor até mesmo no oposto campo do bem. Chegado ao terceiro momento, o
processo de desenvolvimento das forças do mal nos mostra, paralelamente ao
aniquilamento dele (segundo momento), sua ressurreição, embora em posição
invertida. Eis que, ao lado da função do mal, sempre exercida contra ele,
aparece outra, mais verdadeira, função inversa ou seja, afirmativa e
construtiva, que situa sempre em favor do bem. Tais são as conseqüências da estrutura
negativa do sistema: danos para si mesmo e vantagens para o inimigo. Terrível
condenação. A mentira do mal não pode, logicamente, terminar senão por enganar
a si mesma, dissolvendo-se em favor da vitória do bem. O próprio método do
mal, de travestir-se em mil e uma ilusões. leva-o a transformar em positivo seu
próprio impulso negativo. Mas, embora querendo mentir aos outros, o mal, se
quiser continuar sincero para consigo mesmo, não pode ser senão autodestruidor.
Como nenhuma afirmação pode existir em campo negativo, como nesse campo nenhum
desenvolvimento pode verificar-se senão em sentido destrutivo, então o mal
não pode, em última análise, afirmar-se e desenvolver-se, com o caráter de força,
senão contra si mesmo e em favor de seu contrário, isto é, em campo positivo e
a favor do bem. Eis que o princípio anticriador, o anti-Deus, por si mesmo se
destrói, se trai e se torna servo de Deus, princípio-criador. O mal não
funciona apenas como obstáculo que serve para adestramento no campo das
provas, como catalisador nas reações, desse modo ajudando a evolução, mas é
também a principal fonte dessa dor que é exatamente causa de reequilíbrio,
instrumento de redenção para o mal e de evolução a caminho do bem, isto é, a
devoradora força do mal e a força construtiva do bem. Então, o escravo
torna-se útil colaborador; o que parecia elemento destrutivo é, na realidade,
instrumento que serve para construir, é condição de progresso vertical e de
realização do bem; é amigo, ao invés de inimigo. Assim se explica a
necessidade desse agente determinador de provas, a utilidade das perseguições,
a significação do atentado destrutivo por parte do involuído. Assim se explica
como o progresso se nutre dessas resistências, ao invés de permanecer bloqueado
por elas, pois se transformam, enfim, em impulsos favoráveis. Assim se
compreende porque o Evangelho nos aconselha a que não façamos frente ao mal. Em
universo perfeito, onde tudo possui significação própria, se o mal existe deve
ter objetivo, rendimento certo, exercer função. Nos equilíbrios da Lei até o
mal se torna útil. Já vimos que construção orgânica é a Criação. Qualquer coisa
posta fora de lugar, ou sem razão de ser, ou sem função, constitui enorme absurdo.
Quem não compreende pode clamar contra os erros e os defeitos; quem o
compreende vê, por isso, como tudo está em seu lugar certo, admira a perfeição
com que todas as coisas, o mal e o bem, operam em harmonia com a Lei, a favor
do bem.
O bem possuí, pois, grande aliado, o
mal, cujas forças trabalham contra si mesmas e a favor do bem. De modo que, em
resumo, os impulsos do mal se adicionam aos do bem e, então, sob as aparências
de desordem e rebelião, tudo é ordem e obediência a Deus. Quando penetramos
além da superfície das coisas e observamos mais profundamente, surge uma
realidade diferente e maravilhosamente perfeita. Ficamos atônitos, então, em
face da inesperada sabedoria da Lei. As resistências se transformam em impulsos
construtivos, as dificuldades estimulam e os ignaros impulsos do mal
gentilmente se prestam, à custa do próprio dano, a trabalhar pela vitória do
princípio contrário. O mal é enquadra do a serviço do bem. Satanás goza de
liberdade até o ponto que Deus quer e está prostrado e amarrado a Seus pés.
Escolha o homem a posição destrutiva ou construtiva, funções da resistência ou
do impulso na ascensão, tudo se resolve em aplainar a estrada da evolução e se
resume em obediência à Lei. O estridor infernal da desordem é indisciplinado apenas
no seu campo e interiormente; mas para além dos limites estabelecidos, tudo se
enquadra no concerto das harmonias divinas. Assim, nas mãos de Deus, o próprio
Satanás destrutivo se transforma em construtor, embora sem sabê-lo e querê-lo;
de tanto negar e mentir, acaba por fazer o contrário daquilo que pensa estar
fazendo; de tanto enganar, acaba sendo enganado. Judas desejava ganhar e matou-se;
pensava trair e torna-se instrumento da Paixão de Cristo, colaborador da
redenção, negativo, mas útil. Todos os ataques do mal, também nesse caso,
permanecem subordinados ao bem, tudo coopera na vitória de Cristo. Isso nos
mostra podermos ser derrotados mil vezes; o que decide a vitória final é
estarmos do lado da verdade. Nisso se resume a história do mundo. Em última
análise, Satanás não existe senão para involuntária e inconsciente missão benéfica,
fora da qual lhe resta apenas autodestruir-se. Cumprida a missão, aniquila-se.
A essência da destruição do mal conserva-se latente dentro dele e é imposta inexoravelmente
pela natureza mesma do organismo de forças de que ele se constituí. O mal
carrega consigo o germe da própria destruição, posto nele para que tal
aconteça. Representa o impulso central do sistema, que o levara fatalmente à
pulverização final. No universo, tal como está construído, é absurdo que o
mal finalmente vença e o bem seja derrotado. Vemos, ao invés, que tudo se move
em direção evolutiva, isto é, rumo à perfeição. A única razão que mantém vivo o
mal é exatamente sua função benéfica. Assim, ambos se encaminham para o mesmo
objetivo; por força da sabedoria divina os dois inimigos colaboram para
obtenção do objetivo comum; ambos criam, o primeiro destruindo e o segundo,
construindo. Satanás acaba sendo (suprema ironia) escravo do bem e operário de
Deus. Portanto, qualquer pessoa demolidora ou construtora, involuída ou
evoluída, tem de, queira ou não, dar-lhe contribuição construtiva.
Através dessas considerações
apareceu-nos o verdadeiro rosto do mal. Conseguimos avaliação mais aproximada e
compreensão mais harmônica do fenômeno, de modo que o mal, como muitos pensam,
não constitui mistério, censura à bondade de Deus ou inexplicável imperfeição
de Sua perfeição. O fenômeno se torna mais compreensível se o concebermos como
sistema de forças em ação. Há de chegar o dia em que essas forças poderão ser
percebidas e calculadas por tipo humano a isso sensível por motivo de ser mais
evoluído. Então, ao invés de demonstração racional, ele poderá provar
experimentalmente tudo quanto havemos afirmado. A quem vê as coisas só pelo
lado de fora, tudo isso pode parecer absurdo; mas a verdade é que o mal nasce
para o bem Se o mal nos faz mal é porque lhe pertencemos; faz-nos mal na medida
e nos pontos em que lhe pertencemos, quer dizer, na proporção em que já se
encontra dentro de nós mesmos ou, melhor, é desordem nossa, tal como livremente
a desejamos e incorporamos em nós mesmos. Nossa qualidade e posição é que nos
torna vulneráveis à sua capacidade destrutiva. Retornamos por outros caminhos
aos princípios, já considerados, da lei da honestidade e do merecimento. Se
formos culpados, o mal desempenhara em relação a nós o papel de justiceiro;
mas se formos inocentes, nos transformará em mártires e promoverá nossa
apoteose. Só para os malvados o mal é apenas mal. Para os bons constitui bem.
O mal poderá semear a ruína dentro de nós apenas se lhe houvermos invadido o
campo e descido em seu terreno. Doutro modo, nada poderá contra nós. Noutras
palavras: o mal retifica posições, é mestre que só intervém para corrigir onde
há erro. Lá onde a ordem já se estabeleceu, o mal fica sem ação porque não
encontra ponto de apoio algum. Se em nós não existe falha alguma, o mal não
sabe por onde entrar. Portanto, apenas proporcionalmente à nossa imperfeição é
que estamos sujeitos ao mal e sofremos; se a imperfeição abre as portas para a
dor e permite que o mal ataque, acaba sendo corrigida e saneada automaticamente
pela dor e pelo mal; e isso de tal modo que, façam o que fizerem, sua ação
tende sempre a preencher automaticamente a falha através da qual entraram e a
transformar-se em bem. O universo, portanto, contém em si mesmo o princípio de
ressaneamento de todo erro.
Esses conceitos podem, enfim,
mostrar-nos racionalmente o significado lógico desse tão raramente aplicado método
evangélico de não-reação: "Ouvistes que foi dito: Olho por olho e dente
por dente. Eu vos digo, porém, que não resistais ao mal (ao maligno); mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe
também a outra", (Mateus, 5:38-39). Assim falou Cristo no Sermão da
Montanha. Não se trata. apenas de ato de amor, mas de método de vida
logicamente colocado no sistema universal, em que a defesa do justo é fato
automático. Para quem não conhece a lei isso é absurdo. Não obstante, nossa miopia
nos torna vítima de ilusão, quando nos faz acreditar que reação significa
defesa. Agora estamos em condições de compreender que reação não quer dizer
isso; não fecha, mas abre as portas ao mal, que acaba sendo bloqueado por
outros meios; no seu próprio campo de forças introduz o mal, quando recebe e
devolve a violência. O sistema da Lei já é de si mesmo justo; não precisa de
intervenções humanas para tornar-se tal. Só a Deus compete julgar e distribuir
justiça. O justo é automaticamente protegido pela Lei. Quando somos injustos e
merecemos ser prejudicados, a defesa que promovermos de nada nos valerá sem a
de Deus. O evoluído, que compreendeu a Lei, segue o método de não-reação
preconizado por Cristo. O involuído segue o do mundo animal: olho por olho e
dente por dente. O primeiro, confiando-se à justiça de Deus, defende-se com o
merecimento. O segundo tem a seu favor apenas a força. Por isso, é mais débil e
inseguro. O método do evoluído, contudo, lhe parece forma de debilidade e
vileza, quando o evoluído é, isso sim, indivíduo consciente. Mas na atuação dos
dois métodos há esta grande diferença o primeiro importa na necessidade de
sermos honestos.
XI
A ECONOMIA DO EVOLUÍDO
Continuemos a subir, devagar, do mundo
do involuído para o do evoluído. O próprio Sermão da Montanha, há pouco
citado, continua a mostrar ao evoluído o caminho, seu método, até mesmo no
campo econômico: ... e, ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; e
dá a qualquer que te pedir; e, ao que tomar o que é teu, não lho tornes a
pedir". (Lucas, 6:29-30). Economia vã e aparentemente desastrosa. O mundo
moderno toma o cuidado de não levar a sério semelhantes preceitos,
profundamente convencido do sublime absurdo que eles constituem. E, no entanto,
como, para quem compreendeu a Lei, são lógicos e naturais! Trata-se do
princípio mesmo de não-reação aplicado não mais à defesa da própria pessoa,
mas a de seus haveres. Aí reencontraremos, por isso, igual método de defesa: a
justiça confiada a Deus, a honestidade, o merecimento. E a conclusão é a
mesma, tanto na defesa dos bens de fortuna como na da pessoa: o justo é
automaticamente protegido pela Lei. Se não somos justos e merecemos ser
prejudicados, de nada nos vale, sem a de Deus, a defesa que promovemos.
Voltamos desse modo ao conceito já explicado isto é o de que a propriedade, só
se for honesta, resiste aos ataques. E também nesse caso observamos como a
honestidade, à semelhança da não-reação, é considerada pelo mundo como forma de
debilidade ou imbecilidade, quando a honestidade, isso sim, é ser consciente.
Tal o método do evoluído no campo econômico. O estudo dos princípios e das
forças da Lei permite-nos, ao contrário do mundo, levar muito a sério esse método,
que aliás é o mesmo indicado por Cristo. Os raciocínios por nós desenvolvidos
provam cada vez mais que esse método não é o dos débeis e imbecis, mas o dos
sábios. Por isso quisemos ver para além das aparências enganosas em que,
todavia, tanta gente acredita.
Não é agora que desejamos insistir no
estudo do sistema de forças que rege o fenômeno. Devemos, ao invés, observá-lo
sob outro aspecto, correspondente a esta espontânea pergunta de ordem prática:
como é que pode viver neste mundo quem se entregue a regime econômico tão
desastroso? Embora teoricamente se justifique, se é essa a economia do evoluído,
como pode ele resolver o problema, tão angustioso para todos nós, das
necessidades materiais? Se é mesmo verdade que levamos a sério o Evangelho e
Cristo não pode ser considerado louco, devemos então dar resposta completa a
essas perguntas. Havemo-nos proposto a mesma pergunta nas páginas anteriores,
mas em termos mais gerais, isto é: em que consiste o código de vida do
evoluído? E respondemos que sua regra está na norma evangélica: "Mas
buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos
serão acrescentadas". Observemos, agora, caso mais particular desse código
de vida, isto é, em que consiste a economia do evoluído ou, melhor, seu modo
de agir em face aos bens da terra. Essa conduta não passa de aplicação da norma
acima citada. Assim, o evoluído ocupa-se primeiro das coisas espirituais; o
necessário para prover-lhe as necessidades materiais ele o recebe por
acréscimo. Eis o problema que nos propomos: como procede ele para receber de
graça o necessário, como se se tratasse de benefício concedido para mais da
mercê devida? Do ponto de vista humano sua posição é bem precária, dir-se-ia
mesmo desesperada. Trata-se de indivíduo que, segundo o Sermão da Montanha, dá
a quem pede e, se acaso é roubado, não só se abstém de protestar como até
mesmo não impede que o roubem ainda mais. Pois bem. O indivíduo que, ao invés
de cuidar de si, cuida das remotas coisas do espírito e não se preocupa com os
problemas imediatos e angustiosos da vida real, implicitamente os resolve,
saibamos lá por que meios ignorados dos demais. E não é só; parece destinado a
cair e, não só não cai, como recebe por acréscimo, espontaneamente, coisas que
os outros, muitas vezes inutilmente, gastam a vida para conseguir. Como
poderia o evoluído fugir à dura lei, conhecida tão bem por todos nós, segundo a
qual nada se obtém sem esforço?
Essa posição privilegiada é apenas
momento da libertação a que a evolução nos conduzirá. Eis uma das principais
vantagens da ascensão. O evoluído superou nossas lutas e fadigas; as suas se
destinam à execução de tarefas mais nobres. Por sua mesma natureza, ele não
trabalha mais em nosso plano material, mas trabalha no plano espiritual, mais
elevado. Os problemas materiais estão para ele, isto é, no sistema de forças de
sua personalidade e seu destino, automática e definitivamente resolvidos,
embora não o estejam para nós. O centro de seu ser coloca-se mais no alto; sua
experiência, diferente e dirigida a outras conquistas, está completa em nosso
plano material, atingiu seu objetivo; as qualidades, em cuja conquista nos
cansamos tanto, foram conseguidas por ele; no plano, em que para nós ainda há
trabalho em prol de reequilíbrio e reordenamento, para ele há equilíbrio e
ordem agindo espontaneamente. De acordo com o principio do merecimento, a Lei
dá gratuitamente ao evoluído o que ele merece e obriga o involuído a conquistar
com muito esforço o que ele ainda não merece. Tudo isso é lógico justo e
corresponde aos equilíbrios da Lei. A inteligência e a atividade primam entre
as qualidades que o evoluído procura conquistar à custa dos esforços já
despendidos (merecimento) e chega por isso a possuir na forma espontânea de
necessidade e instinto; é naturalmente dinâmico, irresistivelmente inteligente
e laborioso. Portanto, a luminosidade e o dinamismo próprios do espírito se
projetam, como conseqüência, até mesmo no plano da vida material. Sua
inteligência lhe permite dar ainda maior rendimento à sua necessidade
espontânea de atividade e torná-la, por isso, ainda mais produtiva, em qualquer
direção, seja moral ou até mesmo, implicitamente, econômica. Já dissemos que
quem pode o mais pode o menos: o espírito, embora o involuído não veja nem
compreenda tal coisa, é dominador de tudo, para além da matéria. O trabalho,
tão ingrato e cansativo para o involuído, que a ele se decide com relutância,
na esperança de compensação (economia moderna do do ut des[8]) e com os
olhos postos em aproveitá-lo o mais possível, até o ponto de transformá-lo em
mentira apenas para justificar o furto (sua forma ideal de aquisição), o
trabalho, dizíamos, para o evoluído é, no entanto, necessidade vital como a
exuberância física da juventude, é instinto que, dirigido pela inteligência,
dá resultados dobrados.
Não basta, porém. Para o evoluído o
trabalho não significa condenação; muito pelo contrário, caracteriza-se como
função que se entrosa no grande concerto das atividades de todos os seres do
universo, como missão valorizadora da vida. E valoriza porque, até mesmo nos
casos mais dolorosos, transforma-a em precioso dom, em campo de luta para
aquisição de novas qualidades que, adquiridas, enriquecerão para sempre a
própria personalidade, constituindo-lhe o poder e a sabedoria . Assim iluminado
por significação tão profunda e valorizado por finalidades tão elevadas,
ligado não a rendimento momentâneo, mas a resultados indestrutíveis, o trabalho
não é suportado nem como desgraça de deserdados, segundo nos ensinou o
materialismo moderno, nem com inveja dos que dele estão isentos. Ao contrário;
é abraçado com interesse e amor, como dom de Deus que assim nos permite fazer
experiências, aprender e progredir. não é considerado posição de
inferioridade, mas grande honra, a de tornar-nos colaboradores no funcionamento
orgânico do universo, isto é, operários de Deus. É natural que a concepção do
evoluído renove completamente, em cada caso, e também neste, o sentido da
vida. Assim o trabalho se nobilita, é animado por alegre impulso, enriquece-se
com resultados e finalidades inesperados, e de posição de revolta e escravidão
se transforma em posição de domínio e amor. Trata-se de trabalho bem diferente
do trabalho arrogante, rixento, que hoje se faz e que luta contra o capital
apenas por inveja. Quanto a psicologia moderna se afasta da verdadeira
concepção do trabalho! Ora, é natural que quem conseguiu alcançar essa
concepção, e segue o método de vida conseqüente, veja também como os frutos
desse método lhe afluem às mãos, com a mesma espontaneidade do trabalho realizado.
E isso tudo por acréscimo, porque o objetivo e o prêmio desse trabalho são bem
outros, de valor eterno, imensamente mais importantes. E tudo isso se obtém
abençoando a vida, e não amaldiçoando-a! Assim se explica de que maneira o
homem, antes de mais nada preocupado com as coisas espirituais longínquas,
resolva implicitamente até mesmo os problemas imediatos e angustiosos da vida
real, e de que modo esse homem não falha, embora não se interesse por eles.
Recebe como conseqüência secundária, e não mais como resultado único e como
prêmio, tudo quanto para os outros constitui o único objetivo que, quando não
atingido, é como se tudo tivesse fracassado. Assim é que se pode aplicar o
Sermão da Montanha, dando a quem pede, sem reclamar o que nos é tirado,
entregando a túnica a quem nos tira o manto. O universo é exuberante de poder e
de riqueza! Nossa involução é que nos empobrece, porque, por causa dela e
proporcionalmente a ela, nos exclui do grande banquete! Quanto mais
progredimos tanto mais participamos dele e, por isso, enriquecemos. Nossa
involução constitui verdadeira prisão. Progredindo, o evoluído se libertou e,
por lei da natureza, é muito mais rico.
A honestidade é uma das formas com que
a inteligência dá maior rendimento ao trabalho do evoluído. A honestidade,
aliás, não passa de conseqüência da inteligência. Somente o sistema da justiça
se mostra equilibrado e produz resultados consistentes. Esse sistema consegue
economizar os naturalíssimos atritos da luta, que absorvem tão grande parte da
atividade humana, sobrecarregando-a de fadiga inútil. Desse modo poupam-se as
numerosas e naturais desilusões de todos os sistemas desequilibrados. Quanta
fadiga inútil se poupa e como o próprio trabalho rende mais! Quanto as
atividades interiormente pacificas e ordenadas não produzem mais que as
litigiosas e desordenadas! O evoluído, posto, como poderia parecer, na posição
de maior desvantagem porque até mesmo no campo econômico aceitou o princípio
de não-reação, acaba por não possuir inimigos e desse modo fica aliviado do
trabalho do ataque e da defesa que tanto acabrunha o mundo. Além disso, é
natural que o evoluído, tendo conquistado a sabedoria, evite as falhas a que a
ignorância leva e não trabalhe para a conquista de resultados efêmeros, mas
apenas das posições que, por serem justas, isto é, equilibradas, são as únicas
verdadeiramente resistentes e sedimentadas. Tudo isso mostra a grande
influência do espírito até mesmo na vida prática; mostra não ser o fator moral,
no campo da economia; precisamente o elemento insignificante que parece ser;
mostra, finalmente, de que maneira muito dos defeitos e insucessos de nossa
economia são devidos exatamente ao fato de desprezarmos esse fator
imponderável.
Mas tudo isso não esgota o assunto. O
dinamismo espontâneo ou o instinto de operosidade e o maior rendimento,
forçados pela inteligência e a honestidade, não bastam para assegurar, em cada
caso, estarmos providos quanto às necessidades materiais. Quem, para servir o
espírito, é constrangido a menosprezar as coisas terrenas, sente não apenas a
necessidade de consegui-las mais facilmente, com menor fadiga e por acréscimo,
mas também a de sempre consegui-las com absoluta segurança. No cap. III deste
livro classificamos os tipos humanos, desde o involuído até o evoluído, em
selvagem, administrador, espiritual, de acordo com o método de aquisição por
eles seguido: furto, trabalho, justiça. Se o mundo fosse de evoluídos, já se
teria alcançado a justiça social e, em conseqüência, a garantia de provisões
materiais. A solução, que agora devemos propor-nos, não deve ser essa de
realização que depende do futuro. O caso agora é bem diferente. O evoluído
constitui exceção, o homem evangélico vive, desarmado, em meio a indivíduos
armados até os dentes, e deve desinteressar-se da própria pessoa, embora, em
meio da mais feroz avidez. Então, que forças vitais o defendem e impedem a
destruição de seu produto mais perfeito? Respondemos: a Divina Providência.
Trata-se, na verdade, de imponderável que, por isso, escapa à sensibilidade
grosseira do involuído. Por esse motivo é muito raro o mundo notá-la, mesmo
porque se trata de força real, inteligente, que funciona segundo lei própria,
de fenômeno sempre pronto a verificar-se, desde que se apresentem reunidos os
elementos determinantes. E também isso é lógico.
Observemos, então, o funcionamento
desse estranho fenômeno que resolve o problema aparentemente insolúvel, dando
ao homem desarmado a palma da vitória, dando ao homem, na aparência mais falto
de segurança, aquela segurança de que todas as coisas humanas carecem. Tudo
isso pode parecer excepcional e milagroso; no entanto, para a Lei é lógico e
espontâneo. Constitui, sem dúvida, total subversão dos métodos humanos em
voga, inconcebível para a psicologia dominante. Mas essa psicologia está
encerrada num círculo de ilusões, que exatamente a sabedoria do evoluído tem a
incumbência de desfazer e a evolução, de transformar. Este argumento já foi
aflorado muito de leve em A Grande
Síntese, cap. LXXXVII: "A Divina Providência". Mais tarde o
desenvolvi no cap. XIII, sob o mesmo título, de História de um Homem. Para lembrá-lo ao leitor, vamos resumi-lo
agora.
O fenômeno, sem dúvida alguma, existe,
é susceptível de experimentação e influi até mesmo no campo dos efeitos utilitários,
se o mecanismo das forças resultantes é posto em ação no momento exato.
Torna-se necessário, pois, antes de mais nada, compreender a lei do fenômeno e
expor as condições necessárias para que ele se verifique. É lógico que tal não
pode suceder com o método humano desordenado e rebelde ou, seja, se não se
verificarem os requisitos indispensáveis. O universo é organismo de forças que
obedecem apenas a mãos habilidosas e sábias, e, cobrindo-se de trevas, se
recusam a obedecer a mãos inábeis e rebeldes. Necessário se torna, pois, haver
compreendido a Lei e ter-se conformado com sua vontade; quer dizer, é preciso
haver neste caso compreendido a lei do fenômeno para estar seguro de que, se
for aplicada, fatalmente se verifica.
Quais são essas condições? Ei-las:
1) Merecer
a ajuda;
2) Haver,
antes de mais nada, esgotado as possibilidades das suas próprias forças;
3) Estar,
de acordo com suas condições, em estado de necessidade absoluta;
4) Pedir
o necessário e nada mais;
5) Pedir
humildemente, com submissão e fé.
Quando essas condições se realizam, a
Divina Providência está em condições de funcionar a favor de todos. Do
contrário, o fenômeno não pode verificar-se. Desse modo, não se pode falar em
providência com relação aos malvados, preguiçosos, ricos, cobiçosos,
incrédulos, soberbos Manifesta-se ela e trabalha em favor dos bons,
trabalhadores, necessitados, morigerados, crentes humildes e de boa fé. Esta é,
pois, a primeira condição: merecer. Em alguns momentos da vida é necessário
sermos deixados sozinhos diante do obstáculo, para que aprendamos a superar as
dificuldades com o emprego apenas de nossos meios. Quando não merecemos ajuda
ou ela nos seria prejudicial, a providência que nos furtasse à prova necessária
a nosso próprio bem não seria ajuda, mas apenas traição. Nesse caso a ajuda,
que não falha, consiste em dosar a prova e diluir o esforço necessário, na
proporção de nossas possibilidades. Na prática, o que se pretende é transformar
a Providência em instrumento de nossas comodidades e desejos, ajuda
desnecessária que nos poupasse à fadiga de progredir.
Vamos ao segundo ponto. Quando
quisermos pôr a Providência a serviço de nossa preguiça, é justo que a Lei
nesse caso se recuse a atender-nos ao apelo. Deus, sem dúvida alguma pai amoroso,
não é, porém, nosso escravo. Sua Providência jamais nos ajudará, se antes não
houvermos feito tudo quanto estava em nossas forças para aprendermos a lição. A
Lei jamais sacrificará nossa felicidade final em favor da efêmera vantagem do
momento.
A necessidade absoluta constitui a
terceira condição. Não se pode avaliá-la de modo absoluto, igual para todos,
porque depende do caso, do momento, da pessoa, porque as necessidades
individuais são diferentes e relativas, exatamente como as fontes de que dispomos
para satisfazê-las. Se, porém, a avaliação e a natureza da ajuda são relativas,
é certo que a Providência não nos provê do supérfluo, mas do necessário, e isso
para fazer-nos viver e não para cairmos na pândega. A lei do mínimo esforço, a
parcimônia, a proporção entre o esforço e o rendimento, tudo participa de sábia
economia da natureza, toda feita de equilíbrio e justiça. E ela, nem avarenta
nem pródiga, mas apenas parcimoniosa, concede criteriosa e moderadamente
quanto seja necessário para proteção e garantia da vida, da continuação
necessária à evolução, que é o seu objetivo. Se a Providência prodigalizasse o
supérfluo, ao invés de encorajar a vida, levá-la-ia ao ócio, que conduz ao
aniquilamento.
É preciso, pois, pedir com moderação e
esperar apenas o que for justo. Nisso consiste a quarta condição. Pedir o necessário
para viver com simplicidade, a fim de que o instrumento do corpo possa fazer o
trabalho pedido pelo espírito e indispensável para as finalidades da vida. Se,
subvertendo a Lei, as colocarmos na matéria e nos prazeres baixos, é natural
que a Lei se afaste de nós e não nos ajude. Para obtermos a ajuda, torna-se
necessário não pretendermos mais do que temos direito de pedir e havermos,
antes de mais nada, aprendido a regra da temperança. Não nos esqueçamos de que
a Providência não passa de manifestação da justiça e da bondade da Lei e de que
nesse fenômeno tem plena vigência o princípio da justiça e da bondade e não o
da força, que nesse caso é inútil, nada consegue senão sufocar o fenômeno.
É preciso, finalmente, pedir com
submissão e fé. Estamos tocando no quinto ponto. Devemos adquirir consciência
da ordem divina e, ao invés de procurar torcê-la conforme nossas conveniências
do momento, devemos procurar pormo-nos de acordo com ela. Em lugar de pretender
mostrar a Deus o de que necessitamos e como podemos ser providos, devemos
colocar-nos, face às Suas diretrizes, na posição de dependentes, de cegos
ignorantes que esperam orientação, de filhos obedientes e quem mais pode e
mais ama. Devemos, pois, também crer e confiar, isto é, ter através da prece a
sensação dessa realidade estupenda ou, seja, a de que não estamos abandonados e
sós, mas existe nos céus o Pai, velando por nós e provendo-nos do necessário.
Podemos perguntar-nos, agora: Quando é
que, na prática, se perfazem essas cinco condições? E por que maravilharmo-nos
de que o fenômeno não se verifique? Natural é que todo fenômeno possua regras
especiais e absurda é a pretensão de jogar sem conhecer as regras do jogo.
Explica-se desse modo como em muitos casos a Providência falha e não se
manifesta. Não obstante, funcionava muito bem nas mãos dos santos, que nela
confiavam cegamente. Muitas vezes queremos colocar-nos no lugar da Lei. Então,
se não logramos êxito, retorcemos o erro, que é nosso apenas, e atribuímo-lo
ao sistema, pondo em Deus a culpa da injustiça. Primeiro, fechamos as portas
para a Providência, impedindo-lhe a ação, e em seguida lhe negamos a
existência. Mas onde existe maior perfeição e bondade do que no método que nos
garante o necessário, garante porque nos é destinado e nega apenas o que nos
pode ser prejudicial? Somos acalentados por ordem justa que nos quer bem e
protege a vida. Dessa ordem benéfica e protetora participa a Divina Providência.
Trata-se de forças inteligentes e amorosas, prontas a socorrer-nos, sempre à
nossa disposição; basta apenas que saibamos manejar-lhe o mecanismo. É lógico
que esse antecedente se torna necessário em sistema orgânico. Trata-se de
forças exatas, enquadradas, automáticas como as leis físicas, onipresentes,
incorporadas nas leis da vida e, por isso, sempre prontas, necessária e
automaticamente, a funcionar, tão logo se verifiquem as condições de seu funcionamento.
Propiciar essas condições é espontânea ação nossa, independente da conduta dos
nossos semelhantes, das condições sociais dos tempos, dos sistemas de justiça
distributiva em voga. A Lei de Deus não esperou, para proteger a vida, o
advento da justiça social nem as modernas formas de previdência individual e
coletiva, mas, apesar disso tudo, deu ao homem liberdade de escolher a forma de
garantir-se contra a necessidade, forma que é independente de toda autoridade
humana, é justa e absolutamente segura.
Poder-se-á objetar que muitas e
difíceis condições devem concorrer para tão magro resultado. Respondemos: a
Divina Providência não é seguro compulsório; qualquer pessoa pode recusá-la
sempre. Mas, então, é necessário colocar-se no plano da incerteza, para sonhar
mil e uma coisas, arriscar-se a nada conseguir e a sofrer as desilusões
normais da vida Não vivemos para gozar, mas para lutar e progredir. Os
desequilíbrios custam caro. Mas, dir-se-á, queremos riqueza. Pois bem.
Torna-se necessário, então, sentir o terror de vir a perdê-la, que é o tormento
dos ricos, e sofrer as respectivas ânsias e preocupações. Isso faz parte do
sistema. É natural que, quanto mais se sobe, os equilíbrios se tornem mais
instáveis e as posições menos seguras, isto é, que a segurança seja
inversamente proporcional à riqueza. Mas o involuído sente necessidade de
experiências e por isso tenta a sorte até mesmo no campo econômico; não
precisa, pois, de segurança, mas de miragens que o induzam a lutar e a sofrer
nesse campo. No entanto, a Divina Providência se funciona como método quase
exclusivo do evoluído, método com que a Lei provê apenas o necessário, e com
absoluta segurança, ao homem espiritual que não pode mais preocupar-se dos
problemas materiais, já esgotados e superados por ele.
Eis a economia do evoluído, o modo com
que resolve o problema das necessidades materiais, eis como lhe é possível
aplicar o método evangélico de não-reação e aquela economia em pura perda,
aparentemente desastrosa. Eis como aqueles que se ocupam das coisas espirituais
podem receber tudo o mais por acréscimo. Estamos naturalmente num mundo
diferente do mundo humano, em face doutra psicologia, doutros métodos e
princípios. Há outra objeção, porem. Do ponto de vista humano, o evoluído, que
se preocupa com as coisas espirituais, parece indivíduo inútil, improdutivo,
parasita que vive à custa dos outros, que trabalham para ele. Onde está a
justiça? A esmola é injusta apenas quando extorquida por ociosos. Temos visto,
porém, como o dinamismo e a operosidade são as qualidades mais notáveis do
evoluído. Em geral, ele trabalha demais, pois soma as fadigas do espírito às
necessárias para satisfação das necessidades materiais, ao invés de substituir
uma por outra. Logo, o próprio funcionamento da Divina Providência nos mostra
como as necessidades do evoluído são limitadas e modestos os pedidos que faz.
Que é que seus gestos significam, se os compararmos com os desperdícios
imensos impostos pela justiça, pelas guerras, pela cobiça e pelo espírito de
destruição do involuído? Finalmente, mesmo se o evoluído permanecesse ocioso,
no que diz respeito à matéria, e se ocupasse apenas de trabalhos espirituais,
não dá, só por isso, contribuição à vida? Para progredir, a vida não requer
apenas atividades economicamente lucrativas. O evoluído, desse modo, não é
parasita; exerce função e cumpre missão; assim, muitas vezes dá muito mais do
que recebe. Não seria preferível falar em desfrutamento do gênio e do santo por
parte da sociedade? A Lei não pode praticar injustiça, utilizando para isso da
Providência. Serve-se, então, dos dominadores da terra como de instrumentos
seus e obriga-os a fornecer ao evoluído o mínimo indispensável, de que ele se
vale apenas para cumprir sua função social, sem dúvida necessária. Mas quando
se exerce determinada função, adquire-se, perante a justiça divina, direito aos
meios para poder continuar a cumpri-la. Assim, todos são chamados a contribuir
e a trabalhar para os objetivos da vida. Nos dias de hoje, o evoluído constitui
exceção e não há de, por certo, pesar na economia social. Quando, porém,
tornar-se maioria, então o advento da justiça social será fato consumado, o
homem terá adquirido consciência da Lei, e nova concepção da ordem dará a todo
ser humano, naturalmente, a garantia do necessário.
XII
POBREZA E RIQUEZA
A economia do evoluído deriva
diretamente da sua própria psicologia. Assim como o Evangelho revoluciona o
mundo, a forma mental do evoluído transforma a do involuído, porque se trata
precisamente de passagem da inconsciência para a consciência, da ignorância à
sabedoria As duas formas mentais representam os dois extremos da fase humana de
evolução, que lutam. Baseiam-se nelas duas escalas de valores opostas. Acima
de todos eles, o involuído coloca os bens materiais e o evoluído, os
espirituais. Segue-se daí que o primeiro não faz caso destes e o segundo, daqueles,
ligando-lhes bem pouca importância. Um sacrifica tudo à riqueza, até o próprio
espírito; outro sacrifica tudo ao espírito, até mesmo a riqueza. Este adora a
matéria e por causa dela prostitui o espírito; aquele adora o espírito e a ele
submete a matéria. O evoluído, que conquistou o conhecimento, sacrifica o
valor menor ao maior; o involuído, que ainda não adquiriu compreensão e vive de
ilusões, sacrifica o valor maior ao menor. Dessa psicologia se infere que o
primeiro da- toda a importância aos valores morais, geralmente menoscabados, e
muito pouca aos valores econômicos, em geral elevados às nuvens. A economia do
evoluído,. que referimos acima, é conseqüência também dessa psicologia, em
razão da qual ele, espontaneamente, dá à riqueza valor relativo e subordinado,
em lugar de valor principal; se deve administrá-la, administra-a porque é seu
dever e não por apegar-se-lhe avidamente e, quando e se pode, livra-se delas,
antepondo-lhes o estado de pobreza protegido apenas pelas forças da Divina
Providência. É lógico que, no mesmo campo em que o involuído, diametralmente
oposto, representa a máxima afirmação, o evoluído deva representar a negação
máxima, e ao contrário. Por causa do natural antagonismo das duas posições, uma
exclui a outra e tende a tudo absorver. Ninguém pode servir a dois senhores ao
mesmo tempo. Há uma lei que diz: naturalmente, quem cuida das coisas
espirituais não pode mais ocupar-se das coisas materiais, porque não as quer
mais e até mesmo lhes tem repugnância; e quem trata das coisas da matéria se
absorve de tal modo nelas que fica surdo às do espírito. Daí se deduz que, como
o homem do mundo tende a desinteressar-se das coisas do espírito, isto é, tende
à amoralidade, o homem do espírito tende a desinteressar-se das coisas da
matéria ou, seja, tende para a pobreza. Porque os dois extremos são inversos e
rivais, parece impossível, sem a correspondente pobreza espiritual, atingir-se
à riqueza material e, sem a correspondente pobreza material, atingir-se à
riqueza espiritual.
Trata-se de dois mundos diferentes,
cujas leis já analisamos, de dois métodos de vida, de dois sistemas, que uma
vez escolhidos nos arrastam fatalmente, na lógica de sua estrutura, até às suas
últimas conseqüências O sistema em vigor da riqueza obtida pelo método da força
tem como conseqüência imediata a incerteza dos resultados. De fato, no mundo
econômico as crises são contínuas e, segundo parece, irremediáveis. A conclusão
daquele sistema é absolutamente negativa, de modo a podermos dizer que a
pobreza é, neste mundo, a única forma de riqueza segura. A instabilidade e o
risco participam do sistema e não podem ser eliminados senão destruindo o
próprio sistema. Outra conseqüência é a conexão entre a riqueza e o emprego da
força. A instabilidade requer defesa contínua, isto é, luta, guerra. Mesmo sob
este outro aspecto a conclusão do sistema é negativa, quer dizer, não pode
existir paz na riqueza, mas apenas na pobreza. Todo desenvolvimento econômico
importa aumento de bem-estar, em exuberância vital, que desemboca nos
expansionismos imperialistas; em outras palavras, toda aquisição de riqueza
apenas serve para alimentar novas cobiças, para despertar a insaciabilidade
humana. O sistema de forças termina sempre em guerra e destruição, que
reequilibra o processo desequilibrado. Essa é a nêmese1
das conquistas terrenas: crescer para devorar-se. É a mesma nêmese que
vimos no mal, de que elas se mancham: a auto-destruição. Ai de quem constrói sem
equilíbrio e com injustiça. Cava diante de si mesmo o abismo em que se precipitará.
Tal é a fase, cheia de erros e de dores, de quem na terra ainda deve aprender.
Se essa fase, porém, se torna
necessária para os primitivos de hoje em dia, o evoluído não pode adotar esse
sistema. Ele, que superou essa espécie de prova e, tendo-lhe assimilado os
resultados, desfez a ilusão, não pode acreditar mais em riqueza que se pode
perder, que é pretexto de lutas contínuas e, para terminar em traição, envilece
e sacrifica só para si, roubando as melhores energias vitais ao mundo
espiritual. Toda a atenção da alma do evoluído prende-se a coisas bem
diferentes; sua luta e sua atividade criadora se desenvolvem em plano mais
elevado, acima do campo das competições humanas. Não pode cansar-se em
competição para ele já improfícua; não pode gastar-se mais para proteger
riqueza que já não lhe interessa; seu instinto leva-o, pois, a abandoná-la. Não
é só, porém. O evoluído é impelido a detestar essa forma de atividade humana
por que se podem sacrificar, e se sacrificam, os mais altos valores espirituais.
Nasce-lhe, desse modo, não só o senso de indiferença, mas também o de
repugnância pela causa de tantos males. Nas mãos do homem moderno o poder da
riqueza logo se torna guerra e, por isso, destruição; se torna ódio e delito e
se funde com as forças do mal. Então, o evoluído se rebela e, ao invés de
participar na luta contra o homem para conquista da riqueza, faz guerra à
riqueza a fim de conquistar mais altos valores humanos. Os bens da terra são,
no entanto, dádivas de Deus. A riqueza é grande força, mas o homem conspurca-a
e isso a inutiliza. O mau uso que muitas vezes dela se faz, o modo com que a
empregam, os fins para que se dirige, o mal, o ódio e, portanto, as dores que
se lhe ligam, tornam-na um dano que o evoluído deve evitar e não uma vantagem
de que possa utilizar-se. Ele toca, por isso, o menos que pode nos bens da
terra. Retira-se, pois, com repugnância dessa afirmação de ferocidade para conquista
da riqueza e refugia-se na pobreza. Isso não significa desprezo dos bens de
Deus nem desconhecimento do valor dos meios materiais e do rendimento que
poderiam dar, se fossem manipulados com maior sabedoria. É, isso sim, terror do
involuído, da baixa psicologia com que ele dirige a própria atividade e
contamina tudo aquilo em que põe as mãos. A riqueza pertence ao involuído,
diz-lhe respeito, é sua. Isso basta para torná-la inaceitável. O homem a relaciona
com as forças mais baixas da vida e, assim, ela satura-se de mal. Tanto basta
para torná-la detestável. Trata-se de sensibilidade espiritual, isto é, depende
do Deus que adoramos no degrau mais alto da própria escala de valores. Quem
venera as coisas do espírito não pode suportar mais nada que por qualquer motivo
as ofenda.
Por esses motivos o evoluído prefere a
sua economia à do involuído, mais em voga. Levamos em consideração neste livro
os dois casos extremos, entre os quais se coloca o caso intermediário do
administrador e organizador honesto, que da riqueza usa e não abusa, e não a
transforma em mal, mas em bem. Esse tipo, porém, ainda não é tão numeroso que
possa ditar lei e tomar as rédeas da economia humana que, no conjunto, é aquela
acima descrita. Essa é a revolta pacífica do evoluído, de acordo com o método
evangélico da não-reação. Despreza quanto pode a riqueza, embora compreenda e
admire aqueles que, imbuídos do espírito de pobreza e de honestidade, a
empregam para o bem e não a possuem para vantagem e desfrutamento egoísticos,
mas para cumprimento de função social ou missão. O evoluído muitas vezes até
mesmo se mistura com eles, mas toca na riqueza apenas por sentimento de dever,
como peso que se carrega por amor de objetivos mais altos e com absoluto
desprendimento e desinteresse. Essa atitude é tudo quanto precisamente o
distingue dos demais. Enquanto estes, geralmente, procuram avidamente a riqueza
como fim em si mesma, o evoluído não a busca e, se acontece possuí-la, a
transforma em meio e a emprega em finalidades mais altas. A terra e seus bens
não se lhe apresentam sob a forma positiva de atração, mas sob a forma negativa
de repulsão; para si, o mundo não é mais lugar de conquista e de alegria, mas
de dor e trabalho missionário. Tudo quanto não se refere ao espírito não lhe
interessa, porque vive em função do espírito e não em função da matéria. E
para o evoluído representa vitória aquela mesma pobreza que causa medo ao
involuído e se lhe apresenta como derrota. A seus olhos essa pobreza assume
significado afirmativo e criador, sensação triunfal de alforria e poder,
torna-se escola de dominação, campo de exercícios heróicos. O espírito
nutre-se dessas anulações na matéria; isso é lógico quando se trata de processo
de aniquilamento. Por isso podemos assim balizar a sucessão desses momentos:
"empobrecer, sofrer, refletir; compreender, reconstruir, progredir".
Assim os equilíbrios da Lei corrigem os excessos humanos na vitória da matéria,
invertendo as posições com a derrota material, de que nasce a vitória no
espírito. Este, na pobreza dos meios terrenos, enriquece. O evoluído percebe
esse fenômeno, adquire esse senso de enriquecimento e não liga mais à imagem da
pobreza a sensação de derrota, mas de conquista, nem a de mal-estar, mas a de
bem-estar. O Evangelho baseia-se na lógica dessas inversões, que parece
desapiedada e terrível, mas que é, na verdade, simples e natural. Se,
considerando-se o que o homem tem sido até hoje, toda posse mais ou menos
impõe a necessidade da guerra, torna-se evidente não poder possuir coisa alguma
quem, de acordo com o Evangelho, proclama o amor ao próximo. Essa é a lógica do
sistema, que de modo algum podemos negar. E o próprio Evangelho nos mostra, na
pobreza, as conclusões derivadas dessas suas premissas. Entre Cristo e o mundo
não há possibilidade de acordos. Os dois sistemas são opostos e reciprocamente
incompatíveis. Ou um ou outro. O espírito (o evoluído) está colocado num
extremo da vida humana; o mundo (involuído), no outro. O primeiro quer vencer o
segundo. Recusa qualquer coisa em comum, nada aceita em comum, quer e deve ser
pobre. Mas essa pobreza não é miséria, mas rebelião dos ricos de espírito
contra a miséria moral dos outros, pelo menos enquanto e até onde a riqueza
não for guiada pela sabedoria. O verdadeiro amor evangélico não pode permanecer
egoisticamente rico enquanto houver miséria. Quem não compreendeu e escolheu
essa pobreza não pode ser verdadeiro sacerdote do espírito.
Disso tudo se pode concluir também que
o problema da riqueza não é apenas, como hoje se crê, distributivo, nem se o
entendermos desse modo, deixa intactas todas as cobiças humanas, que são as
verdadeiras raízes do dano; nem se resolve no plano econômico, em que hoje se
coloca, e sim no plano psicológico e moral. Não basta o advento da justiça
social pela qual tanto lutamos em nossos dias. Torna-se necessário construir
também o homem. Á solução consiste em conquistar a consciência que nos leve a
fazer bom uso da riqueza, transformando-a de mal, a que se reduziu, em bem.
Enquanto não chegar esse dia, o evoluído poderá dizer: não aceito, não me
interessa, recuso o bem que vocês envenenaram. Repilo a forma de luta que
vocês adotaram e nos degrada. Para o evoluído a pobreza franciscana, ao invés
de utópica, representa dura conseqüência da conduta humana. não é atitude
negativa, mas atitude de vigilante espera; não é definitiva, mas transitória e
será superada quando, como todas as fases, sua função estiver esgotada e a
evolução torná-la desnecessária. Então, a riqueza, restituída à sua pureza, se
tornará aceitável exatamente como aquilo que exatamente é, quer dizer, como
dádiva de Deus.
Tudo isso pode causar espanto ao homem
do nosso mundo, que não percebe o valor das coisas do espírito com, a mesma
intensidade com que a sente o evoluído. Para este último, porém, a vida assume
significado bem diferente. Sente, sem sombra de dúvida, o perfume da pobreza a
impregnar todas as coisas em que toca. Percebe a beleza moral dessa pobreza,
simples, honesta, laboriosa, confiante e tranqüila, não dessa pobreza colérica
e envenenada do mau, mas dessa agradecida pobreza do justo. Em suas mãos ela
espiritualiza-se e aureola-se de bondade e fé, que a transformam em
instrumento de ascensão. Desse modo a pobreza quase se santifica e chama para
junto de si a presença de Deus. Então, quem perdeu tudo percebe que, de fato,
ganhou tudo e o paraíso desce até si. E como quanto mais se dá mais se recebe,
a pobreza torna-se, então, meio de enriquecimento; do mesmo modo, nas mãos do
involuído a riqueza pode tornar-se meio de empobrecimento. E agora, aquela que
para o mundo significa miséria, podo tornar-se beatitude, como o era para São
Francisco. Não nos podemos doutro modo explicar-lhe a psicologia. Poder-se-ia
objetar que é censurável deixar de lado a administração da riqueza, que no
entanto, como produtora de bens, tanto poderia frutificar. Não. Cada um em seu
lugar A esse trabalho já se destinam os honestos administradores da terra (o
homem do 2º tipo) e esse trabalho lhes toca. Têm a função de reordenar o ambiente
terrestre e exatamente por isso é que são organizadores de coisas humanas. O
paraíso na terra constitui-lhes a meta e procuram laboriosamente prepará-lo.
Mas o evoluído (o homem do 3º tipo)
deve desempenhar função mais alta: dar a esse trabalho a orientação necessária.
É precursor que intui, dá as grandes diretrizes do espírito e indica-lhe
objetivos sobre-humanos. Os olhos dos primeiros são analíticos e míopes, aptos
a verem as coisas próximas da terra; os dos últimos são sintéticos, enxergam
longe e podem ver as longínquas coisas celestes O objetivo final dos primeiros
está na terra e aqui o alcançarão, transformando-a de inferno em paraíso. O
objetivo final dos últimos está co1ocado no céu e o conquistarão, afastando-se
da terra para caminhar em direção a humanidades mais evoluídas, a pessoas de
sua raça.
Tudo isso pode causar estranheza ao
homem de nosso mundo. Mas este último é o termo derradeiro, o caso máximo.
Trata-se de homem que compreendeu e vê o funcionamento da economia da natureza,
sabe que a vida é protegida e a Lei de Deus o segue passo a passo para
salvá-lo; sabe que a defesa não é confiada a ele, mas àquela Lei todo-poderosa.
Sabe que ela é boa e perfeita. Adquirida a consciência de estado de fato tão
maravilhoso, de sua vida desaparece toda sensação de temor, que envenena as
efêmeras vitórias humanas da força Ele sabe que será provido, pois a Divina
Providência é apenas um momento de todo o sistema de economia do universo, em
que toda vida, em razão do que ela custa, não pode ser desperdiçada, mas deve
ser utilizada em favor de finalidade adequada. Sabe que lhe basta enquadrar-se
no grande organismo, obedecer à Lei, desempenhar dentro dele a própria função,
fazer sua a vontade de Deus, para viver em paz e em segurança. Quem o observa
só por fora, julga-o pobre e se engana, porque se o visse por dentro, haveria
de compreender que é imensamente rico; rico porque não possui mais os bens na
periferia tempestuosa, sob forma caduca, mal protegidos pelas garantias
humanas, mas os possui no centro, em substância, seguros, lá onde eles com
justiça emanam do poder de Deus.
Quando chegamos a esse plano, divina
beleza ilumina e aquece interiormente até o ato mais humilde da vida. Tudo se
torna, então, meio para comunicação com Deus; tudo quanto obtemos nos vem de
Suas mãos, até a esmola mais insignificante assume as proporções de presente
principesco feito pelo Senhor, presente que nos fala d'Ele; qualquer ação
nossa não se motiva em nossa vontade, e sim na de Deus O homem desse modo se
sente circundado de luz e ouve o universo responder aos próprios anseios.
Grandíssima experiência. Tudo quanto lhe chega às mãos vem por meio de
caminhos tão elevados que se transforma completamente, assume o valor de
presente divino. Então, até um pedacinho de pão assume o aspecto de prodígio,
adquire o sabor das grandes coisas da eternidade e do espírito, se torna
excelente porque o amor de Deus o tempera com a paz de espírito paradisíaca.
Todas as coisas parecem desmaterializar-se em significados profundos e o mundo
transformar-se em paraíso. Poder-se-á sorrir amargamente, levando tudo isso à
conta de poesia e sonho. Não. Esse é o espírito do Evangelho; não poderemos
compreender esse espírito, se não houvermos também entendido tudo isso. É
milagrosa essa transformação a que ninguém poderá chegar sem que primeiro a si
mesmo se transforme; e, no entanto, trata-se de felicidade que muitos seres
superiores conseguiram.
Tudo isso, porém, não é apenas
supremamente belo, vitória da estética moral, mas também afirmação de poder espiritual.
Atrás de toda aquisição, conseguida pelo sistema em voga, está a força ou a
astúcia, muitas vezes a própria avidez e o dano do que foi vencido, e por isso
a destruição e o ódio. assim também, por trás de toda aquisição conseguida por
esse outro sistema está a honestidade, a bondade, a justiça e, por isso, paz e
amor. Atrás de qualquer aquisição aparece a figura de Deus e palpita a Lei
protetora que amorosamente aumenta as dádivas da vida. Das alturas celestes
Deus desce até nós e torna-se nosso companheiro e ajuda-nos em nossas
necessidades. Manifesta-se, então, presente e ativo em tudo quanto está dentro
e fora de nós. Sua Lei nos fala e trabalha por nós. O infinito desce à nossa relatividade,
que desse modo adquire sentido de eternidade e de absoluto. Toda a nossa vida,
como conseqüência, se eleva e aumenta de poder. Torna-se ação humilde em que
ressoa o pensamento de Deus e se cumpre a Sua vontade. Essa vida humilde,
transformando-se de rebeldia em função, se harmoniza no funcionamento orgânico
do universo; nele essa vida não é mais a ação isolada de rebelde, mas fato relacionado
com dinamismo esgotado, com o qual se comunica, dando e recebendo. Nossa vida
pode atingir, então, as imensas fontes de energia e de sabedoria que outra coisa
não querem senão entregar-se. Apenas nos tornemos dignos delas, Deus nos
aumenta de súbito o poder, de cuja conquista o verdadeiro caminho é o
merecimento. Isso de acordo com a lei de justiça e como parte da economia da
natureza que quer a todo valor renda, quando tiver sido verdadeiramente
conquistado. Não há poder humano que iguale esse poder. Eis a grande defesa do
evoluído que se reduz à pobreza e abandona as armas de ataque e defesa: ter
Deus consigo. Então se torna imenso. Nossa respiração reproduz a do universo,
com a qual se confunde. Que importa, pois, que por fora sejamos pobres, se por
dentro somos ricos? Quanto mais pobres são esses que, ricos por fora, por
dentro nada possuem! Quando somos vazios, permanecemos insatisfeitos em meio a
seja qual for a riqueza; quando, porém, estamos plenos da graça divina, em
meio à miséria mais completa nos sentimos abastados e satisfeitos. Eis a
perfeita alegria franciscana, concedida apenas aos ricos de espírito.
Esse conceito e essa posição da vida
finalmente nos aparece sob o aspecto utilitário. Desse modo, a vida adquire alcance
imenso, que toca as fronteiras da eternidade, torna-se interminável sucessão de
conquistas, de felicidade crescente, de contínua ascensão em resposta ao
chamamento divino. Mas, querendo limitar a vantagem às necessidades materiais,
eis a Divina Providência pronta a ajudar, desde que haja merecimento e
necessidade. São essas as duas condições fundamentais de seu funcionamento. O
evoluído, que compreendeu a lei do fenômeno, não lhe deposita confiança
inutilmente, porque tudo obtém com segurança. Sabe que, em face do merecimento
e da necessidade, o homem faz jus ao auxílio, ato da justiça divina com que o
justo pode e deve contar. Por isso, obtém por direito e por justiça e não a
título de esmola imerecida. Por isso não é a pobreza, mas apenas a baixeza, que
arranca do homem a dignidade de filho do Pai. A generosidade da Providência,
mesmo assumindo a forma de esmola, sempre constitui comunhão da alma com Deus
e, por meio dela, o benfeitor humano eleva-se ao papel honroso de instrumento
de Deus.
Em nossos dias torna-se muito difícil
fazer com que compreendam o sentido sutil dessas vantagens imateriais. No entanto,
até mesmo em relação aos efeitos da estabilidade e duração, da segurança e gozo
pacífico, não é indiferente que as nossas aquisições sejam ou não dádiva de
Deus e os nossos bens se elevem na força ou na injustiça, estejam saturados de
ódio ou de amor. Se impregnarmos a riqueza com as forças do mal, estará como
vimos relativamente ao mal, fatalmente condenada. A grande revolução consiste
em substituir a revolta pela obediência à Lei, a desordem pela ordem, o
desequilíbrio pelo equilíbrio, os choques estúpidos e dolorosos pela harmonia e
pela lógica. Essas afirmações espirituais são comuns à vida prática, em que
repercutem. A solução dos males que atormentam nosso mundo não vamos, é
lógico, encontrá-la no retorno aos esquemas do passado, impotentes para
solucioná-los, conforme bastantes vezes verificamos experimentalmente.
Torna-se necessário basearmo-nos em princípios diferentes, que se encontram
nos antípodas dos precedentes e fazê-los aterrar com métodos totalmente
diferentes dos atuais. Nisso consiste a nova civilização do espírito. Trata-se
de adquirir consciência da Lei, para em seguida enquadrar-se nela e agir de
acordo com ela. Trata-se de incorporar em nós mesmos o senso da Lei. Não basta
explicá-la; é necessário que nos coloquemos em condições de senti-la. A razão é
formação primária, exterior, de superfície e não satisfaz. A consciência é
formação mais profunda, interior, que não faz cálculos, mas intui e sente.
Essa consciência adquire-se com a dor. De outro modo não se pode construir, em
sistema de liberdade e experimentação, isto é, de possibilidade de erro e, por
isso, de dor. Não basta explicar e compreender racionalmente. A custa de muito
trabalho é que conseguimos nossa própria maturação, porque nada se obtém senão
através do sofrimento. Só assim o homem pode passar da fase de involuído à de
evoluído, da posição de inconsciente à de consciente. Então, compreende que a
vida tem elevadíssimos objetivos e ele, exatamente pelo fato de que existe para
atingi-los, tem direito à vida. Compreende, agora, aquilo que hoje, confiando
em si mesmo, demonstra nem sequer imaginar, isto é, que, por força da própria
estrutura teleológica de todo o sistema do universo, sua vida deve ser
necessariamente protegida.
XIII
PROBLEMAS ÚLTIMOS
Temos verificado
quanto a economia do evoluído é mais lógica, segura e perfeita que a do
involuído. A sabedoria do Evangelho confirma-nos plenamente a tese. Diz-nos
ele: "Não acumuleis tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os
consomem e os ladrões os desenterram e roubam; acumulai, ao invés, tesouros no
Céu, onde nem a ferrugem nem a traça os consomem e os ladrões não os
desenterram nem roubam. Porque onde está teu tesouro, ai está também teu
coração". (Mateus, 6: 19-21). Os dois mundos, o material do involuído e o
espiritual do evoluído, ficam nitidamente contrapostos; e a oposição se
estabelece colocando-os exatamente no plano utilitário, que mostra a incerteza
das coisas humanas e a segurança existente nas do espírito. E tudo isso para
mostrar, com finalidades educativas, as conseqüências da escolha humana, por força das quais cada
um de nós tem exatamente a mesma sorte do mundo a que se ligou, ao acumular o
seu tesouro. Quem se baseia em coisas que caducam cairá com elas; e apenas
quem construiu em cima da rocha resistirá. O trabalho da evolução consiste na
substituição do pior pelo melhor, na conquista de valores mais seguros e
preciosos. Assim, quando São Francisco combate a riqueza com a pobreza e em seu
testamento aconselha, quando o pagamento do próprio trabalho for negado, a recorrer
à mesa do Senhor, pedindo esmola de porta em porta, São Francisco não vê o
lado negativo do esmolar, mas o lado positivo e criador, isto é, não vê o
aspecto miséria, mas apenas o aspecto riqueza.
Trata-se de abandonar valores menores para conseguir valores maiores, de mudança
total de princípios, de substituição de mundos. Trata-se, aí onde todos exigem
compensação, de pedir como pagamento apenas um ato de bondade. Se de um lado se
transforma riqueza em pobreza, também ao mesmo tempo o ódio se transforma em
amor, a guerra em paz e, na procura dos bens, o método humano da força se
transforma no método da bondade e da fraternidade, isto é, manifestações de
avidez e fastio acabam em atos de humildade de quem recebe e bondade a quem
dá. Assim, a esmola filha da generosidade substitui a riqueza filha do furto.
Como será possível, doutro modo, implantar o senso o amor fraterno no campo
econômico, que é o das competições mais ferozes? De que maneira, senão essa, se
há de corrigir todo o mal que se faz para conseguir riqueza e reabsorver o
veneno com que o homem a satura? De que modo contrabalançar tão desenfreado
egoísmo senão com altruísmo igualmente desenfreado? Se esse caráter da esmola
pode ser desfigurado e, ela mesma, reduzida a preguiça e a desfrutamento, isso
nos ensina que neste mundo tudo se pode falsificar e transformar em abuso. O
princípio franciscano quer, ao invés, introduzir o amor evangélico até mesmo
nos atos da vida econômica, aparentemente os mais afastados de nós, até mesmo
aí onde parece menos aplicável. Trata-se de violência feita contra as leis
econômicas, de refreamento do instinto de ataque em favor da conquista de
riquezas espirituais. Por essas razões, a fatigante e ansiosa fórmula moderna:
"tempo é dinheiro",
princípio que prende e se escraviza à matéria, essa fórmula ó substituída pelo
princípio que libera o espírito com a fórmula: "Si vis perfectus esse, vade vende universa[9]".
Quando chega a esse ponto, o homem
finalmente descobre o segredo da felicidade. E todo o segredo consiste em,
como fazia São Francisco, substituir a imperfeita economia humana pela perfeita
economia da natureza ou, seja, em saber manejar as forças vitais de acordo com
a vontade de Deus e não conforme a do homem, isto é, em não agir contra a Lei,
mas em conformidade com ela. Isso significa trabalhar do lado do bem,
afirmativo e construtivo, e não do lado do mal, negativo e destruidor. Viver em
harmonia com Deus significa construir a si mesmo e à própria felicidade. Viver
em desarmonia com Deus e revoltado contra Ele: significa autodestruir-se e
criar a própria dor. De acordo com a Lei de dualidade, cujo estudo
aprofundaremos no fim deste volume, o universo é bipolar, cortado e reunido
nessas duas partes opostas, inversas e complementares. As correntes de força
que o constituem são de dois tipos de natureza contrária. Trata-se de dois
dinamismos opostos, que, se aparentemente se excluem, na verdade se somam, e,
se parecem entrechocar-se, na realidade colaboram. O homem pode escolher a
corrente positiva, ascensional, que progride em direção ao bem e à alegria, ou
a corrente negativa, descendente, que retrocede para o mal e a dor. Por mais
que o homem se projete para fora de si mesmo, de fato sempre trabalha em
proveito próprio. Se ele desencadear as forças do mal, embora crendo fazê-lo
contra outros, desencadeá-las-á em sua própria direção, contra si mesmo Então, com as próprias mãos construirá triste
destino para si, maculará o próprio ser, envenenará cada vez mais a própria vida;
e, perseguido por seu passado, lhe será cada vez mais difícil parar e
finalmente se precipitará no abismo da autodestruição. Assim, o malvado, que
preferiu regredir, por si mesmo se liquida no tormento do inferno. Agora não
estamos mais falando, como fizemos, do involuído como primitivo ainda não
desenvolvido, inferior apenas no que diz respeito à sua natural posição na
escala evolutiva e não porque a maldade o tivesse degradado; estamos falando é
de quem se tornou involuído porque espontaneamente regrediu e por isso é muito
mais culpado; estamos falando do homem que não é mais besta, mas deseja
continuar sendo besta. Quer dizer, trata-se do caso, muito mais raro, do
malvado típico. Este se separou e cada vez mais se afasta das fontes da vida,
de Deus e, como não pode sobreviver sem Deus, definha e morre. Morte
verdadeira, morte desesperada. Contudo, isso é lógico. Se o homem é livre o
suficiente para construir o próprio destino, todavia não pode nem é livre ao
ponto de tornar-se capaz de destruir a Lei, de tornar-se árbitro da vontade
de Deus. Se pode escolher, e até mesmo escolhe, o caminho do mal, isso é
assunto particular seu e não pode impedir a atuação da Lei que ele não pode
dominar. As conseqüências de seu modo de agir somente recairão sobre si mesmo,
enquanto ele, no fundo, continuará sempre a obedecer aos princípios vitais e a
servir o bem. Apenas para si mesmo pode semear desordem, alimentar o mal;
apenas para a Lei pode ele trabalhar em sentido destrutivo. O mal não possui o
poder de destruir o bem, mas apenas o de destruir a si mesmo. É absurdo que a
negação se afirme, vencendo; portanto, também é absurdo que se conceda ao malvado
o afirmar-se vencendo o bem, e não apenas o demolir-se a si mesmo. Quando no
harmônico dinamismo universal se forma esse turbilhão de impulsos
desordenados, então as forças vitais, disciplinadas e compactas, cercam e
isolam o campo de forças que lhes é contrário e não descansam enquanto não o
eliminam, enquanto o campo rebelde não é por elas pacificado ou aniquilado. Ao
passo que, para quem está em seu interior, o sistema é protetor, assume caráter
ofensivo para quem dele foi expulso. Como acontece no organismo físico, antes
de mais nada as forças defensivas tendem a eliminar a falha por meio da reação
e a curar o mal com o remédio da dor. Se isso não for possível, não ajudam
mais, ausentam-se dessa forma de vida e, indiferentes ou inimigas, abandonam o
ser ao aniquilamento. No que diz respeito ao rebelde, a reação da Lei é
negativa e consiste em afastá-lo das fontes da vida. A transgressão produz a
contração automática das forças do sistema e dele expulsa o rebelde. Assim,
repudiado pela vida, torna-se ele abandonado fora-da-lei, a quem nada mais
resta senão desagregar-se e morrer. Deus nega-se aos malvados que o negam e,
crendo negar a Deus, se negam a si mesmos.
Pelo contrário, quem se lançou e fundiu
na corrente oposta será temporariamente atormentado pelo mal, mas o caminho por
ele escolhido o leva natural e fatalmente em direção à felicidade; enquanto
isso, o malvado poderá ser feliz por algum tempo, mas seu caminho desemboca
natural e fatalmente na dor. As duas posições são inversas. Para o bom, a dor
constitui a exceção transitória, a alegria é a meta e a regra geral. Para o
malvado, a alegria significa exceção transitória e a dor representa a meta e a
regra geral. O justo, embora à custa de fadigas, constrói para si feliz
destino; embora sofrendo, eleva-se rumo ao bem, constrói no seio de Deus. Está
preso às fontes da vida e, quanto mais progride, mais se lhes avizinha, nelas se
nutre e assim vive de modo cada vez mais intenso. Como as forças do sistema
fecham as portas e expulsam o rebelde, assim também as abrem para quem colabora
com elas; admitem-no em seu seio, confiam-lhe funções e poderes, põem-lhe à
disposição os seus próprios tesouros e cumulam-no de bens. O primeiro é
abandonado; o segundo, nutrido; o primeiro é expulso; o segundo, admitido
naquela comunhão, chamada Divina Providência, em que se encontram as fontes da
vida e a economia da natureza. Tudo isso até que ele vença o mal, a dor, a
morte. Assim, enquanto o malvado se precipita na autodestruição, o bom ascende
para a imortalidade. Então, o homem se anula, mas em outro abismo; o anulamento
se verifica da mesma forma, porém em sentido inverso, isto é, não mais como
morte, mas como vida, não por autodestruição, mas por fusão na divindade. Os
dois anulamentos se verificam nos dois extremos opostos do ser, nos antípodas
do binômio do universo. Assim, todas as forças do mal serão autodestruídas e
todas as forças do bem haverão retornado a Deus. Todos terão atingido a meta
que desejaram e. os impulsos, livremente desencadeados pelos seres, terão concluído
a sua trajetória. E, uma vez que os princípios estabelecidos por Deus
produziram efeito, o imenso oceano do dinamismo universal repousará tranqüilo,
até que, com novo desequilíbrio gerador (como a luta entre o bem e o mal),
depois da fase de repouso e paz, isto é, de dinamismo em repouso ou latente (o
mal absorvido pelo bem), até que o motor-não-movido inicie nova fase de
atividade e luta, quer dizer, de dinamismo atual.
Todo o universo gravita em redor de
Deus e aos poucos acabamos por nos fundir n'Ele, se escolhemos o caminho da
ascensão. Por outro lado, se escolhemos o caminho que desce, apenas podemos
acabar na destruição, porque nos afastamos de Deus, única fonte de vida. O
homem que involui despedaça os vínculos vitais que o ligam ao divino; o homem
que evolui os estreita e reforça. Este caminha em direção da luz, aquele se
precipita nas trevas; o primeiro aproxima-se do centro do sistema de forças,
que é também o centro do poder e da vida; o segundo afasta-se do centro para a
periferia, onde há exaustão e morte. Um se dirige para o conhecimento; o outro,
para a ignorância. A ascensão significa construção de consciência; a queda
destruição de consciência. A consciência conduz à ordem, à adesão à Lei; a
inconsciência conduz à desordem, isto é, à rebelião. O livre arbítrio
representa a fase da formação da consciência e, portanto, fase de transição,
que existe para ser superada apenas se atinja o objetivo. Ou o mal se
transforma em bem ou se destrói. Assim, a liberdade ou finalmente adere e
obedece à Lei ou o rebelde acaba sendo eliminado por autodestruição, tão logo
termina a experiência que lhe motivou a concessão, porque necessária à livre
formação de consciência. Em suma: há unicamente um senhor, Deus - o bem; e,
não obstante a liberdade, só se torna possível seguir este caminho, o que vai a
Ele, caminho que é também o da felicidade. A liberdade humana, relativa e
limitada, não pode, pois, ultrapassar os limites impostos ao homem para seu
próprio bem; instrumento formador de consciência, a liberdade deve agir nesse
sentido ao invés de desmandar-se em atitudes de inconscientes e desordenar a
ordem das coisas. Essa liberdade enquadra-se e canaliza-se de tal modo que ou
caminha em direção a seu objetivo ou se destrói. Quem regride para a
inconsciência perde a faculdade de compreender e perde, ao mesmo tempo, a
liberdade Quem progride em direção à consciência também a perde, porém como
fusão na vontade da Lei.
Verificamos
repetir-se aqui, em relação à liberdade, o mesmo processo de anulamento que com
respeito ao indivíduo vimos anteriormente. No primeiro caso, o isolacionismo
egoísta dó ser isola-o das forças da vida; estas, percebendo esse princípio que
lhes é contrário, insurgem-se contra ele e, a fim de se livrarem dele e
expulsá-lo do sistema, rodeiam-no e cercam-no, envolvendo-o em envoltórios
cada vez mais densos e apertados, em que o comprimem até esmagá-lo; quer dizer:
o ser caminha rumo ao próprio aniquilamento por compressão; assim, a liberdade
se restringe cada vez mais até perder-se no determinismo da matéria. No segundo
caso, como o ser se liga altruisticamente com todas as coisas, funde-se também
com as forças da vida; estas, percebendo a manifestação do princípio que lhes
é próprio, deixam-se atrair por ele, amontoam-se-lhe em torno e circundam-no,
procurando livrá-lo dos invólucros da forma a fim de permitir-lhe expansão cada
vez maior; em resumo: o ser caminha para o próprio aniquilamento, mas por
expansão; assim, a liberdade se dilata cada vez mais em razão da consciência,
até perder-se na vontade da Lei. Para os conscientes, verdadeiramente existe
só uma liberdade, a de aderir consciente e espontaneamente à perfeição da Lei.
Quem compreender isso, naturalmente nada pode pedir de melhor do que querer em
uníssono com a vontade de Deus, nela fundindo e perdendo a própria vontade. A
vontade de Deus, aliás, será a sua porque a Lei representa o melhor, a maior
felicidade. A irresistível tendência dos seres à perfeição participa da
estrutura do sistema; o ser fatalmente segue essa tendência e a Lei
irresistivelmente o atrai porque ela representa a perfeição. Ao conceito dessa
perfeição não pode relacionar-se o de incerteza na escolha, mas apenas o de absoluto
determinismo. Percebe-se que a oscilação da vontade entre soluções diversas só
se torna possível em fase, de formação e não em estado final, de perfeição. Ao
mesmo tempo que o ser ascende para a plenitude da Lei, é natural também
ir-lhe a liberdade perdendo-se livremente, reabsorvida no determinismo da
perfeição. É lógico que quem compreendeu e encontrou o melhor apenas procure
fazê-lo atuar; é lógico que prefira a solução retilínea, a. resultante imediata
do máximo rendimento obtido com o mínimo emprego de meios; e a prefira à
oscilação de vontade incerta, porque não sabe, e que é capaz de perder-se na
ignorância e na imperfeição que a tornam descrente de si mesma, fazendo-a
entrever múltiplas soluções possíveis, quando sabemos que na perfeição não pode
nem deve existir senão uma: a melhor Percebe-se ser o livre arbítrio algo que
procura encontrar a perfeição; e faltar algo ao sistema da incerteza, que só no
sistema da certeza encontrará a sua perfeição. O livre arbítrio não passa de vacilante filho da cisão entre o
homem e Deus, cisão que a evolução faz desaparecer. A experimentação, de que
nasce o erro, por sua vez origem da dor, deriva necessariamente dessa cisão e
constitui o caminho da cura. A cisão tornou-nos cegos. Precisamos de, submetendo-nos
às provas e sofrendo, refazer a consciência perdida. Trevas, punição tremenda.
Mas a dor, situação natural de quem evolui e se redime, nos recoloca na
consciência e na luz. Na vida existem apenas dois caminhos: o involutivo e o
evolutivo. A unidade do universo é bipolar, sem exceção. Quem evolui na dor
cria a si mesmo; quem involui no prazer a si mesmo destrói. O caminho da
redenção é áspero, estreito e semeado de espinhos; o da perdição, suave, largo
e parece juncado de flores. A dor constrói a consciência, forma conquistada
pelo ser quando palmilha o caminho de retorno a Deus. O prazer destrói a
consciência e determina a inconsciência, forma assumida pelo ser no caminho que
se afasta de Deus.
Assim, sob duas formas opostas, a
liberdade se extingue num e noutro extremo da vida. O universo constitui
sistema perfeito e na perfeição não pode existir arbítrio; e muito menos o
sistema pode ser abandonado ao arbítrio do homem, fenômeno representativo de
função transitória, dirigida a objetivo certo, limitado e relativo a ele. O
homem que tanta liberdade proclama, muitas vezes se atira pelo caminho fácil da
queda na desordem; no entanto o áspero caminho da ascensão se situa na
disciplina,. na ordem. No dinamismo universal verificamos hoje a dissensão de
duas vontades diretivas rivais, que disputam o terreno: a vontade de Deus,
situada no íntimo e desejosa de instaurar o reino da justiça e do espírito, e a
vontade do homem, posta na superfície e tendente a estabelecer o reino da força
e da matéria. Deus e Satanás, Cristo e Anticristo se defrontam. Trata-se de
dois sistemas de forças, de antagonismo continuo e presente em todo ponto e em
todo momento, em todo ato e em .todo: fenômeno, antagonismo de que tudo está
impregnado. Já vimos o diferente poder dos dois sistemas e a conclusão a que
os levará a estrutura particular de cada um deles. O ser que ascende deve
eliminar a dissensão entre as duas vontades e desfazer a diferença nascida da
rebelião; deve, à custa de muita obediência, reequilibrar tanta desobediência;
deve agora executar, por sua conta, o trabalho da reabsorção da desordem pela
ordem, da liberdade pela disciplina; há de executar o trabalho de renunciar à
sua vontade egoísta a fim de perdê-la, fundindo-a na vontade da Lei. A princípio,
isso constitui esforço, mas depois é poder; parecerá limitação e derrota,
porém mais tarde significará expansão e vitória; a princípio não passará de
fatigante aceitação, mas finalmente há de ser espontânea fusão na vontade de
Deus. Então, o ser saboreará a alegria suprema da harmonização, nessa vontade
perceberá a perfeição suprema e, com alegria, nessa perfeição submergirá a
liberdade pessoal; nessa vontade viverá satisfeito e feliz, como quem atingiu
seu objetivo supremo; aí há de viver por adesão espontânea porque,.
conquistada a consciência, terá compreendido ser ela seu bem; e se sentirá cada
vez mais livre nessa obediência para ele vantajosa. Além da incerteza dos que,
embora não o conheçam bem, procuram o que lhes é verdadeiramente útil, que
significado tem a oscilação do livre arbítrio? E, quando o ser houver adquirido
consciência desse útil, como pode continuar escolhendo, oscilando, quer dizer,
vivendo na incerteza? O melhor pode ser apenas uma coisa só e, quando o
tivermos encontrado, nos impede a escolha. Aí, a grande cisão entre o homem e
Deus desaparece e a luta, filha da ignorância, se acalma. Então, o ser sabe
querer apenas o que Deus quer e isso lhe constitui a maior alegria. Já agora, todo
ser, tornado consciente, se torna instrumento voluntário da Lei e se funde no
seio de Deus, em harmonia e felicidade.
XIV
CONSEQÜÊNCIAS E APLICAÇÕES
No capítulo precedente destacamos o
fenômeno das ascensões humanas do fundo da dinâmica universal. Enquadrar os
fenômenos, reordenar o pensamento, disciplinar a ação constituem-nos a tarefa;
quer dizer: nossa tarefa é construir. Caminhemos, pois, em direção da ordem,
rumo a Deus; das duas estradas da vida, a involutiva e a evolutiva, sigamos a que
sobe. O sistema de forças do universo é, pois, bipolar, quer dizer, resultado
do contraste entre dois sistemas inversos: o sistema do espírito e o da
matéria. Ambos são deterministas, ou seja, o universo, sendo inteiramente
perfeito, apresenta completo determinismo nos seus dois termos componentes. Se
no sistema de Deus apenas perfeição pode existir, necessariamente não pode
haver senão determinismo. A liberdade existente no homem consiste somente na
possibilidade de escolha entre os dois sistemas. Estes, porém, se constituem
de tal modo que, escolhidos, envolvem o ser em suas espirais, o incluem em seu
sistema de forças, o prendem à sua lógica e tudo isso de modo a arrastá-lo até
às últimas conseqüências, até à plena realização do sistema, isto é, à plenitude
de vida em Deus, de um lado, e, de outro, à
autodestruição. Quem ascende tende sempre mais a substituir sua vontade
isolacionista pela divina vontade universal; quem regride é levado cada vez
mais a substituir a divina vontade universal por sua vontade isolacionista. O
primeiro cresce sempre mais e se agiganta; o segundo se comprime em si mesmo,
diminui e se asfixia. Mas em ambos os casos o estado de livre arbítrio tende a
anular-se, ou no determinismo do sistema do espírito, pela fusão consciente na
vontade de Deus, ou no determinismo do sistema da matéria, pela obediência
inconsciente do cego à vontade da Lei.
Antes de passar a outros argumentos,
vejamos alguns corolários do capítulo
precedente. A civilização materialista atual entra de novo no sistema de
forças da matéria. Seu termo final, implícito no sistema, é a autodestruição.
Tamanho progresso econômico e material deverá, pois, acabar fatalmente na
autodestruição, como aliás está acabando. As verdades que a ciência descobre
são certas, pois não passam de verdades da lei. Errada é, isto sim, a direção
seguida pela ciência nas pesquisas; errado, o método utilitário com que a
ciência as aplica. O pecado capital dessa ciência consiste em dirigir-se à
matéria ao invés de ao espírito, em querer substituir Deus pelo eu, em pôr-se
na posição de presumida independência da Lei e de revolta contra ela. Trata-se,
pois, de progresso às avessas, progresso que nega e, por isso, negativo. Depois
de tudo quanto dissemos, as conseqüências tornam-se evidentes. Esses sistemas
de forças nos tolhem completamente. O homem acredita realizar grandes
conquistas porque desvenda segredos da natureza e em seguida sabe
desfrutá-los. A posição da ordem fica nesse caso subvertida. O homem acredita
que desse modo acumula poderes e se torna senhor da vida. Não. Trata-se de
poderes de rebelde; apenas podem levar à autodestruição. O homem, hoje tão
orgulhoso de si mesmo, com essa ciência sem sabedoria não passa realmente de
elemento expulso do sistema de forças da Lei, de isolado, de abandonado por
Deus, de indivíduo posto fora das fontes vitais. Seu grande edifício lhe cairá
em cima, não porque deixe de ser grande e belo, mas apenas por causa da direção
errada em que o construíram. A lei, destruirá a ciência rebelde que a negou e a
civilização criada por essa ciência. Esse é o termo fatal do mundo de hoje. Por
isso, nova e verdadeira civilização somente das ruínas dele poderá nascer,
depois dele ser destruído, não podendo ter por fundamento senão princípios completamente
diferentes. Assim, a nova civilização do 3º
milênio poderá apenas ser a civilização do espírito.
Ainda podemos compreender algo mais. A
Lei reage contra quem a transgride, expulsando-o de seu sistema de forças
(aliás grandemente protegido para quem nele se refugia) e o transforma em
abandonado por Deus. Assim, o homem permanece fora, isolado, à mercê das forças
opostas ou, seja, do mal. Eis por que o erro e a culpa, significativos de
desordem contra Lei e, por isso, de expulsão e abandono, causam dor,
significativa de regressão. Nas páginas precedentes pudemos observar como e
por que a Lei reage, isto é, a forma e o motivo dessa reação de que antes não
se podia explicar a relação com a dor. A Lei, quando alguém a transgride,
expulsa da sua ordem e da sua ajuda o transgressor; nega-lhe tudo, o
conhecimento e o poder, a proteção e o alimento. Essa a razão por que todo
golpe contra a Lei constitui golpe que o rebelde inflige a si mesmo,
autopunição, dor por ele sofrida. Eis por que encontramos a dor no caminho da
involução, caminho de rebeldes. Eis por que desordem, rebelião, inconsciência,
erro, culpa, dor e queda se relacionam. O universo é criação contínua e se
mantém apenas em virtude dessa criação. Ela deriva de dinamismo central,
inserto na intimidade das coisas, profundamente ligado ao universo e a Deus, em
que se situam as fontes da vida. Tudo isso dá nascimento a sistema de forças
tendentes a reconstruir continuamente. Quem é posto fora desse sistema porque
se rebelou contra ele, ou não é mais alimentado por essas forças criadoras ou
ainda recebe pequena quantidade de alimento, isso quando não se rebelou completamente
e proporcionalmente à sua obediência residual. A verdade, porém, é que por esse
caminho o rebelde caminha para a morte. Eis por que o rebelde está
automaticamente condenado à autodestruição e com suas próprias mãos se colocou
fora da vida. Deus, a Lei, a Ordem significam vida; Satanás, a rebelião, a
desordem significam morte. Desse modo esgotamos a análise do problema do bem e
do mal, levando-o até à sua conclusão. Assim, observamos racionalmente, de um
lado as terríveis e automáticas conseqüências a cujo encontro vai quem escolhe
o caminho que se afasta de Deus e, doutro lado, como a verdadeira felicidade se
torna possível e nossa herança natural e de que modo essa felicidade apenas
pode residir na consciente e ativa obediência à Lei. Tudo se reduz a adquirir
a consciência dessa Lei e a superar a ignorância, tudo se reduz a compreender
coisa tão simples e lógica, no entanto, ou, seja, que Deus apenas pode querer,
e quer mesmo, nosso bem. Se o homem não fizer tão simples descoberta, todas as
maravilhosas descobertas científicas hão de submergir na destruição. O grande
mal, que nos engana e trai, consiste nessa ignorância, a iludir-nos com
miragens, mostrando-nos a felicidade na revolta, exatamente onde não está nem
pode estar. Em que se cifra o maior desejo do homem, senão na sua felicidade?
Qual o maior desejo de Deus, senão a felicidade do homem? Só a ignorância
humana a respeito do pensamento de Deus pode tornar divergentes duas vontades
que tendem ao mesmo objetivo. Se lutam, é exatamente porque desejam
ansiosamente abraçar-se e unir-se. Por isso vivemos na experimentação e na dor.
De fato, através de provas e mais provas, se adquire essa consciência em que
consiste a única solução do problema.
Apliquemos ao atual momento histórico
tudo quanto dissemos. Nossa civilização materialista, se considerarmos os
princípios que lhe deram origem e lhe dirigem o desenvolvimento, sofre agora o
inexorável processo final de autodestruição. Significa tentativa de instaurar
o reinado humano da matéria, sem e contra o reinado do espírito; de substituir
Deus pelo eu; de estabelecer ordem humana, em que só o homem dá ordens, em
lugar da ordem divina, em que, não o homem, mas apenas a Lei dirige. Foi ato de
revolta e agora vão-lhe sendo eliminados os resultados. Nessa fase a nota
dominante é a destruição causada pela guerra, com que a técnica, primeira
conquista da civilização, destrói a própria civilização. Isso é lógico e
fatal. Hoje Deus abandonou o homem ao destino que ele quis preparar para si
mesmo. Deus lhe diz: "Você pensou que sabia agir e quis agir sozinho.
Agora você vai fazer isso até o fim. Você é livre, mas responsável. Faça
experiência. Você há de compreender à sua custa". Hoje o homem está
perdido e abandonado no meio de cataclismos mundiais, em pleno oceano de forças
incompreensíveis para ele e sem a capacidade de conduzir-se deste ou daquele
modo. O poder que possui serve-lhe apenas para feri-lo. Parte da negação e da
dúvida e chega à inconsciência e à destruição. A dor constitui a primeira
conseqüência do sistema que se move em sentido involutivo, afastando-se das
fontes vitais. Essa dor, que acreditávamos saber dominar, acabou sendo o
verdadeiro resultado atingido; e a felicidade (tão seguros estávamos de
consegui-la!) transformou-se em miragem. A subversão do sistema produz
resultados contrários. Hoje as forças da Lei devolvem ao homem os golpes que
dele receberam. A dor, porém, não significa vingança de Deus, mas apenas
reação salvadora, dirigida pelo intento de reconduzir o homem à estrada que há
de levá-lo à felicidade. Como não compreendeu e não seguiu espontaneamente o
caminho certo e gozou da liberdade de experimentar o caminho errado, agora o
prendem e o obrigam a palmilhá-lo à viva força. A dor constitui espécie de
violência indireta contra sua liberdade; o determinismo da Lei, absolutamente
desejoso do bem, é que pelo bem do homem executa essa violência. E tentativa
honesta de salvamento com que, estamos vendo, antes de ausentar-se. completamente,
abandonando o rebelde à autodestruição, as forças do sistema continuam
presentes, mas sob forma negativa, e procuram, exatamente como dissemos, com a
reação sanar a falha e curar o mal pelo emprego do remédio da dor. Assim,
aquilo que à luz da psicologia corrente parece derrota e falimento constitui o
mais útil trabalho realizado neste ciclo histórico, pois representa a obra de
arrependimento, de retificação, de nascimento de consciência e sabedoria, obra
saneadora dos erros cometidos. Dor acabrunhadora, mas salutar, que nos tira do
caminho da autodestruição e nos impele ao caminho da construção. Estamos, pois,
vivendo um momento decisivo das teorias supra expostas. Poderíamos dizer que
hoje estamos vivendo o período corretivo, de retificação das posições
subvertidas pelo homem. Não podemos fazê-lo atuar senão através da subversão
total dos atuais valores dominantes. Tivemos hipertrofia de meios materiais e,
no bem-estar, atrofia do espírito; eis-nos, pois, nas posições inversas, quer
dizer, com pobreza de meios materiais e a dor que nutre e enriquece. Assim,
através da privação de tudo quanto anteriormente abundou, com poucos frutos no
sentido evolutivo, chegamos ao desenvolvimento de tudo quanto anteriormente
faltou, e isso com frutos para o progresso espiritual. Se quiséssemos definir
o tipo da nova civilização e o comparássemos com o atual, poderíamos chamá-la
civilização retificada. Tanto bastaria para que a imaginássemos. Essa
retificação descreve-a continuamente tudo quanto vimos dizendo nestas páginas.
Daí se vê não ser o homem, mas a Lei,
quem dirige a história e a vida. O homem agiu loucamente, transportando
desordem, mas a Lei sabiamente o reconduz à ordem. Hoje a realidade da vida
grita aos ouvidos do indivíduo, como aos dos povos, esta necessidade inelutável
e suprema: maceração na dor. A distinção humana entre vencedores e vencidos
não tem, quanto a isso, importância alguma. A ciência encarou o problema do
mundo material, mas ignora o do mundo espiritual; escapa-lhe o cálculo dessas
poderosas forças do imponderável que hoje golpeiam o homem. A erudição
contemporânea não basta para compreender o que está acontecendo ao mundo de
nossos dias. Descobrimos leis da natureza e dominamos algumas de suas forças,
mas fizemo-lo egoisticamente, estupidamente, contra a Lei, isto é, contra nós
mesmos. Quanto bem obteríamos, se houvéssemos sabido dirigi-las com
inteligência! Acima da loucura humana se coloca a sabedoria divina e agora nos
impõe a reconstrução do equilíbrio perturbado, imergindo-nos em ganho de
penitência. Na passagem se encontra a dor amiga para salvar-nos. Mas o homem
não lhe compreende a função e ainda se revolta, cada vez mais. Com essa
ilusória forma mental, sem preparo algum para a vida áspera das horas
apocalípticas, o homem está absolutamente fora do caminho. Colocou-se fora das
fontes espirituais do ser e falta-lhe o poder que sustenta os que sabem
atingi-las Em última análise, estamos no ponto mais baixo da onda histórica e
precisamos de percorrê-lo antes de podermos ascender novamente. Para o homem, a
verdade e a sabedoria estão além desse trajeto. É duro, mas devemos
percorrê-lo; chorando e sangrando, necessitamos chegar. O mundo acreditava
que, com seus métodos conceituais e materiais, podia organizar a felicidade em
série, em máquinas, e estava a ponto de atingi-la; no entanto, encontra-se em
face de realidade cruel e bem diferente: o poder de criar que a dor tem.
Alguns, todavia, compreendem, aceitam e ascendem. Constituem minoria sábia e
silenciosa, abafada pelas vozes dominantes. Muitos, porém, não compreendem,
continuam a rebelar-se, maldizem, reagem à dor por meio de novo mal e assim,
ao invés de se afastarem do redemoinho da regressão, cada vez mais afundam e
lhe aumentam o poder. Assim, os bons tornam-se melhores e os maus, piores; a
distância entre os dois aumenta, até se separarem completamente. Formarão dois
turbilhões de forças, um voltado para cima e outro para baixo. Este último
agarra o outro, procura prender-se-lhe para arrastá-lo ao fundo consigo, busca
despedaçá-lo a fim de aniquilá-lo; mas todo sistema contém em sua própria
natureza o termo final de sua trajetória. O princípio da ascensão, a amizade
com a Lei levarão os justos cada vez mais para cima, até à salvação, mesmo
através de obstáculos e provações; e farão os rebeldes se precipitarem cada vez
mais para baixo, até à autodestruição. O atual espírito de destruição parece
universal e poderá atingir a todos nós; mas, finalmente, terminará prejudicando
apenas quem o pôs em ação, acredita nele e o merece. Hoje Os homens podem escolher:
sobrevivência ou destruição. A dor impõe a solução da crise e o superamento da
fase. Os sábios transformam-na em instrumento de vida para si mesmos, os
estultos rebeldes transformam-na em instrumento de morte.
Este livro foi escrito em meio dessa
tempestade, nessa atmosfera apocalíptica, nessa hora trágica em que o mundo
desmorona e se recompõe. Não poderia nascer senão nesse terreno e nesse
momento. Enquanto o pensamento se inflama, a alma geme; os próximos
bombardeios põem vibrações no ar, as cidades se reduzem a escombros, a
civilização vacila, a propriedade torna-se insegura vivem somente na saudade
a segurança do lar e a vida civilizada. A morte passa e torna a passar por
perto, sem deter-se ainda. Deus desce até perto de nós e nos fala É o momento
sublime e terrível das grandes maturações. Cada vez mais o mal se encarniça e
se torna cego em orgia de ferocidade; e cada vez menos sabe o que faz; e o bem,
tranqüilo e tenaz, enquadra a desordem e, como sabe o que faz, espera e
modifica os resultados. As destruições da guerra são a força que o mal momentaneamente
aplica a serviço do bem. A Lei conclama os inferiores a funcionarem como
instrumento de dor. Mas a dor tem capacidade criadora e a sua atual presença
entre nós, e em proporção assim tão grande, prova a iminência e a amplitude da
transformação do mundo e constitui o precedente necessário para gerar nova
civilização. Nas mãos da Lei tudo isso se reduz a severa verificação e, em
seguida, a extraordinária progressão da vida rumo a futuro melhor. Contra todos
os negadores, o espírito, para explodir, faz pressão de dentro para fora. O
mal pode suicidar-se; não pode, porém, destruir o eterno e divino impulso
criador. Nossa hora exige renúncia, liberação e desenvolvimento. Ascensão,
através da dor.
Deus tira os bens das mãos de quem os
conquistou e não sabe usá-los, tanto assim que de seu emprego só lhe resultam
danos e nenhuma vantagem. E concede-os novamente apenas quando houver aprendido
a utilizá-los. O homem, então, deve reconquistá-los com ânimo novo, de modo a
transformar o dano em vantagem. Assim, a pobreza sucede à riqueza. É lógico, e
até mesmo constitui benefício quem faz mau uso de determinado meio adorando-o
como se fosse um fim, perdê-lo e ser reconduzido à ascensão, único e verdadeiro
objetivo da posse. É também lógico e justo que apenas os dignos possam dispor
dos bens e só os amadurecidos possam mandar e dirigir. Quem a Deus antepõe os
ídolos acaba sendo expulso da vida. Todavia, quem está com a Lei está com a
vida. Pois bem. Aproxima-se a hora da transformação do mundo. O super-homem
pode nascer apenas de lutas e dores assim titânicas. Será a transformação do
herói da matéria, do super-homem nietzscheano. Mostrar-se-á valoroso na prática
do bem, na capacidade de dar, de amar, ao invés de mostrar-se endurecido no
mal, na agressão, no ódio. A bestial virilidade do homem, no plano físico
asfixiante da guerra, se refinará e aumentará de poder na virilidade mais
apurada do homem no plano espiritual. A luta não se travará mais por causa da
seleção animal do mais forte, seleção em que ainda alguém crê, mas em favor da
seleção do mais justo e consciente; as guerras e as vitórias serão diferentes,
baseadas em princípios diferentes e conduzidas também com métodos diferentes.
As batalhas do homem futuro serão bem diversas. Esse homem será o soldado da
paz que substituirá a guerra do ódio pela guerra do amor, muito mais difícil e
profícua. Que consciência, organicidade e poder espiritual deverá ele possuir
para saber vencer sem ódio, e sem armas, perdoando e dando! Espiritualmente
falando, nossa sociedade assemelha-se a campo inculto, a bosque intrincado e
selvagem. Torna-se necessário transformá-lo em plantação racional e de
rendimento intensivo. Precisamos de em todo o campo em que existe o caos
introduzir a ordem e fazê-la substituir a desordem; isso, porém, com métodos
diferentes dos de domínio, nos quais todas as diversificada tendências humanas
se igualam. É preciso fazer que os outros compreendam e sintam, por livre convencimento e paixão. Para todos
nós a dor atual constitui grande escola de maturidade. Manifestam-se sistemas
substanciais, e não sistemas formais; agimos mais por vias internas e
espontâneas do que por vias coativas e externamente enquadradas. Não adianta
mudar nomes e programas. Importa, isso sim, o senso da vida e a motivação diretora;
importa operar na substância e fazer o homem. A consciência coletiva não passa
de frase sonora, mas sob ela se esconde quase sempre apenas a inconsciência
coletiva. O tufão limpou o terreno. Vamos, agora, ará-lo, semear, tratar,
fazê-lo produzir. O ódio destrói. O amor deve reconstruir. Essa é a linha de desenvolvimento
de nossa época Primeiro, a paixão; depois, a ressurreição. O involuído esgotou
sua missão. Agora chegou a vez do evoluído. Os amadurecidos são chamados para
o trabalho e, mais do que nunca, agora sua vida se transforma em missão.
Esgotaram-se as vãs tentativas dos experimentos materiais e verificou-se que os
expedientes atuais não resolvem o problema. Nada mais lógico; pois, que agora,
a título de reação e compensação, e por meio de expedientes de tipo oposto se
inicie outra qualidade de experimento, o do espírito.
Apenas começamos a caminhar rumo ao bem
e à sua realização na terra, assalta-nos o pensamento de que talvez se trate de
utopia. Isso naturalmente acontece porque nos afastamos da dura realidade da
terra e sabemos consistir o objetivo da evolução justamente nesse afastamento.
Vimos que o mal pode constituir grande obstáculo, terrível resistência e, no
entanto, o bem é o verdadeiro e definitivo senhor. A realidade quotidiana do
mal desmente a aparente utopia do bem; esconde, como véu, a verdade mais profunda,
esconde-a dos violentos e até mesmo dos astutos; não a esconde, porém, dos
justos. A estrada é longa; mas a ascensão, fatal; e o mal não prevalecerá. Nem
a insipiência, nem a traição, nem o erro, nem o abuso, nada pode deter a maré
montante do progresso. No sistema se prevê que toda queda e todo mal tem
remédio. As multidões são certamente ignorantes e cegas e sujeitas àquilo a
que pode reduzir-se qualquer governo inepto, isto é, a serem esmagadas pela
força e exploradas pela astúcia. Mas os povos se iludem quando crêem que a
orientação necessária possa ser-lhes dada pela liberdade dos chefes, ao invés
de provir de consciência coletiva; e esta os povos podem conquistar apenas à
custa do próprio esforço e através de duras provações. Os povos, como os
indivíduos, devem aprender por si mesmos, por meio de seus erros e dores. Toda
nova experiência política apenas serve para passarmos cada vez mais de estado
de inconsciência a estado de consciência coletiva Todavia, no fundo da atual
inconsciência se percebe o sentido da vida e obscuro instinto que, embora
confusamente, indica às massas o caminho certo e lhes confere a capacidade de
responder às vozes da verdade; mas isto, se forem verdadeiramente sinceras; e
o evoluído, que vive cumprindo missão na terra, mesmo à custa do próprio
sacrifício souber gritar bem alto essa verdade. A iniciativa da ascensão pode
ser sua apenas. Todos os valores humanos vão sendo continuamente explorados e
subvertidos em favor de vantagens pessoais. A custa do próprio sacrifício deve
o evoluído repô-los no lugar certo, restituir ao homem tudo quanto lhe
roubaram, opor-se, com o poder do vidente, à força bruta e, com a honestidade,
lutar contra a exploração.
Mas o futuro não depende apenas dos
homens de boa vontade. Preparam-no as leis da vida. A História é escrita por
elas e não pelos líderes que aparecem em cena, e que constituem meros
instrumentos de quem mais sabe e muitas vezes mais obedecem do que comandam;
apenas desobedecem ou se tornam inúteis, a Lei liquida-os, retirando-lhes a
função a eles confiada. Os homens tão-somente exprimem forças da vida, que se
dirigem a objetivos muitas vezes incompreensíveis para eles. Quando soar a hora
da plenitude dos tempos, os amadurecidos ouvirão dentro de si os apelos da
vida, se sentirão galvanizados e fortalecidos e hão de ver que o imponderável
os impele à ação. Assim, a Lei, apelando para o íntimo de cada um deles, chama
um por um os instrumentos da ascensão, os desperta e os põe em função. Chega a
vez dos involuídos destruidores, convocados nas horas negras da violência, e
chega também a vez dos evoluídos construtores, chamados nas horas luminosas do
sacrifício. Estes e aqueles imperceptivelmente se atraem e, quando sopra o
vento que os maneja, se confundem, cada qual com seus iguais, para somar
esforços. Vimos e continuamos a ver a hora dos primeiros, que deverá contudo
esgotar-se. Para refazer o equilíbrio da vida, vai chegar a oportunidade dos
evoluídos. Também estes vão atrair-se e juntar-se. Ao primeiro olhar, hão de
reconhecer-se como colaboradores do mesmo ideal, se sentirão homens da mesma
estirpe e se compreenderão mais. A revolução desta vez não é formal, mas
substancial. Não se trata da costumeira luta para, com os mesmos métodos,
substituir os velhos ocupantes das posições privilegiadas. A luta do evoluído
não se destina ao predomínio deste ou daquele interesse, mas é luta de deveres
em favor da evolução.
Para refazer o mundo, tudo deve
fazer-se contra a vontade do mundo. Por isso, antes de mais nada, método de
vida despretensioso, sincero, honesto, novo estilo, acima de tudo, interior e
constituído de fatos e não de palavras. Os fatos não são necessariamente como
aqueles hoje em dia observados, quer dizer, grande número de aderentes e muito
barulho. O número e o barulho estão naturalmente na razão inversa da
profundidade; e neste caso a ação se processa em profundidade. O primeiro
trabalho se desenvolve no íntimo das pessoas, onde penetramos persuasivamente e
não no exterior delas, onde dominamos à custa de coação. Por isso, não
necessitamos da costumeira força dos dominadores, mas de convicção e de
exemplo. Os novos homens não exibirão sinais exteriores, que o vestuário possa
mudar, mas sinais interiores impressos no coração e na mente. Nem as funções,
nem as condições sociais, nem a hierarquia, nem qualquer outro motivo capaz de
atrair o espírito humano, ávido de poder e repleto de ambição, servirá mais do
que uma vida bem vivida, para estabelecer distinções entre os homens. O posto
mais alto pertencerá a quem mais dá, embora menos possua, a quem se
sobrecarrega com mais trabalhos e obrigações. Principalmente, saibamos viver o
mais possível desprovidos de riqueza, para tornarmo-nos invulneráveis aos
ataques do involuído, que a deseja sobre todas as coisas, e para o mantermos
afastado de nós, pois não sabe viver em atmosfera de pobreza e sacrifício. As
potências espirituais devem estar em condições de substituir qualquer bem da
terra. Não é verdade que a riqueza e o poder se tornem absolutamente
indispensáveis para a execução de qualquer tarefa. Os grandes meios utilizados
pelo mundo são quase sempre meios fornecidos pelo mal e de que o bem pode prescindir.
Mas em compensação necessita de entusiasmar-se, de primeiro fazer para depois
mandar que façam, de sentir e viver integralmente a paixão do bem. O que se
leva em conta é o ânimo, o valor intrínseco do indivíduo; não se lhe leva em
consideração o poder econômico, a posição social, a condição externa. Grandes
meios podem reduzir-se a bagatelas e títulos pomposos camuflar nulidades. Não
mudamos nada do que está do lado de fora e carece de importância. O evoluído,
em extremo sensível, reconhece e classifica os homens, mas observando-lhes o
íntimo. Por isso, nada de agressividade contra formas indignas de nos causarem
a fadiga de combatê-las, mas apenas respeito e paz relativamente àquilo que
para os demais assume tanto valor e, no entanto, para nada presta. Então,
aviva-se mais o contraste; não destruímos as coisas, valorizando-as pelo combate
que lhes movemos, mas negando-lhes importância e incentivo. Jamais o evoluído é
negativo e destruidor, mas sempre positivo e construtor. Assim, tudo quanto se
torna inútil por si mesmo se destrói. Toda a energia do evoluído se aplica em
favor do bem. Tanto basta para em todas as formas infundir calor, espírito e
valor novo.
Essa nova classe de homens se
distinguirá por meio de características biológicas e poderemos chamá-la classe
dos sacerdotes do espírito. O fato de nos desmaterializarmos na função espiritual
aumenta-nos a capacidade de penetração e a potência. Quanto mais a forma é
imaterial tanto mais invulnerável e resistente aos esmagadores ataques exteriores
e às fraudulentas explorações interiores, ambos verdadeiras traças que roem o
ideal. Aqui o sistema de forças protetoras se apoia no imponderável e o
princípio fundamental difere do comum. Não se trata de falar e parecer, mas de
ser e dar o exemplo, de não pretender pregar moral antes de poder dizer: eu
também faço assim. Não se trata de proselitismo superficial, que começa nos
outros, mas de conquista profunda, começando em si mesmo. Mais do que de certa
espécie de ordenamento religioso, trata-se de certa espécie de ordenamento
biológico, onde automaticamente se enquadra o indivíduo amadurecido, que ai
permanece enquanto, por causa dessa maturidade, consegue resistir; desse
ordenamento está automaticamente excluído quem mente, explora ou furta. A
regra pertence à Lei; aceita-a e segue-a apenas quem lhe apreende o sentido e
compreende a vida. Do mesmo modo que a gratidão, os prêmios e o progresso, as
sanções e as exclusões são, automáticas. A polícia de controle está confiada
às forças da Lei, que usam peso justo; quem vale mais e mais possui deve dar
mais e ter mais responsabilidade. Trata-se de leis biológicas a que não podemos
fugir; não falham e inexoravelmente atingem o indivíduo, onde quer que esteja.
A polícia de Deus se compõe de imponderáveis contra os quais não adianta
rebelarmo-nos, pois são invisíveis e poderosos; funciona com exatidão e
segurança, não esquece e a todos com suprema justiça castiga ou premia.
XV
O TIPO BIOLÓGICO DO FUTURO
O fenômeno
de renovação já mencionado neste livro não deve ser entendido isoladamente sob
um só de seus numerosos aspectos, seja social, político, religioso, econômico
intelectual, moral, artístico etc. Devemos entendê-lo isso sim, no vastíssimo
sentido de fenômeno biológico. Quer dizer, trata-se de maturação evolutiva do
tipo humano, a qual lhe permitirá a exata apreciação do imponderável, que agora
lhe escapa e produz a falência do espírito no trato das coisas humanas. Não se
torna necessário criar mais coisíssima alguma. Os elementos já existem entre
nós. Trata-se apenas de orientá-los, de saber dirigi-los com a lógica hoje
inexistente, isto é, de reordenar a desordem. Sabe-se que o método e a
organicidade permitem muito maior rendimento a qualquer trabalho, poupando-o a
tantas dispersões e a atritos. Atualmente estes custam dinheiro, fadigas, dores
imensas. A compreensão mútua, quer dizer, o desarmamento mental que nos permita
olharmo-nos sinceramente nos olhos, não nos enganarmo-nos, mas para
compreendermo-nos, essa compreensão significaria a maior liberação jamais
conhecida pela humanidade. Quando o ser
superou determinada fase evolutiva, a lei relativa a essa fase torna-se-lhe
como prisão de que necessita liberar-se, fugindo-lhe. Nessa prisão vai-se
transformando cada vez mais a moderna concepção social do homem, que está
fazendo esforços titânico para escapar. A lei de seleção do mais forte não lhe
foi inútil no passado e, de fato, permitiu à raça humana o domínio material do
planeta, através do método bestial da subjugação violenta. A lei permitiu que o
homem adotasse esse método. Esse fato demonstra como em certo período tal método
se tornou útil e necessário. Hoje, porém, a posição do homem mudou. Tornou-se
senhor do planeta e agora luta mais contra os semelhantes do que contra os
elementos e as feras. Atingiram-se os objetivos da seleção animal; por isso,
esse método não corresponde mais às finalidades da vida, agora diferentes e
mais nobres. A evolução elevou-os bem mais alto, diz respeito a outros
objetivos, empreende outras construções e não pode retardar-se no caminho já
superado. Hoje caminhamos para a organicidade; este, o fim que a Lei pretende
fazer-nos atingir. Ora, o método de luta para seleção do mais forte é
anti-orgânico por excelência e realmente não corresponde mais ao objetivo:
representa regime de desordem justamente aí onde deve com toda a urgência impor
ordem. Trata-se de fenômeno natural de retificação e ordenamento que, conforme
verificamos, se processou até mesmo no mundo astronômico e geológico, depois do
período caótico da formação. O mesmo fenômeno deverá processar-se também no
mundo social. A lei da luta para seleção do mais forte serviu até agora para o
animal e para o homem-animal; não servirá para o novo tipo biológico em
preparo. No novo plano em que está entrando esse novo tipo, tal seleção, ao invés
de beneficiar, prejudica, visto como não representa progresso, mas regressão a
tipo superado ou em vias de superamento e que hoje não significa ascensão, mas
queda. Torna-se, pois, necessário novo princípio e novo método seletivo,
adequado aos novos objetivos a atingir, isto é, diferente forma de luta para
novo modo de seleção, não dos melhores, unicamente sob o ponto de vista da
força, mas dos melhores em inteligência, sensibilidade, consciência, bondade e
sabedoria. Se esses elementos não se faziam necessários para o tipo
vencedor-destrutivo, imperador de escravos, são indispensáveis ao novo tipo
biológico, o do homem orgânico e, por isso, consciente. Os princípios que
orientam a luta e a seleção pertencem à lei de evolução e não podemos
destrui-los. Mas, se o homem quiser libertar-se da animalidade, deve assumir
agora conteúdo diferente, quer dizer, formas e objetivos diferentes.
Observemos mais de perto esse fenômeno
de transformação biológica evolutiva. A vida é criação contínua, obra de
forças invisíveis que trabalham internamente, dentro de formas exteriormente
caducas e sujeitas a incessante metabolismo renovador. Todas as coisas se
movem e se mantêm permanentemente vivas por causa dessa inexaurível fonte
interior, que se chama Deus, centro dinâmico e conceitual do universo. Tudo se
alimenta, se mantém e se origina do espírito imortal alheio às vicissitudes da
forma. Através da evolução, a forma se sutiliza, se torna transparente, de modo
a que a divina essência das coisas possa tornar-se cada vez mais evidente.
Assim, essa criação continua constitui renovação evolutiva, que, agindo através
da maceração da. forma, vai elaborando-a incessantemente e, assim, tornando-a
cada vez mais adequada a exprimir a íntima substância animadora e dando sempre
maior sensibilidade e atualidade à manifestação da Lei. Desse modo, evolução
fica significando espiritualização e palmilha a estrada que sobe até Deus. De
semelhante progresso nascerá o novo tipo biológico, base das humanidades
futuras. A mesma natureza do fenômeno nos indica quais as suas características,
aliás redutíveis a uma só palavra: espiritualização. Isso significa tornar-se
mais dinâmico, percuciente, sensível ou, seja, menos rude e obtuso. O novo tipo
representará forma cada vez mais nervosamente selecionada e eleita, na
progressiva exaltação das características elétricas da vida, em detrimento das
características puramente físicas. A pesada musculatura animal, sempre mais
inútil nas novas condições de vida, há de ser substituída por poderosa
estrutura psíquica, cada dia mais necessária no novo mundo futuro. O novo tipo
biológico, se socialmente será o homem orgânico, individualmente será o homem
do espírito. A vida e o progresso que a intensifica residem no espírito. Na
intimidade imponderável do ser, aí onde ele atinge as divinas origens da vida,
existem inexauríveis capacidades de desenvolvimento. O universo é semente
desejosa de desenvolver-se em direção a Deus e incapaz de resistir ou ceder nem
à pressão interna do espírito, que tem pressa de manifestar-se, nem à divindade
interior, desejosa de exprimir-se sob formas de perfeição crescente. Há novos
continentes a desvendar, novas minas a explorar, novas fontes de energia a
descobrir e empregar. Nossa involução é que traça limite a nosso domínio. O
universo, junto de nós, inexaurivelmente rico, dispõe-se a ceder-nos as suas
riquezas, mas, como é lógico, nega-as ao primitivos, incapazes de fazer bom uso
do poder. O universo não responde aos inconscientes, que não sabem tocar-lhe
nas cordas mais sensíveis. Não o compreendemos, não lhe conhecemos as leis;
rebelando-nos, ferimo-lhe a ordem, movidos pela pretensão de substítuirmo-la
por nós; e não responde com amizade e doçura, mas com rebeldia e hostilidade.
Pomos de lado e maltratamos as forças espirituais, exatamente as mais importantes.
Nada poderemos ignorar em organismo onde tudo se relaciona. O poder e o futuro
residem na sensibilização e na desmaterialização ou, melhor, no domínio de
forças cada vez mais sutis, aliás as mais poderosas. O poder se sedia na
profundeza, na imaterialidade, e conquistamo-lo caminhando rumo às raízes do
ser e às origens da vida, isto é,
caminhando em direção de Deus.
Observemos, para compreender melhor,
este caso de sutilização da forma por meio de elaboração evolutiva, quer
dizer, este caso de sensibilização e espiritualização. A princípio, e do ponto
de vista biológico, a mão do homem foi um dos membros que o tronco produziu
para facilitar a marcha, e isso já era a primeira manifestação de vontade interior
dirigida para objetivo elementar. Depois, esse membro se destacou da terra e se
transformou em órgão apreensor e instrumento de ação e de trabalho, como
manifestação de vontade mais complexa e mais inteligente, embora presa ainda à
forma material da estrutura ósseo-muscular, de que estava em estreita
dependência. Hoje a mão se vai sempre transformando de instrumento físico em
instrumento psíquico, vai tornando-se tentáculo nervoso cada dia mais ágil e
sensível e passando de agente físico a órgão dirigente de outras energias,
inclusive da muscular. Assistimos a um processo de desmaterialização,
sensibilização e espiritualização, a que corresponde progressivo aumento de
poder em extensão e profundidade. Continuando no mesmo caminho, a mão,
gradativamente transformada de instrumento de marcha em órgão apreensor e,
depois, em órgão diretor de forças, a mão se transformará em meio de recepção e
transmissão de vibrações dinâmicas e psíquicas, antena para comunicar e receber
energia e pensamento. Então, o poder interior do espírito terá podido aflorar de
tal maneira da profundidade do ser que há de permitir ao homem comunicar-se e
viver em comunhão com as infinitas energias do espaço.
O mesmo processo se repete
relativamente à visão, à audição, a todas as vias sensoriais, ao sistema
nervoso que as dirige, ao cérebro que as centraliza, enfim a todas vias através
das quais o espírito comunica, recebe, se manifesta. O espírito exerce pressão
de dentro para fora com o fito de tornar
menos densa e romper a casca material da forma humana e, desse modo, ampliar as
vias sensórias já conhecidas e descobrir outras a fim de em melhores
condições, mais abundante e profundamente, servir à circulação das idéias.
Assim, os sentidos, que o espírito produziu, cada vez mais por força dele se
ampliam e se abrem às infinitas vibrações do universo; assim também pouco a
pouco o ser se espiritualiza, isto é, evolui do estado físico ao estado vibratório,
sai da forma material definida e assume forma etérea radiante. A evolução
consiste realmente na maceração da forma material, que, a princípio vestimenta
e veículo, se transforma depois em obstáculo e prisão; por isso a evolução é
continuamente superada e renovada. Este princípio, válido no passado humano,
deve continuar com o mesmo valor no futuro. O desgaste da forma não constitui
debilidade do sistema, e sim dura necessidade evolutiva apenas, simples processo
de libertação que ao espírito aí preso permite manifestar-se. Por isso, a
maceração física e moral é criadora, embora em nossa vida nos pareça tão
destrutiva; e a caducidade das coisas humanas, que tantas lágrimas nos causa,
manifesta apenas na forma e constitui a condição necessária para que a vida
perene surja de dentro da forma. Por isso, os golpes dolorosos conduzem-nos à
vida, ao invés de, como parece, levar-nos à morte.
O espírito
quer fugir da prisão; o progresso apenas pode consistir em contrariá-lo. Isso
significa contrariar o impulso fundamental do universo: liberação da forma e
manifestação de Deus. Quando a centelha interior ainda não está preparada para
desenvolver-se, a evolução se manifesta através da única via utilizável, a via
dos sentidos; eis como surgem os gozadores, epicuristas e sensuais. Todo ser
possui as vias que merecidamente ganhou. Nesse caso são escassas e o espírito,
insatisfeito, reclama. Mas o involuído não dispõe de outras saídas e agarra-se
desesperadamente às disponíveis; quando chega a morte, desespera-se de,
perdendo-as, perder tudo, pois, desprovido de órgãos físicos, é incapaz de
receber e transmitir, acostumado como está a vibrar apenas sob as formas mais
grosseiras da matéria. Sua vida prende-se estreitamente ao corpo e o involuído,
para sem ele não permanecer morto, busca-o de novo por ocasião de novo
nascimento físico, como única forma de vida. Ao contrário, o espírito, esclarecido
pela evolução, superou os meios sensoriais e lhes despreza a pobreza;
tornaram-se-lhe mais os meios de seu aprisionamento que de sua manifestação;
são agora insuficientes para saciá-lo; quando morre, perde-os sem amargura e
não os procura de novo por ocasião de novo nascimento físico em nosso mundo.
Quem se tornou mais sensível, espiritualmente falando, dá naturalmente muito
menor valor ao mundo sensorial. Também
como estrutura biológica o evoluído difere do involuído, e não apenas do ponto
de vista moral e social. O involuído representa centelha espiritual ainda mal
acesa, envolta por densos véus, encerrada em envoltórios de trevas e, por
isso, centelha ainda fraca e rudimentar perdida na enorme casa do corpo. O evoluído,
ao contrário, representa centelha de incêndio, que queima os véus e funde os
envoltórios da forma; por isso, é poderosa e complexa unidade espiritual
angustiada na casa do corpo. Da vida físico-sensorial o primeiro receberá,
assim, alegre senso de expansão e o segundo, senso de dolorosa compressão; e
onde este há de sentir-se vivo e flamante, o outro olhará emudecido e sem
capacidade de compreender. A vida é totalmente diversa, embora a forma
externamente visível seja a mesma e nela muitas vezes se baseiem os juízos
humanos e as leis sociais. A vida pode ser. para quem vale menos muito mais
cômoda e bela do que para quem vale mais. Hipertrofia espiritual e excessivo
desenvolvimento interior podem significar incompatibilidade com o ambiente e
impossibilidade de adaptar-se-lhe. Então, o criador ultradinâmico parece maluco
aos olhos dos estúpidos dorminhocos; é claro: quem fica dormindo se mostra
muito mais equilibrado do que quem caminha ou voa. Assim, para os que jazem
tranqüilos na inércia, o evoluído talvez pareça explosivo e perigoso; quem
enxerga longe perturba os pequeninos cálculos aproximados e seguros, é
aventureiro e revolucionário, incomoda e ameaça. O involuído condena-o e
combate-o, mas sem ele, sem essa centelha animadora, permaneceria pobre e
débil; sua segurança, se de um lado é tranqüila, de outro lado é anti-criadora,
é o sono dos mortos. A evolução, que espiritualiza, também dinamiza; assim
como caminha em direção à vida e a conquista cada vez mais, assim também
caminha rumo à potência.
A inquieta agitação de nosso tempo,
embora desordenada e confusa, apresenta-se sempre como manifestação de dinamismo,
que pode derivar tão-somente da pressão interna do espírito. Individual e
coletivamente, o divino principio quer plasmar-se em novo homem e novo mundo, numa
forma que mais se adapte a outra manifestação sua, mais elevada. Estamos
ainda na fase caótica da tentativa, dos resultados provisórios e incompletos,
da experimentação enganosa; mas o dinamismo provém sempre de impulso interior,
é sintoma revelador. Na desordem das organizações apressadas sente-se hoje o
orgasmo precursor. O involuído começa a acordar estremunhado. E ação inicial
descomposta, mas de massas, pouco profunda, porém muito extensa. Por isso,
damos hoje tanta importância a quantidade expressa pelo número. O certo é que o
mundo hoje não está dormindo e na vida nenhuma agitação é vã. Quando está
saciada, vemo-la em repouso; e quando tudo está calmo, nada se cria. Quando,
de acordo com seu grau evolutivo, o ser se aproximou o mais possível da
divindade, não se agita mais e seu dinamismo fica em suspenso, pois seu
funcionamento não tem mais razão de ser. Mas, em conformidade com o ritmo da
Lei, apenas se retome o ciclo ascensional e nova maturação o acompanhe, isto
é, o espírito mais desenvolvido exerça pressão de dentro para fora, então, para
superá-los ele começa a chocar-se contra os antiquados limites. Assim, a
evolução embora contínua, se manifesta por transformações periódicas em que se
concentra a expressão de longas e lentas maturações subterrâneas. A vida deve e
quer obedecer e, se não pode ou falha, chora na dor de não poder ou na
desilusão de não ter sabido ascender; chora a traição que praticou contra a Lei
e paga com a própria ruína. A música de Mozart, exprime a harmonia e o equilíbrio
que seu plano por isso de paz tranqüila e saciada. A música de Beethoven nos
fala das tempestades e dos titânicos esforços criadores daqueles tempos. A
música de nossos dias desarmônica e desequilibrada, exprime o desmoronamento
deste mundo e um dinamismo levado à máxima exasperação, em busca de novo mundo
que estamos esperando e ainda não sabemos encontrar. Todo estado de plenitude é
calmo e todo estado de vácuo, insatisfeito e agitado. O evoluído tem estases
em que as forças se equilibram e repousam. Trata-se de fase de maturidade da
combinação dessas forças em sistema. Mas, apenas a alcança, o impulso interior
da vida continua a movimentar essas forças, tentando combinações mais elevadas
e complexas. Daí resulta novo desequilíbrio a ser reequilibrado, nova lacuna a
preencher e assim por diante. Os períodos de saciedade satisfeita representam
objetivo atingido e os de desequilíbrio insatisfeito significam objetivo a ser
atingido. Os primeiros já chegaram e agora repousam, os demais acabam de partir
e estão correndo ainda. Os primeiros se constituem de espíritos demolidores,
críticos, inovadores. Representam a felicidade em que se resume e beatifica
ignorância de sermos felizes. Porém, tão logo começam o desequilíbrio. e o
desacordo, a luta e a dor aparecem; então, analisa-se a felicidade, que,
analisada, desaparece. Ela, porém, torna-se consciência e base construtiva de
felicidade mais completa. Como esta nasce da dor, como a ciência se originou do
sofrimento, assim a grandeza e a força nascem da fragilidade e da fraqueza.
Nossa época mostra-se inquieta, analista, dolorosa; possui, sob forma
destrutiva e em sentido negativo, tudo quanto, sob forma construtiva e em
sentido positivo, deverá conquistar mais tarde.
Com esses poucos traços esboçamos
vários aspectos do futuro tipo biológico e enquadramos, no fenômeno evolutivo
universal, nossa época e sua criação biológica. Desse modo desenvolvemos alguns
conceitos de A Grande Síntese. A titulo
de referência, reportamo-nos aos principais. Cap. XLIII: "A maturação
dessa super-humanidade constituirá a maior criação biológica de vossa evolução,
pois representa passagem para lei de vida superior..." — Cap. LII: "Tudo
que nasce deve renascer cada vez mais profundamente". — Cap. LXXV:
"Eu lhes disse que vocês estão em grande curva da vida do mundo; a Lei,
que a maturou durante dois milênios, hoje nos impõe essa revolução biológica.
Os fatos, que sabem fazer-se ouvir por todos, hão de obrigar vocês também.
Trata-se de movimentos mundiais de massas e de espíritos, de povos e de
conceitos, movimentos profundos a que ninguém escapará. Mas, antes de os fatos
falarem e de se desencadearem as forças mais baixas da vida, deveria falar o "A
lei do progresso impõe a continua dilatação do espírito. A evolução se dirige
irresistivelmente ao superconsciente, ao supersensível". Idem:
"Desde que cresce cada vez mais o campo que dominamos no âmbito do
consciente, desloca-se progressivamente o limite sensorial, o sobre-humano
torna-se humano; o superconsciente, consciente; e concebível o inconcebível...
o meio material se aperfeiçoa e se torna tão sutil que atinge as raias da
desmaterialização... “pensamento, dever-se-ia avisar a fim de que quem pudesse
entender entendesse". — Cap. LXVI: —
Idem: "O homem desse modo cada vez mais se afasta da forma animal,
através de contínua desmaterialização de funções que leva a progressiva
desmaterialização de órgãos. A vida humana se concentra cada vez mais na função
psíquica diretora..." — Cap. LXII: "Evolução biológica para nós
significa evolução psíquica...". "~ absurdo conceber as formas como
fim de si mesmas, evoluindo sem objetivo, sem continuidade, justamente onde as
precede eterno transformismo...". — Cap. LI: "Observem como nossa
entrada no mundo biológico se processa justamente por via das formas dinâmicas.
Com a eletricidade, situada no vértice dessas forças, não chegamos apenas à
forma, mas ao princípio mesmo da vida, ao motor genético das formas...
Tocamos... não a evolução dos órgãos, mas a própria evolução do Eu, que as
adiciona e plasma para si, como instrumento da própria ascensão". — Cap.
LXIII: "Vejam como tudo quanto existe se origina de princípio que não age
sempre de fora para dentro, mas de dentro para fora, princípio encerrado no
íntimo misterioso do ser... — Idem"... Esse o princípio que se desenvolve
internamente, exteriorizando-se a partir desse centro profundo em que vocês
devem verificar a existência da essência das coisas e o porquê dos fenômenos.
Deus é a grande força, o conceito que opera na intimidade das coisas e daí se
expande..."
Concluindo com este argumento,
poderíamos dizer que o homem atual está para o futuro tipo biológico assim como
o pré-histórico pitecantropo está para o homem atual. Do mesmo modo que o
pitecantropo, porém, o homem atual se encontra no ambiente adequado. A
diferença nasce quando, dentro da própria fase, nos retardamos. A marcha da evolução
é harmonia, desenvolvimento sinfônico de infinitas forças, maturação orgânica. Já observamos o evoluído, como antecipação hoje ainda
excepcional. Mas a evolução caminha para a generalização desse tipo mais
adiantado. Quem se atrasar, quem abandonar sua fase, retardado na maturação de
todo o concerto de forças, em verdade será inferior a todo o resto. O futuro
tipo biológico é, pois, o evoluído. O estudo que a cada passo, sob tantos
aspectos, dele fazemos neste volume, serve para dar-nos dele o retrato de corpo
inteiro; neste capítulo apenas o descrevemos sumariamente. O atual involuído
poderá negar, rir, rebelar-se; tem essa liberdade. Apenas verificamos,
objetivamente, como funcionam as leis da vida. Contudo, hoje com certeza o
mais pisado pela dor é ele, e não o evoluído, que já se desprendeu da terra;
os mais golpeados e destruídos são os tesouros terrenos do primeiro e não os
espirituais do segundo; àquele competirá, pois, encontrar solução e saída que
lhe convenham, porque este já as encontrou. O evoluído nada mais tem a
perder ou temer na terra, pois suas riquezas são invulneráveis. Por meio da
sabedoria e da comunhão com Deus já conseguiu o único paraíso possível na terra;
não perde mais tempo e trabalho correndo atrás de paraísos, irrealizáveis como
o sabem os que compreendem a Lei.
Neste capítulo, ao delinear o perfil do
futuro tipo biológico, falamos principalmente a respeito de sensibilização
nervosa, exatamente porque em especial sob o aspecto biológico foi que
estudamos esse fenômeno evolutivo. Sabemos, porém, que essa via biológica de
ascensão se relaciona com a via moral, é até mesmo condição desta e meio de
atingi-la. Trata-se, na evolução biológica, de elaboração orgânica que caminha
rumo ao imponderável. A sutilização e a desmaterialização do invólucro físico
torna-o cada vez mais transparente e, por isso, evidencia mais a manifestação
do espírito. E é no plano espiritual que o dinamismo da vida consegue esse
refinamento, capaz de permitir-lhe o aparecimento em sua forma moral. Tudo
isso que é evolução e sensibilização pode apenas conduzir, por isso, a evolução
e sensibilização moral. A bondade e a sabedoria do futuro tipo biológico, por
isso, podem também ser atingidas através do metabolismo orgânico, capaz de
permitir transformação lenta da estrutura celular. Todos os aspectos da vida se
relacionam reciprocamente e todas as suas maturações caminham lado a lado. A
transformação evolutiva é orgânica, nervosa, psicológica, conceitual e ao mesmo
tempo moral, refinamento de estrutura celular, sensibilização, bondade,
compreensão. Essa passagem da fase involuída para a evoluída constitui, assim,
profundo processo que se apossa de todas as qualidades humanas, da extremidade
física à extremidade espiritual da vida, elabora completamente o ser e, por
expansão interna, plasma de novo a forma, tornando-a cada vez mais apta a
exprimir o espírito. Nisso se revela a organicidade da natureza e o princípio
unitário, monístico, do universo. Parece que durante essa passagem todas as
fibras da vida vibram e, em todos os graus evolutivos, ela responde ao novo
apelo dos tempos e se move sintonizando seu ritmo com a harmonia do universo.
Assim, a ordem biológica ascende ainda até Deus, que aí se revela ainda mais;
assim, a vida exulta ao aproximar-se novamente do objetivo e as consciências
ouvem o canto perene da fonte, cada vez mais claro. Nova revelação de Deus o
atinge profundamente e o desperta, para criar, criar mais, formas cada vez mais
próximas da perfeição. Ascender é ser feliz. Treme o grande ritmo do tempo, suspenso
em solene espera. O homem novo vai nascer. A vida quer falar-nos de Deus cada
dia mais claramente, pois ela é Sua glorificação.
XVI
VISÃO (1º TEMPO)
Todo capítulo deste livro, como todo
capitulo da vida, é quadro diante do qual paramos contemplativos. Esses quadros,
que estamos desenvolvendo, se poderiam também chamar contemplações. No último
deles o universo apareceu-nos como floração de vidas. Seu transformismo
evolutivo é desenvolvimento contínuo em que parece reproduzir-se em dimensões
gigantescas a técnica expansionista da semente, a lei de desenvolvimento do
indivíduo, o mecanismo da maturação da vida, como se no ciclo vital de toda
criatura se repetisse em ponto pequeno o mesmo esquema do ciclo vital do
universo, máximo organismo coletivo. De fato, até mesmo os universos nascem,
crescem, envelhecem e morrem, para como todo ser vivo renascer e morrer de
novo. Também eles passam por alegre juventude e cansada velhice, nascem de um
germe e, ao morrer, deixam seus despojos mortos. Todos os fenômenos parecem
desenvolver-se de acordo com um só esquema, cuja aplicação gasta todas as coisas,
consome toda força, encerra todo ciclo, exaure e extingue toda vida.
Mas agora voltemos
as vistas para outra contemplação, de índole diferente. Para que, depois da
tensão conceitual prolongada até agora, o leitor descanse alguns momentos;
para satisfazer outras exigências espirituais, diferentes das intelectivas e
racionais, e também outras da fantasia e da paixão; para, finalmente, expor os
mesmos problemas, não mais sob forma racional e abstrata como até agora, mas
dramatizados em cena bem sintética, relatemos a visão que, em meio de emoções
turbilhonantes e na profundidade de ensurdecedor silêncio, tivemos em luminosa
manhã de maio. Aqui a reproduzimos com objetividade cinematográfica, tal qual,
emergindo das profundidades da consciência, se nos revelou, na roupagem teatral
com que o pensamento abstrato se concretizou no sonho, se ao menos em
substância não lhe podemos chamar intuição ou pressentimento profético. Os
fenômenos de visão interior examinamo-los no cap. XXVI, deste volume, a
respeito da vida dupla. Vamos por algum tempo mudar a forma mental, a fim de
podermos falar à inteligência e ao coração e alimentar também essa outra qualidade da alma humana. Todo
tipo de leitor encontrará neste livro a linguagem que se lhe adapte. O tipo
racional, mais capaz de pensar do que de chorar e amar, poderá escolher os
capítulos racionais. No vasto complexo humano, além das ressonâncias do
intelecto há outras, todavia, pelas quais podemos comunicar-nos. E todo leitor
reage, segundo personalíssima capacidade de vibração, quando sente, tocarem na
sua corda sensível, e isso mais por mera sintonia do que por atividade do
raciocínio. Do contrário, mostra-se surdo não sendo tangido, permanece imóvel,
não sabe responder e toda demonstração se mostra inútil. Que coisa é a
convicção, além de espontânea e uníssona vibração? Essa vibração pode nascer
mais facilmente de persuasão e da paixão pessoal do que do frio raciocínio. A
convicção não é processo lógico, mas estado vibratório; não nasce, por isso, do
raciocínio, mas da radiação psíquica; não resulta de argumentação cerrada, mas
de acordo vibratório por sintonia do pensamento. O processo não deve ser
coagido, mas espontâneo. Pelo contrário, nada, como a presença da vontade que
tenda a impô-las, afasta tanto assim a compreensão e a convicção; e nada nos
persuade e arrasta com tanta força como a existência, naquele que fala, de
sentida e sincera convicção. Daí se depreende quanto o velho sistema da coação
lógica se revela absurdo e ilusório, se com ele pretendermos resolver o problema
da convicção das consciências. Esse método coativo mais ou menos se origina da
luta, constitui a transferência, para o plano psicológico, do sistema do
involuído, diante de quem a força significa vitória. Mas o pensamento está bem
mais acima e seu valor escapa-lhe. Assim, o desejo de proselitismo, ao invés de
atrair, costuma repelir, pois provoca desconfiança; o desejo de conquista
excita resistência. Por isso, quando argumentarmos, convém limitarmo-nos sempre
a expor, sem jamais pretender forçar a persuasão, simples ato de adesão
espontânea. sendo assim, toda atitude que lembre a força e a imposição tende a
resultados absolutamente negativos. Não é a astúcia raciocinadora, nem a chicana
sutil, nem o desejo de fazer prosélitos, que me fornece substância ao
pensamento e me anima a palavra, mas a flama da fé e a profundeza, a
evidência, a intensidade da própria visão. A guisa de disco fonográfico, as
palavras registram-lhe escrupulosamente a radiação e assim a reproduzem ao
leitor. A palavra falada ou escrita não passa de vibração fonética ou
graficamente expressa, vibração dirigida à formação de outras vibrações. Se
ela, embora brilhantemente vestida, é substancialmente falsa, apenas poderá
gerar vibrações falsas. Por isso, o silogismo e a retórica constituem
elementos negativos para o pensamento e traição contra o espírito.
Relatemos a visão, mas antes aqui ficam
duas observações: 1) Este volume, como está mais bem especificado no cap.
XXII "Tempestade", foi
iniciado e continuado até este ponto na primavera de 1944. Essa visão eu a tive
na manhã de 12 de maio de 1944. sexta-feira, isto é, 33 dias após a manhã de
Páscoa, coincidência percebida só mais tarde. Essa visão registrei-a
imediatamente por escrito e vou reproduzi-la agora sem modificação alguma. É a
pura verdade. 2) A visão pode assumir vários significados, superficiais ou
profundos, conforme a capacidade de compreensão do leitor. Nela existe, afora
o sentido superficial, de mera narração, o sentido espiritual, mais potente,
simbólico, que à índole mais ou menos madura do leitor cabe saber discernir.
Ou, mais claramente, o relato da visão podemos lê-lo conforme três níveis,
três planos, correspondentes aos três planos evolutivos de nosso universo,
quer dizer: matéria, energia e espirito. Em outras palavras: podemos
"vê-la" como forma, na aparência exterior com que surge em cena, na
periferia, como fato material, enfim; ou, então, "senti-la" como
dinamismo motor dessa forma e dessa sucessão de cenas, mais internamente, como
vibração animadora do fato material; e, finalmente, "intui-la" como
princípio espiritual que do centro dirige os movimentos desse dinamismo e, reunindo-os
na mesma trajetória, os guia de acordo com pensamento e finalidade bem
determinados. Essa penetração progressiva, encaminhada da superfície à parte
mais profunda e da periferia ao centro, exemplifica o modo por que, de
conformidade com sua estrutura, podemos compreender o universo. Eis a visão que
eu tive.
Na basílica de São Pedro em Roma,
templo máximo da Cristandade, imensa multidão se reunira junto ao túmulo de seu
fundador, o primeiro entre os apóstolos. Ninguém saberia dizer que
pressentimento levara tanta gente a assistir a ritual por si mesmo tão comum. O
instinto das massas, reconheçamo-lo, percebe a aproximação das horas apocalípticas
da vida; fazia alguns dias que havia qualquer coisa no ar, angustiando as
almas. Seria, talvez, a sensação confusa da extraordinária gravidade da hora;
ou, quem sabe, a espera de novos acontecimentos, de algo decisivo naquela
conjuntura histórica; ou, então, maus pressentimentos, que nenhum fato
concreto poderia justificar racionalmente. Disso tudo nascera em tantas pessoas
a necessidade de se aproximarem, de se encontrarem de novo, de se reunirem e
de novo travarem conhecimento; e isso precisamente naquele templo, cujo poder
de atração parecia dever-se à sua ligação com o estado apocalíptico das coisas.
Naquele momento a basílica assumia particular significado, talvez mesmo único
quanto ao sentido finalístico, significação sobre-humana capaz de permitir o
restabelecimento dos contatos, há tanto tempo perdidos, entre o homem e Deus.
Assim, em plena noite espiritual dos séculos o tempo surgia como luminosíssimo
farol. Por isso, se era ordinária a forma ritual, aquele momento se revelava
extraordinário para a vida do mundo. A guerra acabara, deixando-nos, após
longos anos de tormento, comprida esteira de dores maiores ainda. Tantos
sofrimentos haviam amadurecido os espíritos para novas atitudes, tornando-os
dispostos a novos superamentos. E instintivamente a alma do mundo esperava,
para renovar-se, que de Deus viesse a primeira centelha, como prova, exemplo
e estimulo; esperava o sinal que indicasse e abrisse o novo caminho.
O templo
estava repleto. Jamais se vira tanta afluência de povo. Irresistível impulso
levara tanta gente a acorrer de todas as partes do mundo e, no entanto,
poderíamos seguramente dizer que o templo máximo da Cristandade naquele momento
abrigava os maiores e melhores expoentes de toda humanidade. Segundo parecia, a
Cristandade, mais do que ao apelo formal, obedecera ao apelo apocalíptico da
hora, à irresistível necessidade de naquele momento dar solene testemunho de
fé, reunindo-se unanimemente em torno do Pontífice, aos pés de Cristo. A dor
cavara tão fundos sulcos nos espíritos, a alma do mundo martirizado descera a
desespero tão negro ao ponto de perceber-se em todos os espíritos a reação
contra o absurdo, o insuportável, o impossível que era ter de empregar ainda o
antiquado binômio, ao ponto de sentir-se a necessidade, a fatalidade e a
iminência de total modificação do mundo atual. Mas, como? Aquela massa humana
ignorava. Havia na multidão a confusa vontade de continuar a viver, mas de modo
melhor, com mais elevação e mais lógica, mais bondade e mais rendimento, de
reconstruir-se, de sair do abismo em que o mundo caíra, de reformar-se
inteiramente, remontando às origens. Havia em toda aquela gente o instinto
vital que cerca todo campo e, juntando-se em última análise ao erro e aos desastres
do erro, retorna às grandes idéias-mães, com que durante séculos e séculos se
alimentam, para nelas haurir nova força e nova luz e encontrar salvação. O
espírito adormentado pelo bem-estar e pela ilusória filosofia do bem-estar
agora despertara; o imponderável, antes repelido e negado, voltava de novo ao
mundo, atendendo ao apelo do homem provado pela dor. Essa própria multidão já
constituía manifestação desse imponderável. A voz de Cristo ecoara de novo nos
corações e muitos, tendo-a ouvido, acudiram: os capazes de salvar-se, para
salvar-se e salvar os capazes de salvar-se. O povo reunido no templo
representava e simbolizava o homem cansado da vaidade de suas construções,
conquistas e experiências filosóficas, sociais, políticas, econômicas e
científicas, o homem que, depois de tantas tentativas, finalmente se afogara
na imensa dor de guerra de extermínio total, traído pela força e pela riqueza
em que acreditara. (Cf. A Grande Síntese,
Cap. LXXV: "... vocês confiam apenas na riqueza e na força elas, porém, acabarão traindo-os.") As
ilusões fáceis, a simplicidade pueril, as loucas esperanças, tudo se
desvanecera diante da realidade. Agora, a humanidade se encontrava em posição
diversa daquela antes da guerra: posição de quem, percorrida a fase de prova,
percebe haver cometido erro e amargamente se volta para dentro de si mesmo, a
fim de refletir e, em seguida, compreender, reconstruir, ascender. Aquela
multidão, mesmo sem o saber, exprimia tudo isso e tinha vindo testemunhá-lo.
Nova e desconhecida ânsia a constrangia a reaproximar-se das eternas fontes da
vida, a retomar o perdido contato com o divino centro de todas as coisas, que,
eternamente criando, nutre. A nota dominante na psicologia daquela massa de
povo se constituía da invocação apaixonada e retumbante dirigida ao céu. Sob
esse impulso maior e mais significativo, ondeavam na massa variegados impulsos
menores, vórtices de terror, chamas de esperança, de fé e amor, zonas
crepusculares de dúvida e desencorajamento, manchas lívidas de ódio ou de
treva. Mas o dinamismo dominador se representava por abrasadora sede de bem e
de justiça e se elevava como purpurino cálice de ofertório, projetado para o
alto como resplendente cone, para dar e receber, arremessado contra as fechadas
portas do céu, à procura da potência que as reabrisse dando para o inferno
terrestre, e prometesse luz salvadora em meio das trevas acumuladas pelo mal. O
grande número, a violência do desejo, a intensidade da aparição, a
substituição do indivíduo pela massa, em que todo impulso individual se
reforçava, combinando-se e somando-se com outros, tudo isso formava
irresistível corrente de pensamento, de alta tensão, retilínea e ascensional,
vibração sonora e penetrante, imensa e poderosa oração, que crescia e
transbordava como se fosse maré montante, avançava tempestuosamente e em meio
de relâmpagos subia, turbilhonando, em direção ao céu.
Nossa narração começa quando, nesse
dinamismo central e dominante, inesperadamente se enxerta outro e ambos se
combinam, excitando reações e encaminhando soluções. Esse novo dinamismo é o
dinamismo particular do drama que agora começa. O momento, já de si grave, tornava-se
cada vez mais grave. O Pontífice já devia ter descido há duas horas a fim de
celebrar o rito na basílica. A multidão dava mostras de cansaço, depois de
espera tão prolongada, e de apreensão por motivo do inexplicável acontecimento.
A tensão crescia sempre mais; a preocupação continuamente se agravava. No seio
daquela massa enorme se propagava ligeiro murmúrio, que, apesar do respeito
devido ao local, se ia tornando mais extenso e profundo. Na psicologia
coletiva começava a caracterizar-se e a fixar-se o pressentimento confuso, mas
crescente, de perigo desconhecido (quem sabe que perigo!), mas grave e pendente
sobre a cabeça de todos. A intuição popular percebia o imponderável, indicando
a aproximação de Imenso perigo, de terrível ameaça que, embora invisível,
advertia de sua presença.
Aonde vão as massas buscar intuições?
Talvez à interpretação lógica de algum sintoma, embora exagerado pela
imaginação, como, por exemplo, um atraso, um gesto, um passo nervoso, um
diz-que-diz. O senso do perigo e do medo é o mais antigo e profundo do
organismo humano, e corresponde a instinto dos mais ativos e arraigados por
dura experiência. A maior atenção das defesas físicas dirige-se para a
conservação. Nas multidões, talvez algum sensitivo funcione como antena
receptora em relação à massa, que desempenha o papel de caixa de ressonância,
de amplificador, aumentando desse modo o volume do dinamismo e reforçando, com
a quantidade de energia representada por ela, a qualidade fornecida pelo
sensitivo-antena. De fato, em dado momento da maturação do fenômeno, isto é,
quando se atinge determinado potencial, a faísca incendiária explode e alguém,
desempenhando o papel de faísca, e mais intérprete do que criador, encaminha os
movimentos da massa; assim se desencadeiam correntes incontroláveis. Alguém
percebe antecipadamente aquilo que mais tarde todos perceberão, demonstra-o
sob forma sensível e então os demais o reconhecem. Se o pioneiro do movimento
de fato não ouviu e compreendeu a voz do imponderável, a multidão por sua vez
nada ouve e por isso ninguém o acompanha, se o pioneiro não revela o que todos
já sabem existir, se a dele não é voz coletiva, mas individual, a multidão não
o entende e abandona-o. Trata-se de registro e ampliação, de fenômeno de
ressonância. Primeiro alguém vibra e em seguida sensibiliza a íntima e vaga
intuição geral, revela-a e comunica-a; os demais recolhem essa voz;
controlam-na, caso corresponda à sua íntima intuição; e só nesse caso a
aceitam e perfilham, aderindo a ela e dando-lhe contribuição de forças. Numa
cadeia de intuições, os indivíduos, inconsciente e instintivamente, se auscultam
e controlam mutuamente; desse íntimo contacto intuitivo nasce o consenso
coletivo. "Espontaneamente", dizem. Produzido por todos em geral, e
não por alguém em particular, esse consenso resulta da lei do fenômeno que
nesse momento revivemos e da vontade das forças que o dirigem. Na multidão
como no povo, em todo fenômeno de psicologia coletiva toda célula componente
contribui com sua ressonância, recebe e transmite, alimenta-se da vibração
coletiva e nutre-a por sua vez, restituindo-a multiplicada por si mesma e
reforçada pela própria energia. Desse modo serpenteiam, se formam, oscilam, se
definem, se acentuam, se impõem correntes de pensamento e isso obedecendo
inconscientemente à lei do fenômeno, nascendo de bagatela aparentemente sem
importância, quando no íntimo todas as coisas estão maduras e saturadas e,
finalmente, crescendo como avalancha que tudo altera e destrói com terrível
potência.
Nisso se passou mais uma hora sem que o
Pontífice aparecesse. A ansiedade e o desentendimento iam-se tornando cada vez
mais profundos e começavam a manifestar-se por intenso murmúrio, por agitação
confusa, pelo crescimento daquele bramido de oceano com que se parece a voz das
massas, pelo crescimento daquelas ondas encapeladas que são os movimentos populares.
Viam-se na superfície assim como que rodamoinhos e, em seguida, vácuos,
correntes, ângulos remansosos e, nas passagens estreitas, corredeiras. Aquela
multidão palpitante interrogava a si mesma. Queria sair, libertar-se,
dilatar-se no espaço. Queria
dispersar-se, visto como vinha a faltar-lhe o objetivo representativo da força
de coesão que a mantinha unida. Assim, criara nojo de si mesma, de ser
multidão, de ser unidade que não tinha mais razão de existir como tal; e, como
acontece em organismo desfeito, todo elemento componente queria separar-se dos
demais. Diminuía o impulso unificador e a multidão tendia a dispersar-se. Algo,
porém, a impedia: algum obstáculo contra o qual o dinamismo dominante se
erguia cada vez mais ameaçador. Ninguém abria as portas. Não se abriam nem
podiam ser abertas. O tardio da hora tornava lógica e desejável a volta para
casa. Por que as portas não se abriam? O
desentendimento aumentava; a agitação das ondas fazia-se ameaçadora; o
pânico alastrava-se; o ímpeto inconsciente da alma irracional da multidão
convergia irrefreavelmente em direção das portas, erguia-se terrível contra
aquela inexplicável clausura, aumentava, subia, chocava-se contra os muros,
embolava-se, agigantava-se, concentrava-se na clausura e potenciava-se,
preparada para o que desse e viesse, para subverter fosse lá o que fosse,
desencadeando-se como furacão.
Em meio dessa tempestade, sozinho no
meio de tanta gente, um homem.
Guiado até aquele lugar pelas sábias
combinações de forças da Divina Providência, aparentemente fortuitas e a que
nossa ignorância dá o nome de acaso,
esse homem, indiferente e com a aparência de quem estava muito longe dali, mas
de fato presente e ativo em plena tempestade, esse homem escutava. Ressoava
nele o rugido psicológico da multidão; mais de perto, porém, o impressionava a
voz interior que, acima do turbilhão e vencendo-o, lhe falava. Parecia-lhe
estar no centro do turbilhão, que era superado pela voz. Debatia-se arrastado
pelo poder dessa voz, a que sua razão, lutando desesperadamente, debalde
tentava resistir. Eis ó colóquio íntimo em meio da tempestade:
A voz: "Vamos. Chegou a hora. Está
na hora de cumprires tua missão. Vamos. Agora ou nunca".
O homem: "Senhor, não vão
compreender. Já to disse várias vezes. Não me seguirão. É tolice tentar de
novo. Seria o mesmo que semear nova desordem. é imprudente excitar multidão
agitada, não quero ser o causador de males. Além disso, sinto-me cansado,
incapaz, ignorado e só. Não posso dominar forças tão gigantescas".
A voz: "Está na hora de cumprires
tua missão. Agora ou nunca. Deixa-me ir na tua frente. Segue-me ou então vou
sozinho ao encontro do inimigo".
Na multidão preocupada consigo mesma
ninguém prestava atenção aquele homem; ninguém o notara ainda, ninguém o conhecia.
O furor da luta íntima causava-lhe ansiedade. O deslocamento das pessoas
tinha-o levado até quase ao centro do templo, perto do altar-mor. De repente,
achou-se ele diante de espaço livre, voltado para o centro da balaustrada.
Impulso proveniente da multidão o atirou aturdido naquele espaço e como que um
relâmpago o cegou. A luz do relâmpago lhe apareceu a figura de Cristo. Estava à
sua direita e na sua frente. O homem então exclamou: "Domine, quo vadis[10]?" E,
dirigindo-se ao povo, gritou ainda: "Cristo, Cristo! Eu vi o Senhor!"
A multidão voltou-se estupefata,
ouvindo o grito inesperado, e ficou suspensa. Então, em pé, diante do cancelo
da balaustrada, com a mão direita bem levantada, o homem falou. A multidão
voltou-se para ele, ouviu, entendeu, escutou. Pouco a pouco a calma se
transmitiu até aos mais distantes. E ele disse-lhes com voz retumbante:
"Irmãos! O caráter excepcional da
hora exige métodos excepcionais e nos impõe segui-los. Nos tempos normais a
forma domina a substância nos momentos supremos a substância domina a forma. De
fato, este momento é excepcional. Falo-vos em nome do Cristo. Ele me trouxe até
aqui e vive em mim, mais forte que eu. Não consigo resistir-lhe. No instante em
que eu saía do meio da turba, os meus olhos viram o Senhor e Lhe perguntaram,
como Pedro quando fugia de Roma: "Domine, quo vadis?" E o Senhor me
disse: "Segue-me ou eu então irei sozinho ao encontro do inimigo. Hoje
é o dia de minha batalha e hei de vencê-la desarmado. Em verdade, só desarmados
é que vencemos os inimigos, sejam quais forem". Cristo, aqui presente,
é nosso guia. Esta hora não é a da forma, mas a da substância; é a hora de
distinguir entre a fé criadora dos mártires e a fé cansada e aparente dos
adormecidos. O momento exige essa distinção. Quem está do lado do Cristo, não
importa qual seja a forma humana, desde que verdadeiramente cristão, quer
dizer, para a vida e para a morte, esse dê agora testemunho. Saia da multidão,
entre em fila no corredor central, que está livre, e prepare-se para seguir
Cristo, nosso guia".
O homem respirou fundo; depois,
continuou:
"Não sabeis. Mas em duas palavras
vos direi o que está acontecendo. Estamos presos neste templo. Suas portas estão
fechadas por fora. Não podemos sair. Os que nos sitiam nos crêem ignorantes do
sitio e colhidos de surpresa. No entanto, percebo as forças que nos cercam.
Executando hábil e rápido plano, queriam apanhar hoje aqui reunidos o
Pontífice e os maiores representantes da Cristandade, dentro de seu maior
templo, para de um só golpe destruírem o primeiro, o segundo e o terceiro.
Destruição física, símbolo da destruição moral da Igreja, lábaro da revolta a
ser entregue ao mundo, primeira fagulha da nova barbárie do III Milênio. As
forças do mal uivam às portas do templo, querendo entrar e destruir o germe,
aqui presente, da nova civilização do III Milênio. Lá fora a praça está cercada de carros-blindados, de canhões e de
metralhadoras; os primeiros, prontos a avançar e adentrar pelas portas,
esmagando-vos e ceifando-vos no interior mesmo da basílica; os segundos, em
condições de derrubar a cúpula e os muros; as últimas, prontas para metralhar
na praça qualquer sobrevivente".
Gritos de terror explodiram na turba.
Calmo, o homem continuou:
"Não temais.
Cristo aqui está para defender Sua Igreja. Percebo o ânimo dos agressores
entranhado nas máquinas de guerra, sua única força. Percebo em vosso ânimo o
turbilhão do terror e o incêndio que minhas palavras provocam em vós. Percebo o
ânimo do Pontífice, que conhece esse perigo e gostaria de descer à Praça e
afrontá-lo antes de mais ninguém, gostaria de vir para junto de nós a fim de
morrer conosco; mas foi impedido pelo seu séquito que, por natural e acertada
medida de prudência, deseja pôr-lhe a salvo a augusta pessoa. Percebo, enfim, o
vórtice de potência que desce do céu e exerce pressão sobre mim e sobre vós. É
verdadeiro exército de forças inteligentes chamadas anjos. Precedem-vos, circundam-vos, defendem-vos. Eis que o imponderável
se manifesta. Percebo o milagre iminente de nossa vitória nesta nova guerra
travada sem armas. É o resultado lógico, natural e fatal da natureza e poder
dos elementos em choque. Venceremos".
"O Espírito está
agora conosco no templo e a matéria esta às suas portas, para destruí-lo. A dor
despertou o espírito. Nós, que sofremos, sabemos disso muito bem. A batalha vai
começar. A matéria assalta o espírito por meio da força e da morte. O espírito
afronta a matéria, através da justiça e do amor. Este é o momento da suprema
decisão. Aqui dentro está o Cristo; lá fora, o Anticristo. Estão frente a
frente, cada qual com suas armas. Vencer ou morrer. Civilização ou barbárie,
durante milênios. Estamos em cima da hora e este momento vai decidir. Chegamos
ao momento supremo em que a História vai iniciar nova época e a vida, nova fase
evolutiva estamos no instante exato da passagem de uma civilização a outra.
Nossa adesão, o impulso de nossa vontade livre constituirão a gota que fará
transbordar o cálice e estabelecerá novo equilíbrio no mundo. Podemos escolher.
Podemos aderir-lhe ou repeli-lo. Mas o nosso destino grita-nos: agora ou nunca.
Se negarmo-nos a decidir, durante milhares e milhares de anos choraremos sobre
nossas vidas fracassadas. O momento, supremo, nos exige essa oferta; o mundo
espera esse impulso a fim de passar dos caminhos da matéria aos novos caminhos
do espírito. Ai daqueles que agora desertarem, ai de nós e de nossos filhos, se
recuarmos covardemente".
"Avante! Sigamos Cristo. Demos o
primeiro passo no caminho da ascensão, demos o primeiro lance rumo à nova
civilização. Este primeiro passo, porém, pode começar apenas aqui, no túmulo
de Pedro, em Roma, na Idéia de Cristo, da universalidade e unicidade dessa
idéia central no mundo. A primeira centelha não é civil, mas religiosa, nasce
da maturidade e não do enquadramento; não se origina do homem, cujos caminhos
são exteriores e coativos, mas de Deus, cujos caminhos são interiores e
espontâneos. O primeiro momento, o do impulso inicial, só pode ser místico: é
contato direto com o Alto. Assim, recebido o impulso, a idéia universal, que
emanou do Cristo, irá depois materializando-se pelos caminhos do mundo,
diferenciando-se segundo formas particulares adaptadas aos diversos povos,
será confiada aos cuidados de administradores cuja tarefa consiste em, segundo
o espírito, acompanhar, organizar, plasmar a matéria. Mas sem esse elevado
princípio regulador e sem essa força moral, os Estados serão organismos sem
alma; os povos, arcabouços de ossos e músculos, mas desprovido de cérebro; e
a organicidade moderna não permanecerá íntima e vital, mas exterior e
opressora".
"O velho mundo da força bruta
encontra-se lá fora, com poderosas armas homicidas. Aqui dentro, o novo mundo
com a dinamite do pensamento, o poder do exemplo, a superioridade do espírito.
O bem e o mal, o espírito e a matéria, hoje vão travar batalha decisiva. Deus é
o bem. Satanás, o mal; porém, não prevalecerá. Não passa de instrumento de
Deus e, esgotada sua função, se destruirá nas mãos d'Ele. Eu grito: Venceremos.
Deus está conosco. Eis que o espírito sai dos recintos fechados das igrejas do
mundo, impregna todas as coisas, invade e conquista todas as expressões da
vida. Finalmente, o ciclo da matéria encerrou-se. A matéria cansou-se de tanta
destruição. De acordo com sua própria lógica, percebe que os desastrosos
resultados obtidos a colocam do lado do erro. Já percebe, embora confusamente,
a própria debilidade e sente a reação iminente. Percebe o desejo que a vida
manifesta de reequilibrar-se, atingindo de novo as fontes do espírito, e
agarra-se às suas máquinas de guerra, ao ouro, aos mais baixos sentimentos humanos.
Tudo isso, porém, completa e impiedosamente trairá aqueles que impiedosamente
não crêem senão no direito do mais forte. Quem semeou loucura colherá loucura.
Esta é a hora apocalíptica de sua destruição. A alma do mundo está despertando.
A lei de Deus hoje diz: Basta! E prende de novo a besta em seu inferno. Vamos.
Com o espírito venceremos".
Assim falou o homem. A multidão, que
escutara, sucessivamente atônita, comovida, conturbada e extática, a multidão
calava. Por fora, calma absoluta, mas o fragor do tumulto das almas
ensurdecia. A multidão hesitou um instante só; em seguida, com muita ordem,
calma e segurança, começou a entrar em fila ao longo do corredor central. Os
voluntários do sacrifício eram homens, mulheres, jovens e velhos, de todas as
classes, de cultura, educação, posição social, nacionalidade e, até mesmo, de
religião diferentes, O apelo fora feito a todos, sem outra exigência senão a de
ser simplesmente discípulo de Cristo, e muitos o atenderam: doutos e
ignorantes, homens de ciência e homens de fé, patrões e operários, humildes e
poderosos. Muitos. Até mesmo religiosos e religiosas, de várias Ordens,
militares de todos os postos hierárquicos, campeões de todas as modalidades.
Mesmo das fileiras do clero oficial, agrupado na abside do templo, alguns
haviam entusiasticamente acorrido. Enquanto o multiforme cortejo se ia
formando, o homem que havia falado olhava-o, rezando.
Antes de mover-se do lugar, ajoelhou-se
diante do altar, em seguida pediu uma cruz ao clero do templo, não metálica,
mas de madeira como a de Cristo e, assim, o mais pobre possível. Não
encontraram; por isso, com duas tábuas improvisaram uma. Abraçou-a, beijou-a e começou
a andar. Enquanto ia atravessando as fileiras dos que haviam respondido ao
apelo, estes se iam colocando atrás dele, em silêncio e em ordem. Assim se
formou o cortejo dos voluntários, dispostos a enfrentar o perigo desarmados,
em nome de Cristo e em defesa do espírito, com o ânimo heróico e pacífico dos
primeiros mártires cristãos. Não se tratava de enquadra mento sob coação, mas
de adesão livre e espontânea de homens convictos. Todos iam acompanhando o
homem que carregava a cruz e, caminhando lentamente, já chegara ao fundo da
igreja, de modo a ficar em frente da porta principal, fechada por fora. No
momento as forças do bem eram prisioneiras das forças do mal. Aí o homem parou,
voltou-se para o mais próximo dele e disse-lhe: "Ajuda-me, irmão, a carregar
a cruz, pois me faltam forças físicas e vou acabar caindo ao longo do caminho.
Vou na frente. Minha cruz. não é de matéria, é a cruz invisível do espírito”. O
irmão compreendeu e apertou a cruz de madeira. Então o homem caminhou até
encostar a mão na grande porta principal, virou-se e encostou-se nela, abriu os
braços e ficou como se crucificado. Fitou a multidão, fitou o templo, elevou os
olhos até à cúpula, orando e invocando, à espera. Nada. A multidão esperava a
ordem de abrir a porta, do lado de dentro. Nada. Suspensos, todos esperavam um
sinal, uma ajuda, a realização do impossível. Nada. Inopinadamente, porém, dos
olhos do homem saiu um relâmpago que se transmitiu à multidão como se fosse
descarga elétrica. Seus olhos fixaram-se em determinado ponto, em frente e à
sua direita; pareciam estar vendo alguém; e começou a falar-lhe lenta e submissamente.
Disse, chorando, três frases, mas nem mesmo os mais próximos o escutaram. Em
seguida, afastou-se da porta, ajoelhou-se, beijou o chão, levantou-se e com voz
retumbante gritou, dirigindo-se à multidão: "Cristo está conosco.
Guia-nos. Sigamo-lo". Em seguida, voltou-se de frente para a porta, abriu
de novo os braços, levantando-os bem e olhou para cima. E a multidão, em
resposta, vibrava, acentuava e, como caixa de ressonância, ampliava tudo
quanto sentia, multiplicando-o e difundindo-o pelo imenso templo. Assim, a
invocação, que o homem dirigira ao céu, se tornou potente e se agigantou até ao
ponto de transformar-se em irresistível turbilhão de forças. A terra parecia
tremer. Não mais, porém, por causa de impulso destrutivo, mas pelo ímpeto do
mundo a caminho da ressurreição.
XVII
VISÃO (2º TEMPO)
A espera não se prolongou muito. As
altas tensões ou se transformam ou se rompem. Golpeada violentamente pelo lado
de fora, a porta abriu-se. Escancarou-se. Fortíssima ventania entrou pela
basílica a dentro, raivando, como se a mão do ódio percorresse aquele oceano de
cabeças à procura de vítimas; algo explodiu do lado de fora e foi quebrar-se
contra o arco de círculo que circunda a praça. Depois, opressivo silêncio.
O homem,
de braços abertos em cruz, avançou lentamente e transpôs a porta. Os demais seguiram-no. Colocado à
esquerda da cruz carregada pelo irmão, ele abria o cortejo. Exatamente as
forças do mal, escravas das do bem, tinham escancarado as portas para o
cortejo sair a céu aberto. Assim, o cortejo atravessou o átrio e desembocou na
praça. Enquanto isso, vários homens de armas em pé de guerra recuavam, às
tontas, para os lados do átrio. As portas tinham sido abertas por eles a fim de
que se começasse a matança; para isso, fizeram avançar vários carros blindados,
com a intenção de fazê-los penetrar no interior da basílica; pensavam que a
multidão ignorasse o cerco da basílica e, assim, essa inesperada surtida de
gente ordeira e desarmada os colhera de surpresa. Não compreendiam essa nova e
estranha coragem de homens desarmados, que afrontavam calmamente indiscutível
perigo. O medo de alguma oculta insídia os mantinha suspensos. O inimigo não
esperava essa mudança tão imprevista de situação. Na grosseira máquina
psicológica, que estava dirigindo os homens da matéria, tardou muito a
acender-se o relâmpago do pensamento, que, ao contrário, profunda e velozmente,
iluminava a mente do homem que estava perto da cruz. Houve um momento de hesitação.
Bastou esse pequeno atraso da ação, essa momentânea incerteza de diretrizes
para reforçar e firmar a corrente de pensamento oposta e representada pelos
homens do cortejo; na praça espalhou-se no meio dos inimigos sensação de
místico terror. Algo, a que obedeciam, embora desconhecessem, os imobilizou; e
os petrechos de guerra, potentes, tecnicamente perfeitos e prontos para a ação,
ficaram paralisados a partir da primeira mola: o espírito.
Avolumando-se à medida que saía do
templo, o cortejo, progredindo pela direita de quem sai, ia-se escoando ao longo
do pórtico. Na frente caminhava o homem, ao lado da cruz e de braços bem
levantados. Da multidão muitos lhe imitavam o gesto, como invocação suprema.
Ele havia entoado em voz alta um ritmo grave e solene, repetindo a palavra-síntese
daquela cena e daquele momento, da espera e da defesa: "Cristo". Esse
brado ecoava na multidão, que, repetindo-o em todos os tons e através de
milhares e milhares de vozes o transformava em poderoso clamor, que investia
contra as colunas da praça e os muros da basílica, se derramava pela cidade
eterna a fora e, finalmente, parecia explodir bem lá em cima. Milhares de mãos
se erguiam, suplicando. Algo, como risonha bênção de Deus, parecia relampejar
nos céus, brotada do hino de intermináveis legiões de anjos. E as armas
calavam.
Nesse meio tempo, os homens de armas,
em sua lógica. psicologia simplista, já haviam decidido sustar momentaneamente
a ação, para melhor divertir-se à custa de inimigo inerme, sem necessidade de
pressa porque a presa estava garantida ou, numa palavra, por grosseira
curiosidade de saber qual seria o fim de tudo aquilo; o homem perto da cruz
percebia tudo e mantinha completo controle sobre si mesmo, pois conhecia muito
bem, e dirigia, o fenômeno espiritual de que era o centro. De cabeça alta,
cabelos ao vento, braços abertos e levantados para cima, como antenas
receptoras, auscultava as correntes de pensamento. Primeiro, registrava as
ondas longas, extensas e lentas, das radiações diurnas da luz solar, da terra,
dos tijolos dos edifícios, da exuberância puramente animal dos homens de armas,
da vida vegetativa da multidão, tudo isso nas entonações. mais variadas. Não
era, porém, essa a voz que ele procurava cuidadosamente sintonizar; de fato,
concentrava toda a sua atenção nas ondas curtas e rápidas do pensamento, com
elas sintonizando-se em alta freqüência. Abria-se-lhes, com grande
receptividade, e elas lhe chegavam com voz sutil e clara, que se elevava, como
luz nas trevas, acima dos tons baixos e profundos, escuros e densos das outras
vibrações mais materiais. Podia, desse modo, ouvir a voz, não percebida pelos
outros, da alma dos homens de guerra; e, como não era ouvido por ela, podia
controlar o perigo, logo à sua primeira manifestação, — o pensamento, sem o
qual nada se põe em movimento. Assim, percebera também a decisão do Pontífice,
que impusera a seu séquito a sua firme vontade de descer para junto do povo. E
percebera, além disso, que outro cortejo, o do papa, se pusera em movimento,
convergindo em direção da porta do templo, onde os dois cortejos se
encontrariam. Por isso, o homem se sentia profundamente comovido por aquele
brado da multidão, que repetia em coro a sua invocação: "Cristo, Cristo,
Cristo", só uma palavra, nada mais, uma palavra clara e abrasadora, repetida
em ritmo forte e tenaz, uma palavra em que a vida parecia gritar sua vontade
de progredir para o alto. Em plena na tempestade, acima dos séculos, ele perscrutava
através do Tempo para, finalmente, exultar com a futura vitória de Cristo,
aquela vitória pela qual, dando-se a si mesmo também lutava. Haviam afrontado
a morte e agora Deus os salvava. Esse exemplo constituía apenas o primeiro
passo da. grande e pacífica revolução espiritual. Esse exemplo mais tarde se
multiplicaria e a fé sairia do interior dos templos, da prisão dos claustros,
do cárcere das formas. A conquista de cada nova fase evolutiva significa
expansão de Deus nos corações, é primaveril desabrochar de flores. Diante do
exemplo de Roma, outras igrejas abririam as portas e deixariam sair outras
multidões. O homem compreendia as conseqüências e o imenso alcance de sua
atitude. Julgava-se tudo e, ao mesmo tempo, nada; bem no centro do turbilhão e
do drama e, no entanto, só; sentia-se perdido, mas vitorioso; exausto e,
apesar de tudo, fortíssimo. A debilidade residia em sua pobre condição humana;
e a força, na visão de Cristo, que, invisível, o guiava.
Assim, o cortejo chegou ao fim da praça
e desfilou diante do grosso dos carros blindados e dos canhões. Então, o homem
que lhe estava à frente escutou mais atentamente e pôs em jogo sua
receptividade no sentido de melhor compreender a psicologia do inimigo.
Percebia que até mesmo os homens da guarnição dos carros blindados e dos
canhões pertenciam à vida, eram vida e sofriam o império de suas leis. Advertiu
que a natureza desses homens de tal modo se saturara de vibrações maléficas
que eles mesmos lhe sentiam a perturbação, como peso contra o qual, por força
da lei de equilíbrio, a vida reagisse, como negação contra que instintivamente
se rebelava o ser desejoso do próprio progresso e não de autodestruição.
Percebia, no subconsciente daqueles homens, ferverem vibrações antagônicas, de
onde subiam para a consciência idéias contraditórias. Naqueles ânimos duas
correntes de pensamento se digladiavam. Queriam vencer, mas odiavam aquela vida
de bestas-feras. Não agüentavam mais. Nem a insensibilidade nem o hábito os
defendia mais. As forças maléficas empregadas por eles saturavam-nos ao ponto
de envenená-los; e a vida até mesmo neles queria viver. Tantos males e tantas
dores haviam eles semeado, lançando-os contra tanta gente, que agora se voltavam
contra eles mesmos, agredindo-os e sufocando-os Por isso, naqueles ânimos a
reação se estava elaborando. Ao mesmo tempo, o imponderável exercia pressão no
sentido dessa mudança. O homem do cortejo ouvia esse tempestuoso choque de
forças, essa trágica maturação de almas. Tinha a impressão nítida de que o
fenômeno estava quase atingindo seu ponto crítico e, dentro de uma fração de
segundo, esse sistema de forças estaria decomposto; percebia que para lá desse
ponto crítico, o fenômeno assumiria nova forma, isto é, o dinamismo se
inverteria e as forças componentes se aplicariam em direção oposta. Essa
precipitação de equilíbrios era iminente. Num átimo se desencadeariam as
conseqüências exteriores e materiais.
O fenômeno já estava maturado. E eis
que de repente o imponderável pareceu explodir e a luz se fez nas almas dos
inimigos. A corrente construtiva da vida e do bem reconquistara a
superioridade sobre a corrente destrutiva da morte e do mal. Aqueles homens não
puderam resistir por mais tempo e renderam-se ao cansaço de seu mau modo de
agir, sentiram nojo de si mesmos, compreenderam a inutilidade do homicídio, a
estupidez em que o ódio se transforma, se considerarmos os objetivos da vida e
a alegria de existir e amar. Compreenderam, então, havê-los iludido e traído o
mal em que haviam acreditado; terem sido vítimas de miragem; e que o mal muito
mais depressa envenena quem o pratica do que a pessoa que o recebe; aí,
perceberam como a vida por eles escolhida era a vida de demônios e só seria
muito mais bela na proporção em que a paz substituísse a. guerra, o ódio se
transformasse em amor e o mal em bem. Aquele singular cortejo, a desfilar-lhes
diante dos olhos, lhes falava desse outro mundo mais belo, em que agora até
eles mesmos se esforçavam por entrar, e, também, do tipo de conduta, mais
civilizado, de que se sentiam expulsos. Comparavam-se com os fiéis, que,
desarmados, mas possuídos de coragem inaudita, afrontavam a morte, em paz,
rezando; comparavam sua férrea disciplina militar com a disciplina livre e
consciente daqueles homens convictos; e procuravam saber qual a força capaz de,
sem armas, mantê-los assim. unidos. Teriam podido exterminá-los. Então, por que
não faziam funcionar as máquinas de guerra? Por que a inusitada estratégia
daqueles homens inermes triunfava e a força armada se tornava inoperante?
Alguma coisa os paralisava. Que era? Onde estava e em que consistia esse
imponderável a bloqueá-los assim? Sentiam-se enojados de si mesmos e das
máquinas; indefinível descontentamento os impelia a odiá-las e a odiar, não os
homens inermes e pacíficos que confessavam aquele Deus de todos, tanto de
vítimas como de agressores, mas os petrechos de guerra e os inventores dessa
maldita técnica de destruição e da morte. Não mais se sentiam convencidos da
força que não vence pelo livre convencimento, mas oprimindo e sujeitando, ao
observarem o espetáculo de seres livres, mantidos espontaneamente em estreita
união por força totalmente diferente. Os homens de armas e os homens do
espírito representavam duas experiências humanas opostas; e os primeiros
percebiam, face a face com os últimos, que iriam precipitar-se no mais trágico
e absurdo fracasso. No entanto, mesmo sem armas, que coisas grandiosas não se
poderiam fazer apenas com o poder da fé e do amor! Aquela mesma praça, onde se
encontravam, servia de exemplo. Os dois sistemas opostos de conduta humana ali
estavam em plena ação e se defrontavam, desafiadoramente. Esse não passava de
simples episódio da grande luta entre o bem e o mal. Este sentia, em presença
do bem, a intima contradição que o inferiorizava.
"Por que atirar contra homens
inermes? Com que fim?" Os homens de armas diziam de si para consigo:
"Não são mais corajosos do que nós? Não seríamos covardes, se os
matássemos? Não temos a mesma coragem que eles nem somos capazes de fazer o que
fazem. são, pois, mais fortes. Contudo, que força é, pois, essa sua que lhes
permite não dar atenção à nossa, ao ponto de enfrentar-nos, completamente
desarmados? Procuremos, pois, contato com eles e, se for possível, conquistemos
essa nova força cujo segredo não sabemos. Esses homens não nos odeiam, não
querem ser e nem mesmo são nossos inimigos. Mas, então, por que esse absurdo de
odiar quem não nos odeia e agredir quem, sem arma alguma, se expõe a nossos
golpes? Não! Basta. De agora em diante, não matemos mais, não odiemos mais.
Como eles, também nós temos alma. Daqui por diante, não seremos mais apenas
número, instrumento, máquina, escravos do terror!" Assaltou-os, então,
irresistível necessidade de encontrar algo mais inteligente, mais vital e consciente,
mais elevado, mais livre e adequado, irresistível necessidade de autonomia, de
ouvir novamente a voz das grandes idéias que constituem a base da vida e o
apelo de Deus. Novo desejo galvanizou-os, as forças do mal, que se derramavam
na hora histórica, naquela multidão, no mundo, derramavam-se também sobre eles.
O imponderável, que tudo movia, também a eles envolveu e arrastou. O instinto
vital movimentou-os, impeliu-os. Saíram dos carros, abandonaram canhões e
metralhadoras, aproximaram-se, incorporaram-se ao cortejo, acompanhando a cruz
sob a universal invocação de Cristo.
Agora o fenômeno tendia lógica e
espontaneamente para a conclusão. Engrossado cada vez mais por novos adeptos
e depois de haver feito a volta completa do pórtico, o cortejo já se
aproximava do átrio e da porta principal, a fim de reentrar na basílica. O
homem, que estava à testa do cortejo, chegou primeiro. O Pontífice, tendo
descido ao templo, esperava-o de pé, sozinho, destacado de seu séquito, na
porta da basílica. Quando o homem, acompanhando a cruz, chegou bem perto, o
Pontífice disse-lhe, estendendo-lhe os braços:
"Meu filho, você salvou a
Igreja".
Pai, respondeu: "Cristo fundou
hoje a nova e universal civilização do espírito. Trago-vos a legião dos que
primeiro o afirmam, os voluntários do sacrifício, a fim de a conduzirdes ao
túmulo de Pedro, ao altar de Cristo".
Disse e ajoelhou-se diante da soleira
da porta e beijou-a perto dos pés do Pontífice, que o abençoou. Depois, pondo-se
de lado, perto do estípite direito, assim falou:
"Irmãos! Antes de separar-me de
vós, quero deixar-vos estas três idéias:
“1º) Minha missão
está cumprida. Deixai-me desaparecer na sombra. Da sombra saí e para a sombra
retorno. Não penseis em mim, que não passei de miserável instrumento. O
importante é apenas que a semente atirada ao solo germine e frutifique.
“2º) Respeitai a
autoridade, como superior principio orgânico e, por isso, elemento de vida e
de evolução; dai exemplo dessa ordem em. que consiste o futuro do mundo. Respeitai,
também, por isso, a autoridade da Igreja. Não julgueis. Deixai a Deus o
encargo de julgar os homens. Não penseis neles, meros instrumentos, mas em Deus
que tudo dirige, nem naquilo que dizem ou fazem, mas naquilo que Deus diz ou
faz, por meio deles como por meio de toda a humanidade.
“3º) Ide pelo mundo, ó voluntários do
sacrifício, homens da primeira hora, fundadores da nova civilização do III
Milênio. Fostes escolhidos porque enfrentastes a prova e a vencestes. Sede
sacerdotes do espírito. Não busqueis a força. O poder da justiça é poder que a
supera; não há fraqueza maior do que a injustiça. Se fordes justos a. força
irá ao vosso encontro; caso contrário, trair-vos-á. Vossas armas de conquista
devem ser: retidão, bondade, sacrifício, amor. Os imponderáveis do espírito
tornar-se-ão verdadeira potência dentro de vós, se, ao invés de pregá-las
apenas com palavras, viverem em vosso exemplo, se seguirdes Cristo, vibrando
apaixonadamente na vida ativa. Semeai com entusiasmo e não com incerteza e
desânimo. Antes de dar torna-se necessário possuir e para possuir é preciso já
ter conquistado vitórias dentro de si mesmo e através de esforço pessoal. Vivei
no mundo, mas seguindo a Cristo. Falai como Ele, isto é, pelo exemplo. Hoje
vencestes a matéria, pois desarmados enfrentastes a morte. Começastes pelo
exemplo; continuai dando o exemplo. Não adianta parecer; é preciso ser. Se a
consciência nos condena, de nada nos vale haver conquistado os aplausos do
mundo. Não sejais ricos por fora e pobres por dentro; sede, isso sim, ricos
por dentro e pobres por fora. O objetivo da vida é ascender. Conquistai
qualidades, que constituem tesouros inalienáveis, e não bens materiais, que se
perdem. Ascendei e ajudai a ascensão alheia. Sede sempre construtores, afirmando,
e jamais destruidores, negando. Não é com máquinas de guerra nem com as armas
da lógica e da polêmica que vencemos o inimigo, mas compreendendo-o e
abraçando-o. Antes de exigi-los. dos demais, exigi de vós mesmos a fadiga, o
dever e a prática das virtudes. Primeiro, reformai-vos; depois, isso, sim,
podeis pensar na reforma de vossos semelhantes. Seja esse o segredo de vosso
poder. Mantende-vos ágeis, ligeiros, vivos no espírito, bem próximos das
fontes; temei as incrustações,. as cristalizações, as deformações, os
acomodamentos, o farisaísmo que é moléstia psicológica de todos os tempos, a
fossilização senil de todas as religiões. A forma não deixa de ser necessária,
mas acomoda e adormece. Primeiro, buscai a substância, que é a alma de todas
as coisas. Do contrário, sereis apenas cadáver, foco de infecção que propagará
a morte. Só o espírito é vida. Lembrai-vos disto: jamais. mentir. manter-se
vigilante; jamais pactuar com o mal; jamais acomodar-se. Quem mais possui mais
sabe e mais autoridade tem e, em conseqüência, não tem mais direitos do que os
outros, e sim mais deveres. O mundo tem fome de verdade: deveis nutri-lo,
vivendo a verdade. Sede instrumentos da criação, operários de Deus, seus
colaboradores na. construção e no progresso. Semeai e a semente germinará,.
produzirá novas sementes e através delas nascerá de novo. Ide pelo mundo e
semeai no tempo a nova civilização do espírito".
O homem
calou-se e mostrou o Pontífice aos fiéis, a fim. de que estes o seguissem. Em
seguida, afastou-se e desapareceu no meio da multidão. O Pontífice recusou-se a
sentar de novo na sede gestatória, em que chegara até à porta do templo, fê-la
afastar-se juntamente com o seu. séquito e a pé, mais triunfante ao lado da
cruz de madeira, colocou-se à frente do cortejo, que voltou vitorioso à nave
central. E. assim até ao altar-mor. Aí, o Pontífice mandou tirar a cruz de ouro
e prata que brilhava no centro do altar e pôs no seu lugar a pobre cruz de
madeira, vencedora da grande batalha. Depois, devagar, porém, com entusiasmo,
executou até o fim o ritual sagrado, como estava previsto.
O cortejo dos voluntários vitoriosos
havia-se enfileirado ao redor. Todos os que compunham tinham entrado no templo:
homens, mulheres, jovens e velhos, de todas as classes, de educação, cultura e
posição social diferentes: doutores e ignorantes, homens de ciência e de fé,
patrões e empregados, humildes e poderosos. Havia também religiosos e religiosas
de todas as Ordens, militares de todos os postos, expoentes de todas as castas.
Aí estavam os voluntários do clero oficial, saídos das fileiras grupadas na
abside da basílica. Estavam representadas as nacionalidades e as religiões
mais diferentes. Havia também os adesistas da última hora, que aumentaram as
fileiras e, finalmente, os homens de armas, saídos das máquinas de guerra e
pelo exemplo convertidos ao amor de Cristo. O apelo fora universal e, assim,
todos reentraram no templo, seguindo a Cristo e agora unidos sob a Sua cruz.
Essa concórdia do mundo, que após dois
mil anos de luta, e quase no limiar do terceiro, mais uma vez reencontra a
Cristo; o espetáculo dessa multidão, a princípio massa confusa, agora
reconstituída de acordo com nova ordem e unidade mais vasta; esse triunfo final
do anjo sobre a besta e do espírito sobre as armas embotadas da matéria; tudo
isso constitui o último lampejo da luz em que, em gloriosa apoteose, esplende
esta visão. No esplendor desse último lampejo, a visão deteve-se, imóvel,
pequena fração de segundo. Depois, como cometa que riscou o firmamento, a luz
se apagou lentamente e desapareceu, deixando atrás de si luminosa esteira.
XVIII
COMENTÁRIOS E
PREVISÕES
Essa visão também podemos entendê-la
como expressão do drama do imponderável. Mais do que pessoas, falam-vos forças
ativas, mais sábias e capazes que as pessoas. Essas forças, de acordo com o
pensamento da Lei, enquadram-se e movem-se disciplinadamente como soldados;
influindo e por sua vez recebendo influência, como binômio de ações e reações,
funcionam organicamente e dirigem-se ao objetivo determinado. Conforme a sua
natureza e poder, coordenam-se como se fossem sinfonia orquestrada para
numeroso conjunto musical. Também na luta guardam proporção; seus
desequilíbrios desaparecem em novos equilíbrios, sua dissensão se resolve em
harmonia. Essa circunstância dá sensação de musicalidade ao desenvolvimento do
sistema. Toda força tem personalidade inconfundível; é fenômeno distinto,
embora combinado com outros; entrelaça-se, sem misturar-se; reage de acordo com
trajetória e lei de desenvolvimento próprias e obedientes à lógica fornecida
por sua natureza, potência e objetivo. Aí estão a matéria e o espírito, a Igreja
e o homem, Cristo e a multidão, o bem e o mal, as forças biológicas e o destino
do mundo. E esse drama emerge do fundo da evolução humana e dos destinos da
vida em hora histórica apocalíptica.
Dai se vê como o imponderável pode
oferecer-nos novos motivos a explorar, desde que a arte queira apossar-se do
imaterial, onde o espírito pode em qualquer terreno fornecer modelos de primeira
plana, segundo o conceito de elevada estética. Poder-se-iam assim expressar os
dramas do abstrato, em que as forças imponderáveis agiriam como seres vivos e
funcionariam como realidade objetiva. Todo progresso, inclusive o artístico,
apenas pode consistir em aproximarmo-nos cada vez mais das fontes da vida e,
como o objetivo da arte consiste na expressão, em exprimir cada vez mais
claramente o pensamento divino existente na intimidade das coisas. Nova arte,
a do imponderável, poderia desse modo penetrar cada vez mais profundamente na
realidade e revelar-lhe cada vez mais os íntimos mistérios. Exprimir,
revelar, tornar perceptível tudo o que, na imaterialidade do espírito, escapa
aos sentidos sempre constituiu função da arte. Portanto, tudo isso para ela não
passa de conseqüência natural de seu desenvolvimento lógico. Compete-lhe dar
expressão ao inexprimível, tangibilidade ao imponderável, tornar perceptível o
evanescente mundo das forças e das idéias. A arte será tanto mais legítima
quanto mais fielmente cumprir essa função de transportar o céu para a terra, de
criar contatos com o divino. A isso se reduz todo o seu valor educativo no
sentido mais elevado do termo isto é, evolutivo, instrumento de
espiritualização Depois do atual período de iconoclastia artística, a nova arte
do imponderável será a arte da nova civilização do espírito. O homem sensível
poderá assim roubar aos céus novas belezas e trazê-las para o mundo, tornando
mais compreensíveis as sutilezas das coisas espirituais. A gênese de tudo está
na parte interna, no espírito, em Deus; as coisas excelentes e poderosas brotam
das profundas nascentes da vida. A técnica está na periferia, na superfície,
na forma. A inspiração vem do centro, da profundidade, da substância. A
análise destrói, a síntese constrói, a forma causa a morte, o espírito
vivifica.
Mas essa visão podemos entendê-la ainda
sob outro aspecto, quer dizer, como plano de combate. O espírito não vence por
acaso. O milagre de sua vitória aqui fica logicamente explicado, estudadas as
forças em que essa vitória se baseia, a estrutura de seu sistema e a lei de seu
desenvolvimento. Esse drama representa apenas um momento do imenso drama
humano da luta entre o bem e o mal. Vemos o passado e o futuro, o involuído e o
evoluído se defrontarem em batalha decisiva, que o evoluído ganha por força dos
próprios princípios da Lei e da vida, tais como os expusemos nos capítulos
precedentes. Isso constitui a nota dominante deste trabalho, de que essa visão
pode considerar-se o ponto culminante. Também aqui se vê o mal posto a serviço
do bem, isto é, funcionando como resistência excitadora de reações, que faz o
triunfo nascer no campo oposto. Assim, a Lei, sem constranger-nos, nos induz a
conquistar o nosso próprio bem à custa de nosso próprio esforço; assim, o mal,
reabsorvido e anulado, se transforma finalmente em bem. Notemos por último, que
a nova civilização do espírito não nasce sem defesa, mas armada com novas
armas, pois a luta, elemento vital, subsiste, embora se tenha transformado ao
transferir-se para plano mais elevado. Todos necessitam de armas e defesas;
porém, como a nova técnica difere da atual! A que vimos vencer no momento
crítico da primeira manifestação da nova civilização será a mesma a defendê-la,
mais tarde, no decurso de seu desenvolvimento e execução. Trata-se de novo
princípio defensivo, de método e estratégia diferentes dos que hoje seguimos;
trata-se de novo modo de conceber a vida e guiar-lhe as energias. Assim
centuplicamo-lhes o rendimento. A conversão dos homens de armas não significa
apenas reação destrutiva por parte das forças protetoras da vida nem apenas a
exaustão de uma fase a que se deve retornar depois de percorrido o período
oposto; representa, isso sim, revolução biológica, degrau mais alto da
conquista evolutiva; não é conversão momentânea de alguns homens, mas a
conversão da força à justiça, da matéria ao espírito.
Observemos agora a posição e o
significado dessa visão no desenvolvimento conceitual deste volume e em relação
aos demais com que se relaciona. Aliás, já no prefácio foram todos reunidos em
duas séries ou trilogias. A primeira compreende: 1) Grandes Mensagens e A Grande
Síntese; 2) As Noúres; 3) Ascese Mística. A segunda: 1) História de um Homem; 2) Fragmentos de Pensamento e de Paixão;
3) A Nova Civilização do Terceiro
Milênio. A primeira trilogia encerra-se nas últimas páginas de Ascese
Mística com a previsão da guerra atual. Esse ciclo é, pois, de preparação e
representa o prenúncio do cataclisma e o esquema da nova civilização. O segundo
podemos chamá-lo executivo e reconstrutivo e aprofunda esse esquema no que diz
respeito ao seu aspecto humano. Trata-se de dois pensamentos diversos, de duas
perspectivas diferentes, a do "antes" e a do "depois", a de
quem se prepara para a prova e a de quem já vai saindo dela. A guerra mundial
de nossos dias se situa no meio das duas trilogias. Desse modo, para nós essa
guerra tem valor mais profundo que o de simples acontecimento político, pois,
vista em sua substância biológica, nos mostra seu verdadeiro significado e
objetivo. É mais fácil intuir o atual conflito, em suas causas íntimas, do que
compreendê-lo racionalmente, em seus aspectos exteriores; isto é, concebemo-lo
no seu sentido moral e evolutivo, bem mais elevado do que os demais dizem e
sabem. A guerra nos aparece, assim, como um assalto do mal a serviço do bem,
desejada pela ignorância humana e permitida por Deus como útil prova; deve,
assim, entender-se como destruição reconstrutiva, condição de renascimento e
preparação da nova civilização do 3º milênio.
O conflito permanece, pois, ambientado no desenvolvimento histórico da época
de que forma o acontecimento culminante e decisivo. O próprio conceito de
"vitória" assume aqui significação muito mais vasta do que a comum,
devendo ser compreendida como vitória no espírito. Eis o significado da visão:
a vitória final não dos homens, mas de Deus. Nos equilíbrios da vida apenas o
resultado político não basta para justificar tantas dores dos povos, tantas
perdas de bens para todos e tão violento esforço da humanidade. A vida nada
faz sem finalidade e o objetivo que deve atingir deve ser proporcional ao
trabalho por ela desenvolvido. Isso é conseqüência evidente na lógica da Lei.
Esta nos diz que a vida não fracassa, não perde tempo e, de acordo com sua
economia, proporciona os resultados o esforço necessário para atingi-los. O
homem é ignaro e se guia pela eterna sabedoria de Deus. Já o demonstramos à
saciedade. Todas as dissensões e lutas do homem são apenas fadigas evolutivas;
suas dores, provas; suas vitórias e derrotas, provações para conquista de
consciência; vencedores e vencidos não passam de colaboradores do progresso
humano e lutam entre si apenas para criar na luta a atividade formadora, do
mesmo modo que, bem ou mal, todos são, para felicidade geral, servos de Deus.
Para o bem geral porque, no caso-limite do malvado incorrigível e por isso
condenado à dor eterna, a Lei, movida por piedade suprema, inseriu a
autodestruição na estrutura mesma do sistema; assim, o rebelde empedernido
acaba como tal sendo reabsorvido por aniquilamento.
Dois conceitos predominam na primeira
trilogia; ei-los: 1) a iminência de tremendo cataclisma mundial e de período
de grande dor e destruição; 2) a preparação de nova civilização do espírito, à
qual tanta ruína material dará nascimento. O primeiro acontecimento (anunciado
quando ameaça alguma pendia sobre o mundo e as comodidades da vida serviam de
fundamento à concepção materialista) verificou-se plenamente, com todas as
tintas carregadas com que foi descrito. O segundo acontecimento, que parecia
anacrônico quando anunciado como problema de vida e de morte e colocado como
fundamento de A Grande Síntese, está
hoje tornando-se atual, pois, convulsionadas as velhas diretrizes, o mundo procura
outras. Hoje que o ciclo da espera foi superado por experiência viva, convém,
porque estamos no limiar de nova civilização, reler o pensamento dos volumes da
primeira trilogia, extraindo os trechos mais convincentes desse argumento.
Ei-los. Foram extraídos de publicações impressas, com data conhecida e são
documentados por elas.
Grandes
Mensagens. Mensagem do Natal, 1931 "Grande
revolução se aproxima na história do mundo... Vosso progresso científico...
acumula energias, riqueza, meios para nova e terrível explosão..." —
idem: "Observo lento, mas constante, aumento de tensão, como prelúdio da
inevitável queda do raio... Já se foi o tempo em que, como os povos viviam
isolados uns dos outros, os cataclismas da história podiam ficar circunscritos;
hoje não." - Mensagem da Páscoa da Ressurreição, 1932: "A psicologia
coletiva pressente confusamente grande mudança de diretrizes... — idem:
"... Ousai, abandonando velhos atalhos, porém não ouseis às doidas e
exatamente nos pontos em que não tendes motivo para ousar; ousai em direção
dos céus e nunca tereis ousado demais. De vossa crise, crise dolorosa e profunda,
nascerá o novo homem do 3º milênio... Neste resto de século se decide o 3º milênio. Ou vencer ou morrer . —
Mensagem aos Cristãos, por ocasião do XIX centenário da morte de Cristo, ...
vossa união forme barreira contra o mal que está na iminência de desfechar
tremendo assalto. Grandes lutas exigem grandes unidades..." — idem:
"A humanidade caminha inexoravelmente para as grandes unidades políticas
e espirituais".
Reportemo-nos agora A Grande Síntese, primeiramente
publicada, em capítulos, na coleção de revistas de janeiro de 1933 a setembro
de 1937. Cap. V: "A mente humana
procura um conceito que a impressione vivamente, conceito elevado e mais
profundamente sentido, capaz de orientá-la rumo à iminente nova civilização do
3º milênio..." — Cap. X:
"Conseguireis produzir a energia necessária para a desintegração atômica,
isto é, a transformar a matéria em energia. Vossa vontade conseguirá penetrar
na individualidade atômica, alterando-lhe o sistema". — Cap. XLII:
"A nova civilização do 3º milênio está iminente; urge, por isso,
lançar-lhe as bases conceituais..." — idem: "Há um superamento
imposto pela evolução da humanidade neste momento histórico de que está para
nascer a nova civilização do 3º milênio..."
— Cap. XCVII: "As leis da vida, adormecida em ritmo igual durante
milênios, receberam repentino choque e estão hoje despertas para lançar-vos
rumo à nova civilização do 3º milênio..."-
Cap. "Despedida": "Este é desesperado apelo à sabedoria do
mundo... A civilização moderna lança a semente com vertiginosa velocidade e
espera a fabricação intensiva de sua futura dor. Será a dor de todos. Poderá
tornar-se maré' montante que destruirá a civilização. Os meios estão prontos
para que. hoje um incêndio se torne mundial... Se um. princípio coordenador não
organizar a .sociedade humana esta se desagregará no choque de egoísmos. Falei
em. momento crítico, numa curva da história, na aurora de nova civilização...
Enquanto na terra existir um só bárbaro, tentará rebaixar a civilização até ao
seu próprio nível, invadir e destruir para aprender. As raças inferiores logo
não se impressionarão mais com a superioridade técnica européia e. se apossarão
dela para, em seguida, agarrar o velho patrão pelo pescoço... Que os justos não
temam....
Estes conceitos se desenvolvem e
afirmam no volume As Noúres, Cap. IV: “... O momento. histórico é grave,
solene, rico de valores em putrefação e de germes em febril desenvolvimento,
como nos tempos messiânicos.... percebo as correntes espirituais do mundo e
tenho a nítida sensação de próximas e novas diretrizes do pensamento humano,
que levarão de vencida as resistências de todos os misoneísmos....” — idem:
“... Toda a Europa se arma e, todavia, treme diante do espectro de uma guerra
que poderia, percebe-se, marcar-lhe o fim da civilização... Uma fronteira
dividirá. de ponta a ponta a Europa em duas partes, a da ordem e a da
.desordem,. em cuja defesa lutarão de maneira concreta. as forças cósmicas do
bem e do mal. Se as forças desagregadoras .do. mal vencerem as.. forças
construtivas do bem então as portas da Europa desorganizada ficarão
escancaradas diante da ameaça. imensa da Ásia, dragão gigantesco e terrível que
já levanta. a cabeça, espreitando a presa suculenta. ;Cega-o, porém, a. luz que
vem de Roma, centro espiritual do mundo. . .." — idem: "Percebo a
iminência de grandes e tremendos
acontecimentos mundiais, ouço longínquo fragor de tempestade, imensos vagalhões
que ameaçam a grande civilização, embora pouquíssimas pessoas o vejam e saibam.
Implorei que soubessem e vissem. Nesse ar .pesado de ameaças em que o mundo se
debate às tontas; meu espírito acabrunhado não encontra repouso..." — Cap.
VI: “..... o momento histórico é grave. Tempo algum jamais viu preparativos de
maturações tão solenes como os dos dias atuais. Estamos numa curva da história
do mundo. . A humanidade está lançando as bases do novo milênio, está pondo na
mesa a carta de sua salvação ou de sua ruína... É necessário dar de novo à
Europa a consciência da unidade de civilização e de destino...".
No volume Ascese Mística, Cap. XIV (Primeira Parte): “... vejo as ameaças que
pendem sobre esta hora; eles, porém, as ignoram..." — idem: “... Porque
nova civilização deverá nascer e é necessário sacrifício para prepará-la; será
novo ciclo histórico que formará nova raça..." — Cap. XIII (Segunda
Parte): "Antigamente, em épocas de calma, de inércia espiritual, podíamos
silenciar e viver de acomodamentos; mas, hoje não, com o inimigo às portas.
Estamos em armas. A História prepara tremenda descarga de dor. Não é
destruição, mas renovação. Não temamos..." — idem: "Espiritualmente
o mundo já está em chamas. Nestes momentos não é licito cruzar os braços e permanecer
como espectador, pois a tempestade atinge a todos. Os neutros acabara-o sendo
envolvidos e terminarão como escravos..." — Cap. XVII (Segunda Parte):
"Ouço a perseguição da hora, o iminente precipitar dos equilíbrios, a
tempestade raivando as portas, ouço a voz de Deus que anuncia a maturidade do
tempo. Gritam os sinais interiores... No céu da história aparecem as
procelárias prenunciadoras, as sentinelas da vida acordam e dão o brado de
alarma." — idem: "Ouço profundo rufar, cadenciado, incessante; ouço o
passo do tempo que marcha com cadência fatal... Estamos atravessando momentos
muito graves... Já passou o tempo de explicar e demonstrar. Esse trabalho já
acabou. Chegou a hora do embate físico e tangível, que a todos atinge e a todos
envolve... Torna-se necessário que o mundo aprenda novamente a pregar; se
confraternize na humilhação e na desventura e reencontre seu Deus já
esquecido... Aqueles que têm Cristo no coração não devem temer. A tempestade purificará."
— idem: "É indispensável, pois, o infortúnio para que o espírito tire até
o último véu e apareça nu diante de Deus?... Então, o destino bate às portas da
história... Desfeita, a ordem ética levará à ruína..." — idem: "...
não posso ficar quieto porque minha alma ouviu as notas do clarim, o grito de
guerra!... Nas grandes curvas da história a terra deve ser dolorosa e
profundamente revolvida, a fim de ficar preparada para nova sementeira..."
idem: "... Hoje já esvoaça nos espíritos vago pressentimento da nova
civilização do 3º milênio, em que a
Igreja se tornará de fato poderosa e invencível, pois nessa ocasião será
formada apenas de espírito".
A parte final daquele volume, Cap. XXVI
(Segunda Parte), citado no prefácio do volume seguinte — História de um Homem, nos afirma cada vez com mais certeza:
"Esta hora é de intensa atividade para todos. Não pode parar. Preparada há
tempos, precipita-se agora. Tenho medo de olhar... Agora se desenrola diante de
mim a visão da terra e do céu... a terra treme convulsa no pressentimento de indescritível
tufão... Vejo um turbilhão de forças que se projeta em direção da terra e vejo,
também, a terra dilacerada, descomposta, submersa em mar de sangue. E escura a
hora da paixão do mundo... As forças estão prontas para desencadear-se no
choque fatal. Aproxima-se a hora das trevas do mal triunfante, da provação
suprema... O drama. aproxima-se, percebo-o... Nesse momento senti a terra
tremer. Dentro de mim está a visão do real. Senti, mesmo, a. terra
tremer".
Essa sucessão de
visões e previsões cada vez mais angustiosas, inclusive esta última, escrita em
fins de 1938, conclui com o testamento espiritual do protagonista de História de um Homem, concluída em
começos de 1942. E a primeira parte da segunda trilogia, isto é, do ciclo da
reconstrução. Naquele momento, tendo-se já desencadeado a tempestade prevista,
a visão do autor sobe acima dela para, ao invés, contemplar a nova aurora,
explicando seus primeiros sinais e dando-nos do drama a solução que hoje se
prepara. Esse testamento espiritual diz (Cap. XXX): "Estudai no grande
livro da dor; sabei sofrer se quiserdes progredir... É bom que o mundo sofra;
assim, poderá aprender e avançar... fora da dor não há salvação. Ninguém escapa
desta lei fundamental. Mas, depois, da paixão e da cruz vêm a ressurreição e a
vitória do espírito. Deixo-vos o aviso . de que a aurora da nova civilização do
espírito está na indispensável paixão do mundo." - E assim conclui o
prefácio acima referido: "Este volume (História de um Homem), escrito.. em meio à tempestade prevista, se
encerra, pois, com o prenúncio da aurora de novo dia. Depois. da destruição, a
reconstrução; depois da dor, a alegria de vida mais sublime; depois da
indispensável paixão da guerra desponta a nova era do espírito. Este livro é,
pois, o da ressurreição. Se é o livro da provação e do sofrimento, é também o
da esperança, da vitória do espírito e do bem. O fatigante labor da ascensão
neste livro toma grande impulso; transforma-se, para o indivíduo, na história
do protagonista e, para o mundo, na consciência da atual situação
apocalíptica. Ao contrário, na cena de terror e de paixão que encerra o livro
Ascese Mística, este volume conclui invocando e chamando, das entranhas das
maturações biológicas, o homem novo, de espírito consciente, e anunciando e saudando
a aurora da nova civilização do 3º milênio. (Natal de 1941)".
"Porque é fatal", conclui o volume, "que a ascensão se realize,
não obstante toda a inconsciência e resistência do mundo; é da Lei de Deus que
o espírito vença a matéria, a luz vença as trevas, a alegria vença a dor, o bem
vença o mal, Deus triunfe de Satanás".
Aqui terminam as citações. Agora
poderíamos observar: os acontecimentos históricos, desenvolvendo-se, se
transformam de tal maneira que seus próprios artífices devem aos poucos afastar-se
da orientação primitiva e acabam muitas vezes por chegar onde não imaginavam.
Cada ato do drama suscita novos e inesperados fatos e aspectos, que desfazem
os planos humanos, revelando-nos novos misteriosos fios da História,
impossíveis de total entendimento senão quando o ciclo se completa. Podemos,
então, perguntar-nos: o homem dirige a História? Muito bem. Como pode fazê-lo,
porém, se ignora os futuros desenvolvimentos e seus planos muitas vezes não têm
valor algum? Não. O homem não dirige, apenas tenta dirigir a História. Outras
forças inteligentes dirigem-na; são os seus planos que atuam. Existem,
naturalmente, diretriz e planos próprios; tanto assim que os vemos tão logo um
acontecimento se processa. Acreditamos caminhar rumo a determinado objetivo e,
no entanto, vamos em direção de outro, de cuja existência nem suspeitamos. Mas outros hão de sabê-los
por nós. Em conseqüência: a História se desenrola e tem lógica, não pertence
aos homens que acreditam elaborá-la. Então, se ignoram quais os objetivos que
de fato buscam, não passam de simples instrumentos. Acontecimentos
aparentemente contraditórios não têm esse caráter no plano divino tão cheio de
finalidades que nos escapam à percepção. Ao lado da História aparente há
outra, mais profunda, História substancial, que só muito tarde conseguimos ver,
quando não acontece não a vermos jamais. No caso de nossos dias certo é haver a
guerra, através da dor, provocando um processo de sofrimento espiritual
condicionador de grandes renovações. Não é nesse sentido, porém, que estamos
falando. É licito perguntar-se: Na complexidade de maturações que derivam de
fenômeno tão profundo como o atual conflito, os homens, através do que
acreditam estar fazendo, sabem o que de fato estão fazendo e aonde vão acabar
chegando? Além do plano humano por eles dirigido, conhecem o plano divino que
os dirige?
XIX
O SERMÃO DA MONTANHA
Antes de enfrentar novos argumentos e
novas ampliações, ainda algumas observações a respeito de questões já tratadas.
A precedente Visão parece comentário e reforço das palavras de A Grande Síntese, no cap. XLII
("Nosso Objetivo - A Nova Lei"): "Aí onde o mundo, com perspectivas
cada vez mais desastrosas, se arma contra si mesmo, com instrumentos tão
terríveis, em face dos modernos progressos científicos, que nova conflagração
extinguirá na terra o homem e a civilização; aí onde o homem age desse modo,
existe apenas esta possibilidade de defesa: o abandono de todas as armas. Mais
tarde veremos como".
Neste livro vimos como. Não só neste,
mas em qualquer campo de atividade humana, raciocinando objetivamente e,
principalmente, observando os acontecimentos e descrevendo-os no que têm de
essencial, sem apriorismo e sem outra referência senão a realidade intima das
coisas, acabamos por chegar ao Evangelho. Quando atingimos a intimidade das
coisas, a voz dos fenômenos coincide com a voz de Deus e surge a ordem
universal que, num só sistema, os reúne a todos, desde a matéria até ao
espírito. Vamos agora focar nossa atenção especialmente nesse sublime
pensamento do Evangelho, de sabor sobre-humano e que, provindo embora de fontes
completamente diferentes e sendo produto resultante de outras elaborações,
todavia coincide de maneira tão surpreendente com a ciência e a sociologia
sadias atingidas por quem saiba ler no grande livro da vida. Essa coincidência
constitui confirmação e prova. Essa ressonância mostra como o pensamento aqui
desenvolvido se sintoniza com ritmo espiritual dos mais profundos da vida, para
o qual converge o consenso da maior e mais adiantada parte da humanidade.
Assim, a ciência e a fé coincidem, significando em substância a mesma coisa; a
ciência interpreta a fé e a fé interpreta a ciência: assim se mostra, mesmo ao
homem prático, o valor utilitário do Evangelho.
Nos capítulos anteriores, ao
analisarmos o fenômeno econômico, vimos como pequena riqueza, sadia e robusta
porque honesta e justa, pode, por força da duração e do rendimento, valer
muito mais do que enorme riqueza, doente e fraca porque desonesta e injusta. Assim,
a análise das forças motoras do fenômeno nos permitiu introduzir na economia
esse fator moral, que normalmente é expulso dela, isto é, estender a economia
política até à economia moral do Evangelho. Trata-se de economia muito mais
vasta, de que passam a participar numerosos elementos vitais, a que doutro
modo não se daria importância. Só assim podemos atingir a essência do fenômeno
econômico, que é também psicológico, biológico e moral; analisando-lhe o
dinamismo podemos atingir o novo conceito de higiene econômica, de patologia e
profilaxia econômicas. Estudando o sistema de forças do fenômeno, podemos
determinar-lhe a anatomia e, reduzindo-a à substância de seu íntimo dinamismo,
podemos descobrir-lhe defeitos estruturais, de modo a mostrar-se, na realidade,
péssimo o que nos parecia ótimo, porque nos revela a devastação interior que o
sistema clássico de economia não sabe revelar-nos. Assim também neste campo
chegamos ao Evangelho e descobrimos novo utilitarismo, mais sólido e menos
ilusório, mais evoluído, socialmente mais harmônico e profícuo. Então, o homem
se torna verdadeiramente senhor do dinamismo do fenômeno, pois adquire
consciência de seu funcionamento. Chegamos desse modo a muito mais completa e
substancial disciplina das relações em que reside a ciência do futuro,
disciplina necessária porquanto a convivência constitui fato insubstituível e
cada vez mais ponderável e necessário. Assim, a ordem social se fortifica,
penetrando até mesmo nos motivos, transformando-se de edifício exterior formal
em edifício interior substancial. Chegará o dia em que o furto, a
desonestidade, o arrivismo serão tidos na conta de ingenuidade de involuídos
obtusos, que não compreenderam ainda a impossibilidade de algo verdadeiramente
honesto nascer de fontes assim turvadas pelo mal, força destruidora por
excelência.
O dia em que se compreender o
Evangelho, se compreenderá também que o amor do próximo não constitui utopia
ou sentimentalismo, mas é sólida e prática lei de vida, o modo mais lógico e utilitário
relações humanas. É natural que, semeando desordem, apenas se possa colher
desordem e para obtermos justiça tenhamos necessidade de ser justos.
São estas as descobertas que mais nos
interessam fazer, porquanto são as mais certas, e, disciplinando organicamente
a atividade humana, nos permite extrair-lhes rendimento imensamente maior.
Representam a conquista de novos valores, mais preciosos para o homem que novas
descobertas científicas, que nas mãos de inconscientes podem significar
destruição, enquanto as descobertas morais significam construção de
consciência. O espírito é o verdadeiro sal das coisas e representa
princípio diretivo capaz de centuplicar o rendimento dos atuais meios humanos.
Antes de por meio da ciência conquistar novos meios, importa é conquistar a
sabedoria que nos ensine a empregar os já existentes. A ciência pode
transformar a terra em inferno. Só a sabedoria pode transformá-la em paraíso.
Quando o homem houver compreendido a economia da natureza e conquistado o senso
da Divina Providência, então substituirá o terror da necessidade, a violência
da conquista, a incerteza do dia de amanhã, e o aniquilamento de nosso próximo
por um sistema de fé, paz, segurança e ajuda fraterna. A ciência não é capaz de
consegui-lo. Quando o homem chegar a compreender que sofrimento significa
conquista e a morte, ressurreição, então se tornará invulnerável. São estas as
descobertas mais úteis, aí está o verdadeiro utilitarismo. A compreensão destas
verdades, embora parceladamente, permite ao indivíduo evoluído refugiar-se,
mesmo nos dias de hoje, na inviolável autarquia do espírito.
Em nosso século mecânico crêem que número signifique verdade e a maioria possa e saiba elaborar a lei. Cremos hoje que
na vida se torne possível o agnosticismo, isto é, uma espécie de neutralidade
espiritual, absenteísmo nas diretrizes. Assim, creram resolver o que não
sabiam, acreditaram na possibilidade de fugirmos dos grandes problemas do ser.
Desse modo, a imparcialidade se tornou ambigüidade e a amoralidade se
transformou em imoralidade. Mas o agnosticismo significa não entender e não
resolver nada, significa mentir a si mesmo. Não podemos viver sem ação e não podemos
agir sem determinada orientação pessoal. Apenas em teoria agnosticismo pode
significar imparcialidade. Na prática significa obediência aos próprios instintos. A vida está toda inteira em suas
posições. É impossível permanecer neutro na luta entre o bem e o mal,
não podemos deixar de atingir determinado grau de evolução, de existir sob
forma definida. Em todo ato, em todo campo o espírito penetra e torna-se
impossível não assumir uma posição moral qualquer.
A transformação biológica que conduz à
nova civilização encontra sua lei no Evangelho; o evoluído é apenas o sábio
que o aplica. Procuremos observar, ainda, de novos pontos de vista e sob
diversos aspectos, essa revolução biológica que leva do atual mundo humano a
futuro mundo super-humano. A este podemos chamar nova civilização, nova ordem
ou, então, reino de Deus, aquele de que há dois mil anos o Evangelho nos fez a
profecia e nos assinalou o inicio. O fenômeno enxertou-se na História e foi
percebido pelo pensamento das sumidades. É nuclear em nossa vida. Assim, A Grande Síntese não é somente, como
dissemos, o plano regulador de nova civilização, mas também comentário ao
Evangelho, que há muito tempo lhe lançou as bases. De resto, a verdade é uma
só. Compreende-se, por isso, que quanto mais profundas são as verdades humanas
tanto mais se afastam da periferia do relativo, mais se aproximam do centro do
absoluto e mais tendem a coincidir. Compreende-se que quanto mais nos
avizinhamos de Deus tanto menos poderemos, logicamente, esperar novidades. A
Grande Síntese, exatamente porque exprime a substância das coisas, não podia
oferecer a novidade própria do mutável do relativo e da forma, mas apenas
podia repetir a verdade eterna, que jamais muda. Esse livro, portanto, poderia
apenas constituir o desenvolvimento e a demonstração de tudo quanto já se
disse e revelou, de tudo quanto já pertence às religiões, à moral, à vida. As
verdades eternas voltam e tornam a voltar perante nossos olhos, vestidas de
acordo com as formas mentais do tempo; descendo, assim, até à psicologia do
momento e acomodando-se com ele, tornam-se-nos cada vez mais acessíveis. Só as
pessoas superficiais podem esperar continua novidade, uma das características
de seu mundo relativo e efêmero. Ora, para nós o primeiro iniciador da grande
revolução foi Cristo, que por sua vez, era, também Ele, continuador. Seja o
que for que se descubra ou se invente, Cristo não muda. Suas palavras não
passarão e nada podemos fazer se não segui-Lo. Ou o homem o compreende e segue
ou deverá renunciar a seu progresso. Cristo é um centro. Só nos resta gravitar
em torno d’Ele. Por mais que, através dos milênios, pensadores e líderes
procurem lei que resolva e regule os problemas da vida humana, ninguém a
encontrou nem jamais encontrará outra igual à lei selada com sangue na cruz.
Por isso devemos examinar de perto o pensamento social de Cristo, porque esse
pensamento constitui o fundamento da "Construção".
Certo dia Cristo sentiu a necessidade
de expor com exatidão seu pensamento aos apóstolos e às turbas, mostrando-lhes
completamente a sua doutrina, que até àquele momento apenas vagamente poderia
penetrar-lhes na mente. Então, Cristo expôs a síntese de seu programa no Sermão
da Montanha. Não podemos fazer outra coisa senão citar aqui, a propósito, a
bela página da "Vida de Jesus Cristo" de Ricciotti (seguimento 318):
“Empregando terminologia musical, o
Sermão da Montanha pode comparar-se a majestosa sinfonia que, desde o primeiro
compasso e com o ataque simultâneo de todos os instrumentos, exponha com
rigorosa clareza os temas fundamentais: e são os temas mais inesperados, mais
inauditos deste mundo, totalmente diferentes de qualquer outro tema jamais
executado por outras orquestras; no entanto, apresentam-se como se fossem os
temas mais espontâneos e mais naturais para ouvido bem educado. E, realmente,
até à época do Sermão da Montanha, todas as orquestras dos filhos do homem,
embora com variações de outro gênero, haviam anunciado em uníssono que para o
homem a beatitude consiste na felicidade, a saciedade depende da saturação, o
prazer é efeito da satisfação, a honra é produto da estima; pelo contrário, e
desde o primeiro compasso, o Sermão demonstra que para o homem a beatitude
consiste na infelicidade; a saciedade, na fome; o prazer, na insatisfação; a
honra, na desestima, mas tudo isso tendo em vista o prêmio futuro. Quem houve a
sinfonia fica sem cor à exposição desses temas: mas a orquestra, prosseguindo
imperturbável, volta aos temas fundamentais, separa-os, decompõe-nos, tece
variações em torno deles: em seguida repete no clangor dos instrumentos
metálicos outros temas timidamente expostos pelos instrumentos de corda,
corrige-os, modifica-os, torna-os sublimes, levando-os a alturas vertiginosas:
ao contrário; faz desaparecerem num fragor de sons algumas velhas
ressonâncias, ecos de longínquas orquestras, excluindo-as da sinfonia; depois,
funde tudo numa onda de sons, que, subindo muito acima da humanidade real,
atinge uma humanidade não-humana e se derrama sobre ela e sobre um mundo
imaterial e divino”.
"Os antigos estóicos chamavam
paradoxo o enunciado contrário à opinião corrente: nesse sentido o Sermão da
Montanha é o mais amplo e mais radical paradoxo jamais dito. Nenhum discurso
proferido na terra foi mais perturbador ou, melhor, mais revolucionário do que
este: o que antes todos chamavam branco
já nem recebe o nome de pardo ou escuro, mas exatamente o de preto, enquanto o preto agora se chama alvo; o antigo bem passa para a categoria de mal
e o antigo mal para a de bem; onde antigamente o vértice se
erguia altaneiro agora está colocada a base; onde a base se alicerçava
coloca-se agora o vértice. Em face da revolução implícita no Sermão da
Montanha, as maiores revoluções operadas pelo homem na terra parecem infantis
guerras de brinquedo..."
Como o mesmo autor diz mais adiante,
"o Sermão da Montanha não quer apresentar-se como contraposição destrutiva,
mas aperfeiçoadora, da lei mosaica". Efetivamente, Cristo não viera
"abolir, mas cumprir". Essa continuação do passado, prossigamos,
confirma tudo quanto dissemos antes, isto é, que a verdade é una e por isso não
podemos renová-la, mas apenas aperfeiçoar e completar-lhe a expressão. Mas
acrescentávamos ter sido Cristo o primeiro iniciador da grande revolução, no
sentido de que quem aperfeiçoa e executa, se é um continuador em relação ao
passado em que se apoia e se eleva, é sempre um iniciador, quanto ao novo
trajeto evolutivo que nele se inicia. Cristo é marco miliário do eterno
progresso da vida, pedra-de-toque do pensamento humano, é, na história da
civilização, o "pomo de discórdia" em torno do qual, sob a forma de
ódio ou de amor, para exaltar ou destruir, se concentram os esforços antagônicos
do gênero humano. Para explicar esses fenômenos não basta a distinção
simplista em "tipos" que a ciência estabelece segundo as três
psicopatias dominantes: sadismo, masoquismo e fetichismo. Os dois primeiros,
isto é, os sádicos e os masoquistas, são os violentos e as vítimas, os heróis
da prepotência ou do sacrifício, em redor de quem se reagrupam os fetichistas,
quer dizer, os neutros que, em face do dinamismo, funcionam como massa, vivem
de motivos alheios e representações ideológicas, adorando ora uns ora outros.
Não podemos compreender Cristo, se não houvermos entendido todo o mecanismo
fenomênico, toda a trama do funcionamento universal, todo o plano evolutivo,
através de que na realidade o pensamento de Deus se exprime progressivamente. O
progresso do mundo liga-se ao progresso da idéia cristã e todos contribuem para
ele, como estimulo ativo os que o afirmam e como desencorajamento negativo os
que o negam; de fato, a evolução, já o dissemos, se processa por força desse
contraste e avança, apoiando-se nas ações e reações produzidas entre esses dois
extremos, e acaba sendo o resultado da íntima colaboração nascida dessa luta. A
fase materialista não passou de simples impulso negativo, aspirante ao invés de premente,
dirigida para a fase espiritualista. A negação constitui apenas o contrário da
afirmação; liga-se-lhe, não pode viver sem ela, dela se nutre. E, gasto seu
impulso e exaurida sua função de resistência estimulante de reação criadora,
por força da lei de equilíbrio, se transforma em afirmação.
Cristo não é
apenas fenômeno religioso, moral ou social. É fenômeno biológico. Entrosa-se
com a vida, sua ação penetra-a profundamente. Inclui-se em seu dinamismo como
força central, funde-se na expressão fundamental da Lei, quer dizer, do
pensamento de Deus que nos manda evoluir e civilizar-nos. Quanto o Sermão da
Montanha através dos séculos caminhou ao lado do homem! Embora ainda não se tenha
transformado em realidade, todas as suas frases se tornaram proverbiais, todas
as suas palavras constituem pedras angulares. Na Idade Média encontrou eco no
sermão de S. Francisco a respeito da verdadeira alegria. Agora, a humanidade,
ao findar-se o segundo milênio, atingiu um ponto em que o motivo de Cristo se
apresenta de novo para novamente ser meditado. Estamos vivendo novo episódio da
grande batalha do espírito para conquista do progresso. O atual momento
histórico, apocalíptico e doloroso, não tem outro significado. Guardadas as
proporções, o problema é substancialmente o mesmo, quer no tempo de Cristo,
como hoje em dia: civilizar-se. Trata-se de dar ainda mais um passo no sentido
do superamento da ferocidade e no abrandamento dos costumes. O progresso
caminha em direção a Deus, cujas manifestações mais elevadas são a bondade e a
justiça. Esse é o caminho do Cristianismo e o de toda a civilização. A lei dos
homens deve aderir cada vez mais à lei de Deus, deve deixar transparecer sempre
mais essa intima substância Ao mesmo tempo que, evoluindo, se torna mais fino e
sensível e desse modo passa para fase mais adiantada, o homem percebe quão
bárbara e feroz era a fase anterior, na qual no começo vivia satisfeito, nota
dissonâncias irritantes e imperfeições inaceitáveis justamente onde tudo lhe
parecia perfeito e aceitável. Quando nova compreensão desponta no homem, por
força do processo evolutivo, nele também nasce nova insatisfação, que o
constrange a procurar formas mais civilizadas e harmônicas da vida. Dizer quais
são essas formas constituiu a tarefa do Evangelho. E é exatamente a isso que
também A Grande Síntese se propõe. O
quadro da velha estrutura biológica está tornando-se muito estreito para os
espíritos renovadores, nele o homem se sente angustiado e se agita em meio de
numerosas indagações, ao mesmo tempo que o passado transborda de seus velhos
limites. Começaremos a compreender a utilidade e a alegria que podem advir-nos
de maior liberdade, impossível de obter senão à custa de maior sinceridade,
resultante por sua vez de consciência mais profunda. O impulso dos
acontecimentos de nossa época consiste exatamente em conduzir o homem à
compreensão da conveniência de executar esse esforço de bondade, sem o qual não
se concebe o melhoramento da convivência social. Trata-se de tornar mais
completa e espontânea a inclusão da lei de Deus na luta pela vida, Isto é, da
bondade na bestialidade, do livre conhecimento na coação. Na prática,
inclusive a lei do bem tinha de, no passado, revestir-se de sanções e utilizar
a vingança (o Deus dos exércitos e das vinganças), pois o hábito da violência
lhe era necessário para impor-se e ter eficácia. O progresso obriga essas
duras necessidades a se civilizarem e a isso chegamos apenas a maturidade, uma
vez atingida, possa permiti-lo sem prejuízo para o homem, isto é, quando este
se civilizou ao ponto de a força não precisar mais obrigá-lo ao cumprimento da
própria Lei. Só então pode a Lei abrir-nos os braços e o Deus da vingança
tornar-se o Deus do amor. Isso aconteceu primeiro com Cristo e se repete agora.
A Lei, achando-se praticamente na necessidade de enfrentar a luta, teve de
tomar necessariamente formas adaptadas a esse grau de desenvolvimento, formas
que, todavia, depois se foram tornando cada vez menos adequadas a graus mais
elevados e atingidos pela consciência humana. Em face desse desenvolvimento,
essas formas da Lei, para seres psiquicamente mais adiantados, acabava
transformando-se em escola de astúcia para evitar-lhes as insídias, em velado
ensino da arte de fugir-lhes. A Lei então, deixava pois
de constituir auxilio para a vida e se tornava uma prisão a evitar, mais um
inimigo contra quem devíamos aprender a lutar. Essa Lei, quando posta em
prática, se absorvia na luta humana, reduzida a instrumento desta; assim, acabava
sendo modificada. Isso significava inverter-se-lhe a função lógica, reduzindo-a
a recrudescimento da luta pela vida, já de si dura. Porém, apenas em
determinada fase de maturação se compreende que nos tornamos cruéis em nome de
Deus, muitos males se cometeram por causa do bem e muitos crimes se praticaram
em nome da verdade. Compreende-se, então, que no passado, sob o pretexto de
aplicação da justiça, o povo assistia a exemplos de vingança e, assim, iludido
pelo exemplo, se familiarizava com o espetáculo do ato sanguinário e
educava-se. Compreende-se como a lei de seleção do mais forte diz respeito a
um plano biológico inferior de que nos é lícito. sair e como não constitui a
única nem a última expressão das leis da vida. E, além disso: quando estas
apenas sabem manifestar-se sob a forma do primitivo equilíbrio-justiça da lei
de Talião e da força, então no indivíduo débil fazem desabrochar o astuto, o
traidor, o cínico, isto é, o maligno em que a força se sub-roga. Está soando a
hora de a Lei vir ao nosso encontro, dotada de maior bondade; de fato, a vida
pertence a todos e o princípio da seleção do mais forte refere-se a fases
evolutivas inferiores e está destinado a ser superado. Cada um de nós
representa uma força e, em ordenamento social mais consciente, até mesmo uma
utilidade. Ninguém, pois, deve ser esmagado, suprimido, eliminado, mas
compreendido e valorizado. Eis-nos em pleno conceito cristão. Eis o conteúdo
da Boa-Nova de Cristo. Porém, essa nova distribuição de bondade, liberdade e felicidade
só será feita na Terra, se o permitir consciência mais desenvolvida, porque
justamente essa consciência é que lhes traça o limite e estabelece a proporção.
Quando Cristo viveu e morreu há dois
mil anos, o mundo, preso a problemas imediatos e presa de espetáculos de
grandeza, de vício e de sangue, o mundo nem de leve imaginou a revolução
apocalíptica que, em longínqua e obscura província romana, se iniciava em
silêncio. Ninguém imaginou que, na ocasião, de fato na terra nascia novo reino
e novo princípio começava a firmar-se. Isso mostra como os caminhos de Deus
gostam de esconder-se nas formas de desenvolvimento normal (nas parábolas, a
palavra de Deus cai e se desenvolve de modo natural como uma semente); como
esses caminhos evitam a todo custo o caráter maravilhoso e excepcional que, em
tais casos, desejado por nossa. fantasia, constituiriam a violação mais
gritante dos equilíbrios e harmonias de que se compõe a Lei. Os contemporâneos,
deixando-se como sempre estar à superfície, naturalmente nada perceberam do
movimento profundo, percebido apenas pelos videntes. Parece existir aí
conexão, habitual na História, entre poder humano e embotamento espiritual.
Os expoentes intelectuais daquela época manifestam a incompreensão mais
completa. Coisa, de resto muito natural, pois viviam ao lado oposto da vida, no
pólo-matéria, enquanto o fenômeno se processava no pólo-espírito. Para o mundo
daquela época, a vida e os atos de Cristo se desenvolvem nas trevas e na
indiferença e, quando acontece serem vistos, são mal compreendidos. Até mesmo
o povo de Israel, destinado a receber o Messias, espera a vinda de rei poderoso
e conquistador e se considera logrado quando, ao contrário, se encontra em face
de um reino nascido na humildade e no silêncio, em meio de mil obstáculos, com
a. morte ignominiosa de seu fundador. O povo ansiava por um líder de
reivindicações nacionais e de expansão material e não conseguia acostumar-se à
idéia de que, ao contrário se tratava de renovamento mundial e de expansão
espiritual. Nem um pouco dessa exterioridade clamorosa que golpeia os sentidos.
Nada. Na parábola se fala, isso sim, do grão de mostarda, exatamente como
exemplo de pequenez material Aqui também parece haver intima ligação entre
pequenez material e grandeza espiritual e ao contrário! A incompreensão
judaica atinge o máximo no dia da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém.
Nesse dia o povo, que clamava "Hosana! Hosana!", pensava estar
aclamando o fundador de um reino messiânico, mas terreno, e não o de um reino espiritual.
Cristo permitiu e aceitou essa exaltação que o subestimava, como testemunho de
quão diversa era sua missão; naquele momento os dois diferentes messianismos, o
do Cristo e o da plebe como se por acaso se sobrepuseram e coincidiram. Cristo
aceitou o mal-entendido como único testemunho possível de sua verdadeira
realeza messiânica, de que Ele tão pouco falava por saber que ela não poderia
ser compreendida e admitida por parte de pessoas desejosas de não fazê-lo. E,
exatamente no ponto em que o povo acreditava começar o caminho do triunfo, aí
Cristo já o havia. percorrido e começava a palmilhar o da Paixão. Que exemplo
de pobreza aquela exaltação de Cristo montado em pobre jumentinho, quando a
comparamos com as esplêndidas entradas triunfais dos líderes vitoriosos através
de todas as épocas! Ainda aqui se nota a ligação entre riqueza formal e
material e pobreza substancial e espiritual e ao contrário! Instrutivos e
invioláveis equilíbrios da vida, conseqüência da harmonia e justiça da Lei.
No meio de tanta incompreensão ninguém
poderia imaginar que, sob aparências tão singelas, se estivesse iniciando tão
catastrófica reviravolta no mundo daquela época, se desencadeasse ataque tão
inesperado e sob a forma de pacifismo que, dirigindo-se contra aquele mundo de
maneira imprevista e em "fronts" novos, e por isso indefesos, o teria
encontrado desprevenido e, assim, facilmente vencido. Assim, por falta de
compreensão, cai a sociedade israelita que, prisioneira da forma, acreditou
assegurar, com a condenação de Cristo, sua mais enérgica defesa e decisiva
vitória. E pensar que, para chegar a esse ponto, sua própria classe dirigente,
os sumos-sacerdotes, embora sabedores de que Jeová tanto permanecia o único e
inconteste rei de Israel que a contragosto toleravam em Saul o primeiro rei
humano, foram os primeiros a declarar não existir outro rei senão César, isto
é, um estrangeiro pagão. Assim, enquanto caiam no chão as despenadas águias
romanas, o princípio da cruz conquistava o próprio coração do império. Hoje,
depois de dois mil anos de luta, compreendemos a impossibilidade de enfrentar o
problema social sem levar em consideração o humilde e simples Evangelho.
Sempre vivo e atual, torna-se fundamental para quem, como nós, se proponha o
problema de construir. Embora não contenha em particular tudo quanto em A Grande Síntese se expôs através de análise científica e demonstração racional, o
Evangelho nos dá sempre os resultados finais dessa operação lógica, naquele
livro decompostos em seus elementos. A concordância entre princípios e
demonstração é prova que confirma e revalida.
O Evangelho
pode chamar-se o livro das harmonias e dos
equilíbrios. A novidade e a originalidade de seus princípios reside
exatamente na justiça e no amor, em oposição ao princípio do mundo que é, como
ainda hoje, força e egoísmo. A pouco empregada, mas poderosa arma do Evangelho,
que é também a destes escritos, é a verdade simples e espontânea, que se impõe
por si mesma porque persuade, e persuade porque satisfaz. Trata-se, em relação
ao mundo, de substancial modificação de seus caminhos, da conquista de novas
posições biológicas, da introdução de novo principio na vida. A verdadeira
força não consiste, de fato, em saber subjugar para vencer, mas consiste em
espontânea posição de equilíbrio. O Evangelho, colocando-nos em face dos dois
princípios, ensina-nos a vencer com as armas deste último. Hoje, como naquela
época, estamos diante do mesmo problema: a força não convence, a força não
resolve, a força não vence. Dada a estrutura de nosso universo, fato objetivo
que somos obrigados a admitir e não podemos alterar, o emprego da força
significa o inicio de uma série de violências, impossível de controlar senão
por meio de violências maiores e de acalmar senão destruindo o inimigo. A
premissa desse sistema é o egoísmo, o método é a expansão desordenada e
semeadora de desequilíbrios no ambiente, a conclusão é o estado de ruína. Ora,
na realidade, a expansão ilimitada de egoísmo prejudicial aos demais não passa
de ilusão, pois a vida tende, imparcialmente, a equilibrar todos os egoísmos.
A realidade é, pois, intimamente regida por uma Lei, isto é, feita de ordem e,
por isso, reage conforme a intensidade do estímulo, isto é, à desordem
responde com a desordem, ao choque violento com a dor, ao egoísmo com o
aniquilamento. Enfim, a destruição do inimigo, com a qual se esperava concluir,
constitui um absurdo; em primeiro lugar, porque em um mundo de coexistência de
todos os seres, mundo em que tudo é comunicante, nenhum estado de ruína pode
isolar-se sem repercutir em tudo em torno; em segundo lugar, porque quem
acredita residir na vitória a solução, ignora que o inimigo não é apenas destrutível
forma exterior, mas vida, impulso, dinamismo e, desse modo, indestrutível como
todas as coisas em substância. Apenas o obtuso involuído pode acreditar em que
a destruição aparente, a da forma, também represente a destruição dessas
forças imponderáveis. Elas não morrem de modo nenhum e são invencíveis;
acontece, porém, que, por força da reação, acabam sendo impelidas, para
reequilibrar-se, a se moverem em sentido contrário, isto é, contra o próprio
ofensor, restituindo-lhe o equivalente de sua ação, mas em posição inversa. O
impulso, que parece caminhar em direção da vitória, constitui, no entanto,
verdadeira fábrica de inimigos, é o mesmo que cavar um abismo diante de si mesmo;
e as adesões recebidas pelo dominador não significam convicções espontâneas e
duradouras, mas mentira sob que se escondem o cálculo e o interesse. A traição,
logo ao primeiro sinal de fraqueza, faz, pois, naturalmente parte do sistema.
O homem pode escolher, mas, escolhido este ou aquele caminho, a lógica de seu
percurso domina-o inteiramente.
Assim se compreende como, na prática,
todas as vitórias humanas da força são instáveis e transitórias, terminam em
ilusão, enquanto na realidade, por força da lei de equilíbrio, para descer é
antes necessário subir e quem vence prepara a própria derrota. O Sermão da
Montanha expõe esses equilíbrios. Por isso Cristo aconselhou a não resistir ao
maligno, mas oferecer-lhe a outra face, contrapondo a bondade à ofensa.
Semelhante concepção pareceu modificação e total reviravolta; no entanto, não
passa de reordenamento e retificação de idéias, fazendo-as finalmente
coincidir não com a ilusão, mas com a realidade. Os vencedores, pois, não
passam de causas de desequilíbrio naturalmente destinados a sucumbir, mais
cedo ou mais tarde, sob os escombros do edifício por eles construído. Á moral
a que chegamos está, desse modo, nos antípodas da moral do mundo. Não é, pois,
com a força que podemos construir. Esse é o princípio novo. O sistema humano,
se atinge outros objetivos não vistos pelo homem, em relação ao objetivo que a
si mesmo propõe é falso e a História o demonstra. Construção estável só se
torna possível com o sistema evangélico e equilibrado da justiça. Assim, com
lógica mais simples e realista, no Evangelho se resolveu o problema da guerra,
do desequilíbrio econômico, da luta de classe, da justiça social. Não pode,
pois, manter-se nada do que se constitui de intimo desequilíbrio, exatamente
por ser desequilíbrio de forças e lhe faltarem elementos de estabilidade. Tudo
quanto nasceu de abuso representa desequilíbrio, isto é, sistema de forças
desequilibrado e incapaz de manter-se senão à custa de desequilíbrio
progressivamente maior; representa, pois, sistema que no seu próprio princípio
carrega o germe de sua ruína. Por isso, o homem é tão ávido de energias, único
meio capaz de sustentá-lo; mas, por mais esforços que faça, a lei de equilíbrio
o assedia e se lhe contrapõe para reconduzi-lo à posição exata, em
correspondência com sua real função biológica. Já falamos disso tudo à
propósito da lei do merecimento, a que retornaremos mais tarde, examinando-a
de ângulo individualista relacionado com o próprio destino. Essas considerações
escaparam a muitos líderes e fundadores de impérios. Na realidade,
desempenharam eles função bem diferentes da imaginada grandeza. Muitas vezes a
História atinge objetivos bem diferentes dos objetivos aparentes, que o homem
se propõe e constituem simples meio de induzi-lo à ação. Esgotada a função e
atingido o objetivo, grandes e pequenos atores são rapidamente liquidados.
Nesses simples
princípios evangélicos reside a única solução honesta dos problemas sociais. A
vida humana em sociedade é campo de forças em ebulição, em contínua rivalidade
e luta. A insolubilidade de tantas posições nos induz a observar atentamente
essas diretrizes tão disparatadas. Nas relações sociais as forças individuais
mutuamente se reconhecem, se odeiam, se amam, ligadas pela interdependência
dos vasos comunicantes, pela relação entre o "dar" e o
"haver". Assim se formam equilíbrios provisórios em contínua
evolução. Eles se desenvolvem de acordo com determinada medida (passo), que
permite se alojem, nos interstícios do tempo, os aproveitadores, os parasitas
do equilíbrio, os ladrões de felicidade usurpada, pois não foi nem merecida
nem ganha. Os míopes egoístas apressam-se a gozar e morrem. Mas as forças, por
eles postas em jogo, não morrem. E as gerações que morrem deixam às gerações
que nascem e estas devem aceitar, com o nascimento, uma série de
desequilíbrios ao longo dos séculos e dos milênios. No destino coletivo
acontece com os povos o mesmo que, no destino individual, sucede aos
indivíduos, isto é, nossas obras nos acompanham a toda parte. São
desequilíbrios econômicos, sociais, morais, políticos, psíquicos, orgânicos. As
novas gerações ou se reequilibram pagando, ou somente os mantém,
suportando-os, ou aumentam-nos, arruinando ou deixando ruína. São ódios,
desajustamentos, dores; por toda parte vácuos a preencher, equilíbrios a
recompor. Nossos amados. filhos pagarão por aquilo que desnecessariamente
gozamos, ou gozarão das forças por nós acumuladas. Quem aceita determinada
posição deve suportar-lhe a responsabilidade. Os recém-nascidos são
continuadores. Ai de nós, se já fomos
impelidos no caminho da regressão. Então, o caminho, fácil por natureza, para a
volta nos exige esforço tanto maior quanto mais nele já tivermos avançado; e
quanto mais o declive aumenta e se torna perigoso, mais difícil é sabermos.
voltar atrás e recompormo-nos. Não há, então, solução possível e o homem, na
realidade, não soube resolver essas posições senão à custa de sua ruína final.
Tal é, de fato, o sistema funcional da
vida e não podemos mudá-lo. Nenhuma força ou astúcia humana pode impedir que
apenas determinada força se forme, lhe nasça ao lado uma força contrária e
inversamente proporcional. Apenas determinada autoridade se cria, ao mesmo
tempo surge seu inimigo, do mesmo modo que, apenas se forma um organismo, lhe
nasce o parasita, seu micróbio patogênico específico. Do mesmo modo, o
oprimido, por força de natural lei de compensação, de geração em geração,
espera através dos séculos o momento de debilidade do opressor. Todo indivíduo
é mais ou menos uma mola comprimida e à
espera de soltar-se, é um ódio em
potencial ou uma vítima já destinada ao sacrifício. A força atrai a revolta; o império, a revolução. Os
vencidos tanto esperarão que o destino do próprio vencedor lhes trará consolo.
É sua a
culpa de haver pretendido vencer. Na História não se dá o mesmo? Todo poder
atrai resistências que lhe constituem não só verificação e prova, mas também
ameaça e o próprio fim. Só o amor desarmado atrai e cria amigos. Di-lo o
Evangelho. Isto é, somos senhores de constituir uma força e agir de acordo com
ela; não podemos, porém, impedir o nascimento simultâneo de uma força
contrária que a contrabalance e nos agrida. Por isso, se quisermos resolver o
problema da guerra, o único caminho é o do perdão, e para resolver o do ódio só
há este caminho: o do amor. Eis o significado das palavras de A Grande Síntese (Cap. XLLI): "Existe apenas esta defesa
extrema: o desarmamento geral". Afirmações simplíssimas, de lógica elementar;
no entanto, difíceis de entender! E com que desastrosas conseqüências!
O que não se pode. perdoar ao nosso
mundo racional e a irracionalidade de sua conduta, é esse erro basilar em seu
cálculo utilitário, que todavia, lhe. constitui o núcleo de todos os
pensamentos. Contudo, verifica-se que, realmente, a construção levantada por
Cristo, usando como força a simples verdade desarmada, supera em tamanho e
duração muitas construções. Como assim? Sabedoria do engenheiro que traçou o
plano bem equilibrado da construção. Sozinha, a força não pode fazer o mesmo,
pois não possui essas qualidades. Apenas o que se edifica sobre a verdade
consegue crescer em extensão e profundidade, pois está solidamente plantado no
campo de forças da vida. Mas observemos o fenômeno mais um pouco. Apenas no
dinamismo universal se caracteriza uma corrente, isto é, uma força, isolando-se
e Individuando-se, se manifesta, logo se determina no próprio dinamismo
universal, por força da lei de equilíbrio, uma corrente contrária; esta, embora
isolando-se e individuando-se, torna-se evidente como força oposta a
contrabalançar a primeira. (Eis o atrativo especial das coisas proibidas,
exatamente porque proibidas). De acordo com esse princípio,. nenhum
fenômeno foge aos limites preestabelecidos e, embora sendo contínuo movimento
de evolução, não se desenvolve senão de acordo com plano traçado pela Lei.
Proíbe-se desse modo todo desenvolvimento hipertrófico e unilateral, todo
excesso de desarmonia e desproporção no conjunto. Assim, toda manifestação
pode processar-se apenas se enquadrada nos limites assinalados pelos princípios
diretores. O desenvolvimento é, pois, dirigido harmonicamente, protegido
contra a catástrofe de desproporção insuportável e permitido apenas na forma e
na medida úteis às finalidades evolutivas da vida e do bem. A lei do dualismo,
explica em A Grande Síntese e por
nós mais adiante esmiuçada (cf. cap. XXV: "O dualismo fenomênico
universal"), se em todas as coisas vê binômios, unidades compostas de duas
metades inversas e complementares, mostra-nos também como todas as coisas têm o
seu contrário. Como o contraste condiciona a percepção, assim a contradição
temida pelos lógicos constituí, pelo contrário, a base da vida e até mesmo do
pensamento. O termo oposto representa o controle necessário, o freio
inibitório, o contra-impulso probante. A reação reforça a resistência, a
oposição garante a verdade. Quem conquista autoridade cria inimigos, é certo,
mas apenas no campo em que a exerce e na medida em que a possui. Trata-se de
compensações automáticas verificáveis em qualquer campo, apenas uma força se
manifesta, exatamente porque toda unidade se constitui de uma dupla de
contrários. O forte é forte; mas, quanto mais forte mais inimigo atrai. O fraco
é fraco; porém não cria inimigos, o inerme é benquisto O homem desarmado atrai,
o homem armado causa repulsa.
Muitas vezes esses contra-impulsos se
conservam em estado potencial, latente, à espera de condições adequadas à sua.
manifestação. A vida social está repleta dessas forças, às vezes comprimidas e
concentradas como explosivo E é nos momentos de mudança de fase, de novas
combinações, durante os quais transitoriamente a estabilidade dos equilíbrios
precedentes se desloca à procura de novos, é nesses momentos que as forças
latentes e comprimidas explodem. A evolução subentende e impõe esses
deslocamentos. Então, esses impulsos, que em épocas normais (porque
equilibradas) repousavam em equilíbrio, ao primeiro sinal de enfraquecimento
de uma parte, despertam e se enfurecem; de fato, com o deslocamento daquela
parte e tendo-se presente, como em toda balança, que essas forças têm posição
relativa, elas conquistam nesse momento proporcionado aumento e valor. A
calma, a paz é apenas o equilíbrio de forças opostas que se guerreiam. Em face
dessa mecânica da vida, não podemos, se não o levarmos em consideração,
conquistar nenhuma posição estável. Se apenas como fenômeno biológico podemos
compreender o fenômeno social, o fenômeno biológico, por sua vez, só pode ser
entendido como fenômeno dinâmico, isto é, como relação de forças. Para ter
verdadeiro direito, torna-se necessário não haver pecado e abusado nesse campo
durante séculos. Só então a bandeira, a roupagem, a classe que o representa
poderá dizer: esse direito me pertence. Do contrário, assistiremos a intérmina
sucessão de bandeiras, de classes dominantes e dominadas, pois todos pecaram
por excesso. O segredo da estabilidade de uma posição é não alimentar, ao seu
lado, o contra-impulso compensador e destrutivo; é cercarmo-nos não de força,
nem de ódio, mas de benevolência e fé. Não há, pois, outro caminho: ou, de
acordo com o sistema evangélico, abandonar a força ou saber mantê-la sempre em
condições de defender-nos. Como, porém, não representa o equilíbrio espontâneo
da Lei e deve lutar para manter-se, essa força com o tempo se gasta e esgota e
não pode resistir por muito tempo Não
nos resta senão prepararmo-nos para passar da parte dos vencedores para
a dos vencidos. Defrontamos, pois, este dilema: perdoar ou, se queremos
dominar, irmo-nos acostumando à idéia de que mais tarde pagaremos por isso. Eis
o dinamismo íntimo que explica, com todo o rigor da lógica, as afirmações do
Sermão da Montanha.
A vida tudo registra e conserva, para
mais tarde reagir. Cuidado com a semente que plantamos. Em qualquer ato,
educamos os outros e os outros nos educam. Uma posição social importante não
pode manter-se pela força, mas apenas pelo exercício da função; a autoridade
permanecerá de pé enquanto missão; a riqueza será tanto mais segura quanto
mais amplas forem suas bases, isto é, quanto mais estender-se dos estreitos
limites da utilidade individual para o campo da utilidade pública. Qualquer
posição, para resistir mais do que na força deve fundar-se no merecimento, no
valor intrínseco, na superioridade intrínseca de tipo, nas qualidades inscritas
nos instintos, apenas lentamente formados por automatismo, por meio do método
de educação das raças animais. Tão-somente o que resiste, por haver se fixado
na personalidade, constitui força verdadeira, coisa própria e, por isso,
direito pessoal. Ai dos que querem vitória esmagadora; cavam a própria
sepultura. Ai dos improvisados distribuidores de justiça que vão além do
necessário e invadem o lado oposto da linha mediana do equilíbrio. Pagarão por
isso. A reação que preparam os atingirá também. A História mostra-nos quanto é
fácil e humano passar, com prejuízo embora, da parte dos revolucionários da
justiça para a parte dos revolucionários da injustiça. Todo excesso semeia
ódio, que é contra-impulso reprimido, conta a ser paga. Em relação a quem não
pratica excessos, permanecem espontaneamente indiferentes. Assim, a vingança
nada resolve, mas agrava o mal e, obtida. a satisfação, o credor passa à
condição de devedor. A única solução verdadeira consiste na anulação do
contraste, na neutralização da força, isto é, consiste no perdão.
O dinamismo da vida é corrente que
capta todas as influências, em todas as coisas vai buscar elementos formadores,
assimilando tudo quanto lhe age no ambiente em torno. Cada ato nosso dá e
recebe, influencia e deixa-se influenciar e tudo volta às origens. Assim se
explicam certos ódios instintivos, como o votado pelo homem à cobra, ao
escorpião e outros animais venenosos, o do empregado pelo empregador e ao
contrário; se explicam também certos ódios de classe e de raça, certos tipos
biológicos feitos de traição e de mentira.
Em verdade, para dominar não basta vencer. Torna-se necessário, outrossim,
verificar que tipo biológico a ação do dominador cria. Para nós todos a vida
constitui experiência, formação de qualidade. Quem acredita poder triunfar
impunemente ou que o domínio pela força represente ilimitado poder não sabe
que, ao contrário, aquece no próprio peito uma raça de víboras prontas para picá-lo e
envenená-lo. Em última análise, nos ódios sociais há sempre razão determinada, erro a ser reparado,
equilíbrio a recompor. Inútil disfarçar. A forma nada significa.. Qualquer ato
nosso é semente e, por isso, substancialmente se repete. Convivência significa
reação e educação recíprocas. O mundo hoje é certamente, um turbilhão de forças
descontroladas, uma tempestade que a todos nos arrasta. Porém, se o reequilíbrio é difícil,
fatigante e remoto, isso não pode impedir que ele continue lógico e
necessário, como única via de salvação.
XX
O PENSAMENTO SOCIAL DE CRISTO
O exame
critico do fenômeno social, a observação de seus impulsos e efeitos
conseqüentes, explica-nos e demonstra-nos logicamente as afirmações do
Evangelho e alguns limites que novas concepções modernas, aplicando-o sem
querer, impõem ao direito, antigamente ilimitado e sem disciplina, de uso e
abuso, das pessoas e das coisas. A evolução social consiste exatamente nesse
continuo e progressivo enquadramento das forças da vida, para na ordem coletiva
transformá-las cada vez mais em concerto de harmonias e não em desencadeamento
de vitórias e violências. Nesse campo, o pensamento social de Cristo antecipou
de dois mil anos as tendências atuais e indicou tudo quanto, socialmente
falando, apenas hoje começamos a compreender. Tais concordâncias corroboram
estas nossas explicações, concordâncias, aliás, bem naturais porque o
princípio da vida é um só e na verdade não pode mudar, embora expresso, ontem,
hoje e amanhã, sob forma científica, religiosa ou social.
Nas páginas precedentes desenvolvemos o
cap. XCI de A Grande Síntese
("A lei social do Evangelho"). Acrescentemos agora algumas
observações aos dois capítulos seguintes (XCII - "O problema
econômico" e XCIII "A distribuição
da riqueza"). Este último lá o comentamos em parte, no que diz respeito
a' propriedade, no cap. II deste volume: "O homem involuído e a
propriedade". Vejamos como o Evangelho está de acordo com tantas
aspirações modernas e antecipa os novos ordenamentos de nossos tempos. O
advento da justiça social, grande realização a que o século XX aspira, o
Evangelho anunciou-o e preparou-o do modo mais substancial. Comecemos pela
distribuição da riqueza, o mais atual e angustioso problema, o problema prático
e básico da vida coletiva de todos os tempos. Como Cristo reequilibra os
desajustamentos econômicos tão debatidos? A solução do problema da distribuição
equitativa Cristo no-la dá sob forma substancial, completa e definitiva,
porque equilibrada, e não sob a moderna forma de luta de classe, que não
resolve pois é desequilibrada. O método da luta não representa nada de novo e
de resolutivo; não passa de comum e velho método de enriquecimento por
substituição. Esse método não chega a solução alguma como sistema, pois se
limita a substituir pessoas e classes sociais nas mesmas posições antigas.
Por isso, desperta profundamente o interesse de pessoas a quem aproveita,
dando-lhes vantagens pessoais; não interessa, porém, ao progresso social, a que
importa a estrutura orgânica da sociedade e não a utilidade pessoal; renovar
o ordenamento das posições e não as pessoas que as ocupam; eliminar os velhos
erros e explorações ao invés de continuar repetindo-os em proveito alheio. A
moderna luta de classe não passa da velhíssima luta biológica que,
legitimando-se e assumindo funções de distribuidora de justiça, procura
adquirir prestígio. Velho mimetismo que não subsiste em face das verdadeiras
forças da vida. Isso não é equidade. A equidade nesse caso é apenas um
pretexto. O método empregado pela violência e pela prepotência no fundo revela
o mesmo abuso, fonte das costumeiras e intérminas reações. E o homem.
fascinado pela miragem do bem-estar, continua acreditando na possibilidade
do absurdo, isto é, que a usurpação possa produzir frutos estáveis e baste
disfarçar a força com as vestes da justiça para obter aqueles resultados
definitivos que ela por natureza não pode dar. Assim, os homens mudam, más os
erros continuam.
Apenas a equidade pode oferecer solução
estável e conclusiva, com a adoção de um sistema de equilíbrios e não por meio
de novas usurpações com que, em nosso proveito, acreditamos corrigir as
anteriores. Isso não é justiça, mas egoísmo. E quando a verdadeira justiça não
se faz presente, as mesmas razões que hoje nos autorizam a, no domínio e
bem-estar, substituir os seus detentores, vão amanhã autorizar que outros nos
substituam e assim por diante. Forma-se então a muito conhecida e resistente
cadeia de ações e reações intermináveis. Se queremos chegar a alguma conclusão,
essa equidade não deve ser apenas aparente, mas substancial, nem estar somente
nas formas, mas também nas almas. Noutras palavras: torna-se necessário introduzir
também no mundo econômico o conceito do equilíbrio, da ordem e da harmonia,
fundamental em qualquer campo de forças e, por isso, inclusive no da riqueza,
que não passa de caso particular. De acordo com ele, do mesmo modo que o ódio
só termina se lhe contrapusermos o amor, e a ofensa se lhe opusermos o perdão,
e a violência, se lhe antepusermos a paciência, assim também o desajustamento
e a luta não findam senão contrapondo-lhes a verdadeira equidade e justiça.
Cristo não diz aos pobres: rebelai-vos.
O sistema é radicalmente diferente do sistema do mundo. Todavia, a este, que
não compreende coisa alguma senão à luz crepuscular da vitória-derrota, ele dá
a entender que não vê no pobre um derrotado. Se não diz:
"rebelai-vos", muito menos: "sofrei passivamente". Diz, pelo
contrário: "Vós, vítimas da injustiça, tolerai, tende paciência". Por
que isso? ~ o que nos perguntamos. Como sempre, a filosofia de Cristo se completa
num mundo ultra-terreno, na íntima realidade das coisas em que se completa e
justifica toda aparência percebida por nós. A razão, diz-nos Ele, reside em
que a injustiça que vos oprime é apenas humana e, por isso, temporária presa
tão-somente a esta vida na Terra, não passa de pequena injustiça secundária,
incapaz de violar, como de fato não viola, a bem maior justiça divina, a que
transforma o oprimido em credor. Ficai, pois, tranqüilos, se ainda hoje
sofreis, injustamente como pode parecer-vos. Deus é justo e a injustiça do
momento será compensada, reequilibrada; vosso direito é verdadeiramente justo,
vossa consciência não se engana e será ouvida. O sistema do universo é
perfeito, lógico, equilibrado, absolutamente estável. Mas o tipo normal, isto
é, o involuído não sabe enxergar tão longe e leva essas promessas em
brincadeira. Culpa de sua miopia.
A nova afirmação irrompe gritante no
início do Sermão da Montanha, enunciando-lhe de um só golpe os temas fundamentais.
Em suas antíteses se percebe a inversão das posições, o jogo das forças
opostas, o dualismo do binômio de que esses argumentos constituem os extremos e
servem ao equilíbrio das forças. Eis o texto (Lucas, Cap. 6):
“..... Bem-aventurados vós, os pobres,
porque vosso é o reino de Deus.
“.... Bem-aventurados vós, que agora
tendes fome, porque sereis fartos. Bem-aventurados vós, que agora chorais,
porque haveis de rir.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
“....Mas ai de
vós, ricos! Porque já tendes a vossa consolação.
"... Ai de vós, que estais fartos!
porque tereis fome. Ai de vós que agora rides, porque lamentareis e
chorareis".
O problema resolve-se através das
beatitudes. Quer dizer: os pobres, os famintos, os atribulados, além de
fraternalmente lastimados e reconfortados como o reconhecer-se-lhes o direito
a serem compensados, são considerados incontestavelmente bem-aventurados, isto
é, vencedores, afortunados; por outro lado os que o mundo inveja como
vencedores são tidos na conta de vencidos, de desgraçados. Esse é o juízo de
Deus, que se coloca no lugar do juízo humano. É assim que Deus julga. Por isso,
ó pobres, não vos arrogueis o direito, que só a Ele pertence, de fazer justiça.
E justiça já vos foi feita. Querendo alcançá-la por vós mesmos, violentamente,
perturbais o equilíbrio já existente. Tendes razão e ides colocar-vos ao lado
do erro, das culminâncias dos vencedores vos precipitais na miséria dos
vencidos, da harmonia dos planos divinos ides mergulhar no marasmo das baixas
competições humanas. Perante Deus já tendes razão. Bem-aventurados sois. Que
mais podeis desejar? Se não esperardes que a justiça venha de Deus, mas de
vossa violência e de vossa revolta, então passareis da parte dos credores para
o lado dos devedores. Não tenteis legitimar vosso roubo, dizendo que a
propriedade é um roubo. De acordo com esses argumentos, que coisa seria vossa
propriedade atual? Não vedes, porém, que exatamente o vosso furto presente
legitima o furto passado e estais no mesmo plano e imitais exatamente aqueles
a quem acusais? Por que razão apenas o vosso furto se justificaria e o dos
outros não? E vós, improvisados distribuidores da justiça, é essa a justiça
que distribuís? Não. A filosofia do interesse falta lógica; quando pretendeis
passar por justos, mentis. Não. Jamais é lícito roubar, nem mesmo dos ladrões,
como facilmente acreditamos. Então, ao invés de justiceiros, também sois
ladrões e pagareis por isso. A culpa é mal infinitamente maior do que a,
pobreza. Antes de mais nada, merecei, pois, sem merecerdes, nada podereis
possuir com segurança e, por isso, gozar (cf. cap. VI deste volume: "A lei
da honestidade e do merecimento").
Assim esclarecidos e confortados os
pobres, depois de, colocando-os num pedestal de grandeza, havê-los protegido
contra os juízos humanos, depois de exortá-los a conservar a vantagem dessa
preciosa posição, Cristo dirige-se aos ricos, aos afortunados e, com relação a
eles mudando completamente o tom do Sermão, mostra-lhes sua própria miséria não
lhes concede nem salvação nem trégua, indicando-lhes as graves obrigações
inerentes à sua posição e ameaçando-os. os com as conseqüências de seu
inadiplemento Desse modo, lógica e naturalmente, sem novos excessos e novas
desordens, o mundo econômico se reequilibra comp1etamente confiando a solução
do problema não a sistemas sociais exteriores e coativos, mas ao simples, real
e espontâneo funcionamento das forças intimas da vida. E logicamente o
reordenamento começa no indivíduo e em sua íntima convicção, ao invés de na
coletividade e na coação; começa no ato generoso de dar e não no de tomar, que
é furto e violência. Só o "dar" livre e convicto reequilibra e
saneia; o “tirar” não; só mudando, antes de nada mais, as diretrizes
psicológicas do caso particular conseguimos estável transformação coletiva. Os
sistemas do mundo de hoje são muito variados e, se correspondem a forte
necessidade de justiça e exprimem a tendência da evolução social na fase
presente, estão muito longe de possuir os requisitos necessários para pode
instaurar a sério a justiça social. Partindo da injustiça da. violência, não
podemos chegar à justiça, mas apenas a nova injustiça. Existe, pois, outra
economia política, não baseada no "do ut des" das trocas do
"homo oeconomicus" ou. no princípio hedonístico, mas assentada nos
equilíbrios das forças em ação no funcionamento da vida. Essa é a economia do
Evangelho. Se sua base passar de simples relação de egoísmos humanos a relação
muito mais vasta, de impulsos biológicos, conseguem-se resultados imensamente
maiores, quer quanto à profundidade, como à excelência, e à estabilidade.
Observemos agora o pensamento de Cristo
em relação à. propriedade. Ele não enfrenta e resolve os problemas social
isoladamente, como muitas vezes fazemos, mas enquadrando-os em soluções mais
vastas e profundas e, por isso mesmo, mais completas. O preceito "ama o
teu próximo como a. ti mesmo" implicitamente contém e resolve todos os
problemas sociais. Esse enquadramento, se copia a amplitude dos direitos da
jurisprudência romana, coordena-os no plano social, freia o individualismo, em
beneficio do coletivismo, traçando tendência precisamente à dos tempos
modernos. Já existe,
estabelecido no Evangelho, um princípio que se manifestará mais tarde com um
lento movimento na forma de cerco do arbítrio, da liberdade incontrolada, do
abuso, movimento que, iniciando-se com o Cristo, continuou e continuará até a
sua completa realização". Assim, o absolutismo do
poder público e o da propriedade privada se substituem por formas mais suaves
e equilibradas. O "jus utendi et abutendi[11]"
dos pagãos, egoisticamente ilimitado, racionalmente sofre cada dia
maiores restrições em homenagem ao reconhecimento da utilidade pública,
conceito que é conquista moderna na concepção orgânica do Estado. Mas o
Evangelho, com dois mil anos de adiantamento, avançara muitíssimo, fazendo, por
motivos de utilidade pública e como limitação, pesar sobre a propriedade até
mesmo a pobreza do próximo, de que não é lícito desinteressarmo-nos. O conceito
de utilidade pública estende-se assim até abranger, além dos interesses do
Estado e da coletividade, também os interesses do indivíduo infeliz; chega,
assim, a conquistar conteúdo biológico protetor, assume o caráter de função
conservadora da vida, torna-se expressão de leis e forças universais. Que sentido
e alcance diferentes agora tem o programa de igualdade econômica, isto é, o
que visa à defesa do direito fundamental de todos à vida!
Desse modo, o interesse coletivo não se
detém e, com utilidade geral, se avantaja sobre o interesse egoístico do indivíduo.
A propriedade privada subsiste, cada vez menos como império arbitrário e cada
vez mais como função social disciplinada, como serviço público. Mas é
exatamente o fato de as bases da propriedade privada se espraiarem na coletividade
e a sua completamente nova garantia de solidez, que antes, com a alternância de
abusos e reações, ela não podia possuir. Quem jamais pensaria em atacar riqueza
e propriedade de que todos tiram vantagem? O peso dessas limitações se
compensa, em face dos equilíbrios da vida, com a estabilidade e o sossego; o
não esquecer o próximo, para o rico, se transforma em força protetora; o
sacrifício aparente fica bem pago com nova garantia de gozo. Assim, essa
cessão à utilidade coletiva reduz-se à vantagem que recai também sobre o
particular. O pensamento evangélico caminha muito à frente das incompletas
reformas modernas, fazendo do rico, não mais simples proprietário, que
trabalha em proveito próprio, mas administrador em proveito alheio. E o
Evangelho não chega a soluções tão radicais através de sistemas distributivos
artificiais e coativos, mas através do individualismo mais completo e livre.
Cristo não apela para as coações estatais, mas se dirige, tão-somente, à
pessoal. íntima e convicta maturação e ao irresistível funcionamento das leis
vitais. No Evangelho a palavra "verdade" suprime e substitui a
palavra "sanção". O grande abismo entre os dois sistemas, o
evangélico e o coletivista moderno, é o mesmo que vai de substância a forma. O primeiro emprega a paz, é equilibrado e
resiste; o segundo utiliza a guerra, é desequilibrado e não resiste. Em todo o
sistema de Cristo não se fala em guerra e, por isso, sendo equilibrado, é solidíssimo.
O princípio dissolvente, o que prega a desordem e a luta, foi dele
completamente evoluído, como terrível força desagregadora que, antes de tudo,
deve ser a qualquer custo mantida bem longe, se quisermos construir com solidez.
Por essa razão toda agressão, toda violência, todo ódio e todo choque, seja
qual for a finalidade, deve sempre ser considerado como absolutamente negativo,
destruidor e, por isso, anti-social. O verdadeiro inimigo, o que impede a solução
de todo problema coletivo, está dentro de nós mesmos, em nossos sistemas
nascidos de nossos instintos, em nossa posição de desequilibrados, no caminho
que seguimos para resolvê-lo. As leis da vida são o que são. Não há outro caminho:
ou cumprimo-las e gozamo-lhes das vantagens ou descuramo-nos delas e
sofremo-lhe as conseqüências.
Daí se vê como a luta de classe
constitui o meio menos adequado a esse objetivo. Menos danoso é o sistema de
coação estatal. O único sistema perfeito é o socialismo convicto e espontâneo
de Cristo, que não agrava a situação, pondo em choque os interesses egoístas,
mas começa pela afirmação e tomada de consciência da unidade espiritual que
não parte, como o socialismo humano, dos direitos e da luta, mas dos deveres e
da paz. Não se nega, por isso, a dura necessidade dos sistemas humanos, pois
parece que sem coação nada se possa conseguir de involuídos; verifica-se
tão-somente constituírem eles péssimo sucedâneo, de que nada de bom e
conclusivo se pode esperar senão na percentagem do produto genuíno contida no
referido sucedâneo. O objetivo é sempre a justiça social; os métodos para
consegui-lo é que diferem. Porém, aí onde predomina a intervenção do Estado, e
ninguém pode desconhecer-lhe a necessidade e a utilidade, torna-se necessário
não esquecer o individualismo cristão, de raízes profundamente mergulhadas nas
leis da vida e apto a suavizar, contrabalançar e completar o trabalho do outro
sistema De fato, individualismo e coletivismo são apenas os dois extremos do
mesmo problema social e dois modos de resolvê-lo que não se podem reciprocamente
ignorar; são, como homem e mulher, dois termos inversos e complementares e a
sociedade pode desenvolver-se apenas à custa do concurso e da colaboração
harmônica de ambos. De fato, ninguém é mais coletivista que o individualista
cristão; em nenhum programa há tanto coletivismo como no programa social de
Cristo. Por isso, é mais fácil chegar ao coletivismo verdadeiro através do
individualismo que do próprio coletivismo. Ninguém discute a importância construtiva
do senso orgânico representado pelo Estado moderno; porém, neste livro também
se afirma que, sem a concomitante maturação intima do indivíduo, esses
sistemas exteriores e coativos, e, por isso, desequilibrados, podem, abandonados
a si mesmo, reduzir-se a asfixia, mentira, reação, instabilidade. Nada
consegue durar, se não conseguirmos também persuadir e educar. O indivíduo, se
não for persuadido, embora sofra e obedeça, poderá refugiar-se na inviolável liberdade
do espírito. Ao contrário, todos os sistemas humanos fundados na coação,
naturalmente produzem as reações já descritas. Torna-se necessário, quando nos
dispomos a construir, levar em conta, não só no campo moral, como também no
social e utilitário, aqueles equilíbrios de forças que o Evangelho demonstra
conhecer profundamente. Se não for assim, o método humano ficará na situação de
retardatário relativamente ao de Cristo e quem praticar este último,
representativo de superamento da força, se tornará independente de tudo quanto
dela se origina. A estratégia cristã, baseada na verdade e na justiça, pertence
a um plano superior ao plano humano da força e do império e, por isso, é mais
poderosa e vence o combate travado entre os dois planos, como acontece, na luta
entre involuído e evoluído. Assim, os exércitos mostraram-se impotentes para
defender Roma, enquanto a Cristandade, desarmada, se colocou a postos e
venceu.
XXI
CRISTO PERANTE ROMA
Não podemos compreender bem a revolução
social iniciada por Cristo e em seguida continuada lentamente através dos
séculos, até ao decisivo e atual momento histórico, senão comparando
rigorosamente a psicologia da romanidade imperial com a do programa evangélico.
O problema continua atual porque o choque das forças contrárias é idêntico
hoje em dia e o mundo se encontra nas mesmas condições: as duas concepções
estão nitidamente em luta. Observemos a estrutura da concepção social romana,
para em seguida verificar como o Cristianismo, desarmado desfecharia o assalto
às bases mesmas dos princípios que regiam toda a estrutura do império e,
justamente por ser, fase biológica mais evoluída, o poderia pacificamente
superar e vencer. O choque se dá, essencialmente, entre força e justiça, entre
duas diferentes estratégias, que não combatem no mesmo plano e com as mesmas
armas e falam línguas mutuamente incompreensíveis. Cristo e Roma estão face a
face. Simbolizam dois sistemas, vivos ainda hoje, ainda hoje face a face o
problema continua atual. O estudo do dinamismo íntimo, já explicado, dos dois
mundos representados respectivamente por Cristo e Roma, nos demonstrará sob
forma. racional o significado íntimo desse choque.
O império romano representava a máxima
realização da força, plenamente triunfante. O direito romano é, sem dúvida,
poderosa criação de gênio coordenador, admirável monumento de disciplina e
organização; porém, permanece sempre ao nível da força. Na violência mergulham
as raízes do direito que, ao invés de quebrá-la, condenando-a, intervém para
discipliná-la. É sem dúvida um passo à frente,. indispensável primeira
tentativa no sentido de domesticá-las e reabsorvê-las; mas o princípio, tão
distante do evangélico, é baixo, biologicamente adequado ao tipo involuído
cuja inferioridade já examinamos. O direito romano não se rebela contra esse
princípio, mas o aceita e, contentando-se com dignificá-lo, intervém para
aprovar, tornar válido e legalizar o fato consumado. Da maturação evolutiva
daqueles tempos não se poderia exigir mais. O Império nada mais era senão o
método mais aguerrido, orgânico e legítimo de dominação. Mas se fez tudo quanto
a evolução biológica do tipo majoritário permitia. Por isso, permanece de pé,
embora em sentido relativo ao momento histórico, a indiscutível grandeza do
Império e a função social de suas criações jurídicas. Os romanos, sem dúvida,
introduziram ordem na força, que, assim, de impulso desagregador, se viu constrangida
a tornar-se instrumento de construção social. Comparado com a indisciplinada
violência do selvagem, esse fato constituiu sem dúvida grande progresso. As
províncias anexadas foram, decerto, exploradas, esmagadas, submetidas a
servidão e a pagamento de tributos com que se alimentava o tesouro de Roma; mas
foram, também, incorporadas ao grande organismo, governadas e, por isso,
impregnadas do conceito, para elas superior, de organicidade central que Roma
lhes transmitia. A grandeza imperial desabou, fora de dúvida, como mão de ferro
sobre o mundo daqueles dias; não havia, porém, outro modo de civilizá-lo. Por
isso, tudo estava biologicamente proporcionado, correspondendo às necessidades
da época.
Contudo, o vício originário de que
resultava toda a estrutura do sistema, embora justificado e até mesmo enobrecido,
constituía permanente acusação movida à Romanidade, comparado com os métodos
mais evoluídos enunciados pelo Evangelho. O fato de Roma, máxima potência
jurídica, ter sido a mãe do Direito, jamais pôde impedir que suas raízes se
embebessem no espírito de dominação e nas violentas conquistas da guerra. A
mancha era mais tarde considerar-se plena e legítima a propriedade filha do
furto, obtida apenas com o emprego da força. Esse reconhecimento oficial do
direito do mais forte, essa adesão incondicional a esse principio moralmente
inferior revelam o baixo nível espiritual daquele povo e constituem acusação
contra ele. Acusação de egoísmo que, num mundo de civilização mais adiantada,
não lhe daria o direito de tornar-se nação senhora das gentes. A força
transformada em justiça, eis as bases do Império Romano. O estudo que fizemos
do valor da força do dinamismo dos fenômenos sociais nos mostra as razões da
queda daquele Império e de sua substituição pelo Cristianismo. Isto é,
mostra-nos que a violência gera contra seu autor reações inimigas e destrutivas
e, como o Cristianismo representava princípio mais elevado, tinha o direito de
viver no lugar do antigo princípio, sepultado nas próprias ruínas por ele
buscadas e cujas funções já se encontravam esgotadas. Conceitos esses
incompreensíveis para os romanos. O Evangelho estava acima de sua compreensão.
A Antiga Roma é grande, mas apenas no
plano humano. Seu gênio conquistador é grande. Para criar e aumentar sua
riqueza, Roma guerreou contra o mundo durante sete séculos. Acumula, depois se
entrega aos prazeres e cai. vítima de seu poder, é traída pela mesma riqueza em
que acreditou. Erros no sistema, destruídos com poucas palavras de Cristo no Sermão
da Montanha. Mas os positivistas da antigüidade não o entenderam e foram
vítimas disso. Sua filosofia era superestrutura refinada, vã e fictícia, sem
ligação com a vida; não passava de discussões acadêmicas, não interessadas em
modificar-lhe as bases, que permaneciam firmes e significavam: dominar. Meio a
empregar: a conquista guerreira. Resultado: o solo provincial,. propriedade de
Roma, os tributos pagos por aquelas terras ao proprietário. Os povos dominados
são constituídos principalmente de vencidos, sujeitos a contribuição, escorchados
pelo fisco, ajoelhados aos pés da "Urbs" administradora da justiça.
O resto, o menos importante, não interessa e, por isso, é magnanimamente dado
como presente; mas o poder judiciário supremo permanece em mãos do magistrado
vindo de Roma.
Essa a situação com a qual Cristo se
defrontou, esse o sistema enfrentado por Ele, sistema de função histórica já
esgotada e próximo do aniquilamento. Ele compreendeu Roma; Roma, porém, não O
entendeu. Ninguém, ou quase, notou Sua presença, que no entanto representava o
futuro, o único futuro possível. Cristo se ergue diante de Roma e inaugura
diferente sistema fundamental, que ataca o outro nas próprias origens e o
vence e é de outra natureza e pertencente a nova fase biológica. Cristo
coloca-se em plano mais elevado e dele é que olha todas as coisas Ele, embora
impregnado de dignificante respeito pela autoridade, não desce jamais ao nível
de Roma, não compete com o poder, não o trata de igual para igual; obedece-lhe
por dever, mais como homenagem ao próprio dever, isto é, ao valor dessa figura
moral, do que ao poder considerado em si mesmo, quer dizer, à superioridade do
domínio alheio. O seu é respeito mais ao princípio do que ao homem, que vale o
que vale. Dá, pois, ao poder tudo quanto lhe diz respeito, como se se tratasse
de criança a quem não se tiram os brinquedos, tão pequeno valor se atribui ao
que ele de fato é e reclama. Em substância, a atitude de Cristo perante a
autoridade do mundo é a de respeitoso e dignificante desprezo porque, em
relação ao céu, são desprezíveis o mundo e tudo quanto lhe pertence. Realmente,
Ele despreza a realeza terrena oferecida pelas turbas, sentindo-se rei, mas de
reino bem diferente. Sua atitude em relação às autoridades constituídas não
poderia consistir na costumeira atitude humana que, filha da força, não passa
de servilismo, ou, então, de rebelde tentativa de subverter as posições para,
em seguida, ocupá-las; sua atitude, muito ao contrário, porque deriva de
princípio mais elevado, é naturalmente superior e quase de indiferença. Os
grandes valores não residem lá onde o homem pensa e os valores humanos não
merecem tanta atenção. Considerados em si mesmos, causam-nos mais piedade que
inveja, se não contiverem mais elevado conteúdo moral de função e emissão.
Assim, a posição de Cristo em relação a tudo quanto é tido no maior apreço como
afirmação do homem da força, é negativa, de respeitosa abstenção, tão longe
deste mundo estão os maiores tesouros da vida, tão diferente da posição em que
se crê é a realidade íntima das coisas, tão repleto de poder e riqueza está o
outro reino, o do céu. Eis como o espiritual e o temporal se tocam, sem que,
porém, um invada o campo do outro. Tudo quanto Cristo tem em grande apreço é
desprezado pelo mundo; Cristo despreza tudo quanto pelo mundo é tido em grande
consideração. Que pôde o império de Roma contra ele? A lei, filha da força, não
possuí outra arma senão a força; poderá constrangê-lo; Ele, porém continua
livre no espírito. E, ameaçado por Pilatos, autoridade humana, responde-lhe
que o poder vem do alto e não somente de baixo, quer dizer, é bem diferente do
simples resultado de uma conquista, do exercício do império pelo vencedor, do
arbítrio, de simples vantagem; muito ao contrário: é função social enquadrada
em uma hierarquia de forças e funções em direção a Deus; é comando em favor da
obediência; consiste em dominar para servir, em impor-se, mas sob a orientação
de princípio e apenas enquanto em relação com ele; constitui, pois, missão,
dever, cumprimento da lei de Deus, a quem todos nós devemos prestar contas.
Todo o sistema da força sobre que Roma se ergue acaba sendo tragado e
naufragando aos pés desse sistema derivado de princípios tão diferentes. Ao
afastar a pedra do sepulcro, o Ressurrecto abalou até os alicerces do mundo que
o circundava.
A força constituía a base do império.
Cristo substituiu-a pela justiça. O egoísmo e o interesse dominavam em Roma;
Cristo substituiu-os pelo amor fraterno. Há vinte séculos já' se anunciou e teve
início a atuação desses novos ordenamentos sociais, de que hoje o mundo tenta
aproximar-se de novo. E, enquanto Roma fazia funcionar o plano da organicidade
social, Cristo iniciava o da justiça social, que ainda hoje provoca tanta luta.
Perante exército fundado na força, Ele vence com exército de pacíficos
mártires. O sistema desarmado, porém mais elevado, vence ao sistema armado,
porém menos evoluído. A estupefaciente e incrível subversão dos valores
torna-se realidade. A Lei de Deus substitui a dos homens e os vencedores deixam
de ser os mais fortes, juridicamente organizados, para serem os justos, os
oprimidos, os vencidos, isto é, os credores, segundo o entendimento da Lei.
Cristo proclama outras vitórias e exalta outro tipo de vencedor. O cidadão
romano não podia entender nada disso. A solidariedade social não é garantida
mais nem pelo direito, pela disciplina da força, nem pelos institutos jurídicos
coordenadores, e sim pela reciprocidade do dever e do amor, a que livremente
aderimos. Para o cidadão romano, essa nova e convicta liberdade era anarquia; o
superamento, absenteísmo; a paciência, vileza; a obediência, debilidade; o
sofrimento, derrota. Tão grande diferença impossibilitava a compreensão. A
conceituação do direito é atingida em cheio e abalada em seus próprios
fundamentos. O direito não é mais filho da força, o resultado de conquista,
concessão ou pacto. O novo direito prescinde da força e, por constituir-se
essencialmente de justiça, é até mesmo contrário à própria força. Baseia-se
em princípio completamente diverso do jurídico romano, participa de outro
sistema e de outro mundo. Não se trata mais do direito humano da força, mas do
superdireito do merecimento. Não é mais o homem quem, como nos mercados, toma
da balança e pesa o "deve" e o "haver" dos direitos e
obrigações; as forças íntimas da vida é que, de acordo com o critério da Lei de
Deus, distribuem ou não os bens, premiam ou castigam. Perante esse
superdireito substancial, o velho conceito romano torna-se valor formal, relativo,
de referência, coisa miserável e mais digna de piedade que de ser combatido. Os
líderes e os imperadores são derrubados do trono e, se nele permanecem, isso
acontece apenas enquanto são instrumentos de Deus.
Desse modo, toda a diretriz humana
varia, o mundo não mais se conserva fechado em si mesmo nem apenas em si mesmo
vê os seus objetivos, mas se abre para o céu e nele se completa. Entre a idéia
romana e a de Cristo vai um abismo, o mesmo que vai do homem ao super-homem.
Para o homem que atingiu o segundo, o primeiro perde naturalmente todo valor. O
reino da força, habituado a enfrentar o inimigo tangível e concreto, não estava
preparado para resistir a esse assalto negativo e foi vencido. Tudo isso constitui
novo modo de conceber o mundo, nova corrente de pensamento, e, ao mesmo tempo,
a indiferença, grau mais baixo da desvalorização, e a roedora traça, intima e
invisível, que decompõe o velho mundo. As coisas humanas, a vida do império,
tornam-se conseqüências secundárias; as bases da ação não se acham mais na
terra, o centro de gravidade do universo deslocou-se, tudo gira em torno de
outro eixo e, mesmo quando é necessário ocupar-se das coisas terrenas, tudo assume
significado e função diversos. O mundo transforma-se por dentro e não por fora.
A grande revolução se processa em silêncio na intimidade das almas. Tudo
quanto era principal e preponderante acabou subordinando-se a algo novo,
recém-nato, que, há pouco desconhecido, se tornou agora o mais importante. O
velho mundo não mais encontra rebeldes a serem submetidos, e sim mártires que,
perdoando, se deixam matar. E desnorteou-se. Como combater esse inimigo? A
força, desprovida de inteligência, apressa-se a fazer a única coisa que sabe:
destruir. Mas engana-se, porque na realidade não destrói. Pelo contrário,
reforça o inimigo, pois sem dúvida as perseguições exaltam. Mata, porém cria
heróis, causa morticínios, mas torna-se instrumento de propagação. Então, a
força revela-se o desencadeamento cego que verdadeiramente é, ignorante do jogo
delicado de reações por ele começado, sem de modo algum compreendê-lo e, por
isso, incapaz de furtar-se às suas conseqüências. O pensamento romano é
apanhado por novo mecanismo, sob a forma de pensamento inexplorado, cuja direção
não pode assumir, por incompetência e falta de preparação. O povo,
principalmente, sem responsabilidade nos crimes do poder e bem próximo das
fontes da vida, é o primeiro a receber a semente e a intuir, em sua
simplicidade nativa, despida dos preconceitos e artifícios do saber. O povo,
por instinto vital, percebe a verdade nova; o povo que sofre tem, por isso
mesmo, os olhos abertos e os ouvidos atentos, pois não dorme nas comodidades.
Verdadeira campanha de reabsorção do ódio pelo amor, da violência pelo perdão.
Não mais uma das costumeiras revoltas à base de desequilíbrios, revoluções
aparentes e fora de época, o habitual vaivém da substituição de pessoas, porém
nas mesmas posições; mas revolução à base de equilíbrios, de substância, de
saneamento, lenta, mas de posição estável, colocada organicamente no dinamismo
da Lei e da evolução, feita para durar, como vem durando através dos séculos.
E, assim, o império que vencera as batalhas da força perde a batalha sem armas.
Observemos ainda mais de perto o
encontro entre os dois princípios, na pessoa de seus representantes: Cristo e
Pilatos. Este, homem interesseiro, vil e insignificante, passou à História
apenas porque se encontrou com Cristo, de quem não entendeu coisa alguma. O
representante oficial do império de Roma, o intérprete da Lei, a autoridade que
deve dar o exemplo, embora tente assumir atitude formal, é vazio por dentro e
por isso tem comportamento hesitante e equívoco, que deixa transparecer esse
vazio interior e a insuficiência do sistema da força e da forma, isoladamente
considerado. É inútil querermos, na vida, esconder-nos dessa maneira e
justificar-nos, como se as aparências tivessem força de realidade e a forma
valesse como substância. A verdade interior acaba, cedo ou tarde, revelando-se
também no exterior, pois as reações dependem das convicções, que ao mesmo tempo
lhes dão nascimento e lhes servem de guia. Esse homem típico de sua época e do
seu mundo não possui nenhum senso
interior que o guie e a letra da lei não basta para socorrê-lo no encontro supremo.
Cristo fala-lhe de verdades eternas e ele pensa no imperador Tibério e na
própria carreira; é um verme que rasteja no pó, algemado aos interesses
pessoais e nem de leve suspeita do significado das palavras que ouve; sua alma
é surda e Cristo, percebendo-o, não lhe responde. Apenas este argumento a
comove: ser ou não ser amigo de César. "Se soltas este, não és amigo de
César..." (João, 19:12). Confunde Cristo e seus acusadores na mesma raça
inferior, pois um só direito e uma só grandeza podiam existir na sua mente: os
do vencedor. Com a cabeça quadrada de romano e modelo de todos os homens
práticos e positivos, Pilatos não entende nada. Do alto de sua grandeza moral,
armado de poder mais elevado e de autoridade bem diferente da autoridade moral
do representante da lei, Cristo perscruta-o intima e demoradamente; e cala. A
grave, mas desprezível e distraída pergunta, atirada sem o desejo de receber
resposta: "Que é a Verdade?" (João, 18:38), quando proposta, como o
foi, por indigno cético, Cristo responde com o silêncio, Cristo despreza até
mesmo a própria defesa, pois prefere abandonar-se à Lei e à vontade do Pai a
render-se às razões humanas, que constituem a arma inaceitável do sistema
humano de Pilatos. Cristo não desce até esse plano. Pilatos pergunta-lhe:
"Nada respondes? Vê quantas coisas testificam contra ti. Mas Jesus nada
mais respondeu, de maneira que Pilatos se maravilhava". (Marcos 15: 4-5).
Não podia conceber o método de Cristo e seus objetivos sobre-humanos. Para ele,
era absurda a psicologia do martírio. Cristo respondeu-lhe apenas para
dizer-lhe que em verdade era rei e para colocar no devido lugar a autoridade
deste mundo, traçando-lhe os limites exatos. Pilatos diz-lhe: "Não me
falas a mim? Não sabes tu que tenho poder para te crucificar e tenho poder para
te soltar? Respondeu Jesus: Nenhum poder terias contra mim, se de cima te não
fosse dado". (João, 19:10-11). Assim, outro poder se manifesta por detrás
e acima do poder humano, transformando o árbitro vencedor em simples instrumento
nas mãos de Deus.
Poderão objetar que Pilatos não era,
certamente, tipo exemplar de magistrado romano e, por isso, não representava a
romanidade toda. Porém, não se trata aqui apenas do caso de um homem que por
baixeza traia um sistema perfeito; trata-se, isso sim, de sistema que põe a nu
os seus pontos fracos, pois não corresponde aos objetivos da vida e do
progresso, quando o confiam a um homem qualquer e o fazem defrontar problemas
mais elevados e, no entanto, fundamentais para a sociedade humana. Quantas
vezes, quem sabe, Pilatos não teria ouvido em Roma as vazias e tediosas
discussões de gregos filosofantes, estabelecidas com propósito exclusivamente
pecuniário, habituando-se desse modo à idéia de que não se chegava à conclusão
alguma, discutindo-se a respeito da verdade, conceito que em seu espírito deveria
ter adquirido o sentido negativo de vacuidade e de mentira. Mas esse ceticismo,
incapaz de levar a sério qualquer filosofia ou teoria, não era a forma mental
de Pilatos apenas. Em sua psicologia aflora a do século, de que ele não era
senão um expoente. Pela boca de Pilatos falam os tempos já incapazes de
acreditar seja lá no que for, fala o materialismo de Roma, que os alimentava e
representava. E como a Roma imperial não dispunha dos elementos necessários
para saber compreender e levar Cristo a sério, assim também Pilatos não o
compreendeu nem o levou a sério isto é, não se mostrou capaz de fazer nem mais
nem me nos do que seu mundo sabia fazer; de um lado, Cristo; de outro, um mundo
repleto de incompetentes. Em Pilatos encontravam eco Roma e o seu tempo. Ele
era filho e produto de ambos, como o efeito que, ligado à causa, não pode
deixar de exprimi-lo e representá-lo. Não apenas substancial, mas até mesmo
oficialmente, Pilatos era, como magistrado, o representante do povo e do
pensamento de Roma, da autoridade imperial que, de fato, não o desaprovou e,
assim, lhe subscreveu o ato. Concordou com ele; logo, tornou-se co-autora. A
desonra do Gólgota não constituiu, pois, apenas erro e culpa do homem, mas
também erro e culpa do sistema que fizera o homem assim, e o obrigava a comportar-se
desse modo. O erro continuou, de fato, por séculos e séculos e sempre com novos
mártires, exatamente porque esse sistema não era capaz de entender senão a
autodefesa; encerrado no próprio egoísmo, não sabia elevar-se a visões de
conjunto tão vastas ao ponto de abrangerem a evolução do mundo.
Para lutar é necessário ter afinidade e
compreensão, ter algo em comum que una e divida. Cristo e Pilatos representam
dois mundos diferentes. Estranhos um ao outro, senhores de dois campos
diversos, encontram-se por acaso, sem se haverem procurado; cada qual raciocina
com todo rigor lógico, mas o raciocínio de um e de outro são reciprocamente
absurdos. Cristo compreende perfeitamente ao outro e por isso cala. Mas, ao
contrário, a forma não compreende a substância, a força não compreende a
justiça, mostra-se cega, apenas capaz de golpear e, assim mesmo, de golpear às
cegas, sem compreensão, dando-se a espetáculo tão escandaloso que demolirá
sutilmente, durante séculos e séculos, o principio de autoridade baseado na
força. O poder humano condena e assim, em virtude de poder mais alto, atrai
sobre si a condenação do mundo. A força, quando não guiada pelo espírito,
comete enganos e fracassa; e a justiça mais perfeita do espírito triunfará
apesar da injustiça humana. A batalha, sintetizada naquele primeiro encontro de
Cristo e Pilatos, continuará a travar-se durante milênios, seguindo o
desenvolvimento dos impulsos que ela representa. Se no drama Cristo e o
Sinédrio estão frontalmente opostos, como verdadeiros antagonistas, no campo
moral do bem e do mal, que lutam, porém, não se entendem; ao poder civil nem
mesmo essa honra se concede. Judas e o Sinédrio vão direito aos seus objetivos.
Pilatos é uma série de contradições, incertezas, mal-entendidos. A própria
inscrição indicativa do titulo da condenação "Jesus Nazareno, rei dos
judeus" não passa de mal-entendido. A mente de Pilatos girava em redor de
centro totalmente diverso. Assim, para se esquivarem, procuram ridicularizar.
Para livrar-se de Cristo, manda-o a Herodes. Declara duas vezes: “.... não
acho nele crime algum). (João, 19:4) e: "nenhum crime acho nele".
(João, 19:6). E pergunta: "Pois que mal fez este?" (Lucas, 23:22).
Portanto, nenhuma culpa acha no acusado, reconhece-lhe a inocência e deixa
executar-se uma condenação que podia e devia anular. Torna-se, desse modo,
cúmplice do Sinédrio que, ao invés de promover um julgamento, tramava a morte
já preconcebida e preordenada com propósito deliberado. "Então", diz
Mateus (27:24-25): "Pilatos, (....), lavou as mãos diante da multidão,
dizendo: Estou inocente do sangue deste justo: considerai-o vós. E, respondendo
todo o povo, disse: O seu sangue seja sobre nós e sobre nossos filhos".
Eis a figura "daquele que por vileza foi o autor da grande recusa". A
recusa foi grande e vil. Pilatos se convencera da inocência de Cristo, pois o
chama justo. Pergunta: "Pois que mal fez?" porque percebeu a
falsidade da acusação, movida apenas pelo ódio. "Porque ele bem sabia que
por inveja os principais dos sacerdotes o tinham entregado". (Marcos, 15:
10, 14). Repete: "Não acho culpa alguma neste homem" (Lucas, 23: 4, 22)
e procura libertá-lo; no entanto, deixa-o caminhar para a morte. Poderia e,
mesmo, deveria ser juiz e administrar justiça; porém, não soube nem mesmo
resistir à injustiça e transformou-se-lhe em instrumento e em escravo. Todavia,
percebeu a injustiça e tentou evitá-la, mas só enquanto pôde fazê-lo sem muito
trabalho e sem dano.
No vão esforço de fugir à
responsabilidade, Pilatos experimentou quatro expedientes. O primeiro foi
mandá-lo de novo à presença de Herodes. O segundo, a flagelação, como simples
castigo para, em seguida, pô-lo em liberdade. O terceiro, permitir ao povo
escolher a libertação de Cristo ou a de Barrabás, ladrão e assassino. O quarto
expediente, a tentativa de mover a multidão, à piedade, apresentando-lhe
Cristo: "Ecce homo[12]! Miseráveis contemporizações, subterfúgios
vãos, imperdoável incerteza! O destino impunha a Pilatos que, em tão grande
momento, tomasse posição clara; não soube, porém, e calou-se para todo o
sempre entre os vis e os irresolutos, "desagradável a Deus e a seus inimigos".
Na realidade, Pilatos tem medo da
multidão, cede a suas intimações; a sentença que proferiu não resulta de julgamento
regular, é uma farsa. Entre tantos julgamentos, não houve um só verdadeiro; no
entanto, Cristo foi reconhecido réu de morte. Nesse momento, a justiça
competente por direito humano, não funciona e cala. Pilatos abdica do poder,
pactua com a turba, procura voltar as costas a essa responsabilidade que não
tem a coragem de assumir; no entanto, sua obrigação era afirmar a inocência de
que já se convencera, ao invés de deixar-se arrastar à condenação de Cristo.
Serve de joguete para os Juizes que, conhecendo-lhe o lado fraco, o fazem
decidir-se, ameaçando-o da maneira mais eficaz: "Se soltas este, não és
amigo de César" (João, 19:12).
Assim a História julga os juizes e
processa a autoridade processante. Esse foi o exemplo do representante do poder
civil, do procurador Pilatos, modelo da justiça humana baseada no sistema da
força, símbolo do involuído amoral, expressão do espírito daqueles tempos, do
homem que cede às pressões humanas e permanece indiferente às superiores realidades
do espírito. Permaneceu ainda por vários anos no seu ofício e não pagou por seu
crime. Mas a justiça humana ficou manchada e há vinte séculos não sai da
berlinda. Sua posição em fato histórico de tamanha importância será como um
ferrete que ainda a seguirá através dos tempos. A justiça humana desonrou-se. A
injustiça do Gólgota constituiu injustiça da justiça e descrédito permanente do
resultado dos julgamentos humanos. Esse caso tornou-se o símbolo de todas as
condenações do justo, tornou-se exemplo clássico que começou a tradição, o
hábito quase, de erros judiciários providencialmente destinados à glória das
vítimas e a transformar-se em instrumento de seu triunfo. Propagou-se desse
modo o conceito de uma justiça superior, seguida por mártires e heróis, que
devem pagar tributo à formal justiça humana, simples e honesta aplicação da lei
do tempo. E, assim, começou a notar-se na História a presença desse fenômeno
necessário de contínuo superamento das idéias e das leis, e compreender a
função e a dar o devido valor aos revoltados contra o antigo estado de coisas,
revolta manifestada na luta em prol de novo e mais elevado ordenamento. Em face
dessa inexorável necessidade de evoluir, o respeito pela ordem existente caía
do plano dos valores absolutos no dos relativos. E os habituais rebelados
contra qualquer ordem, os habituais e interesseiros homens de partido; tomaram
da nobre auréola dos mártires inovadores para com ela fingirem-se mártires também
e, assim protegidos, satisfazerem-se com mais facilidade. Na terra tudo se
utiliza. Porém, no coração humano permanece sempre inapagável o vestígio da
iniquidade sofrida pelo grande afirmador da verdade e do fundador de novo reino
na terra, que é promessa ainda viva e vital, mesmo depois de vinte séculos, e
que constitui a única esperança no futuro.
Falamos de erro judiciário. O caso de
Pilatos, porém, é muito mais grave do que quaisquer dos erros habituais imputáveis
à imperfeição humana. Compreendeu exatamente a inocência de Cristo e, por isso,
o defende, mas apenas enquanto pode fazê-lo sem prejudicar-se. Quando não
pode, o interesse julga mais conveniente mudar de rumo, Então, Pilatos, homem
da lei, aparentemente o homem talhado para o cargo, mas no intimo reles
aproveitador, revelando o espírito egoísta de seu tempo, entrega à morte a
vítima inocente. Todavia, mesmo a limitada e apenas esboçada defesa que
Pilatos faz da inocência de Cristo funda-se em razões bem diferentes das
capazes de conduzi-la valorosamente até ao fim. Se Pilatos compreendeu a
inocência de Cristo, considera-o simples inocente por ele defendido em vista
de relações jurídicas e por motivo de direito e não por causa de razão situada
acima do direito. Comporta-se, desse modo, como qualquer materialista míope
que, através da forma, não enxerga a profunda realidade das coisas. Da superioridade
de Cristo em relação a todo o seu mundo, da transformação social, da Sua missão
e do Seu pensamento, Pilatos não entende coisa alguma.
Não
podemos, sem dúvida, dizer que Pilatos seja Roma, isto é, toda a
Romanidade. Mas podemos afirmar que naquele momento e por causa de sua
conduta, outro tribunal se ergueu diante do tribunal humano e lhe aplicou a
indelével marca da infâmia; tudo isso se passou por obra e com os recursos da
paz e da mansidão. Por isso, este é também um encontro de sistemas, em que o da
força leva a pior e permanece condenado através dos séculos. A força, embora
juridicamente organizada, demonstrou ser instrumento capaz, abandonado a si
mesmo, sem o concurso e a orientação do espírito de constituir não auxílio, mas
obstáculo ao progresso, não um meio para estabelecimento de ordem, mas de
desordem. Naquele dia se fez ao mundo esta advertência: Cuidado, essa concepção
é insuficiente, falta-lhe algo de essencial. Completai-a. Ela tem sua razão de
ser, mas deve progredir ainda. A legalidade não basta, se representa traição,
se em alguns casos, ao invés de função que impulsiona para a frente a
evolução, pode transformar-se no freio que a detém. Ao homem não satisfaz mais
justiça que torna possível, embora nem sempre aconteça, condenar inocente e
benfeitor e libertar malfeitor. Algo protesta no fundo da alma humana, aí onde
a Lei clama por justiça. A consciência sabe distinguir; por isso, condena o
poder e a autoridade capazes de trabalhar pelo que não deveriam e de causar
dano ao bem e à vida, ao invés de defendê-los. Pilatos não é Roma toda, mas sem
dúvida significa um sistema jurídico que lhe revela as insuficiências, um
estado humano involuído que lhe demonstra a cegueira. Quando o ponto de partida
é a força, então a dura necessidade de defesa individual e social pesa sempre
sobre a função judicante, que pode até tornar-se seu instrumento,
transformando-se em injustiça. Apenas Cristo atingiu a essência do problema,
dizendo: "Não julgueis". Quem, como o homem, está empenhado na luta,
não pode conservar-se imparcial e, por isso, não pode julgar. Onde pode
encontrar-se um juiz sem mácula? Só em Deus e é em Deus que o homem, insatisfeito
com todos os demais, procura o verdadeiro juiz. Nas mãos da justiça humana,
baseada na força, a espada é mais poderosa do que a balança e prevalece contra
ela. A espada pesa e faz a balança pender do lado de quem a maneja, conquistou
para si e a conserva para si. Não há outra solução; evoluir, evoluir, evoluir,
para tornar cada vez mais leve o peso da espada, que sobre nossos ombros a
involução atual coloca. Evoluir ao longo do caminho traçado por Cristo. A
espada é a desordem pertencente ao passado, a balança constitui a ordem
pertencente ao futuro. Trata-se de reequilibrar as forças desequilibradas
durante a luta. A evolução caminha
da espada para a balança. Do dilema não saímos: ou melhoramos nesse sentido e,
por meio da bondade e da lógica, alcançamos a verdadeira justiça, superando a
força e pacificando-nos com a não-reação ou, então, continuamos a sofrer,
quem sabe quanto, as conseqüências do sistema em vigor. No primeiro momento,
sem dúvida, todos se aproveitaram do justo e pacífico seguidor do Evangelho.
Se, porém, a força dá vantagem imediata, a lei de justiça está inscrita no
coração do homem que, por instinto, condena a força e se sente obrigado a
eliminá-la. Inaugurar o novo método no mundo feroz de nossos dias é, por certo,
trabalho de mártires; mas a verdade é que, sem martírio, não se inicia
civilização nova.
Esse o significado daquele primeiro
encontro da Romanidade com o Cristianismo, primeiro impulso de renovação
biológica. Problema relativo ao passado, ao presente e ao futuro. Hoje, dois
mil anos depois, a humanidade aí retorna, um pouco mais madura apenas, com
ânimo e estilo diversos, sem a intuição e a paixão dos mártires, mas com atitude
racional, armada de ciência e técnica, de planos orgânicos sociais, de vastos
recursos de enquadramento, secundada por grandes massas, mais ágeis e
unificadas. O esforço é tremendo; a tentativa, enérgica; o momento, decisivo.
De duas uma: ou sobre essas bases criar nova civilização e melhorar a vida ou,
então, suportar durante séculos as tristes conseqüências do bárbaro e atual
sistema da força. Sem dúvida, o pensamento social de Cristo é elevado, mas
muito elevado mesmo. Mas, exatamente por isso, pertence ao futuro. A vida
impõe o progresso e necessita de ascender. O Evangelho é o cume, o objetivo
máximo. Quem quer que suba, porém, tende a atingir o ponto mais alto. De tempestade
em tempestade, de revolução em revolução, a humanidade não pode ir a outro
lugar. De guerra em guerra não pode encontrar senão a paz. O pensamento de
Cristo representa o ciclo biológico da humanidade. Ninguém lhe escapa. É o
objetivo da vida e aguarda-nos. Isso constitui verdade sempre nova; o tempo
passa e ela se torna cada vez mais verdadeira e atual, porque se aproxima cada
vez mais da realização. O Evangelho é um programa. A humanidade futura será
fruto de sua execução.
XXII
TEMPESTADE
Essa rápida sucessão de conceitos, até
agora expostos; por alto, aconteceu em hora trágica para o mundo e move-se
sobre o fundo apocalíptico da maior tempestade jamais conhecida pela História.
Este livro, que é sofrimento, não poderia nascer senão em meio à grande dor de
que suporta o peso e sintetiza o esforço. Iniciei o escrito em fins de março de
1944 e continuei-o ininterruptamente até o capitulo precedente, terminado nos
começos de junho, quando a guerra, progredindo na Itália em direção ao norte,
atingiu e ultrapassou Roma. Logo depois aconteceu na França o desembarque do
Atlântico. A primeira parte do volume escrevi-a, pois, nos fins daquele inverno
pleno de expectativa em que o "front" italiano permaneceu
estacionário em Cassino, e, não tendo o desembarque das Nações Unidas em Anzio
atingido proporções decisivas, em toda parte se esperava algum grande
acontecimento resolutivo. No início deste capítulo o grande incêndio europeu
reacende-se furioso e o terrível rolo compressor da guerra põe-se em movimento
também na Itália, para avançar em direção ao Norte através das províncias do
Centro, semeando também nestas o extermínio. Este manuscrito, bem assim a sua
continuação, nele implícita, foram
salvos graças apenas a milagre insistente e prolongado, isto é, por uma
combinação de impulsos. e movimentos de tal modo inteligentes e dotados de
previsão, tão decididamente guiados e com tal tenacidade mantidos na mesma
direção que justificava a presunção de por detrás delas estarem presentes um
conceito e uma vontade diretivos e excluía a hipótese do acaso. A continuação
do pensamento deste volume, neste ponto, é retomada nos fins de 1944, na
devastada região umbro-toscana, depois de passado o ciclone da guerra, isto é,
depois de período de esforço físico e tensão nervosa verdadeiramente
excepcionais. Mas o espirito, sempre vigilante, tudo observara,
julgara,. registrara.
Narremos agora alguns episódios da
guerra, não por motivo de sua gravidade e importância exterior, que muitos
terão experimentado de modo bem diferente, mas por causa do sentido interior
com que foram vividos e pelo significado universal que podem assumir, vistos
assim em profundidade. Analisando, assim, esses casos humildes, até no seu
sentido mais oculto, colocamo-nos diante dos grandes problemas da vida;
aprofundando o olhar até às raízes mesmas da realidade, damo-nos conta da
gênese dos acontecimentos. O pequeno fato individual, de superfície, adquire
assim ressonâncias universais. Veremos, então, aflorar no fato exterior aquela
misteriosa realidade do imponderável que se esconde profundamente; esse fato,
mais do que em sua aparência concreta, mostrar-se-nos-á no funcionamento dos
princípios que o regem, das forças que o movimentam, isto é, na sua mais
verdadeira realidade interior, aquela que, em todo acontecimento, quase sempre
nos escapa à observação. Assim, observando profundamente, o longínquo e
fugitivo imponderável é trazido aos primeiros planos como figura central e,
arrebatado às suas misteriosas profundidades, obrigado a revelar-se, mostrando
o mecanismo da orientação interior impressa nos fatos exteriores. Veremos,
desse modo, o Deus recôndito, que se esconde de nós no superconcebível,
aproximar-se em plena luz, vivo, presente na ação. Os episódios reduzem-se
aqui à sua essência de desenvolvimento de forças cósmicas dominadas pela
vontade da Lei e pela inteligência de seus princípios. Deus resplandece no
fundo desses contrastes violentos. O bem e o mal se defrontam, eterna
substância das coisas.
Era de madrugada, esplêndida madrugada
de junho. Por um atalho que subia ao longo de uma torrente apertada entre os
montes, um homem fugia: do homem, da cidade, da civilização destruidora. Já no
limite do esforço que suas forças de pobre sexagenário lhe permitiam, carregava
o indispensável, apanhado às pressas ao deixar a casa. Seguia-o a mulher,
também carregada de coisas, e a filha com a criança no colo. No encanto da pura
madrugada estival, a fuga era triste, plena de terror. Tinham sido violentamente
arrancados do ninho. Sobre as casas vizinhas, na cidade, aviões haviam lançado
bombas, semeando a morte e a ruína. Ribombos terríveis e abalo de terremoto,
estilhaçar de vidraças e chuva de pedras; depois, por toda parte fumaça escura
e densa. A morte por esmagamento e, vizinho, seu hálito ardente; o terror.
Desse modo fugiam, sem saber para onde, por instinto de animal perseguido, daqueles
golpes terríveis que poderiam cair-lhes sobre a cabeça. Não havia abrigos
antiaéreos. Fugiam desesperadamente, no paroxismo de esforço nervoso. Tudo em
redor, no campo, em todas as criaturas, na erva, na água, no ar, o eterno
sorriso de Deus esplendia imutável.
Esgotada a reação ao primeiro choque,
conjurado por momentos o perigo iminente, o fugitivo sentiu despertar dentro
de si, ainda mais potente, o eu
interior e voltou a observar e a pensar. Como a beleza da ordem divina era
suave e permanecia intacta nas coisas! Apenas o homem, rebelde, tentava impor a
destruição. Por que a guerra? Por que esses momentos trágicos? Que pretendia,
assim de surpresa, a lógica do destino? Fora, talvez, colhido de surpresa, sem
preparação alguma? Pode o caminho da vida apresentar curvas tão imprevistas e
imprevisíveis que a razão fique inibida e se inutilize toda a nossa orientação?
Não. O sábio deve conhecer todos os ataques possíveis, deve ter atingido
filosofia completa que encare todas as possibilidades da vida, deve ter achado
uma verdade universal e satisfatória,
que lhe dê a razão de todo fato e o encaminhe à solução de todo problema. Queria e devia entender,
possuir respostas que bem sabia não podiam ser obtidas senão por si mesmo. Há
responsáveis? Quem são e onde encontrá-los nesse oceano de forças e de homens
que é a sociedade? Podem os dirigentes impor sofrimento a povos inteiros ou os
dirigentes não mandam senão na aparência e, realmente, obedecem, e todos os
seus súditos também, a leis e forças de que são apenas os expoentes? As causas,
agora, são diferentes das visíveis; outra é a hierarquia dos responsáveis;
todos são golpeados por outras razões internas, totalmente diversas das que se
mostram externamente; os poderosos constituem o instrumento de outra
inteligência e executores de planos diferentes dos seus; e os verdadeiros
responsáveis (quem os conhece!) apenas podem ser atingidos pela justiça de
Deus. Só Ele sabe avaliar, nós não sabemos; só Ele conhece a trama: secreta da
vida de cada um, por nós desconhecida; só Ele tem o poder de alcançar e golpear
que não temos. A lógica do espírito faz-nos procurar justiça perfeita, que não
existe na terra; onde encontrá-la? Até que ponto, caso por caso, o homem é
livre e até que ponto chegam o poder e a extensão da fatalidade no destino? Qual
o limite entre as duas zonas e o equilíbrio entre as duas forças? São as
grandes massas responsáveis como massas, independentemente dos lideres, que são
responsáveis perante a Lei? São inexoravelmente arrastadas pelo determinismo
histórico?
O homem pensava. Os problemas, tão
remotos para os demais, estavam-lhe muito próximos Encontrava-se em pleno
turbilhão, a seu redor girava o "maelstrom" do mundo e o vórtice
tentava agarrá-lo também a fim de arrastá-lo até ao fundo, em suas espirais.
Tinha de defender-se. Mas, para defender-se, necessitava compreender. Um tipo
normal não teria feito esforço maior que o necessário à defesa superficial,
contentando-se com tentativa de defesa. Ele, porém, exigia de si mesmo uma
defesa profunda, seguríssima, colocada muito além da ilusão costumeira. Esta
sua reflexão mesmo nesse momento não era inútil. Sob a tensão nervosa e o
esforço, em pleno desenvolvimento da reação ao choque recebido, seu espírito
ferido expedia centelhas e seu cérebro clarões de relâmpagos. Como sua vida,
assim toda a sua reação era preponderantemente psíquica, isto é, se dava no
campo em que aquele homem mais se desenvolvera. Restringindo o problema aos
elementos mais pessoais e urgentes, procurava saber que teria acontecido
consigo. Para sabê-lo, interrogava a própria consciência, perguntava a si mesmo
se era ou não culpado e se por isso devia ou não ser responsabilizado. A ele,
conhecedor do funcionamento das forças da vida, parecia-lhe mais útil
perscrutar a lógica interior dos fatos de preferência à sua aparência exterior.
Apreender os acontecimentos nas fontes, nas causas, tal era o seu método. Que
queriam as forças do destino nesse momento crucial? Esse era o problema e não
podia ser outro em universo não sujeito ao acaso, mas dirigido por Lei justa,
lógica e inteligente. No passado, dera por acaso nascimento a algum impulso e,
por isso, a reação da Lei o ameaçava agora? A verdadeira ameaça residia nisso e
não na materialidade da guerra. Será que essas forças, por ele mesmo colocadas
em seu destino, o culpavam agora, se erguiam ameaçadoras no seu caminho e iam
pedir-lhe conta do que fizera até então? Ou, quem sabe, era inocente e tudo
quanto lhe acontecia em torno não passava de mero incidente de superfície e
não lhe dizia respeito? Se não pendia sobre sua cabeça nenhuma sanção da parte
de Deus, que coisa podia temer por parte dos homens? Rebuscando na sua
consciência, procurava saber qual dentre as forças do passado estava tentando
reaparecer e que natureza e potência possuía; queria descobrir que impulso
queria agora manifestar-se exteriormente, dando vazão a seu dinamismo, completando
sua oscilação desde a causa até o efeito. Não havia, porém, tempo para detidas
análises. Nos momentos decisivos e terríveis desaba o edifício das realizações
humanas, a razão se embaralha, uma síntese da verdade aparece completamente
nua perante a consciência e a voz de Deus logo soa clara. Dali a pouco parou,
com a rapidez do relâmpago seu espírito intuiu e, nisso, ouviu uma voz interior
que lhe dizia: "Fuja; mas, vá para onde for, você não correrá perigo
algum".
A pobre família, já bastante afastada
da cidade e do perigo, diminuiu o passo, em silêncio. O homem, que ia na
frente, sem voltar-se para trás percebia a dor e o medo dos dois seres queridos
que o acompanhavam. Pareceu-lhe, então, estar suportando nos ombros o peso de
imensa cruz, o peso da dor do mundo, que quase o esmagava. Irresistível impulso
levava-lhe o espírito a gritar ao universo: "Sou inocente". Depois
se surpreendeu a pensar: "Estranho, esse colóquio com Deus, logo nesse
momento e nessas condições! Depois, percebeu como estava cansado e as forças o
abandonavam. Então, pensou: "Quem defende a vida? Quem me defende? Quem
está ao meu lado agora, no momento do perigo? O Estado, talvez?" Recordou
as belas teorias que lhe foram ensinadas na escola, seguidas e acreditadas, e
sorriu amargamente. Onde estava agora o Estado, esse ente gigantesco dos
tempos presentes, todo-poderoso, que tudo exige, tudo recebe e, por outro
lado, tudo deveria dar? Ausente. Agora o Estado tinha de pensar em si mesmo e
abandonava os indivíduos a seu próprio destino. As construções sociais do homem
estavam em ruínas; não ruíam apenas as construções divinas da vida. Esta, por
suas reservas inesgotáveis, capacidade de adaptação e milenares experiências da
raça, soube estar sempre preparada para tudo, especialmente nos povos que muito
viveram e sofreram, pois ninguém vive sem aprender e pessoa alguma sofre
inutilmente. A vida sabe muito bem passar sem a interferência do Estado.
Então, as aquisições recentes evaporam-se e apenas permanecem as aquisições
profundas e seculares. O homem pode fracassar, a vida não. Quando o homem se
engana, a Lei, através de providencial lição de dor, o reconduz ao caminho
reto da ordem e, assim, a vida se refaz e continua. Por ela continuamente vela
e a protege a Divina Providência, que constitui efetiva proteção biológica,
defesa automática e poder saneador, intima providência manifestada pela
sabedoria do sistema. Se naquele momento o Estado, providência humana,
desabava, a providência de Deus permaneceu firme.
A riqueza, potência do mundo, teria
talvez defendido esse homem? Embora oferecesse milhões, na hora do perigo
ninguém o ajudaria. Exatamente em momento de necessidade o dinheiro se tornava
inútil. Se esse homem fosse um potentado, cercado de servos e dependentes,
seriam eles agora seus inimigos mais ferozes, ocupados apenas em salvar a
própria pele. No momento decisivo, a riqueza e o poder, se ele os houvesse
possuído, tê-lo-iam traído; não caíra, porém, na ingenuidade de acreditar no
contrário. Vitor Hugo, nos primeiros capítulos de Os Miseráveis, fala, a propósito da decadência de Napoleão, de marechais traidores, do senado que,
depois de havê-lo endeusado, o insultava e escarrava no antigo ídolo. E
tratava-se de Napoleão. Mas a lei, para fracos e poderosos, foi, é, e será
sempre uma só.
Quem, pois, estendia a mão a esse
homem, atirado à desgraça? Quem o acompanhava na fuga, ajudando-o a suportar
o peso da desventura? Os amigos, os admiradores, quem o adulava nos bons
tempos? Não, ninguém. As perfumadas nuvens de incenso, como fumaça
inconsistente, haviam desaparecido no ar. Vaidades humanas. Agora estava sozinho.
No momento da provação, verificava a imensa vantagem dele não acreditar na
glória, como não acreditara no poder e na riqueza, a imensa vantagem de
haver-se acostumado a sofrer e a renunciar e estar moralmente preparado. Em
sua vida não houvera senão trabalho, obrigações, dor. Esta a sua bandeira, seu
repto, sua força, sua vitória. Apegara-se a valores indestrutíveis, tomara-se
indiferente aos golpes do mundo. Sua pobreza era a sua riqueza, sua nulidade a
sua grandeza, sua inocência, constituía-lhe o poder e a salvação. Apenas a vida
séria e dura e as pesadas fadigas da vida ascensional não lhe haviam mentido
nem traído. No entanto, em que situação talvez se encontrassem agora todos
quantos, epicuristas e materialistas, se haviam rido à sua custa, como se se
tratasse de um louco? O apego deles às coisas materiais constituía-lhes agora a
causa de grande dor. Na hora da destruição, porém, ele já se encontrava ligado
ao indestrutível. Sua filosofia, e não a deles, é que no momento da provação
resistia. Que triste espetáculo de
avidez, de ferocidade, de loucura, de desespero, lhe apresentava esse
mundo que só acreditara nos valores terrestres! Não. O cataclisma não o
apanhava de surpresa, como a tantos. Acima de todos os sonhos de grandeza e de
vitória, ele que já vira como a dor constitui a realidade da vida, agora
verificava como a dor é também a realidade da guerra. E via que o mais
desmoralizado de todos os mundos, e sem preparação moral para a dor, agora se
encontrava diante de avalancha de sofrimentos como a humanidade jamais
conhecera igual. Agora, podia finalmente comprovar, não desmentida, mas
corroborada pelos fatos, quanto era profunda a sabedoria do superamento,
através do desprezo das coisas humanas. Naquele momento gozava desta grande
vantagem sobre seus semelhantes; a de haver compreendido a vida, de não haver
caído no engano de suas miragens, que agora se desfaziam, de não haver
construído na areia, de não haver empregado seu esforço e investido seu capital
espiritual na obtenção de coisas efêmeras. A quantos iludidos, pensava., não
lhes vai cair a venda dos olhos, quando assistirem ao desmoronamento de todas
as suas construções! Ele tinha tido necessidade de desenvolver grande trabalho
de concentração e sofrer muito para poder atingir mundo superior, e isso,
aliás, sozinho, abandonado e escarnecido. O áspero caminho de sua maturação
evolutiva estava juncado de lágrimas e sangue. Mas, agora, esse homem, tido na
conta de imbecil porque inimigo do desonesto arrivismo que leva ao rápido
sucesso, se achava na situação excepcional de quem conseguiria atingir mundo
superior e nele encontrar a salvação pessoal, a mesma salvação negada aos
outros, e por a, salvo os seus tesouros, intangíveis aí onde a guerra não pode
chegar.
Há muito tempo ele aprendera a descrer
do mundo e a viver isolado. Mas, embora assim pudesse parecer, não estava só, como bem o sabia.
Ninguém pode estar sozinho em nosso universo. Jamais A ignorância do ateu, o
poder negativo do mal, a revolta de Satanás contra a ordem reguladora de tudo
não podem .destruir Deus, que continua a existir e a operar não obstante a sua
negação e acima de seus assaltos. Trata-se, sem dúvida, de imponderável que
escapa aos grosseiros sentidos do involuído, mas nem por isso se torna menos,
real. Em torno daquele homem turbilhonava solene e imenso o ritmo das leis da
vida, inteligentes, poderosas, ativas. Aquele homem solitário estava imerso
nessa divina atmosfera, aquele homem aparentemente abandonado estava próximo
de Deus, e, portanto, menos solitário e menos abandonado que tantos poderosos
ídolos das multidões. O imponderável não lhe voltava as costas, como aos
outros, mas lhe abria os braços. Ao lado daquele homem estavam o seu passado,
suas obras, pois nossas obras nos seguem e a substância da Lei de Deus, ao
invés de força é antes de mais nada justiça, e não o contrário, como acontece
no baixo mundo humano. Na hora fatal em que ruía o edifício social e seus
valores se subvertiam, sua defesa residia agora exatamente em sua nulidade
humana, por ele tão prezada. Em primeiro lugar, porque a nulidade, escapa mais
facilmente às tempestades, não lhes oferecendo superfície de resistência e, em
segundo, porque, como toda pobreza, significa principio de inocência, crédito
perante a lei de equilíbrio, direito em relação à justiça divina. Ele procurara
defender-se por meio da própria inocência, que encontrara em si mesmo, e não a
poder de astúcia, de meios materiais ou de ajuda humana. Esta lhe parecera
ajuda mais poderosa que todos os auxílios humanos. Procurara a força em Deus e
na consciência a resposta E, em silêncio, gritara a sua inocência ao universo.
Grito vindo do fundo da alma, trágico e profundo, que não pode mentir. E o
universo, dirigido por Deus, isto é, pela justiça, não pudera deixar de
responder, porque do contrário, negaria a si mesmo. Invocara a ajuda das forças
ativas no seu plano espiritual, e geralmente, no plano material terreno,
paralisadas e afastadas pela mal empregada liberdade humana. Sentiu-se, então,
fortalecido, levantou a cabeça e de olhar tranqüilo encarou o futuro. Ele estava
no lugar que o dever lhe apontava. Isso bastava. Essa verificação infundiu-lhe
na consciência sensação de paz e o inundou internamente de nova energia. O
horizonte escuro tornou-se límpido e permitiu-lhe enxergar claramente. A
guerra, furacão humano, não o atingia. Essa dor participava do destino dos
outros, não do seu. Aquelas armas não podiam matá-lo. Compreendeu, então, o
sentido das palavras da voz: "Fuja; mas, para onde quer que você vá,
estará sempre em segurança". A Lei de Deus quer que nossas penas sejam
filhas de nossos crimes e não da má vontade e prepotência alheias e que nosso
destino apenas possa ser construído por nós e só por nós. A grandeza e a
justiça dessa Lei naquele trágico momento atingiram o homem com evidência tão
viva que seu terror se transformou em confiança e em oração; em meio à dura
provação, caiu de joelhos e agradeceu ao Pai que está nos céus, tão pronto a amar-nos e ajudar-nos, se nossa vontade
espontaneamente lho permitir.
Pondo-nos de face à realidade mais crua
da vida, pudemos observar, em momento crítico, a transformação evangélica dos
valores da terra em valores do céu e atingimos o resultado prático ou, mais
precisamente, utilitário da invulnerabilidade e salvação, através do
superamento da dor. Esse modo de proceder pode ser incompreensível para o tipo
humano normal de nossos dias que, quase sempre espiritualmente involuído, põe
em jogo outras leis e outras forças e não sabe compreender aquelas que vemos
aqui em plena ação. Torna-se necessária, pois, esta condição: a inocência;
apenas ela permite visão clara, apenas quem a possui pode invocá-la perante
Deus. Não se trata, por certo, de inocência universal, e absoluta, que nenhum
homem, enquanto homem, pode possuir. Se a houvesse alcançado, já estaria bem
longe deste lugar de sofrimento. Trata-se, isso sim, de inocência particular,
relativa a determinadas culpas e às provações correspondentes. Mais do que isso
as inocências humanas não podem ser, embora mais ou menos extensas. Um é
inocente em relação a um fato; outro é inocente em relação a outro fato; a
mesma coisa se diga relativamente à culpa. Por isso, são os destinos tão
diferentes e todos se cumprem inexoravelmente. O destino daquele homem não
continha reações de violência e de sangue; estava, pois, imune desse lado em
que os outros eram vulneráveis; não precisava, por isso, de sofrer as
provações a que Os outros seriam submetidos. Estava, ao contrário, exposto a
provas espirituais de lenta maceração e desmaterialização, que os demais nem
sequer podiam imaginar, a prolongadíssima5 agonias, à violência das
tempestades psíquicas, ao choque contra as forças do imponderável completamente
desconhecidas pela generalidade das pessoas. Ele, cônscio de seu destino, de
seu passado e de seu futuro, compreendeu que a guerra não lhe dizia respeito e
nenhum homem ou projétil poderia atingi-lo, se não o permitissem as leis da
vida, aplicadas a seu caso particular.
Em geral, na defesa da vida e na luta
pela vitória, a inteligência humana não vai além das causas e acontecimentos
próximos Em geral, as verdades humanas condicionam-se ao tempo e ao espaço, são
verdades de interesse e de partido. Trata-se de verdades que apenas interessam
ao indivíduo ou ao grupo e, por isso, mutáveis e passageiras. Estamos
procurando a verdade verdadeira que, longe de ser relativa e facciosa, tem de
ser universal, interessar a todos os homens, estar acima do caso individual e
do interesse particular. Acima da verdade superficial, procuramos a verdade
profunda, superior a simples opinião, independente do espaço e do tempo,
permanente, capaz de interessar a todos os homens indistintamente e válida para
todos, fortes e fracos, poderosos e humildes, vencedores e vencidos, pois, nos
maravilhosos equilíbrios da Lei de Deus e no funcionamento orgânico do
universo, todo ser tem lugar certo e razão de ser.
Para quem compreendeu essa verdade, a
concepção das coisas muda inteiramente. Quem compreendeu que a força humana não
pode impedir a ação das forças cósmicas, senão momentaneamente e assumindo a
responsabilidade pelos danos, não diz mais: "Ai dos fracos e dos
vencidos", mas afirma: "Ai dos culpados, embora vencedores. O que tem
valor permanente não é a posição material, e sim a posição moral. Exime-nos da
responsabilidade a inocência e não a
força, que na melhor das hipóteses poderá retardar, mas nunca impedir a reação
primitiva da lei de justiça. De acordo com a lei de evolução, o futuro caminha
em direção ao reino de Deus, que pertence somente aos justos. O poder militar,
a superioridade técnica, o dinheiro e a astúcia não podem destruir a Lei de
Deus, que participa essencialmente das coisas. Quem acredita que para vencer
baste a força, representada por grande exército, grandes recursos e organização
e dotada de férrea tenacidade, não compreendeu como, no funcionamento das leis
da vida, exatamente nesse apelo à força e à conquista violenta, como na guerra
reside o ponto fraco do sistema que, precisamente por isso, traz em si mesmo o
germe da própria destruição. Então, o gigante de pés de barro desaba, seja
qual for; o fato é verdadeiro para quem quer que se encontre na situação de
aplicar essas leis, para quem quer que se encontre nessas condições. Não
estamos expondo mera opinião, mas simplesmente verificando a existência de
algumas leis da vida. O preceito evangélico “Quem com ferro fere com ferro será
ferido” exprime racional e inviolável lei biológica. Não fizemos outra coisa
senão estender a bem mais vasto campo o princípio da inocência acima exposto,
mas tendo sempre em vista a guerra Em face da agitação da atividade humana, a
sabedoria dessas leis íntimas, colocadas nas raízes dos acontecimentos, é que
rege todas as coisas: por isso, a força mais poderosa, a que vence finalmente,
é a justiça. As exceções não passam de momentâneos desvios, concessões mínimas
à liberdade humana que, para aprender., deve experimentar o erro. Mas, cedo ou
tarde, são retificadas e reconquistadas através do áspero caminho da dor. Para
que o homem aprenda, a Lei deixa-se fraudar, mas depois os iludidos devedores
caem em si e reconhecem nela o único árbitro da vida. Explicam-se desse modo as
oscilações da História. Com isso, neste capítulo demos novos desenvolvimentos e
aplicações aos conceitos por nós já considerados quando estudamos a lei do merecimento.
Continuemos seguindo as vicissitudes de
nosso personagem. Ei-lo numa casa de colono, atopetada de outros fugitivos. A
guerra, vindo do Sul, aproximava-se raivando, com rumor sinistro e cada vez
mais intenso, mordendo a terra com feroz encarniçamento. Tudo, como se
estivesse carregado de ódio, explodia à traição. As casas, as pontes, os
aquedutos, as instalações elétricas, as oficinas, as estradas e as ferrovias
voavam. A terra, sem exagero, tremia. Em plena noite, clarões sinistros
iluminavam o céu escuro sobre a cidade em chamas. Contínuo ribombo de explosões
e perigosos abalos sacudiam o ar. Nos campos, cada vez que apareciam aparelhos
isolados ou em grupos, começava, em cadência acelerada, o canhoneio das
baterias antiaéreas vizinhas e sobre as cabeças caia chuva sibilante dos estilhaços.
Os grandes pássaros de prata, maravilha da técnica e tão belos no límpido azul
do céu, desciam rápidos como falcões, semeando morte; ou, então, chegavam de
surpresa, em vôo rasante, metralhando. Todos os flagelos da guerra se sucediam
em aterrorizante crescendo. Nas casas não ha via nem água nem luz; faltavam as
pontes e, por isso, nem se pensava em reabastecimento. Em compensação, a terra
estava inteiramente minada, pronta a explodir sob o passo mais leve. Então,
como se não bastasse esse inferno, os soldados começaram a entregar-se ao
saque e à orgia. Embriagados com o vinho tirado às pobres mesas, roubavam as
últimas provisões. A propriedade estava praticamente abolida. Tornava-se
necessário expor-se a novos perigos para proteger, embora ameaçados de
revólver. miseráveis sobras de tantos anos de privações. E, finalmente, o
canhoneio. Baterias colocadas bem próximo atraíam chuva de granadas A todo
momento podia dar-se o inesperado impacto; e ouvia-se, às vezes isolado, às
vezes em longas rajadas, mas todo tiro sempre perfeitamente decomposto em três
tempos bem distintos: a explosão da partida do projetil, o sibilo do trajeto e
o ruído do impacto. Prestava-se atenção ao sibilo, pois trazia a morte consigo.
Onde? Podia chegar a qualquer momento, pelo próprio teto. A morte rondava permanentemente
no ar. Ouviam-na sair dai; daí se esperava que ela chegasse. As vezes a morte
passava ao longe, às vezes caía a poucos metros de distância.
Nosso personagem observava. Que força
estava movimentando esse inferno? Sentia no rosto a respiração do mal,
atormentada e cheia de cansaço. Era de certo a voz de Satanás. Quem a ouviu uma
vez, não a esquece mais. É áspera, traidora, egoísta, homicida, destruidora. A
explosão exprime essa voz, resume essa alma. É terrível ânsia de tudo
despedaçar, esfacelar, aniquilar completamente. Tudo tem de ser reduzido a
pedaços, emporcalhado, dilacerado, retorcido, queimado, cortante. É o estilo
lançado pela guerra, estilo Kaput, estilo moderno, estilo destruição. Esse é o
aspecto atual da Europa. É o estilo do mal. É psicologia, filosofia, método
científico, loucura ajudada pela lógica, pela técnica, pela inteligência. É o
destrucionismo, última fase do materialismo. É o último produto lógico da ânsia
desesperada que a civilização moderna trocou por dinamismo criador, é o
paroxismo da ação levado a grau de loucura, desequilíbrio não admitido pela
natureza, precipitação fatal de um ciclo e prelúdio de fatal mudança de rumo,
que está presente em toda regressão. O mal está encerrado no tempo e, por isso,
tem pressa. Aí reside seu ponto fraco; ele não o ignora e, portanto, corre. O
culpado foge. É desesperado, incerto, desordenado. O sábio trabalha com
segurança e calma; assim trabalha melhor e com muito menos dificuldade. O erro
representa grande diminuição de rendimento. Essa ansiedade do mundo não se
poderia controlar senão por meio de aceleração contínua, constituía
instabilidade que deveria necessariamente terminar na auto-destruição. Isso
revela o mal, cuja essência é a negação. É raiva que quer ver tudo subvertido,
despedaçado. Tudo deve explodir, tudo se destina a matar. É o reinado da fera.
Seu sistema é a força; a vitória, mero pretexto, ilusão; a realidade, seu
verdadeiro desejo é constituído pelo massacre. Eis aí o ponto a que chega e
como termina o método da força.
Por isso Cristo ensinou no Sermão da
Montanha[13]:
"Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu vos digo,
porém, que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita,
oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te o
vestido, larga-lhe também a capa;..." O mal sabe iludir-nos com suas
miragens de grandeza e, assim, desafoga a sua raiva, e quem acredita na força
e a emprega se torna instrumento da lei e se liga inteiramente à destruição,
inclusive à própria. E, então, personifica o princípio destrutivo. O bem
afirma e cria, e quem a ele se liga é obrigado à construção, inclusive à
própria. Hoje, os construtores não podem senão esperar que a tempestade do mal
se acalme e se canse. Isso é brutal, egoísta, desapiedado; mas, acima de tudo,
é estúpido. Trata-se de força agitada e frenética, porque desequilibrada, de
força cega e absurda, cujo desenvolvimento termina na loucura, no desespero,
inclusive na própria loucura e no próprio desespero. Eis o clímax do método da
força. Quão longe estamos das características do bem, que é equilibrado,
calmo, confiante, esclarecido! Ninguém pode destruir essas leis e impedir que sua
manifestação lhes revele a substância
Assim, a guerra avançava como
gigantesco rolo compressor, trazendo morte e ruína, às cegas, ao acaso, até para
civis inermes, crianças inocentes, mulheres inofensivas, doentes, velhos. E a
loucura destruía com exatidão científica, método racional, lógica fria e
sistemática, para obter o maior rendimento em morte e ruína, à custa de esforço
mínimo, como acontece na fabricação das máquinas em série, na matança de
reses. Mas essa ciranda é um vórtice que não se mantém senão a custa de massa e
de velocidade, isto é, acelerando continuamente sua fúria macabra, escancarando
cada vez mais as fauces e envolvendo em suas espirais número sempre crescente
de vítimas. Tem avidez delas, atrai-as, prende-as e assim se alimenta e se
robustece. Ai de quem pôs em movimento o "maelstrom" e se lhe
confiou. Quem foi o apanhado por ele não lhe escapa mais. No fundo, o que há é
desespero para todos, vencedores e vencidos. Estamos vivendo a última
conseqüência da filosofia nietzschiana. Seu
super-homem ideal arranca a máscara e mostra seu verdadeiro rosto de fera.
Nietzsche morreu louco. Loucura, naufrágio final do espírito, satânica ruína de
rebeldes à Lei, conclusão fatal inserida no sistema e que diz respeito a quem
quer que o siga. Eis os resultados de ciência utilitária, amoral, de ciência
sem consciência: as invenções do gênio prostituídas ao interesse e envenenadas
ao ponto de se tornarem instrumento de morte. A primeira aplicação notável da
conquista do ar foi o massacre da Europa. Não seria ótimo que os cientistas não
comunicassem mais, a semelhante mundo, os resultados de suas descobertas?
De tarde, enquanto a infernal voz de
Satanás dominava a planície, na miserável casa de colono, rezavam. É sublime
falar com Deus, é reconfortante senti-lo bem perto, principalmente nas horas
terríveis. Rezavam com simplicidade e fé, na velha cozinha do colono,
enfumaçada, pequena, pobre. Rezavam, irmanados na mesma miséria, o camponês e
o intelectual, o pobre e o rico, o rústico, morto de fadiga, e o homem fino,
abatido e mal vestido. As grandes idéias da vida e da morte, do ódio e do amor
da família e dos filhos, do dever do sacrifício, estavam ao alcance da compreensão
de todos, formavam essa estrutura da vida, instintiva e essencial, comum a
todos. A prece sabia falar ao coração de todos. Em sua fé milenária a raça, já
longamente experimentada nas desventuras, reencontrava sua força. A visão das
excelsas coisas do céu, de um mundo melhor no além, confortava a miséria do
momento. Nas asas da prece aqueles desventurados se sentiam transportados da
dor à paz do coração e à confiança na ajuda de Deus, e não ao brilhante e
científico desespero do mundo. Em meio daquela pobreza fraterna se sentia vagar
suave esplendor; era a figura de Cristo que estendia sobre todos as mãos
protetoras, se inclinava sobre toda dor para aliviá-la e na soleira da porta
da pobre cabana se erguia poderoso, desafiando a tempestade.
Assim ia o tempo correndo, entre
forçados ócios empregados em meditação, perigos e aborrecimentos, terrores e
esperanças. Por último, nova ameaça se juntou às demais: a caça ao homem.
Militares armados entravam nas casas e requisitavam à forca a última mercadoria
que restara: o homem. Certa tarde, chegaram de surpresa à referida casa de
colono. Muitos, alertados, se esconderam ou fugiram. alguns foram presos. Nosso
personagem estava na cama, cansado, e não fugiu nem se escondeu. Não tinha
força para defender-se. Gastara todas as energias no cumprimento do dever, isto
é, protegendo, prevendo, provando, encorajando. Não lhe restaram forças para
pensar em si mesmo. Aquela hora era, pois, a da Providência, seu derradeiro
auxílio. Além disso, causava-lhe invencível repugnância ter de defender-se
sozinho, não confiar em Deus para confiar em si mesmo e nos métodos de defesa
humanos. Não podia mudar seu sistema, que era o de chamar sobre si o
cumprimento do dever, ajudar os outros e confiar na Providência. Sua. defesa
não era a do tipo comum, isto é, improvisada na última hora e superficial.
Fugia da força como fugia da astúcia. Preferia a defesa longamente preparada
na procura da invulnerabilidade que deriva do estado de inculpabilidade moral
perante Deus, estado em que ele, há muito tempo, tinha procurado colocar-se.
Mesmo na luta defensiva comum, empregava as forças de plano evolutivo mais
elevado, submetendo-as mais uma vez à experimentação, mas sempre confiante
nelas por havê-las visto funcionar tantas vezes. Ele percebia que compete a
Deus defender a quem, tendo empregado tudo no cumprimento do próprio dever, não
possuía mais meios e forças para prover-se do necessário. Assim, quis, até
nesse momento crucial, manter-se coerente com os princípios que jamais o haviam
traído. Pôs em prática, portanto, seu método; antes de mais nada, permanecer,
com honestidade e plena consciência, tranqüilamente no seu posto de combate e
de dever, até o último limite; depois, nada mais lhe restando, desinteressar-se
por si mesmo, abandonando-se às mãos de Deus com a fé mais completa. Percebia
o profundo funcionamento das leis da vida e que estas não podiam mentir-lhe nem
traí-lo; sentia-se participe da imensa organicidade do todo e sabia que a mente
diretora não podia permitir a dispersão de parte alguma, por menor que fosse;
tinha a nítida impressão da indestrutibilidade fundamental do próprio ser.
Posição, por certo, estranha e incomum. Mas é inegável que as forças da vida a
percebiam, pois se adequavam a essa sua posição especial. Ele via, então, a
Providência tomar corpo na realidade e manifestar-se-lhe aos sentidos, de modo
a tornar-se auxilio concreto, via Deus avizinhar-se-lhe e a justiça de Sua Lei
tirá-lo do perigo. Sua experiência não era impregnada de dúvida, desconfiada,
analítica, mas confiante e embriagadora e cheia de alegria a que não era capaz
de subtrair-se. Assim, de alma perfeitamente calma e visão absolutamente
límpida, esperou o perigo.
Observemos o encontro entre as duas
forças contrárias. Trata-se de dois princípios diversos, de dois métodos de luta,
de dois mundos opostos. Espírito e matéria, bem e mal, se defrontam e desafiam,
cada qual com suas armas. Quem vencerá? O homem isolado, inerme, mas justo e,
por isso, ajudado por Deus? Ou o militar armado, sustentado pelo número, mas
assistido apenas por um organismo defensivo humano? Os mesmos conceitos e as
mesmas posições, aqui considerados em seu aspecto individualista, vimo-los na
"Visão" (aspecto coletivo) referida neste volume (cap. XVI e XVII) e
no encontro entre Cristo e Pilatos (cap. XXI). Também no Quo Vadis de Sienkievicz
vemos S. Pedro e Nero olharem-se por um instante frente a frente. Em Os
Miseráveis, de Vítor Hugo, Mons. Myriel permanece calmo diante da ameaça de
Jean Valjean, deixando que apenas sua inocência o defenda e na noite do furto,
vemo-lo permanecer ileso, invulnerável, nas mãos do assassino, que se torna impotente
para feri-lo. A veracidade dessa lei do merecimento e o poder dessa força da
justiça e da inocência foram, embora não demonstradas, percebidas pelos
outros.
Nosso personagem, que estava na cama,
vestiu-se e esperou. Avisaram-no: "fuja, senão eles o prendem" .
Sentou-se calmo, escutando os passos dos militares que vasculhavam a casa.
Ouviu-os aproximarem-se. Um oficial escancarou a porta de seu quarto e,
apontando-lhe o revólver, avançou até o meio do cômodo. "Você vir
conosco", disse-lhe. Levantou-se e respondeu tranqüilamente: "Não
posso, estou muito cansado, vou cair ao cabo de poucos quilômetros, não tenho
mais força física. Sofro há muitos anos. Não posso suportar novas fadigas,
novos incômodos. Estou falando a verdade. Se não acreditarem, podem matar-me
agora mesmo. Estou preparado". O militar, que lhe falara, olhou-o com
seus olhos metálicos e acrescentou: "Você vir conosco, logo, ou eu
disparar". Nosso personagem repetiu: "Matai-me. Estou preparado.
Sempre estive. Peço apenas um minuto para falar com Deus. Ide até o fim nessa
destruição. Estais armados até os dentes e podeis fazê-lo impunemente. Quem
pode deter-vos? Apenas o vosso dano; não o vedes, porém. Minhas armas são
outras. Não o entendeis. Quem, pois, vos detém?"
Em seguida, caminhou tranqüilamente em
direção a um espaço vazio da parede, nele apoiou as costas, estendeu os braços
em cruz, fechou os olhos para o mundo exterior, reabriu-os para o outro lado
da vida, esperou, rezando deste modo: "Senhor, em tuas mãos encomendo o
meu espírito. Não permita se manche este
homem com um homicídio, pois é da lei que ele mais tarde o pagará com
"sua" morte. Forças cósmicas do bem, acorrei contra as forças do mal
que agora estão envolvendo este pobre cego, a fim de ligá-lo a nova dor, para
incorporá-la a seu destino; assim, não será ele perseguido incansavelmente até
que a reação do delito se esgote com sua morte violenta. Senhor, aqui está
minha vida, para que o bem, e não o mal, triunfe". Daí, como supremo e
concludente gesto, fez o sinal da cruz, isto e, o sinal da dor, o sinal do amor
e das maiores forças colocadas nas raízes mesmas da vida, o sinal do Senhor,
símbolo e síntese da gênese e da criação principalmente em relação ao espírito.
Depois, pensou: "vem, ó morte, querida irmã, aceito-te alegremente das
mãos de Deus, pois assim me livras deste inferno”.
Não tendo ouvido mais nada abriu os
olhos. Seu olhar cruzou o do oficial que o fitava: o olhar metálico e o olhar
ardente se defrontaram. O primeiro tentava compreender e não o conseguia.
Extenso abismo abria-se entre os dois. Ele sentia atração e repulsão, fascínio
e raiva, absoluto desejo de matar o rebelde, como havia ameaçado, aliás, e impossibilidade
de fazê-lo. Invisível potência o detinha. Ficou ali parado, perplexo com essa
hesitação incomum, para decifrar-lhe o sentido, procurando descobrir que coisa
o paralisara, que coisa se interpunha entre si e o homem, ao ponto de
impedir-lhe o passo. Por que essa inércia? O homem de ação e de ciência,
habituado a tomar conhecimento dos fatos, queria saber o porquê e a razão; por
isso, escrutava, olhando aquele homem enigmático que tranqüilamente esperava a
morte. O homem de fé olhava o oficial e lia-lhe no coração, muito embora ele
não estivesse percebendo nada do que se passava consigo.
Defrontavam-se os modelos de duas
civilizações diferentes. O oficial era o produto de pseudo-civilização
científico-mecânica, chegada às suas últimas conseqüências, civilização rica,
armada, astuciosa, e potente, e, no entanto, pronta a desabar. Do outro lado
estava o representante de nova civilização, no momento apenas embrionária, a
única possível civilização verdadeira: um indivíduo desacompanhado, pobre,
desarmado, sincero, justo. O oficial não podia, com os olhos da carne, ver
através da matéria e penetrar no segredo, que o perturbava, daquele homem
enigmático a quem, embora armado, não tinha coragem de matar. Este homem
representava principio diferente, mas tinha coragem de matar. Este homem
representava princípio diferente, mais sublime e poderoso: o espírito. E o
militar a si mesmo perguntava por que essa invencível resistência que, embora
ele não conseguisse compreender, lhe chegava do imponderável, e qual o
mecanismo dessa energia desconcertante e capaz de inibi-lo desse modo. Nosso
personagem fechou de novo os olhos, esperando o estampido do tiro: a morte.
Silêncio. Quando os reabriu, o oficial desaparecera.
O homem esperou, mas ninguém se
preocupou mais com ele. A morte passara bem perto de si e não o quisera. Deus
passara bem junto dele. Atirou-se sobre o enxergão e adormeceu como o fazia
toda noite, tranqüilo e agradecendo, humildemente, ao Pai que está nos céus e
desejara continuasse a trabalheira toda de sua vida.
XXIII
VINGANÇA OU PERDÃO
A moral da narrativa feita no capítulo
anterior tem alcance universal e representa modificação completa da psicologia
corrente, quando afirma serem todas as situações de nossa vida, boas ou más,
conseqüência de nossa conduta Pode ser que não nos recordemos de quando e onde
semeamos na plantação de nosso destino, mas, sem dúvida alguma, semeamos.
Sempre procuramos nos outros as causas de nosso infortúnio; elas, porém,
residem em nós, dentro de nós. Procuramos sempre inculpar os demais, pois
queremos encontrar um Cirineu que nos carregue a cruz. No entanto nós é que
devemos carregá-la nos ombros. Isso tudo satisfaz a lógica, a lei de
causalidade, a justiça e a liberdade humana. Os acontecimentos não nascem fora
de nós, mas dentro; se algo nos golpeia, não é por motivo de alguém no ter
querido infligir e, sim, porque nosso modo de vida, esse feixe de forças, o
atrai ou, pelo menos, por ser vulnerável desse lado, lhe garante livre acesso,
verdadeira porta aberta. Nas infeções microbianas, não é a esterilização do
ambiente, impossível de conseguir, que decide de nossa saúde mas, acima de
tudo, a resistência orgânica do indivíduo. Assim também, quanto às adversidades
morais e materiais, não nos é possível viver em um mundo inócuo e, ao tempo,
esperar continuamente sua não-agressão; devemos ao contrário, confiar apenas
nas qualidades individuais de resistência, de reação defensiva; de recuperação,
isto é, naquelas forças por todos nós possuídas porque as conquistamos e as
incorporamos ao dinamismo de nosso próprio destino. A moral da precedente
narrativa é que nós mesmos devemos construir-nos, cada qual por si e para si, e
toda alegria ou dor, vitória e derrota constituem experimento que se registra
indelevelmente no livro de nossa vida representam prova de que nos interessa
sabermos sair mais esclarecidos. Ou nos construimos e robustecemos ou nos demolimos
e enfraquecemos. Se, como tantos fazem, procurarmos a vida apenas fora de nós,
nas outras pessoas e nas coisas, seremos escravos, seus escravos. Só seremos
livres, se procurarmos a vida dentro de nós. A moral é que podemos ser
senhores de nosso destino, mas se torna necessário querê-lo e sabê-lo. É
preciso, porém, viver em profundidade, viver vida consciente. Não é a riqueza ou o poder, mas a vida
interior, que nos dá a independência e o domínio. Podemos viver no meio da
guerra e, no entanto, ter a paz no coração. A maior conquista consiste em
chegarmos a ser, e conservarmo-nos donos de nossa casa interior. Essa é a única
direção útil do expansionismo, o do novo homem, expansionismo que não acaba em
carnificina. Em relação nossa alegria e à nossa força, vale nossa casa interior
muito mais que a exterior; podemos fazê-la ampla e sólida e conservá-la a nosso
modo, em completa independência, em plena autarquia do espírito. Essa casa,
porém, não a recebemos por herança; cada um de nós tem de construí-la com as
próprias mãos, pois é de fato nossa. Mas essa posse deve ser plenamente justa,
isto é, constituir fruto de nosso trabalho. Essa casa é o verdadeiro refúgio
na adversidade, o ninho de nossas alegrias, o cofre de nossos tesouros; mas e
construção feita de forças, edifício entretecido de invisíveis fios em
movimento e que necessita nutrir-se diariamente de nosso trabalho porque
marcham para o futuro e são vivos e se desfazem, se não forem alimentados. Há
homens que por fora vivem em palácios luxuosos e por dentro definham em
casebres miseráveis, desleixados, tristes, em ruínas. Nos momentos de
desventura, seu mesquinho eu não encontra refúgio, pois as grandezas terrestres
não podem oferecê-lo. Percebem a miséria da casa interior de sua personalidade
e, por isso, lhe fogem, temem a introspecção e, como percebem estarem nus,
procuram avidamente cobrir-se com seus ouropéis. Mas os valores e as defesas
estão dentro e não fora. Tudo quanto é externo se despedaça ao primeiro sopro
da tempestade. Assim é a vida.
Por isso, podemos dizer com o
Evangelho: "Ai dos ricos, ai dos vencedores, ai dos que gozam. Amanhã
chorarão". São coisas ditas e reditas pelos sábios; todavia, nesta vida
turbilhonante, não passa pela cabeça de ninguém que devam ser levadas a sério.
No entanto, constituem a realidade mais profunda da vida. O encontradiço tipo
involuído não sabe compreender como, para quem evolui, em dado momento a
ilusão desapareça sem causar mágoa e como, sob o nome de ilusão, devamos
entender exatamente as coisas que a maioria das pessoas considera mais
preciosas. De fato o caminho evolutivo do sábio é juncado de descobertas muito
mais maravilhosas do que as científicas, proclamadas aos quatro ventos.
Trata-se de descobertas verdadeiramente utilitárias e substanciais, completas e
decisivas. Eis o verdadeiro sentido da vida, sentido que escapa ao
entendimento das massas estúpidas e escravas, abandonadas à deriva desejosas
apenas de vegetar. Contudo, a realidade material e exterior, que todos
alimenta, tem as raízes mergulhadas nessa realidade interior e dela não pode
separar-se. E pretendemos dominar os efeitos, combatendo-os quando já
plenamente desenvolvidos, ao invés de extirpá-los no nascedouro. Todavia, o
sucesso material, tão ansiosamente desejado por nós, não podemos obtê-lo sem o
concurso da força moral, que não levamos em conta e, no entanto, se lhe liga
estreitamente. O imponderável, embora incompreendido e maltratado, permanece
indestrutível entre nós; não se deixa dominar e reage maleficamente, pois o
nosso mau tratamento para isso quis pô-lo em ação. Se as forças da Lei, agindo
sabiamente, não nos reeducassem por meio da dor, nessa civilização não saberia
fazer outra coisa senão conduzir-nos, por meio do bem-estar e do abuso, à
decadência física e moral.
Procuramos neste livro observar essas
verdades sob todos es pontos de vista, conforme as várias formas mentais,
servindo-nos da lógica, narrando os resultados da experiência, apoiando-nos na
analogia e em relações com fenômenos de outro tipo. O problema que estamos
enfrentando é o do melhoramento humano e este coincide com o aperfeiçoamento
do indivíduo. Podemos, para isso, utilizar as grandes vias das reformas sociais
e dos sistemas orgânicos de massa. Se aqui, porém, a ação é muito extensa, é
necessariamente pouco profunda. De modo que, se quisermos fazer a evolução
humana avançar muito, temos de encaminhá-la pelo estreito caminho individual.
Trata-se de mudar o sentido da vida. É preferível, pois, trabalhar no lado de
dentro a trabalhar no lado de fora do indivíduo, mais por livre convencimento
do que por imposição, mais por maturidade do que por organização. São múltiplas
as estradas do progresso. Essa maturação deve ter o caráter de espontaneidade.
Por isso, apela-se para mais perfeito entrosamento da vida humana com as leis
biológicas. Da conquista de novo modo de conceber a vida, mais lógico e mais
elevado, derivaria mudança no comportamento individual e nas relações entre as
pessoas e as coisas, o que traria grande vantagem para todos Procuramos, aqui,
fazer com que o homem moderno compreenda a enorme vantagem de ser honesto. A
humanidade de hoje crê ter-se de súbito civilizado apenas porque descobriu
alguma lei exterior da vida, que lhe permite mais cômodo desfrutamento dos
recursos naturais. Trata-se de domínio alcançado sobre algumas forças tornadas
em parte obedientes, para atingir bem-estar de que nos pomos a gozar, ignorando-lhe
as conseqüências. Esse domínio também poderá servir para causar-nos a morte
cientificamente, em larga escala, porém não nos torna mais adiantados. Isso não
pode chamar-se civilização. De mudanças profundas de orientação, que interessem
à motivação da atividade humana, nem se fala. Hoje em dia a vida se apresenta
feroz e desapiedada como nos tempos pré-históricos. Não estar armado de pedras
lascadas mas de metralhadoras, não estrangular o seu semelhante com as mãos, é
sim com os Bancos, representa apenas progresso formal, substancialmente
fictício. Civilização que deixa intactos os instintos bestiais do homem e, além
disso, lhe oferece meios mais poderosos de satisfazê-los, não merece o nome da
civilização. Hoje, ao invés de havermos progredido, descemos a tal ponto que
perdemos o sentido do que seja civilização e mudamos o significado dessa e de
outras palavras sublimes. A verdadeira civilização está mais dentro do que
fora de nós; é mais um poder das qualidades da personalidade que um poder originado
nos meios exteriores e no domínio material. é progresso no espírito, implica
em mudança do comportamento humano em profundidade e não apenas em superfície.
Em meio dessa nossa barbárie, os raríssimos sábios caminham em silêncio,
beneficiando e perdoando. O mundo ri-se deles. Mas neles apenas reside o futuro
do mundo, o único futuro sem sangue.
As ações e as relações humanas podem
ser estudadas como jogo de forças e, assim, descobrir-lhe-emos as leis. Aí esta
o miolo da questão. Acreditamos que a lei do perdão significa pôr-se em
situação de fraqueza e que o sistema de vingança e aniquilamento significa
posição de forca. Não compreendemos como na realidade se dá o contrário, isto
é, como o perdão nos liberta da reação e a vingança nos liga ao inimigo. Quando
dois indivíduos estão em paz entre si, representam sistema de forças em
equilíbrio. Mas, apenas um dos dois tenta superar o outro, procurando invadir e
dominar, não só o legítimo campo de sua liberdade como o campo dos demais, esse
sistema de forças não se mantém mais na posição natural e estável de justiça,
mas se transforma em sistema desequilibrado que tende espontaneamente a voltar
à primitiva posição de equilíbrio. Temos, agora, de um lado rarefação e vácuo e
de outro concentração e pressão; de um lado derrota e danos, de outro vitória e
vantagens. Tudo poderia processar-se de acordo com a vontade do homem, que
gostaria estivessem a seu favor essas mudanças, se não existisse uma vontade
superior, a dirigir e equilibrar, a vontade da Lei que guia todos os fenômenos
de acordo com equânime princípio de justiça. O fato é que essa lei existe e um
princípio impõe o equilíbrio, Acontece então, automática e irresistivelmente,
que de um lado a atração exercida pelo vácuo e de outro a força de pressão
tendem a estabelecer esse movimento de reação chamado vingança; esse movimento,
se possui um fundo de justiça, pois tende a reequilibrar o sistema, lança-o em
novo desequilíbrio constituído pela posição inversa, de que nasce nova reação,
a contra-vingança e assim por diante. Estabelece-se, desse modo, cadeia de
vinganças, interminável porque através delas o desequilíbrio se mantém,
permanece sempre a provocação originária que não tem remédio. Assim, acontece
que quando dois indivíduos pela prática de algum abuso se ligam a tal sistema
de forças, este não sabe mais como resolver-se e os indivíduos permanecem,
mesmo através de seus descendentes, indefinidamente emaranhados. Assim, até a
consumação dos séculos, o fratricida Caim revive no homem.
Continuemos a observar. Por um lado, a
concentração constitui riqueza, superabundância de bem-estar, euforia biológica
causadora de engorda enervante, que desabitua da luta, diminui as capacidades,
aniquila as defesas. De outro lado, a rarefação é pobreza, incômodo, tormento
originador de excitamento que anima ao combate, apura as capacidades, prepara e
apresta o ataque. De um lado, pois, a pressão tende naturalmente a diminuir;
dentro a tensão tende a aumentar. Assim, as duas forcas do sistema, já ligadas
tendem a combinar-se de novo, mas em posição inversa. E assim por diante. Tais
são as vicissitudes de toda luta, de dois homens, famílias, facções ou povos.
Existe, pois, enxertada no próprio sistema, uma tendência a compensar, corrigir
e eliminar os abusos iniciais. Essa tendência à inversão das posições exprime
tendência ainda mais profunda, isto é, a que leva ao restabelecimento do
equilíbrio rompido. Ela se deve à presença de uma terceira vontade, que nada
tem de comum com as verdades particularistas e relativas dos dois contendores,
isto é, a vontade imparcial e justa da Lei, cuja tendência constante consiste
em corrigir e reabsorver o erro humano.
Perguntamo-nos, agora: como se torna
possível reequilibrar esse binário que, tendo perdido o equilíbrio, não sabe
recompô-lo? O maior sonho do lutador consiste na vitória e conseqüente
aniquilamento do inimigo. Na verdade, porém, não passa de ilusão, pois o
inimigo que representa uma força, é substancialmente um imponderável, e
participa de um organismo universal em que como já dissemos, nada se pode
destruir e onde se torna impossível abrir-se o vácuo de sua destruição;
representando, pelo contrário, tendência a preenchê-lo, irresistível vontade
de compensação. O homem não pode de modo nenhum neutralizar essa tendência,
paralisar essa vontade superior. Possui apenas este recurso: a sua força, a
que, para vencer, se agarra de unhas e dentes. Mas a manutenção de artificial
estado de equilíbrio, como o de seu domínio sobre o próximo, requer esforço
contínuo, que se resolve, já o dissemos, em desgaste e, mais tarde, em
inevitável cansaço. Desse modo, além de pelas razões precedentemente expostas,
também por esta o sistema tende a inverter-se. A lei fundamental de justiça
tende incansável e tenazmente à compensação e exerce insistente pressão nesse
sentido, e apenas encontrará paz quando completamente corrigido o precedente
desequilíbrio. Impossível, pois, resistir indefinidamente; de fato, para
conservar de pé um sistema desequilibrado, seria necessário ampará-lo
continuamente por meio de incessante dispêndio de energia De um lado, temos o
princípio-lei, que é vontade inteligente armada de energia, calma, paciente,
mas constante e inexaurível. De outro lado, o homem armado de energia
violenta, mas inconstante e pouco duradoura, colocado perante lei de vontade
diferente da sua e que não se deixa violar senão temporária e excepcionalmente
e à custa de esforço persistente e cansativo. O indivíduo poderá resistir e,
até mesmo, resistir vencendo por alguns momentos, mas cedo ou tarde chegará o
momento de se inverterem as posições. Portanto, é fatal, como de fato se
verifica, que cedo ou tarde o sistema se decomponha e o vencedor passe à
condição de vencido e ao contrário. No reino da força, vitória significa vitória.
Mas, perante lei equânime, imparcial, desejosa de que todos vivam, vitória
significa débito do vencedor para com o vencido, débito a ser pago de qualquer
modo um dia. Então, que adianta vencer? Se não nos contentamos com resultados
efêmeros nem damos crédito à ilusão, não é verdade que vitória e derrota representam
o mesmo fenômeno? Trata-se de posições instáveis, solapadas pelo tempo, de
vantagens momentâneas, trabalhosas e arrancadas violentamente aos naturais e
inexoráveis equilíbrios da Lei. E assim, em última análise, a vitória não
passa de prelúdio da derrota e a derrota significa o prelúdio da vitória.
Se, pois, a vitória não resolve
definitivamente o problema, visto como de fato não reequilibra o sistema das
duas forças, se posição de estabilidade apenas pode ser garantida por
espontâneo equilíbrio dos dois impulsos opostos, a que devemos recorrer, então?
O sistema humano da vingança não atinge o objetivo previsto. Sem dúvida. Não se
trata aqui de agravar, mas de reabsorver o desequilíbrio originário e isso
apenas pode ser conseguido pelo perdão. Vimos que a primeira usurpação causara
um primeiro desajustamento, que o sistema ativo-reativo em cadeia das
vinganças não consegue eliminar. Para consegui-lo, torna-se necessário um ato
igual e contrário, porque só um ato assim pode neutralizar o primeiro. É
preciso, portanto, movimentar-se em sentido contrário; e só o perdão pode
fazê-lo.
Dirão, agora: para que serve essa luta
e, se constitui erro, porque as leis da vida a permitem? Serve para aprendermos
o modo de não cometer mais erros e percorrermos o caminho da vingança a fim de
aprendermos a lei do perdão. O homem necessita aprender; por isso, Deus
deixou-o livre. Não se trata, pois de liberdade desenfreada e louca, mas de
liberdade limitada e protegida. A lei cede no limite do necessário ao
aprendizado do homem. Deixa-o errar e, depois, sofrer as dolorosas
conseqüências do erro. Age, porém, paternalmente; de fato, ao mesmo tempo que
parece abandoná-lo, a lei se mostra sabiamente previdente, próvida e protetora
e, por meio de lenta, mas constante e tenaz pressão, se compromete
antecipadamente a recolocar tudo em seu devido lugar; e, na realidade, vemos
que, apesar de todas as desordens humanas, a Lei alcança esse objetivo. Desse
modo, todo erro contém em si o germe de sua correção, a imperfeição se reduz a
motivo de perfectibilidade contínua. O mundo constituí, assim, perene
injustiça, que representa poderosíssima aspiração à justiça; a vida é desequilíbrio
constantemente à procura de equilíbrio; é vingança avidamente desejosa de
alcançar a fase superior de perdão; é ânsia de ódio que não sossegará enquanto
não reencontrar o amor. A Lei existe, sem dúvida, porque nossa consciência
sabe exatamente como as coisas deveriam., ser, perfeitas, embora não o sejam
ainda, embora um abismo de dificuldades as impeçam de o serem. De fato, o mundo
apresenta-se como oceano de desequilíbrios e por essa razão sofre, exatamente
porque não consegue atingir o estado de equilíbrio, único, conforme o mundo
mesmo percebe, em que encontraria a paz. Torna-se evidente que apenas o
reequilíbrio poderá dar-nos a felicidade, mas esse reequilíbrio está bem longe
de nós. O sofrimento do mundo não se deve a erros recentes, e sim milenários, a
pavoroso amontoado de erros, acumulados através dos séculos, difícil de
eliminar e impossível de reabsorver assim de um golpe. Hoje tudo está
impregnado de erros; o ar, saturado de mentira; o mal que semeamos se
transformou em nossa atmosfera. É preciso pôr-se a caminhar, lenta e
tenazmente, pelo áspero caminho da regeneração. Os resultados do abuso não
podem ser corrigidos senão movendo-nos em direção contrária, subindo de novo
pelo caminho que havíamos descido. Na prática, o simples caso de duas forças
contrárias, há pouco examinado, complica-se num interminável entrelaçamento de
desequilíbrios, que nos submete ao jugo de nosso destino de indivíduos e de
povos, pobres autocondenados, exatamente como por ignorância ou má-vontade
queremos. Quanto mais perseverarmos no caminho da força e da vingança tanto
mais pioraremos nossas condições, agravando o desequilíbrio. A única saída é
esta: o caminho do perdão, o caminho do amor, o caminho do Evangelho. Quando
encontrarmos um homem que emprega a violência e se vinga, diremos: este é um
involuído que está começando o longo aprendizado da vida. Quando virmos um
homem que repele a violência e perdoa, diremos: este é um evoluído que já viveu
bastante e aprendeu a lição da vida. A tendência da evolução consiste em
substituir a vontade ignara, egoísta, desagregante e usurpadora do indivíduo
pela vontade consciente, altruísta, orgânica e pacífica do homem da lei.
Eis em que consiste e para que serve o
civilizar-se. Não se trata apenas de idealismo ou de sentimento ou de bondade.
Trata-se de atingir a fase do homem que já compreendeu. Este diz:
"Perdôo-te, ó inimigo, porque só assim me livro do mal que quiseste lançar
sobre mim. Não; conheço a Lei e não faço como muitos iludidos que caem na
armadilha. Sei que sou livre. Não aceito ligar-me a ti por laços de ódio ou de
vingança; não aceito, porque sou livre, o mal que quiseste infligir-me.
Perdôo-te. Esse mal te pertence; tu o geraste, não eu. Perdoando-te, deixo-o
recair sobre ti, não sobre mim. Se eu caísse na corriqueira ilusão do mais
forte e reagisse, ofendendo-te também, e te causasse um mal que em mim se
gerara contra ti, tornar-me-ia devedor e não mais credor teu e terias o direito
de reter-me como escravo enquanto eu não te pagasse meu débito, de acordo com
a divina lei de justiça. Com o meu perdão, tu continuas nessa triste posição,
tu, pobre iludido que te ries de mim porque pensas ter-me vencido. Muitos
preferem comprometer-se cada vez, disputam corrida em direção ao aumento da
dívida. Quanto a mim, prefiro libertar-me por meio do perdão. Liga-te, isso
sim, com quem responder aos teus ataques. Eu por meio do perdão me liberto.
Nada podes contra mim. sem que eu o queira. Não tens o poder de infligir-me a
dor que quiseres. Isso depende apenas de mim e de minhas culpas. E se eu tiver
de sofrê-la, não a aceito de ti, que ignoras o porquê das coisas e ages como
cego; aceito-a apenas das mãos de Deus, a titulo de expiação merecida, de
salutar purificação e, por isso, de benefício para minha redenção. Não és mais
do que instrumento inconsciente guiado pela Lei. ser ignorante do que faz,
merecedor de piedade e por quem devo orar. És pobre irmão ainda ignaro, que
devo esclarecer e ajudar, irmão que está ferindo a sua própria vida e ligando-se,
sem sabê-lo, a nova dor, porque, acreditando golpear-me, está golpeando a si
mesmo. Irmão! Devo socorrer-te no perigo por que estás passando. Mais tarde,
depois de espontaneamente teres querido ligar-te, por mais que eu sofra e te
perdoe, nada poderei fazer por ti contra as conseqüências fatais de tua
conduta; assim, deverás pagar inexoravelmente e na proporção de teu erro. Tu,
não eu, rompeste o equilíbrio. Tu, não eu, deverás, penando, reconstruí-lo. A
redenção é demorada, complexa e se processa átomo por átomo. Meu perdão me
interessa mais do que a ti. Cairás debaixo da força que tu mesmo libertaste. Ai
de ti, se venceres. Tanto mais pagarás quanto mais injustamente houveres
vencido. Acreditas trabalhar fora de ti, em mim, e, no entanto, trabalhas
dentro de ti mesmo, em ti, para teu benefício. Tudo quanto fizeres recairá
sobre ti, porque tu o fizeste; não recairá sobre mim, senão na proporção em que
eu o houver feito".
A terra é morada infernal, de débito e
de expiação, lugar em que os homens gostam de endividar-se até o pescoço,
vivendo debaixo de chuva de fogo aceso por suas próprias mãos Todavia, como a
Lei de Deus se mantém justa e boa! Somos livres, mas responsáveis. E, quando
lhe compreendemos o significado, que poder regenerador o sofrimento adquire!
Todos nós temos de responder apenas por nossas ações e não, também, pelas ações
alheias; cabe-nos responsabilidade pelo esforço feito, não pelos resultados obtidos.
A força máxima consiste em ser inocente. O ponto vulnerável à dor é apontado
pela própria culpabilidade, quer dizer, não é a dor em si mesma que o
determina, mas a própria debilidade, que oferece o peito aos golpes da lei de
justiça. Tudo quanto fazemos perdura e quem deve não encontra salvação. Logo,
nós mesmos criamos nossa vulnerabilidade, espontaneamente, por meio de nossas
próprias ações. de acordo com nossa vontade mesma. A casa interior do culpado é
indefesa, tem as portas escancaradas. Por qualquer lado a dor pode entrar
nela. Cabe culpa às portas abertas e a quem as abriu. Então, as forças do nosso
destino atraem as investidas dos malvados, que nas mãos de Deus se
transformaram em instrumentos de justiça, embora, considerados em si mesmos,
sejam injustos e incapazes de compreendê-lo. Os meios punitivos estão à solta,
o mal conseguiu libertar-se das algemas e pode, porque Deus o permite, agir
com plena liberdade. Na Lei, o mal é escravo do bem, tem limites que não pode
ultrapassar senão a serviço do bem. Esses instrumentos não são constrangidos,
mas utilizados. São, por isso, responsáveis na medida de sua compreensão e
liberdade de agir e nessa medida, quando lhes couber a vez, hão de pagar pelo
que fizerem. Mas, se sou inocente, que podem eles perante mim senão oferecer-me
novas oportunidades de expiação e ascese? Meu inimigo pode atirar-me às costas
todo mal que quiser; apenas o que eu merecer me atingirá. Não responderei por
ele, mas por mim. E, se não respondo às ofensas, toda a culpa recairá apenas sobre
o ofensor. A medida de nossa dor no-la dá nossa culpabilidade. Fato importante
como o desenvolvimento de nosso destino, fato grave como o peso de nossa dor
não pode ficar à mercê da vontade de um estranho, que muitas vezes nada sabe a
nosso respeito. Sem nosso consentimento, não obstante os permanentes contatos
humanos, entre destino e destino não se podem efetuar trocas de valores ou de
forças. Nós é que fazemos nosso destino; este não passa de campo de forças
cerrado e protegido, em cujo centro está o eu, dirigindo e controlando tudo.
Um estranho poderá introduzir nesse campo apenas as forças que quisermos. As
responsabilidades são graves; as sanções, inexoráveis. Nada mais justo do que
liberdade completa e responsabilidades bem definidas. Nada mais justo do que
cada um responsabilizar-se apenas por aquilo que livremente fez.
Já vimos alhures, a propósito da lei do
merecimento e da Divina Providência, quem na luta pela vida defenderá ao homem
que confiou sua defesa à Lei, às mãos de Deus. Não acreditem vá esse homem,
segundo muita gente pensa, deixar de ser vingado. Renunciando a fazer justiça pelas
próprias mãos, ele se confia a juiz muito mais poderoso; quem perdoa entrega o
culpado à Lei de Deus que, invisível e paciente, é também inflexível e
inviolável e muito mais temível do que as sanções humanas. Os resultados do
jogo da força, embora efêmeros, iludem porque são imediatos. Esse jogo não se
realiza a longo prazo. Com o andar do tempo o justo se revela o mais forte e é
quem vence por último. Há, sem dúvida, conveniência imediata na exploração
imediata das posições cuja honestidade lhes conquistou confiança. Quanto mais
a retidão de uma verdade ou de uma instituição lhe houver conquistado a estima
pública, tanto maior atração exerce sobre homens inescrupulosos que procuram
apropriar-se dela em busca de vantagens pessoais. Quem mais fama tem de.
honesto esse é o ladrão. Mas a posição é instável e não se mantém. Cedo ou
tarde tudo desaba. Para civilizar-se a sério o homem do futuro teria apenas
de fazer este pequeno esforço de inteligência: compreender a vantagem
utilitária de ser honesto, vantagem considerada apenas do ponto de vista do
egoísmo (nem pretendemos mais do que isso); compreender que tudo quanto
podemos obter, empregando a astúcia ou a violência, não passa de adiantamento,
que mais tarde devemos devolver, e pagando muito caro; pretender fraudar lei
invisível e onipresente é ilusão própria de ignorantes; entender que o mais
forte não é o prepotente, mas o mais justo e que o caminho do sucesso
verdadeiro, permanente e durável não é o dos arrivismos tão admirados e
seguidos, mas o do próprio dever. Evoluindo, o homem atravessou, na arte de
conquistar os bens necessários à vida, a fase representada pelo método da
força e, em seguida, a fase do método de astúcia. Agora, se não quiser, com
grande desvantagem para si, continuar na situação de involuído, deverá entrar
na fase representada pelo método da honestidade. Sem essa premissa, todos os
sistemas coletivos que buscam justiça social mais completa contêm apenas
ilusão, mentira e pretexto para injustiças cada vez maiores. Sem esse
fundamental progresso individual, é inútil acreditar em qualquer tentativa de
progresso coletivo.
XXIV
NOSSO LIVRE DESTINO
A humanidade compreende exatamente duas raças bem
distintas; a dos evoluídos e a dos involuídos. Insistamos mais um pouco nesse
conceito, que aliás já desenvolvemos neste livro Não vã o leitor surpreender-se
com o que pode parecer-lhe repetição. Nestes casos o pensamento retorna, mas
diversamente orientado, enriquecido de novas considerações, associado a novas
idéias, visto sob perspectivas mas amplas. Muitas vezes a repetição é apenas
aparente e a volta ao mesmo conceito se deve ao fato de que todos os fenômenos
obedecem ao mesmo princípio. Especialmente nestes últimos capítulos o
pensamento gravita em torno do mesmo centro (a Lei e seus equilíbrios) e os
problemas, inclusive os sociais e morais, são indistintamente propostos e
resolvidos como cálculo de forças. Além disso, a repetição muitas vezes é
útil, porque um prego não se prega com uma martelada só. Nem sempre é fácil
fazer um conceito penetrar no cérebro humano duro como pau.
Enorme abismo separa as referidas raças. Os dois tipos se
distinguem por dois modos diferentes de conceber a vida. por dois diferentes
métodos de luta, por diferente método de comportamento. Tudo isso no-los revela
claramente. Cada qual escolhe o que mais se adapte a sua natureza e basta essa
escolha para mostrar quem ele é. O involuído prefere a força, o evoluído a
justiça, duas armas diferentes adaptadas exatamente às mãos que devem
empunhá-las. Mas o primeiro ignora os complexos jogos do dinamismo da vida, é
desarmônico em face da Lei, por isso fica isolado, não pode apoiar-se senão na
própria força. O segundo tem consciência dos inúmeros recursos e da energia
que escapam à percepção do primeiro; seu potencial nervoso é mais elevado e,
por isso, mais poderoso e penetrante, mais apto a vencer as resistências;
dessa superioridade nem faz idéia quem se acredita composto apenas de corpo e
não, também e principalmente, de espírito. Mas, ao lado dessas suas capacidades
intrínsecas, existe o fato de que o evoluído se harmoniza com a Lei, não está,
pois, sozinho, sem outro apoio que o de suas pobres forças, mas tem, atrás de
si, a Lei a sustentá-lo; não sendo rebelde, que nada contra a corrente da
vida, mas abandonando-se-lhe inteiramente, tem à sua disposição as forças da
vida, que o ajudam e o impulsionam. Temos, assim, de um lado a astúcia,
oblíqua, complicada, torva, enovelada e, por isso, de movimentos embaraçados;
do outro lado, a inocência retilínea, simples, cristalina e, portanto, ágil e
rápida. A astúcia e a inocência digladiam-se. De acordo com a lógica dos
homens, o evoluído deveria perder. Não obstante, muitas vezes vence; na
realidade dos fatos, verificamos que vence. Vemos que, na prática, a forca e a
astúcia, métodos do involuído, não oferecem garantia segura de vitória.
Procuramos, neste livro, compreender-lhe a razão. Há nas armas do evoluído algo
que não admitimos, pois, exatamente por ser muito sutil, nos escapa à primeira vista;
e precisamente esse imponderável as torna mais poderosas; existe nelas
previsão, logicidade, organicidade e sabedoria íntima que não incidem nos
erros grosseiros da força bruta, e também equilíbrio espontâneo que não se
perde nos artifícios nem se enreda nas malhas da astúcia. Na espada imaterial
do arcanjo lampeja, todavia, desconhecido poder que lhe permite vencer a
revolta bestial de Lúcifer. Em presença do homem do dever, do homem evangélico
da paciência e do perdão, o homem da força ri-se sem dúvida e considera-o débil
e maluco. Mas, envaidecido de sua força, iludido com sua astúcia, não
compreende a estratégia do outro, estratégia muito mais completa e profunda. A
força do evoluído reside na compreensão. A ameaça que pesa sobre o involuído consiste
na sua incompreensão
No capitulo "Tempestade", descrevendo a
dolorosa fuga de um homem, dissemos que na hora do abandono, quando a riqueza e
o poder falharam, o homem não estava sozinho, como pensava, mas a seu lado
estavam seu passado e suas obras, pois nossas obras nos acompanham. Estas, uma
vez acabadas, representam impulso fatal que testemunha, fala e age por nós.
Somos nós mesmos que, depois de havermos estado na posição de causa,
reaparecemos agora na de efeito. Suas fases de desenvolvimento no tempo
entrosam-se perfeitamente, pois representam o desenvolvimento de uma força e
de um movimento. Dentro da fatalidade dessa lei é-nos concedida a liberdade de
escolher, retificar e até mesmo de corrigir a trajetória. Mas, uma vez
estabilizada, arrasta-nos. O involuído não o compreendeu ainda e acredita-se
senhor de ilimitado arbítrio e da capacidade de, a seu talante, fazer e
desfazer os acontecimentos de sua vida. Míope, vive apenas do efêmero presente.
A estratégia do evoluído adere mais à realidade das coisas muito mais profunda,
equilibra-se com as forças da vida e, no passado e no futuro, abrange muito
mais vastos períodos de tempo. Dessa estratégia mais ampla participa a
consciência pura, fator sem dúvida estranho à luta (se a tomarmos na acepção
vulgar), luta em que a honestidade não serve de ajuda, mas de estorvo. O mundo
de hoje confunde arbítrio com liberdade e, quando clama pela liberdade,
intimamente deseja o arbítrio, o abuso a licença; nem compreende como, exista
ou não autoridade humana, estamos, isso sim, permanentemente enquadrados nas
invisíveis leis da vida; nem como a autoridade, o poder e a hierarquia dessas
leis jamais diminuem. O mundo de hoje, infelizmente involuído ainda, não
compreende como essa desordenada agitação chamada liberdade não atinja o
objetivo previsto por quem a ela se entrega, isto é. libertar-se de encargos e
sanções; não compreende como, através dessas sanções, a Lei cada vez mais
fortemente o repele, fazendo-o mais tarde sofrer tanto mais amargamente quão mais
loucamente tentou rebelar-se. A história é essa. Quem compreendeu as leis da
vida, sabe que a retidão constitui elemento fundamental do sucesso verdadeiro
e duradouro e que a desordem e o arbítrio podem conquistar-nos apenas
escravidão e dor porque, dada a estrutura de nosso universo, só esta liberdade
se torna possível: a liberdade segundo a lei. A liberdade em desacordo com a
lei é impossível.
Observemo-lhe o mecanismo. As forças, que no passado
foram postas em movimento por nossas ações, uma vez em jogo representam
vontade, autônoma, impulso que por inércia tende, automaticamente, a continuar
movendo-se e a levar-nos para a frente, segundo a direção inicial. Se, a
princípio, movimentamos nossas obras, agora elas é que nos movimentam,
arrastam-nos para onde ontem queríamos e não para onde queremos hoje. O passado
não morre, mas revive sempre no presente. As nossas obras nos acompanham por
toda parte. Em face dessa estrutura orgânica da vida (relação de causa e efeito a longo prazo), por força da qual o
presente se preparou no passado e o futuro se prepara no presente, a filosofia
do "carpe diem" é manifestação de inconsciência. A liberdade, que
imaginamos sempre virgem e completa, é assim apenas na fase inicial de nossas
ações. Não pode ela permanecer indefinidamente no terreno neutro da escolha,
mas fixa-se, condensa-se no determinismo representativo do encadeamento, por
continuação, ao impulso que, uma vez dado, constitui um impulso em nosso
destino; esse impulso liga a liberdade às conseqüências do impulso cuja
continuação já se torna impossível impedir, salvo novo impulso corretivo
contrário. Assim, as obras que fizemos espontaneamente tornam-se vivas e, como
se fossem animadas de vontade própria, são ativas e, na qualidade de criaturas
nossas, agem por nós. Nossa personalidade é fenômeno contínuo, em que os
momentos sucessivos de seu futuro se ligam estreitamente e cujas forças, por
nós suscitadas, se determinam e se põem em ação e, em seguida, não podem ser
anuladas enquanto não se desenvolverem e esgotarem completamente. Essas forças
formam nossa força, tanto em qualidade como em quantidade; desse modo, o
passado e o presente participam de nós. Representam essas forças a definição
de nós mesmos, a coisa consumada difícil de mudar e vivem em nosso destino sob
a forma de fato, fato de modo algum absoluto, mas, ao contrário, sempre
susceptível de retoques e modificações, no incessante movimento da vida. Mas,
vamos vivendo; e o novo fato que cada dia nos acontece, se não o vinculamos
já, é livre e, vivendo, ligamo-lo por meio de nossas ações. Assim vivemos,
vinculando nossa liberdade a isto
ou àquilo, enquanto o impulso não se esgota e a trajetória
não desaparece. Mas, desenovelando-se, o fio da vida sempre traz consigo nova
liberdade virgem, que sucessivamente andamos vinculando e cristalizando no
determinismo, enquanto não a abandonamos no passado assim cristalizada, depois
de haver completado o ciclo experimental. A liberdade é interior, está no
íntimo da personalidade, no reino das motivações e daí a atividade se dirige
para a periferia e se expande no mundo exterior da manifestação, que constitui
o reino do determinismo. Assim, vincular-se ao determinismo, ou extinguir-se
nele, corresponde as características dos dois mundos, interior e exterior, que
as forças motoras dos nossos atos percorrem, nascendo no primeiro, bem no
íntimo da personalidade, e exaurindo-se no segundo, na periferia, no mundo
exterior.
Do mesmo modo que, com a constante germinação de novas
ações, nos aguarda liberdade intacta e permanentemente nova, assim na fase de
sua maturação um fardo de fatalidade sempre nos acompanha. Envolve-nos como a
atmosfera, formando uma espécie de casca dinâmica que nos aprisiona a
personalidade. É a nêmese da vida. Pode aniquilar-nos ou exaltar-nos,
exatamente como ontem queríamos que acontecesse hoje. Assim como os filhos
refletem as qualidades dos pais, essas criaturas testemunham o passado, querem
viver, mostrar-se e agir tais quais são; e não podemos destruí-las nem fazê-las
calar. Gritam e querem como as queremos. Podem afirmar: este é inocente ou,
então: este é culpado. Podem
bendizer e maldizer, premiar ou exigir punição. Se foram acionadas pelo bem,
tenderão a salvar-nos; se foram acionadas pelo mal, não se deterão enquanto não
houverem conseguido nossa desgraça. Isso acontece porque representam causa que
exige o correspondente efeito, impulso desejoso de esgotar-se na direção em
que o lançaram. Seja qual for a sua natureza, boa ou má, tenderão sempre a
seguir seu caminho até o fim e sossegarão apenas quando houverem consumido todo
o impulso recebido. Na realidade, o bem e o mal existem personificados nessas
forças. As do mal nos perseguirão como Fúrias enfurecidas, gritando aos quatro
ventos as nossas culpas e pedindo vingança se atirarão contra nós, mordendo e
dilacerando. A tragédia humana está repleta de exemplos disso. Como poderemos
defender-nos de inimigo que está dentro de nós mesmos? Impossível fugir-lhe,
impossível fazê-lo calar-se. Não há barreira de força ou de astúcia capaz de
detê-lo. Eis que o armadíssimo involuído agora está desarmado, o lutador não
sabe mais lutar, o forte está intimamente minado e gasto; eis que, através das
vias sutis do imponderável, o involuído é vencido pelo fato. Amedrontado pelo impalpável
inimigo que ele não consegue entender, sofre e, examinando-se, procura
entender. Essas forças são inexoráveis, são o destino, representam a lei de
Deus, a inviolável justiça que tentamos violar e fatalmente põe as coisas de
novo em seu lugar. Os recursos humanos clamam contra esses poderes silenciosos
do fato, que aniquilam toda defesa, transpõem qualquer porta, seja do rico,
seja do pobre, ou do poderoso ou do humilde. Apenas uma coisa detêm esses
poderes, uma coisa inofensiva como o dedo de uma criança, leve como a asa de um
anjo, imponderável e suave como uma prece: a inocência. Ser inocente! Essa coisa
tão pequena se ergue diante do esmagador poder da força e o detém, porque isto
é o que a Lei quer: que o honesto encontre defesa e a justiça triunfe.
Se, ao
contrário, em nosso passado não pomos o mal, mas o bem, as criaturas por nós
geradas serão de natureza totalmente diversa. Com o passar do tempo, elas
também crescerão, tornar-se-ão maduras para produzirem seu efeito no mundo
exterior das manifestações causais e, em lugar de cercar nossa vida de inimigos
que vomitam dor sobre nós, estarão a nosso lado, cariciando-nos,
protegendo-nos, encorajando-nos, como bons amigos nossos. O involuído ignora
que o presente não se improvisa nem se constrói à custa apenas do presente, mas
se compõe em grande parte do passado, e que a vida, no seio de organismo
complexo e perfeito como o universo, não é louca aventura, mas desenvolvimento
lógico e orgânico. Nada se tira do nada, mas todas as coisas vão e voltam nas
ondas do tempo, se ligam aos grandes ritmos da Lei, se entrosam em suas causas
de que, aliás, não podemos prescindir; e não podem progredir senão por graus e
por fases: germe, desenvolvimento,
manifestação, exaustão. No universo tudo se entrosa e isso por força da lei
de causalidade, que a tudo liga no decorrer do tempo. Nada vem à luz do sol
senão através de filiação, isto é, através dessa derivação causal, por força
da qual tudo revive sempre, indestrutível nas conseqüências em que necessariamente
se continua. Como no filho se desenvolve o pai, na árvore a semente e na ação o
motivo, assim também, por entrosamento individual, toda causa continua no seu
efeito. Em seu movimento evolutivo através do tempo, todo fenômeno oscila
entre estes dois extremos de um dualismo que não se isola numa forma
impenetrável (princípio-fim), mas se articula continuamente, no termo final,
com novo termo inicial e assim se prolonga até o infinito.
Portanto, se por lei de causalidade tudo é filho do passado,
a vida nos mostra então çomo jogo amplo e complexo de. prolongada preparação,
a vitória é determinada por dinamismos acumulados que afloram de um depósito
interior, repleto ou vazio, rico de provisões boas ou más, úteis ou venenosas,
o misterioso depósito da alma que passa despercebido ao involuído. As posições
terrenas são aparentes e enganam. Assim, o pigmeu pode, quanto à substância,
ser um gigante e o gigante ser um pigmeu. Eis a força invisível de tantos
inermes, a grandeza recôndita de tantos humildes. A posição humana exterior é
fictícia. A casa interior pode ser habitada por amigos ou inimigos, pelo bem
ou pelo mal, por anjos ou demônios. Eis a arma moral do evoluído: as boas
obras, o cumprimento do dever. Isso o isentará das sanções e o inocentará das
culpas. Nosso passado já está feito. Ele traçou a trajetória de nossa vida. Do
mesmo modo que longa evolução biológica construiu nosso atual tipo biológico
que, tal como é, resiste a toda deformação rápida e a toda mudança, assim
também, depois de longa caminhada, se formou e definiu nossa constituição
moral, reservatório de instintos alojados no subconsciente e radicados em
passado remoto. A forma não é definitiva, mas definida, pois o transformismo
continua e processa-se e nada pode jamais considerar-se imutável. Permanece
sempre aberta a porta da expiação e da correção, porque a liberdade, embora
presa às conseqüências do passado, se mantém inviolada e inviolável, sempre
capaz de dar novos impulsos ao destino e, através de novos esforços, corrigir-lhes,
a seu bel-prazer, a trajetória. O futuro é sempre livre, se lhe tiramos o peso
do passado que nos inibe.
A característica principal desse mecanismo de forças consiste
na possibilidade de isolarmos nosso destino do destino alheio. Ao lado de cada
um de nós falam e agem nossas próprias obras e não as obras alheias. Cada qual
pode semear no seu terreno o que quiser; e ninguém pode semear por nós. A
semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória. Portanto, livres, mas
responsáveis. Absoluta independência quanto a semear o bem ou o mal; absoluta
obrigatoriedade de colher o fruto da semente que se lançou ao solo. Por isso, o
sábio procura, em causas profundas e remotas, as raízes de sua situação atual e
prepara, com grande antecedência, o seu futuro. Não tem importância que os
outros ignorem essas leis. Quem erra paga na mesma moeda e pagando aprende. Mas
a maravilhosa justiça da lei divina consiste em cada um de nós permanecer livre
e, seja qual for o ambiente em que viva, poder, à sua vontade, perder-se ou
salvar-se. A beleza de tudo isso consiste no fato de que essa liberdade
permanece sempre garantida e o indivíduo independente, senhor absoluto,
sempre, do próprio destino, senhor de, em qualquer tempo e lugar, construi-lo a
seu modo. Assim, num mundo em que o ignorante involuído através de seus
sistemas, impera e triunfa, ninguém pode impedir ao evoluído, que não é
ignorante, de escolher seu caminho, segui-lo, e colher frutos copiosos.
Conforme a ação praticada, assim a Lei dá a cada um a resposta adequada e
funciona ao mesmo tempo, mas de modo diferente, em planos e formas diversos.
Desse modo, a liberdade fundamental do indivíduo é a tal ponto respeitada, sem
lesar o princípio de responsabilidade, que ele pode sempre separar seu destino
do destino alheio, pode conservar completa autonomia de trajetória em meio do
mais complexo entrelaçamento de forças, pode atingir os objetivos que quiser,
goza da liberdade de perder-se em meio à salvação geral ou de salvar-se em meio
da perdição universal. O resultado é garantido, quer o do bem, quer o do mal. O
justo pode, portanto, avançar com seu binário, mesmo se for colocado num mundo
de demônios. Perante Deus o que vale é o seu passado, suas obras, seu
merecimento. A Lei responde no mesmo tom em que a chamarmos e é rica ao ponto
de possuir qualquer tom. Ao justo se torna, assim, possível apelar não mais
para a força ou a astúcia, sistemas de luta por ele superados, mas para a justiça divina e dela receber a resposta adequada, isolada em meio a vasto oceano
de respostas diferentes; é-lhe possível receber tratamento de bondade e de
salvação em meio de cataclisma universal. Assim, o evoluído pode caminhar de
acordo com destino todo seu, independente do de seus semelhantes, independente
até mesmo da sua própria humanidade. Enquanto os demais, considerados os seus
métodos de luta, se destroem mutuamente, arrastados pelo turbilhão da força,
pelo ódio recíproco ligados à própria destruição, o evoluído, isento das
culpas do mundo, poderá seguir um destino todo seu, de alegria e de paz. As
forças do imponderável terão formado em torno dele uma camada protetora, uma
defesa salvadora, que o tornará invulnerável, porque inocente, em meio dos
mais graves perigos que arrastam os outros.
Deixemos aos juristas o estudo das vias da justiça humana.
Preferimos aqui nos ocupar do estudo da justiça divina, onde reside a gênese
das adversidades que nos golpeiam. Que importa o instrumento que no-las
inflige, se ele mesmo muitas vezes lhes ignora as causas? O importante é
possuir a chave do mistério e resolver o problema de saber evitar o dano. O
sistema da justiça divina é sumamente respeitador da liberdade individual,
menos quanto a ser inflexível no campo das responsabilidades. Mas a liberdade
inicial é inviolável. De acordo com a Lei, a base do fenômeno social é o
individualismo, o fenômeno coletivo representa, pelo contrário, um agregado,
um organismo de individualismos que, embora se combinem tendo em vista destino
global mais vasto, permanecem separados e inconfundíveis. A necessidade de o
indivíduo assumir determinada atitude em relação à sociedade não lhe tolhe, de
fato, a autonomia mais completa. Por essa razão cada um de nós pode revelar-se
e afirmar-se de acordo com a sua própria natureza. O rebanho tem plena
liberdade de andar cegamente à deriva, à mercê dos seus elementares impulsos
animais; o sábio, pode, se quiser, estabelecer-se no deserto e aí realizar sua
vida independente Trata-se de independência interior e nela as construções
humanas exteriores exercem influência relativa. Desse modo, entre indivíduo e
massa podem abrir-se hiatos abissais que não se preenchem; e a evolução pode
impelir o solitário hiper-evoluído e vidente para fora da órbita dos destinos
normais ao ponto de fazê-lo transpor as fronteiras da raça humana e entrar no
domínio de humanidades evolutivamente superiores à nossa. Esse tipo de
ascensão é biologicamente possível. Que faz agora esse indivíduo? Já perfez o
ciclo das provas terrestres que os demais estão apenas iniciando, já conquistou
a sabedoria pela qual os outros ainda vivem, lutam, sofrem. A terra naturalmente
não é mais o seu reino. Acabado o seu trabalho de expiação ou missão e
cumpridos todos os seus deveres para com os seus irmãos menores, nada mais lhe
resta senão partir. A terra não o interessa mais; aos outros, porém, interessa.
Na terra ele se sente estrangeiro, e o é mesmo, e como tal é tratado. A vida
humana, para ele agora inaceitável, expulsa-o de seu seio.
Já noutros trabalhos insistimos e jamais cansaremos de
insistir nos deveres do irmão mais velho para com os irmãos mais novos; a toda
superioridade são inerentes pesadas obrigações, fadigas que não assoberbam os
inferiores, deveres que se cifram em obras, renúncia e exemplo. Tarefas pesadas
pesam na vida do evoluído; ele o sabe e afronta o sacrifício. E, por força da
lei de fraternidade, o involuído é admitido a usufruí-lo gratuitamente, é
admitido a desfrutar de graça o sacrifício do mártir, que ele próprio muitas
vezes é o primeiro a agredir e a sacrificar. Isso não deixa de ser justo. Essa
lei de fraternidade participa da estrutura do universo, como conseqüência de
sua organicidade e hierarquia e da unidade do todo. É, pois, fundamental e
inextinguível. Mas a própria lei de justiça limita essa doação fraterna que
ameaça transformar-se na destruição das mais importantes conquistas da vida,
representadas pelo tipo biológico do evoluído A natureza protege os seus
valores e estes, mais do que todos, devem ser protegidos por serem os mais
custosos e preciosos. As vias do evoluído são diferentes das vias da maioria, a
trajetória de seu destino projeta-se francamente para fora da órbita das
experiências terrestres normais, as distâncias se acentuam, as formas mentais
não se compreendem mais. O evoluído torna-se um bólido que, lançado no espaço,
emigra do plano humano. O evoluído iniciou espontaneamente essa ascensão, que
agora o envolve e arrasta. A estrutura desse jogo de forças leva-o agora ao
ponto crítico que consiste nessa célula já madura destacar-se da massa imatura
da humanidade. Considerados a constituição e o funcionamento desse dinamismo,
em dado momento ninguém pode impedir a inexorável, a fatal separação dos
destinos e dos trabalhos. Então, tendo cumprido a tarefa, o evoluído vira as
costas para o mundo e vai embora, abandonando-o às suas próprias forças, para
que ele, à custa do próprio esforço, como é justo, e não do alheio, continue o
caminho da própria evolução. O individualismo, que constitui o substrato da
organização social e a dirige, recobra a supremacia. A justiça divina exige e
impõe a reafirmação dos direitos do solitário incompreendido e espezinhado. Então,
o material biológico elaborado e complexo se destaca do material primitivo e
rústico. Tendo-se tornado diferente, nos instintos e na raça, deseja
ardentemente reencontrar indivíduos de seu tipo, inencontráveis na terra,
suspira por mais elevadas e adequadas formas de vida. Deixa de lado todas as
questões do mundo; não o interessam mais. Não se incomoda mais com os problemas
das pessoas que o habitam. não lhe dizem mais respeito. Os problemas mais
torturantes, pelos quais a humanidade tanto sofre e luta, os sistemas sociais,
econômicos, políticos, não mais lhe atingem o frágil invólucro corpóreo
prestes a ser por ele abandonado. Então, se ainda quisermos seguir o indivíduo
selecionado nessas ascensões biológicas, absolutamente excepcionais,
extra-série e extra-massa, deveremos virar as costas para o mundo e
aventurar-nos em terreno que o leitor comum achará irreal e desinteressante, em
terreno que penetra no imponderável e no inconcebível. Chega-se desse modo,
fora da órbita humana, a uma atmosfera rarefeita, de natureza diferente, em que
se tornam atuais as atitudes remotas. Tudo quanto nos preocupou até agora
permanece lá embaixo, nos pântanos da terra. A força de lutar, sofrer e
ascender, o evoluído penetrou em nova forma de vida, que aos olhos dos demais
surge como remoto e inatingível sonho. Para que pudéssemos continuar, depois de
esgotado o exame dos problemas terrestres, precisaríamos de levar o leitor
muito além do que lhe é possível conceber em relação aos problemas do céu.
O evoluído está sozinho. Gênio, herói ou santo, o super-homem,
por mais humilde e humilhado que seja, tem consciência de sua verdadeira
natureza de indivíduo maduro e do natural desequilíbrio que o leva a
destacar-se da terra. Os inferiores ignaros gostariam de rebaixar-lhe o nível
até eles, por força dos mal compreendidos princípios de igualdade. Poder-se-á
humilhá-lo; mas fazê-lo retroceder, jamais. As classificações e os
enquadramentos humanos não criam valores intrínsecos e, por isso, não podem
mudá-los. Nem a vida nem a ascensão podem ser detidas. Poder-se-á rechaçá-lo e,
até mesmo, matá-lo; porém, não se poderá destruí-lo. Nenhuma força pode
mudar-lhe a natureza nem impedi-lo de continuar sendo o melhor. Em determinado
ponto as amarras do mundo, dolorosas amarras, se rompem. Ele não tem mais o que
dizer, dar ou fazer. O céu espera-o. Há muito tempo ele, embora devesse servir
e sofrer preso ao mundo, pelo peso específico se distinguia da massa, incapaz
de compactuar com a maioria e de integrar-se no rebanho. Finalmente, tudo chega
ao fim, toda obrigação se esgota, o sacrifício se consuma: consumatum est. Com
essa apoteose no terreno do super-humano fecharemos este livro.
Ao lado de seu modo especial de conceber a vida,
exatamente a dor constitui uma das notas características do evoluído. Por que
razão o super-homem é condenado a sofrer mais do que o homem comum? Exatamente
por motivos inerentes à sua posição. Se as verificações precedentes tendem a
reafirmar os direitos do individualismo em face da moderna tendência
coletivista que tenta reabsorvê-lo, devemos reconhecer o esforço e a fadiga
que isso representa. Os coletivismos oferecem à preguiça do homem normal a
comodidade de confundir-se e esconder-se nas massas, de deixar-se guiar e
arrastar pelos líderes, de encontrar proteção no número; tudo isso constitui o instinto supremo e a defesa da
nulidade. Nada nos causa mais piedade do que ver essas almas pensando em série,
vivendo de imitação, essas consciências nutrindo-se de produtos já
confeccionados e anulando-se no número. Kant dizia: "É apenas máscara de
homem pensando com o sistema alheio". A sociedade constitui-se em grande
parte de máscaras, isto é, de rostos fictícios; por detrás deles não existe
personalidade alguma. Os coletivismos protegem e encorajam essa nulidade. Podem
tornar-se, até mesmo, via de acesso para a irresponsabilidade. E o indivíduo
gostosamente abandona parte da liberdade, com o fito de eximir-se à
correspondente porção de responsabilidade. Chega-se, desse modo, à exploração
do progresso, ao parasitismo individual do coletivismo, em que o indivíduo
inepto de bom grado se enquadra a fim de abandonar-se à indolência. No entanto,
de quanta liberdade goza o indivíduo individualista! Por outro lado, quantas
iniciativas e responsabilidade não lhe pesam nos ombros! Essa posição oposta
constitui o antídoto apto a aniquilar os parasitas de todo sistema, sempre prontos
a tirar proveito dele, escondendo-se em seus ângulos mortos. O individualismo,
pelo contrário, ressalta, expõe às vistas porque isola e, isolando, define os
responsáveis, quer dizer, os conscientes. O enquadramento orgânico das massas
se, de um lado, consegue educá-las, oferece também o perigo de transformá-las
em rebanhos de indivíduos mantidos pelo Estado, de escravos que obedecem para
poderem viver como vagabundos; oferecem, outrossim, o perigo de suprimir ou
abrandar a luta mestra da vida. No momento, o super-homem é o indivíduo menos
enquadrado e mais isolado que possa existir e, por isso, o mais exposto, embora
seja o mais livre e o mais consciente. Sua vida é tipicamente antiparasítária,
completamente descoberta, bem afastada de agrupamentos protetores, de
concessões cômodas e de cambalachos. É a vida mais nobre e gloriosa, mais
seletiva e criadora, mas também a que mais fatiga. Sua vida significa alta
tensão levada ao espasmo, bem-estar material sacrificado à idéia; significa
aborrecimento, luta, paixão, intensíssimo trabalho de construção biológica. Não
lhe é lícito abastardar-se no rebanho. Tudo isso, se enriquece a vida, também a
torna difícil e dolorosa. O evoluído não pode furtar-se ao trabalho, vivendo
de imitação, nem resolver os problemas sem esforço, sem pensamento, sem risco
e sem iniciativa, à custa de atos coletivos em série, abandonando-se à direção
alheia, deixando-se ir à deriva. Não faz parte do número e o número protege.
Consideremos agora outro fato. Seu utilitarismo é a longo
prazo; o do involuído, pelo contrário, quer compensações próximas, imediatas.
Por exemplo, observemo-lo em função de problema já tratado alhures, o problema
da autoridade. O evoluído, orientando sua atividade segundo o plano orgânico
do universo, concebe a autoridade como dever e como missão. O involuído,
inorgânico, rebelde e egoísta, concebe-a tão-somente como prêmio concedido ao
mais forte, a e vencedor na luta pela vida. Parece-lhe natural o desfrutamento
de toda posição de comando, como também natural lhe parece o esmagamento do
vencido. Na luta pela vida no plano do involuído, a autoridade constitui
atributo do vencedor, como a submissão é atributo do vencido. Ainda desconhece
o conceito de justiça. O dependente
é inferior, escravo, que deve ser calcado aos pés e explorado, e não pode ser
considerado como indivíduo irmanado no mesmo organismo e que deve, por isso,
receber educação e auxilio Assim é que, através de compensação de equilíbrios,
a autoridade raramente se apoia no amor de pai, mas se regula pelo temor; e o
dependente, por isso, tem-na como inimiga natural. De fato, autoridade e
subordinado, governo e súdito, são duas forças contrárias e complementares que
reciprocamente se influenciam, se educam, se plasmam. Sem direitos, como o consideram,
ao vencido não lhe resta senão sofrer e esperar a ocasião propícia para
rebelar-se, rechaçar a autoridade, por-se em seu lugar, não para cumprir-lhe
as obrigações, mas apenas desfrutar-lhe as vantagens. E assim por diante, cada
um por sua vez. O evoluído não pensa desse modo. A sua psicologia, esses
métodos e o desfrutamento dessas posições repugnam extremamente. Seu
utilitarismo é bem mais amplo e consciente e paira sobre esses resultados
efêmeros, imorais, mas imediatos. Para ele, todo encargo social não constitui
afirmação e ampliação do eu, mas uma função, serviço. Manzoni demonstrou
havê-lo entendido muito bem, quando escreveu: "Não é justa a autoridade de
um homem sobre os demais, senão quando se exercita no interesse deles". Quando
o evoluído respeita a autoridade, sem considerar-lhe o mérito, é porque a
abrange em sua concepção de autoridade, embora ela não corresponda à realidade
dos fatos e isso signifique, da parte dele, apreciação moral superior a que
essa autoridade merece. O evoluído não julga, respeita; não discute, obedece.
Em face de autoridade exercida com espírito involuído, o máximo que o evoluído
faz é manter-se em respeitoso absenteísmo, pois a isso o constrangem. Ao
contrário, o involuído subestima a autoridade, discute-a, julga-a, tenta
condená-la e, ao primeiro sinal de fraqueza, agride-a a fim de apossar-se de
suas vantagens. Estamos bem longe ainda do plano superior de estima e fé, de
compreensão e justiça, do plano em que os dois termos (autoridade e súdito)
não se encontram na posição de rivais, mas na de colaboradores. Essa atitude de
obediência e respeito (aí onde seria necessário, isso sim, defender-se por
causa da existência palpável de agressão e defesa) constitui no plano social um
dos gravames da vida do evoluído. O poder humano possui recursos; o evoluído
não. Todos aspiram ao comando; o evoluído obedece. Os outros se julgam cheios
de direitos; o evoluído só tem obrigações. Os demais homens trabalham em
grandes grupos, compensando-se com riquezas e honrarias. o evoluído trabalha em
silêncio ignorado e pobre. Num mundo assim o evoluído não pode ser senão
mártir.
Na sua vida, porém, há bem mais profunda e substancial
causa de sofrimento que não esses desacordos de relações e essas
incompreensões. E também essa causa é inerente à sua posição. Pelo menos neste
mundo a dor constitui, sem dúvida, a nota fundamental da gênese No pomar da
vida os frutos mais nutrientes ficam ao lado da sombra, mas entendamos:
sombra segundo a matéria, luz segundo o espírito. A alegria não alimenta; a
dor, sim. Só ela corta, escava, plasma e torna maduro, transforma e renova. Em
resumo: revela e cria. A alegria dura muito pouco, nos rouba as energias e nos
deixa completamente vazios e adormentados. A alegria é dissipadora; a dor leva-nos
de novo às fontes vitais, nos concentra e refaz as energias, eleva-nos o poder
espiritual. A dor pode piorar os maus, mas sem dúvida melhora os bons. Nalgumas
vidas, a dor é incidental, episódica, fenômeno. Trata-se de primitivos.
Noutras, a dor apresenta-se como plano fundamental que lhes dá sentido e valor,
é estável, é fenômeno em profundidade. Trata-se, agora, de indivíduos maduros.
A alegria constituí a experimentação dos inexperientes na vida, e primeira
experimentação elementar e juvenil. É ingênua, cheia de simplicidade,
espontânea. Quando, porem, a taça da alegria está cheia até as bordas, agora a
lei de evolução nos proporciona experimentação bem mais profunda a fim de
fazer-nos descobrir verdades mais recônditas e remotas, que ainda não podem
ser reveladas aos primitivos. Quando o destino do evoluído se destaca da terra
e dos destinos dos demais homens, então a dor aparece, como experiência dos
maduros, senil, complexa e profunda, dos fortes e dos justos, como verdadeiro
campo de ação do evoluído. A alegria é atmosfera natural dos que há pouco
começaram a viver, dos recém-chegados de graus inferiores de evolução. A dor é,
por sua vez, o ambiente normal dos velhos que exauriram toda as experiências
desta terra e, por isso, partem para mundos melhores. Os primeiros são
inexpertos; os outros, sábios. Estes aprendem a lição, terminam o aprendizado.
As posições inverteram-se; para aquele significa sujeição; para estes,
desinteresse. Quem parte e quem chega, quem deve viver nesta fase e quem já
viveu nela, o involuído e o evoluído, dois estilos de vida. Cada qual tem sua
tarefa a cumprir.
Estamos agora em condições de compreender que a diferença
de raça entre involuído e evoluído não passa, em última análise, de diferença
de idade. E também se nos torna fácil compreender a razão de o involuído
preferir o método de luta e o evoluído inclinar-se para o da justiça. O método
da força revela o primitivo, que se a ele recorre é porque é exuberante e
inexperto ou, melhor, rico de energia e pobre de sabedoria. O evoluído, por sua
vez, já chegou ao fim da estrada, que o primitivo mal começa. a percorrer. Já
está cansado, gasto; esgotou-se-lhe a carga dinâmica, agora transformada em
experiência. Pobre de energia, rico de sabedoria. Permanece conscientemente
sintonizado com os princípios da Lei. Noutros termos: no
físico-dínamo-psiquismo, isto é, na evolução trifásica do universo, o involuído
representa a fase dinâmica e o evoluído a fase psíquica ou espiritual. A vida
da humanidade percorre o trajeto necessário a passagem de uma posição a outra,
quer dizer, à transformação da força em consciência. O evoluído já transpôs a
passagem; o involuído ainda não, pois não sabe pensar senão agindo, não concebe
a idéia senão como fato, isto é, formalmente concreta. Trata-se de elaborar
matéria, matéria prima rude, fornecida pelo impulso ou, seja, pela carga
dinâmica necessária para levar a efeito a experimentação, em que essas forças
paulatinamente se esgotam. O evoluído, por sua vez, apresenta-se com material
já elaborado; quanto a ele, esse impulso já atingiu o objetivo desejado,
superando a sua fase de transformismo. Nada se perde, nada se destrói. Os
jovens valem tanto como os velhos e os velhos tanto como os jovens. Acontece
apenas que as posições são diferentes e os valores de qualidade diversa. A
quantidade transformou-se em qualidade: a obtusa e rude exuberância, em
sabedoria consciente e refinada. Se o dinamismo biológico se degrada e esgota,
vai mais tarde ressurgir, sob forma diversa, como poder espiritual. Apesar da
equivalência substancial, os dois extremos são diferentes e não conseguem
harmonizar-se. Cada um dos dois condena aquilo que não possui, exalta aquilo
que possui, dá valor a tudo de que necessita e despreza tudo quanto não lhe
serve. O sábio percorreu o ciclo, pois exatamente para isso é que a forca existe,
serve e lhe foi dada. O sábio elaborou dentro de si um sucedâneo que, para quem
como ele está desse modo transformado, a substitui com vantagem. Para o
primitivo, forte mas ignorante, se reservam os duros golpes conseqüentes aos
erros praticados durante a experimentação, golpes a que o sábio nenhum medo tem
mais porque já aprendeu a evitar a prática desses erros. Que imenso dispêndio
de energia para assimilar apenas algumas idéias! Isso nos mostra a importância
e o poder da idéia. Não tivemos, para conquistá-la, de empregar e consumir
tanto dinamismo, de que a idéia é o equivalente. Isso nos demonstra a necessidade
da compreensão sobre que tanto insistimos. No plano do universo, portanto, a
força reduz-se a instrumento de experimentações, a reserva de energias de cujo
consumo depende a compreensão, isto é, a construção da consciência. De um
lado, a força dos jovens; doutro, a experiência dos velhos. No organismo
universal cada coisa tem função bem determinada e está no lugar exato. Os
jovens valem pela posição que ocupam e os velhos também. A vida obriga-os a
trabalho alternado e que mutuamente se compense; durante o período em que suas
qualidades encontram campo para manifestar-se, eles trabalham ativamente de
modo a imprimir um cunho especial à História e a impulsionar de algum modo o
progresso. Todo ser pode sempre dar algo de útil. E o jovem audaz e batalhador,
mas inexperto e inconsciente, vive para tornar-se o velho cansado e pacífico,
mas sábio, às vezes por ele desprezado.
Dá-se com a força e a sabedoria o que se dá com a alegria
e a dor. Estão ligadas estreitamente. A alegria juvenil, que nos vem de sermos
fortes, leva-nos, através da ilusão da vitória, à realidade dolorosa de que
nasce a sabedoria. Para o involuído espontaneamente desejoso de alegria e
senhor natural da terra, que é o seu mundo, a dor terrena é sufocação,
asfixia, mutilação da vida material que constitui para ele todo o bem
desejável. E para o evoluído, que já se considera um desterrado na terra, essa
dor constitui a última experiência amarga num mundo superado, experiência que
lhe abre as portas para a expansão da vida em outros mundos mais adiantados,
únicos em que doravante lhe é possível viver. Essa dor representa o meio de
romper grilhões já por demais pesados e preparar futuro melhor. No céu o
evoluído encontra alegria, a que o involuído procura e encontra na terra. A
festa da vida está sempre no amanhã, nesse futuro melhor que, pelo menos relativamente,
está na posição por nós ocupada. O involuído amaldiçoa e teme a dor. O
evoluído, porém, ama-a e abençoa. O involuído tem a dor na conta de destrutiva,
o evoluído considera-a construtiva. Tudo depende do sujeito. O sábio, que viveu
e, portanto, sabe, não incide mais nas ilusões humanas e recebe a dor,
utilizando-a na função criadora; ri-se dos primitivos e de suas alegrias, que
não lhes deixam na consciência senão saciedade, cinzas do cansaço e náusea.
Eis aí várias causas da dor do evoluído. Se muitas vezes sua vida é trágica, a dor transforma-o em altar de oferendas em que se consuma o holocausto supremo. E, enquanto os primitivos se debatem entre a morte e a dor, o evoluído representa ardente chama de sacrifício a Deus. No incêndio, ele se consome feliz, pois sabe que, depois desta vida, vida muito mais sublime o espera.
XXV
O DUALISMO FENOMÊNICO UNIVERSAL
No capitulo anterior resolvemos o
debatidíssimo e controvertido conflito entre determinismo e livre-arbítrio,
descendo às raízes de problema filosófico e prático de que em A Grande Síntese apenas pudemos tratar
por alto. Agora descemos às particularidades, cuidamos dos pormenores,
entregamo-nos a exposição completa desse problema, impossível de fazer naquele
livro, destinado principalmente, como dissemos, a dar o rumo geral e o quadro
orgânico de nossa problemática. O leitor ali poderá encontrar-lhe apenas a exposição
sistemática. Vamos, mas sempre de acordo com o esquema de A Grande Síntese,
deter-nos no exame de alguns pontos mais controvertidos, enriquecendo-os cada
vez mais e aproximando-os da realidade da nossa vida. Desenvolvemo-los e
aprofundamo-los, mas também lhes damos aplicação prática, pois não objetivamos
perder-nos em abstrações filosóficas, e sim tornar a vida mais clara. For essa
razão, aos raciocínios complicados preferimos simplesmente a linguagem do bom
senso e dos fatos; aliás Newman convenceu-nos de, que "a conclusão de um
silogismo, sozinha, jamais convenceu alguém; jamais"
Até agora estivemos desenvolvendo
argumentos que de preferência se relacionam com a terra e a vida coletiva (ou
de relação) no plano biológico dominante ou, seja, no do involuído. São,
portanto, argumentos referentes a tentativas, a lutas, a incertezas;
entremeiam-nos o incessante e penoso trabalho de construir e de promover a
demolição que possibilite reconstruir e a cansativa tarefa de plasmar mil e
uma vezes a matéria a fim de, através de experimentos sucessivos, chegar à
compreensão. Estamos em pleno reino da força e da ignorância humana, dos
violentos desequilíbrios da injustiça,: no reino da traição e da mentira. O
evoluído penetrou no espírito da Lei, aderiu a ele, repousa na paz de seus
equilíbrios e na suave musicalidade de seu ordenamento; volta-se para trás
horrorizado, suporta-o porque a isso é obrigado, mas deseja ardentemente fugir.
Procuremos acompanhar-lhe a fuga para outros mundos, para outras realidades
superiores que, embora para os deste mundo se afigurem sonhos, tão longe estão
de nossa vida, no entanto a iluminam, mostrando-nos a ordem perfeita reinante
aqui embaixo também, não porém na superfície, onde, em caótica desordem, tudo
nos parece fora do lugar exato. Ao lado da vida exterior, que tantos vivem,
existe outra, interior, mas igualmente real e poderosa Se a primeira se mostra
mesquinha, podemos, ajudados pela segunda, torná-la intimamente grande. Embora
não possamos mudar as condições de nossa existência, nossa conduta será capaz
de enobrecê-la e, até mesmo, podemos com nossa flama interior tornar luminoso
o ato mais simples e comum. O maravilhoso e o sublime podem a cada passo nascer
dentro de nós, nas circunstâncias mais humildes. A própria vida de Cristo
entreteceu-se exteriormente de pequenos episódios, comuns e vazios de sentido,
se considerados em si mesmos, e determinados pela miséria espiritual de todos
quantos o circundavam. E, todavia, sua vida continuou sendo sublime. Nossa vida
é exatamente igual ao que somos. O ambiente e as circunstâncias influem apenas
na vida dos débeis, que não as dominam e, além disso se deixam dominar por
elas. Em face da miséria espiritual de tantas coisas mais importantes da vida
passam despercebidas. Aí onde os indivíduos maduros vêem e fremem de
entusiasmo, os outros passam despercebidos de tudo, correndo no encalço de
futilidades. Apenas quando possuímos grande alma e nos anima grande paixão nos
pomos no mesmo nível dos grandes acontecimentos da vida; aí, compreendemo-lhe o
valor, respondemos às vozes sublimes que vêm das profundezas do universo
ilimitado, onde cada qual vê e aprende conforme a própria acuidade visual.
Assim, as verdades correspondem às vistas, às capacidades, à evolução, variam
desde as mais grosseiras e materiais até às mais refinadas e espirituais. Onde
um sussurra e chora porque percebe a mão de Deus, aí mesmo outro sorri e
despreza porque não percebe, não compreende coisa alguma. Todos se abalançam a
julgar; quem, no entanto, acredita estar julgando as coisas, acusa e julga a si
mesmo. O caos de opiniões é ordenamento, equilíbrio, desordem que se harmoniza
de novo num plano mais elevado onde encontra possibilidade de acordo. Há quem
ouça e há os surdos também. Todos nós apenas podemos viver em nosso nível, de
acordo com o que somos. A alma, a vida interior é que dá ao homem a medida das
coisas. O eu assemelha-se a um vaso
que não pode conter nada além de sua capacidade. Fiquemos tranqüilos. O sublime
não contagia. Os grandes pensamentos, as grandes paixões, as grandes ações
permanecem solitários. O mundo está sempre
pronto a compreender e aplaudir o que se encontra no seu nível. O melhor não
pode afirmar-se senão lentamente e à custa de martírio que não chega a
interessar o mundo. Diz Schuré no Sonho de Minha Vida: "É mais fácil um
camelo passar pelo fundo de uma agulha do que uma idéia nova penetrar no
cérebro dos homens". E Máximo Gorki acrescenta: "Quem nasceu para
andar de rastros não pode conhecer a alegria do vôo". Pior ainda nos faria
pensar em face dos heróicos pregoeiros da verdade, o rifão popular:
"Vulgus vult decipi, ergo decipiatur[14]"
Em geral, o mundo interior fica
entregue aos poetas, artistas, místicos, isto e, à classe considerada mais ou
menos inútil pelos homens práticos. Desse mundo, no entanto, emanam a força
propulsora do progresso e a única luz que nos ilumina e atenua a miséria da
vida quotidiana, embora materialmente muito rica. O evoluído foge para esse mundo
mais adiantado e aí se reencontra. Mundo espiritual, aí existe a única
liberdade que não se chama abuso e torna possível distender-se a tensão das férreas
necessidades da vida material. Nesta o elemento moral é menosprezado e apenas
palidamente aparece nos últimos planos; nesse novo mundo, ao contrário,
guinda-se aos primeiros planos, como fator fundamental. Trata-se de dois mundos
inversos e complementares em que nossa existência se divide e se completa, de
acordo com a grande lei de dualidade. Até agora os contrapusemos como duas
posições antagônicas, que mutuamente se excluem na conquista do campo da vida.
Mais atento exame desses mundos em relação a essa lei nos permitirá até mesmo
nesse dualismo reencontrar a unidade, considerar os dois termos opostos como se
fossem os dois aspectos do mesmo princípio. Veremos tratar-se de existência
dúplice, de duas formas de vida, entre as quais o ser oscila em seu caminho
evolutivo, de acordo com as possibilidades da fase alcançada. O exame
confirmará a lei, revelando-nos dela aspectos novos.
Devemos reportar-nos ao cap. XXXIX de A Grande Síntese, "Principio de
trindade e de dualidade", cujo conhecimento presumimos. Ai o leitor
encontrará o mesmo problema agora exposto, mas intimamente relacionado com a
cosmogonia universal. Ao invés, destas páginas poderão derivar algumas
aplicações e desenvolvimentos particulares, como, por exemplo, essas duas
vidas, exterior e interior, de que estamos falando agora. Na ordem universal
todo fenômeno se apresenta como campo de forças fechado, fato que lhe
caracteriza a individualidade e lhe limita a ação. O eu fenômenico está encerrado em seu ritmo interior, equilibrado em
duplo e inverso movimento respiratório, em oscilação que constitui a base da
íntima elaboração chamada evolução. Essa bipolaridade é universal. Toda unidade
se nos apresenta como formada de duas partes iguais em que, contradizendo-se,
ela se inverte e se compensa, mas também encontra sua estrutura simétrica e
equilibrada. Esse vaivém de forças antitéticas em campo fechado, essa
correspondência de antíteses e simetria, de inversão e complementariedade, esse
íntimo ritmo dualístico compõem a fisionomia que o pensamento e a vontade da
Lei imprimiram às individuações fenomênicas, quer dizer, significam estrutura
orgânica e funcional. É o de que vamos tratar profundamente agora. O princípio
de ordem, fundamental na Lei, transforma o universo, desde o fenômeno máximo ao
fenômeno mínimo, em sistema equilibrado, orientado, ritmado e periódico.
Faz-nos, por isso, compreender e sentir a Criação como fato fundamentalmente
harmônico, rítmico, musical.
Embora tenhamos
posto frente a frente as duas vidas, a exterior e a interior, a da matéria e a
do espírito, a vida é una e oscila entre estes seus dois extremos inversos e
complementares. Trata-se de duas formas comunicantes, de bipolaridade da vida.
É perfeitamente possível e verifica-se
continuamente a passagem do mundo da matéria ao do espírito e ao contrário,
que se completam através de funções compensadoras, atraindo-se por força da lei
de simpatia estabelecida entre os contrários. O conceito da musicalidade
existente na ordem universal faz-nos pensar que ritmo caracteriza e distingue
as duas formas de vida. O mundo exterior, o da matéria, da vida física e
sensória, poderíamos imaginá-lo caracterizado por ondas longas; o mundo interior,
o do espirito, da vida psíquica e intuitiva, caracterizado por ondas curtas.
Essas duas ondas existem nos fatos, sem dúvida; mas é lógica a existência de
onda típica individual, distintiva da personalidade, reveladora das notas fundamentais
do caráter. Mais tarde esses ritmos pessoais se entrosam e se fundam em outros
ritmos mais amplos: familiares, nacionais, mundiais etc. Neles a observação nos
revela correspondências e oposições. Nos países meridionais, por exemplo,
ricos de calor e luz solar, as forças vitais preferem revelar-se exteriormente
através de manifestações sensórias. Essa espécie de expansão forma tipo humano
fisicamente exuberante, expansivo, de inteligência vivaz e realista. Há, sem
dúvida, entre raça e ambiente certa relação de ritmo, que neste caso se poderia
chamar ritmo de ondas longas. Nos países nórdicos, onde, pelo contrário,
domina o frio e a umidade e a luminosidade é menor, as forças vitais se
expandem de preferência intimamente, sob formas reflexas. Isso determina a
preponderância de tipo humano de inteligência dobrada sobre si mesma,
introspectiva, menos viva, profunda, nebulosa. Mesmo o desenvolvimento físico é
mais lento. Esse diferente ritmo vital poderíamos chama-lo ritmo de ondas
curtas. É claro que com o passar do tempo os
ritmos entre ambiente e indivíduos acabam por sintonizar-se, por viver
simbioticamente; a coexistência (diríamos, mesmo, a coabitação) entrosa-os e
harmoniza-os; a personalidade absorve e incorpora, fazendo-o seu, o tipo de
vibração dominante, conserva-o e depois torna a irradiá-lo, como se o tivesse
ela mesma produzido. A vida é sensível e tudo registra, assimila, devolve.
Assim, as manifestações raciais são típicas e diferentes, de Verdi a Wagner, do
catolicismo ao protestantismo, de Dante a Goethe. O ambiente concorre para dar
seu tom característico à psique coletiva e aos líderes que a representam, de
modo que as próprias atividades e funções se plasmam de maneira diferente. Mas
em toda parte, mesmo nos campos mais disparatados, esse dualismo perdura. O
pensamento da própria Igreja equilibrou-se entre a tese e a antítese, entre
Pedro e Paulo, isto é, entre a corrente judaico-cristã de tipo particularista e
a corrente greco-cristã de tipo universalista, como se equilibrou, mais tarde,
entre Agostinho e Tomás, quer dizer, entre a corrente platônico-intuitiva e a
corrente aristotélico-racional. O próprio mundo está dividido e, no entanto,
unido entre os seus dois extremos ou, seja, entre a civilização ocidental, materialista,
e a civilização oriental, preponderantemente espiritualista. Toda unidade
fática se deve ao equilíbrio de duas metades, opostas e contrastantes. Por
isso, não se pode falar que, de dois elementos postos em presença um do outro,
este seja superior ou inferior àquele e ao contrário Como já dissemos,
relativamente a jovens e a velhos, um tipo vale tanto quanto o outro. O
dinamismo, em última análise o mesmo, assume formas diversas, mas
substancialmente equivalentes. Enquanto num caso (ondas longas) se desenvolve
como quantidade, noutro (ondas curtas) se desenvolve como qualidade, isto é,
encontra-se sob a forma de potencial ou pressão. Já nos referimos neste volume
(cap. IX – Das Trevas à Luz) à relação, aos efeitos dinâmicos entre amperagem e
voltagem no campo da eletricidade, e entre volume e pressão, na mecânica dos
líquidos. Reencontramos a inversão dos dois extremos no dualismo entre outras
posições, como, por exemplo, luz e sombra, dia e noite, primavera e outono,
equador e pólos, verdade e erro etc., pois não existe ser algum que não
contenha essa oposição de ritmos contrários.
Continuando a observar, verificamos
correspondências ainda mais remotas e relações novas. O tipo espiritual, de
expansão interior, aparece-nos também como de sintonização noturna (cf. o
volume As Noúres), azul, lunar, hipersensual e supersensória, inimigo da ação,
da matéria, da vida física animal. Esse tipo é esquivo, solitário, silencioso,
sofredor, sensitivo, pacífico e, em relação ao mundo, negativo. É um "não-ser", relativamente a este último. Ao
contrário, é um "ser" em face do imponderável, que é um
"não-ser" para os outros. Estes são constituídos pelo tipo material,
de expansão exterior, de sintonização diurna, vermelha, solar, sensual e
sensória, amiga da ação, da matéria, da vida física animal. Tipo audaz,
sociável, bulhento, gozador, voluntarioso e agressivo, mostra-se positivo
perante o mundo. Trata-se de atitudes relativas e opostas. Cada uma delas
significa ou afirmação ou negação que se invertem relativamente à negação ou à
afirmação do outro termo Trata-se de alta ou de baixa freqüência. Em meio dos jejuns,
das renúncias e dos sofrimentos, os santos estavam sempre absortos em
contemplação, que é apenas visão interior. A espiritualidade, vida sutil de
alta freqüência e notas agudas, substitui a animalidade, vida vegetativa de
baixa freqüência e notas graves; o baixo potencial transformou-se em alto potencial,
amperagem em voltagem, o volume em pressão, a vida grosseira dos sentidos na
hipersensibilidade refinada; o mundo físico desmaterializa-se no imponderável.
Os dois lados da vida continuam sempre opostos e complementares. Reencontramos
aqui a mesma razão inversa observada entre força e sabedoria, entre alegria e
dor, entre jovens e velhos. A exuberância vital dos primeiros reside na força e
na alegria, na expansão física; a dos outros está na sabedoria, na dor, na
expansão espiritual. As lutas, as fadigas, as conquistas, tudo é diferente. Os
sentidos das projeções dinâmicas são diametralmente opostos. A vida oferece
dois lados, opostos, em cuja complementariedade se completa; desse equilíbrio lhe
advém a unidade perfeita.
Todas as manifestações humanas adquirem
essa colaboração diferente e passam de um para outro tipo. Uma pessoa gosta do
que outra detesta; para uns é vida o que para outros representa morte. O
próprio Sermão da Montanha exemplifica a mudança dos valores terrenos,
considerados de ponto de vista material, em valores celestes, considerados de
ponto de vista espiritual. A própria morte: para o homem material é morte
apenas; para o espiritual, vida. É
evidente o contraste. A vida oscila do extremo do sadismo (que afirma consistir
a vitória na afirmação egoísta, no esmagamento do próximo) ao extremo oposto,
o do masoquismo (que diz: a vitória consiste na altruísta negação do eu, no
amor ao próximo, na tolerância, no sacrifício, na derrota). A evolução caminha
amparada por ambos os impulsos. Perguntamo-nos, então: relativamente a esse
dualismo, em que sentido caminha a evolução da vida? Para os indivíduos como
para as famílias e os povos e, portanto, para a humanidade também, a vida
caminha da juventude até à velhice, com todas as alterações de qualidade
decorrentes dessa passagem. Essa passagem, aliás, significa inversão de características,
exatamente porque é mudança de posição de um extremo a outro. Por isso, a
evolução da vida oscila entre o ritmo de ondas longas e o de ondas curtas, o
baixo e o alto potencial, a quantidade e a qualidade, a baixa e a alta
freqüência. A evolução, portanto, nada muda à substância, mas somente à forma;
e o que a torna possível é um ritmo interior, de freqüência vibratória. A vida
dos velhos não significa destruição, mas apenas inversão formal da vida dos
jovens. As duas vidas, a espiritual e a material, são inversas e, portanto,
antagônicas; o enfraquecimento ou atrofia de uma condiciona o desenvolvimento
da outra. No sistema compensado e equilibrado da natureza, não pode haver
hipertrofia sem a correspondente atrofia. Assim, verificamos constantemente
existir relação inversa entre saúde física e vida espiritual, tanto assim que,
quando a vida orgânica tende a enfraquecer-se, também tende a sensibilizar-se e
a manifestar-se sob formas mais refinadas, em planos mais elevados; por outro
lado, em organismo fisicamente desenvolvido e exuberante, geralmente não cabe
vida interior sutil e sublime A trajetória
da atividade física, em seu desenvolvimento, maturidade e decadência, não
coincide com a trajetória da atividade psíquica que, quando o indivíduo evoluir
ao ponto de possuí-la, se atrasa, isto é, floresce e definha muito depois da
atividade corporal, como se necessitasse, para melhor desenvolver-se, da
atenção dos processos da vida vegetativa. A maioria das obras-primas surgiram
quando os autores tinham de quarenta a sessenta anos. A morte seria, então, o
caso-limite de máxima decadência física e de afirmação espiritual, a passagem
completa de uma forma vital em ondas longas a outra em ondas curtas As duas
vidas são inversas e opostas. Durante a permanência na terra verifica-se a
oscilação entre uma e outra, conforme o poder adquirido pelo indivíduo em
qualquer campo e de acordo, também, com o ritmo e o tipo de onda dominante em
sua personalidade. Quanto ao involuído, em que prepondera o desenvolvimento
físico, não pode haver, sem dúvida, enfraquecimento orgânico capaz de
revelar-nos espiritualidade nele inexistente. Mas, se a evolução a houver
suscitado, não podemos pôr em dúvida que o enfraquecimento físico
progressivo, o desgaste da vida de ondas longas favoreça a vida de ondas
curtas. A vitória de uma só se torna possível com o enfraquecimento
correspondente da outra. Noutras palavras: o enfraquecimento orgânico pode
funcionar como revelador da personalidade rica e profunda, mas preexistente.
Quando, porém, nada existe, como lhe é possível revelá-lo? Quanto à dor,
acontece isso mesmo. Se a sua função preponderantemente criadora, na sua forma
mais imediata e evidente se nos mostra reveladora, o eu tende à expansão e a
dor constitui prisão, asfixia, mutilação. Mas essa opressão que se exerce num
plano pode resolver-se em compressão capaz de elevar o potencial, a pressão, de
transformar a freqüência da onda; e isso tudo ao ponto de obrigar a
personalidade, quando lhe possua os elementos, a expansão diferente, em plano
de vida mais elevado, isto é, de fazer a vida do ser, desde que maduro, ascender
da forma vegetativa animal à forma espiritual. A dor pode, assim, constituir
instrumento de progresso, como quando, barrando a passagem às fáceis
ressonâncias inferiores dos jogos materiais, abre as portas às sintonizações
superiores dos gozos espirituais. Trabalho mais difícil, esforço para atingir
tensões mais altas; elemento de progresso, porém, pois o ritmo vibratório do
espírito, em alta freqüência, se reforça, se completa, se estabiliza na
personalidade. A personalidade sofre, debate-se, mas acaba sendo controlada e
assim, não consegue explodir; é até mesmo constrangida a fazer uma conquista
que mais tarde será sua e a levará a bendizer a dor, transformada em
instrumento de progresso.
Um esclarecimento se torna necessário
agora. No leitor atento, que se lembra do cap. XLVIII (Série evolutiva das
espécies dinâmicas) e o cap. LXXXV (Psiquismo e degradação biológica) ambos de
A Grande Síntese, pode surgir certa
dúvida, se confrontar esses capítulos com frases como estas deste livro: “O
mundo da matéria podemos imaginá-lo caracterizado por ondas longas; o do
espirito, por ondas curta.... Trata-se de alta e baixa freqüência...
Animalidade, vida vegetativa, notas graves, baixa freqüência; espiritualidade,
vida sutil, notas agudas, alta freqüência. A evolução da vida caminha,
portanto, do ritmo em ondas longas ao ritmo em ondas curtas, do baixo ao alto
potencial, da baixa à alta freqüência. Na evolução da vida é a onda longa que
se funde na curta”. Nos referidos capítulos de A Grande Síntese se afirma, ao
contrário, que, ao longo da série das espécies dinâmicas, a freqüência
vibratória diminui enquanto a amplitude aumenta. Aí parece, portanto, que a
evolução caminha para a diminuição de potencial, representada pelo decréscimo
da freqüência vibratória e pelo aumento de amplitude de onda. Neste capítulo
dizemos, pelo contrário, que a vida caminha das ondas longas para as curtas,
da baixa para a alta freqüência, com elevação de potencial. Há contradição
nisso? Não. Expliquemo-nos.
Cada uma das três fases evolutivas do
nosso universo se resolve, finalmente, em decomposição final que relativamente
à matéria se chama desintegração atômica; para a energia toma o nome de
degradação dinâmica; e, quando se refere à vida, diz-se degradação biológica. E,
de fato, a vida, considerada como dinamismo biológico, caminha para a baixa
freqüência e o aumento do comprimento de onda. e isso até ao esgotamento e à
morte em seu caráter de vida vegetativa animal. Este é apenas um caso do
fenômeno de entropia, isto é, da tendência dos fenômenos ao nivelamento
dinâmico e à extinção na quietude. Essa entropia, se existe nos fenômenos, não
é constante e perpétua; se fosse, já teria feito sentir sua ação e o universo
já estaria morto; no entanto, vemo-lo em contínuo progresso. Deve existir
nele, e é lógico que exista em sistema equilibrado como nosso universo, a parte
inversa e compensadora do fenômeno da entropia, isto é, tendência paralela e
complementar à construção, reconstrução de potencial e de freqüência, que equilibre
e anule a tendência à destruição e à degradação de potencial e à diminuição de
freqüência representada pela entropia. A forma de toda fase evolutiva também
se sujeita, sem dúvida, a desgaste que termina em desagregação. Esta, porém, é
apenas aparente e não se verifica, se tomarmos em sentido absoluto o termo. A
destruição não incide na substância, mas apenas na forma, e reduz-se a
renovamento, condicionador da evolução. Na realidade, se os fenômenos diminuem
de intensidade e se esgotam em sua forma atual, se se desgastam, envelhecem e
morrem, nem por isso se aniquilam e anulam. A substância de coisa alguma pode
ser destruída; ressurge de outra maneira, e isso acontece exatamente como
resultado da elaboração da fase precedente, em que a forma se degrada, mas a
substância evolui, impregnando essa forma situada em plano mais elevado e
igualmente real, embora ela escape aos nossos sentidos. Esta ressurreição,
sob forma diversa, da substância imortal é que se encarrega da reconstituição
do potencial, da alta freqüência em ondas curtas. Assim, na desintegração
atômica a matéria não desaparece senão como matéria, mas renasce na qualidade
de energia de alto potencial e freqüência em ondas curtas (gravitação); do
mesmo modo, no caso da degradação dinâmica, essa energia vai-se degradando, de
gravitação passa a eletricidade. Aniquila-se como potencial, freqüência e
comprimento de onda, mas finalmente morre como energia e renasce sob a forma
de vida. Se considerarmos a degradação biológica, veremos que por sua vez a
vida se desgasta, enfraquecendo-se como potencial, freqüência e comprimento
de onda, mas por fim não se extingue senão na qualidade de vida vegetativa
animal e renasce, como espírito em fase mais adiantada, em nova e mais evoluída
forma de existência, de alto potencial, alta freqüência e ondas curtas. E
assim por diante.
O fenômeno
da entropia não representa, pois, toda a evolução, mas apenas o período
destrutivo da forma de uma fase evolutiva, período que constitui a aparência e
o efeito de íntima elaboração a ele correspondente na intimidade do fenômeno, e
representa correlato período reconstrutivo, cujo resultado é o nascimento da
nova forma, mas em fase mais adiantada. Assim, a evolução recomeça a marcha e,
em meio da destruição da forma, a substância progride desse aparentemente
misterioso meio de recuperação de energia, que outra coisa não é senão a
resultante dos equilíbrios das forças do sistema. A entropia, portanto, é
apenas aparente, a aparência assumida pela realidade do transformismo evolutivo.
De fato, não se trata de dispersão nem de nivelamento, mas de elaboração. O
processo de reconstrução se desenvolve subterraneamente e nada tem de
científico, mas o resultado aparece-nos como nova forma que, mais poderosa,
renasce em plano mais adiantado. Chamamos entropia a destruição apenas da
forma, condição de renovamento evolutivo. A parte inversa e complementar do
fenômeno se encarrega de reconstruir, equilibrando-o em seus dois momentos
inversos e complementares. Prova-o o fato de que o resultado final de toda
degradação não é a morte, mas a ressurreição em plano mais elevado. A entropia
constitui apenas a revelação do desgaste resultante do trabalho da elaboração
evolutiva, desgaste que desempenha também a necessária função de destruir uma
forma, que por força da lei de evolução sempre progride e se aperfeiçoa. Não é
verdade que por toda parte, até mesmo em nós, em nossa vida como em cada um de
nossos atos, encontramos sempre essa lei de morte e ressurreição? Doutro modo não
poderia haver renovamento e evolução. A forma necessita de desfazer-se e refazer-se
continuamente para prosseguir no caminho ascensional do ser, que vai
assumindo-as sucessivamente, de acordo com suas necessidades. A morte
condiciona a vida.
Agora se compreenderá mais facilmente o
que neste capítulo estamos dizendo, isto é, como a destruição biológica conduz
à construção espiritual. Agora podemos verificar como, apesar de toda forma
tender a degradar-se na baixa freqüência e em ondas longas, ela se reconstitui
mais tarde em uma forma superior, de alta freqüência e ondas curtas. Eis por
que, embora a vida do indivíduo e a da humanidade se desgastem no curso da
juventude à velhice, em progressiva diminuição de potencial biológico que
caminha para a baixa freqüência e as ondas longas, desse desgaste nascem o
espírito, a consciência, a sabedoria, resultado de experiências da vida, cujo
fruto é o espírito, em elevado potencial, alta freqüência e ondas curtas. A
vida, enquanto vida apenas, caminha para a baixa freqüência e as ondas longas;
como espírito, porém, se reconstitui em ondas curtas, rápidas e poderosas. No
plano da vida o processo de enfraquecimento de freqüência, alongamento de onda
e degradação de potencial continua exatamente como dizem os referidos
capítulos de A Grande Síntese e isso até à exaustão e à morte. Desse processo,
porém, surge o espírito, como produto sintético dessa elaboração biológica. É o
que se afirma neste capítulo. Parece que no fim de cada período evolutivo, do
percurso de cada fase, desgastada a forma que lhe é própria, as forças do
universo se contraem e concentram em uma forma sintética, de potencial mais
elevado e filha da forma precedente, que morre. Assim, apesar de tudo, o ser
se fortalece, se aperfeiçoa, cada vez mais se reaproxima de Deus. Isso porque
a degradação não passa de processo negativo de anulação da forma, anulação
aparente de que nada subsiste senão a forma renovada e outro trecho percorrido
no caminho da evolução. A degradação é, na realidade, apenas íntima
colaboração construtiva e seu resultado não é a extinção, mas a evolução. O
desenvolvimento de determinada fase evolutiva é um percurso expansionista,
caminhando do centro para a periferia; mas é também um caminho que, no fim de
cada um desses períodos, importa em haver-se percorrido intimamente um caminho
inverso, com que o fenômeno evolutivo se compensa, completa e reequilibra
porque contemporaneamente percorreu no seu outro pólo um caminho da periferia
ao centro. Assim, a manifestação jamais termina em dispersão, por causa de
afastar-se de sua fonte; pelo contrário, é novamente atraída pelo poder divino
que tudo rege e reconduzida ao contato com as forças diretivas de que o outro
lado do processo tendia a afasta-la. Sem esses equilíbrios compensatórios, o
universo se esgotaria por degradação. A própria lei de dualidade nos mostra a
estrutura desse fenômeno de compensação Se de um lado há degradação, do lado
oposto deve necessariamente existir reconstrução. Assim acontece, na verdade, e
os resultados, que não significam morte, mas vida, põem-no em evidência.
Trata-se apenas de dois momentos de processo evolutivo único. Por necessidade
de equilíbrio devem ser inversamente proporcionais. O nascimento implica na
morte; a morte, na vida. A degradação biológica constitui condição do processo
genético do psiquismo, como a degradação dinâmica se revela condição do
processo genético da vida e a desintegração atômica condiciona o processo
genético da energia. Os dois momentos são pressupostos um do outro e
reciprocamente se impõem. Cada fase acaba degradando-se. Nasce moça, de elevado
potencial, ondas curtas e alta freqüência, e morre velha, de potencial baixo,
ondas longas e baixa freqüência. E ao morrer gera fase de ascensão mais
adiantada e mais próxima de Deus. Essa lei se estende a todas as coisas.
Esclarecido esse ponto, continuemos.
Quem a experimentou sabe muito bem que
a vida espiritual, em que reside o futuro biológico, se caracteriza pela alta
tensão; sabe também que fadiga representa o ser constrangido a elevar o
próprio potencial, a habituar-se a vibrar em ondas curtas e em alta freqüência.
Exprimindo-se assim, procuramos dar a entender mais facilmente aquilo em que
consiste a evolução, traduzindo em termos científicos o fenômeno de
espiritualização que em geral não é entendido, lato sensu[15], como
fenômeno biológico, mas apenas no caráter de fenômeno religioso. O ritmo
vegetativo da animalidade mostra-se mais lento, menos fatigante, menos
potente, é de ondas longas e baixa freqüência. O sofrimento, que matura e
desmaterializa, exprime o esforço de habituar-se a viver em ritmo mais rápido e
intenso, mais laborioso e fatigante, porém, mais potente. A evolução
constitui, em substância, aceleramento de freqüência de vibração; a dor aí funciona
como excitante, espécie de transformador de potencial. Através da evolução a
substância permanece idêntica; a quantidade transforma-se em qualidade; a
força, como vimos, muda-se em sabedoria; a ignorância do involuído passa a ser
a sabedoria do evoluído; a violência torna-se justiça; e o caótico
desequilíbrio da desordem e do abuso transforma-se nos harmônicos equilíbrios
da ordem divina. Por força da evolução, o concreto caminha para o abstrato; a
ação, através da experimentação, transforma-se em conceitos e qualidade, a
atividade material em atividade espiritual, o trabalho em contemplação. No
homem primário o pensamento é concreto, não se concebe a idéia senão revelada
por fatos concretos, a palavra mostra-se mais como gesto (isto é, síntese
inspirada na ação) do que como conceito; e o pensamento é mais expressão por
meio de palavras e gestos do que meditação; toda manifestação espiritual
permanece sepultada num invólucro material. Apenas o evoluído atinge a
concepção abstrata, imaterial, que se mantém por força própria, sem ligações ou
apoios físicos. Nele os membros de simples instrumentos de ação se transformam
em antenas transmissoras e receptoras de radiações. O evoluído parece inerte,
mas sua ação, que aparenta um "não-fazer", pois foge às formas e
percepções comuns, desenvolve-se no imponderável. Ela desmaterializa-se em
ritmo mais sutil, poderoso e penetrante. O futuro abrange a passagem da vida
animal à espiritual; para que esta se desenvolva aquela tem de morrer, pois se
torna impossível a coexistência de dois ritmos diversos. São antagônicos, mas
reciprocamente se ligam e continuam. Na evolução da vida a onda longa é que
acaba terminando em onda curta. Progredir significa conquistar onda curta. É a
forma do futuro. Mas, superada a fadiga do aceleramento e a dor da asfixia em
plano inferior, a vida, transformada e não destruída, continua mais intensa e
alegre num plano mais elevado. Trata-se de ressurreição. Assim, a morte não é
igual para todos. A noite não é trevas para os noctívagos. A morte só é morte
para os tipos involuídos, animais e vegetativos, isto é, em ondas longas; para
os tipos evoluídos, espirituais ou, seja, em ondas curtas, a morte significa
vida. Todos nós somos relativos, limitados e estamos fechados numa das metades
da vida. Mas sempre a experiência oposta, a outra metade, está pronta a
compensar-nos e completar-nos. Tudo pode transformar-se. A vida em ondas curtas
representa a morte da vida em ondas longas, mas constitui a vida dos tipos em
ondas curtas. A vida deles não reside na terra, e sim no além, no reino da
noite, enquanto que para os tipos em ondas longas ela está no mundo, no reinado
do dia. Há, pois, temperamentos adequados a viver na vida e temperamentos
adequados a viver na morte. Nossa própria vida cotidiana se divide em dois
turnos diferentes: o dia, vida física, prática, concreta, sensória, à luz
solar, em ondas longas; e a noite, vida espiritual, de sonho, incorpórea, no
imponderável, à luz azul, lunar, em ondas curtas. A vida é contínua; de dia
vivemos a vida dos vivos, de noite a vida dos mortos. As duas faces inversas do
mesmo fenômeno se alternam. E enquanto uma forma prepondera, a outra se atenua
e espera o seu despertar. De noite a vida física adormece e se afirma a vida
interior, intuitiva, vidente. De dia, a vida interior permanece entorpecida,
deixando o campo livre àquela. Trata-se como de duas linhas de visada
diferentes, mas tomadas pelos olhos da mesma pessoa: um, míope, diurno, capaz
de perceber todas as minúcias dos objetos próximos, precisa, concreta; outro,
presbita, noturno, bom para distinguir os objetos afastados, as visões
panorâmicas, mas vaga, sonambúlica, onírica. As horas da madrugada são as mais
profundas, as melhores para a atividade espiritual e, por outro lado, as piores
para o enfermo, o que sofre no plano físico; são as em que geralmente o homem
morre, pois compreendem o período de maior depressão do dia todo, de ritmo
vibratório mais curto, o mais afastado do ritmo longo, lento, vegetativo,
diurno.
Todo o nosso ser está saturado desse
dualismo inverso. A própria luta pela vida, fato fundamental, assume duas
formas extremas: a positiva, de agressividade (conquista) e a negativa, de
resistência (conservação), ambas válidas. Sobre esse dualismo também se apoia o
básico fenômeno biológico da sexualidade, tanto assim que a encontramos, como
oposição de termos, em nossa própria carne. De fato, os tecidos todos se
compõem de células e a célula de dois elementos contrários e complementares, o
núcleo e o protoplasma. Até mesmo a unidade celular, que está na base de nossa
estrutura orgânica, é bipolar, conforme a lei de dualidade. O núcleo,
originário do espermatozóide masculino, vibra em ondas curtas; é de radiações
azuis, voluntarioso, dinâmico, como o próprio espírito. O protoplasma, oriundo
da célula-ovo feminina, vibra em ondas longas; é de radiações vermelhas,
sensual, pacífico, acumulador, como a vida vegetativa. O núcleo é eletricamente
positivo; o protoplasma, negativo; eis os dois termos antitéticos que, da
intimidade de nossa própria carne, do indivíduo ao desenvolvimento biológico e
social, representam cisão e compensação de qualidade e divisão de trabalho, por
força do qual o princípio masculino assume tarefa inversa e complementar da
atribuída ao princípio feminino. Ao primeiro desses princípios, a virilidade,
em ondas curtas, incumbe o dinamismo criador, a função de, por meio de
estímulos revolucionários periódicos, reanimar, reativar a onda longa da
feminilidade que, se tende a conservar, a proteger, acumular, tende também ao
enfraquecimento e à estagnação. Essa atividade genética e conservadora
equilibra-se na atividade oposta do princípio masculino, diretora e
distributiva. A este se confia a iniciativa da evolução, ao feminino a
elaboração da matéria-prima, o princípio masculino plasma, o feminino recebe.
Mas o primeiro também é eminentemente destrutivo, enquanto o segundo domestica
e civiliza. O fato de sua natureza inversa torna-os incompletos e leva-os a se
atraírem reciprocamente. Assim, os dois princípios, na luta para se
destruírem, se apertam no mesmo abraço. Ai de nós se, compensando-se e
combinando-se, as duas funções não se equilibrassem. Então, reciprocamente
expurgadas do excesso individual, a destruição do dinamismo positivo se transforma
em construção e a passividade do dinamismo negativo se torna civilização. Da
combinação dos dois princípios nasce a evolução; o masculino e o feminino são o
pai e a mãe daquele filho chamado progresso.
Esse dualismo imprime-se em todo o nosso
ser. Das alturas da personalidade desce até à intimidade de nossa carne, até
à célula, onde, aliás, está insculpido e donde sobe de novo até à síntese
máxima do ego, tornando-se antagonismo entre espírito e matéria. Esse
contraste, que se verifica sem cessar e constitui a base da evolução,
reencontramo-lo até mesmo no mais íntimo de nossa estrutura orgânica, na
divisão e união dos dois sexos. Pode acontecer que as correntes de
consciência, que se manifestam em nossa personalidade e a caracterizam, se
relacionem com essa bipolaridade das células e nesta se encontre a chave do
mistério do subconsciente, dos instintos, das idéias inatas, da
hereditariedade; pode acontecer que a recordação atávica se acumule e transmita
através dessas células eternamente reproduzidas por filiação direta, das
células destacadas dos progenitores, isto é, o espermatozóide e a célula-ovo.
Não podemos, agora, perder-nos em divagações a respeito da gênese e da
estrutura da personalidade de que mais adiante falaremos. Mas, sem dúvida, o
problema espiritual não pode isolar-se do fisiológico; os dois se ligam
estreitamente. É verdade que as correntes espirituais nos penetram o organismo
até ao interior da célula cuja estrutura é bipolar, quer dizer, contém, o germe
das duas vidas, das duas vibrações e radiações, dos dois ritmos fundamentais
da existência. Também é verdade que a vida é um fenômeno elétrico, não da
eletricidade por nós usada em vários aparelhos. Trata-se de quantidades enormes de energia de posicionamento alveolar e
de baixo potencial; trata-se de um grande número de elementos (vários milhões
de células), cada um com capacidade energética mínima;
poderíamos, mesmo, dizer numero infinito de causas infinitesimais. Num extremo
da vida há como que uma pulverização dinâmica; noutro, uma espécie de
concentração sintética e unitária em torno do ego. Também neste sentido se
verifica uma oscilação entre os dois extremos opostos e complementares. As
raízes do psiquismo mergulham profundamente nos misteriosos meandros da estrutura
orgânica. Pensam que o material dessa construção é, como primeiro elemento, o
átomo, e as moléculas as primeiras construções atômicas em que os átomos se
ordenam sistematicamente. Para chegarmos até à célula, precisamos antes
considerar a formação dos corpúsculos chamados micelas, compostos de um grânulo recoberto por uma espécie de
casca (substância peri-granular). Água circula entre o grânulo e essa espécie
de casca. A micela é dotada de movimento contínuo, chamado movimento Browniano.
A micela é, pois, constituída de moléculas que, por sua vez, se constituem de
átomos, em dois grupos de matéria, um positivo e outro negativo, como, por
exemplo, a célula. Essa bipolaridade corresponde, do átomo e da célula aos
organismos extremamente complexos, a um esquema geral da criação, estabelecido
de acordo com a lei de dualidade. O esquema fundamental dos fenômenos
universais é simples e válido para quaisquer grandezas e planos evolutivos. O
próprio átomo compõe-se de um núcleo central positivo e de elétrons (ou cargas
elétricas negativas) que gravitam em torno dele, à semelhança do sistema solar
e seus satélites. O princípio dualístico manifesta-se em toda parte.
Encontramo-lo impresso no desenvolvimento da trajetória típica dos movimentos
fenomênicos examinada na 1ª parte de A
Grande Síntese, desenvolvimento resultante da alternância de períodos
inversos, evolutivos e involutivos, de progresso e retrocesso.
É natural que esse dualismo permaneça
até mesmo na síntese máxima da personalidade. E assistimos não somente à
pulverização de seu dinamismo causal como também à de sua estrutura material
que, se de um lado, o máximo, se
desfaz na espiritualidade da alma, de outro desaparece na imaterialidade dos
últimos de seus elementos constitutivos. Não deve, pois, causar estranheza, o
imaginarmos que essa imaterialidade se resolva no dinamismo de uma polaridade
elétrica e de um ritmo vibratório radiante, em maravilhosa orquestração de
harmonias equilibradas e compensadas com as dissonâncias relativas. A vida,
portanto, se elaborou através de atividades mínimas, mas gastou nisso imensos
períodos de tempo. Não é demais imaginar que a evolução consiste em lenta
aceleração do ritmo vibratório, em transformação do potencial elétrico no
sentido de freqüências mais altas, de ondas cada vez mais curtas; nem é fora do
comum pensarmos que isso aconteça no processo chamado desmaterialização e
espiritualização. A matéria viva de nosso organismo, sensível a todos os
choques externos, de que registra os recentes e lembra os antigos, palpitante
ao impulso de forças internas e externas, sofre continuamente a ação das vicissitudes
da vida social, as asperezas da luta, a hostilidade ambiente. Deve, por isso,
elaborar-se e mudar por força. O homem, os povos, a humanidade significam vida
e a vida é como um projétil que percorresse trajetória pré-determinada. Tudo
se transforma, nada pode deter-se. A carga elétrica, impulso inicial que
acompanha o nascimento do ser e anima o percurso do projétil, tende ao
esgotamento e então começa o ramo descendente da trajetória. O dinamismo acaba
cedendo, primeiro no campo orgânico e em seguida no campo psíquico, exatamente
porque neste campo se desenvolveu tardiamente. O último destes dinamismos
parece filho do dinamismo orgânico, de que representa a resultante e o
objetivo, o efeito residual mais bem elaborado da causa. Isso faz pensar que,
como se verifica em relação ao indivíduo, as funções espirituais representam o
futuro da raça, sua futura fase de evolução, e também na humanidade se desenvolvem
mais tarde. Tanto assim que esse psiquismo corresponde a complexidade orgânica
cada vez maior, necessidades de defesa cada vez mais difíceis, pois o drama se
torna sempre mais inçado de problemas e requer, por isso, estratégia cada vez
mais sábia e rica de mil e uma qualidades. Do contrário, o indivíduo não
triunfa. E tudo nos faz pensar em que, analogamente, a evolução deve alcançar,
também nos seus mais altos graus, a coordenação atingida nos mais baixos,
como, por exemplo, na estabilização atômica e celular. Como o passado criou
formas hoje estáveis assim o, futuro estabilizará formas bem mais complexas.
Por que razão o princípio protetor da vida não deveria presidir também à
defesa das construções biológicas do futuro, mais sublimes e delicadas? A
criação é fatigante, laboriosa, lenta, mas contínua.
Baseados nessas considerações, agora
podemos definir mais precisamente a lei de dualidade, até mesmo relativa mente
à evolução. Assim:
"Todo indivíduo constitui unidade
dupla, isto é, equilibrado paralelismo de forças emparelhadas, mas antitéticas.
Ou melhor; a unidade compõem-se de metades inversas e complementares, em
contraste e em equilíbrio. Desse contraste nasce a elaboração íntima que se
chama evolução"..
A evolução, portanto, resulta de
processo bipolar, destrutivo-construtivo. Já vimos de que modo o mal se torna
necessário às finalidades do bem. Dessa lei se infere que, se toda unidade é um
binômio, tudo é necessariamente luta e guerra, mas também paz; tudo é ódio, mas
amor também. Poderemos até mesmo dizer que, por força da íntima estrutura
dualística dos fenômenos e, portanto, do fenômeno biológico também, e em
virtude do dinamismo de duas forças opostas, a positiva e a negativa, a
masculina e a feminina, se produz uma auto-elaboração interior, também chamada
evolução, que faz a vida humana progredir do tipo animal, vegetativo,
espiritualmente involuído, sensual, sensório, físico, em ondas longas, para o
tipo super-humano, psíquico, evoluído, sensitivo, espiritual, em ondas curtas.
Em suma: transforme-se de besta em super-homem. Se essa elaboração íntima
conduz a vida humana a um ritmo que vai das ondas longas às curtas, leva-a
também a caminhar do dia para a noite, afasta-a da luz e do calor de um sol
poente, desmaterializa-a por força de maturação íntima, do mesmo modo que, na
desintegração atômica, a matéria se transforma em energia; a vida humana
extingue-se como forma física, a fim de, em outros ambientes, ressuscitar sob
nova forma espiritual.
Estamos discutindo estes problemas e,
ao mesmo tempo, aplicando a lei acima exposta. De fato, também a idéia
constitui um binômio de forças (isto é, inversas e complementares); e, por
isso, como todo debate representa uma oscilação entre os dois extremos opostos
do mesmo conceito, conduz àquela íntima auto-elaboração que é a maturação do
pensamento, isto é, sua evolução. O leitor pode encontrar por si mesmo muitas
outras aplicações dos princípios aqui expostos. Mesmo a radiestesia se baseia
em dois tipos de movimentos pendulares inversos e correspondentes ao bem e ao
mal, isto é, capazes de, seja qual for o objeto, revelar-lhe as radiações
favoráveis ou nocivas. Se o movimento é circular, pode ser no sentido horário
(sentido do movimento dos ponteiros do relógio) e no sentido anti-horário; se
é retilíneo, falamos em sentido longitudinal e sentido transversal.
A tudo isso se poderia objetar que o
princípio de causalidade não basta para explicar a fase superior de evolução
que, representando estado mais complexo, significaria "mais" obtido
de "menos", isto é, efeito superior à causa. A objeção se
justificaria, se o funcionamento do universo dependesse apenas de relação
causal. Não se concebe, aliás, desproporção entre causa e efeito nem
desenvolvimento maior do que o conteúdo do germe poderia dar. Na realidade, porém,
o fenômeno não se desenvolve como as aparências nos fazem supor. O
funcionamento do universo não pára, mas, além de orgânico, e contínuo, é
evolutivo, quer dizer, é intérmina florada de vida; a mecânica, representada
pelo princípio de causalidade, constitui apenas o processo de elaboração
dessa florescência. Em resumo: na evolução, mais do que simples relação entre
antecedente e conseqüente, verifica-se o desenvolvimento de algo latente na
intimidade do ser e a sua manifestação no mundo exterior. Os dois momentos,
causa e efeito, não surgem, portanto, ligados por uma relação de igualdade,
porque no centro, na causa no germe das coisas, se concentra o invisível poder
do pensamento de Deus, poder que se expande e desenvolve na manifestação
exterior, por nós mais claramente perceptível. Todavia, se observarmos mais
atentamente, verificamos a existência dessa relação de igualdade entre causa e
efeito, não na forma, mas apenas na substância. Os nossos sentidos, porém, só
percebem a relação formal. A igualdade foge, pois, à apreciação dos sentidos.
Se existe na substância, onde o equilíbrio tem de ser perfeito, não existe na
forma, que é tudo quanto o homem percebe e, efetivamente, dá a sensação de
disparidade entre causa e efeito.
XXVI
A MÚSICA - A VIDA DUPLA
O capítulo
anterior deu-nos apenas ligeira idéia da maravilhosa simetria de impulsos e da
correspondência de ritmos orientadores da ordem de que se compõem o
funcionamento orgânico do universo. Nossa vida é força que navega em oceano de
forças; toda força é vontade que a anima, pensamento que inteligentemente a
dirige, é tipo de vibração, é radiação. Tudo se move, ouve, registra, recorda e
responde. Apesar de algumas cacofonias, tudo se harmoniza em maravilhosa
sinfonia, tudo se articula em grandiosa arquitetura de ritmos. A ciência
deixa-nos tão-somente entrevê-la. O homem para percebê-la apenas dispõe de
sentidos embotados e dela tem idéia muito vaga. O tato, sentido totalitário
fundamental, nos dá sensação ampla, mas genérica e elementar Os outros
sentidos, derivação específica e especialização do tato, permitem contatos
mais íntimos e perfeitos com o ambiente. Assim: o gosto constitui aperfeiçoamento
do tato, o olfato é especialização do gosto, o ouvido deriva do olfato, a
percepção da luz origina-se da percepção do som. Na ascensão há ordem,
progressão evolutiva. Ao progressivo aperfeiçoamento do sentido corresponde,
quanto ao dinamismo, a transformação da quantidade em qualidade: o comprimento
da onda diminui à proporção que a freqüência aumenta. Por essas poucas portas
abertas penetra vasto mar de ondas, mas o restante nos escapa à percepção. Quem
sabe quantas irradiações mais estão vibrando no ar, chamando-nos, e não sabemos
captá-las! O resto parece-nos silêncio e trevas! Quanta vida e quanta beleza
nos passa despercebida! A ciência, descobrindo novos métodos de registrar
vibrações, oferece-nos uma espécie de sentidos artificiais que nos abrem novas
vias sensórias. Rasgam-se novas clareiras iluminadas; depois, trevas, o
inexplorado, como antes, interminável. A matéria se evapora; diríamos mesmo,
espiritualiza-se em nossas mãos. Sua composição química não basta para esgotar
o conhecimento de sua natureza. No universo tudo está animado de vida, de
inteligência, de relações e de trocas. Toda individuação tende a sintonizar
com o ambiente e a reagir, impondo ao ambiente essa sintonia. Modificando e
modificando-se, tende-se à concordância, a recíproca mimetização rítmica.
Por-se de acordo com a ordem é o caminho que oferece menor resistência. e dá
maior rendimento, é a tendência constante e a resultante final que a estrutura
do sistema de forças necessariamente impõe. Por maiores que sejam os
antagonismos, tudo não passa de coexistência, de sensações recíprocas, de vibrações
em comum. A coexistência no mesmo ambiente implica a inevitabilidade das
trocas e, por isso, a reciprocidade das influências exercidas. A relatividade
de cada qual implica a necessidade de procurar nos outros, para alimentá-la,
o próprio complemento. Assim, antes ou depois, tudo se adapta por força de
concordância recíproca; por maior que seja o desacordo, acaba sempre por
dissolver-se, harmonizando-se no consenso. De fato, embora dividido pelo
individualismo, está ligado por essa complementariedade; embora afastado e
separado pela antipatia e repulsão existente entre semelhantes, é reaproximado
e reunificado pela simpatia e atração que se estabelece entre contrários.
A estes contatos cada qual corresponde
conforme sua sensibilidade; e evolução é sensibilização, isto é, dilatação
contínua das vias da percepção bem como do poder e da alegria de perceber.
Cada um reage conforme suas particulares capacidades seletivas e de
sintonização; assim, o musicista para as ondas sonoras; o pintor para as ondas
luminosas, o pensador para as ondas psíquicas, o romântico poeta para as
ondas vitais do amor. Quanto mais a vida é espiritualmente profunda mais nos
dá o senso do ritmo e nos transforma o ser em concerto de harmonias. No gênio
triunfa exuberante riqueza de percepção, a hipersensibilidade abre tantas
portas à ressonância, as irradiações penetram e os seus registros se amontoam
febrilmente. Onde o homem comum percebe poucas sensações e duas ou três idéias
com que enfeita o simplíssimo esquema de sua vida, o gênio deve saber
movimentar-se, orientar-se, cair e levantar-se, em meio da vertiginosa
complexidade de sua imensa orquestração perceptiva.
Todo esse movimento origina-se de
desequilíbrio que procura, e enquanto procura, o seu reequilíbrio. Se aquele
constitui o impulso motor, significa também transitória mudança de fase,
instrumento de evolução, e acaba sendo, naturalmente, reabsorvida no
equilíbrio. Embora haja desordem na superfície, na camada mais profunda reina
a harmonia a que todas as coisas tendem; e o ser mais evolui, mais se lhe
aproxima e mais a sente. A sintonização rítmica é o estágio final de todas as
alterações dinâmicas. Encontrado o equilíbrio, o objetivo foi atingido, o
problema está resolvido, o ser fica saciado e o movimento cessa, para recomeçar
em plano mais elevado e em desequilíbrio mais complexo e, por isso, em
movimento. E assim por diante. Se o dinamismo é conseqüência do desequilíbrio,
este por sua vez deriva do dualismo existente em cada ser e implica
unilateralidade, isto é, carência que o torna incompleto e por isso o incita ao
movimento em busca de complemento. Mas se a natureza nos onera com a
necessidade para que ela nos constranja ao movimento e, assim, façamos experimentos
e evoluamos, propicia-nos também os meios de satisfazê-la. Há sempre outro
termo apto a dar-nos riqueza necessária para realizarmos troca e conseguirmos
satisfação, apenas tenhamos tido o trabalho de encontrá-la. Assim, os seres
estão fraternalmente unidos e o universo pode organizar suas construções de
relações, seus edifícios de forças; assim, tudo se move e se renova, foge à
cristalização e no movimento se torna possível a evolução.
Todas as coisas são movidas por essa
combinação de altos e baixos, de qualidades inversas e complementares. Cada
termo vai procurando reequilibrar-se no seu contrário e, assim, encontrar
repouso. Desse modo, todo elemento se liga a seu oposto e por isso, até mesmo
no árduo trabalho de auto-elaboração é arrastado rumo à evolução. O progresso
está implícito no sistema, como resultante, e o estado de equilíbrio
representa evolução acabada, estado de paz que é a fase final de todas as
guerras da luta pela vida. Na natureza, os objetivos existem para serem
atingidos. O universo atual está em fase de desequilíbrio, base do dinamismo
criador, e isso significa que está em fase criadora e evolutiva. Para as forças
e os fenômenos que o conseguem, o equilíbrio representa a fase de chegada, de
satisfação, de repouso final em terreno que jamais permanece inoperante e
sossegado; por isso é também fase de morte e, em seguida, de superamento. O
equilíbrio entre os dois contrários pode, com efeito, ser perturbado pelo
menor choque, porque as forças do universo estão perfeitamente entrosadas.
Então, os equilíbrios se rompem para se porem de novo em movimento, como
desequilíbrios, até recuperarem novos equilíbrios de paz. Mas, a cada união e a
cada troca, também corresponde nova prova e nova experimentação; a volta ao
trabalho, após o repouso, significa superamento do passado e trabalho mais
produtivo, mais sábio, mais profundo. Assim, toda necessidade, desequilíbrio,
esforço e criação se relacionam estreitamente; desse modo, a luta e a dor
constituem instrumentos de evolução, isto é, construtores de equilíbrio, de
ordem, de harmonia. Trata-se de cadeia
de momentos necessariamente ligados em
série até que atinjam seu objetivo. O estado de determinismo é, portanto,
apenas a parte conclusiva, o ponto de chegada em que o livre arbítrio deixa de
oscilar, cristalizando-se nas qualidades adquiridas e em conseqüência perde, em
dado campo, a sua função e razão de existir. Agora as qualidades estão bem
caracterizadas e fixadas e já funcionam por simples automatismo, como se fossem
instintos.
Concebido dessa maneira, o
funcionamento do universo adquire significado musical. Quanto mais
profundamente observamos mais evidente nos parece a sinfonia dos ritmos.
Podemos exprimi-la de muitas formas: geométrica, matemática, artística,
poética, musical, filosófica, heróica, moral Mas é sempre a mesma ordem que se
revela como ritmo no tempo e simetria no espaço, ordem que, dinamicamente, é
equilíbrio; moralmente, justiça; artisticamente, beleza; humanamente, bondade.
Arquitetura, poesia, música, a própria bondade, tudo são ritmos. Há pensamentos
musicais; sistemas morais que, como o Evangelho, sintonizam com os mais
sublimes ritmos do universo, isto é, mais próximos da ordem. divina. A palavra
de Cristo está saturada de vibrações construtivas e vitais. O gênio, porque
sabe encontrar relações novas entre as coisas, revela-nos novas harmonias e nos
aproximam do pensamento de Deus. A música dá-nos alegria porque nos patenteia
a ordem que constituí a essência mesma da divindade e condiciona a felicidade
suprema. Tudo quanto é harmônico nos eleva, melhora, dá-nos a paz que consiste
no equilíbrio. Há tanto ritmo num teorema de geometria como no cálculo
matemático, nos processos dinâmicos e nos químicos, nas leis físicas e nas
leis morais, em astronomia como em estética e em filosofia, tanto num raciocínio
como num destino. No universo um tipo fundamental de vibração ressoa e
multiplica-se em mil tonalidades, alturas e dimensões; os esquemas basilares
são simples e, repetindo-se, vão-se diferenciando e multiplicando ao infinito
Por isso, todas as coisas guardam estreita analogia entre si; não é por mero
acaso que, para descobrimento do desconhecido, tanto se recorre em A Grande Síntese, como também fazemos
aqui, ao princípio da analogia. O espírito adere instintivamente à alegria do
ritmo em que percebe terminadas as asperezas da luta e as dolorosas
dissecações do caos. Toda harmonia é uma festa, pois nos eleva, nos aproxima
de Deus, centro irradiador de todas as harmonias. O paraíso deve consistir em
no sintonizarmos com ritmos sublimes do universo. O problema da felicidade
talvez seja apenas questão de sintonia ou, seja, de colocar-se em fase com
radiações superiormente harmônicas.
Esses conceitos podem lançar nova luz
sobre o problemas da evolução da arte e, especialmente, da música. Podemos,
assim, tecer agora considerações mais profundas a respeito de alguns de seus
aspectos, de que, aliás, já falamos no último capítulo de A Grande Síntese: "A Arte". Nele dissemos o seguinte em
relação à música: "Nossa atual fase artística consiste no aniquilamento,
no abandono da forma. Estais na última fase de queda... O progresso artístico
não passa, em substância, de processo de harmonização... Como todas as coisas,
a música moderna evolui em profundidade... em sua 3ª dimensão de sinfonia... O
futuro consiste em continuar tornando cada vez mais ampla a estrutura
sinfônica..."
Aprofundemo-nos. Se observarmos a
música de nossos dias, principalmente se a relacionarmos com a que a precedeu,
verificamos separação, diversidade e desacordo fundamentais. A música de ontem
nos aparece como música resolutiva, estágio final de pacificação; a de hoje,
no entanto, surge como música revolucionária, estágio inicial de luta. Hoje, na
música, predomina a dissonância, o desequilíbrio dos ritmos e dos tons. No
campo artístico, isso tudo exprime o atual ciclo biológico, como manifestação
viva de destrucionismo, de decadência moral, de queda evolutiva no
materialismo, de que nos afastamos dos superiores ritmos divinos, de espiritual
estridor humano. É revolução, ruína, destruição que, contudo, também pode
transformar-se em reconstrução, com elementos novos e, por isso, de bases mais
largas e objetivas e dirigida para fins mais elevados. É, sem dúvida, luta e
esforço, desordem; mas representa, no caos, abundância de novas relações, de
que surgem novas possibilidades. Essa a característica de nossa época, ao mesmo
tempo infernal, perigosa e notável.
Até há poucos anos a música constituía
processo harmônico, em que o choque sonoro tendia a composição amigável, a
solução pacífica. A música moderna, expressionista, tende pelo contrário a
estado em que predominam a inimizade e a luta. Modernamente, a fadiga de
colocarmo-nos acima do acordo fundamental, resolutivo, pacífico, calmo, não é
mais descontínua, entremeada de contínuas pausas para descanso; é, isso sim,
desesperado impulso que não consegue mais resolver-se e aclamar-se num acordo.
A dissonância se transforma de exceção em regra. Os choques continuam,
acumulam-se, perseguem-se numa luta sem tréguas. Daí nasce um estado de tensão
permanente, de irredutível hostilidade que, se de um lado desenvolve ao máximo
o dinamismo das correntes sonoras, se reduz a simples paroxismo de
instabilidade tonal que dá o sentido revolucionário da desordem caótica. Isso
está agravado pela instabilidade rítmica (mudança de ritmo), hoje muito em
moda. Existe aí, sem dúvida, abundância de elementos novos, mas ainda no
informe eruptivo, no estado caótico de desequilíbrio, isto é, na posição mais
afastada daquela harmonização que constitui elemento evolutivo e representa o
grau de evolução artística. Verificamos, pois, a existência de duas tendências
contrárias (outra manifestação da lei do
dualismo), luta acerada e mais viva; e a luta, sem dúvida, serve de base à
criação. Verificamos inegável intromissão de fatores novos na moderna arte
musical, em que surgem novos recursos, e se manifesta ampliação de bases
construtivas; e isso constituí benefício, germe de progresso. Mas aí
verificamos também existência de estado de desequilíbrio que, se pode ser
dinamizante e, por isso, genético, é desordem também e a desordem significa
involução, ao passo que a ordem quer dizer evolução. Eis a grande questão:
saberemos dominar essa desordem, transformando-a em ordem? Esse dinamismo
terminará em construção ou em destruição? O gênio humano terá o poder de
torná-lo genético, disciplinando-o em construções superiores? Saberá
reequilibrar esse ameaçador desequilíbrio no plano de harmonias mais sublimes e
complexas? Ou, então, a corrente modernista nos prenderá os pulsos e arruinará
completamente a arte?
Hoje, sem dúvida, vivemos como se
fôssemos vulcão ativo e a música atual constitui apenas um momento da psicologia
de nossa época que, em qualquer ramo de atividade, se apresenta como
desesperada tentativa para encontrar valores novos. Atualmente, ao invés de
próximos, estamos muito afastados da sistematização e da alegria da harmonização;
estamos hoje em pleno período de retrocesso e destruição que nos lembra o
descrito no Cap. XXII - "Tempestade", deste volume. Esse estilo
musical pode ser tolerado apenas como fase preparatória e de transição. O
futuro da música não reside na desarmonia, mas na complexidade e profundeza. Ao
contrário! Se não voltarmos a percorrer esse caminho, o único aberto à evolução
musical, também do ponto de vista musical afundaremos na barbárie. Essa
liberdade exagerada de ritmos significa ruína da ordem, decadência e
destruição. Depois dos grandes clássicos não houve mais boa música. Não temos,
freqüentemente, senão cerebralismo, e lucubração, artifício intelectual sem
inspiração alguma, virtuosismo técnico, isto é, paródias, sucedâneos,
degeneração. Talvez estejamos agora na parte mais baixa da onda, na noite
escura que precede a aurora. Assim cremos e esperamos. Ouvido acostumado às
velhas arquiteturas musicais, que, embora mais simples, alcançaram alto grau
de equilíbrio, suporta com dificuldade, sem dúvida, essa espasmódica e caótica
mudança de fase dos ritmos e o choque dessa dolorosa ruína estética. E o
espírito, para aderir e aceitar, espera que tudo se reordene nos novos
equilíbrios. Não somente a música, mas a arte em geral, corre perigo. E,
infelizmente, isso não acontece apenas com a arte. Esses desequilíbrios
significam a intromissão de novas forças; mas, se não soubermos dominá-las,
arriscamo-nos ao esfacelamento completo. Saberemos, sob o fardo dessa riqueza
nova, subirmos em direção ao objetivo final da vida e da arte, que é a
harmonização? As revoluções devem saber resolver-se em novos ordenamentos; e
exatamente para conquistá-los é que elas surgem. Apenas isso pode
justificá-las. Tudo quanto hoje fazemos está condicionado, depende de que se
conquiste esse domínio da ordem sobre a desordem e a violência revolucionária
se enquadre, a tentativa dê resultado, a inspiração retorne e o espírito nos
sintonize de novo com os grandes ritmos da vida. Nossos antepassados, mais
simples do que nós, haviam-no alcançado; somos mais ricos e complexos, mas
devemos saber ganhar a luta e realizar o imenso trabalho de progredir e
consegui-lo também.
Até mesmo o problema da arte se nos
apresentou sob a forma de antagonismo de forças em que atua o universal.
dualismo da Lei. Equilíbrio e desequilíbrio, luta, harmonização, presumem sempre
esse dualismo, binômio de forças, princípio que está sempre nas raízes da
gênese. e da evolução. Para onde quer que nos voltemos, sempre os dois termos
opostos, que se atraem e se repelem, que se amam e se odeiam. Duas vidas, a
interior e a exterior; dois tipos humanos, o involuído e o evoluído; dois
ritmos, um longo e lento, outro breve e rápido. No começo deste capítulo falamos
ligeiramente das diferentes vias sensoriais por onde os ritmos do ambiente
penetram na personalidade humana. Mais uma vez dois termos, dois mundos, o
íntimo e o exterior, o eu e o
universo. Qual dos dois o maior? Ninguém pode negar que, assim como o mundo
exterior, o mundo interior seja imenso, infinito abismo. Os dois impulsos se
chocam e se combinam e daí nasce a vida. Luta criadora. O universo irradia e
exerce pressão para, através dos sentidos, penetrar no eu. O eu recebe,
experimenta, adapta-se, assimila; irradia, reage para, por sua vez, penetrar
e, assim, domina e plasma o ambiente à sua imagem e semelhança. Dupla
irradiação, portanto, do mundo exterior para o interior e ao contrário. A lei
de dualidade, a coexistência dos dois mundos e sua atividade, enfim, essa dupla
irradiação. deles faz-nos pensar na existência de partes inversas e complementares
das vias sensoriais já referidas, de canais de saída que lhe correspondam e
fiquem em sentido contrário ao dos canais de entrada; faz-nos pensar, também,
na possibilidade de inversão das vias sensórias que passem a percorrer o
caminho sensorial também do interior para o exterior. Até agora vimos o
movimento dessas irradiações apenas em uma direção, do exterior para o
interior. É lógico. que, por necessidade de equilíbrio, deva também existir o
movimento em sentido contrário. Paralelamente, a natureza material dos canais
de entrada deveria, nos de saída, assumir forma espiritual. A sinfonia dos
ritmos complica-se. Examinemos o problema, agora. Veremos, então, novos aspectos
do funcionamento da lei de dualidade. Isso diz respeito inclusive à arte que,
através da inspiração, vai até às fontes íntimas para vivificar-se.
Beethoven era completamente surdo
quando escreveu a Nona Sinfonia. Morreu com 57 anos (1827) e com 29 começou a
ficar surdo.. No entanto, a impossibilidade de ouvir não interrompeu a produção
genial; parece, mesmo, haver cooperado para sublimá-la, tanto assim que seus
trabalhos vão mostrando-se mais inspirados à proporção que a surdez aumenta.
Contudo, tinha ele de ouvi-las. Se não, como poderia concebê-las, valorá-las,
trabalhá-las? Beethoven as ouvia, embora simples sensações, com a mesma nitidez
e exatidão que a percepção exterior permite. Sua percepção era, pois,
diferente, mas de igual poder, canalizada por outras vias, as vias interiores.
A atividade do musicista, que era a maior possível exatamente no campo de ação
do órgão deficiente, mostra-se independente dele. A concepção, é claro, vinha
inspirada de dentro de sua personalidade. Mas, como é que essa concepção se
transformava em percepção e, através da sensação, conseguia o controle? Este caso
faz-nos pensar no daquele homem que, para degustar qualquer prato, apenas se
limitava a ler um tratado de culinária. Podem as vibrações que excitam os
órgãos dos sentidos provirem de dentro e não de fora? Parece que os próprios
sentidos podem ser impressionados por dois lados (dualismo), isto é, por vibrações
vindas de fora e por vibrações oriundas de dentro; e mais ainda: que o fato de
não funcionar o órgão externo de modo algum isola a consciência do indivíduo,
mas antes pelo contrário o estimula a compensar-se, buscando outros meios de
comunicação. Parece, outrossim, que nessa troca, o sentido ganhe em refinamento
tudo quanto perde em objetivismo e materialidade e, finalmente, que as
vibrações podem usar vias imateriais de comunicação. Embora continuem sendo do
tipo correspondente aos vários sentidos, assumem elas forma bem mais sutil,
espiritualizam-se e, concomitantemente, a produção do gênio se sublima e
espiritualiza. Além do mais, parece que a compressão ocasionada pelo fechamento
das janelas dos sentidos, abertas do lado físico para fora, aumente
correspondente capacidade receptiva, por motivo da abertura de janelas
sensórias do lado psíquico para dentro. Já observamos esse fenômeno de compensação
na dor como instrumento de evolução, no enfraquecimento físico agindo como
elemento de sensibilização, compensação, aliás, que facilmente se observa no
desenvolvimento orgânico e psíquico (o braço ou a perna remanescentes são
sempre mais fortes e os infelizes quase sempre mais inteligentes). A natureza,
de estrutura bipolar, equilibrada, consegue desse modo compensar-se, remediando
as suas imperfeições com o reforço que leva ao lado correspondente ao de sua
debilidade. A vida, se se lhe fecham as portas da expansão, retrai-se, volta-se
para si mesma e, ao invés de crescer horizontalmente, cresce em profundidade,
em outra direção e segundo outra dimensão. Realiza, desse modo, outros
experimentos, adquire qualidades diferentes; a duplicidade de sua estrutura
permite-lhes afirmar-se igualmente, realizando-se de acordo com
desenvolvimento diferente.
Nosso corpo, isto é, a parte que vemos,
é apenas a metade do organismo humano. Como decorrência da aplicação da lei de
dualidade e dos princípios acima expostos e dela derivada, a outra metade deve
possuir características inversas e complementares. Uma das metades é matéria;
a outra, espírito. Comunica-se com dois mundos e podem-se perceber suas
vibrações inversas, recebendo de dois lados e por duas vias, isto é, por percepção fisiológica direta e percepção espiritual inversa. Trata-se
de duas vidas que disputam entre si o predomínio sobre a personalidade. Porque
são complementares se completam; mas, sendo contrárias, reciprocamente se
excluem. Assim, quando a vida física sensória adormece no sono, no transe, ou
se debilita em razão de moléstia ou velhice, como já observamos, então a vida
psíquica pode revelar-se e surgir com mais nitidez na tela da consciência.
Observemos o duplo funcionamento dos sentidos. Os dois mundos vibram e irradiam
nas duas direções opostas em que a vida se desenrola. Examinemos, primeiro, a
percepção visual (ou a acústica, olfativa, táctil e assim por diante). É bem
conhecido o processo óptico por força do qual a imagem se reproduz na retina,
mas invertida, e depois é transmitida ao cérebro pelo nervo óptico e, finalmente,
percebida na posição normal. Onde o mundo físico termina, o mundo psíquico
principia. O órgão central é o cérebro, suspenso entre dois mundos, como
diafragma sensível capaz de registrar as vibrações provenientes de um e de
outro. Esse órgão, porém, não basta para realizar a síntese visual. Mas,
afinal, com que é que vemos? Não vemos com os olhos; de fato, percebemos, já na
posição normal, a imagem que, invertida, se forma na retina. Não vemos apenas com
o cérebro porque, se causarmos alteração no nervo óptico, não percebemos coisa
alguma, embora a imagem continue a formar-se na retina do olho intacto. E se
os órgãos permanecem intactos e livre o caminho até o cérebro, isso basta para
que o fenômeno da visão se realize? Mas, e se o espírito está distraído, com a
atenção voltada para outro objeto, preocupado, é colhido de surpresa, não se
interessa em ver ou não quer ver ou a vibração, por ser habitual, não lhe atrai
mais a atenção, nesses casos, a visão não se verifica. E, no entanto, o
fenômeno óptico é mecânico, consiste na transmissão de vibrações que, se
encontram caminho livre, chegam automaticamente ao cérebro. A vibração atingiu
o cérebro, foi registrada e, no entanto, não se realizou a visão. Quantos atos
automáticos, secundários, desse modo continuamente escapam à nossa consciência!
A visão, a que o eu percebe e sente, não se dá, então, no cérebro, mas além do
diafragma, bem mais longe, do outro lado da vida, o lado imaterial, isto é, no
espírito. Durante esse trajeto é que deve dar-se alguma transformação nas
vibrações; dessa transformação derivaria o fato, doutro modo inexplicável, de
que a imagem readquira a posição normal. A ciência não vai além das células
nervosas cerebrais; mas, além dos órgãos de recepção (olho), de transmissão
(nervo óptico) e registro (cérebro), o caminho deve continuar até ao objetivo
final, a sensação. Só o espírito sente. Através de todos esses transformadores
intermediários, a vibração é filtrada, destilada, cada vez mais
desmaterializada, porém não pára. Quem a apreende e a faz sua é, no espírito, a
consciência. Quando, porém, se chega ao cérebro, o organismo físico termina; de
que modo se pode, partindo daí, prosseguir a caminhada até ao espírito? Como e
através de que vias pode estabelecer-se comunicação? Chegadas ao diafragma que
está suspenso entre os dois mundos, dá-se nas vibrações a transformação
própria da passagem de um mundo material para um mundo imaterial. Depois que o
cérebro é ultrapassado, a telegrafia-com-fio se transforma em
telegrafia-sem-fio; a vibração, como. acontece na transmissão radiofônica,
liberta-se do suporte de seu condutor e, apoiando-se apenas no éter, torna-se
livre, radiante. De modo que o cérebro se relaciona com duas formas de vida, a
material e a espiritual; a primeira o atinge através de vibrações canalizadas
pela rede do sistema nervoso; com a segunda ele se comunica por meio de
radiações em liberdade no espaço. O cérebro não é, portanto, apenas a central
nervosa em que se coletam, em síntese, as correntes elétricas do organismo
físico, mas é também estação transmissora, parecida com estação de rádio ou de
televisão. Eis como o cérebro se liga ao termo final de todo o percurso, o
espírito. Só agora está completo o caminho que vai do objeto exterior ao eu
cognoscente. Aqui estão os vários pontos do trajeto completo; objeto exterior,
cristalino, retina, nervo óptico, cérebro, espírito. A proporção que progride,
a corrente dinâmica sofre várias transformações até atingir o cérebro para
poder continuar progredindo, já agora no reino espiritual, desmaterializa-se,
adquire forma radiante, isto é, a forma característica do espírito, pois, para
que possamos comunicar-nos com os outros, temos de falar a mesma linguagem.
Qualquer um pode facilmente imaginar e fazer o gráfico representativo desse
percurso.
Assim é que, por esse caminho e através
dessas transformações, a percepção sensória pode chegar ao espírito. A
verdadeira visão não se realiza, portanto, no cérebro, mero diafragma
intermediário e transformador de energia, mas acima dele, do outro lado do
binômio vital. De fato, a síntese óptica final é muito mais do que simples
registro cerebral. Enquanto no particular existe a forma receptiva da vida, no
outro lado, no da matéria, do organismo físico e dos seus vários órgãos,
inclusive o cérebro, o estágio final é processo sintético, unitário, é juízo,
confronto, coordenação e reação. O cérebro apenas registra e, desempenhando o
papel de secretário ou escrivão, se encarrega da conservação mnemônica. Só no
espírito, a que o cérebro é órgão subordinado, é que se realiza esse trabalho
complexíssimo e laborioso, se movem as forças imateriais, inteligentes e conscientes,
que tudo sabem, querem e dirigem. O cérebro está para o espírito assim como o
olho está para o cérebro. Só o espírito diz: eu. O cérebro não pode dizê-lo
porque não passa de um órgão. Através dos condutores elétricos do organismo,
dá-se, certamente, a confluência de suas correntes dinâmicas, sua concentração
na periferia capilar, em contato com as células, e a mistura dessas correntes
todas. Mas a síntese totalitária depende do ego e não do órgão. Há muitos órgãos e funções, mas o eu é único; não é instrumento guiado,
mas centro que guia. Apenas ele é consciente; todo o trajeto precedente não
passa de inconscientes movimentos automáticos. No espírito, a vibração, que se
tornou radiante, atingiu o termo final, depois de, para atingi-lo, haver
passado por vários graus de transformação, através de vários órgãos
especializados, de capacidades e funções diferentes; e depois, também, de
haver percorrido o caminho de que um trecho está num mundo e outro trecho está
no outro, embora os órgãos se relacionem estreitamente e as fases sejam
contíguas e sucessivas, de modo a formar um caminho desembaraçado e contínuo de
um extremo a outro. Com isso, a primeira metade do trajeto foi percorrido e o
período de ida está completo e acabado. Nada mais nos resta senão examinar a
segunda metade do circuito, isto é, o período de volta, a parte inversa e
complementar em que a primeira se completa e cuja existência é indicada e imposta
pela universal lei de dualidade. Portanto, observemos agora como a corrente se
move em sentido contrário, desse modo completando o ciclo.
Gerador de vibrações não o é somente o
mundo exterior, mas também o mundo interior. O mundo imponderável da
personalidade é muito mais vasto e rico que o dos fenômenos tangíveis. Não o
vemos, muito embora lhe saibamos da existência. Representamo-lo por imagens
que no-lo revelam no campo das sensações e nos mantêm unidos em torno do mesmo
modo de sentir. Se essas imagens fossem vazias de significado, não
subsistiriam; se subsistem, é porque são animadas por uma realidade interior per se stante[16],
que de algum modo percebemos e com que instintivamente concordamos.
Ouvimos dentro de nós a voz do imponderável, exprimimo-la por meio de símbolos;
através deles, exprimimos nossa sensação e, assim, entendemo-nos uns aos
outros. Esses símbolos continuam vivendo entre nós e evoluem conosco.
Conhecemo-los e somos capazes de reconhecê-los. Por detrás deles palpita a
realidade que sentimos e eles nos manifestam. Não importa que essa realidade se
situe no imponderável. Continua sendo realidade assim mesmo. Os símbolos desempenham,
precisamente, a função de materializá-la no campo do sensível, isto é, de
torná-la capaz de impressionar-nos os sentidos, através da via normal de
percepção sensória de que já falamos. As imagens não constituem, portanto,
simples imaginação e forma inútil, mas têm alma e ela é que nos fala; são
projeções tiradas do mundo espiritual sobre o nosso, formas materiais que revestem
as figuras imateriais. Trata-se de percepções que, por via contrária da normal,
e a ela oposta, derivam daquele mundo interior que ninguém pode ver com os
olhos da carne, mas é visto perfeitamente pelos do espírito.
Como é que podem, no entanto, a
vibração e a sensação descer do mundo espiritual até este mundo material? Que
caminhos percorrem para atingirem nossos órgãos sensórios? A posição inversa,
que os dois mundos guardam entre si, contém implicitamente e nos mostra, ao
lado de um caminho, o que segue direção contrária. Já examinamos a estrada de
volta, a fim de constituir a indispensável segunda metade do circuito completo.
Também já tivemos ocasião de examinar o percurso que vai do exterior para o
interior; consideremos, agora, o percurso contrário, isto é, o que caminha de
dentro para fora. Neste caso, o trajeto por nós já considerado em sua posição
normal, se inverte, assume posição inversa e passa a percorrer, nesta ordem, os
seguintes pontos: espírito, cérebro, nervo óptico, retina. Aí, a fonte da
corrente dinâmica não se situa mais no ambiente material externo, mas sim no
ambiente espiritual interno; não emana do objeto, mas do sujeito. O processo
se inverte totalmente e as transformações não se realizam no sentido da
desmaterialização, e sim no da materialização. A corrente que provém do
espírito é, em princípio, radiante e o cérebro não é mais aparelho transmissor,
mas apenas receptor, exatamente como se fosse um aparelho de rádio, ou de televisão,
que capta essa energia radiante para que, em seguida, percorrendo a rede
nervosa, possa, através do nervo óptico, atingir a retina. Desse modo, a
imagem, passando através de vários órgãos transformadores, pode chegar ao
mundo material e assumir-lhe as características. Portanto, os dois mundos, o do
espírito e o da matéria, o imponderável e o tangível, se comunicam; ao
primeiro chega, como representação imaterial, o equivalente da forma material;
ao segundo chega, como representação material, o equivalente da forma imaterial.
Assim, através de uma série de trocas, o conteúdo de cada um dos mundos se
derrama no outro, no qual, embora transformado, o encontramos sempre.
A estrutura desses dois mundos
contíguos e comunicantes não é idêntica. De um lado, temos um meio
sensório-analítico; de outro, uma forma sintético-unitária. De um lado, o
cérebro se ramifica por todo o corpo, através da rede nervosa, como se o
quisesse polvilhar de células nervosas sensitivas para captar todas as
vibrações do ambiente; de um lado, temos os canais especializados das vias
sensoriais, a captação analítica, particular, definida, concreta, enquadrada
nas dimensões do espaço e do tempo, canalizada e dirigida para vias cada vez
mais centrais. De outro lado, o espírito sintetiza e unifica no eu todas as
sensações; os canais cedem o lugar a livres radiações - sem-fio; a captação
torna-se sintética, geral, imaterial, em dimensões super-espaciais e
super-temporais, tendo como resultado final, elaborado e destilado ao longo do
trajeto, da recepção sensória analítica do plano material. A vibração pode
percorrer a estrada nos dois sentidos, com resultados diametralmente opostos.
Naturalmente, percorre a via fisiológica comum, que transmite ao espírito os
estímulos do ambiente. A outra via é menos conhecida, menos comum, mas existe.
Quando a vibração percorre o caminho em sentido inverso, transmite ao ambiente
os estímulos do espírito e nasce de movimentos da alma que todos nós conhecemos
muito bem pois, embora não possamos vê-los, sentimo-los profundamente. Se,
porém, a inversão do circuito sensório é excepcional, todas as nossas
manifestações vitais não provêm do interior? E em que consiste nossa vida
senão em contínua manifestação de nosso espírito? Ao lado de cada uma de nossas
atividades exteriores existe a correspondente atividade interior que a dirige
e guia, lhe condiciona de modo absoluto a atividade. Assim, ao lado de cada ação
nossa existe a correspondente reação interior; o movimento exterior penetra na
parte de dentro, imprimindo-lhe e gravando nela as suas características, assim
como o movimento interno passa para o lado de fora, manifestando-se em
infinidade de expressões.
Voltemos, porém,
ao caso particular do fenômeno óptico e observemo-lhe como funciona em sentido
inverso. A vibração originária constitui, desta vez, um estado do espirito, um
fenômeno do imponderável. O primeiro trecho do percurso não se faz através de
condutores, mas funciona por via radiante. Desse modo é que são atingidas as
células cerebrais, nada mais nada menos do que aparelhos rádio-receptores.
Aqui as radiações, além de serem captadas, se transformam ao primeiro contato
com a realidade concreta, isto é, revestem-se de imagens, assumem o aspecto de
representação do mundo material. O abstrato dramatiza-se, o genérico
especifica-se, exemplificando-se como um de seus casos particulares, pois,
enquanto o período inverso representa processo de espiritualização, este
representa processo de materialização. Do cérebro até à retina a vibração se
define e concretiza ainda mais, até chegar à sua forma óptica, que corresponde
à forma física; assim se chega à formação da verdadeira imagem na retina. O olho
realmente registra projeção que não provém do exterior, mas do interior,
embora com idênticos resultados visuais. Tendo a corrente percorrido o percurso
todo, de um pólo a outro, o período, não importa se positivo ou negativo nem em
que direção se desenvolve, está completo e o sujeito sente sensação semelhante
à normal, de modo que ele acredita estar vendo no espaço, sob forma concreta e
vinda do ambiente exterior, aquilo que não passa da projeção materializada de
uma forma imaterial, impossível de encontrar naquele ambiente. Tudo isso é
levado à conta de alucinação, isto é, algo de irreal, produto de estados
patológicos; no entanto, nada se tira à normalidade do fenômeno, à sua
qualidade de fato natural e à veracidade da sensação que, em lugar de constituir
expressão do mundo exterior, como acontece nos casos mais comuns, é tão-somente
expressão do mundo interior. Assim, nas visões a imagem efetivamente se forma
na retina (como no caso de Bernadette de Lourdes), do mesmo modo que, em
relação às vozes (caso, por exemplo,
de Joana D'Arc), a vibração acústica se forma no ouvido, a mesma coisa se diga
quanto aos outros sentidos. A única diferença consiste em que não vem de fora a
excitação, mas de dentro, o que, aliás, pode-se compreender facilmente porque
ambos os mundos estão repletos de energias em plena atividade. Como o mundo
interior não é, como o mundo exterior, igual para todos, visto que são muito
diferentes as capacidades espirituais e o grau evolutivo, explica-se desse
modo por que, nesses casos, a sensação visual, auditiva etc., é absolutamente
pessoal e incomunicável, isto é, seja capaz de captá-la apenas o sujeito que
se encontre em condições adequadas. Desse fato deriva a desconfiança que ele
provoca, e a pecha de patológico que
gratuitamente lhe atiram.
Tudo isso pode
completar as observações do volume As
Noúres, estudo critico da técnica receptiva com que se escreveu A Grande Síntese. Agora podemos
explicar melhor o fenômeno da inspiração. Trata-se da captação de noúres ou
correntes de pensamento que emanam de centros espirituais e ficam vibrando no
espaço. Ainda neste caso, o fenômeno se dá por via radiante; mas o receptor
não é mais o cérebro, mas o espírito do indivíduo que recebe e, exatamente
para pôr-se em condições de captar essas correntes, deve antes de mais nada
colocar-se em estado de vibração harmônica ou sintonização. O mesmo fenômeno
pode dar-se entre os espíritos de dois ou mais homens vivos; ao invés de se
comunicarem pelo meio mais demorado, projetando o pensamento através do
cérebro, nervos, órgãos vocais, da palavra inclusive, preferem transmitir e
receber diretamente por via radiante, muito mais rápida (telepatia). Assim, o
impulso psíquico pode partir de outros eu, não importa de encarnados ou
desencarnados. Nessa primeira fase, o pensamento está em estado radiante puro.
Assim determinada, por causas próprias ou alheias, a vibração que se faz sentir
num espírito, deste centro e da maneira já explicada, se transmite ela ao
cérebro e aos outros órgãos sensitivos. Nem todas as percepções, porém,
especialmente as de ordem superior, devem percorrer, para serem sentidas, todo
o período de retorno até chegar ao órgão sensório; pelo contrário, podem
deter-se nos primeiros estágios da transformação, se se mostrarem suficientes.
No caso de tratar-se de conceitos, basta, para serem percebidos, que o cérebro
os capte; especialmente quanto aos intelectuais, torna-se desnecessário, em
absoluto, que entrem em jogo as vias sensoriais. Assim, na captação noúrica, o
pensamento desce do mundo espiritual, onde se encontram tanto a fonte
transmissora como o eu receptor, que primeiro funciona como antena e, depois,
como transformador, isto é, canal em que se realiza o processo de
materialização da idéia, processo diametralmente oposto ao normal, que consiste
na espiritualização da percepção sensitiva. O primeiro desses fenômenos
encontramo-lo na fé, na arte, na intuição, na inspiração, nas revelações.
O cérebro,
portanto, é órgão bipolar e diafragma central que, suspenso entre duas vidas,
pode ser percutido pelas duas opostas aparências da realidade. Observemos mais
um pouco. De acordo com a capacidade do ser, as correntes podem mover-se numa
ou noutra direção. Geralmente, por serem os indivíduos mais desenvolvidos
física do que espiritualmente, a vibração vai da matéria ao espírito. Excepcionalmente,
porém, as correntes podem movimentar-se ao ponto de provocar em sentido inverso
a projeção sensorial, quando o indivíduo é espiritualmente forte e, em
compensação, fisicamente fraco. Esse fato, aliás, já foi por nós devidamente
frisado. Para inverter a direção da corrente, torna-se necessário que também
seja inversa a potência dos dois termos extremos. O gênio, o artista, o santo,
na qualidade de seres inspirados, são espiritualmente fortes e nisso
superiores à média; pertencem ao tipo evoluído. Na vida vegetativa do
involuído, não é possível nem concebível essa reversão de sensibilidade. O
indivíduo normal geralmente conhece e vive apenas a primeira metade do
fenômeno, pois é limitado, atrófico e, por isso, funciona muito mal no que diz
respeito ao espírito. Os tipos desenvolvidos, porém, conseguem perceber em
ambas as direções e tomar consciência não só da vida material projetada no
espírito, mas também da íntima vida espiritual, percebida como projeção sensorial.
Podem, desse modo, viver não apenas uma vida, a vida vegetativa, que é a mais
comum, mas duas vidas, a vida normal e concreta da matéria e a vida do
espírito, feita de imponderáveis e inversa. Esse é outro mundo, imenso como o
mundo físico; no entanto, muita gente não o vê, não o compreende, não lhe
admite a existência. E realidade negada por muitos. Por aí se vê que abismo de
incompreensão divide os seres diversamente desenvolvidos. Muitas das coisas
aqui narradas se referem exatamente a essa vida para tantos inacessível; dos
conceitos aqui registrados muitos baixaram, nas asas da inspiração, do mundo
íntimo do espírito, isto é, graças a inversão do sentido normal da corrente
vibratória. A "Visão", narrada em dois dos capítulos precedentes
deste volume, formou-se opticamente na retina, mas de olhos fechados, graças à
projeção interior, com a mesma sensação causada pela visão óptica normal. Estas
páginas constituem viva aplicação dos princípios já expostos; são estas
afirmações nada mais nada menos que resultado experimental.
Cada uma das duas vias, consideradas de
per si, representa a metade da dupla vida total. A verdadeira vida completa é
binômio bipolar e bifronte. Eis nova aplicação da universal lei de dualidade. E
até mesmo neste caso o binômio se equilibra em dois termos inversos e
complementares. Observemos mais ainda. Temos espírito e corpo, o imponderável
e a matéria, consciência e fenômeno, o eu e o ambiente, a vida interior e a
exterior, contemplativa e ativa, a percepção espiritual e a percepção
fisiológica, a impressão subjetiva proveniente do mundo interior e a impressão
objetiva proveniente do mundo exterior. O primeiro termo eletricamente
positivo; o segundo, negativo; o primeiro é em ondas curtas; o segundo, em
ondas longas; um é de alta; o outro, de baixa freqüência; e, na passagem de um
a outro extremo e ao contrário, deve dar-se mudança de sinal, de comprimento de
onda e de freqüência (muito mais notável que a simples normalização das imagens
ópticas). Entramos ao nascer, no segundo tipo de vida e dele saímos ao morrer;
ao morrer, entramos no primeiro e dele saímos ao nascer. A própria lógica da
arquitetura do universo impõe esses equilíbrios todos. A verdadeira vida,
completa e íntegra, oscila continuamente de um a outro de seus pólos. Só assim,
percorrendo alternativamente uma e outra metade, o ser incompleto pode viver a
vida integral. O tipo comum está na terra do lado que parece vida, mas é morte,
se visto do lado oposto. Para os do além, ele parece indivíduo entorpecido, à
mercê da ilusão dos sentidos. O evoluído não sabe viver apenas a vida dos
vivos, mas vive também a vida dos mortos. De um lado é dia; do outro, noite; de
um lado, luz; do outro, trevas. Tudo conforme, é claro, com a posição em que
nos encontramos. Na terra, para os vivos a via direta e normal da percepção é a
fisiológica; a inversa e excepcional é a via espiritual. Para os mortos ou,
melhor, para os vivos de além-túmulo, a via direta e normal da percepção é a
espiritual; a via inversa e excepcional é a via fisiológica. Entre as duas
formas de sensibilidade existe a mesma relação que entre vigília e sono; a
primeira caracteriza-se por percepção límpida e exata; a segunda oferece-nos
percepção vaga, sonambúlica. Quando o estado ativo se manifesta num lado da
vida, as qualidades do lado oposto permanecem latentes, em estado de espera e
em repouso Assim, funcionando cada uma por sua vez desenvolvem-se graças a essa
atividade alternada, enquanto a outra parte, a antítese do binômio, permanece
por sua vez à espera. Essa oscilação entre atividade e repouso, entre ausência
e presença, entre vida e morte, constituí o ritmo do fenômeno vida, em relação
a cujos ritmos se fazem as harmonias universais. O fenômeno vida não pode
constituir exceção dessa lei de simetria, de justiça compensadora. Em nosso
universo, tal como está construído, não passa de absurda qualquer posição de
desequilíbrio, não compensada pelo correspondente impulso contrário. Uma única
exceção faria desabar todo o edifício.
A percepção inversa, espiritual, pode
dar-nos idéia do tipo de sensações dominantes do além-túmulo. Além disso, se
aparecem também neste mundo e, portanto, existem como fato objetivo e
experimental (clarividência, inspiração, visões, profecia), é-nos lícito
perguntar para que servem, tendo em vista as finalidades biológicas, as
qualidades super-normais. E não nos esqueçamos de que, na natureza, todas as
coisas existentes, pelo simples fato de existirem devem ter objetivo
determinado. Trata-se de qualidades que esperam sua vez de entrar em atividade;
estão adormecidas agora, mas viverão na outra vida, que chamamos morte. Por
isso, enquanto a sensação terrena resulta da vibração específica de uma série
de células enfileiradas à maneira de canais condutores, no além-túmulo a
sensação é causada por um estado vibratório sutil (de ondas curtas e alta
freqüência), que, todavia, abrange todo ser imaterial. Teremos sensações de
grande extensão e alcance, se comparadas com as sensações limitadas, mas
precisas, da vida terrena; no entanto, para nós que estamos chumbados às vias
limitadas dos sentidos, pareceriam evanescentes, imateriais, indefinidas,
flutuantes e sonambúlicas. A sensibilidade do desencarnado é difusa, não
possui órgãos específicos aptos a captar vibrações particulares e definidas;
sensibilidade, para nós estranha e fantástica, como que adormecida, em transe,
sensibilidade de conjunto e não de minúcias como a nossa, mais sintética que
analítica. Assistimos neste caso a uma espécie de vaporização da sensibilidade
(entendida de acordo com o sentido terreno), que em compensação aumenta de
intensidade relativamente às qualidades opostas àquelas qualidades materiais em
que se lhe torna maior a debilidade, isto é, como generalização e abstração.
Assim, a verdadeira solução dos problemas reside mais na intuição do que na
razão, a centelha reveladora brilha no espírito intuitivo e não no cérebro
raciocinante, que não cria, mas apenas explica e aplica. Da parte do corpo
temos o espaço e o tempo, quer dizer o limite. Da parte do espírito, o infinito
e a eternidade. A extinção dos limites importa na ubiqüidade e na presciência
do futuro. O eu espiritual vê longe,
vê o conjunto, é bem orientado, sábio, olimpicamente calmo. O eu vegetativo está encerrado no espaço
e no tempo, isto é, na prisão do limite, está sujeito a fatigante corrida
para superá-lo, anseia pela evasão, é analítico e desorientado, vive e percebe
apenas as particularidades, entre coisas insignificantes e transitórias. O mundo
de além-túmulo é o dos valores morais; o mundo de aquém-túmúlo é o dos valores
materiais, da luta, do trabalho, da riqueza. O senso moral emana do espírito.
Tudo isso naturalmente presume adequado desenvolvimento até mesmo em relação ao
lado, espiritual, da vida; sem ele não podemos alimentar a esperança de
encontrar as qualidades que lhe são inerentes. Do lado de lá, atividade
especulativa e abstrata; deste atividade utilitária e concreta. Duas formas de
vida, duas linguagens completamente diferentes: contemplação e ação. Todo mundo
tem virtudes e qualidades próprias e uma escala de valores exclusiva. No topo
da escala de valores terrestres coloca-se o interesse egoísta; no da escala de
valores espirituais estão a bondade e a justiça. O Evangelho, o reino dos céus
pertencem ao mundo do lado de lá; são luzes que dele promanam, revelando-no-lo.
Cada um de nós imagina o paraíso a seu modo e luta para conquistá-lo, ou do
lado de cá ou do lado de lá. Quem hoje goza na terra amanhã sofrerá na outra
vida; quem hoje sofre no mundo, amanhã gozará no céu. O Sermão da Montanha,
quando diz "Bem-aventurados os que sofrem; amanhã gozarão", exprime
a lei de dualismo e equilíbrio e mostra uma das aplicações de sua lógica e
justiça supremas. Quem executa bem suas tarefas neste mundo, executa mal suas
tarefas do lado de lá e ao contrário. Os valores se invertem. Assim a sublime
loucura da nobreza se explica como condição necessária de grande riqueza
espiritual.
A qualidade do espírito é a
sensibilidade e todo espiritual é um sensitivo. O evoluído é o tipo biológico
que conhece essa outra vida também e os seus valores. Tudo isso o involuído
ignora. Aquele tipo biológico é o canal por onde estes valores descem na terra
e fator da fecundação espiritual da matéria. A tarefa do artista consiste em
plasmar a forma que nos revele o imponderável, representando-o a nossos olhos;
deve, pois, inspirar-se em valores eternos; se, no entanto, vai buscar
inspiração a coisas rasteiras, representando os valores terrenos, o artista
trai e deixa de cumprir a própria missão. Dos equilíbrios da vida participam
também as atividades supranormais, que outra coisa não representam senão
legítima função biológica. Por aí se vê que a sociedade humana precisa também
do artista, do inspirado, do gênio, do santo; embora quase sempre
incompreendidos e maltratados são indispensáveis, cabe-lhes a tarefa de, enfrentando
sozinho todo risco e canseira, mergulhar nos abismos do mistério,
apoderar-se-lhe dos valores e trazê-los até ao plano humano, a fim de
dinamizá-lo, orientá-lo, dirigi-lo. A matéria não é auto-suficiente, sabe viver
e progredir apenas se animada pela divina centelha do espírito. Aqueles seres,
ainda raros, representam na sociedade as células especializadas na função
evolutiva. O involuído mostra-se incapaz de progredir sozinho e fortalecer-se;
por isso, necessita dessas antenas reveladoras e desses canais dinâmicos. Os
sábios equilíbrios da Lei suprem-lhe essa incapacidade, fornecendo-lhe esses
apoios. Ele, então, crê. Quem se revela incapaz de por si mesmo ver é
constrangido a acreditar piamente em quem vê por ele. Quem não sabe, à custa
dos próprios meios, subir o áspero caminho espiritual se vê obrigado a
apoiar-se em quem o sabe e a depositar confiança em quem, tendo visto, dá
testemunho de tudo quanto viu. Por isso, quem sabe assume o compromisso de
testemunhar a verdade; se cala, trai sua função biológica de célula evolutiva,
mesmo que proclamar a verdade possa às vezes levar ao martírio. Na divisão do
trabalho da vida a parte que lhe toca é essa. Se não puder oferecer a todos a
prova direta do que, por transcender as capacidades e experiência comuns, se
mostra inconcebível, sua vida de evoluído, orientada de modo bem diverso, deve
ser tão sublime que constitua prova bastante. Desce, desse modo, até nós a
evanescente realidade do espírito, que, embora lhe constitua a própria alma,
nossa vida concreta sempre nega; a estranha e longínqua realidade que
gostaríamos de esquecer e, no entanto, estamos continuamente seguindo, invocando-a
nas preces, representando-a nos ritos, materializando-a nas criações
artísticas. A humanidade concorda de tal modo com a existência do invisível
que, com fundamento nesse acordo, se tornou. possível o aparecimento das
religiões. Se estas existem, possuem tanta importância histórica e social e
exercem poderosa influência na vida dos povos, daí se conclui que elas
satisfazem uma necessidade, um instinto e, por isso, desempenham uma função. De
fato, na natureza todo apelo que exige resposta possui significado bem
determinado. Normalmente, somos incapazes de, sozinhos, chegar até ao espírito;
não o vemos, embora nos chame e nos atraia; foge-nos e, no entanto, está entre
nós; comove-nos e nutre-nos; a realidade quotidiana, colocada bem no outro extremo
da vida, nega-o, embora lhe presuma a existência. Assim, através dessa via
sensorial inversa por nós examinada, o espírito desce até nós e se comunica
conosco. Eis o que acontece quando o crucifixo de S. Damiano fala a S.
Francisco, Joana D'Arc ouve as vozes de Donremy, Teresa Neumann vê a paixão de
Cristo, a beata Angela de Foligno escreve movida por inspiração, S. João vê na
Ilha de Patmos o drama do Apocalipse. Tanto na visão como na audição
super-normais a percepção vem do mundo interior e não do mundo externo. Isso
levou muita gente a acreditar se tratasse de tipos de alucinações, patológicas
apenas porque anormais, de projeções subjetivas e, só por isso, irreais. No
entanto, a subjetividade constitui-lhe exatamente a característica lógica e natural.
A sensação se origina de vibração que não provém do mundo exterior, mas do
mundo interno, não deriva de fonte objetiva dotada de existência própria,
independentemente do sujeito, per se
stante, em si mesma igual para todos, embora ainda neste caso o modo de
percebê-la não seja o mesmo para todos. Assim se explica e justifica a
subjetividade da percepção, isto é, por que a luz e o som apenas possam ser
percebidos pelo sujeito. Os homens normais não percebem coisíssima alguma.
Embora presentes, não vêem nem ouvem. Para que tivessem idêntica sensação,
igual capacidade de ver e ouvir, deveriam encontrar-se nas mesmas condições,
particulares e excepcionais, do sujeito. Como isso se torna muito difícil, não
lhes resta senão tentar reconstruir, deduzindo-a do estado do sujeito, essa
fugacíssima realidade íntima. Quando a ciência estuda esses fenômenos, o germe
da incompreensão já se encontra nas suas premissas, isto é, na dúvida, no seu
método de investigação, quer dizer, na experimentação objetiva, e na sua
atitude sensória, cerebral e racional. Mas, no êxtase como na prece, não nos
armamos de instrumentos de análise, de aparelhos de laboratório, para aumentar
nossa capacidade de observação, mas abandonamo-nos inteiramente à visão
introspectiva, fechamos os olhos e concentramo-nos, olhamos para dentro de nós
mesmos, do lado do espírito, isto é, exatamente na direção contrária à seguida
pela ciência. O antagonismo entre ciência e fé (embora não se apoie em razão
substancial, visto como constituem ambos apenas os dois extremos opostos da
verdade e dois aspectos da realidade) nasceu precisamente do fato de que a fé
diz respeito ao mundo interior, ao espírito, e a ciência se refere ao mundo
externo, à matéria. Todas essas afirmações nossas parecem fantasia aos olhos da
ciência justamente porque não resultam da observação, e sim da introspecção,
exames orientados para direções diametralmente opostas. A realidade do
positivismo científico constitui uma das metades da realidade completa. A outra
é a dos artistas, poetas, santos, pensadores, místicos, inspirados, é a de
todos os homens do espírito
XXVII
A PERSONALIDADE HUMANA (1ª PARTE)
Agora que percorremos
caminho tão comprido podemos finalmente enfrentar o problema da personalidade
humana. Mas, antes de mais nada, observemos mais uma vez os problemas
precedentes. O estudo da lei de dualidade conduziu-nos a visão da vida total e
completa, mais ampla que a unilateral vida física. Nada mais lógico que, como
todas as individualidades, também essa unidade da vida se divida em metades
justapostas. A vida completa, como um pêndulo a oscilar continuamente, vai de
um a outro de seus extremos e percorrendo esse caminho oscilante, evolui, não
como vulgarmente se pensa, isto é, através de simples evolução biológica
terrestre, mas sim através de evolução dupla, inversa e complementar, a
material terrena e a espiritual ultra-terrena, a do corpo e a do espírito. Uma
vez que tudo é bipolar, é lógico que também o homem deva passar por duas
experiências opostas, a da vida ativa e da vida contemplativa. Para conceber a
existência no além-túmulo, basta-nos imaginá-la como o inverso da existência
terrena. Dissemos que a psique apenas contém os resultados conseqüentes das
experiências possíveis no ambiente que a cerca, isto é, não pode ser
impressionada senão por elementos oriundos do mundo exterior. Essa crença, se
podemos explicá-la como resultante da concepção comum que se faz da vida ou,
seja, da meia-vida e não da vida completa, todavia não corresponde à realidade.
Quem possui a vida terrena e a vida espiritual sabe muito bem que a psique
contém, em quantidade e variedade, muito mais do que o ambiente externo pode
oferecer e que grande parte de nossos conhecimentos podem, por vias interiores,
provir de outras realidades. Os sonhos, a intuição, a inspiração
proporcionam-nos sensações e resultados diferentes dos sensoriais, filhos da
experiência terrena, oferecem-nos concepções diversas das comuns concepções
racionais, demonstrando conhecimentos que a terra não pode dar. A
sensibilidade do evoluído fica na fronteira de dois mundos e sua psique se
enriquece com as experiências nascidas de duas realidades diversas. Muitas
vezes o mundo interior lhe oferece muito mais do que o mundo externo. Mas, seja
quem for o indivíduo, por mais rudimentar e inerte que se mostre seu espírito,
a percepção interior sempre dá sinal de si, embora fraco; não existe quem, em
algum momento da vida, não a tenha experimentado, mesmo embrionariamente. Quem
viveu o fenômeno inspiração sabe como é lábil e pronto a evanescer-se qualquer
conceito espiritual, cuja radiação ainda não alcançou o cérebro e como só então
o sujeito adquire consciência desse conceito e se torna senhor dele. Sabe como
a solução dos problemas percorre vias absolutamente independentes dos processos
lógicos e racionais e como o relâmpago, que ilumina uma zona de pensamento, de
improviso o apreende. Poincaré, no seu livro Invention Mathématique
registra nestes termos o fato: "O que nos fere a atenção desde logo são as
aparências de súbita iluminação, reveladoras de longo e prévio trabalho
anterior". O autor observa, à custa de experiência própria, que nesses
casos o pensamento se caracteriza pela rapidez, subitaneidade e certeza
imediata. Quando menos se espera, apresenta-se à nossa mente a solução de
problemas já de há muito propostos. Poderíamos citar inúmeros trabalhadores
intelectuais, como, por exemplo, Goethe, para quem a criação artística não
passava de revelação. Isso nos mostra como grande parte de nós mesmos opera
fora do campo da consciência lúcida, onde se manifestam apenas os resultados de
numerosos processos de elaboração e maturação. Nesses casos como influem pouco
nossa vontade e nosso esforço! Nossos conceitos podem ficar adormecidos dentro
de nós, bem recalcados e invisíveis nos planos mais profundos da consciência.
Não obstante, desenvolvem-se e se aperfeiçoam, como se, aí nessas profundidades,
reencontrassem a ordem divina, e se fortalecessem graças à retomada de contato
com a essência e as origens das coisas. Mais cedo ou mais tarde, porém, uma
vibração afim os desperta e por sintonia (as outras vibrações não o conseguem)
os faz reaparecerem, como um relâmpago, no campo da consciência. Percebe-se
facilmente que se trata de criação pura e simples; constitui conquista de
espírito, que exulta por desse modo aproximar-se de Deus. A meditação prepara
o fenômeno, coloca a matéria-prima no abismo do espírito, propõe o problema e
lança a interrogação. Silêncio. A mente debate-se no redemoinho do pensamento,
não consegue escapar-lhe, logo se cansa e esquece. Mas pôs em liberdade uma
força que continuará agindo. Onde? Como? Esquecemo-la, chegamos quase a
ignorá-la. E eis que de repente ressurge, transformada, fortalecida, luminosa.
E antes se nos mostrava obscura e cansada! A alma, então, grita, como
Arquimedes pelas ruas de Siracusa: "Eureka, eureka". Quem viveu o
fenômeno inspiração sabe que a concepção mais profunda corresponde a uma
posição psiquicamente inerte, de desatenção passiva, de distração relativamente
ao assunto ou, mais exatamente, num estado de inexistência do pensamento ativo
normal; sabe que, quanto mais rápido e percuciente for do ponto de vista
sensorial, quanto mais, em relação à vontade, tende para a pesquisa e a
observação, tanto mais esse pensamento serve de obstáculo à intuição. Sabe
também, por experiência, que toda atividade reflexa de atenção e controle, toda
tentativa consciente no sentido de passar do estado passivo de contemplação ao
estado ativo de apreensão (recordação, controle, raciocínio, escrita etc.),
destrói a miragem e faz as idéias se desvanecerem.
Isso tudo nos mostra
esta grande verdade: a criação inspirada constitui fenômeno de colaboração
entre o homem e Deus, isto é, a construção, como se poderia crer, não resulta apenas
da vontade e da ação, mas também no cumprimento da Lei, na obediência a Deus, a
quem devemos entregar-nos sem reservas. Mostra-nos também que a finalidade
criadora se atinge ativa e passivamente, não só se impondo às sábias forcas
vitais, mas também deixando-se arrastar por elas. A sabedoria egípcia resumiu
num aforisma esse conceito: "o arqueiro atira ao alvo, esticando e
soltando o arco; o nadador chega à praia, nadando e ao mesmo tempo deixando-se
levar pelas ondas". Em conseqüência da lei universal de dualidade, também
esse fenômeno resulta do equilíbrio de duas partes inversas e complementares.
Portanto, queremos e fazemos tudo quanto for necessário; somos, porém, tão ignorantes,
limitados e imperfeitos que necessitamos de ser guiados por uma sabedoria que
nos supra a ignorância e por uma força capaz de trabalhar onde a nossa não o
consiga mais. E além de nossas possibilidades está a Lei que satura a corrente
das coisas com o pensamento de Deus e plena de natural sabedoria. Assim, parte
de nossa melhor atividade pode consistir em obedecer à vontade de Deus. Assim,
depois que fizemos nossa parte do trabalho, nossa obrigação cessa e convém
abandonarmo-nos à Providência. Por isso o mundo consegue, em caótico estado de
inconsciência, falar sobre assuntos de que não entende absolutamente nada. Do
ponto de vista racional isso se chama inconsciência, pois o homem não prepara
e, além do mais, ignora o seu futuro. Mas, do ponto de vista da intuição, no
instinto em que a Lei se faz ouvir, essa atitude representa, em essência,
maravilhosa fé na sua sabedoria e na proteção divina. E a vida, que se sabe
protegida, vai progredindo. Apenas desse modo se justifica o fato de querermos
continuar a viver e a reproduzir-nos para irmos ao encontro de futuro pleno de
espantosas incógnitas, embora saibamos que a vida nos oferece apenas canseira
e dor.
A intuição constitui
fenômeno espiritual e, por isso, revela e cria. A razão, ao contrário, é
função cerebral e, pois, mais do que à concepção de grandes idéias reveladoras,
orientadoras e sintéticas, se destina às pequenas idéias da vida terrestre,
práticas e analíticas. Algumas aplicações. A ciência moderna tem desvantagem
em ignorar a vida do espírito e não dispensar-lhe cuidado algum. Esta ciência,
porém, é filha de fase materialista do pensamento humano, quer dizer, racional,
em antítese com a fase intuitiva; limita-se, em conseqüência, ao lado
terrestre, prático, utilitário e material da vida. Pelo menos, enquanto essa
fase não for superada, a ciência moderna não pode conhecer-lhe senão a referida
parte. Enquanto isso, permanece na zona constituída de experimentos, análises,
afastada da que se constitui de intuições e sínteses. Isso a torna incompleta,
mutilada pela orientação, pela visão de conjunto necessárias para dirigir as
pesquisas e chegar a uma conclusão. De fato, a ciência moderna tem finalidades
utilitárias e não sabe pô-las de lado. Essa unilateralidade representa lacuna e
defeito graves. Mas também a síntese é necessária, mas a síntese não se consegue
senão através da intuição, isto é, trabalhando no pólo oposto ao em que
trabalha a ciência ou, seja, no pólo espiritual. Ativa ao lado material, a
ciência acumula conhecimentos, porém não fecunda. Falta-lhe a centelha do
espírito. É necessário, sem dúvida, acumular conhecimentos materiais; mas é
necessário também, como acontece no binômio sexual, que mais tarde o outro
termo intervenha e os fecunde. Se isso não se der, coisa alguma pode nascer.
Quem afirma ser verdadeiro apenas o que possa ser demonstrado experimentalmente
não exprime senão parte da verdade e ignora a outra metade, que afirma serem
fruto de inspiração, fruto mais do espírito que experimental, de laboratório,
todas aquelas verdades fautoras do progresso científico. Como conseqüência das
observações até aqui feitas assinalamos, para o bem da ciência, o perigo
constituído pela exasperação analítica de nossos dias, limitados a acumular
experiências ao invés de se estenderem à descoberta de relações remotas, o
perigo da especialização divergente devida ao predomínio desse método
analítico. Se não ocorrer mudança de direção, que inteligentemente nos
impulsione para direção convergente e conclusiva, esse caminho nos conduzirá à
pulverização da consciência. Membros não nos faltam; o que nos falta é
cabeça. Os fatos acumularam-se demais; falta-lhes o senso unitário da
coordenação. Há cento e poucos anos Augusto Comte escrevia em seu curso de
Filosofia Positiva, anunciando o advento do período atual: "O presente
período é a idade de especialização, graças a universal preponderância do
particular sobre o espírito de conjunto". A observação muito minuciosa nos
tornou míopes. G. B. Shaw chega a dizer: "Ninguém pode ser puro especialista
sem ser perfeito idiota, no mais rigoroso sentido do termo". Leonardi na
introdução de seu livro A Unidade da Natureza (1933), acrescenta: "Seria
necessária uma classe de cientistas que, sem entregar-se inteiramente à cultura
especializada, se ocupasse unicamente da determinação do espírito das diversas
ciências, descobrindo-lhes o nexo, a fim de determinar-lhes os princípios
comuns". Henri Poincaré, no seu livro A Hipótese e a Ciência, afirma
que "também as ciências, inclusive as mais exatas, necessitam de certa inspiração
e devem seus progressos ao fatigante trabalho das faculdades
subconscientes". Em seguida acrescenta: "É quase infinito o número
de fenômenos; por isso, não podemos submetê-los todos a experiências".
"A menos que não se queira conseguir simples acumulação de fatos...
pois a experimentação nos dá apenas certo número de pontos isolados, torna-se
necessário ligá-los". Não basta, portanto, que a observação registre e
a experiência controle; não caminhamos de modo algum senão à luz da intuição.
Esta, naturalmente, deve submeter-se ao controle da experimentação, que,
sozinha, jamais abandona os atalhos experimentais para percorrer a estrada real
do conhecimento. Ao lado das pequeninas experiências particulares, espalhadas
pelo infinito mundo fenomênico, é necessária também a experiência unitária do ego,
único a quem se torna possível aproximar-se do pensamento divino. Para
subirmos pelos caminhos do espírito,
necessitamos de uma atitude de fé e de prece. Os caminhos da dúvida e do
controle sensório nos levam para o lado da matéria, para a periferia,
afastando-nos cada vez mais do centro. Os primitivos, que em lugar de senso de
análise, como nós, possuíam senso de síntese, enfrentavam de modo diferente o
mesmo enigma que nos assoberba. Enquanto enfrentamos o mistério, como a um
verdadeiro inimigo, armados de todos os recursos e todas as astúcias, para
derrotá-lo, dominá-lo e submetê-lo a nós, os antigos se aproximavam dele com
palavras sagradas e solenes que suscitavam no coração dos homens o silêncio e a
veneração. Hoje em dia, porém, não queremos tanto contemplar, compreender e
harmonizar-nos como intervir na natureza, operar, influindo nos ritmos da vida
para submetê-los ao nosso desejo. Este mais parece um assalto à Divindade.
Nossa época tenta-o de novo. Semelhante experimentação se conduz por
tentativas, com movimentos completamente desorientados, na completa ignorância
das conseqüências e reações que possam desencadear. Isso é extremamente
perigoso em universo tão orgânico e interdependente, num campo de forças tão
sensíveis e equilibradas. Ninguém desconhece a importância da contribuição do
método positivo experimental. Afirmamos, isso sim, a necessidade de completá-la
com a contribuição oferecida pelo método intuitivo. Do mesmo modo que a vida, a
ciência é bipolar; e, assim como estivemos à procura da vida total e completa,
procuramos agora a ciência completa nos seus dois ramos: razão-análise e intuição-síntese.
A intuição não é considerada como caso excepcional e pouco apreciável, mas
elevada a verdadeiro sistema de pesquisa. Os resultados do objetivismo, que
vêm de baixo, deveriam fundir-se com os resultados do subjetivismo, vindos do
alto. Deveriam dividir entre si as duas fases do trabalho, uma consistente em
encontrar, a outra em analisar e demonstrar. Por que motivo, então, nos é tão
difícil encontrar na prática conceitos assim fáceis de compreender, tão lógicos
e persuasivos? A razão é esta: a intuição apenas pode ser exercida por tipo
biologicamente selecionado, isto é, pelo evoluído, de que há poucos exemplares
e esses mesmos acabam sendo, cedo ou tarde, eliminados pela sociedade na luta
pela vida.
A sede dessas fontes
particulares, a que agora lançamos um apelo, se encontra na personalidade
humana, imenso problema cujo resumo procuraremos fazer nestas últimas páginas,
a título de coroamento desta obra. Não poderíamos enfrentá-lo antes de
propormos a solução de tantos outros problemas até agora tratados, que lhe
servem de orientação e dos quais o problema da personalidade serve de fecho. Começamos
a falar da personalidade nos fins do capitulo XXVI. Mas era necessário
percorrer outro caminho e antepor outras demonstrações para que agora possamos
continuar elaborando a conclusão. Na parte final daquele capítulo, definimos
a lei de dualidade. Não pode fugir à lei universal o problema que agora nos
preocupa. Até mesmo essa individuação constitui, por isso, unidade dupla, isto
é, formada de metades inversas e complementares, em choque e em equilíbrio.
Também nesse caso nasce desse choque aquela elaboração intima que lhe constitui
a evolução. Vimos as características dos dois termos da unidade e agora
retomamos o contato com eles. Portanto, a personalidade humana é bipolar:
espírito e matéria, alma e corpo. Quer dizer: equilíbrio e desequilíbrio. Do
movimento das duas partes, que se entrechocam, nasce a elaboração evolutiva. As
duas partes são amigas e rivais, atraem-se e repelem-se, procuram-se e
evitam-se; estão ligadas uma a outra, para que assim possam viver, mas, apenas
uma delas se mostra mais fraca, a mais forte predomina e invade o campo da
outra. Dissemos que as raízes do psiquismo mergulham profundamente nos
meandros misteriosos da estrutura orgânica. Acrescentemos agora que as causas
e as razões da estrutura orgânica estão sediadas na parte mais elevada do
campo do psiquismo. O mistério do espírito estende-se até à intimidade da
célula, cuja complexa estrutura já estudamos. A vida palpita num e noutro pólo,
desde a inconfundível individualidade sintética e unitária à extrema
ramificação sensorial, à infinita multiplicação celular, à analítica
pulverização fenomênica ambiental. O eu é duplo, não fica no centro apenas,
mas também na periferia, ora analítico, para captar e absorver experiências,
ora sintético, para resumi-las e destilar-lhes as qualidades; no centro,
permanece idêntico a si mesmo, como eu inconfundível; na periferia, flutua em
meio a experiências mutáveis. A corrente move-se em duplo sentido: o mundo
interior nutre-se das vibrações provenientes do mundo exterior, mas acaba
dominando-o e plasmando-o à sua vontade. A atividade celular repercute na
atividade psíquica e ao contrário. O eu pode ser concebido como centro apenas
enquanto pudermos relacionar-lhe a idéia complementar de periferia. Assim, a
personalidade espiritual pode significar a síntese de inteligência celulares; e
o oceano dos microorganismos celulares, inclusive o átomo e seus elétrons,
representará o veículo dessa personalidade, como corpo, roupagem da alma. O
espírito, uma vez que é o centro, pertence a todos os pontos da periferia: é o
centro e, ao mesmo tempo, a periferia.
No homem se repete, em
ponto pequeno, o plano construtivo do universo; o microcosmo é feito à imagem
e semelhança do macrocosmo. A natureza obedece a esquemas únicos e simples,
repetidos em todos os estágios evolutivos, em todas as dimensões e presentes em
todas as complexidades, de maneira que, para dirigir e animar tudo, basta um
único princípio, método e dinamismo. As infinitas manifestações fenomênicas
obedecem a um só motor e a um só tipo diretivos. E isso de um extremo a outro,
dos mais complexos agregados às unidades mais elementares, (por exemplo: do
sistema solar ao átomo). Assim, todo fenômeno não passa, em substância, de uma
espécie do mesmo modelo; todas as formas se calcam no esquema originário de que
derivam os demais. Torna-se fácil, portanto, compreender a analogia entre todos
os fenômenos e justificar-lhes o parentesco. Daí a possibilidade de reduzi-los
a tipo único; assim se explicam as comparações, a que tantas vezes recorremos,
entre os fenômenos morais e físicos e a relação unitária dos campos mais
díspares. Como a personalidade humana, também o universo é bipolar e construído
segundo o mesmo princípio. A unidade máxima, ao invés de constituir-se exceção,
confirma a lei de dualidade. Essa bipolaridade é a estrutura interna do
monismo, que é dualístico. As observações, que até agora fizemos e culminaram
no estudo da personalidade humana, corroboram esse conceito e resultam nesta
conclusão. Os dois termos do binômio, embora extremos opostos e distintos do
fenômeno, estão indissoluvelmente unidos, funcionam conjugados, condicionam-se
reciprocamente, podem ser considerados como luz e sombra um do outro. São,
portanto, distintos e distinguíveis, Criador e criação, alma e corpo;
princípios diferentes, porém, pelo fato de serem complementares, de
funcionamento único, indivisível, reciprocamente condicionado e, portanto,
equilibrado, de modo que a queda de um termo importa na do outro. No esquema de
nosso universo, pelo menos tal qual se nos revela hoje, não tem sentido a
sobrevivência de um termo só. O equilíbrio de impulsos que o rege impõe não se
possam os dois termos separar sem ruína total. Isso não é simples hipótese ou
teoria filosófica, mas verificação objetiva do estado atual das coisas.
Portanto, o eu central, no universo e na personalidade humana, está presente
na intimidade até mesmo do último átomo de seu organismo físico; como já
dissemos, é ao mesmo tempo centro e periferia. Deus encontra-se no centro e em
toda parte. Como poderia, doutro modo, estar em toda parte? A causa está no
efeito e o efeito na causa. Transcendência e imanência constituem os dois pólos
do mesmo binômio. O hipersensível evoluído, que como S. Francisco sente e, por
isso, não pode negar essa presença de Deus em todas as coisas, não é panteísta.
E não constitui panteísmo afirmar que o binômio Deus-universo, o
espírito-matéria, é inseparável e igualmente relacionados em recíproco
funcionamento; não o constitui, também, dizer que os dois termos, embora
opostos, se acham tão impregnados um do outro ao ponto de qualquer um, deles,
presente e ativo, penetrar profundamente no campo do outro. Tal o significado,
em A Grande Síntese, de: "Monismo,
quer dizer, o conceito de um Deus que, ao mesmo tempo, é a criação" (Cap.
VI); "Em todas as suas manifestações, Deus é onipresente" (Cap. XI);
"Tudo deve reentrar na Divindade" (Cap. LXIII); "Não temais
diminuir-lhe a grandeza, dizendo que Deus é também o universo físico"
(idem). Esses conceitos vamos aprofundá-los e esclarecê-los mais no próximo
volume: Problemas do Futuro.
Voltemos ao
problema da personalidade humana. Já dissemos resultar a evolução biológica de
evolução dupla e inversa, a material, terrena, e a espiritual, ultra-terrena;
ela realiza-se através de duas experiências opostas, isto é, de vida ativa e de
vida contemplativa. Quem realiza esse trabalho? E como se divide ele? O
espírito, de sinal positivo, masculino, dinamiza e dirige a evolução. Preside
às experiências da vida. Emprega-as para elaborar-se e, por conseguinte, elaborar
também o seu corpo, aperfeiçoá-lo, desmaterializá-lo. O espírito evolui em
direção a planos cada vez mais elevados, arrastando-se atrás de seu veículo
material, quer dizer, utiliza corpos cada vez mais sutis, adaptados à sua fase
evolutiva e a formas relativas de vida. Compreende-se que, para poder fazer
experiências, o espírito sempre necessita de um corpo, na função de outro
extremo do binômio; para isso, não importa esteja o corpo desmaterializado ao
ponto de parecer incorpóreo. Ele sempre constitui veículo adequado, quanto à
finura e à sensibilidade, ao grau de evolução atingido pelo indivíduo, que,
graças ao seu peso especifico, se equilibra, escolhendo um ambiente onde as
provas sejam proporcionadas às qualidades adquiridas por ele.
O organismo corpóreo,
de ondas longas e baixa freqüência, segue, portanto, o espírito que caminha
para a evolução, isto é, aproxima-se, morrendo e ao mesmo tempo renascendo, do
extremo oposto, de ondas curtas e alta freqüência, transformando sua vibração
em vibrações deste último tipo; em uma palavra: espiritualiza-se. A corrente de
vibrações, que sobem das múltiplas experiências sensoriais e convergem para a
síntese espiritual, fornece as forças a elaborar; ao mesmo tempo, porém, uma
corrente paralela desce do espirito ao organismo, invade-o com tipos de
energia cada vez mais bem elaborada, quer dizer, de ondas cada vez mais curtas
e freqüência cada vez mais alta; desse modo, lentamente o potencial de toda a
personalidade se eleva de um extremo a outro, inclusive na parte física. Dessa
oscilação de atividade, conexão e repercussão de forças deriva a evolução. Embora
a evolução se opere graças ao princípio ativo, o negativo também colabora; não
fora ele, e faltaria ao primeiro a matéria a ser plasmada, a substância com que
construir. Observamos nesse caso a mesma divisão de trabalho existente entre
homem e mulher. O organismo físico coleta e acumula; o espírito dinâmico
elabora e progride. O primeiro engorda, preguiçoso e vegetativo, e se sacia
apenas satisfaz os instintos de conservação e de reprodução; o segundo gasta a
vida vegetativa na consecução de fins mais elevados, bate-se e atormenta-se na
ânsia de evoluir. Esse é o duplo aspecto da vida.
No entanto, esse
dualismo espírito-matéria não basta para esgotar o problema da personalidade.
Não é a única bipolaridade da vida essa antítese entre periferia e centro,
entre as correntes de ascese e descensão pelas quais se distribui, entre os
dois termos, o positivo e o negativo, a atividade evolutiva. A esta
bipolaridade, que poderíamos figurar como bipolaridade vertical em que, do
ponto de vista evolutivo, a matéria está em baixo e o espírito em cima, imaginaríamos
superposta uma bipolaridade horizontal em que o princípio biológico positivo,
derivado do núcleo do espermatozóide paterno, e o princípio biológico
negativo, derivado da célula-ovo materna, se situam à direita e à esquerda da
bipolaridade vertical. A consciência humana, portanto, é o ponto de
convergência da orquestra de vibrações provenientes dessas quatro grandes vias
determinadas pelo cruzamento dos dois binômios. Disso é que somos
constituídos, somos filhos e parentes, isto é, desse conjunto orgânico de
forças e correntes, quer dizer, de algo muito mais complexo e extenso que a
carne dos nossos pais, por mais que essa carne tenha vivido e traga inscrita em
si mesma a sua história. A personalidade humana abrange os dois binômios, isto
é, encerra em si quatro elementos que necessitam de fundir-se, embora lutem
para se destruírem, dois desequilíbrios de forças à procura de reequilíbrio,
isto é, duas fontes de movimento, de contraste, de sensação. Conforme concordem,
forte ou fracamente, deles derivará estado de maior ou menor entrosamento ou de
maior ou menor contraste e poder criador e, desde as notas graves até as mais
agudas, mais ou menos profunda e extensa gama de ressonâncias e riqueza de
sentimentos A personalidade serve de campo de batalha a essas forças, que se
encontram dentro dela e podem ser calmas e concordantes ou impetuosas e
discordantes ao ponto de transformá-la em violento explosivo. Pode a personalidade,
pois, manifestar-se sob tantos aspectos quantas são as posições por ela
assumidas e variáveis de um extremo a outro, isto é, de um estado de
passividade inerte a outro de intenso dinamismo criador, derivante de
desequilíbrio que se não o sabem dominar, pode precipitar-se na loucura.
Procuraram identificar o gênio com a loucura, não porque ambos possuam algo de
comum, como estado e resultados, pois a diferença entre os dois termos jamais
foi tão profunda, mas porque o desequilíbrio originário do dinamismo criador
do gênio fica a um passo apenas da anarquia espiritual da loucura. A
superioridade do gênio, porém, reside exatamente na capacidade de domínio e de
coordenação das próprias forças, de que jamais perde o controle. Domínio e coordenação
muito mais fáceis para o homem normal, dotado de recursos bem mais escassos. Em
todo caso, porém, em face desses elementos fundamentais que constituem a personalidade,
o segredo da vida consiste em saber encontrar a harmonia.
As correntes
vibratórias que nos percorrem a personalidade, fluem, portanto, de quatro
fontes, representantes de quatro mundos, quatro sínteses, fruto de longo
passado. São: 1) o eterno eu espiritual; 2) o ambiente terrestre; 3) o elemento
paterno; 4) o elemento materno. Se grafarmos a reta da bipolaridade vertical
sobre a reta da bipolaridade horizontal, obteremos o desenho de uma cruz, em
que os quatro termos correspondem aos quatro braços. Na cabeça da cruz teremos
o espírito, nos pés o ambiente-matéria, no braço esquerdo o elemento paterno e
no direito o materno. As experiências ambientais, se quiserem atingir o
espírito, devem atravessar o organismo físico. As correntes vibratórias oscilam
de cima para baixo e de baixo para cima, da direita para a esquerda e da
esquerda para a direita; em todas as direções se trava luta. A personalidade
representa o resultado dessa luta, a síntese desses elementos; por isso, pode
ser múltipla, como se oscilasse entre os diferentes pólos extremos. No plano
orgânico-psíquico (já vimos que o espírito não reside no cérebro) a luta se
trava entre a personalidade paterna e a materna e explode na puberdade. Uma das
duas personalidades vence, firma-se e constitui a dominante, em que prevalece o
tipo de um dos dois progenitores. Como acontece na coexistência, o mais fraco
cede o passo no ponto em que o mais forte conquista e, desse modo, se estabelece
a harmonia. Vencida, nem por isso a personalidade morre; continua, modestamente
como força subordinada, a gravitar em torno da principal, como os planetas em
torno do sol do sistema a que pertencem. A natureza não a abandona nem
despreza; utiliza-a, porém, confiando-lhe funções mais modestas, mas
necessárias, como, por exemplo: o controle representado pela oposição, pelas
minorias; a tarefa de equilibrar, refreando-o, o domínio exclusivo e a
manifestação repentina e irrefletida da personalidade dominante. Reflexão
significa controle recíproco entre duas tendências; quando elas entram em
conflito, a hesitação aparece. Daí as diferenças de vontade, a tragédia dos
impulsos opostos da consciência. Quando uma das forças vence, a vencida se
retira para a sombra, contentando-se com viver vida apagada, à espera da desforra,
mas assumindo, enquanto isso não acontece, a direção de funções modestas, a
fim de assumir a direção geral, apenas a força vencedora se canse e baqueie.
Entre os dois
elementos há vários graus de fusão. Há indivíduos, os chamados impulsivos, em
que uma das personalidades venceu tão nitidamente ao ponto de dominar pacificamente,
sem resistência, todo o campo da ação, pois a parte oposta o abandonou
inteiramente e nenhum controle exerce mais sobre ele. A decisão, assim,
torna-se fácil, simples, automática, retilínea, sem lutas, oscilações e
dúvidas. São poucas as forças empenhadas na luta; por isso, encontra-se
rapidamente a solução. Parece até rapidez o que, no entanto, não passa de
simplicidade e pobreza de meios. Outros, ao contrário, aparecem tarde e,
apesar disso, são ricos e complexos; neles o desequilíbrio não se resolveu pela
pacificação estática e continua alimentando a contradição. Neles as duas
personalidades, ambas prepotentes, concorrem contemporaneamente em todos os
atos, levando-lhes tal riqueza de forças propulsoras e contraditórias que as
divisões se tornam muito mais laboriosas. Daí deriva completa gradação de
manifestações volitivas e de capacidade decisória, gradação que varia desde a
ação imediata até à irresolução, da ausência de controle observável no
impulsivo até o controle tão rigoroso ao ponto de paralisar a ação
(Hamlet), da ação desorientada até
à orientação inativa, isto é, a reflexão
paralisante. Tudo isso depende das características dos dois elementos: paterno
e materno. Não se fundem ou se fundem mal, se muito dissemelhantes do ponto de
vista biológico. Desse fato resultam todas as anormalidades descritas na
fenomenologia psiquiátrica; as conformações
mentais em que se predominam a dissonância e a instabilidade; o
desequilíbrio dinamizante, mas perigoso,
que, se controlado e reconduzido a ordem superior, pode constituir o gênio e,
se. abandonado a si mesmo, se desfará na loucura Geralmente, porém, os dois estímulos,
paterno e materno, acabam por harmonizar-se Se a diferença for demasiado
grande, nascerá um caráter mais ou menos estável e equilibrado, verdadeiro
mosaico de tendências. Se pensarmos em como, na reprodução, os elementos
determinantes podem grupar-se em combinações infinitas, compreenderemos que
inexaurível quantidade de tipos pode a natureza produzir. Na realidade, não
existe o tipo normal, isto é, o tipo médio perfeito e absolutamente
equilibrado. Portanto, não existe o completamente anormal, o tipo patológico
absoluto. A vida a cada passo nos oferece exemplos de compensação! Quem não
vence hoje amanhã talvez vença! Ao contrário, novidades, coisas originais,
personalidade brilhante podem nascer desses desequilíbrios, se soubermos
dominá-los, coordená-los e discipliná-los, desequilíbrios que, assim, se
tornam qualidade preciosa, capaz, só ela, de oferecer contribuição inédita ao
pensamento e ao progresso. A natureza, embora pareça proceder. por tentativas,
sabe errar e corrigir-se; de qualquer modo sempre nos compensa do que nos
manda; deixa-nos cair para ensinar-nos a levantar-nos; expõe-nos aos assaltos,
mas guia-nos à vitória e, por ela, à aquisição de novas qualidades, ao enriquecimento
do nosso patrimônio de capacidade e defesa Todos os golpes recebidos são
registrados no livro da vida, onde tudo fica escrito, de modo a poder ser lido
em qualquer tempo. A moléstia tende a imunizar-nos, o erro a instruir-nos, a
queda a reequilibrar-nos, a fraqueza a fortalecer-nos Tudo acaba sendo
utilizado e transmitido e a vida imortal, desse modo, enriquece e acumula
grande acervo de complexas heranças, através de prolongadíssimas experiências
milenares que o nosso organismo incorpora e possui como riqueza oriunda da
imensa sabedoria biológica, que, aliás, cada um de nós carrega consigo, sem
sequer imaginá-lo. Desse modo, na batalha entre as duas forças contrárias, a
natureza surge como grande harmonizadora, demonstra ser potência benfazeja,
sábia, previdente e protetora, que transforma os desequilíbrios em elementos
dinâmicos e criadores, as dissonâncias em harmonias, o dinamismo contraditório
em personalidade original e potente.
Essas observações são válidas apenas no
campo estritamente biológico; não bastam para resolver o problema da
responsabilidade moral e esgotar o da hereditariedade. A personalidade humana
também resulta de outras forças e de outras posições. Já analisamos a luta no
interior do binômio horizontal; não observamos ainda a que se trava na
intimidade do binômio vertical, com que a primeira se harmoniza. Acima dessas
incompatibilidades biológicas se situa o mundo moral do espírito; e abaixo, o
mundo exterior, com todos os seus golpes e resistências. A personalidade resultante
dos dois elementos (pai e mãe) cruza-se e combina-se com a constituída pelo
binômio espírito-matéria, eu interno e ambiente externo. A personalidade
completa resulta de todos esses elementos e movimentos. Que riqueza! Porém,
como nos desgasta essa luta! A natureza, tão amiga de definir as suas
construções sob forma concreta e precisa, não tolera ócio e preguiça, mas exige
permanente colaboração mútua dos valores e correspondência rigorosa entre a
forma e a substância. Se chega a completar-se, a harmonia derivada da fusão
dos elementos herdados da linha paterna e materna, deve por sua vez lutar
contra o ambiente para, também nessa outra dimensão, conseguir harmonizar-se.
E a isso que, nos casos mais comuns, se limitam as fadigas da vida, no seio da
natureza que também se revela economizadora de energias. Verdade que, embora
limitada a esses elementos, embora utilize o patrimônio hereditário
constituído das numerosíssimas experiências adquiridas e atinja os dois
reservatórios, paterno e materno, continuamente cruzados, a personalidade deve,
à custa do próprio esforço, fazer novas aquisições; deve, outrossim, aumentar
aquele capital, investindo-o em novas combinações, empregando-o na atividade
que lhe é própria, completando-o com novas aquisições, obtidas
experimentalmente no meio ambiente. Assim aumentado, a personalidade deve por
sua vez devolvê-lo à circulação, gratuitamente como o recebeu. Se, porém, são
estas as fadigas comuns da vida, podem existir outras bem diferentes, a que o
homem normal escapa. A existência torna-se muito mais complexa, a luta áspera
e difícil a harmonização; mas, em compensação, torna-se mais rica de desequilíbrios
dinamizantes e criadores, quando surge e atua com forças preponderantes o
elemento espiritual, por sua vez servido de uma bagagem de experiências
pessoais, extensamente desenvolvida e, por isso, tão desejosa de viver vida
própria e de afirmar-se perante os outros elementos da personalidade que chega
a desafiá-los e a combater contra eles. Então, a personalidade, se mais extensa
e mais rica, representa concerto de ressonâncias mais complexo, transforma-se
também em campo de batalha bem mais vasto; neste a harmonização é muito
difícil de obter, pois a síntese unitária do ego não se verifica somente no
plano orgânico-psíquico, mas também no plano espiritual, mais elevado. É o caso do tipo evoluído. Portanto, todo o extenuante
trabalho que deriva do desacordo entre as forças da personalidade, da concordância
ou discordância dos ritmos, não se limita ao binômio horizontal pai-mãe e ao
ambiente, mas se estende para as zonas elevadas do espirito; aí, e não no plano
biológico, é que vai procurar a sua solução. As correntes dinâmicas, então,
navegam e se cruzam em todos os sentidos, a luta biológica do homem contra a
mulher (pai-mãe) e a da mulher contra o homem (mãe-pai) se cruza com a luta
moral, do espírito contra a matéria (espírito-ambiente), e com a luta material,
da matéria contra o espírito (ambiente-espírito), então os antagonismos do
binômio vertical martelam o corpo físico e dão nascimento ao processo de
maceração, que amadurece e evolui. Já observamos essa elaboração evolutiva,
que estamos continuando a examinar. Desse trabalho intenso nascem indivíduos
cada vez mais especializados. Mas, se por um lado parece que a natureza caminha
para o individualismo, isto é, para o separatismo que do corpo social isola e
afasta o indivíduo, doutro lado vemo-la mais tarde procurar o reequilíbrio
dessa tendência, apoderando-se do indivíduo e engendrando-o nas múltiplas
unidades sociais constitutivas dos coletivismos modernos. Isto porque a célula-indivíduo
se diferencia, não em proveito próprio, não para isolar-se da ordem da
natureza, mas para ser empregada numa ordem social muito mais vasta, com
funções adequadas às qualidades características adquiridas.
Já dissemos que a visão estritamente
biológica não basta para esgotar o problema da hereditariedade. A ciência limita-se
a levar em conta os dois elementos do binômio horizontal e o elemento inferior
do binômio vertical; não leva em consideração o elemento superior deste último.
Os instintos, as idéias inatas, as qualidades adquiridas mediante a
experiência ambiental e, graças a infinitas repetições, transformadas em
automatismos, não seriam conquistadas pela eterna personalidade espiritual,
capaz de conservá-las e restitui-las em qualquer momento em que forem úteis,
através de prolongada série evolutiva de vidas corpóreas, menos significativas
e encerradas na oscilação nascimento-morte; mas seriam adquiridas em virtude de
uma espécie de memória biológica, celular, e nela depositadas e conservadas.
Em A
Grande Síntese, cap. LXIX ("A Sabedoria do Psiquismo"),
entre os coleópteros citamos o ceramyx
miles, como exemplo de sabedoria imensamente superior à organização e aos
meios que possui. Acrescentemos, agora, o caso, ali apenas esboçado, de um
himenóptero, o sphex, cuja fêmea, ao
lado dos ovos, que põe na areia, coloca um inseto por ela previamente
paralisado com um golpe de ferrão, para que sirva de alimento à futura larva.
Ora, o sphex atinge a vítima
exatamente no ponto onde, no dorso, se encontra o gânglio nervoso que preside
ao movimento. Desse modo, obtém a provisão representada pelo inseto, que, por
estar paralisado, não pode sair do lugar e se conserva em boas condições porque
continua vivendo. Como é que o sphex conhece anatomia e anestesia? Quem lhe
ensinou esse fato anátomo-fisiológico? Dirão: a experiência. Mas os insetos
vivem poucos meses e as larvas, quando nascem, já os pais e toda a geração
precedente desapareceram. Onde, pois, o ensino e a imitação? Ou esse inseto
possui, talvez, sensibilidade bastante para perceber as radiações transmitidas
pelo gânglio nervoso e poder desse modo encontrá-lo? Se fosse assim, quem o
mandou atacá-lo e o informou das conseqüências? Quem responde pelo raciocínio
que relaciona todas as fases do processo lógico? Ninguém pode negar a existência
de princípio inteligente nesse inseto e, se não é possível que ele o tenha
criado, então lhe foi transmitido. Por que caminho, porém? Porventura, as
células é que conservam a memória atávica? Mas basta esse caminho? São as células
capazes de semelhante síntese racional? Isso quer dizer psiquismo. Deposita-se
ele nas células? Existe outro psiquismo? Este conserva a memória de todas as
experiências vividas durante milênios e, no presente caso, até mesmo as
inerentes ao estado de simples inseto. A conservação desse tão precioso
patrimônio hereditário, e do novo patrimônio que a experiência continuamente
lhe acrescente, é confiada à memória celular ou a um organismo imaterial em que
se registram e fixam definitivamente, sob a forma de qualidades adquiridas, as
correntes vibratórias oriundas do ambiente?
De acordo com a ciência, a memória biológica residiria na
célula que traz inscrita em si mesma sua prolongadíssima história, cujo
conteúdo lhe foi transmitido através da filiação e da derivação dirigida pela
célula germinativa hereditária. A essa história do passado cada vida
acrescenta a própria experiência, soma-a à precedente e com esta, assim
completada e corrigida, a transmite. Tratar-se-ia de uma espécie de
reencarnação celular; a continuidade das vidas sucessivas não seria confiada à
sobrevivência de um princípio espiritual supercorpóreo, mas à persistência das
impressões celulares. É verdade que o ambiente atua e continuamente nos
impressiona o ser, a repetição fixa nele hábitos ou automatismos, tendentes a
radicar-se sob a forma de instintos (cf. A Grande Síntese, cap. LXV:
"Instinto e Consciência Técnica dos Automatismos"). Também é verdade
que todas as nossas experiências se registram e transmitem por hereditariedade.
Mas o problema consiste em saber como, por que via e por que mecanismo a célula
se impressiona e conserva as impressões.
Para compreender,
torna-se necessário reduzir o fenômeno à pura substância cinética. Trata-se,
agora, de várias correntes de vibrações, de ritmos, de movimentos ondulatórios
que se transmitem e se imprimem. Já os examinamos nos capítulos precedentes. Os
movimentos vibratórios do ambiente externo penetram no organismo através das
vias nervosas e sensoriais. Essa penetração contínua constitui fato
indiscutível. E essas vias, portas escancaradas. Nosso organismo é também uma
orquestração de ritmos. Os movimentos vibratórios entram, avançam, invadem a
estrutura orgânica cada vez mais intimamente, percorrem-lhe e saturam-lhe as
vias, penetram-na sempre mais. Têm de parar no último termo que nossa
decomposição analítica nos dá a conhecer, isto é, imprimir-se-ão, sob a forma
de desvios de trajetórias já existentes nos movimentos atômicos (cf. A Grande Síntese, cap. LV: "Teoria
dos Movimentos"), movimentos atômicos dos quais resulta, em grau de complexidade
progressiva, o sistema cinético-dinâmico molecular, micelar, celular, orgânico,
psíquico. O fato de a repetição funcionar como determinante de automatismos,
confirma de um lado a referida atividade cinética e de outro a impressionabilidade
cinética. Trata-se, talvez, de atividade electromagnética. Daí derivaria a
memória celular. Se os vários elementos componentes forem reagrupados de
conformidade com a lei das unidades coletivas (cf. A Grande Síntese, cap.
XXVII) e os movimentos atômicos fundamentais estiverem presentes a todos os
organismos mais complexos, existirá a possibilidade de conseguir sínteses
progressivas, até chegar-se à síntese máxima, que se nos revela sob a forma de
consciência. Os resultados cinéticos da experiência, desse modo, se
imprimiriam em todas as células do corpo e, graças à hereditariedade, se
transmitiria e receberia essa sabedoria adquirida pela raça, comum a todos, de
que cada indivíduo seria depositário, para usá-la em benefício próprio,
conservá-la, enriquecê-la e, enfim, transmiti-la aos descendentes, em benefício
deles, e assim por diante. Essa sabedoria, percorrendo os órgãos nervosos e
cerebrais, se concentraria, de acordo com o princípio das unidades coletivas,
na síntese máxima do psiquismo, derradeira resultante das experiências da vida.
Já o dissemos:
sabedoria a ser aumentada e transmitida. O trabalho, portanto, é duplo: de
nova experimentação, tendo em vista o aumento, de conservação do velho e do
novo, tendo em vista a transmissão. Temos, pois, dois tipos de registro
cinético: o recente e o atávico, o novo e o velho, o que nós fazemos e o feito
pelos nossos antepassados. O primeiro conduz à captação e fixação dos movimentos
de variação da espécie; o segundo representa, na raça, as qualidades mais
íntimas e mais estáveis, fixadas em todas as células, não por via de
aquisição, mas de hereditariedade. As duas diferentes funções, isto é, o
desvio e a conservação das trajetórias, seriam confiadas a dois sistemas celulares:
de um lado os conjuntivos, ou seja, os tecidos de nova formação embrionária e
de outro o sistema de todas as demais células. Dois sistemas, portanto, que
culminariam em duas sínteses psíquicas: a primeira, temporária, individual,
representante da porção de vida pessoal do indivíduo; segunda, coletiva,
eterna, representando a espécie e a continuidade da vida. Dois psiquismos,
pois: o psiquismo ativo, trabalhando por armazenar novas qualidades,
construtor do ego através das experimentações, registrador, receptivo,
assimilador e fixador de novas experiências biológicas a serem transmitidas ao
outro sistema; e o psiquismo atávico, conservador, que, sob a forma de
qualidades hereditárias e de instintos, de idéias inatas e capacidades
adquiridas, faz ressurgir e restitui as referidas experiências. Os dois
sistemas giram em torno um do outro, de acordo com o costumeiro esquema do
binômio de forças contrárias e complementares de que resulta a composição do
binômio de toda unidade, de conformidade com a lei universal de dualidade.
Tudo isso não deixa de
ser persuasivo, mas permanece insolúvel o problema da conservação das
impressões, isto é, das novas características cinéticas que se vão continuamente
formando nos movimentos atômicos. Como conciliar a permanente identidade do
ego, não obstante a mudança de suas qualidades, e a renovação completa e
contínua do material constitutivo do organismo? E, então, não é possível que,
ao invés de a memória celular, a conservação das impressões seja confiada à
memória espiritual sediada no organismo imaterial que chamamos alma? Se a vida
é metabolismo, é uma corrente, que é que lhe impede a dispersão e mantém a
unidade? Ao nascer, já trazemos conosco, sem dúvida, os resultados de um passado.
Mas onde foi esse passado inscrito: na intimidade da célula, ou na do
espírito? É difícil, sem sombra de dúvida, conceber uma transmissão hereditária
através apenas da célula genital e a sua capacidade de conter-lhe todos os
desenvolvimentos futuros e, depois, guiá-los na reconstrução do ser completo.
Não o é menos imaginar uma transmissão hereditária fundada na reflexão de vibrações
produzida por um organismo espiritual que, introduzindo-se no organismo
físico, através das vias imateriais visíveis da percepção interior, lhe guie o
desenvolvimento (ideoplástica). Tanto mais que o primeiro sistema não pode
ser suficiente para transmitir todas as impressões registradas pela espécie,
pois as melhores experiências, as da maturidade, adquiridas depois da idade da
reprodução, que é fenômeno juvenil, não seriam transmitidas, permaneceriam incomunicáveis.
Perder-se-iam, então, as melhores aquisições; e a vida dos solteiros, por não
haver sido utilizada, não teria utilidade alguma para a raça. Ora, como é que a
natureza, em ponto dessa importância vital, pode deixar que lhe roubem os
resultados mais preciosos e custosos? Como é que ela, previdente e econômica,
pode abandonar as experiências mais importantes da vida, as experiências
espirituais, que se adquirem até mesmo em plena senilidade? Como é possível tão
flagrante contradição com a habitual economia da natureza? As melhores
conquistas se dispersariam. tantas fadigas se tornariam vãs e seu resultado
ficaria destruído; isso tudo constituiria mais uma gritante contradição do
mundo em que nada pode ser destruído e também essas forças, como tudo, aliás,
devem ressurgir. E como poderia progredir uma raça incapaz de acumular senão
experiências elementares e juvenis? De que se alimentaria o progresso, fato
espiritual e de realidade inegável? Não. Não é possível que a vida seja
mutilada desse modo, exatamente no centro do seu sistema, tão perfeito, aliás,
sistema que se tornaria imperfeito precisamente no ponto mais substancial, ao
ponto de, com o desaparecimento das experiências mais sublimes da raça,
fechar-se o caminho do progresso.
A herança fisiológica,
portanto, não basta. Se os filhos se parecem com os pais, muitas vezes não se
parecem e, até mesmo, os superam. O gênio não é hereditário. O fenômeno, sem
dúvida, deve ser bipolar; não pode constituir exceção da lei universal de
dualidade. Na realidade, se tudo é dúplice, a hereditariedade também deve
sê-lo, quer dizer, deve processar-se pelos dois caminhos possíveis, em
posições e com funções complementares. Dois são os eixos constitutivos da
personalidade (pai-mãe e eu-ambiente), duas as suas formas de luta, dois os
sistemas de forças e duas as evoluções (material e espiritual); assim, nada
mais lógico que também sejam duas as formas de hereditariedade correspondentes
aos dois eixos, cada forma de luta tenha objetivo determinado e todo tipo de
evolução, como todo sistema de forças, possua canal de transmissão privativo,
As forças não param e as experiências acumuladas devem dar algum resultado. Quem
se limita exclusivamente à hereditariedade fisiológica, esquece o imenso mundo
do espírito, dos valores morais, onde, em atmosfera de plena responsabilidade,
nosso destino se cumpre.
Percorremos os
caminhos da ciência, para permanecermos positivos, e chegamos aos movimentos
atômicos, a desvios de trajetória, a ações e reações cinéticas, à absorção de
ritmos, a movimentos de correntes vibratórias. E eis que tudo se desmaterializa
em nossas mãos e se traduz no imponderável, característico do espírito. Quando
chegamos ao fim do caminho, percebemos que o fenômeno como que se desfez e dele
não resta senão o jogo de forças, a estrutura de vibrações, o dinamismo
imaterial, que possui muitas das características do espírito e das suas
invisíveis atividades. Mas, então, o contraste, na aparência verdadeiro, entre
materialismo e espiritualismo, não passa de simples questão de palavras, pois
afinal tudo termina no mesmo ponto, descobrindo a mesma verdade e dizendo em
substância, a mesma coisa. Quando acabamos de percorrer os caminhos da ciência
e da matéria, exclamamos: Mas isso é o espírito! E, de fato, é o espírito
mesmo. Já vimos que, no binômio espírito-matéria, ele se encontra até mesmo no
pólo oposto e que o mistério do psiquismo se estende até à intimidade da célula. Dissemos que o eu é dúplice, não está apenas
no centro, mas também na periferia; que o espírito, central, também está em
qualquer ponto da periferia; é, ao mesmo tempo, o centro e a periferia.
Dissemos também que a memória atávica, a sabedoria adquirida pela raça, está
confiada a todas as células do corpo e nelas se difunde. Mas, então, falar
desse sistema é, em última análise, o mesmo que falar do espírito, se sua
substância pode traduzir-se cientificamente numa orientação de cinética atômica
e se dessa maneira o psiquismo se manifesta até mesmo na intimidade da célula.
Surge, então, esta pergunta: O espírito constitui a causa ou o efeito do
sistema? Ou, melhor, o espírito representa o motor determinante das correntes
de consciência que dirigem o funcionamento do organismo ou, então, é a síntese
das correntes de consciência derivadas dos sistemas celulares?
Para Renan "a
alma resulta das forças do corpo". Podemos, no entanto, observar: se é
natural que a síntese de correntes de consciência derivadas dos sistemas
celulares atinja o plano biológico, como poderá ele, no entanto, elevar-se até
ao mundo moral, tão absolutamente diverso, do ponto de vista qualitativo?
Harmonizemos o antagonismo. Geralmente, o homem, por motivo da luta que sua natureza
bipolar lhe impõe, apesar de dividido se conserva unido. O materialismo e o
espiritualismo, ambos unilaterais, manifestam apenas a parte que possuem da
verdade. Se nos perguntarem se o espírito constitui causa ou efeito do sistema,
respondemos com as mesmas palavras por nós já empregadas: a causa está no
efeito e o efeito na causa. Trata-se apenas de dois termos da mesma unidade
bipolar, de um caso particular da lei universal de dualidade. Atingimos o
limite em que se supera o binômio e se resolve a contradição. Tocamos, agora,
o limiar do mundo superior em que desaparece a grande ilusão da forma e tudo se
unifica na mesma verdade.
XXVIII
A PERSONALIDADE HUMANA (2.a
PARTE)
O desenvolvimento dos últimos capítulos
permite-nos imaginar o jogo de forças e o entrelaçamento de ritmos que
constituem o íntimo dinamismo de nossa vida. Só penetrando assim na intimidade
do imponderável, poderemos compreender tudo quanto escapa ao homem que vive na
superfície. Este ignora o maravilhoso mundo circundante de que, aliás, ele
mesmo se compõe. Esse mundo escapa em grande parte à própria ciência que, em
virtude da orientação positivista e do método objetivo-experimental, em lugar
do intuitivo, não pode atingi-lo. Desse modo, a opinião científica em voga a
respeito do problema da personalidade é incompleta, apesar de haver
estabelecido diversas verdades no campo biológico e psicológico. Para
compreensão geral do fenômeno, torna-se necessário seguir-lhe a oscilação
completa, de um a outro extremo do ser, de conformidade com o mesmo esquema da
construção e funcionamento do universo. O homem, de fato, encontra projetadas,
na sua estrutura e na sua vida, as linhas essenciais do fenômeno cósmico. A
oscilação vai do espírito à matéria e volta, com sinal contrário, da matéria
ao espírito, reproduzindo a cada momento os dois grandes períodos da criação:
involução e evolução. No homem e na criação, o pensamento se materializa na
ação até encontrar a forma concreta que o revista e o exprima, e isso através
da fase intermediária do dinamismo volitivo; e, ao contrário, a ação se
desmaterializa no pensamento, destilando-se sob a forma de experimentação
realizada, a fim de, na consciência, fixar-se como qualidade adquirida ou
instinto. A cada oscilação o eu
aumenta e se dilata, para retomá-la e
continuá-la cada vez com mais intensidade. o físio-dínamo-psiquismo, íntima
trindade do monismo universal, no cosmo e no homem, não é apenas estrutura
orgânica, mas também funcionamento. Na oscilação, um dos extremos, embora
transformando-se, transporta-se inteiramente para a posição do outro extremo e
ao contrário e, assim, o ser vai e vem, vem e vai, sem cessar, de um a outro de
seus dois pólos. O princípio trinitário, sua fórmula estrutural, não passa de
conseqüência do principio de dualidade. Apenas o binômio é animado pelo
dinamismo vital e a contradição, não mais estática, se põe em movimento e na
oscilação de um termo a outro se formam as correntes de ida e de retorno, do
antagonismo e da fusão nasce terceiro termo, que constitui fase intermediária,
traço de união e resultado das trocas. É novo ser, terceiro elemento, filho do
binômio pai-mãe e da íntima oscilação dessa unidade dualística, que descarrega
uma na outra as suas metades inversas. Estando completo o desenvolvimento das
forças do sistema, essa nova individualidade se destaca do binômio e permanece
autônoma e independente, mas incompleta e à procura de sua metade complementar,
para juntas formarem novo binômio e, através da troca de correntes, novo ser intermediário,
e assim por diante. Assim, da estrutura dualista do universo, do principio
fundamental de dualidade, deriva o principio trinitário, que representa o
esquema da técnica genética.
O movimento
dessa troca é dinamismo interior da unidade formada de duas partes iguais; por
isso, apenas influi na estrutura íntima dessa unidade. Mudança só acontece em
sentido relativo; a substância permanece invariável e o monismo intacto. O
movimento volta sempre sobre si mesmo; cada uma das duas formas extremas do
ser constitui apenas posição diferente no seio da mesma unidade, não representa
senão a metade do mesmo ciclo. O ponto de chegada é ao mesmo tempo ponto de
partida; do mesmo modo, o ponto de partida é ponto de chegada. Os extremos se
tocam.
Todos esses
conceitos já foram expostos no cap. VIII ("A Lei") de A Grande Síntese. Mas, enquanto, nesse
livro, os aplicamos ao fenômeno universal, aqui os consideramos especialmente
em relação ao fenômeno da personalidade humana. Entre as duas fases extremas
ou posições limites da oscilação entre espírito e matéria, pensamento e ação,
princípio e forma, há uma fase intermediária de passagem: energia, vontade ou
movimento. Tanto no homem, como no universo, de que é imagem, a transição do
primeiro momento para o terceiro, dá-se através do segundo que, na ida (subindo),
tem sinal positivo e na volta (descendo) se inverte com sinal negativo. Em
outras palavras, o espírito ou pensamento (1º momento) como iniciador ativo da
transformação do princípio na forma material (2º momento), para chegar à sua
ação plasmadora, se ativa como vontade vestindo-se de energia (3º momento). Portanto, cada ato nosso é
uma exteriorização do espírito, um conceito (1º) que se manifesta (2º) em
dinamismo e conclui (3º) numa realidade
exterior. No caminho de volta, porém, a atividade do momento
intermediário muda-se em passividade a vontade em receptividade o homem de ação
em homem contemplativo, justamente porque não estamos mais em fase de emanação
mas de reabsorção; as portas do ego estão abertas para o interior, não para o
exterior e a direção do dinamismo fenomenal invertida. Por isso as funções
afirmativas e positivas da vontade, tão úteis à ação são um estorvo,
representando impulsos negativos no caminho da volta, onde por sua vez age o
sensitivo, o espiritual, o místico.
No período
atual, descobrindo uma lei qualquer da natureza, o homem conquistou maior
domínio sobre a energia, meios de maior manifestação de si mesmo, através da
ação no mundo da matéria. Tais meios deram força ao dinamismo positivo de ida,
fase por que atravessa atualmente a humanidade. O espírito, porém, motor e
dirigente destes meios, permaneceu o mesmo; a sabedoria não recebeu um impulso
proporcional. Com a mentalidade de um primitivo, o homem atualmente se encontra
em poder de meios poderosos como nunca esteve. Por isso o terceiro termo do
ciclo, do qual se está avizinhando, nada mais é que erro (resultado de
tentativas inexperientes) e, portanto, sofrimento (compreensão involutiva).
Somente no segundo tempo, quando o movimento de vida se inverte em movimento de
volta, a expansão ativa, em concentração reflexiva, é que o resultado trará
vantagem (como premissa de nova expansão evolutiva). Eis o que acontece. O
primeiro impulso da ciência nasce no espírito, amadurecido por precedentes
experiências, resultando daí maior conhecimento. A este trabalho do último
século, sucede o atual trabalho de atuação experimental. O espírito,
achando-se ainda em fase primitiva, encontra-se em face de experiência desconhecida
que, feita por inexperientes (como acontece nas crianças), produz, como já
dissemos, dor e erro. Chegamos então ao fim da terceira fase que conclui o
ciclo da jornada. A dor abre o ciclo de retorno, marca a nova direção a seguir,
o início da subida, a nova gênese. Não mais agindo ou desenvolvendo-se ma
meditando em dolorosa reflexão sob os golpes recebidos pela reação das forças
da Lei, dados em conseqüência de esforços improfícuos. Completa-se, portanto,
lentamente o ciclo inverso da assimilação, resultado doloroso mas benéfico da
experiência humana neste período. A meta final é compreender. O ponto de
chegada está no espírito, na conquista de maior sabedoria, que representa maior
base para início de novas experiências. Com o ciclo experimental, feito de dinamismo
centrífugo de descentralização, e com o ciclo inverso de assimilação,
constituído por um dinamismo centrípeto de centralização, o ar de que se nutre
a evolução biológica completou sua oscilação e se prepara, firmando-se em tal
base, para nova e mais vasta oscilação. Assim até o infinito. As verdades
relativas do homem, por ele expressas, uma a uma de forma absoluta, serão as
etapas deste caminho, o mesmo caminho da única verdade progressiva. A história
dos acontecimentos sociais nada mais é
que a história do desenvolvimento da personalidade humana cujos
movimentos observamos.
Movamos o
prisma de observação. No ciclo de assimilação que finaliza o dinamismo
centrípeto da concentração, onde e como os frutos da experiência se depositam
na personalidade? Confrontemos as teses acima acenadas com a teoria do
subconsciente. Fala-se tanto disso nos nossos tempos! Trata-se, porém, de um
conceito que, se verdadeiro, não está completo. A natureza unilateral dos
métodos de pesquisa hoje adotados, só podia revelar a metade racional e material
do fenômeno, deixando de lado a parte intuitiva e espiritual. Esta é
representada pelo superconsciente. Desenvolvamos aqui tudo o que já dissemos,
completando o pensamento de A Grande
Síntese no cap. XX: "O Subconsciente", do volume: Ascese Mística (citado no prefácio). A
personalidade humana não é um ponto, mas uma zona onde se distinguem três
partes: o subconsciente, o consciente e o superconsciente. Portanto, os
resultados da experiência não se transmitem a um único ponto mas se depositam e
registam diversamente pelas várias partes da zona. Enquanto o subconsciente
representa a assimilação completa de velhas experiências em estratificações
antigas donde emergem como instintos, ou, em outros termos, o núcleo
conquistado pela consciência biológica confirmada pela vida prática, o
superconsciente, no extremo oposto, representa a zona de espera, onde se
registam as experiências de vanguarda, pela quais se antecipa o futuro, zona
que não está, como a outra, no fim mas na frente da evolução. Estes são os dois
termos da personalidade humana. Em baixo, sob a escada da evolução está a zona
da animalidade, o que é próprio da besta; no alto está a zona do espírito, o
que é próprio do super-homem. Num extremo, a sólida, estável, mas primitiva e
elementar experiência do passado, firmada como patrimônio aquisitivo
representando um material de uso continuamente aprovado pelas condições
ambientes; no outro extremo, as experiências em formação, novas, incertas,
instáveis, mas audazes, elevadas, complexas, desenvolvidas, representando não o
patrimônio adquirido, mas o novo patrimônio em vias de aquisição, não a
evolução conseguida, alcançada, mas a continuação, não a personalidade já
constituída, mas o seu complemento. A primeira experiência está escrita na
carne, a segunda, no espírito. A personalidade é, portanto, não um ponto, mas
uma zona em movimento, alcançando assim o dinamismo íntimo que a amadurece,
fazendo-o subir na escada da evolução. Neste sentido, a personalidade não é
imóvel, mas se desloca da terra para o alto, caminhando com os pés
(subconsciente) no passado e garantindo com os braços levantados
(superconsciente) o futuro.
Entre tais extremos, porém, há um terceiro termo, uma zona intermediária: o consciente. Qual a sua função? Que acontece ao centro do sistema? Nas partes inferiores, onde está finda a assimilação, dispensa-se novo trabalho de registro, estando tudo, salvo adaptações e modificações, confiado ao automatismo de instintos já conquistados. Esta parte acha-se sepultada no inconsciente, sem participação da consciência, não sendo mais zona de desequilíbrios, de formações, de trabalho, mas zona de equilíbrio e êxtase Para o tipo normal, não sendo a manifestação na parte superior nem contínua, nem ativa, o esforço é apenas exceção. Esta parte, onde ainda não se formaram desequilíbrios e atividades com o impulso das forças do ambiente, geralmente fica sepultada no inconsciente. Se a personalidade estende suas raízes às profundezas do subconsciente e eleva suas ramificações às alturas do superconsciente, a vida ferve no tronco: a zona do trabalho intenso de novas formações está normalmente no centro. Sendo esta uma zona de trabalho, desequilíbrio, contrastes, e, portanto, ativa e criativa, ela é lúcida e consciente. A personalidade brilha na luz máxima da consciência em sua zona central. A luz se dilui gradativamente nas duas zonas limítrofes, a inferior e a superior, até se extinguir completamente além dos dois extremos, onde se encontram traços das evoluções, situadas fora do campo da personalidade. É uma luz entre dois riscos de trevas, onde o que está latente, seja memória ou pressentimento, dormem e despertam aos poucos;
depois disso o nada em relação à personalidade, quando está além de qualquer
capacidade corresponder, por ressonância, às vibrações do ambiente E tudo em
posição relativa à evolução do indivíduo, caminhando da besta ao super-homem,
do subconsciente ao superconsciente, da carne ao espírito.
O que para o consciente constitui trabalho atual,
para o subconsciente é passado vivido, não morto, cuja síntese sobrevive
sepultada em seu íntimo como resultado da operação que atualmente é
desenvolvida pelo consciente. A síntese resultante, chama-se instinto,
estando, ainda, no plano do consciente, na fase de formação de análise. Aqui o
equilíbrio ainda não estabilizado, ainda indefinidas as resultantes dos
contrastes, permitem o trabalho de criação que no subconsciente terminou suas
aquisições. O instinto é superior como maturidade formativa, mas inferior como
nível evolutivo. A razão pertence a um plano superior, é a forma mais
complexa, mais criança do instinto. Este, síntese da análise feita pelo
subconsciente, é mais velho e perfeito, em seu nível, que a razão. Esta é um
processo em formação, de análise, de experiência incompleta, mas em vias de
sê-lo, é fase inicial de assimilação de qualidades novas mas em grau mais
elevado de evolução Os resultados da
análise, amanhã serão síntese; os da razão que procura e escolhe, instinto que
já sabe e conhece. A intuição pertence a um plano ainda mais alto; é a forma
ainda mais complexa, porém mais primitiva da razão. Elevando-se pela evolução,
o que se ganha em agudeza e perfeição, se perde em estabilidade de equilíbrio
e solidez. No alto voa-se; em baixo, anda-se. No alto, o domínio dos espaços,
mas os riscos e incertezas das tentativas; em baixo, o passo lento e pesado,
mas o controle, a segurança, a certeza. Por isso o raio intuitivo do gênio, é
controlado pela razão. E como os resultados desta serão o instinto de amanhã,
assim as funções excepcionais da intuição se regularão como funções normais,
como as atuais funções da razão. Como esta é um. instinto em. .formação;
trata-se no primeiro caso de um instinto que se elevará à altura evolutiva da
razão, e no segundo, de uma razão que chegará à altura evolutiva da intuição
Enfim, entre instinto, razão e intuição a diferença está no grau de trabalho
para a captação e assimilação das experiências. A intuição atua no superconsciente
que é uma antena estendida como antecipação em direção aos mais altos e
inexplorados graus de evolução, para captar o novo, o inédito, o futuro. A
razão atua no consciente Não funciona por raios, como a intuição, é menos rápida,
porém, mais contínua, mais ordenada, mais segura. Precisamente porque se
projeta para menos alto, é mais equilibrada, porém, mais curta e limitada. O
instinto é obra terminada, cujos resultados perdem-se no subconsciente, depositando-se
nesse magazin de reservas, como
patrimônio da personalidade que aí se pode reabastecer segundo as necessidades.
A medida que se avança, a fase evolutiva, inicialmente conseguida somente pelos
raios da intuição, torna-se domínio normal e controlado da razão, cumprindo a
função de assimilação que encontramos terminada no instinto.
Portanto, três
fases: captação pela intuição, assimilação pela razão, depósito pelo instinto.
Conquistam-se assim, aos poucos, os graus de evolução, parecendo que descem para
o homem quando é o homem que sobe a eles. Assim a experimentação avança pela
escala evolutiva, eleva-se em complexidade e dificuldade para o alto. O
inédito, o superior, antes compreendido pela intuição, atividade do superconsciente,
é fixado pela razão, atividade do consciente, no instinto, produto do
subconsciente. Trata-se de experiência progressiva que se ativa para o alto
dominando-o. É este o trabalho da personalidade humana, o conteúdo, o escopo
da existência. A vida é conquista e adição contínuas. O ego lança-se ao inexplorado, agarra-o, assimila-o e não descansa
enquanto não o transforma em qualidade própria, carne de sua carne. Assimilação
espiritual paralela à orgânica. Tudo é adição e desenvolvimento evolutivo, quer
se trate do corpo, quer da alma, quer se trate de conquista individual como
espiritual, material, econômica ou moral. Na frente está o super-homem,
ameaçado por todos os perigos: depois vem o homem que controla e confirma com
sua análise na prática da vida; enfim, a besta feita de instintos e imitação,
pronta a se apoderar dos úteis resultados do esforço total. Assim a conquista
se adianta, o homem se eleva e o patrimônio dos instintos se avoluma. O
subconsciente nada mais é que um consciente decaído, um raciocínio escrito em
sangue, um resultado selado pela experiência e fixado a fogo no instinto. O
consciente não é nada mais que o superconsciente coordenado, disciplinado,
equilibrado, intuição trazida à razão e submetida ao seu controle, elemento
incerto e transitório, embora sublime, enquadrado transitoriamente à realidade
da vida. Do mesmo modo, o subconsciente foi, há um tempo, consciente, isto é,
campo ativo das formações atualmente cristalizadas no instinto que, a seu
tempo, foi raciocínio, outrora intuição.
É ao contrário: o atual consciente amanhã será subconsciente; a luta
atual de formação individual e social, que é raciocínio com a vida, fixar-se-á
em seu produto feito de qualidades assimiladas (instintos). O atual
superconsciente amanhã será consciente, isto é, a intuição incompreendida será
normalmente sotoposta aos processos racionais. O involuído e o normal tornar-se-ão,
portanto, conscientes na zona atualmente coberta pelo superconsciente, no
campo onde hoje é consciente a única exceção biológica representada pelo
evoluído. Completa-se, assim, por sucessivas estratificações o processo de
aperfeiçoamento da personalidade.
Ainda uma
observação. A personalidade, como dissemos, não é ponto, mas zona em que se
distinguem três partes: subconsciente, consciente e superconsciente. A estas
correspondem, segundo o próprio grau de desenvolvimento e plano de atividades,
três tipos biológicos: a besta, o homem e o super-homem, e três formas de ação:
instinto, razão e intuição funções diretivas alcançadas pelo indivíduo segundo
seu grau de evolução. A estas correlacionam-se três formas de trabalho (em
sucessão inversa): captação, assimilação e armazenamento. (Como o universo, a
personalidade humana é uma trindade em caminho pela escada da evolução. No
homem encontramos o físio-dínamo-psiquismo do cosmos. O pensamento, na forma
humana, se materializa, passando do superconsciente ao subconsciente, através
do dinamismo do consciente. Temos, também, aqui, portanto, não uma simples
estrutura, mas um funcionamento. No ciclo experimental, que acabamos de ver, o
dinamismo vem do subconsciente em direção ao superconsciente, tentando a
experiência e conquista do alto; no ciclo de assimilação, o dinamismo desce do
superconsciente ao subconsciente, operando o armazenamento, a fixação dos
resultados da experiência. A descentralização segue-se a concentração no ego. Este dinamismo dúplice e inverso,
é o passo segundo o qual a personalidade progride.
Antes de notar
novos paralelos e correspondências, antes de observar o reencontro das
correntes ascendentes e descendentes na zona lúcida da consciência, reassumamos
e completemos os dois conceitos fundamentais desenvolvidos até agora neste
capitulo: 1) a natureza não puntiforme mas trifásica, da personalidade humana;
2) o movimento ascensional desta zona trifásica. Temos, portanto, três zonas
na: personalidade das ações consumadas, das ações atuais e das tentativas e
explorações. Representam o trabalho feito, o que se faz e o que se fará, isto
é, a atividade passada, presente e futura, ou ainda, a lembrança, a ação e o
pressentimento. Somente a zona do trabalho é consciente. Para o alto e para
baixo este clarão nítido se perde gradativamente nas trevas e o dinamismo
desaparece na inércia. Acima e abaixo, imersas na inconsciência, estão as zonas
crepusculares onde a consciência sente as sombras vagarem incertas, embrião
de futuros motivos ou restos de motivos destruídos ainda sonolentos no marasmo
da indiferença ou do esquecimento. O passado sobrevive no consciente como
síntese, o futuro aí nasce como antecipação. A consciência está repleta e se
nutre do presente em construção. No subconsciente está escrita nossa história,
no consciente está o esforço da subida, no superconsciente, o futuro. O
primeiro representa o patrimônio acumulado, o segundo a atividade com que se
fazem as provisões, o terceiro a zona das expectativas e possibilidades, das
tentativas e formações futuras. As três zonas estão ante a experimentação
nestas posições: de quem já recebeu o depósito, de quem o está recebendo e de
quem o espera. O eu sente no campo
onde está ativo e não onde está latente. O sistema esta em movimento evolutivo,
e o consciente, isto é, a zona ativa do registro, não é o mesmo para todos. Os
três tipos biológicos: a besta, o homem e o super-homem, têm seu centro
consciente em três alturas diversas: a besta, no subconsciente (instinto), o
homem, no consciente (razão), o super-homem no superconsciente (intuição). Com
a evolução o centro consciente tende a passar do nível inferior ao superior. Na
escala da evolução uns são conscientes, poder-se-ia dizer, à altura da cabeça,
outros à altura do ventre e outros à
altura dos pés. Uns têm a cabeça abaixo do nível dos pés de outros; outros têm
os pés acima do nível da cabeça de outros. Do involuído ao evoluído os tipos se escalonam em todos os
níveis, mas a compreensão só é possível entre os que se acham à mesma altura,
tendo portanto, partes comuns de ressonância, isto é, que vibram, como já
dissemos em capítulos precedentes, com o mesmo comprimento de onda, velocidade
e freqüência vibratória, que é o que justamente diferencia o grau de evolução. A evolução caminha do subconsciente ao
superconsciente, da besta ao super-homem, como das ondas longas e baixa
freqüência às ondas curtas e alta freqüência. Há portanto correspondência entre
subconsciente, instinto, animalidade, ondas longas e baixa freqüência de um
lado, e superconsciente, intuição, espiritualidade, ondas curtas e alta
freqüência do outro. Também a personalidade é um binômio que vai do extremo do
subconsciente ao extremo do superconsciente, gerando, na oscilação entre estes
dois termos, o terceiro componente da trindade: o consciente. Dissemos que
esta é a zona do trabalho. Isto significa que representa a zona de vibração,
enquanto as outras duas representam, relativamente à posição do indivíduo, as
zonas de descanso. Portanto, dizer que o consciente com a evolução tende a
passar do nível inferior a um superior, é o mesmo que dizer que o estado
cinético se desloca para estados evolutivos mais elevados, isto é, que o
movimento toma ritmo vibratório cada vez em mais alta freqüência e ondas cada
vez mais curtas. O mesmo fenômeno aqui observado com terminologia e de um ponto
de vista psicológico, pode ser observado, como nos últimos capítulos
antecedentes, como vibração e fenômeno dinâmico, de um ponto de vista cinético.
A mesma verdade pode ser traduzida em várias formas segundo a posição e
perspectiva escolhida pelo observador. Se, para comodidade de estudo, é
necessário isolar os vários aspetos, na realidade eles coexistem unidos.
Encontramos,
portanto, os vários tipos humanos, do extremo involuído ao extremo
hiper-evoluído, distribuídos por todas as alturas na escala da evolução em
tantas posições, onde altura, profundidade e os vários estados psicológicos e
vibratórios que lhes correspondem são relativos a cada personalidade. O que
para alguns é superconsciente, personalidade futura, embrional, ainda a ser
acabada, para outros é consciente em formação ou mesmo subconsciente, isto é,
personalidade instintiva já construída. O que para o involuído é futuro, para
o evoluído é passado. Todo indivíduo caminha, seja qual for sua posição, para
um plano relativamente superior ao que ocupa. As zonas de subconsciente,.
consciente e superconsciente são, portanto, relativas ao desenvolvimento do
indivíduo e podem ocupar diferentes graus ria escala da evolução. Todo o
sistema trifásico da personalidade
se movimenta e avança pelo condutor de suas várias zonas, tendo à frente o
superconsciente, no centro o consciente e no fim o subconsciente. O sistema é
único, igual para todos, mas a sua posição é, para todos, relativa, isto
é, em graus evolutivos diversos de tal
modo que não possa dar a estes termos senão valor relativo. O que,
comumente, lhe damos aqui, é em relação
a um tipo médio situado com o consciente no plano da razão, com o subconsciente no plano dos instintos e
com o superconsciente no plano da intuição e do espírito. Expomos aqui o
sistema, a estrutura da personalidade, e não sua posição evolutiva que muda
para cada caso em particular. Neste sistema o ego consciente é dado por uma
zona lúcida, de operações, situada no centro de duas zonas obscuras, e o todo
não fica estático, mas em movimento ascensional. O ego percebe a própria
existência unicamente na zona consciente do sistema que tem alturas evolutivas
diversas, segundo o desenvolvimento individual. Segundo o mesmo, cada um
explora, torna, elabora e assimila e, assim, segundo sua posição e natureza,
agindo através do esquema geral do fenômeno, constrói a própria individualidade
segundo particularidades especiais. A captação, o registro e o armazenamento
das experiências pode ser feito em alturas diversas segundo a escala
evolutiva, mas o processo, o método, é idêntico para todos,. o resultado é
sempre ascensão, autoconstrução, progresso da fase evolutiva subconsciente, à
fase consciente e superconsciente.
Terminado este
conceito da relatividade das posições e do movimento do sistema, completemos
agora o exame de seu aspecto estático com outras comparações. Terminado o problema
da conquista voltemos ao da estrutura da personalidade. Estabelecemos, até
aqui, as seguintes relações do subconsciente, consciente e superconsciente com
a besta, o homem e o super-homem; com o instinto, a razão e a intuição; com o
armazenamento, a assimilação e a captação; com o ato terminado, o atual, e o
futuro; com a recordação, a ação, e o pressentimento; com o passado, o presente
e o porvir; com a cauda, o centro e a cabeça no caminho da evolução. Tudo
isto ainda não é suficiente. Como e onde se localizam as sedes destas diversas
funções? Onde são depositadas, elaboradas, captadas as respectivas anotações?
Ligamo-nos aqui aos conceitos dos últimos capítulos. A sede do subconsciente,
seus paralelos e atividades está na estrutura celular, nos tecidos, na carne da
raça, zona de animalidades, de instintos, de memória biológica. As experiências
primordiais e fundamentais da vida, fixaram-se em automatismos nestas profundas
e antigas estratificações biológicas, comuns ao homem e ao animal. Freqüentemente,
para o homem, este é o seu passado, a zona mais profunda, situada no extremo da
evolução. A sede do consciente está no sistema celular escolhido, selecionado,
no ápice da evolução animal, aperfeiçoada até às portas do espírito, com
funções psíquicas: o sistema nervo-cerebral, zona humana, da razão, zona dos
mais recentes feitos biológicos ainda não fixados em automatismos, ainda em
processo de formação, fase central da evolução do ego, fase de elaboração e livre escolha. Obedece-se a instintos
inconscientes da carne, mas raciocina-se com o cérebro. Freqüentemente este é
o presente do homem. A sede do superconsciente está além da parte material,
sensitiva, do organismo físico, situada no imponderável, no espírito. Vimos no
cap. XXVI (“A Música – A Vida Dupla), deste volume, suas relações com o sistema
cerebral e que aqui a vibração, separando-se de seu nervo transmissor torna-se
radiante, livre, de ondas curtas e alta freqüência Estas qualidades ainda não
conseguidas no plano inferior, permitem ao superconsciente a transmissão
telepática, a captação noúrica, a visão sintética da verdade, isto é, o uso
natural e normal do método intuitivo, próprio do superconsciente. Tudo isto
representa a zona super-humana, o mundo do evoluído, o reino do espírito, a fase
mais elevada da vida humana, que o homem laboriosamente vai conquistando,
formando sua estrutura espiritual, fase situada acima de nossa evolução humana.
Para a maioria, isto é futuro, exceção Raciocina-se com o cérebro, mas
unicamente o espírito é capaz de intuição.
Para o homem comum a zona lúcida, a
fase atual, é a cerebral. Normalmente esta é a sede consciente do ego. Este se
estende pelas duas outras zonas, inconscientemente porém. O ego cerebral e
consciente acha-se no centro da personalidade, entre seus dois extremos
contíguos, o subconsciente e o superconsciente; está em contato, em comunicação
recíproca, beneficiando-se pelo instinto e intuição, relativamente ao seu
desenvolvimento e potência. Todas as correntes da personalidade trifásica, de
qualquer plano em que estejam, reencontram-se no ego cerebral, central, consciente, unindo-se no campo da
consciência às duas zonas laterais extremas, fazendo convergir para aí as
próprias aquisições por que são representadas. Conhecemos suas vozes,
distinguimos três fontes e três correntes: a voz do instinto, a voz da razão e
a voz da consciência. A primeira e a última vêm de longe, são
produtos-sínteses; a segunda é presente, atual, analítica.
A razão apreende, controla, discute.
Torna-se, às vezes, campo de batalha entre as diversas correntes, quando divergem
entre si ou da razão e se revela difícil a harmonização. Nasce, então, a
interferência das vibrações e a luta se estabelece entre os vários impulsos.
São por demais conhecidas essas tempestades íntimas. Porém, especialmente no
evoluído, de superconsciente mais desenvolvido, se desencadeia com mais
violência a guerra entre o superconsciente e o subconsciente, entre o passado
e o futuro e ao contrário, entre espírito e matéria; entre os dois extremos da
evolução que se batem pela posse da consciência, como campo de realizações.
O subconsciente contém o patrimônio
adquirido, coletivo, as reservas da raça, o decálogo da vida animal, inscrito
na carne e no sangue. A célula conhece-o muito bem, graças à repetição milenar que ratificou as
experiências originárias. Esse é o alicerce do edifício biológico, o ponto de
partida da evolução humana. A célula, na orientação a que obedecem seus íntimos
movimentos atômicos traz inscrita a sua longa experiência; e, por inércia, não
deixa esgotarem-se os impulsos recebidos do ambiente e agora transformados em
conhecimento por si mesma adquirido. E desse modo continua a emitir correntes
de ordem, aviso, consentimento, proibição. A razão apreende, procura tomar
consciência e quase sempre, embora não compreenda, obedece a essa sabedoria
mais profunda, porque a reconhece verdadeira e também porque, embora sepultada
nas profundezas da célula e nas trevas do subconsciente, essa memória biológica
continua participando do seu ego. O subconsciente, que registrou tudo e se
recorda de tudo, está sempre por detrás de nós para guiar-nos, executa, por
nós, automaticamente, inúmeras atividades e resolve, em nosso lugar, grande
quantidade de problemas, sem perturbar nem agravar o consciente. Simples
divisão de trabalho. Representando o patrimônio comum e a sabedoria da vida, o
subconsciente diz respeito à hereditariedade fisiológica com que se transmite.
A célula constitui-lhe, de fato, a sede e o canal de transmissão. O
subconsciente contém o capital hereditário que mais do que ao indivíduo
enquanto indivíduo. pertence à vida. É riqueza que recebemos ao nascer, como
bagagem necessária para percorrermos o pedaço de caminho representado por uma
existência. O patrimônio individual, diferenciado, que não se transmite por
hereditariedade fisiológica celular, mas, como vimos, por hereditariedade
espiritual, está situado no espírito. Vivendo como corpo, acumulamos o primeiro
desses patrimônios e, vivendo como espírito, o segundo. Mas bem poucos possuem
esse patrimônio individual; a maior parte da humanidade encontra-se ainda nos
alicerces de sua construção espiritual, que no atual estado evolutivo, não pode
ser o resultado de esforço coletivo, e sim individual. O superconsciente é
produto pessoal diferenciado e, por isso, não obedece à hereditariedade comum
que se processa através dos caminhos da carne.
Podemos, agora, concluir a exposição do
problema da hereditariedade, de que já cuidamos no final do capitulo anterior.
A vida é bipolar e, por isso, uma hereditariedade adequada garante a
continuidade de cada um de seus dois extremos: a fisiológica responsabiliza-se
pela transmissão do subconsciente; a espiritual pela transmissão do patrimônio
do superconsciente. Portanto, duas vias, dois canais abertos, um material e
outro imaterial, ambos adaptados à
transmissão dos resultados das experiências de dois organismos diversos, as do
corpo e as do espírito. (Cf. as palavras de Cristo a Nicodemos: “O que se gerou
da carne é carne; o que nasce do espírito é espírito": João, 3:6) Do
subconsciente e do superconsciente, os dois diferentes patrimônios, acumulados
no passado que vivemos em ambas as formas, e que, nos dois campos herdamos de
nós mesmos, emergem no consciente, oferecendo-lhe suas úteis produções. A carne
adquiriu experiência própria e repete-a. O espírito adquiriu a sua e
ofereceu-a. A criança desenvolve-se plasmada por ambas as forças, cujo
desencadeamento ela mesma preparou, cresce debaixo dessa dupla orientação, e influência,
útil e necessária em ambas as formas. Trata-se de simples restituição, é
propriedade nossa que nos volta às mãos e nos diz respeito, porque esses dois
patrimônios, na medida em que existem, nós os conseguimos com nosso trabalho.
Cada um dos dois transmite a si mesmo e, em seguida, age como força, mas
operando cada qual no seu próprio campo; cada um constitui impulso que, por
força da lei de causalidade, se liga ao próprio passado de que constitui
conseqüência e continuação e se imprime no eu atual, plasmando-lhe o corpo e o
espírito. Esse impulso representa a incorporação já acabada, a zona já
formada, e por isso fatal, de nosso livre destino (cf. cap. XXIV: "Nosso
Livre Destino", deste volume). E como a memória biológica reconstitui o
organismo físico, repetindo a história celular, continuada agora através da
hereditariedade biológica, assim também o espírito reconstrói a personalidade
moral, repetindo-lhe a história, agora continuada através da hereditariedade
espiritual. O espírito, amparando-se nos instintos do subconsciente delegados à
vida animal, plasma a criança, compondo-lhe a personalidade e, quase sem que
ele o perceba, atingindo-lhe o cérebro (o consciente), pelas vias imateriais
(que sabemos serem conscientes no evoluído) de percepção interior inversa (cf.
cap. XXVI: "A música - A Vida Dupla”, deste volume).
O corpo, o cérebro e o espírito
constituem, pois, as sedes da personalidade trifásica (subconsciente,
consciente e superconsciente), nas suas três funções: instinto, razão e intuição. A personalidade humana, una e trina
como o universo, possui, portanto, o organismo instintivo da besta, o cérebro
raciocinante do homem, o espírito intuitivo do super-homem. Três zonas, três
funções, três sedes. A proporção que evoluímos, o domínio da intuição
torna-se, como vimos, o domínio da razão e, em seguida, o domínio do instinto.
As três zonas representam, também, três fases de acréscimo. Quanto mais
progredimos, porém, tanto mais a função é precária e a forma imatura. Se no
alto vemos o mais evoluído, vemos também o mais novo e menos completo. A
elevação e a estabilidade são inversamente proporcionais. A intuição, mais
elevada e mais ampla, vive em equilíbrio mais instável que qualquer outro. A
razão, mais restrita e terra a terra, fica bem mais embaixo, mas se mostra
muito mais sólida e segura e, exatamente por isso, é muito mais adequada ao
controle da intuição. O instinto fica no ponto mais baixo possível, por ser o
de conteúdo mais elementar e limitado; no entanto, revela-se o mais garantido
pela estabilidade de equilíbrios e segurança de experiências. Três graus de
elevação e, em razão inversa, três graus de solidez. Assim, o animal, servido
pelo instinto, é, no seu plano, o mais seguro e perfeito, embora menos
adiantado do ponto de vista da evolução e mais limitado quanto ao domínio; seu.
instinto é mais seguro e perfeito do que a discussão racional, perto dele
insegura e oscilante; esta, por sua vez, comparada com os arriscados vôos da
intuição, mostra-se muito mais positiva e garantida. É natural, porém, a
instabilidade e o perigo aumentarem, à medida que deixamos de rastejar como
vermes e começamos a marchar e a voar. Toda forma de atividade tem lugar
apropriado e função determinada. A vida não se arrisca, senão em excepcionais
emersões, às grandes altitudes. Quer ficar tranqüila, e fica mesmo, em plena
massa, nas suas bases mesmas.
Ainda uma observação. Não vá o leitor
surpreender-se, porque, nestas páginas, não estamos mais formulando hipóteses,
mas fazendo contínuas afirmações. Isso depende dos seguintes fatos: por
brevidade, estamos dando aqui apenas as conclusões; por querermos que este
livro seja. construtivo, deixamos de lado toda discussão, como elemento negativo;
tudo isso, enfim, resulta do método intuitivo adotado neste trabalho. A dúvida,
a hipótese, a espera da confirmação espiritual e o horror às conclusões
pertencem ao método racional; o método intuitivo, que nos leva à obtenção desses
conceitos, tem características completamente diferentes. A intuição por sua
própria natureza, vê, não discute, aceita as conclusões como estado de fato,
não analisa, para atingi-las, não duvida, não experimenta; apenas sente. Por
isso, diz, naturalmente: "é"; não diz: "poderia ser" ou.
"suponhamos que seja". A verdade surge-lhe já completa. e não em
estado de elaboração. Chegamos a esses conceitos graças a visões interiores,
que não são dirigidas do cérebro para fora, graças a observações sensoriais,
mas do cérebro para dentro, por meio de audição espiritual. Aqui a personalidade
humana se nos apresenta funcionando como acima dissemos e aquelas afirmações
encontram aplicação direta. Eis um primeiro controle experimental das teorias
acima expostas, uma sua correspondência à realidade, pelo menos neste caso.
Reconhecemos ser justo que, em seguida, em um segundo estágio, a razão
analítica graças a seu método positivo se apodere dessas sínteses intuitivas,
para avaliá-las e controlá-las, por meio da lógica, da observação e da
experiência, e relacioná-las com os conhecimentos atuais Isso não significa,
porém, não tenhamos já feito aqui um trabalho de coordenação. Esses conceitos,
a que, como sempre acontece com o método intuitivo, chegamos tempestuosamente,
intermitentemente, rebeldes a todo registro metódico, obedientes a leis
diferentes das leis da concatenação lógica e da conexão de idéias que, por
afinidade vibratória (fenômeno da ressonância), se atraem; esses conceitos
sintéticos, mas racionalmente indisciplinados, aqui já foram reprimidos e,
apenas roubados ao superconsciente, coordenados e enquadrados sistematicamente
no consciente. Eliminadas irregularidade e intermitência, o relâmpago torna-se
luz regulada e contínua, permitindo que se veja o caminho. Este domínio da
intuição dinâmica e rebelde num concatenamento racional é um dos maiores
esforços necessários à exploração do super-normal, sendo todavia disciplina
imprescindível sem a qual tornar-se-ia inútil o método intuitivo. De outro lado
tal método permite a compreensão contínua e progressiva dos problemas por captações
sucessivas como o estão demonstrando estes "Comentários à Grande Síntese", pelos quais
pode-se provar que tal livro não tem propriamente um fim, podendo ser
desenvolvido ad infinitum[17]. Se os
esquemas fundamentais então expostos são simples e unitários, torna-se agora
ilimitado o número de combinações possíveis entre as posições da forma.
Realmente são esses os caminhos da natureza seguidos por nós: chegar por meios
extremamente simples ao infinitamente complexo, partindo de princípios
elementares ou temas fundamentais, repetindo-os em alturas, dimensões e
combinações diversas. Dualismo universal. A criação, num pólo, simples, noutro,
complexa, centralmente unitária e de incomensurável multiplicidade na
periferia, imutável no absoluto e instável no relativo, é, ao mesmo tempo,
perfeita e imperfeita; se por um lado se inclina a formas e existências
efêmeras é assinaladamente eterna em seus princípios vitais. Os dois pólos se
pressupõem e se subentendem. Segundo a lei do dualismo, para o princípio
universal da oposição dos contrários, a forma transitória do lado matéria
presume e impõe, do lado espírito, a presença de uma vida eterna
correspondente.
Pelo lado forma ou matéria uma das
características do ser é a caducidade, a necessidade, portanto, de continua
troca para sobreviver, de ininterrupto renovamento para suprir, com as entradas, as perdas e saídas, tornando-se a vida uma corrente
onde é necessária e implícita a presença de um dinamismo animador e dirigente,
reencontrando tudo na forma sem o que esta não se pode suster. O limite desse
complemento, que contrabalança o binômio, e o equilibra com um elemento e
impulso inverso, é o espírito. Ele realiza precisamente a reparação contínua,
sem a qual a caducidade não seria renovamento vital, mas morte. Sem a presença
ativa de tal espírito encarregado da contínua manutenção, isto é, encarregado
de tudo alimentar, sustentar e reparar interiormente, onde é seu lugar, nada se
manteria, nada haveria de sobreviver. Tal caducidade da vida é a sua fraqueza,
o seu perigo, a sua lida. O mal, a dor, a morte estão continuamente em choque.
Tudo se decompõe e é sempre necessário reconstruir. O ritmo do fenômeno vital
acha-se ligado ao ritmo fatal do tempo, dentro do qual, se abandonado a si
mesmo, se extingue e morre. As contínuas relações que o sustêm não podem sofrer
intermitências. Se pára, vem a morte. A caducidade, fraqueza congênita da vida,
subentende e impõe o movimento ininterrupto. Esta é sua condenação: o
fragmentar-se no relativo, de única tornar-se múltipla, o cair do eterno na
corrupção, do infinito na prisão do limite, na necessidade de reconstruir, com
o cansaço de um condenado e o sofrimento de um decaído, tudo o que desmoronou,
e que permanece como um sonho, um lamento, um ideal. Esta reconstrução chama-se
evolução e todo trabalho necessário à complexa estrutura da personalidade
representa o esforço constante que a ela está ligado.
O mesmo princípio universal do
dualismo, estabelece que, estando num pólo do sistema a divergência, no outro esteja,
por compensação, a concórdia, ficando a vida condenada a constantes rupturas e
recomposições; a isolar-se no egoísmo e a dedicar-se ao acoplamento; a
separar-se no individualismo e a reajustar-se na vida social. A própria
personalidade, em seus extremos, subconsciente e superconsciente, está dividida,
mas para o centro, o consciente, convergem todas as correntes, reunificando-as
no ego. A mesma personalidade se divide em dois pólos, pai e mãe, espírito e
matéria; nela porém, os mesmos se reencontram, fundindo-se numa única
individualidade. Para cada ser, a existência consiste no mesmo processo de
reconstrução da antiga síntese. O múltiplo deve retornar à unidade. Eis a
constante labuta da vida, a essência da evolução: o sofrimento, tendo, porém,
como meta a felicidade. A lei de dualidade é imprescindível que, se num extremo
da involução o limite é a dor, no extremo oposto da evolução, o limite seja,
pelo contrário, a felicidade. Assim a dor é, a um tempo, redenção,
reatualização, reconquista, e tem a função reconstrutiva do progresso, que culmina
em triunfo. Assim nos ensina a lei do sistema.
O homem
nasce incompleto. É por todos os lados molestado por privações, sempre
vulnerável e sensível, num ambiente indiferente ao seu dano, à sua dor. O sistema
supõe a vida como um campo de provas. As investidas são ininterruptas mas a
sensibilidade é proporcionada às provas e as provas à sensibilidade. Da reação
recíproca nasceu a mútua educação, uma simbiose de forças que, nas contínuas
relações e trocas se contrabalançam. O ego e seu ambiente se conhecem, um está
disposto a se encontrar com o outro demonstrando profunda presciência de suas
mútuas qualidades. São as harmonias da vida. Até a luta tem suas harmonias
sem as quais seria absolutamente impossível qualquer aproximação ou
equilíbrio. Luta e harmonia se subentendem; se a primeira está num extremo do
binômio, a segunda deve necessariamente ser de natureza oposta e situar-se no
extremo oposto. Se há luta e sofrimento, há também proporção entre resistência
e ataque, entre ação e reação. A Lei, portanto, manifesta automaticamente a
sua ação de acordo com a sensibilidade do indivíduo, e, proporcionando o tom
de voz à sensibilidade, consegue fazer-se ouvida por todos. Quanto mais
insensível e surdo o homem, tanto mais forte a Lei grita, tanto mais violentos
são seus golpes, tanto mais difíceis suas provações.
O homem
é um binômio, dividido em dois entre os extremos de sua personalidade,
dividido no sexo, na contradição contida pelo antagonismo de todo pensamento
ou ato, na luta que se trava em seu consciente entre subconsciente e
superconsciente, na divergência entre seus dois mundos, o interno e o externo.
Em contínuo movimento a fim de preencher suas falhas, aflige-se com os desejos
de suas qualidades contrárias. Satisfazendo-os vê restabelecer-se a desproporção
e descontentamento que o tornam desiludido pela impossibilidade de alcançar a
paz proveniente da sua completa satisfação. As duas partes em que se fragmentou
a antiga unidade parecem condenadas a perseguir-se mutuamente sem jamais se
alcançarem. A meta de chegada se distancia mais e mais ou, se alcançada,
reaparece sempre mais longe. O desequilíbrio acelera a corrida, mas conseguida
a felicidade do repouso, se restabelece a desproporção e a necessidade de novo
movimento para tranqüilizá-lo. A alegria da tarefa cumprida foge sempre. A
imperfeição congênita muda-se em contínua necessidade de perfeição. Sublime e
terrível condição de sofrimento e felicidade, de escravidão e liberdade, de miséria
e triunfo. Negação originária que em si contêm implícitos todos os elementos da
afirmação. Condenação de origem levando fatalmente às portas do progresso e do
resgate. Todo este sofrimento se chama vida.
A divisão da unidade em duas partes,
tornando o homem incompleto, faz dele um partidário. Não sabendo ser senão uma
parte da verdade, para alcançar o seu complemento na parte oposta, sente
necessidade de discutir e lutar. Ele possui a verdade fragmentada, não a
verdade na sua unidade totalidade. Seu
poder de concepção não sabe ir além; acha-se imerso no particular, no relativo,
na contradição. De qualquer lado que esteja, na discussão, sente-se ausente da
outra parte e, por isso, sofre e procura indenizar-se. Sob as aparências do
antagonismo, expressão da oposição dos termos, deseja e procura aquilo mesmo
que é o objeto de seu combate, aparentemente para destruí-lo, mas na verdade
para apoderar-se dele, devorá-lo, assimilá-lo, tornando-o parte de si mesmo.
Por esta única razão combate, primeiro para que seu adversário, igualmente
incompleto e desejoso de completar-se, não o devore, não o assimile; depois
porque ele próprio sendo imperfeito é sequioso de aperfeiçoar-se no outro. Eis
o que é a vida: o estrugir de uma batalha que é unicamente desejo de amor.
A luta pela vida nasce do dualismo,
unilateralidade e privação, havendo sempre atrás do amor o ódio, e atrás do
ódio, o amor. Embora cada ser egoisticamente se incline a isolar-se do todo,
contínua fazendo parte do todo, e por mais que deseje dominar para impor-se aos
outros, na verdade não passa de um pobre que procura completar-se. Reaparece
então uma bipolaridade inversa: conquanto o egoísmo seja indispensável à vida
do indivíduo, sem altruísmo não pode haver nem fecundidade, nem geração. O primeiro,
que parece conservar e acumular, torna-se um fator de separação e destruição; o
segundo, que parece dissipar, constrói e une. Todas as possíveis atitudes da
vida humana acham-se compreendidas no binômio egoísmo-altruísmo, composto de
dois termos contrários que se completam. E todo esforço está compreendido num
sistema de equilíbrios que o tornam possível somente dentro dos limites
impostos pela Lei e sem possibilidade de causar desordens ao funcionamento
universal. Assim, a luta se transforma em elemento de fecundidade e
construção; não é, como pode parecer, caos e destruição, mas fator regulado dê
evolução. Há compensação e equilíbrio: o eu
luta para se assegurar contra tudo e contra todos, mas por lei tem necessidade
de outros para unificar-se com a totalidade. Todo elemento está, por Lei, unido
ao seu oposto de tal modo que altruísmo e egoísmo, atração e repulsão,
impulsos contraditórios, se contrabalançam, se equilibram perfeitamente.
Tudo nasce corroído interiormente por
essa autocontradição que cada ser traz em seu íntimo e em seu exterior. Porém,
ao mesmo tempo, em si tem o remédio necessário. A própria contradição
que supõe extermínio, subentende a construção, tornando-se princípio evolutivo
de rejuvenescimento. Portanto não se pode dizer imperfeita uma natureza que traz no íntimo de sua imperfeição tanta
beleza, a Lei que, apesar das aparências de desordens e desalinho é a própria
substância da ordem e disciplina. É verdade que a natureza é falha, insegura em
suas tentativas, sempre cega em frente ao desconhecido, porém, assim como tende
a cair e pecar, como é grande seu poder de restauração, e que riqueza de
possibilidades! Que variedade de doenças, mas que abundância de remédios!
Continuamente perseguida, furtivamente ameaçada a cada passo, a vida prossegue
ininterrupta, triunfando de todas as negações. Também aqui, a realidade é
bipolar: exteriormente imperfeita, é em seu íntimo, realmente perfeita;
corruptível e transitória na forma, é substancialmente incorruptível e eterna.
Enquanto tudo ao seu redor se deteriora e acaba, seu interior é uma fonte
inexaurível de fecundidade e rejuvenescimento. Em meio à instabilidade do
futuro nas formas-efeito, permanece intacta a estabilidade do imutável no
princípio-causa. Daí nasce a beleza e a necessidade do movimento. Tudo roda em
contínua erosão sem que nada se destrua, tudo é tomado de assalto mas a vida
continua ilesa. Do movimento, nasce a grande ilusão, a periferia complexa,
mutável, fugidia. Porém só na periferia. Desçamos um pouco abaixo da superfície
revolta do oceano e encontraremos a calma. A verdade simples, inalterável,
divinamente tranqüila está no centro. Embaraço, instabilidade, incerteza,
barulho, desordem, luta, sofrimento, tudo aumenta à proporção que nos distanciamos
do centro Quanto mais perto, tanto maior estabilidade, segurança, harmonia,
ordem, paz, contentamento. O difícil e múltiplo desorientam, mas no centro se
dissolvem em um princípio fácil e unitário onde a direção é evidente. As almas
que, afastando-se da vida exterior da matéria e dos sentidos, sabem
interiormente aproximar-se de Deus, conhecem por experiência a verdade destas
afirmações. O primitivo que vive superficialmente não vê senão desordens, mas
quem vai ao fundo da substância encontra a ordem perfeita. Sendo portanto
diverso o poder de visão, quem só vê desordem e caos, é negativo e
materialista; quem encontra ordem e harmonia é positivo e espiritualista. Para
quem olha de fora, como a análise racional e experimental, o universo é um
dédalo inextricável de contradições, precipitação cega para a autodestruição,
sabedoria incerta e falha, dissipação incontida, construção desconexa, onde as
partes não se adaptam, incompleta, corroída pela maldade, pelo cansaço, pela
dor, pela morte. Porém tanta imperfeição e corruptibilidade é apenas externa,
aparente. Um olhar mais profundo, como a síntese intuitiva, descobre um
universo que funciona perfeitamente como desenvolvimento lógico, potência
construtiva, sabedoria e segurança de ação, conexão de partes, capacidade de
compensação e reparação, enfim, um organismo completo, incorruptível,
inexaurível. Somente se soubermos chegar ao centro, isto pode tornar-se
evidente. Somente agora pode ser compreendida a oração de A Grande Síntese (cap. LXVII: "A Prece do Viandante"):
"Nada posso pedir-te, Senhor, porque na tua Criação tudo é perfeito e
justo, até meu sofrimento e minha momentânea imperfeição..." Portanto, o
que se procura é a própria adesão à vontade de Deus. A fórmula "pulsate et aperietur vobis"[18],
pertence ao plano humano; o "fiat
voluntas tua"[19], ao
super-humano. De fato, Cristo, no Getsêmani, usou esta última. É esta a
diferença da oração do involuído e do evoluído.
Se o involuído sofre sem compreender
sua dor e sua função, o evoluído, de superconsciente culto, compreende-as perfeitamente.
Exalta-se na luta entre consciente e superconsciente, como na elaboração
criadora. Sente-se dividido entre dois extremos, perseguido pelo desejo
insaciável de se completar. Os dois extremos de seu ser estão em mundos opostos,
o espírito de um lado, o corpo de outro, querendo cada qual dominar tudo
sozinho, desencontrando-se no consciente. Que brilho intenso provoca esta
batalha! A pátria terrena impõe-se por suas necessidades práticas, mas do
íntimo chama com voz possante a longínqua voz do céu. Há olhos insensíveis,
mudos, vazios, sem alma, inertes e silenciosos. Há olhos cheios de tempestades,
onde se vê lutarem as forças do espírito, onde se sente a atmosfera vibrante
dos grandes esforços construtivos, olhos abertos também para outro lado da
vida, revelando-nos sua complexidade, falando de coisas misteriosas e
longínquas, ultrapassando os limites, enxergando até no abismo do universo
interior de onde emergem, resplandecendo da luz que dele emana. Falam-nos de
outros mundos que viram, trazendo-nos recordações em seus olhares, esses olhos
que choraram e pediram, deixando transparecer neste mundo a imagem neles
impressa da divindade. Se soubermos entendê-los teremos o testemunho da outra
realidade distante que foge aos sentidos e não se manifesta neste mundo.
Fragmentou-se a personalidade, porém
não se quebrou por completo. Foi lançada na discórdia, mas pode se reconstituir
na harmonia. Perdeu sua plenitude, está condenada a viver à custa de
ininterruptas substituições, ligada às vicissitudes da vida e da morte que a
impelem além ou aquém do limite; contudo, sua ascensão é lei fatal; fatalidade
de culpa, fatalidade de evolução, inevitável e necessária conquista de
felicidade. Se a dor e o esforço são impostos, do mesmo modo seus preciosos
frutos. Olhando-se o exterior fica-se pessimista, procurando o íntimo das
coisas, a única conclusão possível é o otimismo. A injustiça é aparente, a justiça
real. Se a vida é penosa, também a lei de Deus, continuamente se esforça para
eliminar as más inclinações, para libertar a luz das sombras, o bem do mal, a
alegria da dor, procurando transformar o Getsêmani em glorificação. Através de
infinitas oscilações entre um e outro pólo de sua existência, o eu renasce,
cicatrizando a grande ferida da separação. Um dia, elevados sempre mais para o
Alto, compreenderemos como era necessária a prisão do espírito no corpo, como
este irmão menor era instrumento de perfeição, como era inevitável o impacto da
matéria inimiga para se fortificar a resistência, instruir-se com a
experiência e reconstruir através de provas e dificuldades. Compreenderemos
então quanta sabedoria se originou da prisão no tormento da contradição
íntima, algemados a um inimigo, rodeados por um ambiente de assaltos e
negações. Compreenderemos a utilidade de nos unirmos ao inimigo, completamente
imersos na luta incessante, universal e inevitável, destruidora, mas reconstrutiva.
XXIX
S. FRANCISCO NO MONTE
ALVERNE (1ª PARTE)
Chegamos, finalmente, a estes últimos
capítulos, em que o trecho de caminho percorrido neste livro se fecha numa
pausa; depois dessa pausa, talvez continue mais para adiante. Este novo
episódio pára no ponto culminante de sua manifestação, retira-se para o outro
extremo da eterna oscilação do ser, mudando para dentro o sentido de seu
deslocamento a fim de, após haver narrado e demonstrado, poder atingi-la de
novo. De fato, a vida processa por meio desse deslocamento alternado, de
dentro para fora e de fora para dentro, as duas fases inversas de todos os
atos. A oscilação pendular entre tese e antítese, segundo a qual tudo se move e
se equilibra, impõe que a introspecção e a manifestação se sucedam no tempo.
Ao longo de nossa caminhada neste
volume, a vastidão dos problemas sociais foi gradativamente diminuindo, à proporção
que se aprofundava na complexidade do problema individual; o campo
apequenou-se, mas o potencial se elevou. Até mesmo na forma, portanto, este
livro reproduz o fenômeno evolutivo, que lhe constitui o problema central. Partimos
do problema dos grupos, da questão social coletiva, que por causa da extensão e
involução se coloca na base da pirâmide humana, e subimos até o problema dos
pouquíssimos evoluídos, à questão individual, que se coloca no vértice dessa
pirâmide. Alcançamos, desse modo, alturas a que a massa não pode aspirar, a
formas de vida que apenas podem ser atingidas pela excepcional emersão
biológica. Completamos, assim, uma oscilação entre os dois extremos da vida
humana: o coletivismo e o individualismo. De fato, ao progredir, a história
oscila entre o sistema social igualitário e disciplinador de multidões e a
exaltação do indivíduo excepcional, autônomo e rebelde, e, graças aos dois
extremos contrários, se compensa e se completa. O sistema social, coordenando
os elementos necessários, disciplina-os, constrói o indivíduo; da emersão do
indivíduo resulta o sistema. Ambos estes termos são necessários e colaboram no
mesmo processo biológico de evolução. Agem alternadamente na História e assim
equilibram suas funções, no que têm de contraditórias. O progresso alimenta-se
nas duas fontes. Agora, depois de havermos tratado dos numerosos problemas das
multidões e chegado às bordas do abismo da personalidade, o último passo tem de
necessariamente colocar-nos mesmo no ponto culminante da evolução humana, além
do qual o espírito se desembaraça da forma corpórea para assumir formas
superiores, que por enquanto nem mesmo podem ser concebidas pelo homem comum.
Para chegar, porém, a esse ponto devemos percorrer de novo o caminho todo e ir
subindo aos poucos, através de vários problemas, esgotando antes de mais nada
até mesmo o da personalidade humana. O de que agora vamos tratar representa um
de seus casos particulares mais evoluídos e complexos. Trata-se de emersão
escolhida entre as mais conspícuas e espirituais, embora não seja nem a única
nem tenha apenas esta forma.
Todos obedecem aos impulsos
expansionistas do eu. A expansão constitui a primeira e mais evidente expressão
vital. Este é o esquema do ser: manifestar-se por meio de individuações
sintéticas, resultantes de concentração de forças no eu, mas subordinadas a
inverso período de descentralização, por força do qual a personalidade humana
se manifesta como sistema expansionista. Desse modo, o binômio se completa e
os impulsos se equilibram. Mas, para a maioria, essa expansão se dá
horizontalmente, em superfície, e verticalmente, em altura, se se trata de
emersão biológica. A expansão do tipo normal dirige-se à posse, que, por reciprocidade,
significa sujeição; a expansão do super-normal se dirige para a liberação e
isso quer dizer domínio. O normal, inexperto, vítima da ilusão, tenta dominar,
mas acaba sendo dominado, procura libertar-se e acaba agrilhoando-se. Conhece
apenas a expansão terrena e, por isso, mostra-se avidíssimo, como hoje
acontece, de munir-se de energia, necessária para aumentar seu raio de ação em
superfície e sua capacidade de ação em profundidade, de modo a que a afirmação
de si mesmo atinja a matéria o mais extensa e profundamente possível. Mas,
desse modo, não toma conhecimento da expansão vertical, que lhe escapa à
percepção e com ela a conquista do volume, quer dizer, de uma dimensão
superior. As duas atitudes em face da vida correspondem a duas posições e a
duas concepções totalmente diversas. O primeiro tipo revela-se muito pequeno,
espiritualmente falando, para que. não possa alojar-se comodamente na
pequenina casa do corpo. Sua única ambição consiste em ampliá-la, de modo a
construir para si mesmo prisão cada vez mais bela e vasta e a anexar-lhe todas
aquelas dependências do corpo chamadas posse, riquezas, honras, poder. O
evoluído revela-se muito desenvolvido espiritualmente para que não se sinta
sufocar no ambiente terrestre. Prova a sensação que sentiria um animal
transformado em planta. Com efeito, a vida física, se a compararmos com a
ilimitada liberdade de movimentos do espírito, poderá parecer, a quem já a
experimentou, como a imobilidade da árvore comparada com a agilidade dos
animais. O evoluído, prestes a sair da crisálida terrena, e que já saboreou a
vida em dimensões super-espaciais e super-temporais, sente de fato os grilhões
do corpo e do limite imposto, nas dimensões exatas, ao plano evolutivo da
matéria. Sente a angústia da vida terrena, tolera-a como expiação ou missão,
não espontaneamente, mas por dever; seu íntimo impulso expansionista, porém,
segue rumo vertical, não tem em vista a ampliação e o enfraquecimento da
prisão, mas liberta-se dela. Não há outro sistema sério para resolver as dores
da vida. Descobriu os truques da ilusão e não se deixa mais iludir. Já sabe que
os domínios humanos, na realidade, não passam de servidão e, por isso, não se
dispõe a consegui-los mais; reconhece serem eles necessários para os
primitivos, como meio de experimentação, compreende-lhes a função nesse plano;
não pode, porém, aceitá-lo, pois executa trabalho completamente diferente. É
justo que, de acordo com sua capacidade, cada um maneje na vida os instrumentos
a que mais se adapte. Quem sabe, porém, dá a cada um deles o valor que merecer.
Assim, o evoluído recusa uma fingida extensão de domínio, que para ele se
resolve em mentira, pois em substância é, isso sim, aumento de escravidão;
assim, repele as miragens que o ligam aos grilhões da posse, torna-se o mais
possível independente de tudo e de todos e volta as costas a todas as conhecidas
lisonjas da vida. Não faz questão de superioridade, mas de maturidade. Cada um
de nós exerce a função exata no seu plano, e está no lugar certo. Mas também
está na lei de justiça e equilíbrio que todos os que aprenderam a desempenhar
funções mais elevadas devem ir exercê-las onde isso se torne possível, quer
dizer, em outros mundos, mais adiantados e mais adequados. A natureza,
econômica como é, conhece muito bem e, por isso, não desperdiça os seus
valores; o funcionamento orgânico do universo e a grande marcha evolutiva não
podem parar; a ascese, depois de realizada intimamente, imp5e inexoráveis
mudanças, inclusive à forma. O ciclo deve continuar na fase seguinte, o fruto
maduro deve destacar-se da árvore, o homem evoluído deve destacar-se da
humanidade. Por mais que, por bondade, humildade, ou amor, se dedique a seus semelhantes,
o evoluído é irresistivelmente impelido, cada vez mais para cima, no aflitivo
turbilhão da vida.
Fechemos o pedaço de caminho percorrido
neste livro, contemplando esse momento sublime através de um. caso excelso em
que um tipo de personalidade madura, foge, como se fora um projétil, do campo
das atrações terrestres e se atira no espaço infinito. O fruto, elaborado e
amadurecido no ponto mais alto das ascensões biológicas, o produto mais bem
acabado da vida humana, destaca-se da árvore que o produziu. Bem próximo da
morte, em que ele ressurge, no limiar de vida muito mais ampla, veremos um ente,
que, embora pareça, não é mais humano, nascer para a realidade iminente de um
mundo superior que se abre diante dele. Revela-se-lhe ele como supremo lampejo
espiritual sobre o tripúdio de paradisíacas sensações interiores. Esse mundo
constitui o céu de Cristo; o ser, que, embora pareça, já não e mais humano, foi
Francisco de Assis; o momento sublime, da derradeira ruptura das órbitas
terrenas e do lançamento no infinito, se passou, num incêndio de luz e amor,
nos cimos do Monte Alverne.
Relatemos a singela história dos Fioretti, acrescentando à citada no
volume Ascese Mística (Cap. XV - Segunda Parte) a dos precedentes do
maravilhoso acontecimento aproximava-se a festa da Cruz de setembro; certa
noite, na hora em que se costuma rezar as matinas, frei Leão foi ter com São
Francisco; e, tendo dito da cabeceira da ponte, como se costumava, Domine, labia mea aperies[20],
São Francisco não lhe respondeu; frei Leão não voltou para trás, como São
Francisco lhe ordenara; mas, com boa e santa intenção, atravessou a ponte,
entrou-lhe devagar na cela e, não o encontrando, supôs estivesse ele na
floresta, ou finalmente, entregue à oração em algum lugar; saiu e, à luz do
luar, foi procurando-o cuidadosamente na floresta. Finalmente, ouviu a voz de
São Francisco e, aproximando-se, viu-o de joelhos e com o rosto e as mãos
voltados para o céu; e com grande fervor perguntava: Quem sois, ó Deus,
dulcíssimo senhor meu? E quem sou eu, vosso vilíssimo servo? E repetia sempre
as mesmas palavras e não dizia mais nada. For isso, frei Leão ficou muito
admirado, levantou os olhos e fitou o céu; e viu vir descendo belíssimo e
esplêndido facho de fogo, que pousou sobre o corpo de São Francisco; e da
chama ouvia sair uma voz que falava com São Francisco; mas frei Leão não
distinguia as palavras. Quando viu isso, julgando-se indigno de estar assim tão
perto daquele santo lugar, onde se dava aquela admirável aparição, e, além disso,
temendo ofender a São Francisco e perturbar-lhe a consolação, caso São
Francisco lhe percebesse a presença, afastou-se silenciosamente e, ficando de
longe, esperava ver o fim de tudo aquilo. Olhando atentamente, viu São Francisco
estender três vezes as mãos na direção da flama: finalmente, depois de grande
espaço de tempo, viu a chama voltar para o céu. Então, mexeu-se e São
Francisco percebeu-lhe a presença, por causa do barulho de seus pés esmagando
folhas, e disse-lhe que o esperasse e não se movesse do lugar. Então, frei
Leão, obediente, ficou parado e esperou-o... São Francisco, aproximando-se,
perguntou-lhe: Quem és? Frei Leão, tremendo, respondeu: Sou frei Leão, meu pai!
E São Francisco lhe disse: Por que vieste até aqui, frei carneirinho? Não te
disse eu que não me andasses espionando? Diz-me, em nome da santa obediência,
se viste ou ouviste alguma coisa. Frei Leão respondeu: Pai, ouvi-te falar e
dizer muitas vezes: Quem sois, é dulcíssimo Deus meu? E que sou eu, verme
vilíssimo e inútil servo vosso? Em seguida, lhe pede devotamente lhe explique
as palavras que não havia compreendido. Então, vendo São Francisco que Deus
concedera ao humilde frei Leão, por sua simplicidade e pureza, a graça de
contemplar algumas coisas, concordou em revelar-lhe e expor-lhe o que ele
pedira; e falou assim:... Naquela flama que viste estava Deus, falando-me sob
aquela mesma aparência com que outrora falara a Moisés....... Mas, toma
cuidado, não andes espionando-me por aí e volta para a tua cela, com a bênção
de Deus e toma bem conta de mim: pois dentro de poucos dias Deus fará tão
grandes e maravilhosas obras neste mesmo monte que todos ficarão maravilhados;
e fará, também, algumas coisas novas, que Ele nunca fez em proveito de criatura
alguma deste mundo.... Daquele momento e daquele ponto em diante, São
Francisco começou a libar e a sentir mais abundantemente o dulçor da divina
contemplação e das visitas divinas. Entre elas, uma, logo depois, preparatória
da impressão dos Estigmas. Foi assim. Na véspera da festa da Cruz de setembro,
estava São Francisco em oração na sua cela, quando o anjo do Senhor lhe
apareceu e lhe disse da parte de Deus: Vim confortar-te e recomendar-te que te
prepares e te disponhas, humildemente, e com toda a paciência, para receber o
que Deus quer fazer em ti. São Francisco respondeu: Estou preparado para
suportar com paciência tudo quanto meu senhor queira fazer em mim; e dito isto,
o anjo partiu. No dia seguinte, isto é, no dia da Cruz, São Francisco, por
ocasião das matinas, de madrugada, se pôs a orar diante da porta da cela, com o
rosto voltado para o Nascente; orou, e permanecendo por muito tempo em oração,
começou a contemplar devotamente a Paixão de Cristo e sua infinita caridade;
tanto cresciam nele o fervor e a devoção que, por amor e compaixão, todo ele se
transformava em Jesus. Estando assim inflamado nessa contemplação, nessa manhã
mesmo viu descer do céu um serafim com seis resplendentes e flamejantes asas e,
voando velozmente, aproximou-se de São Francisco ao ponto de este poder
discernir e ver perfeitamente haver nele a imagem dum homem Crucificado;
(....) Estando imerso nessa admiração, foi-lhe revelado pela aparição que a
Divina Providência lhe proporcionava aquela visão a fim de que compreendesse
dever transformar-se, não por martírio corporal, mas incendendo-se mentalmente,
em imagem perfeita de Cristo crucificado. Durante essa aparição admirável,
todo o Monte Alverne parecia arder em chamas esplêndidas, que, como o sol,
iluminava os montes e os vales dos arredores; os pastores, que velavam por ali,
vendo o monte em chamas e tantas luzes em torno, ficaram com muito medo, isso
de acordo com o que mais tarde eles mesmos contaram aos frades, dizendo-lhes
até que as chamas permaneceram sobre o Monte Alverne pelo espaço de uma hora.
Assim também, diante da claridade dessa luz, que resplendia nas janelas das
estalagens da região, alguns muladeiros se levantaram na Romagna, crendo haver
surgido o sol material, e carregaram seus animais: e, tendo-se posto a caminho,
viram a referida luz apagar-se e aparecer o sol material. Na aparição
serafínica, Cristo manifestou-se e disse a São Francisco algo secreto e
sublime, que São Francisco jamais quis revelar a pessoa alguma... Depois de
grande espaço de tempo e de colóquio particular, a admirável visão desfez-se,
deixando o coração de São Francisco abrasado em vivo fogo de amor divino: e
deixou-lhe na carne maravilhosa imagem e estigmas da Paixão de Cristo. Nos pés
e nas mãos de São Francisco começaram a surgir os horrendos sinais dos pregos,
exatamente como a visão lhe mostrara no corpo de Jesus crucificado, que lhe
aparecera sob a forma de serafim; e, assim como as mãos e os pés do serafim
apareciam com as marcas dos cravos, também as de São Francisco tinha impressa,
nas mãos, nos pés e no lado, a imagem e semelhança de Cristo crucificado.
Embora se empenhasse em esconder os gloriosos Estigmas, tão nitidamente
impressos em sua carne, a necessidade obrigou-o a escolher frei Leão, o mais
simples e puro dos frades, ao qual tudo revelou, deixando-o ver e tocar aquelas
santas chagas e enfaixá-las em trapos para mitigar-lhes a dor e receber o
sangue que delas saía. Finalmente, tendo São Francisco terminado a quaresma de
São Miguel Arcanjo, se dispôs por divina revelação a voltar para Santa Maria
dos Anjos, como, juntamente com frei Leão, lhe era conveniente voltar. Assim
partiu e desceu o santo monte".
Isto nos contam as “Fioretti”, deixando
os acontecimentos envoltos numa atmosfera de lenda e sonho. Que há de objetivo
e real nesta narração? O fenômeno aqui é visto de longe, do plano comum da vida
humana; do super-normal não se vêem senão efeitos físicos, aquilo que pode ser
percebido pelo normal. Não chega até nós senão uma projeção dos fatos nos
sentidos. A história depois passou de boca em boca e quem nô-lo narra não o
assistiu, nem viu de perto qualquer testemunho; somente frei Leão sabe alguma
coisa. Não recebemos senão um pouco de luz vista de longe, através do espaço e
do tempo, de reflexo, filtrada pela psicologia dos narradores. Para nos
aproximarmos do fenômeno é necessário penetrá-lo, reencontrá-lo cada um por
si. Da redução por nós percebida, devemos tentar alcançar o seu esplendor
primitivo, revê-lo em sua realidade; devemos não somente observá-lo, mas
procurar senti-lo e revivê-lo como realmente aconteceu. Isto é possível pelos
caminhos do espírito. O olho normal, que vê o exterior e não sabe penetrar até
às realidades espirituais, não percebo senão indícios. Não temos aqui a
história do que realmente aconteceu, mas de uma parte desse fenômeno grandioso
que pôde se refletir na pequenez do olho comum. Este não poderia perceber com
clareza o super-normal, que portanto lhe aparece envolto em névoas de
mistério, como algo velado, perdido nas alturas do milagre. Para a comum
percepção concreta, o mundo espiritual desaparece no irreal. Mesmo as vidas do
Santo narram genericamente, sumariamente este momento, que não só é o ápice de
sua perfeição, como o é também de toda a humanidade em sua subida à procura de
Deus e do espírito. Momento crucial, decisivo da evolução, libertando o ser da
animalidade humana, fuga ao mundo, às suas restrições, ao nosso modo de viver
e sentir, para entrar numa fase de vida mais elevada, exaltação do amor até à
divindade. O olho normal do historiador não vai além dos efeitos físicos, não
penetra a substância, não pode, portanto, dar-nos a realidade destas exceções.
A história pára no exterior, sendo-nos de pouca valia. Por isso mesmo não pode
dar-nos detalhes de coisas profundas, esfumando-se em lendas. No campo místico,
milagroso, fora de nossa realidade, rodeado de luz mas muito distante e irreal,
o fenômeno foge à sua percepção, tornando-se inacessível à nossa experiência, à
nossa observação objetiva.
Realmente não é nada fácil avizinhar-se
a fatos semelhantes. Por momentos parece que o mesmo fenômeno pudicamente se
mostra envolto em mistério, porque lhe repugna tomar forma material; parece
que lhe seja impossível ou não lhe seja permitido apresentar-se claramente, ao
olho humano, sob a luz crua dos sentidos e que é preciso encontrá-lo mais por
meio da fé, que por meio da crítica histórica e científica. Sente-se que o
profano é justamente desprezado. A própria natureza do fenômeno o exige. Não é
permitido ao olho vulgar, além da homenagem que deve prestar à santidade, o
direito de penetrar no sagrado retiro de mistério onde se ouve a voz de Deus.
Trata-se de coisas altas e sublimes, que neste mundo de matéria e de armas se
desfazem, existem e não existem, e, se nos aparecem, procuram e devem se
esconder para a própria defesa, prestes a desaparecer no imponderável,
horrorizadas pelo contato brutal com a matéria terrena. Estes fenômenos,
portanto, não podem aparecer neste mundo em plena luz. A maioria só é possível
crer e venerar. Segue-se daí que as mentalidades racionais e cientificas
voltam-se para outras coisas, sentindo-se, por tudo isso, autorizadas a
classificar o fenômeno entre os fatos da arte, da lenda, do sonho e nada mais,
chegando ao extremo de duvidar de sua realidade objetiva, negando tudo
materialisticamente.
Os fatos são bem diversos. O fenômeno
realmente existiu. Ê racional e cientificamente possível. Para afirmá-lo e
demonstrá-lo, como o faremos, é necessário primeiramente tê-lo reconstruído e
sentido por meio da intuição e da fé, tê-lo vivido interiormente, no espírito,
para reduzi-lo aqui em forma racional e compreensível, porque o fenômeno, em
sua profunda realidade, não pode fazer-se sentir ou ser narrado; como percepção
direta é incomunicável a espíritos comuns Isto não significa destruí-lo, mas
reforçá-lo, já que sua realidade, de outro modo, fugiria, sendo portanto
facilmente negada. Achegar-se a ele para melhor compreendê-lo não é
irreverência. Assim poderemos analisá-lo e, analisando-o, explicá-lo,
defini-lo, mostrando sua realidade objetiva, elevando-o assim a mais elevado
significado. Estudando sua estrutura íntima não negamos nem diminuímos sua
supernormalidade, antes a confirmamos. O prodígio compreendido, continua sendo
prodígio, mesmo tornando-se-nos mais acessível e capaz de imitação. A intuição
é compreensão e amor, não destruição; avizinha-nos e não nos afasta desse modo
espiritual onde se dão tais fenômenos. Trata-se de fazer sentir o irreal como
real, fazendo-o descer das alturas onde se encontra até este nosso mundo
racional. E se também esta procura não tiver, por imperfeição de seu
instrumento humano, a capacidade de conseguir o escopo desejado, ficará,
contudo, como tentativa honesta, feita com fé e em boa-fé, inspirada não por
desejos de destruição, mas de construção espiritual.
Entramos no mundo da realidade
supersensória imponderável, situada no pólo oposto da realidade sensória e material
de nosso mundo terreno. Já falamos de S. Francisco em diferentes fins e
sentidos nos volumes As Noúres (Cap.
IV) e Ascese Mística (Cap. XV -
Segunda Parte). Para podermos nos avizinhar ainda mais a Ele, é necessário
nova caminhada da fadiga e dor de onde nasceu o pensamento destas páginas de
conclusão. Somente após esta nova maturação, depois de estabelecidos e
resolvidos novos quesitos, é possível encarar racionalmente tão complexo
problema para o qual convergem tantos outros presumindo outras tantas
soluções menores. Podemos pormenorizar mais ainda, aplicando tudo isto a um
caso real. Neste trabalho de caráter sobretudo racional e de pesquisa, falamos
presentemente ao homem racional em particular, ao homem que não crê e não
sente, para fazer que também ele compreenda este raro e incrível fenômeno
vivido por S. Francisco no Alverne, seu significado científico, evolutivo e
biológico: além disso, para dar a nós mesmos base lógica aos arroubos de fé e afirmações
místicas e intuitivas desenvolvidas sobre este argumento em outros volumes.
Antes tais fenômenos poderemos não só crer e venerar, chorar e amar, mas
também pensar e compreender. O do Alverne tem seu lugar e naturalmente se
enquadra, também ele, na filosofia dos fenômenos que vimos desenvolvendo em A Grande Síntese e nesta explanação.
E nestes capítulos conclusivos que se
confirmam as teorias precedentes que para aqui convergem recebendo explicação
e encontrando aplicação lógica. O cap. XXV, deste volume, sobre o dualismo
universal fenomênico distingue duas vidas, exterior e interior, material e
espiritual. Trata-se de dois mundos diversamente constituídos. O fenômeno do
Alverne pertence ao segundo. Vimos como é individualizado e caracterizado
por ritmo próprio, por uma forma de vida. Vida que é expansão para o intimo,
introspectiva, intuitiva, ativa, espiritual, incorpórea, desenvolvida como
qualidade, evoluída; ritmo de ondas curtas, alta freqüência e potencial, de
sintonização noturna, azul, lunar, supersexual e supersensória; tipo biológico
solitário, silencioso, sofredor, sensitivo e pacífico, negação do mundo.
Tais as características dos fenômenos espirituais entre os quais, embora de
nível infinitamente superior, se inclui o fenômeno de Alverne. Segundo a lei do
dualismo, estamos no pólo oposto do ritmo e forma de vida material da
animalidade humana, cujas características são opostas. O não-ser no mundo da
matéria estabelece no espírito o ser do mundo imponderável. Eis o que se nos
apresenta atualmente. A visão não é sensória, exterior, mas interior: é
contemplação. A vida vegetativa é mortificada por jejuns, renúncia,
sofrimentos. O ser vive de vida sutil de notas agudas, penetrante, intensa,
poder-se-ia dizer, de alta voltagem, quase imaterializando-se em forma de
energia radiante, constituída de ritmo vibratório. A exaltação vital está toda
na expansão espiritual. A projeção dinâmica do ser dirige-se para a
substância, o absoluto, Deus. A forma, o relativo, as coisas terrenas estão
superadas. O tipo biológico já superou a fase da evolução humana, separando-se
de nossa forma de existência e alcançando outra mais elevada. O ritmo da vida
animal se transformou, através do longo caminho da evolução em ritmo de vida
espiritual. O transformismo evolutivo superou a fase humana, alcançando outra
superior, mais aproximada à divindade. Eis as características do fenômeno de
Alverne e do seu protagonista.
Nossa pesquisa não o destrói; exalta-o.
Tudo o que dissemos neste volume mostra-nos como verdadeiramente alcançou o
limite supremo da evolução humana, estando aqui em seu verdadeiro lugar, na
conclusão deste tratado, no vértice da pirâmide humana, no ponto supremo da
evolução. Possui em sua mais legítima forma, embora em relação a seu tipo, as
características do evoluído que indicamos como meta dos esforços humanos, como
modelo do futuro tipo biológico. Esta conclusão nos mostra S. Francisco neste
momento entrando triunfante nos umbrais de um mundo super-humano. Alverne
representa precisamente um caso típico do fenômeno final da evolução humana;
por isso foi estudado no fim destas considerações. Vemos aqui o esgotamento
da vida no plano físico (o organismo consumido pelas penitências), a sua
ressurreição no plano espiritual, a extinção do dinamismo animal pela
deterioração e a sua ressurreição em forma radiante. Vemos S. Francisco
alcançar um estado espiritual que representa o mais alto potencial suportável
na fase da evolução humana, seu limite supremo além do qual a forma material se
extingue. Chega-se a este estado por etapas, pois a freqüência de vibrações, o
aumento de ondas, e a obtenção de potencial elevado progridem paralelamente,
desde o pensamento concreto que não sabe existir senão se materializando em
ação, até as ondas cerebrais do pensamento simples e comum, e sucessivamente ao
pensamento abstrato, à intuição do gênio, à oração sempre mais elevada, ao
êxtase e união espiritual com Deus. Trata-se de ondas cada vez mais rápidas,
portanto, mais penetrantes, mais poderosas,, mais imateriais. Por fim, o
espírito consegue a forma radiante, imaterializada, independente da forma
corporal.
O enfraquecimento do organismo age, no
presente caso, como revelador da personalidade espiritual. As leis da fome e do
amor (cf. História de um Homem, cap.
XXIII: "O Evangelho e o Mundo") já estão superadas. O amor, por fim,
se desmaterializou com funções puramente espirituais (cf. A Grande Síntese, cap. LXXXII - "A
Evolução do Amor"). Para aqui convergem, e aqui se aplicam as teorias expostas
anteriormente. A dor, transformada em perfeita alegria, cumpriu toda sua
função criadora e é parte integrante do fenômeno de transumanização do Santo.
Acham-se fechadas as portas do vício, abrem-se as portas da virtude, e o ser,
impelido e guiado pela renúncia, corre para elas a expandir-se. O fruto do
martírio já está maduro; o espírito afinal, depois de tantas lutas com a carne,
triunfa; a vida, outrora mortificada, ressurge mais intensa. O processo
construtivo-destruidor da evolução chega ao ápice de sua fase humana. O
fenômeno do Alverne confirma completamente todas as nossas afirmações
precedentes. Havermos concebido o fenômeno espiritual como fenômeno igualmente
biológico deu-lhe mais força ao mesmo tempo que encontrou para os mesmos uma explicação
científica e racional. A maceração dos santos não é mais utopia ou crença, mas
processo evolutivo, método de imaterialização e espiritualização, isto é,
impulso à degradação biológica que é condição para a ressurreição espiritual
no imponderável, elemento indispensável ao aceleramento da freqüência no ritmo
da vibração e transformação do potencial impulsionador da evolução. Sua meta é
a harmonização na ordem divina; e que harmonização maior com a criação e Deus
que a realizava no Alverne? Cessou todo o barulho, a alma fundiu-se em paz na
vontade divina, e a criação naquela noite sublime faz eco, em sua ordem
material, à ordem espiritual, sintonizando-se e fundindo-se numa única
harmonia. Para confirmar quanto dissemos no cap. X, deste volume, - "O
Problema do Mal" - vejamos neste caso como, quando o ser chega a um
vértice da evolução, alcança relativamente sua autodestruição, depois de
cumprir seu dever a serviço e triunfo do bem.
Enquanto o cap. XXV, idem, nos dá elementos para definir e classificar o fenômeno de Alverne e as características biológicas do ser que o vive, o cap. XXVI, idem, sobre o dualismo da vida, dá-nos a estrutura interior e funcional do mesmo fenômeno. Somente confrontando-o em relação à função orgânica do universo é que poderemos compreendê-lo. Trata-se de um fenômeno de sintonização entre o humano, levado pela evolução até às portas do super-humano, e o divino. Para chegar a isto, o ser deve conseguir uma forma de vida de ritmo vibratório tão sutil e poderoso que possa penetrar no âmago das coisas e ai harmonizar-se com a ordem interna da criação. Só o evoluído é capaz de captar e perceber as radiações da realidade interior do espírito. As vias de comunicação não são, portanto, as normais, exteriores, sensórias, mas interiores e imateriais. Precisamente no já citado cap. XXVI sobre o dualismo vital, observamos o mecanismo destas comunicações por via interior com o mundo imaterial do espírito, e mostramos sua realidade tão objetiva quanto a realidade deste nosso mundo material. A percepção, nestes casos, segue canais de volta correspondentes em posição contrária aos canais normais de ida, em um caminho sensório que não vai do interior para o exterior. Neste caso os órgãos sensoriais são sujeitos a vibrações provenientes do interior, nada tirando à existência objetiva da realidade excitante de percepções das quais resulta o fenômeno. E é natural que quanto mais a vida se muda de sua forma material em espiritual, tanto mais nela se normaliza esta nova forma de sensibilidade, pela qual se substitui a percepção fisiológica direta e normal por uma percepção super-normal, inversa e espiritual. O processo é facilitado, como já dissemos, pela deterioração física (degradação biológica) e depende do grau de imaterialização (momento destrutivo) e espiritualização (momento reconstrutivo) alcançado pela evolução. Vimos como, no caso normal, as várias partes de caminho, por percepção visual, são: objeto externo, lente ocular, retina, nervo óptico, cérebro e espírito. Na última etapa a corrente dinâmica deixa qualquer base física, imaterializando-se em forma radiante. Mas vimos que não só o mundo externo mas também o interno e imponderável da personalidade, podem ser geradores de vibrações. O mundo do espírito, que se abre para as alturas da evolução, isto e, em direção à divindade, acha-se deste lado do ser e não do lado sensório exterior. Está dentro de nós, no intimo, dirigido ao cerne das coisas e dos seres, onde está a substância, o absoluto, o imutável, e não a periferia onde se encontra a forma, o relativo, o transitório. A evolução é elaboração levada sempre para o mais profundo do ser, isto é, despertar e viver sempre mais perto de Deus. As percepções e manifestações espirituais vêm daí: a alma as consegue segundo o grau de sutileza e transferência conseguido por seu invólucro material; a realidade excitante, neste caso, está situada não no exterior, mas no interior, e a sensação é o último produto de um esforço inverso ao precedente normal, isto é, como dissemos, de uma inversa percepção espiritual super-normal. Os termos deste caminho inverso percorrido são: espírito, cérebro, nervo ótico, retina. A fonte da corrente dinâmica excitadora da percepção, não está mais no ambiente material externo, mas no ambiente espiritual interno. Tratando-se de radiações espirituais, não podia estar em outro lugar. A sede natural dos fenômenos espirituais e de sua origem, é precisamente o mundo interior, do espírito, mundo que se abre para a divindade que está em nosso interior, no centro do universo, e não na periferia do ser. Somente o involuído, incapaz de sentir uma realidade diferente de seu mundo físico pode crer que estas realidades sejam inconscientes e inexistentes, unicamente porque escapam a sua percepção. No entanto para quem consegue sentir profundamente nada há de extraordinário. Não sabem todos que a mesma e solidíssima matéria, em sua essência é imponderável? A ciência já não nos mostrou que logo que penetramos na íntima essência das coisas, tudo se imaterializa? Imaterializar-se significa espiritualizar-se, passar da forma transitória à eterna substância, da ilusão à realidade, do relativo ao absoluto, o que é o mesmo que caminhar para Deus.
Eis, portanto,
como aconteceu o fenômeno do Alverne. O dinamismo originário é radiante, movido
por estados vibratórios de substância imaterial adequada ao mundo espiritual.
O cérebro capta e registra, como se fora receptor radiofônico, esse dinamismo
transmitido sem fio. Assim, a realidade espiritual se concretiza em imagem que,
através do nervo ótico, é conduzida à retina e gera a percepção ótica.
Obtém-se, portanto, sob forma sensória, a equivalente expressão do
imponderável, de outro modo impossível de traduzir em termos de sensação.
Observando os olhos do indivíduo inspirado (os de T. Neumann, por exemplo),
sentimos que, apagados para o mundo, não vêm coisa alguma da realidade
exterior, mas contemplam, como verdadeiro vidente, vaga e profunda realidade.
Já expusemos os princípios do fenômeno e, até mesmo, já os aplicamos. O olho,
de fato, registra uma projeção, com resultados visuais, não oriundos, porém, de
realidade externa, mas de realidade interna. natural que os fenômenos
espirituais, evolutivamente mais elevados, não possam ter sede e origem na
periferia, no exterior, na forma, que é menos evoluída, mas apenas no centro,
na parte de dentro, na substância; é, também natural que, por força do
principio de dualidade, esses fenômenos se transmitem de maneira inversa da dos
fenômenos materiais. Não se trata de alucinação nem de ilusão ótica. Nossos
olhos, quando olham para dentro de nós, vêem tão realmente como quando olham
para fora. Tudo se resume em saber olhar, em saber sentir as vibrações do mundo
espiritual, e, principalmente, em possuir um mundo espiritual dentro de si
mesmo. O próprio vácuo interior é que nos leva a acreditar na irrealidade
desse mundo. O supranormal é percepção do normal, que por isso lhe nega a
existência. Trata-se de um problema de potencial interior, de desenvolvimento
espiritual, de refinamento orgânico, de sensibilização conseguida por evolução.
Se o fenômeno ocorrido no Monte Alverne constitui caso sublime e excepcional,
para alguns temperamentos evoluídos, no entanto, é suscetível de
experimentação, embora em grau e sob forma diversos. Mas, torna-se necessário
que sejam evoluídos; ora, já vimos que no mundo domina o tipo oposto; além do
mais, na terra as opiniões são, em grande parte, elaboradas pelo tipo
involuído, para seu uso e consumo. Em face dessa psicologia, ninguém pode
sentir, compreender, nem admitir nada disso. E questão de adiantamento
evolutivo Necessário se torna seguir e amar essa realidade interior, servir-nos
ela de alimento e vivermos em contato estreito. É indispensável sintonizarmo-nos
com ela, através das preces, aproximarmo-nos dela por desmaterialização à custa
de sofrimento, destruindo em nós a animalidade humana. O fenômeno, que estamos
analisando, nos oferece tudo isso em grau elevado. Quando todas essas condições
se verificam nesse grau de intensidade e elevação, o fenômeno pode adquirir tal
potência que o dinamismo radiante originário não chega apenas a transformar-se
em visão, mas em fato objetivo até mesmo no que diz respeito à realidade
externa, como o caso, por exemplo, da lesão muscular dos estigmas. Então, a
imagem espiritual interior, não só se materializa sob a forma de imagem ótica,
mas consegue até mesmo impor-se às leis físicas e orgânicas comuns e a causar,
na carne, alterações permanentes das células e tecidos. Já vimos como,
relativamente à sua estrutura íntima, a própria célula não passa de movimentos
atômicos e cargas elétricas. As formas exteriores constituem apenas a ilusória
roupagem, resultado desse dinamismo imaterial. Quando reduzimos os fenômenos
materiais e espirituais ao seu denominador comum, quer dizer, à sua estrutura
cinética, aí compreendemos facilmente essas concomitâncias e correspondências.
Os efeitos verificados no fenômeno do Monte Alverne mostram o elevado grau de
potência radiante da fonte transmissora e a enorme capacidade sensitiva do
organismo receptor.
O fenômeno é, pois, perfeitamente possível e se verifica de acordo com as qualidades do indivíduo receptor. Quem não as possui não percebe coisíssima alguma. As radiações mais poderosas podem estar-lhe ao lado e, mesmo, envolvê-lo completamente: ele continua cego e surdo. A visão permanece na estreita dependência do estado e das qualidades individuais. O indivíduo imaturo fica do lado de fora, não é admitido a participar do fenômeno; sua visão exclusivamente exterior, não penetra na intimidade das coisas. Para ver-lhe a intimidade, torna-se necessário, sem dúvida, olhar de dentro de si mesmo para o interior das coisas. Assim, a historieta se limita à verificação dos efeitos, cujas causas3 refugiando-se no miraculoso, lhe escapam inteiramente. Frei Leão é o único que percebe alguma coisa. Vimos, pois, o fenômeno verificar-se no grau permitido pela potência espiritual, pelo desenvolvimento, pela maturidade evolutiva e pela intima sensibilização do sujeito. Tudo dependeu apenas dos seus poderes de percepção nesse campo. Desse modo, a visão só têm os indivíduos maduros; e, portanto, fato estritamente pessoal. Para que outros a percebam torna-se necessário que estejam nas mesmas condições de sintonização e recepção. Apenas proporcionalmente às suas capacidades espirituais é que podem sentir ou parte do fenômeno, como frei Leão, ou coisíssima alguma, como acontece na maioria dos casos. Isso é muito natural, tratando-se, como se trata, de, por meio das vias interiores, registrar formas imateriais que não encontram símile nas formas materiais do mundo exterior. Para perceber as formas materiais faz-se necessário possuir, e em bom estado de funcionamento, os correspondentes órgãos sensoriais; nada mais natural, portanto, que para perceber a realidade espiritual devamos possuir, e absolutamente livres, as vias interiores que nos põem em comunicação com o lado oposto, com o imponderável. O que pertence ao espírito não podemos percebê-lo senão com recursos espirituais, isto é, com processos diametralmente opostos aos nossos processos sensoriais comuns. A projeção da realidade interior (projeção ótica, acústica, tátil, etc.) fica limitada ao sujeito exclusivamente. Quando, porém, produz modificações no estado da matéria, o fenômeno torna-se domínio comum, principalmente se a alteração se revela permanente. Para os demais não resta senão o caminho da fé ou da prova, representado por esse último resultado atingido no seu plano material. Relativamente a isso, observemos que não se trata de materializações ectoplasmáticas, isto é, de novas formações em sentido mediúnico, mas de percepções e projeções do imaterial por vias internas e de transformações operadas na matéria já existente. Os fenômenos sempre se aproveitam da via de menor resistência, que, no caso do evoluído, é exatamente a via interior.
A simpatia
levou-nos a escolher S. Francisco, entre tantos outros, como tipo de evoluído,
para determo-nos apenas nesse setor particular das formas evolutivas. Mas
sempre se trata, sem dúvida, de ponto culminante, de homem que atinge a fase
super-humana e, no momento crítico, faz chegar ao nosso mundo, por seu
intermédio, reflexos do mundo superior a que ele pertence e que, embora sob
tantas formas diversas, representa o futuro da humanidade.
XXX
S. FRANCISCO NO MONTE ALVERNE (2ª PARTE)[21]
Depois de havermos racionalmente
individualizado, em suas características, o fenômeno do Monte Alverne, segundo
o esquema por nós aqui traçado de sua estrutura, agora procuremos compreender e
reviver, espiritualmente, esse grande acontecimento, na moldura em que a
História o enquadrou.
Quem ja subiu até ao alto do Monte
Alverne em Casentino e visitou a capela dos Estigmas terá lido a inscrição central:
"Signati, Domini, hic servum Tuum Franciscum, Signis Redemptionis
nostrae"[22].
Esse é o lugar em que Cristo apareceu a Francisco e este recebeu os estigmas.
Para baixo, a rocha abre-se num abismo; subindo em direção do pico e da
floresta, encontra-se logo a gruta de frei Leão, o único companheiro do Santo,
o único ser humano que, embora contrariando proibição expressa, se aproximou
dele e o observou naquele instante supremo. Por isso, entre tantos frades, é
escolhido para curar as chagas dos estigmas. O grande acontecimento deu-se em
1224, na madrugada de 14 de setembro, festa da exaltação da Cruz. Em 30 de
setembro Francisco deixou o Alverne para sempre. Acompanhado de frei Leão,
"carneirinho de Deus", desceu montado num burro até S. Sepulcro,
onde parou num leprosário e por esse caminho voltou para Porciúncula, onde
morreu dois anos depois, em 4 de outubro de 1226 ("De Cristo recebeu o
último selo, que seus membros dois anos carregaram"). Frei Leão, que
celebrou missa, foi amigo e confessor de Francisco, confidente e testemunha de
numerosos acontecimentos espirituais íntimos, viu e tocou os estigmas e
"costumava tirar os pensos de pano tintos de sangue para colocar novos”.
Em 1224, na época. destes acontecimentos, ele e o Santo ainda eram moços. Frei
Leão teve, mais tarde, tempo de recordar e meditar, pois morreu Beato em
Assis, em 14 de novembro de 1271, isto é, 45 anos mais tarde. Foi em Alverne
que o Santo escreveu para ele a Bênção, na segunda quinzena de setembro de
1224, logo depois de recebidos os estigmas. Escreveu-a com a mão trespassada e
sangrenta:
"Benedicat tibi Dominus et custodiat te:
"Ostendat faciem suam tibi et misereatur tui:
"Convertat vultum suum ad te et det tibi pacem:
"Dominus benedicat te, Frater Leo"[23]
... "Que o Senhor te abençoe, frei
Leão". No autógrafo o nome de Leão está dividido pelo Tau ou cruz, sigla
de Francisco e essa palavra está dividida bem no meio para indicar, na fusão
dos dois nomes, a estreita união das duas almas. Mais tarde, frei Leão de
próprio punho acrescentou, em letras vermelhas bem pequenas: "Beatus
Franciscus scripsit manu sua istam benedictionem mihi frati Leoni".[24] A Bênção
esta escrita numa folha de papel pequena. Frei Leão, enquanto vivo, sempre a
trouxe consigo.
Relativamente à manifestação exterior e
sensorial, nada se pode acrescentar à belíssima história dos Fioretti. Que
acontece, porém, no interior dela, na intimidade do fenômeno? Frei Leão tenta
acostar-se a essa outra realidade, penetrando-a por meio dos sentidos e da fé.
E volta a ver a flama e a ouvir a voz que vem de dentro dela; não consegue,
porém, entender nem uma palavra. Sua percepção interior não consegue mais do
que isso. Mas intui o resto e fica de lado, reverentemente. Então, o amigo
Francisco, que entendeu tudo, conta mais tarde tudo quanto Leão não pôde ouvir.
Só o amor e a fé podiam induzi-lo a isso. Porque de repente Francisco se torna
reservado e procura disfarçar, por humildade, reverência, temor e por causa de
pudor de que sempre se reveste o sublime. Nesses momentos, sentimos necessidade
de estar sozinhos com Deus. Então, ordena de novo a frei Leão que não ande
espionando e pede-lhe que tome cuidado com ele, pois sabe o incêndio espiritual
que vai lavrar-lhe no corpo. Francisco percebe a aproximação do Incêndio. Já o
envolvem línguas de fogo, que saem do incêndio, antecipando-o e preparando-o.
E Francisco ouve dentro de si um anjo de Deus, advertindo-o do que está para
acontecer. No dia seguinte é a festa da Cruz de setembro. E agora a história
dos Fioretti não e mais tão minuciosa e se torna vertiginosa, levando-nos de
um golpe ao momento em que, naquela madrugada, o fenômeno se processou de modo
a ser percebido até mesmo pelo homem normal. E nada mais nos diz. Que
aconteceu durante aquela noite, no extremo oposto do fenômeno, no seu lado
espiritual? Quais os derradeiros estágios que o tornaram possível? O fenômeno
já vinha amadurecendo lentamente durante toda a vida do Santo, desde que
começou a ouvir "vozes" em S. Damiano; a maturação se acelera
intensamente no Monte Alverne durante os dias precedentes e, embora atingisse o
clímax pouco antes da alvorada, o fenômeno tinha-se processado com intensidade
durante a noite, nos seus claros-escuros e contrastes de forças. Acompanhamos
até ao ponto maior da curva o ciclo de sua maturação.
Observemos. Francisco está na rocha dos
estigmas. Frei Leão está um pouco afastado, mais para cima, em sua cela. Embora
não possa ver muito bem no meio daquelas pedras e galhos de árvore, tão perto
está que pode ouvir tudo. Permanece acordado, procurando ver, mas, por obediência,
não ousa aproximar-se. Procura ouvir o menor ruído porque, se não deve andar
observando, tem de, no entanto, proteger o Santo. "Tome bem conta de mim,
porque dentro de poucos dias Deus fará grandes maravilhas neste monte..."
Tinha-lhe sido, pois, confiada a guarda do amigo. Discreto, afastado, como
demonstração de respeito, e, ao mesmo tempo, próximo, por força do amor, estava
pronto para, se necessário, acudir em seu socorro. Ambos estavam esperando que,
a qualquer momento, acontecesse algo de extraordinário. Francisco estava mais
embaixo, mais afastado do Monte e mais isolado da terra, em cima da rocha
vertical dos estigmas, guardado de perto pelo afeto do amigo, que até nesse
momento supremo lhe servia de ajuda e proteção. A cela de Leão estava um pouco
mais acima da Rocha onde Francisco orava. Mergulhado no profundo silêncio do
céu e da terra, imerso na infinita paz da noite, Leão esperava. Não se ouvia o
menor ruído. As tempestades do espírito não encontram eco na matéria. Porém,
fervorosa prece abrasava-lhe a alma. Que insuportável desejo de aproximar-se,
de compreender, de imitar! Que atração e que temor! A espiritualidade de
Francisco causava-lhe medo; naquele momento e naquele lugar, causavam-lhe
vertigem a misteriosa proximidade de Deus, o contato com o infinito, a
sensação do sublime. E o amigo estava quase a precipitar-se naquele abismo de
potência e de mistério, que o fazia tremer. Estava de espírito suspenso, presa
de afetuosa angústia pela sorte do Santo, temia pela vida do querido
"pai", que, refugiando-se no desconhecido e desaparecendo na vertigem
dos céus, para ele se tornava inatingível. Tinha medo do sublime, mas temia
por ele, que poderia queimar-se inteiramente no divino incêndio. Examina-se
interiormente e fica triste por não poder segui-lo e, incapaz de progredir para
o alto, ser obrigado a permanecer no sopé da montanha da santidade, a ficar
sozinho na terra, em meio à própria miséria. E chora com pena de si mesmo.
Mas, logo em seguida, se esquece de si e pensa no amigo, pensa na sua grande
missão daquele instante e quer continuar vivendo apenas para executá-la. E
transborda de alegria por seu triunfo no mundo divino. Mas esse mundo divino,
de que o amigo se apodera, com seu peso, magnitude e poder, volta mais uma vez
a esmagá-lo, a esmagar o pobre frei Leão, que se amedronta ainda mais. E se
amedronta principalmente por causa de seu amado amigo, sobre quem recai todo o
peso do infinito, daquela imensidade esmagadora em que a alma se perde. Por
isso, escuta, reza, alegra-se, extravia-se, crê e espera. Pequena tempestade,
reflexo da terrível tempestade que se apodera do Santo. Além disso, Leão
ignora. Tomado de medo, admira de longe a para ele inatingível santidade do amigo;
intui, porém não compreende tão incomuns colóquios com Deus. Não podemos,
portanto, ver a substância do fenômeno através dos olhos de frei Leão, ainda
fechados naquele momento. Apenas mais tarde, depois da morte do Santo, é que
vão abrir-se, contemplando os divinos crepúsculos de Assis, através da saudade
que sentia por Francisco e defendendo-lhe as idéias, amando-o e chorando-o. Aí
então é que, meditando sobre o que ouvira da boca do amigo, se maturará até ao
ponto de compreendê-lo perfeitamente. Para nós, porém, a compreensão do fenômeno
ainda permanece na sombra.
Francisco contemplara demoradamente, na
véspera, o suave crepúsculo. E, sem dúvida, verdadeira véspera de batalha
havia sido a jornada anterior, pois, na vida tudo é luta, sobretudo a conquista
espiritual. A noite precedente fora consumida no fogo devorador da oração,
porque o paroxismo do amor realmente é voraz. Francisco sentia que estava para
chegar ao zênite de sua vida, ao momento crítico da última separação da terra.
Quem sempre foi a aplicação viva do Evangelho, está maduro para se desligar de
qualquer forma terrena de vida. Mas para ai chegar, quanto caminho! Antes de
ousar lançar olhares a um futuro maravilhoso, ele hesitava recordando o
passado. Nas primeiras horas da noite, antes de afrontar sua ressurreição na
divindade, representava-se diante de seu passado humano, cheio de fadigas e
sofrimentos. Quanto caminho de S. Damiano ao Monte Alverne! Revivendo todas
estas coisas, enorme cansaço parecia esmagá-lo, sua vida física agonizava e
agonizando chorava sua destruição, oprimindo-o com seu pranto. Seu corpo ainda
jovem, embora subjugado, sofria derradeira tentação: a tristeza de não ter
vivido para si, de não poder mais viver. Expulsa do espírito, tornava-se mais
sutil: a inutilidade do sacrifício. "Senhor, não me compreenderão! Não me
compreenderão, como não nos compreenderam!" As forças do mal assaltaram-no
então no ponto mais alto e precioso de sua vida: sua missão de santo. Talvez
um assobio sinistro soou a seus ouvidos: "é inútil teu amor, tua paixão.
Cumular-te-ão de louvores, mas a traição não tardará". E Francisco, como
Jesus no Getsêmani certamente chorou pela incompreensão, reformas, traições, e
adaptações que haviam de tentar sua obra, para reduzi-la a nada. Seu ânimo foi
tomado de profunda tristeza e mortal abatimento como se lhe pusessem uma
mordaça, sucumbindo momentaneamente. Junto à agonia física, a agonia
espiritual. Nas primeiras horas da noite deve ter travado tremenda luta contra
as trevas e o mal.
Em tais fenômenos
há ritmo de períodos característicos e fases opostas em equilíbrio. Como
aconteceu a Cristo, antes de seu martírio físico no Gólgota, houve na noite
precedente, o martírio moral do Getsêmani; assim, com Francisco antes de sua
crucificação pelos estigmas,. houve, certamente, uma crucificação de dor no
espírito. Sintonia lógica entre fenômenos semelhantes. A tentação noturna é a
contraparte, a primeira metade, negativa, do fenômeno, em oposição a seu
segundo momento, positivo, o triunfo do espírito. O mal, a negação, tiveram seu
turno como condição e preparação da afirmação e do bem. Francisco, portanto,
para chegar à união com Cristo, devia naturalmente reviver-lhe as dores morais
do Getsêmani antes de reviver-lhe o sofrimento físico da crucificação. Foi
permitido ao mal que vencesse por momentos. O contraste entre as forças
involuídas da matéria e as outras forças do espírito tornava-se cada vez mais
violento na fase final da luta. Antes de definitivamente triunfar na luz foi
desferido o assalto mais forte das trevas. Antes de conseguir sua perfeita sintonização
com as supremas harmonias do divino, antes de poder unir-se a Deus na harmonia
de um íntimo acordo de todas as criaturas e forças irmãs, Francisco certamente
teve que atravessar na escuridão da noite a tempestade de ruídos e
dissonâncias, desencadeada pelo choque caótico de forças involuídas,
desarmônicas, ainda não disciplinadas na ordem superior. Em Alverne, não era
novidade para o Santo se as forças do mal destruíssem o Monte, fazendo
precipitar suas pedras. As primeiras horas da noite, as mais tristes e
profundas, eram as mais próprias para semelhantes assaltos: mas, às primeiras
horas da manhã a vitória já era certa.
O ritmo
da vida é duplo e inverso, diurno e noturno, material e espiritual. Já vimos
suas características. As primeiras horas da noite, trazem consigo os últimos e
mais profundos ecos das horas do dia, ressentindo-se de sua proximidade, retardando-se,
enquanto à meia noite o ritmo se inverte até a manhã, cuja espiritualidade, por
sua vez, se retarda nas primeiras horas do dia. Tal ritmo acha-se deslocado em
relação ao ritmo da luz. As primeiras horas da tarde parecem carregar o peso
de toda a escória da vida física diurna, dos encontros e asperezas da luta
material. O mundo diurno é de expansão exterior, de sintonização solar,
vermelha, sensual e sensória, material e animal, de ondas longas, baixa
freqüência, notas profundas, e baixo potencial em face do espírito. É o mundo
do involuído, forte na carne, débil no espírito. Também aqui este momento do
ritmo vital presume e espera seu momento
oposto dado pelo poder do espírito.
Gradativamente, porém, a tempestade do
mal se acalma, pára e passa. É na segunda metade da noite que, superada sua
fase negativa, se inicia a fase positiva do fenômeno. Entramos no período de
reconstrução da freqüência de onda, de potencial, em seu período espiritual.
Esgota-se a vida material, cala-se revivendo no imponderável. Vimos suas
características. É uma vida sutil, imaterializada, interior, vigorosa, penetrante,
de ondas curtas, alta freqüência e grande potencial, de notas agudas e
radiações noturnas, violetas, lunares. As condições ambientes que lhe são relativas
e harmônicas, acentuam-se pela aurora, depois do que tendem novamente a
inverter-se na fase diurna. Vemos nos Fioretti que o fenômeno aconteceu mais ou
menos uma hora antes do nascer do sol, e que o Monte Alverne resplandecia pela
chama que iluminava os montes e vales adjacentes como se fora o próprio sol. A
chama continuou visível (portanto era ainda noite) por mais de uma hora (antes
do dia); tanto que muladeiros que se dirigiam, para a Romanha foram
despertados pela luz nos albergues, levantaram-se, carregaram seus animais, e
puseram-se a caminho. Só então viram que a luz se extinguia e se levantava o
verdadeiro sol. Por sua própria lei e pelas condições das radiações ambientes,
o fenômeno só podia acontecer neste momento, antes da aurora.
Trata-se de fenômeno de harmonização
com a divindade, onde a sintonização do sujeito receptor com a fonte
transmissora, deve ser por esta acompanhada e fortalecida de radiações
circunstantes, cuja contribuição é igualmente indispensável. Para isso
concorrem não só fatores espirituais, como também condições especiais de
dinamismo ambiente, porque se trata de universal orquestração de forças, e
forças de todo tipo. É inadmissível qualquer dissonância, seja nas alturas,
seja nas profundezas. Deus é harmonia, ordem suprema, e sua manifestação não
age senão em atmosfera de harmonia e ordem perfeitas. É necessária, além da
hora apropriada, a atmosfera pura das altas montanhas, a paz dos bosques, a
vastidão dos espaços, o céu límpido e estrelado, o silêncio, a solidão. Para
se dar a harmonização que constitui o fenômeno, é preciso não só a sintonização
do sujeito humano com Deus, mas de todas as criaturas que o rodeiam, e as
forças da matéria e da vida são, também elas, criaturas de Deus. Recordemos que
tudo vibra, que todo ser, toda forma, mesmo material, desprende de seu íntimo
radiações que são vida, expressão do pensamento, da potência, da presença de
Deus. Deus está em todas as coisas. As vozes da natureza, falam-nos d’Ele.
Atrás da aparência, toda forma traz uma íntima substância imaterial de que é
efeito e que a mantém em vida pela continua reconstituição, pertence ao mundo
espiritual, trazendo um traço, embora mínimo, da face de Deus. Só assim,
contemplando essa face interior da natureza, é que poderemos nos aproximar
dele. Aqui se revelou esta forma interior, só percebida por espíritos
amadurecidos. Por isso, Francisco era capaz de ouvir em todas as coisas, forças
e criaturas, a voz de Deus presente. E no alto do Monte Alverne, naquela hora,
cada ser, cada coisa, árvores, rochas, pássaros e estrelas, ofereceram,
reverentes, a homenagem de sua contribuição. A criação assistiu, vibrou,
ofertou-se, acompanhou com sua íntima presença e perfeita harmonia as núpcias
da criatura com o Criador. Não foi unicamente uma oferta cega, insensível, mas
verdadeira resposta à participação, donde podia nascer unicamente verdadeira
sintonia, acordes livres e perfeitos. Deus está em todas as coisas, como ordem,
e como tal se manifesta. Não pode portanto falar-nos, nem poderemos subir até
Ele, se a harmonia não for perfeita. Para que Francisco pudesse sentir a
presença de Deus, era preciso estar em harmonia com a natureza e ao contrário.
Pois, qualquer dissonância nos afasta do íntimo das coisas, ao qual só poderemos
chegar com a perfeita harmonia.
O fenômeno
só podia acontecer naquele lugar, naquela hora, com aquele homem. Isto está no
intimo da criação. São estas as regras
musicais da orquestração que origina tais acontecimentos. Era necessária a
transparência matutina de sutil atmosfera que não obstaculasse ou absorvesse
as radiações provenientes tanto da terra como do céu, radiações telúricas e
estelares. Era necessária também a doce estação de setembro, quando o sol é
oblíquo, o calor do estio calmo em suas primeiras quenturas outonais, quando se
aquietou o fervor estivo da vida; estação em que a exaltação da parte física,
ao contrário da espiritual, diminui de ritmo e se esvai. O princípio de
harmonia e sintonia exigia manhã tranqüila, límpida, diáfana. O perfeito
equilíbrio das forças primordiais permitiria à natureza entoar a nota fundamental
da sinfonia, elevando ao redor do fenômeno, em perfeita consonância um fundo
musical harmonioso, que a faria vibrar qual caixa de ressonância, a fim de nela
apoiar e elevar a harmonia muito mais sutil do fenômeno místico.
Do mesmo modo, eram indispensáveis as
condições particulares em que se encontrava o sujeito, isto é, seu estado de
completo esgotamento físico, a maceração orgânica que eleva o potencial de vida
do espírito, estado de degradação do dinamismo vegetativo que ajuda sua
transformação em dinamismo espiritual. Enfim, era preciso o elemento fundamental,
o homem, um homem que tivesse conseguido, por longa preparação, a maturidade;
capaz de suportar e superar diante de Deus, a hora critica da revolução
biológica, lançado como um bólido no mundo do espírito, saindo para sempre da
órbita das trajetórias terrestres. Era preciso que este homem, no extremo do
sacrifício, no vértice do amor, abrisse os braços para Deus, e a ele se
atirasse ardente de fé, e louco de paixão.
Era noite alta. Parecia que se tornara
imóvel antes de se destruir no dia. Nos dois horizontes opostos, o crepúsculo
e a aurora calavam-se. A luz solar que neste hemisfério é quente, rósea, viva,
direta, estava agora envolta em sombras. Somente, difundido pelo céu, um
pálido reflexo de miríades de estrelas, luz tão diferente, fria, argêntea,
sutil, imaterial. A mais humilde e calma sinfonia noturna, sucedeu à grande sinfonia do dia. Harmonia inversa, em
tom menor, quase viúva e melancólica, de expectativa e meditação. Eis que a
vida não mais se lança ao exterior para se expandir e crescer, mas se recolhe
em si para se compreender. Durante a noite, a vida renasce inversa, envolta em
sonhos; toda nota de luz, de som, de forma, revive aveludada em vozes delicadas
que refletem o dia, suavizada por transparências irreais, espiritualizada em
contornos indefinidos, vaga, submissa, sutil como um eco de acordes distantes.
É a hora em que o universo cessa de falar materialmente, do exterior, mas fala
espiritualmente, de suas profundezas. Olha-nos então com seu olhar interior que
não vê a forma mas o mistério de suas causas, observa nosso interior e nos
convida à introspeção. Foi em meio a esta imprecisão de formas, neste supremo
silêncio da ilusão humana, que o espírito preparado de Francisco podia, cantando
as criaturas, reconquistar a corrente de manifestação divina até chegar à sensação
de Deus. Sua alma ouvia as infinitas vozes da criação, abria-se como flor ao
sol da manhã, ao mesmo tempo que ao redor começava, mais límpida e sutil, a
sinfonia do universo, abriam-se os céus e do alto chovia luz espiritual. Na
diáfana imensidão da noite desapareceram os horizontes. A terra não era mais
terra. Do alto do Alverne parecia infinda vastidão, sem limites como o céu, e
com ele tão idêntico, que era uma única e indivisível imensidade O céu e a
terra eram então a imagem do infinito. No alto, na vertigem do azul, abriam-se
os misteriosos abismos das estrelas, espaços sem limites, onde os olhos e a
mente se perdem. Deus é ainda mais profundo e distante mesmo estando tão
perto; a alma o encontra quando está para se perder. A visão dos céus se mostra
a nossos olhos como a visão de Deus: parece cair no nada e aí encontramos tudo.
Francisco, de pé sobre a rocha, de
braços abertos, contemplava. Deixava-se acompanhar e guiar pela voz de todas
as criaturas irmãs para o Criador comum. A maré imensa das radiações de todas
as coisas parecia elevar-se como ele para Deus, harmonizando-se em uma
orquestração cada vez mais doce e espiritual. Cada ser era uma nota falando-lhe
de Deus. Tudo falava à sua alma sensível, e ele tudo ouvia e compreendia. A
vibração mais profunda vinha da terra e subia como um trovão pelas rochas
ásperas do monte. A relva emitia uma nota mais cheia, mais vizinha da vida, majestosa,
severa. Os pássaros, os insetos, os outros animais adormecidos, as ervas,
ressonavam ao redor numa respiração tranqüila. Mais ao longe, na interminável
descida, nos montes, nos vales e planuras, as forças da vida repousavam em paz.
Em paz as criaturas abandonavam-se confiantes nos braços da sabedoria e
providência da Lei de Deus. A tempestade do mundo, onde o homem se amedronta e
se consome, estava longe, lá em baixo, nas cidades agitadas e cansadas. Sua voz
não chegava ao pico, nem perturbava aquela paz divina. Mais longe ainda se
perdia o ribombar seco da voz cavernosa do mal. Também ele, como toda criatura
de acordo com sua natureza no equilíbrio entre as forças do universo, também
ele estava em seu lugar, para confirmar, não para violar a ordem divina. O mal
lá em baixo revolvia-se num mar de trevas. Do alto, do ilimitado resplandecer
das estrelas chovia sobre a terra uma luz indecisa. Era uma radiação difusa e
penetrante, tremor agudíssimo do éter acariciando os seres, por toda parte,
transmitindo seu ritmo a toda criatura; vibrando de alta freqüência, quase
espiritual, trinado agudíssimo, igual, sutil. Paz: cantavam as estrelas,
obedecendo à ordem divina. Esta a orquestração do universo que acompanhava o
desenrolar-se do fenômeno. Viva em cada nota, feita de conceitos, de forças,
de formas, feita do pensamento e poder de Deus que tudo movimenta e vivifica.
Sobre esse fundo de tão imensa sinfonia vibrava a alma do Santo, respondendo
às notas graves das criaturas irmãs que com ele cantavam em coro. Por sua vez,
elas respondiam numa única música que em síntese dizia: Deus. Assim, bem de
longe, através da criação, teve começo o colóquio entre Francisco e o Criador.
Era o último dia da lunação; ia surgir
a lua nova, que portanto nesse momento não aparecia no firmamento[25]. A noite
navegava triunfante para o momento de sua mais intensa espiritualidade. A
música universal seguia em diversas alturas a espiritualização da hora e a
tensão cada vez mais crescente da alma de Francisco, num crescendo de harmonia
e perfeição. Vibrações e acordes sucediam-se em pianos sempre mais elevados,
cada vez mais claros e puros. Ele, o mais perfeito dos seres, o mais nobre, o
mais vizinho a Deus, confortado pelo amor que espalhava e que agora lhe era
restituído, rodeado pela natureza ajoelhada em veneração, entoava, seguido por
toda a orquestra, seu mais sublime canto. Parecia guiar a marcha ascensional da
vida. E tudo em perfeita harmonia progredia, em ritmo cada vez mais vivo e
poderoso, para a aurora, o incêndio. Ao mesmo tempo que o ritmo aumentava de
potencial, a respiração tornava-se ofegante, suspensa de enorme tensão, temendo
um choque. Parecia que a terra se inflava e se erguia para seguir o Santo em
seu arrojo divino, que parecia querer arrastar consigo todos os seres para
Deus, ou abraçar em seus braços abertos, todas as criaturas irmãs, incendiando-as
em sua divina paixão de subir. Estas pareciam querer unir-se ao arauto da
vida, seu mensageiro perante Deus, e impeli-lo a subir ainda mais alto, até o
trono do Eterno, para levar até aí suas vozes e para que lá o Santo recebesse o
último selo de sua missão. A vida parecia atirar-se alegremente à subida para
matar sua sede de sublime. O fenômeno já havia começado e devia cumprir-se até
o fim. Cada minuto acelera-lhe o ritmo. Francisco tem atrás de si o acordo
universal das forças que o estimulam, e diante de si Deus que o atrai. Não pode
mais voltar. Não é mais dono da situação. Deve aceitá-la humildemente de Deus.
Cairá inevitavelmente no incêndio que se alastrará pelo monte.
A história dos Fioretti, como o Evangelho, não podia ser inventada. Os dois livros
pressupõe e fazem sentir na simplicidade de sua história, um profundo
conhecimento dos fatos espirituais,
que não podem ser improvisados nem inventados pela alma do povo. O narrador dos
Fioretti fica na ingênua
simplicidade fora do fenômeno, limitando-se a contar os fatos exteriores. No
entanto este modo de ver tão material, coincide com sua substância espiritual,
com a profunda realidade do fenômeno. Ora, a experiência comum das coisas
terrestres não é suficiente para fornecer-lhe elementos de semelhante história
que não parece, mas deixa transparecer tanta sabedoria. O modo como é estabelecido
e se desenvolve o fenômeno, a moldura que tão bem o cerca, a hora, o lugar, o
homem, o comum, o prodigioso, o material e o espiritual, tudo está
perfeitamente equilibrado e com os meios mais simples, com a espontaneidade das
almas virgens, nos dá imediatamente o sentido da verdade. Francisco está
suspenso no vértice de uma rocha entre a terra e o céu, ao mesmo tempo só e
acompanhado por todos os seres, com a alma aberta a todas as vibrações do
universo, diante de Deus que em alta voz, através de todas as criaturas, lhe
diz: presente. Deus lhe fala por tudo que existe, pela organização funcional do
universo, pelas harmonias da vida, pela alegria e pela dor, fala-lhe no fundo
da alma, por toda a parte e sempre presente. Temos necessidade não só de um
Deus que é causa transcendental e longínqua, mas sobretudo deste Deus atual,
imanente e presente. Doutra forma ficaremos órfãos e sós, sem esperança de ver
algum dia o que seja do rosto de Deus. Ele existe e é preciso senti-lo no meio
de nós. Não é, nem pode ser, um pai inatingível, por si mesmo triunfante nos
céus, colocado numa distância insuperável. Assim é para quem raciocina
friamente, o que nos aproximaria muito pouco de Deus. Francisco o alcançou
porque começou por olhar na terra seus reflexos, servindo-se deles para subir
até Deus pelos caminhos íntimos da fé; porque para chegar ao Criador, passou
por todas as suas manifestações nas criaturas. Alcançou-O porque seguiu mais os caminhos do coração
que os da inteligência, e preferiu a imolação e o amor ao raciocínio.
Eis que se aproxima o momento supremo.
Francisco começa a rezar, voltado para o oriente. Sua querida Assis, também
está desse lado, onde logo o primeiro pressentimento vago da aurora começava a
delinear o horizonte. A noite atingia sua hora mais espiritual, hora de sonhos
alados de luzes diáfanas e irreais, hora profunda de mistério e silêncio. Eis
Francisco diante do fim supremo: Deus. Quantas etapas para aí chegar, quantas
pequenas tentativas de sintonização em sua vida! Aproximações parciais foram
concedidas a S. Damião, em Greccio, na ilha de Trasimeno, em Porciúncula, na
lagoa de Veneza, e em tantos outros lugares de solidão e beleza. Tinha sido
preparado por assaltos e contatos progressivos até a perfeita sintonização com
Deus. O invólucro físico de sua alma se sutilizava gradativamente pela
penitência, seu ser tornou-se mais sensível, e por sua vez preparado pelo
jejum, pela oração, pela solidão e pelo sacrifício. Eis que as forças do
universo rodam diante de Francisco. Subiu a tal ponto que as vê convergir para
um único centro, e é capaz de ouvir a música paradisíaca de sua harmonia. É a
ordem das coisas que canta os louvores de Deus. Francisco é arrebatado em
êxtase, está fora de si de tanta alegria e tensão. A grande orquestração do
mundo vibra anunciando a chegada da glória do Rei que vem ao encontro de seu
servo. Abrem-se os céus, o monte se incendeia inundando a terra de luz. As
criaturas imóveis, olham reverentes, prostradas mais abaixo, ao redor,
distantes, temendo tocar tão alta tensão diante da qual sentem que suas formas
se desfazem. No alto ficam dois únicos seres: Deus e Francisco, o universo é um
grão de areia, que se funde e some. Não mais se vê o sol em seus reflexos
infindos, mas em seu real esplendor. A extrema alegria e tensão, de espírito,
deve-se ter seguido na matéria terrível choque e sofrimento imenso. Mas, para
o espírito, é felicidade naufragar e perder-se na infinita divindade. Tocamos o
inexprimível e as palavras faltam. Estamos no limite extremo do sublime. O
próprio Santo contou tudo isto da melhor maneira: calando-se.
Só nos é possível olhar de longe, como
os muladeiros que iam à Romanha; olhar através da história, da lenda, da arte,
da fé, porque nossas tentativas de reconstrução por intuições não vão além.
Aquele incêndio projetou na visão interior de Francisco uma forma luminosa:
Cristo. Mas o incêndio envolveu também o corpo do Santo, que ficou marcado em
sua carne pelos sinais da Paixão. Pois é lei, que a união não se pode alcançar
senão com a semelhança e a subida só é possível pela dor.
Tudo isto será por alguns relegado como
lenda ou fantasia. Não podem admitir o fato. Procuramos demonstrar por meios
científicos e racionais, a possibilidade e realidade do fenômeno que a mesma
ciência e razão às vezes negam, pondo-o como conclusão deste trabalho que lhe
serve de base. Procuramos reconstruí-lo pelo método da inspiração, isto é por
intuição e sintonização noúricas. Procuramos restitui-lo à vida para que nos
alimente, nos guie, nos arrebate, como fenômeno biológico que interessa a nossa
evolução humana. Apresentamos S. Francisco no vértice da evolução humana, como
um dos muitos modelos de nosso futuro, para que alguém tente imitá-lo na
medida do possível. Temos necessidade de S. Francisco, especialmente hoje. Onde
a ciência materialista nos iludiu prometendo-nos uma riqueza traiçoeira que nos
empobreceu o espírito, S. Francisco nos oferece a riqueza espiritual e a
alegria, mesmo numa vida pobre e simples. A ciência ainda não soube fazer tão
grande descoberta: fazer os homens contentes com meios simplíssimos. Podem
dizer: "enganando-os com ilusões". Mas a civilização o que fez para o
tão esperado Paraíso na terra, que está sempre para se realizar, senão
traições? S. Francisco nos ensinou a libertação de tantas necessidades que nos
escravizam, e que o progresso cria para explorar; ensinou-nos (e em que
condições!) a alegria perfeita que o mundo desconhece. Como se sentia rico com
tão pouco; como nos sentimos pobres com tanta riqueza! A moderna ciência
materialista jamais conseguirá invenção semelhante: dar sensação de riqueza a
quem vive pobremente. Quem destrói as aparentes utopias da fé, pode destruir
valores morais inestimáveis, que são imenso poder de resistência. No céu e na
terra existem tantas coisas que são impossíveis só aos ignorantes. Intuições
supremas que ultrapassam os limites de nossa miserável vida cotidiana,
indispensáveis à vida de indivíduos e de povos, cumprindo há séculos sua
função, apesar de todas as negações.
CONCLUSÃO
O fecho
deste livro representa novo trecho de caminho percorrido, mais uma pedra do
edifício espiritual. Esta obra desenvolveu também como continuação e comentário
de A Grande Síntese, a grande luta
humana entre a luz e a sombra, o presente e o passado. Cada passo nosso, no
estudo do contraste entre a tese e a antítese, foi caracterizando a síntese.
Este trabalho constitui novo desafio lançado ao mundo, não a esta ou àquela de
suas pequenas divisões feitas à base de interesses, mas ao mundo todo e à sua
psicologia, aos seus valores, como antítese do reino dos céus, da imponderável
realidade do espírito. É desafio que o mundo da justiça lança a todo o mundo da
força. Longínqua e humilde ressonância do Evangelho, rebela-se, como ele,
contra o mundo e emprega na guerra as armas da paz. O Evangelho, a que nada
podemos acrescentar ou tirar, constitui de fato o nosso farol; e Cristo, que
com as armas do amor desafiou a força bruta, Cristo é para nós o modelo
supremo. Roma não o entendeu, naturalmente; não o entenderam, também, as
multidões apaixonadas que o seguiam e talvez preferissem aclamá-lo como rei de
um reino terrestre; nem mesmo o compreenderam os apóstolos, que apenas
esperavam vitórias materiais; não o compreende, finalmente, nossa época, divorciada
do espírito. Desse modo, Cristo viveu no meio da incompreensão dos que mais
próximos estavam d'Ele e do silêncio de seus contemporâneos, como ainda hoje,
em meio da incompreensão e do silêncio dos nossos tempos. Ninguém Lhe ligou
importância, enquanto vivo. Roma está plenamente satisfeita do próprio
esplendor. O cérebro que dirige o mundo todo nem de longe poderia suspeitar que
um bárbaro obscuro, perdido lá nos confins de uma terra de escravos,
estivesse lançando a semente, viva até hoje, da renovação do mundo. Quando Ele
morre, pensam que Sua figura tenha desaparecido completamente e Sua instituição
entrado em agonia. Mais tarde, de um golpe, inesperadamente, Seu pensamento se
propaga e conquista o mundo todo até transformar-se em sinal de contradição na
história da civilização humana. Hoje, como ontem, e como amanhã, o mundo ou é a
favor de Cristo ou contra Cristo. Indiferente é que ninguém. pode ficar.
Ninguém pode ignorar-lhe ou destruir-lhe o pensamento. Está nas próprias raízes
da vida, tem valor fundamental na realidade biológica. Quem se espelha nesse
pensamento, quem a ele adere, por uma questão de simples reflexo se engaja na
luta apocalíptica das ascensões humanas. Se a Grécia criou a Beleza e a
Sabedoria e Roma o Direito, Cristo elevou o Amor ao papel de força de coesão
social, introduzindo no mundo conceito novo, inédito e original, que se
tornará a unidade de medida do progresso humano. Quem, como nós se ocupa
principalmente disso, não pode deixar de tomar conhecimento d'Ele e seguir o
rastro luminoso de Seu exemplo..
Nossos tempos lembram os em que Ele
viveu. Enquanto o mundo romano, em pleno fastígio da força, se desfazia no
ceticismo, o suave e humilde mundo cristão, amparado no poder da fé, construía
em silêncio. A História parece divertir-se com seus personagens, destruindo os
mais poderosos, exaltando os mais humildes, demonstrando-nos obedecer a
desígnios que não se identificam com os dos homens. Muitas vezes até mesmo os
mais espertos e astutos denotam grande cegueira em face dos acontecimentos
futuros e a História conduz governantes e governados a situações inesperadas.
Acontece que os fortes tombam e os humildes triunfam o mínimo se torna máximo e
ao contrário, as mais sólidas construções desabam e as mais débeis continuam de
pé. Enquanto o homem arquiteta planos, a História, instável e repleta de
surpresas, faz os acontecimentos se desenvolverem de acordo com o plano
diretivo por ela elaborado e bem diferente do formulado pela razão humana. Não
poderemos compreender esse plano interior, sem antes entender o funcionamento
orgânico do universo. Nenhuma orientação política, nenhuma filosofia e nenhuma
interpretação da História atuam apenas em função desse conhecimento mais
amplo.
Como existem dois planos históricos, um
exterior e aparente, outro interior e real, a História se desenvolve através
de duas espécies de acontecimentos: os exteriores, visíveis e ruidosos, que
todos acompanham e a História registra, e os interiores, invisíveis silenciosos
e subterrâneos, que as pessoas e a História não vêem senão quando finalmente
se manifestam em frutos concretos e maduros. Assim, os períodos de incubação
e de germinação, tão importantes quanto os de desenvolvimento e plenitude,
passam despercebidos e permanecem secretos. A História é uma florescência de
acontecimentos, dos quais não percebemos nem o intenso e íntimo trabalho
preparatório, onde reside seu significado, nem a calma subterrânea e que
continuam a elaborar-se. E, desse modo, muitos fatos continuam sem explicação
lógica Existe a conquista bélica, material, das terras, dos corpos e dos
haveres e a conquista pacífica, espiritual, das almas e dos valores morais. São
estes os dois extremos da História seu aspecto visível e seu aspecto invisível.
Não apenas as multidões, mas até mesmo os próprios apóstolos, ao invés da
expansão interior, no plano do espírito, conceberam a expansão exterior, no
plano material. Cristo, porém, esclareceu e retificou e, mais tarde mostrou
através de fatos que sabia vencer interiormente, apesar das aparências
exteriores da derrota. Mostra-nos a História como podemos chegar à afirmação,
sem as manifestações exteriores que a assinalam, como conseguimos criar e
vencer em silêncio, conquistar também por meio de expansão interior e ir muito
mais longe pelos caminhos pacíficos da convicção que satisfaz do que pelos
caminhos bélicos da ação que constrange. E, nisso ainda, obedecemos ao
Evangelho.
Mas o presente volume, que estamos
concluindo, não tem apenas significado espiritual, moral e social, mas também
biológico. E, acima de tudo, construtivo; consegue explicar tudo, sem negar
coisa alguma; cria, relaciona e nada destrói; eis sua contribuição. Assim como
respeitou a fé, respeita a ciência. Neste livro, a questão religiosa do
progresso espiritual é também considerada como fase de evolução biológica e,
por isso, o fenômeno moral continua verdadeiro, mesmo se enquadrado na ciência,
que, assim, não fica destacada nem diferente do Evangelho, mas enquadrada nele.
Por isso este livro faz o que a ciência não pode, isto é, conforta moralmente
a dor, até mesmo em termos racionais.
Apesar das várias tentativas de
nivelamento a que hoje nos inclinamos
na busca da justiça social, os homens não são, não podem ser, jamais serão
iguais. A justiça é necessária, mas, em razão da estrutura biológica do planeta
não no-la pode dar a igualdade, pois na terra a igualdade não corresponde à
realidade e, por isso, é absurda e imposta coativamente. A humanidade, no
entanto compõe-se de seres de diversíssimo grau evolutivo, que vão da besta ao
anjo. Para o primeiro tipo o ambiente terrestre representa o máximo de evolução
e de aperfeiçoamento biológico, de bem-estar e de felicidade; para o segundo,
o mínimo de tudo isso, apenas provações, verdadeiro inferno. Entre os dois
extremos oscilam mil e um estados intermediários. Vivem materialmente lado a
lado, confundidos, ajudando-se e alternando-se no labor evolutivo, mas
inconfundíveis quanto à natureza, que permanece diferente de modo a permitir,
mais tarde, a volta de cada um a seu lugar exato. Os indivíduos adiantados,
embora poucos, não estão nesta ou naquela raça, nesta ou naquela nação, mas
distribuem-se por toda parte e seus objetivos são, acima de tudo,
superterrenos. Os indivíduos evoluídos não
constituem casta com o objetivo de dominar neste mundo, nem raça
nacional de finalidades imperialistas; pelo contrário, reconhecem-se à
primeira vista e confraternizam-se onde quer que se encontrem; e, finalmente,
sua vida já se dirige para fora deste mundo, que eles superaram Na terra, o
tipo besta goza; o tipo anjo, sofre; o primeiro destrói, o segundo cria; um
ignora, o outro sabe; um pede, toma, prende-se, o outro dá e se
desliga. São essas as verdadeiras diferenças de substância, que distinguem e
separam, as únicas que têm valor. Neste livro, partimos do involuído e chegamos
ao evoluído O problema coletivo ficou embaixo, nos primeiros degraus, porque,
desenvolvendo-se em extensão, não pode desenvolver-se em altura. Já vimos que,
como é justo, quando o evoluído acabou de sofrer no calvário do dever, de
altruísmo e de dor, vai para sempre embora deste mundo. Este fim constitui o
objetivo dos que têm longo caminho a percorrer e representa conforto para quem
está ansioso por atingi-lo.
"Coragem!" Dizemos a quem
sofre. Não superestimeis as liberdades e os programas humanos; libertai-vos
individual e definitivamente. O caminho da libertação existe, sim. A
condenação não é eterna. Vós mesmos podeis empregar, em vosso próprio
benefício, as leis da vida e transformar-vos, evoluindo. O caminho livre, a
única fuga possível do inferno terrestre consiste precisamente na evolução.
Não há outro. Na verdade esse caminho subentende sofrimento e esforço,
mortificação, purificação e imaterialização; é árduo e difícil, mas o único
seguro e positivo. A evolução coletiva, em massa, é demasiado lenta para os de
mais boa vontade e muito morosa para os mais adiantados. Quem quer conclui-la
depressa deve abandonar a corrente e agir sozinho. Esse caminho é a redenção
ensinada por Cristo. Por isso Ele disse:
"Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
"Bem-aventurados os que têm fome e
sede de justiça, porque serão saciados.
"Bem-aventurados os perseguidos
por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus.
"Alegrai-vos e exultai, porque a
vossa recompensa e grande no reino dos céus..." (Mateus, 5).
O evoluído,
que entende e sofre, compreende o valor destas palavras. Sabe que a
ressurreição só é possível depois da paixão e que Cristo pôs em prática leis
biológicas, demonstrando-lhes a inexorabilidade. Não há outra porta para
escapar à dor senão essa, estreita e difícil. O evoluído tem os olhos fixos no
Getsêmani, fase de evolução biológica para todos.
O problema
final deste livro, depois de todos os outros, é a salvação do evoluído. Há três
tipos humanos predominantes (cf. A
Grande Síntese, cap. LXXVIII: "Os Caminhos da Evolução Humana"):
1) O
tipo sensorial, que vive exteriormente nos sentidos: é o selvagem, que forma grande parte até mesmo de povos
civilizados. Sua fé e sua vida baseiam-se na força.
2) O tipo racional, que vive mais internamente,
no cérebro; é o cerebral, tipo que, embora muitas vezes constitua a classe
culta e dirigente, ainda continua egoísta, isto é, isolado e, em geral,
desorientado. Sua fé e sua vida baseiam-se na astúcia.
3) O
tipo intuitivo-espiritual, que vive ainda mais internamente, no espírito; é o
evoluído, exceção biológica, sábio, altruísta, irmanado a todos os outros seres
do universo, enquadrado no seu funcionamento orgânico, em que representa uma
parte e tem uma missão. Sua fé e sua vida baseiam-se na honestidade (cf. cap.
VI, deste volume: "A Lei da Honestidade e do Merecimento"). Esse tipo
constitui o ponto nevrálgico deste nosso livro.
Cada tipo supera o outro pelo grau de evolução, como no progresso da vida interior, o que significa aumento gradual de potencial, vida cada vez mais intensa, criação de novas formas, maior enquadramento e fusão nas forças biológicas e cósmicas. O evoluído representa o super-homem, o tipo ideal, o resultado de experimentações terrestres, a meta biológica do planeta. A ele, e não mais às massas de que falamos no início, dirigimos esta conclusão. Em favor dele, empreguemos de novo os seus meios de defesa, frente à agressividade dominante no meio em que, no entanto, tem de viver.
Toda sua defesa reside na evolução, ou
seja:
1) Em sua sensibilidade que lhe tornou
mais aguda a capacidade de percepção, permitindo-lhe sentir mesmo à distância,
no tempo e no espaço, prevenindo-o contra os perigos.
2)
Em seu conhecimento e sabedoria, em seu enquadramento universal, que o
defendem das ilusões comuns, erros e sofrimentos correspondentes.
3)
Em sua comunhão com as forças cósmicas a que está unido e que intervêm,
defendendo-o e socorrendo-o segundo for justo, isto é, de acordo com o
merecimento e não por direito de conquista.
4) Na certeza de sua libertação da
terra, por meio da morte; e, antes disso, no colocar o centro de sua vida e de
seus tesouros fora da concepção normal ou, seja, do campo dos instintos e
atrações comuns e, por isso, da zona das agressões.
Sem dúvida alguma, a luta do futuro se travará entre o involuído e o evoluído, porque é esta a mais substancial diferença entre os homens: o tipo biológico. Não esperemos, porém, que o evoluído empunhe armas. Sua estratégia consiste precisamente na mudança radical dos métodos humanos. Seu campeão é Cristo, que vence com a bondade, a justiça, o sacrifício e se impõe por merecimento intrínseco e não pela força das armas. A economia do evoluído não é a economia da posse ou do domínio, mas da renúncia, da providência divina. Se seu sistema não fosse completamente diverso dos sistemas terrenos, não representaria nenhuma vitória sobre eles. O evoluído quando é agredido por um inferior, não responde humanamente, com violência, mas angelicamente, com bondade. Distingue-se do involuído precisamente por não usar arma alguma. Sua força é a lei, isto e, Deus. Esta se encarregará de fazê-lo triunfar e protegê-lo. A evolução é fatal. Está no plano da criação e é vontade expressa de Deus.
Portanto, o
evoluído não deixa a seu irmão primitivo que quer prejudicá-lo e espoliá-lo,
senão seu invólucro vazio, os tesouros humanos, isto é, os excrementos da vida.
O involuído, que crê tê-lo subjugado, roubou-lhe apenas as pedras do cárcere
para com elas construir sua prisão; é um ludibriado, vítima de sua própria
ignorância. O evoluído dando-lhe os excrementos de sua vida, com tanto esforço
roubados, vai para mundos melhores, possuidor de bem diferentes riquezas. A
distância percorrida já é enorme e o abismo que divide os dois tipos não pode
mais ser eliminado. Porque existe a justiça divina, se há gozo para o pecador,
haverá felicidade para o justo. Lázaro e o rico avarento estarão eternamente
distantes:
"Abraão disse:(....) há entre nós
e vós um grande abismo, de maneira que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os dai passar para cá."
(Lucas, 16:26).
Dirijamos ao evoluído, ápice biológico,
estas palavras de conforto. A maior parte da humanidade ainda se encontra fora
de seu campo e destas derradeiras conclusões. É fatal, por justiça divina, que
cada ser volte a seu lugar, segundo o próprio merecimento e valor.
Fechamos assim este volume. Este novo
trabalho, salvo da destruição da guerra, dos sofrimentos, das contrariedades,
do abatimento físico e moral, está terminado. Se aprouver a Deus, amanhã
recomeçaremos. Tudo está nas mãos de Deus, tudo a Ele pertence. Fazer sua
vontade, nosso perfeito guia, é a felicidade máxima, porque nos leva pela
alegria ou pelo sofrimento pela vida ou pela morte, ao nosso maior bem possível.
Basta segui-lo, satisfeitos e felizes.
Amanhã, o esforço continuará ainda a
traçar os aspectos infinitos do mutável e multíplice no relativo, continuara
a narrar outros acontecimentos misteriosos, para cavar novos sulcos nas almas,
em diferente clima histórico, com nova maturação de ambiente interior e
exterior, de destino individual e universal. Estamos presos aos limites, algemados
pelas dimensões desse nosso mundo; só nos resta caminhar no tempo. Amanhã!
Este novo trabalho é concedido a todos, como semente jogada nos campos, para
que esse futuro seja mais completo, mais elevado, mais feliz para todos.
GUBBIO, 6ª feira Santa, 1945.
CONCLUSÃO
(Da
II Trilogia)
Com este volume, A Nova Civilização do III Milênio, encerra-se a segunda trilogia, isto é, o segundo ciclo, que é calmo, o da assimilação, seqüência do primeiro, que é explosivo, fruto da inspiração. O primeiro ecoa e ressurge no segundo. Através dos seis momentos e dos dois ciclos, assisti á revelação progressiva de minha personalidade. Estas páginas, no fundo, nada mais são que a história do apocalíptico drama por mim vivido. Que peregrinação longa e tempestuosa! Sem pretensões sistemáticas, narrei, com verdade psicológica, como se desenvolveu minha personalidade. Não vão dizer: este só sabe falar de si próprio. Porque o meu drama é o drama de todos, a vida é uma só e o meu caminho é também o vosso caminho, o mesmo de todos. Falando de mim, falo de vós, que, como eu, estais na mesma evolução do mundo. Creio haver vivido a suprema aventura, a aventura mais trágica e tremenda que o homem possa conhecer. Tive a força de dominá-la e contá-la a vós. Mas isso não é tudo. Estou num remoinho imenso, na imensa voragem da moderna vida humana. O meu drama fundiu-se no drama universal. Senti-lhe a imensa paixão, em meio de profundo sofrimento.
Meu espírito triunfa, mas o corpo está cansado. Tentei superar a vida animal, mas a vida se vinga no mesmo plano animal que eu quis negar. Talvez se aproxime a boa irmã morte, morte para o corpo, vida para o espírito. Talvez esta seja a condição para que eu possa agora ouvir e entoar um canto mais sublime. Levo apenas esta mágoa: eu poderia ter feito mais e não fiz; e não pude porque tive de despender as maiores energias de minha vida na luta pela vida, luta imposta a todos neste inferno terrestre, luta impiedosa ao lado do involuído. Os auxílios foram raros; agradeço-os imensamente. Mas, em geral, devo bem pouco a meus semelhantes, que só me deram desgostos e sofrimentos. Agora, não está falando a Sua Voz, que tantas vezes guiou minha mão nestes trabalhos, é a minha pobre humanidade abalada.
O motivo dominante nas duas trilogias é um único, o que para o leitor superficial parecerá repetição. O tema é uma alma que se aperfeiçoa3 é a humanidade que se redime pela dor. Tentei-o porque assim me estava determinado. os tempos modernos têm forma própria de martírio incruento. Só Deus sabe se a vitória me sorriu ou se fui vencido, se minha tentativa foi útil ou vã. Em Sua imensa piedade me julgará mais pelo que tentei ou esperei fazer que pelo que realmente fiz. Há somente três lustros, minha pobre pena escrevia sua primeira mensagem (Natal de 1931): "No silêncio da noite sagrada, ouve-me... Levanta-te e fala... "[26] Falei e aquela voz se espalhou pelo mundo.
Começou então a longa viagem de exploração no abismo interior, o abismo de todos, da vida, de Deus. E não retratei com minhas pobres palavras senão a sombra da vertigem experimentada. Em alguns momentos, o esforço titânico me arrebatou da órbita terrestre, para que depois eu aí tombasse de novo e sofresse mais. Assim sou: apocalíptico contraste de aspirações e misérias. Disse tudo sinceramente, diante de Deus e da morte. Não tenho culpa de que tudo isso possa parecer, à mentalidade moderna, megalomania ou forma patológica de elefantíase espiritual. Neste caso, a vida é assim mesmo. E eu, além de ator, também fui, como quem lê, espectador e, mais do que a causa, fui envolto pelo turbilhão do infinito. Vivi a agonia proveniente do tormento de necessitar do impossível e não saber alcançá-lo. Senti em mim um desespero cósmico: o do ser que quer subir, e não sabe. Meu lamento é tão grande como a terra, lamento do homem que procura na dor a sua redenção. É o lamento de Prometeu acorrentado, o lamento de quem traz no coração sublimes sonhos e verifica que a dura realidade cotidiana o desmente sempre. Por isso tudo, o conjunto da presente obra valerá mais pela tentativa que pelo que realmente foi feito. Isso de meu lado humano. Mas é certo que tal obra foi inspirada e querida pelo Céu. Deus, portanto, conhece-lhe os fins e aplicações futuras.
Algumas almas têm unicamente uma espécie de cobiça nostálgica da eternidade e não sabem viver senão fazendo violência, senão obrigando os céus a fazerem um raio de sua luz iluminar a tenebrosa noite da terra. É a Divindade que clama neste inferno terrestre. Embora toda a vida física a desminta, aquela voz continua a clamar; e mesmo que o ser caia ela ainda clama. Embora pareça loucura, ela nos convida a lançar-nos na voragem do mistério, irresistivelmente. É sempre Deus que clama. O absoluto já está e nos atrai; a ânsia de alcançá-lo nos devora e o sentimos inatingível. O contingente, porém, nos acabrunha, nos cerca, nos estorva, asfixia-nos. Eis o grande drama. A matéria é inerte e o espirito, que quer vivificá-la, desce luminoso a seus escuros antros, tão escuros que ai agoniza e parece extinguir-se. A alma ouve ainda cá do mundo o apelo divino e percebe desesperadamente a impossibilidade de responder. Daí nasce o drama da discórdia, mas também o contraste criador.
Hoje meu corpo cansado, ferido pela tempestade, chora sua catástrofe humana, contingente; o espírito a oferece a Deus em holocausto e, como senhor, espera com alegria o futuro. Em que forma de vida ressurgirá das espirais dessa morte já aceita? A que extremos chegará a grande batalha? Bem o sei, já o disse, mas pergunto-o a mim mesmo, para repeti-lo ainda; e o direi, se continuar a viver. Poder ver finalmente o mal aprofundar-se no abismo da autodestruição e o bem vencer: eis a grande paixão.
Com este volume fecha-se o segundo ciclo de uma tragédia individual na tragédia universal. Enquanto o mundo emprega sua atividade em acumular meios materiais para ruína e destruição e a atividade teorética não cria, mas simplesmente varia de continuo a estéril disposição de meios já mortos, resíduos da criação dos gênios, este livro é uma ponte lançada para o infinito. Substitui a atual cultura exterior que não condena, antes, serve os instintos inferiores e é utilizada como meio para revigorá-los, por uma cultura de substância, de reerguimento biológico, que só tem valor enquanto apta para formar um homem melhor. Ao diabólico esforço das polêmicas corrosivas de palavras contra palavras, à tendência separatista de Satanás, representada pelo espírito de antítese de nossos tempos, pusemos em contraposição um contato mais intimo com a essência da vida, um espírito construtivo de colaboração e amor. O mundo científico e politicamente fragmentado e dividido, dissecado até as raízes pelo separatismo, desorientado em face das grandes finalidades do ser, tentamos reunificá-lo, levá-lo às fontes da vida, dando-lhe novamente seu verdadeiro significado. Que não haja mundos separados, unidades demográficas ou circuitos econômicos, disciplinas científicas ou afirmações várias de Deus, dadas pelas religiões, mundos rivais em que explode o ódio, mas unidade biológica de todos os seres avançando pelo mesmo caminho da evolução, irmana dos pelo esforço de redenção, seres amigos, intimamente unidos pelo amor; uma vida menos hostil, mais ampla, mais franca, mais comunicativa, entre seres que se compreendem. Isto quer dizer abolição de fronteiras, vitória, libertação, progresso, pois é a unificação que nos faz subir até Deus. Na atual época dos separatistas, isto é, dos filhos de Satanás, esta é a voz dos unificadores, isto é, dos filhos de Deus. Só assim a realidade fragmentada poderá reencontrar em nós sua unidade, os horizontes de nossa vida poderão dilatar-se e descobrir novas praias longínquas e desconhecidas. A vida de hoje adquiriu a trágica sabedoria das grandes horas em que reina a dor. O intelectualismo que hoje domina o pensamento é, diante desta realidade patente, vão e inútil. Crentes ou não, estamos todos pregados à cruz de Cristo. Na caminhada sem fim, quisemos indicar o único caminho de salvação.
Concluamos, para aqueles que ainda não vêem, com as palavras de S. Paulo: "Ninguém se iluda: se algum dentre vós imagina possuir a sabedoria deste mundo, torne-se louco para se tornar sábio; porque a sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus." Certamente muitos não entendem. Mas, antes de sorrir como céticos, é bom refletir que os fundamentos da sociedade geralmente foram estabelecidos por homens de fé e não por homens apenas de ação. Estes vivem da vida alheia; fecundam, mas não criam; ajudam, mas não despertam a vida. Antes, os primeiros, que parecem utopistas e loucos é que a fazem surgir espalhando centelhas de luz; são os sábios sonhadores, e não os práticos, os que dão os maiores impulsos à humanidade. É bom refletir que o homem mais dinâmico e revolucionário não é o que grita e assalta, mas o que pensa, penetra a verdade e a anuncia sem agredir; que o homem mais destruidor no presente é o que pacificamente cria no futuro, limitando-se, diante do mal, a suportá-lo com paciência, a denunciá-lo cândida e, se preciso, heroicamente a todos. É bom recordar que o ataque mais poderoso, o ataque final, é desfechado, sob forma mansa e persuasiva, pelos verdadeiros demolidores, que ferem as raízes, e não pelos que seguem os caminhos da força que agem externamente e excitam reações; o verdadeiro assalto é aquele que, através do amor e da verdade, leva á convicção.
PIETRO
UBALDI
GUBBIO, Páscoa de 1945
[1] O leitor, que conhece os outros volumes citados no
prefácio, sabe da gênese inspiradora desse escrito e compreende, por isso, que
o autor aqui não está se elogiando.
[2]
Dou para que dês
[3] Direito romano
[4]
Infinitamente
[5] Deusa grega da Vingança e da Justiça distributiva, que reprovava todo excesso. (N da E.)
[6] A maior ordem nasce da integridade dos séculos.
[7] Os senadores são boas pessoas; o
senado, entretanto é uma fera.
[8] Dou para que dês. (N. da E)
1 Deusa grega da Vingança e da Justiça distributiva, que reprovava todo excesso. (N. da E.)
[9]
Se queres ser perfeito, vai e vende todas as coisas. (N. da E.)
[10]
Aonde vais Senhor? (N. da E.)
[11]
Direito de usar e abusar. (N. da E.)
[12]
Eis o homem. (N. da E.)
[13]
Trecho da "Vida de Jesus Cristo", de G.
Ricciotti, seguimento 327. (N. do A.)
[14] O povo quer ser iludido; logo, seja iludido. (N, da E.)
[15] Sentido elevado. (N. da E.)
[16] Sustenta-se por si mesma. (N. da E.)
[17] Sem limites (N. da E.)
[18] Batei e
abrirse-vos-á. (N. da E.)
[19] Seja feita a tua vontade. (N. da E.)
[20] Senhor,
abrirás meus lábios. (N. da E.)
[21]
Escrevi este capítulo em S. Sepulcro
(Arezzo), em frente do Monte Alverne. (N. do A.)
[22] Assinalai, Senhor, este teu servo Francisco, com os sinais da nossa redenção.
[23]
Deus te abençoe e te guarde:
Mostre a ti sua face e compadeça-se de ti
Incline para ti seu rosto e te dê paz:
O Senhor te abençoe Frei Leão.
[24] O Beato Francisco escreveu com sua própria mão esta benção para mim, Frei Leão.
[25] Tal fato foi depois confirmado por resposta do Observatório Astronômico
de Capodimonte (Nápoles). (N. do
A.)
[26] "Mensagem do Natal" do livro
Grandes Mensagens. (N. da R.)

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