segunda-feira, 11 de maio de 2026

PORTAL - GNA - UFOLOGIA - PINGA FOGO - FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER - PDF - 12 05 26 - UFOLOGIA ESPIRITUAL CÓSMICA - GRUPO DE NATUREZA ALIENÍGENA - GNA

 



Pinga Fogo

Chico Xavier


Participação de Chico Xavier no programa Pinga Fogo da TV Tupi.


Índice

Um Pinga Luz na TV

Labaredas por Toda a Parte

Questões a Esclarecer

As Dúvidas Científicas

Chico Xavier

Uma Rajada de Poesia

O Pinga Fogo

Essa Profunda Serenidade

Pergunta de um Pastor

Aquário, a Era Maravilhosa Terá um Preço: a Paz

A Humilde Certeza

Seus 400 Autores, Kennedy e Cremação

Os Antigos Filósofos, Também Médiuns

O Caso Augusto dos Anjos

Os Problemas da Sexualidade

Umbanda e o Tráfico Negreiro

Homem, Mulher e Reencarnação

As Crianças do Tubo de Ensaio

O Trabalho de Cada Um

Então Cale a Boca e Morra com Educação

As Cidades de Vidro - Fim do Período Bélico.

É o Limiar dos Tempos Novos

A Síntese Poética

Segundo Milênio, de Ciro Costa

Essa Emoção, Essas Lágrimas


Um Pinga Luz na TV


A noite de 28 de Julho de 1971 foi diferente. Tornou-se uma noite histórica para São

Paulo e para o Brasil. Muita gente até hoje se pergunta porque estava diante de um

aparelho de TV, esperando o ”Pinga Fogo”do Canal 4. E a resposta é difícil. Francisco

Cândido Xavier, o médium psicógrafo de Uberaba, ia submeter-se aos entrevistadores. Tanto o programa como o médium eram por demais conhecidos. Há quarenta anos Chico

Xavier vem sendo submetido a entrevistas de jornais, revistas, rádios e televisões. Tudo já

se fez com o Chico, até mesmo entrevistas sensacionalistas, procurando submetê-lo ao

ridículo. Nada havia demais em que Chico Xavier aparecesse de novo no Canal 4. Mas, apesar disso, a cidade de São Paulo se debruçou ansiosa sobre o vídeo. E não só a cidade, mas todo o Estado e suas adjacências, como o sul de Minas e o norte do Paraná.

A coisa mais difícil de se compreender é esse interesse antecipado. Católicos, protestantes, ateus, materialistas, gente que não é de nada e gente que é de tudo, pessoas

indiferentes e espíritas em penca, todos estavam atentos. Era como se fosse acontecer algo

de inesperado. E realmente aconteceu. Chico


Pinga Fogo 2 Chico Xavier

Xavier entrou no palco da TV-Tupi com seu jeito humilde e simples de sempre. Escondeu-se depressa atrás da mesa. Haviam lhe posto uma peruca), (talvez para

atrapalhar) que juntamente com os seus óculos preto dava-lhe um ar estranho, parecia

outro. Mas quando começou a falar, todos viram que era o mesmo. O Chico de ontem, de

hoje e de sempre.

(1) Chico Xavier usa peruca.

No início da fila dos entrevistadores estava um católico ilustre, jornalista, escritor, professor universitário, membro de instituições filosóficas do país e do exterior. Esperava-se

que desfecharia uma série de perguntas atordoantes contra o pobre Chico. Os demais eram

figuras conhecidas da nossa imprensa e das nossas letras. Hábeis repórteres entre eles, poderiam embrulhar o médium. Mas logo se verificou que Chico Xavier tinha assessores. Ele

mesmo o declarou numerosas vezes. Não falava por si, mas com a assistência e a

orientação de seu guia espiritual Emmanuel, além de outras entidades que o ajudavam. Assessores invisíveis, mas que valeram. Até um assessor científico parecia haver entre eles, pois Chico, às vezes, parecia um médico e, às vezes, um físico e até mesmo um

cosmonauta.

Isso mostra que o povo tem intuições coletivas muito sérias. Toda aquela gente

debruçada no vídeo de milhares de aparelhos de televisão havia percebido com

antecedência, mas com absoluta certeza, que Chico ia dar um show mediúnico naquela

noite.

E deu mesmo.


Não somente um show pessoal, mas coletivo, porque deu também um baile nos

entrevistadores. Um baile em regra, com muita elegância e delicadeza, com uma classe de

assustar. Chico ouvia, atento, e respondia a seguir com sua voz mansa de caipira mineiro, como quem não quer nada, num tom de conversa mole. E o show maior, então, empolgou

São Paulo e depois o Brasil. Um verdadeiro show de luzes. Pingou luzes na TV, ao invés de

fogo.

Labaredas por Toda a Parte •

Nunca um Pinga Fogo”, depois de realizado ao vivo, teve o seu vídeo-tape

transmitido mais duas vezes nos dias seguintes. Mas o de Chico Xavier teve essa sorte. O

público pedia e a emissora atendeu. Mas além disso houve a sua repercussão pelo Brasil

todo. O vídeo-tape foi remetido ao norte, ao sul, ao leste e ao oeste. Em vários lugares foi

também repetido. Muita gente gravou os seus diálogos em gravadores e até hoje continua a

ouvi-los.

O Diário de São Paulo, depois da publicação do resumo do ”Pinga Fogo”pelo Diário da

Noite, teve de publicá-lo por extenso em seu suplemento chamado Jornal de Domingo. Saíram depois exemplares mimeografados do ”Pinga Fogo”e várias editoras eram solicitadas

a lançar o texto num livro. É o que fazemos agora, para que as labaredas de luz espiritual

que se acenderam por toda a parte continuem a iluminar o nosso povo.

Labaredas de luz? Sim, porque há labaredas de fogo e fumaça, labaredas trágicas e

destruidoras, que assustam a gente. Mas as labaredas que o Pinga Luz do Canal 4 acendeu

por toda a parte são da mais pura luz espiritual. Quem ler este volume com atenção sairá

dele inteiramente iluminado.

Cada passagem do programa, cada página deste livro, cada diálogo travado entre o

Chico e um entrevistador e cada resposta dada ao telespectador são como um jato de luz

clareando o nosso entendimento. Chico Xavier não se orgulha nem se orgulhou disso. Constantemente encontramos no texto a sua afirmação de que não falava por si mesmo,


Pinga Fogo 3 Chico Xavier


mas pelos Espíritos que o assistiam.

Esse é o ponto central da questão, para o qual queremos chamar a atenção dos

leitores. Não se poderia compreender o fenômeno Chico Xavier e a noite histórica de 28 de

julho, sem a compreensão do problema mediúnico. Um médium é uma criatura que serve de

intérprete entre o chamado mundo dos mortos e o chamado mundo dos vivos.

Os mortos (que na verdade estão mais vivos do que os chamados vivos) falam ao

médium na linguagem do Céu e ele a traduz para a linguagem da Terra. O médium, portanto, é um intérprete. Foi por isso que Chico Xavier saiu-se tão bem na televisão, enfrentando questões das mais diversas. Suas respostas não eram dele, eram dos espíritos. Várias vezes ele disse que estava falando o que ouvia dos Espíritos.

Assim, o ”Pinga Fogo” do Canal 4 não foi, naquela noite, um programa comum. Foi

um programa realizado entre dois mundos. Os Espíritos participaram dele através da

mediunidade de Chico Xavier. E o fizeram com tanto desembaraço que muita gente até hoje

afirma que tudo aquilo foi mesmo do Chico. Sim, porque o médium não se modificava, não

saía da sua simplicidade e da sua autenticidade.

Essa gente não sabe que o bom médium é assim mesmo. Que o bom médium é um

bom intérprete e não necessita de trejeitos para dizer aos homens o que os Espíritos querem

que seja dito.

Não foi fácil organizarmos o texto deste volume. Serviu-nos de piloto o material

publicado pelo ”Jornal de Domingo”. Mas aquele material está longe de oferecer o ”Pinga

Fogo” completo. O programa foi tão extenso e variado que nem mesmo o jornal interessado,

apesar de seus imensos recursos técnicos, conseguiu reproduzi-lo na íntegra.

De nossa parte não temos também essa pretensão. Mas fizemos o possível para

cobrir a maior área. Demos à matéria a disposição mais aproximada da realidade e

completamos o que foi possível com a revisão de gravações de amigos.

• Questões a Esclarecer •

Por que chamamos de histórica a noite de 28 de julho de 1971? Porque nessa noite

tivemos um fato

inusitado — os Espíritos comunicando-se com o povo numa sessão mediúnica

realizada na televisão. E porque essa sessão produziu resultados que marcam novos rumos

para o nosso povo. Milhões de criaturas, no Brasil inteiro, mudaram de posição diante da

vida ouvindo o ”Pinga Fogo”. Essa mudança foi um passo à frente, assinalando um momento

decisivo nas grandes e profundas transformações por que passa o Brasil em nossos dias.

Contam-se por milhares os cépticos e os descrentes que se voltaram para o estudo

dos problemas espirituais a partir daquela noite. O que se deu, pois, foi uma verdadeira

revolução — uma revolução espiritual que abriu perspectivas imensas para o futuro.

Mas como provar que essa revolução realmente se deu? Basta vermos o número de

jornais, revistas, estações de rádio e de TV que passaram a tratar dos problemas espirituais

dali por diante. Basta dizer que Chico Xavier passou a ser colaborador permanente de um

grande jornal diário, o ”Diário de São Paulo”, e de uma grande revista semanal, ”O

Cruzeiro”, que publicam todas as semanas as mensagens mediúnicas do famoso médium. Basta, por outro lado, notar o interesse pelas questões espirituais que passou a dominar as

conversas de rua e de casa, os debates públicos, as próprias assembléias políticas, os cursos

universitários, e ao mesmo tempo o aumento de publicações, particularmente de livros

sobre esses assuntos.


Pinga Fogo 4 Chico Xavier

O Canal 4, naquela noite, transformou-se num quartel general. Comandou sem o

saber um verdadeiro movimento revolucionário. Há um Brasil de antes e um Brasil posterior

ao ”Pinga Fogo” com Chico Xavier.


Não se podem avaliar ainda as conseqüências daquela noite. Mas já podemos senti-

las ao nosso redor. As mentes se abrem para uma concepção nova, mais elevada e mais


otimista, do homem e da vida, do mundo e do futuro. Muita gente que só esperava

tragédias passou a vibrar noutra faixa, animando esperanças felizes. Chico Xavier liderou o

futuro.

Agora podemos compreender melhor o otimismo espiritual de Humberto de Campos

quando escreveu, através do Chico Xavier, aquele livro maravilhoso que é a plataforma da

política espiritual de amanhã: Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.

• As Dúvidas Científicas •

Surgiram, porém, certas dúvidas científicas que poderiam aniquilar o êxito do ”Pinga

Fogo”. Nas reportagens posteriores lançadas por jornais e revistas apareceram opiniões de

homens abalizados, pondo em dúvida a autenticidade da sessão mediúnica de 28 de julho. Esses senhores, muito respeitáveis e competentes, não foram, entretanto, prudentes como

deviam. Opinaram geralmente sobre assuntos que desconhecem. Entenderam que existem

impossibilidades científicas para a aceitação da realidade mediúnica.

Será mesmo assim? É o que vamos procurar pôr a limpo, de maneira rápida.

Já no próprio ”Pinga Fogo” o ilustrado escritor, Prof. João de Scantimburgo, pôs em

dúvida a mediunidade de Chico Xavier, tentando explicar a psicografia pela tese científica da

escrita automática. Ora, a escrita automática é conhecida no Espiritismo bem antes das

pesquisas psíquicas a respeito. Scantimburgo insistiu no problema do inconsciente. A escrita

automática seria uma manifestação do próprio inconsciente do médium.

Desde 1857 o Espiritismo colocou cientificamente (na Ciência Espírita) o problema

das manifestações anímicas, ou seja, da própria alma do médium, produzidas através da

escrita e por via oral. A descoberta do inconsciente por Freud, nos princípios deste século, e

as pesquisas sobre a escrita automática na Psicologia, também da mesma época, só fizeram

confirmar a tese espírita, depois de mais de meio século.

O Prof. Scantimburgo e os que mais tarde se manifestaram a respeito pensavam

estar opondo uma tese científica ao Espiritismo, mas erravam redondamente. É curioso

lembrar que quando Kardec publicou O Livro dos Espíritos, em que trata do assunto, Freud

devia ter apenas um ano de idade, pois esse livro saiu em 1857 e Freud havia nascido em

1856...

Hoje a Parapsicologia, que o Prof. Scantimburgo citou erroneamente, já confirmou a

diferença que o Espiritismo estabeleceu há mais de um século entre escrita automática e

Psicografia. O caso de Chico Xavier é evidentemente de Psicografia (manifestação de espírito

pela escrita) e nenhum especialista no assunto admite qualquer confusão do seu trabalho

mediúnico com a escrita automática.

Uma revista descobriu um eletroencefalograma de Chico Xavier e o publicou, acompanhado de interpretações de psiquiatras. Esses afirmaram que o eletro correspondia a

um cérebro anormal. Houve mesmo quem dissesse que o Chico era epiléptico. Mas o eletro

fora feito pelo próprio médico assistente do médium, o Prof. Dr. Elias Barbosa, lente da

Faculdade de Medicina de Uberaba, com a finalidade de pesquisar, não a possível

anormalidade do seu cliente, mas sim as ocorrências paranormais em seu cérebro

privilegiado.


Pinga Fogo 5 Chico Xavier


Essas pesquisas são uma constante da atual investigação parapsicológica mundial. Nenhum especialista confunde a disritimia funcional dos sensitivos ou médiuns com os casos

patológicos.

Assim, como se vê, as interpretações científicas do caso Chico Xavier entre nós, com

a pretensão de negar a sua psicografia, estão atrasados de um século e alguns anos. Aconselhamos os interessados a ler, para bem se informarem a respeito desse assunto, o

livro Parapsicologia Hoje e Amanhã, do Prof. J. Herculano Pires (presidente do Instituto

Paulista de Parapsicologia) lançado por esta editora.

A mediunidade psicográfica de Chico Xavier é tão evidente que não se pode pô-la em

dúvida, a menos que não se conheça a sua extensão e profundidade. Foi o que demonstrou

o Prof. Scantimburgo quando perguntou ao médium, como se vê no texto do ”Pinga Fogo”, se ele havia citado quatrocentos autores.

Não, Chico não citou, mas recebeu páginas e livros de mais de quinhentos autores

brasileiros e estrangeiros. Sua obra mediúnica é um desafio a todos os que duvidam da

nossa sobrevivência à morte do corpo e da comunicabilidade dos chamados mortos.

Quarenta anos de psicografia a serviço do amor, da paz, da compreensão entre os

homens, da esperança, da fé, da dignidade humana! Onde está a Academia Sueca (em

Estocolmo ou na Lua) que até agora não concedeu a esse homem o Prêmio Nobel da Paz? ”

Trabalho elaborado pelo DEPARTAMENTO CULTURAL DA EDICEL

(2) Em 1981, dez anos após, esse aspecto foi considerado.

Chico Xavier

Um homem, aspecto tímido, o rosto um pouco triste. Ele vai começar a falar sobre

um assunto que vai tomar conta da cidade.

Esse homem chama-se Francisco Cândido Xavier, médium espírita, conhecido em

quase todo o mundo.

Um homem simples que vai falar sobre a geração de crianças em tubos de ensaio, das guerras, das violências do mundo.

Um homem, sobretudo um homem que acredita na poesia de seus quatrocentos

autores psicografados.

Um homem, óculos escondendo os olhos pequenos, um auditório repleto de

estudantes, de mulheres, crianças e trabalhadores.

Chico Xavier vai falar.

Depois que Chico Xavier falou, toda a cidade estava cativada. O Canal 4 repetiu todo

o programa ”Pinga-Fogo”. E a cidade ficou comentando nos seus bares, nos seus escritórios, no seu desespero, nas suas fugas.

Uma cidade que perdeu seus anseios, que se escondeu dentro dela mesma, dentro

dos seus restaurantes, das suas farmácias, dos seus cinemas, nos teatros, nos parques com

algumas árvores. A cidade comenta Chico Xavier. Hoje nós publicamos todas as palavras

desse homem. Todas as páginas do Jornal de Domingo são de Chico Xavier, um homem que

está falando da paz entre os povos do mundo: ”Se não entrarmos numa guerra de

extermínio nos próximos 50 anos, nós poderemos esperar realizações extraordinárias da

ciência humana partindo da Lua.”


Pinga Fogo 6 Chico Xavier

De repente, uma cidade inteira estava chorando diante de um aparelho de televisão. Chico Xavier estava rezando por todos.

De repente, esse homem cativou todo o povo.

Quem é esse homem? Respondemos nesta página.

Tímido, modesto, voz frágil e insegura, um homem começa a falar. Pedindo desculpas

por suas falhas, por sua pouca cultura. É o programa ”PingaFogo” do Canal 4, na noite de 28

de julho, em São Paulo. 61 anos, magro, óculos escuros escondendo uma vista defeituosa. Testa alta, rosto inteligente, uma humildade sincera. Qual a primeira impressão que causou

Chico Xavier? A de um homem muito, muito e muito sincero. A impressão de uma

autenticidade básica e total.

Ele não deu, a princípio, a medida de sua inteligência. No entanto, tínhamos todos a

certeza de que os botões não seriam desligados dentro de alguns

minutos. Parecia estarmos vendo gente telefonando para os amigos, avisando que

Chico Xavier falava no Canal 4. Parecia estarmos vendo os botões de TV se acenderem, como luzes, de um canto a outro de São Paulo. E os telefones da TV-Tupi tocavam cada vez

mais freneticamente, o povo paulista inteiro querendo participar do programa de Chico

Xavier.

O médium de Uberaba, com sua sensibilidade de paranormal, deu-se conta do

impacto. Sua entrevista foi num crescendo, envolvendo cada vez mais, até atingir o climax

na sessão de psicografia que São Paulo inteira acompanhou, em absoluto suspense.

Quem é esse homem que fascinou todo um povo? Quem é Francisco Cândido Xavier, o modesto barnabé aposentado que mora em Uberaba? E por que sua voz frágil e tímida

comunica tanto, se apenas uma parcela do imenso público que o assistiu era constituída de

gente que já conhecia as suas obras?

Na pequena cidade mineira de Pedro Leopoldo, ali por volta de 1915, um menino

muito pobre, órfão de mãe e criado em casa de estranhos, conversa com a mãe morta no

fundo do quintal. Ela lhe dá o conforto que os vivos lhe recusam. Mas ele não pode dividir

com ninguém o seu segredo. Não lhe dão crédito, consideram-no mentiroso ou perturbado

mental. O pequenino Chico era repreendido e castigado.

De volta à família, com o segundo casamento de seu pai, Chico continuou sendo um

menino muito estranho. Já trabalhando e estudando no Grupo Escolar São José, de Pedro

Leopoldo, vamos encontrá-lo na classe da professora Rosária, aos 12 anos, cursando o 4o

ano primário. Os alunos estão reunidos para fazer uma prova, num concurso instituído pelo

Governo de Minas. O tema é ”Brasil”. Quando o menino Chico Xavier pega a caneta para

escrever, um vulto de homem, ao seu lado, começa a ditar. O menino, em sua honestidade, consulta a professora. Ela não sabe o que dizer, manda que ele prossiga a sua prova.

Mas quando o júri do concurso confere a Chico Xavier uma Menção Honrosa, os

estudantes de Pedro Leopoldo passaram a acusar aquele estranho menino. Muita discussão

se travou e a classe pediu à professora que fizesse um exame público com o pequeno

Francisco Cândido Xavier. ”Nesse exato instante, tornei a ver o homem que os outros não

viam e ele me disse estar pronto para escrever.”

O tema, dessa vez, seria ”areia”. Na lousa, o pequeno Chico Xavier escreve: ”Meus

filhos, ninguém escarneça da criação. O grão de areia é quase nada, mas parece uma

estrela pequenina refletindo o Sol de Deus...” Dai em diante, dona Rosária proibiu que se

voltasse a falar do assunto. ”Nem eu deveria dar notícias das coisas estranhas que eu visse,


Pinga Fogo 7 Chico Xavier

e nem os meus colegas deveriam me perguntar qualquer coisa fora de nossos estudos.”

Chico Xavier tem agora 17 anos. Trabalha num armazém, serviço puxado, de sol a

sol. A família, numerosa, depende em parte do que ele recebe. É um rapaz pobre, mas tem

muitos amigos. Entre eles o padre de Pedro Leopoldo, Sebastião Scarzelli. confessor de

Chico Xavier, manda que ele reze ao Senhor quando tiver suas visões. Houve um dia, nos 15

anos de Chico, em que o padre Sebastião, para confortá-lo, sai com ele da igreja e o leva

para comprar um par de sapatos.

No dia 7 de maio de 1927, pela manhã, o jovem Chico Xavier participa de uma

sessão espírita. Sua irmã Maria estava doente e um casal amigo, o Sr. José Hermínio Perácio

e Da. Carmem Perácio, presta socorro à enferma. Todos da casa oram, no próprio quarto da

doente. A irmã curou-se e o casal iniciou Chico Xavier na Doutrina espírita, explicandolhe o

significado de todas aquelas visões e dos fenômenos estranhos que ocorriam com ele. Assim

Chico Xavier conheceu Allan Kardec, leu seus livros e assumiu a responsabilidade de sua

mediunidade, com a honestidade básica que é característica fundamental de sua

personalidade, foi ao confessionário do padre Sebastião Scarzelli e contou-lhe que ”ia

estudar o Espiritismo e dedicar-se à mediunidade”. ”Seja feliz, meu filho. Eu rogarei à nossa

Mãe Santissima para que te abençoe e te proteja...”

E Chico Xavier tomou o seu caminho. ”Em fins de 1927, numa reunião pública e depois da evangelização, Da. Carmem

Perácio, médium de muitas faculdades, transmitiu a recomendação de um benfeitor

espiritual para que eu tomasse o lápis e experimentasse a psicografia. Obedeci e minha mão

de pronto escreveu dezessete páginas sobre os deveres espíritas... Senti alegria e susto ao

mesmo tempo. Tremia muito quando terminei.” Assim conta Chico Xavier o seu primeiro

trabalho psicográfico, em entrevista que concedeu ao médico Elias Barbosa e que está

contada no livro deste autor No Mundo de Chico Xavier.

Assim, de 1927 a 1931 Chico Xavier recebeu centenas de mensagens que, posteriormente, foram inutilizadas por se destinarem apenas a exercícios de psicografia, conforme os Bons Espíritos determinaram a Chico Xavier que fizesse. Nesses quatro anos, como em toda a sua vida, o médium de Uberaba convivia tanto com pessoas vivas como

com pessoas desencarnadas. Uma das mais assiduas protetoras de Chico, na época, foi a

sua mãe Maria João de Deus.

Porém, era ele, então, vítima também de muita mistificação por parte dos espíritos. Por que, Chico? — De certo que o Mundo Espiritual permite que eu passe por essas provações para

mostrar-me que receber livros dos Instrutores Espirituais não me cria privilégio algum, que

estou apenas cumprindo um dever e que sou um médium tão falível quanto qualquer outro, com necessidade constante de oração e trabalho, boa vontade e vigilância.

Chico Xavier falou no programa ”Pinga-Fogo”, o qual com índice ainda maior de

audiência e envolvimento de legiões de espectadores, foi reprisado pela TV-Tupi na noite de

terça-feira passada. Desde 1931 que o espírito de Emmanuel guia as mãos de Chico Xavier, ”como um viajante muito educado procura domar um animal freado e irriquieto, a fim de

realizar uma longa excursão”, como, em sua modéstia natural, o médium afirmou, quando

perguntado por Elias Barbosa. Disse ainda:

Emmanuel tem sido para mim um verdadeiro pai na Vida Espiritual, pelo carinho com

que me tolera as falhas e pela bondade com que repete as lições que devo aprender. Em

todos esses anos de convívio estreito, quase diário, ele me traçou programas e horários de

estudo, nos quais a princípio até inclui datilografia e gramática, procurando desenvolver os

meus singelos conhecimentos de curso primário, em Pedro Leopoldo, o único que fiz até


Pinga Fogo 8 Chico Xavier


agora, no terreno da instrução oficial.

A presença de Emmanuel, disse Chico Xavier no vídeo do Canal 4, foi fundamental

para que ele respondesse, com a objetividade e segurança com que respondeu às mais

diversas perguntas do programa.

Parnaso de Além Túmulo, psicografado em 1931 foi editado em 1932. Chico Xavier

ainda trabalhava no pequeno armazém de Pedro Leopoldo, das 7:00/ da manhã às 8:00h da

noite. Alguns anos depois foi admitido como pequeno funcionário, no Ministério da

Agricultura, onde está aposentado depois de ter cumprido 30 anos de efetivo exercício, parte em Pedro Leopoldo, parte em Uberaba (a partir de 1958).

Nesses 40 anos de psicografia, publicou 107 livros e tem mais 4 no prelo( ). Recebeu

poemas, romances, livros técnicos e livros doutrinários, crônicas

( ) Nota da Editora: Atualmente a obra mediúnica de Chico Xavier ultrapassa a 400

títulos e páginas em prosa. Foram mais de 400 os autores que se comunicaram com o

público, depois de mortos, através das mãos de Chico Xavier. Isso, sem contar o trabalho

desenvolvido pelo médium de 1927 e 1931, já que esse não foi publicado.

Desses livros, cinco estão traduzidos para o Esperanto, nove para o Castelhano e um

para o inglês. Chico Xavier nunca recebeu um centavo de direitos autorais. Destina todo o

lucro de sua produção às organizações espíritas, para a aplicação em obras sociais. Além de

seu trabalho psicográfico, presta também assistência a pessoas necessitadas e doentes. É

também médium para serviço de doutrinação a entidades perturbadas, freqüentando, semanalmente, sessões de desobsessão na Comunhão espírita Cristã, de Uberaba.

Humberto de Campos, que antes de desencarnar opinara sobre o Parnaso de Além

Túmulo, veio a tornar-se um dos mais ativos escritores psicografados por Chico Xavier, escrevendo também sob o pseudônimo de ”Irmão X”. A começar pelas famosas Crônicas de

Além Túmulo até o volume Cartas e Crônicas. Em disputa dos direitos autorais do grande

cronista brasileiro, a família de Humberto de Campos levou Francisco Cândido Xavier aos

tribunais, tendo o médium de Uberaba vencido a questão na Justiça.

Entre os escritores estrangeiros psicografados por Chico Xavier contam-se Guerra

Junqueira, Eça de Queiroz, Bocage, João de Deus, Roberto Southey (historiador inglês) e M. Berthelot, o criador da Termoquímica.

Emmanuel escreveu, por intermédio da mediunidade de Chico, vários romances, como Há Dois Mil Anos, 50 Anos Depois, Renúncia, Paulo e Estevão, Ave Cristo, todos

passados em épocas antigas, na remota Roma, na velha Espanha, na antiga França. Esses

romances são considerados obras-primas da literatura e alguns deles foram levados à

televisão.

Muitos foram os poetas brasileiros psicografados pelo médium de Uberaba: Castro

Alves, Cruz e Souza, Alphonsus Guimarães, Guerra Junqueira, Casemiro de Abreu, Fagundes

Varela, Olavo Bilac têm páginas em Parnaso de Além Túmulo, Antologia dos Imortais e

outros livros. Ficção em prosa é outra constante na obra de Chico Xavier. Hilário Silva, comélio Pires, Neio Lúcio são alguns dos autores de livros como Pontos e Contos, Falando à

Terra, Contos desta e doutra Vida etc.

A Coleção André Luiz é considerada um verdadeiro monumento da filosofia espírita, um documentário de tudo o que acontece além do sepulcro. Também fazem parte de sua

obra livros de História, Ciência, Filosofia e Religião. Evolução em Dois Mundos, Mecanismos

da Mediunidade, Palavras de Vida Eterna são alguns dos livros de Doutrina Espírita que

constam da imensa bibliografia de Chico Xavier.


Pinga Fogo 9 Chico Xavier


Este é, leitor, em rápidas pinceladas, o homem por quem você se empolgou, ao

assistir o programa ”Pinga-fogo”. O que está escrito aqui, sabemos, é muito pouco para

explicar o fascínio que você sentiu. A personalidade de Chico Xavier, a firmeza de suas

convicções e a sua lucidez, não cabem numa pequena reportagem biográfica. Mas também o

impacto que Chico Xavier causou em todo um povo que durante mais de duas horas, colado

ao vídeo, sorveu as suas palavras, talvez não possa ser explicado apenas pelo valor do

homem Chico Xavier. Nisso entrou, leitor, tenha a certeza, o eco que as idéias de Chico

Xavier encontrou em você.

Do Diário de S. Paulo, caderno do Jornal de Domingo.

Uma Rajada de Poesia

O Jornal de Domingo, que publicou o texto da entrevista de Chico Xavier, trouxe

também este poema de Álvaro Faria, inspirado nas palavras do médium:

Há sim uma grande angústia caminhando nos caminhos, nas grandes vilas, a tão

imensa cidade violentada na sua violência e desamor e ternura. Mas a ternura, irmã, é um

pedaço de vidro que começa a se partir nas distâncias dos olhares e nos olhos das pessoas

que estão caladas.

Estamos todos aqui, irmã. Eu queria te dizer das árvores, dos grandes rios, queria, sobretudo, te dizer das sete portas, das sete moradas, das sete mansões. Queria te abraçar

neste instante de ternura, porque sei que a ternura existe na medida em que nos tornamos

irmãos. E assim, irmã: eu quero te dizer, te abraçar com meu corpo de mil anos, de mil

séculos, de dois minutos de vida. Eu queria te falar da lua, de uma guerra atômica, te dizer

do Vietnã, de todo o extermínio das plantas, e dos insetos, irmã, eu queria te falar. Queria

te dizer que as crianças terão olhos de vidro e nascerão de um ventre de metal, com dedos

de ferro. Mas tudo isso é uma folha muito verde, irmã. A cidade adormeceu, é bem verdade.

A cidade está calada nesta hora da noite, quando a noite é um silêncio enorme nas nossas

bocas. E uma cidade de vidro, o nascimento de um tempo novo. Soube que John Kennedy

está trabalhando no espaço. Soube também que nós poderemos destruir as armas que nos

matarão amanhã. Soube ainda que há uma casa de alumínio e de vidro no meio da lua, calando os faróis, as neblinas, as chuvas. Há uma hora nas vidas, onde a terra recebeu as

raízes, irmã. Por isso e por tudo e também por nada, haveremos de percorrer os caminhos

desse ventre, de todos os planos das vidas. As sete portas, as sete mansões. Que não sejam

as sete palavras de nosso encantamento. Há um girassol maravilhoso sendo plantado agora.

Soube também, irmã, que a tarde foi um incêndio calando as sabedorias dos mágicos. Queria te dizer tanto das saudades de nossos mortos, ou dos filósofos, dos escritores, dos

poetas tristes, das sombras, do desgosto ou da alegria. Soube que as mãos estão

abrasadas, há uma imensa planície nas sete moradas, os rios subterrâneos correm águas de

oceanos infinitos. São pombas, irmã, são pássaros, minha irmã, é o tempo da chegada

nesse vale de neve, nesse grito de angústia. Queria te dizer também que a solidão não é

nossa. Há uma prova e uma distância de mil vidas. Quando você poderá me compreender?

Faltam cinco minutos. Eu não posso te dizer mais nada. —

O Pinga Fogo

Abrindo o programa ”Pinga Fogo” do Canal 4, TV-Tupi de São Paulo, na noite de 28

de julho de 1971, o apresentador Almir Guimarães colocou o médium Francisco Cândido

Xavier ante as câmeras e fez a sua apresentação e a dos jornalistas que iam entrevistá-lo.

Eram esses: João de Scantimburgo (católico) e J. Herculano Pires (espírita) — ambos

professores universitários e comparecendo como convidados; e mais os jornalistas da equipe

do programa: Hele Alves, Reale Júnior e Saulo Gomes.

Chico Xavier agradeceu as referências de Almir à sua pessoa e dispôs-se a responder,

contando com o auxílio espiritual. Afirmou: ”Estou confiante no espírito de Emmanuel, que


Pinga Fogo 10 Chico Xavier

prometeu assistir-nos pessoalmente.”

A seguir, iniciaram-se as perguntas:

João de Scantimburgo — (Depois de um preâmbulo em que define a sua posição de

católico) — Senhor Chico Xavier, Allan Kardec, em O Livro dos Médiuns, dá o nome de

psicografia direta à escrita em que o médium, de posse de lápis ou caneta, passa a escrever,

segundo o fundador do Espiritismo, por meio da comunicação de um espírito. Admitindo-se,

para iniciar a entrevista, que as obras publicadas pelo senhor tenham sido psicografadas, pergunto: quantos livros o senhor psicografou e de que autores. Peço, se possível a relação

de alguns ou da maioria deles.

Chico Xavier — De 1932, ano em que foi publicado o primeiro livro mediúnico

recebido por nós, até agora, meados de 1971, estão publicados 107 livros e temos 4 livros

no prelo. Desses livros são autores o espírito de Emmanuel, que nós consideramos como

sendo o nosso orientador espiritual desde o término do ano de 1931, quando a presença

dele chegou ao nosso conhecimento; o espírito André Luiz, que declara ter sido médico no

Brasil; o espírito que dá o nome de Irmão X, que nós sabemos ser o pseudônimo de um dos

nossos maiores escritores do norte do país; o espírito de Casemiro Cunha, que foi poeta

muito respeitado no estado do Rio; o espírito de Meimei, uma jovem professora mineira e

espíritos diversos que constam de coletâneas, antologias, como vários poetas, trovadores

que integram as equipes de espíritos comunicantes nos livros Parnaso de Além Túmulo, Antologia dos Imortais, Poetas Redivivos, Trovadores do Além, Poetas do Outro Mundo, Orvalho de Luz, Trovas do Mais Além, e alguns outros que podemos especificar numa

relação por escrito.

Hele Alves — Senhor Chico Xavier, muito se tem ouvido falar, principalmente da

parte dos estudiosos da matéria, que o mundo espiritual é dividido em vários planos. Inclusive fala-se também em subplanos. Existe realmente essa distinção de planos de vida

espiritual?

Chico Xavier — Os espíritos comunicantes que nos instruem a esse respeito, são

unânimes em declarar que esses planos existem tanto quanto também em nossa

organização social na Terra, por muito grandes que sejam as teorias de igualdade absoluta. Nós estamos sempre integrando faixas de vida social diferentes, segundo a nossa cultura, as

nossas atividades e sentimentos, as nossas preferências, as nossas tendências. De modo

que podemos contar com muitos planos já na sociedade terrestre. Além deste mundo, a

sociedade espiritual se subdivide em diversos planos.

Hele Alves — Eu queria complementar. Dizem os espíritos que a vida é uma escola. Nós passamos de ano quando conseguimos uma certa evolução. Essa evolução se faz

durante a nossa vida na Terra ou também durante a nossa vida no espaço?

Chico Xavier — Na vida terrestre nós temos sempre um programa de trabalho e de

auto-educação a ser realizado, mas esse programa prossegue além desta vida conforme as

nossas necessidades, porque todos estamos subordinados à misericórdia de Deus dentro da

Justiça que nos rege os destinos. Muitas vezes nascemos na Terra ou renascemos na Terra

com um determinado programa de serviços a realizar, mas realizamos esse programa de

modo imperfeito. A Justiça seria, naturalmente, que fosse cassado para nós o direito da

continuidade de trabalho. Mas a misericórdia de Deus impera no Universo inteiro. Portanto, há continuidade de trabalho para nós todos e continuidade de estudo na outra vida, graças a

Deus.

Reale Júnior — Eu gostaria de saber como o senhor explica a morte violenta de Arigó

e a própria morte tormentosa de Joãozinho da Goméia?

Chico Xavier — A pergunta está muito bem formulada. Conhecemos, por informação,


Pinga Fogo 11 Chico Xavier

a médium Ana Prado, em Belém do Pará, que foi responsável por fenômenos de

materialização dos mais legítimos e que desencarnou num acidente, incêndio das próprias

vestes. O nosso ponto de vista religioso não nos isenta da execução das leis cármicas no

campo de nossos destinos. Podemos realmente trabalhar muito, fazer muito por

determinada idéia, por determinado setor de educação social e em qualquer outro campo de

progresso humano, mas não estamos isentos. A mediunidade não nos isenta com privilégios

especiais com respeito à desencarnação. Devo acrescentar também que sem aplaudir o

sofrimento dos nossos irmãos que partiram de maneira tão comovedora para nós todos, perguntamo-nos: Não seria esse o processo de aliviá-los ou defendê-los contra provações

que dentro da lei do carma seriam para eles muito maiores, se eles continuassem na Terra?

Se eu tiver, por exemplo, um problema — vamos dizer circulatório — que me iniba de

trabalhar durante alguns anos, que me transforme o corpo. peço para aqueles que me

amam, conquanto eu saiba que todos aqueles que me amam terão muito prazer em me

ajudar, não seria melhor para mim que a misericórdia de Deus, os seus emissários me

cassassem essa possibilidade de permanecer muitos anos na Terra dentro de um regime de

inutilidade, auxiliando-me a partir de um momento para outro? Refiro-me à minha pessoa, conquanto não deseje a morte violenta para pessoa alguma.

Almir Guimarães — Chico, há uma pergunta aqui sobre o Arigó e ainda dentro dessa

linha traçada (de telespectador), pelo Reale Júnior. Eu vou formulá-la porque ela já fica

respondida também nessa questão do Arigó. O telespectador deseja saber se o Arigó teria

sido cientificado do seu fim como médium.

Chico Xavier — Conheci pessoalmente José Arigó durante três anos de convivência

muito estreita, de 1954 a 1956. Sempre me pareceu um apóstolo legitimo da nossa causa

espírita e, sobretudo, da mediunidade a serviço do bem, um pai de familia exemplar, um

amigo de todos os sofredores. Depois da nossa mudança para Uberaba, em 1959, perdemos

contato mais direto com Arigó. Não temos elementos para ajuizar a atuação de José Arigó

no campo da mediunidade nos últimos anos. Mas fico também a pensar por mim; depois de

recebidos esses livros, mais de 100 livros, depois de 40 anos, (estamos completando quase

45 anos de atividade mediúnica com a Doutrina espírita, porque o fenômeno mediúnico se

manifestou conosco de 4 para 5 anos de idade), então eu penso: Meu Deus, se eu tiver de

criar um problema de desapontamento geral para todos aqueles que crêem nos bons

espíritos por meu intermédio; se eu carrego tantas fraquezas a ponto de comprometer tudo

aquilo que esses livros construíram através de minhas mãos, que são tão frágeis e que são

tão incapazes e que eu reconheço absolutamente inaptas para realizarem um trabalho

desses; durante tantos anos eu bendiria o amparo dos amigos espirituais que

determinassem para mim a desencarnação violenta para que eu não crie mais problemas ou

mais dificuldades para os meus irmãos da Terra, que crêem em Jesus e nos seus

mensageiros, por intermédio da mediunidade, que tem sido para mim uma bênção durante

tantos anos. Compreendo a minha condição humana e faço esta prece, que os bons espíritos

me livrem de mim mesmo.

Essa Profunda Serenidade

Saulo Gomes — Chico Xavier: Dentro do plano espiritual que tão bem você aborda e

conhece, o homem conquistou o espaço antes ou depois do tempo previsto?

Chico Xavier — Cremos, com a palavra dos bons espíritos, que o homem por mais se

lhe amplie a inteligência e a cultura, o homem está subordinado aos poderes da Divina

Providência. Portanto, admitimos que o homem está deslanchando do nosso grande planeta

maravilhoso que chamamos Terra, na hora certa.

Herculano Pires — Meu caro Chico. - Eu queria perguntar a você o seguinte: Na

imensidade da sua obra psicográfica e também na profundeza dessa obra, você tem uma

curiosa série de romances que geralmente chamamos de 1 série dos romances romanos de

Emmanuel. São romances que se passam na Roma antiga: Há dois mil anos, 50 Anos


Pinga Fogo 12 Chico Xavier

Depois, Ave Cristo e até mesmo Paulo e Estevão, que segundo me parece é a obra-prima da

sua mediunidade no campo da ficção literária, embora eu saiba que os espíritos não têm a

intenção de fazer ficção literária e sim de transmitir às criaturas humanas, uma mensagem

através das suas próprias experiências de vida. Mas eu queria saber o seguinte: Para

escrever esses romances em que figuram não somente as situações geográficas da • Roma

antiga, as questões políticas, os problemas imperiais, você consultou que livros e que

bibliotecas?

Chico Xavier — Não consultei livro algum. Quando ouvi a respeito dos romances

mediúnicos recebidos pela médium Zilda Gama, cuja memória nós todos acatamos muito na

Doutrina Espírita, eu senti aquele desejo de ser médium também para romances, isso por

volta de 1936. Nessa ocasião lidava com um grupo de crianças da família porque, pelo fato

de eu não ter renascido nesta existência para o casamento, fiquei com 14 crianças, irmãos

menores e sobrinhos dos quais presentemente eu estou distante por haverem crescido e

tomado as suas responsabilidades. Nesse tempo a minha cabeça era atormentada por

muitos problemas. uando eu anunciei o desejo de receber romances, o espírito Emmanuel

então me explicou: Para que você receba romances, você precisa ter a mente em estado de

profunda serenidade. Se você quiser se comprometer a nos oferecer um clima mental

adequado, de paciência e de calma, escreveremos por você algumas de nossas memórias. Mas se puder ou quiser assumir o compromisso. Eu, naquela ocasião, não conseguia assumir

o compromisso porque os problemas domésticos eram muitos. De modo que 4 anos se

passaram e tão somente em 1939 a começar do fim de 1938, eu assumi com ele o

compromisso de me acalmar. Quaisquer que fossem os problemas dentro de casa, com as

crianças que já estavam mais crescidas, eu ofereceria a ele um campo mental pacificado na

oração. Então ele marcou, que eu me concentrasse durante uma hora por dia e me

dispusesse a datilografar outra hora por dia, durante o tempo em que perdurasse a

psicografia do romance. Então deu o Há 2000 Anos. Eu acompanhei a psicografia como

acompanho também as nossas novelas da TV, com muito interesse, com muito carinho e

torcendo por determinados personagens. Mas eu lia o que a mão escrevia. Peço permissão

para aduzir um detalhe interessante. Quando o livro começou, ele começa com uma cena de

dois romanos a trocarem idéias no jardim, diante de um céu nebuloso que depois rebentou

numa tempestade. Eu comecei a ver aquela cidade e o céu tempestuoso e a chuva caindo e

aqueles dois homens vestidos à moda antiga, de túnicas, deitados naqueles sofás longos, comendo frutas com as mãos. Eu me assustei com aquela visão que parecia uma visão

estranha porque estava dentro de mim e fora de mim. Comecei a assistir só, a um cinema

em que eu tomasse parte na tela e estivesse fora da tela. Então eu me assustei. Parei de

escrever. Então ele me disse: ”Você está debaixo de uma certa hipnose. Você está vendo o

que eu estou pensando. Mas não sabe o que eu estou escrevendo.” De modo que eu vivi

muito mais o romance ao recebê-lo, do que ao ler ou reler o que eu escrevia.

Herculano Pires — Eu gostaria então que você esclarecesse bem o seguinte, Chico:

Você tinha uma visão assim cinematográfica do enredo. Você estava vendo o desenrolar do

romance sem saber bem como, de que maneira. Mas não tinha consciência do que escrevia.

Chico Xavier — Não tinha consciência do que escrevia e nem da continuidade dos

assuntos, porque muitos dos personagens que me eram simpáticos e que eu não desejava

que sofressem, passaram a sofrercontra a minha vontade. — Pergunta de um pastor evangélico que você deve conhecer, porque ele é conhecido

em todo o Brasil, comanda um rebanho de fiéis à sua religião de um milhão e quinhentas mil

pessoas aproximadamente. Trata-se do pastor Manoel de Melo. Ele próprio irá fazer a

pergunta a você, que foi gravada pelo nosso VT.

Pastor Manoel de Melo — Meu caro Xavier, meus cumprimentos. Convidado por este

programa, pela sua direção para lhe formular uma pergunta, quero fazê-lo com muito

agrado, com muita satisfação por conhecer você através da leitura, da sua fama, e que

ninguém de consciência tranqüila pode negar as suas qualidades mediúnicas. Você como


Pinga Fogo 13 Chico Xavier


uma das maiores autoridades espíritas ou espiritualistas deste país, para não dizer deste

continente, por gentileza me responda esta pergunta que está sendo formulada em meu

nome pessoal e em nome de toda a minha organização, isto é, de 1 milhão e meio de fiéis

que represento neste país, de 4 mil pregadores que tenho a honra de liderar. — O

Espiritismo, Xavier, tem um ponto que se choca profundamente, logicamente falando, com

os princípios bíblicos que defendemos, nós, os evangélicos. É exatamente aquele ponto da

reencarnação, isto é, cada pessoa que nasce é sempre reencarnação de uma pessoa que

faleceu, de uma pessoa que morreu. Assim é apregoado e ensinado pelos espíritas no

mundo inteiro.

Esclareça o seguinte: Deus criou Adão e Eva, todos nós concordamos, creio que você

também, a maneira como foi criado e o mundo cristão inteiro. Muito bem. Mas logo após a

criação de Adão e Eva, as duas primeiras criaturas humanas, surgiram as duas outras

criaturas humanas; são os filhos de Adão e Eva: Abel e Caím. Você poderia, dentro da

sistemática espiritualista, dentro da doutrina da reencarnação, dar uma explicação aceitável

de onde vieram, qual a procedência de Caim e Abel, os dois primeiros filhos de Adão, isto é, pela ordem, a terceira e quarta pessoas humanas existentes aqui na Terra?

Chico Xavier — A pergunta do nosso caro amigo, que nos interpela a respeito do

texto bíblico, está emoldurada de tamanho carinho que inicialmente nós agradecemos esse

torn de fraternidade e ternura humanas com que ele emoldura a questão para se dirigir a

nós. Muito obrigado ao nosso caro pastor evangélico senhor Manoel de Melo, que nós todos

admiramos como sendo o orientador desse grande e brilhante movimento que é ”O Brasil

para Cristo”. Mas sem desejar fazer contraperguntas, porque, às vezes, a contrapergunta

não é uma prova de consideração por quem perguntou, mas a Bíblia é o nosso livro santo,

livro de todos os cristãos. Nós, os espíritas evangélicos, nos detemos no Novo Testamento

para compreender a essência dos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo e daqueles

que o sucederam, os apóstolos da causa evangélica. Nós temos maior intimidade com o

Novo Testamento. Entretanto, pedimos permissão ao nosso caro pastor evangélico senhor

Manoel de Melo, para considerar que no Livro de Gênese, no capítulo IV, versículos 16 e 17,

vamos encontrar uma questão muito interessante para nossos estudos em conjunto, porque

nós todos somos estudantes das letras sagradas. O capítulo IV trata, por exemplo, da união

de Adão e Eva para o nascimento dos seus três filhos: Caim, Abel e Seth. Sabemos por esse

texto, o capítulo IV do Livro de Gênese de Moisés, que Caim exterminou Abel. Entretanto, nos versículos 16 e 17, nós encontramos uma informação muito curiosa: a informação de

que Caim, em se retirando da face de Deus, se dirigiu para uma cidade ou uma terra

chamada Nod, onde ele desposou aquela que foi sua esposa e teve com ela uma grande

descendência. Então estamos perguntando se determinados textos do Antigo Testamento

não seriam códigos que nós precisamos estudar com mais segurança para não cairmos, por

exemplo, em contradição do ponto de vista literal. Nós precisamos estudar com técnicos e

pesquisadores de História que nós os temos hoje em todas as direções — digo isso com o

máximo respeito — porque, se Caim matou Abel antes do nascimento de Seth, mas casou- se numa cidade chamada Nod, onde encontrou a sua mulher, aquela que foi sua esposa e

com ela teve uma grande descendência, o assunto exige estudos especiais de nós todos, porque segundo a criação no Jardim Edêmico a família inicial teria sido constituída pelas

quatro pessoas, às quais se refere o nosso caro pastor evangélico senhor Manoel de Melo:

Adão, Eva e os dois filhos primeiros do casal. Vamos então estudar a questão. Com respeito

à reencarnação, nós os espíritas estamos diante de uma realidade inconteste para nós. Mormente na vida mediúnica, temos assistido nesses quase 45 anos de Espiritismo

evangélico, à luz dos princípios kardequianos, a desencarnações e reencarnações. Mas

permitindo-nos também perguntar ao senhor Manoel de Melo, o nosso pastor evangélico, e

também aqueles que fazem objeções contra os princípios da reencarnação, permitindo-nos

perguntar sobre o sofrimento das crianças, por exemplo. Não vamos nos referir aos adultos, porque seria alongar muito a resposta. Mas vamos pensar nas crianças. Por exemplo, nós, os espíritas, muitas vezes encontramos determinados casos de suicídio, e, às vezes, suicídio

acompanhado de homicídio. Mas vamos encontrar nesses problemas, complexo de culpa

levado para além desta vida e depois esse complexo de culpa renascido com aquele que é


Pinga Fogo 14 Chico Xavier

responsável por ele, através da reencarnação. Por exemplo: Muitas vezes temos encontrado

irmãos nossos suicidas que dispararam um tiro contra o coração e que voltam com a

cardiopatia congênita ou com determinados fenômenos que a medicina classifica dentro da

chamada Tetralogia de Fallow; nós vemos companheiros que quiseram morrer

voluntariamente pelo enforcamento e que voltam com a Paraplegia Infantil; nós vemos

muitos daqueles que preferiram o veneno e que voltam com más formações congênitas;

outros que, às vezes, violentam o próprio ventre e que voltam também sofrendo as

tendências e que, às vezes, acabam se desencarnando com o chamado enfarto mesentérico.

Nós vemos, por exemplo, aqueles que preferiram morrer pelo afogamento para se retirar da

vida, num ato de rebeldia contra as leis de Deus e que voltam com o chamado enfizema

pulmonar. Aqueles que dispararam tiros no próprio crânio e voltam com tantos fenômenos

dolorosos, como, por exemplo, a idiotia, quando o projétil alcança a hipófise, porque nós

estamos em nosso corpo físico e subordinado ao nosso corpo espiritual. Então, principalmente os fenômenos decorrentes do suicídio por tiro no crânio são muito dolorosos, porque vemos a surdez, a cegueira, a mudez e vemos esse sofrimento em crianças,

incompatíveis com a misericórdia de Deus, porque nós sabemos que Deus não quer a dor. Diz Emmanuel: ”Se Deus quisesse a dor Ele não teria nos dado a anestesia através da

medicina.” A dor é uma criação nossa, chegamos ao além com determinado complexo de

culpa, e pedimos para voltar ao corpo trazendo as conseqüências de nossos próprios atos

menos felizes. Então pedimos ao Sr. Manoel de Melo nosso caro pastor evangélico que tem

trabalhado tanto e cujo mérito nós todos reconhecemos e reverenciamos, para pensar

conosco nesses problemas.

Almir Guimarães — É, Chico, precisamos estudar, mas o pastor também precisa

estudar conosco, não é?

Aquário, a Era Maravilhosa Terá um Preço: A Paz •

Hele Alves — Eu queria saber agora o seguinte: Os espíritas dizem que os

renascimentos sucessivos da criatura humana têm por objetivo a sua evolução. Outras

correntes espiritualistas como os teosofistas, os messiânicos, também dizem que nós

estamos no limiar de uma era de grande beleza, a era de Aquário, na qual a humanidade

será muito feliz. Eu gostaria de perguntar ao senhor o seguinte. — Se temos mais de uma

dezena de séculos de evolução, se estamos no limiar de uma era de encontro da criatura

humana consigo própria, como que o senhor explica as violências do mundo atual como a

guerra do Vietnã, a violência da sociedade de consumo. Isso a nosso ver, não representa

uma grande evolução da humanidade.

Chico Xavier — Esses fenômenos todos — diz o nosso Emmanuel que está presente —

caracterizam mesmo o período de transformação em que nós nos encontramos. Diz ele: O

nosso companheiro materialista dirá: Natureza. Mas para nós os religiosos, Natureza é

sinônimo de manifestação de Deus. Então Deus cria a Natureza, Deus cria a vida, mas o

homem, os homens ou as mulheres do planeta, são filhos de Deus e podem modificar a

criação de Deus. Nós nos encontramos no limiar de uma era extraordinária, se nos

mostrarmos capacitados coletivamente a recebê-la com a dignidade devida. Se os países

mais cultos do globo puderem suportar a pressão dos seus próprios problemas, sem entrar

em choques destrutivos, como, por exemplo: guerra de extermínio, que deixará

conseqüências imprevisíveis para nós todos no planeta, então veremos uma era

extraordinariamente maravilhosa para o homem, porque a própria automação — diz ele —

nos está dizendo que vamos ser aliviados ou quase que aposentados do trabalho mais rude

no trato com o planeta, para a educação da nossa vida mental, através de informações

sobre o Universo com proveito enorme, proveito incalculável para benefício da humanidade. Mas isso terá um preço. Será o preço da paz. Se pudermos nos suportar uns aos outros, amar uns aos outros, seguindo os preceitos de Jesus, até que essa era prevaleça, provavelmente no próximo milênio, não sabemos se no princípio, se nos meados ou se no

fim. O terceiro milênio nos promete maravilhas, mas se o homem, filho e herdeiro de Deus, também se mostrar digno dessas concessões. Senão vamos agüentar nós todos, talvez com


Pinga Fogo 15 Chico Xavier

as estacas zero ou quase zero para recomeçar tudo de novo.

• A Humilde Certeza •

João de Scantimburgo - a escrita automática, tratada pela Metapsíquica e a

Parapsicologia, é um dos atributos da mediunidade, como diz Allan Kardec. Os que não

crêem nos dotes preternaturais do médium são de opinião que o senhor registra no papel, por meio de escrita automática ou inconsciente, reminiscências de leituras. E ainda, não será

o senhor dotado de tal sensibilidade que, identificado com os autores, por assim dizer

psicografados, naturalmente os assimilou e os imita e redige à maneira deles?

E, ainda, o que o senhor faz com os autores que diz psicografados é, na opinião dos

observadores que não são, não perfilham a mesma doutrina do senhor, um decalque ou

imitação. Por que o senhor ficou em autores como Humberto de Campos, Antero de Quental,

Augusto dos Anjos, Cruz e Souza, Guerra Junqueira e outros? Não terá o senhor repetido de

Augusto dos Anjos os versos que leu e reteve de memória? Chico Xavier — Antigamente eu me sentia, às vezes, ressentido dentro da minha

ignorância com aqueles que não conseguiam crer na realidade mediúnica. Isso há quase uns

40 anos. Mas Emmanuel então me disse: ”O seu ressentimento é pura vaidade, porque você

não pode exigir que os outros venham a crer naquilo que você crê, você não pode pedir a

outrem que pense pela cartilha dos seus próprios pensamentos. Você deve se preparar para

ouvir as opiniões mais contrárias em torno da mediunidade porque cada um, cada espírito

está na Terra com determinada tarefa, e, às vezes, o fato de alguém adquirir

prematuramente uma convicção muito real da vida extraterrena, pode ser um agente, não

vamos dizer de perturbação, mas pode ser um agente incômodo para a tarefa que aquela

criatura deva ou deve desempenhar.” Então respeito a opinião de todos que pensam assim, mas eu não posso acreditar que assim seja, porque isso se tornou tão evidente na minha

vida, se tornou de forma tão palpável para mim a convivência com as entidades espirituais

durante tantos anos, desde os dias da infância que, para mim, a vida com os espíritos

desencarnados já não é propriamente um fenômeno mediúnico, mas o estado de

convivência conquanto eu diga isso compreendendo que a misericórdia vem deles e que a

tolerância vem deles e que eu, às vezes, pergunto a mim mesmo como é que eles podem

me tolerar. Mas cheguei a um estado de certeza, certeza íntima e naturalmente pessoal e

intransferível, que se eu disser que estes livros pertencem a mim, eu estou cometendo uma

fraude pela qual eu vou responder de maneira muito grave depois da partida deste mundo. Eu não desejo carregar este problema porque estou perfeitamente tranqüilo quanto à

presença dos espíritos na mediunidade, nos livros e quanto mais a minha vida pessoal na

presente reencarnação se alonga na Terra, mais eu compreendo que me sinto à distância

deles, porque quanto mais a luz deles brilha, mais eu compreendo a minha inferioridade, a

sombra a que eu devo me acolher para respeitar. Então eu não posso crer desse modo. E, certa feita, quando alguém fez essa indagação ao espírito Emmanuel, ele então me disse: ”Então seria o caso de uma pessoa que leu centenas de livros se transformar, por exemplo,

num escritor automático de muitas obras, de muitas páginas, quando isso geralmente

acontece com muito pouca gente, só com aqueles que têm uma inteligência muito

apropriada.” Não é o meu caso, porque eu não pude ir além do curso primário, e além disso,

em 1931 eu contraí uma enfermidade ocular que me acompanha até os dias presentes e, apesar de muitas vezes uma pessoa acusada de devorar livros, eu não consigo ler muito. Para que eu leia um livro é preciso que um amigo me faça indicação, porque eu vou ler não

com sacrifício, mas com algum trabalho porque eu disponho apenas de atividade monocular.

Isto é do domínio dos médicos que em Belo Horizonte e em Uberaba tratam da minha

situação de doente dos olhos desde 1931.

• Seus 400 Autores, os Trabalhos de Kennedy, o Forno Crematório •

Herculano Pires — Chico, segundo os dados estatísticos referentes à sua obra, num

exame total de sua obra, você teria recebido até agora comunicações, poesias


Pinga Fogo 16 Chico Xavier

principalmente, em número muito grande e inclusive romances de mais de 400 autores. Eu

perguntaria a você se leu todos esses autores, se você tem conhecimento das obras de

todos eles, e se você conseguiu armazenar no seu inconsciente toda essa fabulosa bagagem

de mais de 400 autores brasileiros, portugueses e alguns até de outras línguas.

Chico Xavier — As estatísticas do casal Ibsen são autênticas. Devo declarar de

público que isso para mim seria impossível e peço permissão para dizer que eu tive na vida

três empregos: a primeira vez me empreguei aos oito anos numa fábrica de tecidos. Trabalhei até os doze anos freqüentando também a escola primária. Dos doze anos aos vinte

anos, trabalhei num bar e depois num armazém, isto é, no comércio. E de 1931 a 1961 eu

trabalhei durante trinta anos no Ministério da Agricultura, documentadamente. De modo que

não seria possível para mim me inteirar do estilo de todos esses poetas, escritores, cronistas, jornalistas, amigos desencarnados Absolutamente não.

Os Antigos Filósofos, Também Médiuns •

João de Scantimburgo — Chico Xavier, eu não ponho em dúvida a sinceridade do seu

ministério espiritista. Eu creio firmemente que o senhor trabalha com profundo amor à sua

causa e à sua doutrina. Mas eu vou insistir no aspecto mais conhecido da sua obra, das suas

atividades que é aquela de escritor psicográfico. O senhor afirmou, logo à minha primeira

pergunta, que escreveu 107 livros e que tem 4 no prelo. Na literatura brasileira o senhor é, depois de Coelho Neto, o mais prolífico dos escritores que já redigiram na língua portuguesa.

Por outro lado, o senhor disse, respondendo a uma pergunta minha, que havia feito apenas

um curso primário. O senhor, para todos os que aqui estão e o estão assistindo pelo vídeo, em casa, é um homem que tem uma grande fluência ao falar. O senhor constrói com

perfeição a frase, o senhor tem lógica na exposição da sua doutrina logo, o senhor é um

autodidata, que se compenetrou da doutrina que esposou e a estudou profundamente e

passou a exercer o seu trabalho expondo essa doutrina. Eu insisto que a escrita automática

no senhor deve ser mais o produto do inconsciente do que o produto da mediunidade. Não

sei se o senhor conhece uma coleção de livros publicados na França, com o título genérico

”À maneira de em que os autores fazem a imitação de vários autores. Por exemplo: Marcel

Proust, cujo centenário acaba de passar. Se o senhor ler uma página de Marcel Proust e uma

página do livro ”A maneira de...”, não distinguira, ainda mesmo que tenha profundo

conhecimento do estilo de Marcel Proust. Esta é uma imitação consciente. Eu tenho para

mim que o senhor ao fazer, redigir os livros psicografados agiu sob impulso do inconsciente. O meu antigo companheiro de imprensa e caro companheiro de imprensa Herculano Pires, cuja inteligência brilhante eu sempre respeitei e sempre aplaudi, criou um embaraço para a

minha pergunta, ao falar em 400 autores que o senhor teria citado. O senhor citou 400

autores ou o senhor escreveu à maneira de 400 autores como escreveu Humberto de

Campos, como Guerra Junqueira, como Antero de Quental, como Augusto dos Anjos?

Chico Xavier — Creio que o número anunciado está superado em mais de 400

comunicantes. Eles escreveram à maneira deles, mas respeito o ponto de vista do senhor, como respeito qualquer homem de Ciência que ainda não pode aceitar, por exemplo, o

realismo da mediunidade. Respeito muito, mas continuo acreditando que eles escreveram à

maneira deles, porque em algumas centenas, vamos dizer mais de três centenas destes 400

e tantos, hoje me parece que são quase 500, eu não tinha a menor idéia do que eles

escreviam.

João de Scantimburgo — O senhor conhece um caso famoso ocorrido na Inglaterra, de escrita psicografada: uma senhora que psicografou a obra de Oscar Wilde e os meios

literários ingleses não acreditaram como sendo uma obra psicografada de Oscar Wilde. Ainda mais: entre as minhas carreiras, além de jornalista eu também tenho a de Filosofia e

não me consta que obras tão complexas como a de Platão, a de Aristóteles, a de Santo

Agostinho, a de São Tomaz de Aquino, a de Descartes, a de Kant, e a de outros filósofos e

outros pensadores tenham sido psicografadas. Não seria por causa da dificuldade de

psicografar essas obras?


Pinga Fogo 17 Chico Xavier


Chico Xavier — Bem, eu devo voltar um pouco o nosso pensamento inicial para dizer

ao senhor que desde 1931 a presença de Emmanuel em minha vida tem sido a presença de

um professor. Ele tem corrigido minhas expressões, ele tem procurado melhorar o meu

vocabulário, melhorar as minhas atitudes do ponto de vista verbal e como o livro está à

frente da presença apagada que eu possa trazer, ele sempre teve muito cuidado em podar

tanto quanto possível as minhas impropriedades que eu sei que são muito grandes. De

modo que eu posso declarar de público que qualquer estrutura fraseológica mais feliz de que

eu possa ser portador, isso se deve à influência de Emmanuel, à presença dele junto de

mim, compreendendo a responsabilidade de um programa como este. Quanto aos escritores

da antigüidade e aos escritores dos tempos modernos, com todo o respeito ao senhor, eu

me permitiria perguntar, se eles também não seriam médiuns?

João de Scantimburgo — Este programa é de perguntas e não de debates.

Chico Xavier — Não, não é de debates, absolutamente. Apenas respeitando

imensamente a Igreja Católica, em cujo seio formei a minha fé e que devo declarar de

público, que nunca perdi e não quero perder. Então eu digo aqui de público eu não conheço

essas obras, mas gostaria de conhecê-las, em português, mas os espíritos amigos se

referem, por exemplo, a duas personalidades do mundo católico que deveriam ser mais

conhecidas em nosso ambiente cultural. Por exemplo: Na latinidade, especialmente na

língua portuguesa, eu não conheço absolutamente nada. Eles se referem a Santa Brígida, da

Suécia e a Santa Clara, de Montefalco, na Itália, as biografias atestam a presença de

mediunidades extraordinárias, a ponto, diz Emmanuel, que Santa Brígida deixou muitas

páginas, vamos dizer, do ponto de vista de autenticidade absolutamente psicográfica. Seria

muito interessante, estimaria muito conhecer a vida dessas duas grandes figuras da Igreja

Católica, que eu venero tanto, ao que me parece pela palavra dos nossos amigos espirituais,

foram duas criaturas portadoras de mensagens especiais para os cristãos.

Herculano Pires — Almir, eu queria que você me concedesse apenas o direito de fazer

uma observação a respeito do que o Chico acabou de falar. Eu queria lembrar a existência, no meio católico, também de fenômeno psicográfico. As edições Paulinas, aqui de São Paulo,

há uns cinco anos mais ou menos, publicaram um livro muito curioso, e que se chama O

Manuscrito do Purgatório. É um livro recebido na Espanha, num convento de lá, por uma

freira. Ela recebeu o livro através do espírito de outra freira que havia morrido no próprio

convento. Um trabalho evidentemente de psicografia católica. Esse livro foi traduzido para o

português pelo padre Júlio Maria, tão conhecido, principalmente pela sua atuação na revista

Ave Maria. E saiu publicado aqui em São Paulo, com todas as autorizações eclesiásticas, tendo vindo, também, da Espanha com essas autorizações. Mas acrescento o seguinte: As

próprias edições Paulinas anunciaram que outros livros da mesma natureza seriam

publicados por ela. Entretanto, não foram. Mas existem, portanto bastaria esse livro O

Manuscrito do Purgatório, que foi publicado, para provar que existe uma psicografia católica.

, Chico Xavier — Emmanuel pede para memei tornar diante do nosso caro escritor e

entrevistador que levantou o problema com tanta distinção e com tanto carinho, que não

podemos esquecer um problema muito importante em nossa vida cristã. E que o livro é

mesmo um instrumento de cultura extraordinário, um instrumento que está entre este

mundo e o outro. É tão importante, que o primeiro livro que veio para a humanidade é um

livro do mundo espiritual, um livro de pedra que foi os 10 Mandamentos, de Moisés.

Herculano Pires — Psicografia na pedra! Moisés como médium psicógrafo.

• O Caso Augusto dos Anjos •

João de Scantimburgo — Chico Xavier, embora o senhor possa considerar elucidada a

questão que vou propor, ao responder ao entrevistador Herculano Pires, eu vou fazer uma


Pinga Fogo 18 Chico Xavier


pergunta: O que o senhor tem escrito de Augusto dos Anjos, por exemplo, não seria apenas

reminiscência de leitura?

Chico Xavier — Em 1931, quando eu ia fazer 21 anos, o espírito de Augusto dos

Anjos sentia muita dificuldade em escrever por meu intermédio. Nesse tempo eu trabalhava

num armazém e esse armazém me dava também serviços para cuidar de uma horta muito

grande com plantações de alho, porque o alho na região em que eu nasci é um fator

econômico de muita importância. Então, depois das 6 horas da tarde, para mim, era um

prazer regar os canteiros de alho e os espíritos começavam a conversar comigo. Eu achava

muito prazer naquelas horas, porque eu me isolava de todo o serviço do armazém para ficar

plenamente à disposição dos espíritos amigos. Então ele começou a ditar uma poesia que

está no Parnaso de Além Túmulo, o primeiro livro da nossa mediunidade. A poesia chama-se ”Vozes de uma Sombra”. E ele começou a falar com aquelas palavras maravilhosas, muito

técnicas, eu com o regador na mão, custava a compreender. E ele falava e falava que

gostava de escrever no campo e que aquela era uma hora em que ele queria ditar, para que

eu ouvisse para poder compreender na hora de escrever, porque muitas vezes escrevo

também como médium ouvinte. Então eu sentia aquela dificuldade, então ele falou assim

comigo: ”Olha, você quer saber de uma coisa? Eu vou escrever o que puder, pois a sua

cabeça não agüenta mesmo.” E a poesia está no livro, mas só o que ele pode, mas era

muito mais, era uma beleza. Ele falava de fótons, cores, de mundos, galáxias. Quem era eu

para entender aquilo, eu que estava regando canteiros de alho?

"Os Problemas daSexualidade •

Almir Guimarães — Chico, tem aqui uma pergunta de dona Maria Lúcia Silva

Guimarães, Av. Tucuruvi, 763. Pergunta como se explica o homossexualismo e a

perturbação no comportamento sexual, à luz da Doutrina Espírita.

Chico Xavier — Temos tido alguns entendimentos com espíritos amigos e

notadamente com Emmanuel a esse respeito. O homossexualismo, tanto quanto a

bissexualidade ou bissexualismo, como a assexualidade são condições da alma humana. Não

devem ser interpretados como fenômenos espantosos, como fenômenos atacáveis pelo

ridículo da humanidade. Tanto quanto acontece com a maioria que desfruta de uma

sexualidade dita normal, aqueles que são portadores de sentimentos de homossexualidade

ou bissexualidade são dignos do nosso maior respeito e acreditamos que o comportamento

sexual da humanidade sofrerá, no futuro, revisões muito grandes, porque nós vamos

catalogar do ponto de vista da Ciência todos aqueles que podem cooperar na procriação e

todos aqueles que estão numa condição de esterilidade. A criatura humana não é só

chamada à fecundidade física, mas também à fecundidade espiritual, transmitindo aos

nossos filhos os valores do espírito de que sejamos portadores. Não nos referimos aqui aos

problemas do desequilíbrio, nem aos problemas da chamada viciação nas relações humanas.

Estamos nos referindo às condições da personalidade humana reencarnada, muitas vezes

portadora de conflitos que dizem respeito seja à sua condição de alma em prova ou à sua

condição de criatura, em tarefa específica. De modo que o assunto merecerá muito estudo. Nós temos um problema em matéria de sexo na humanidade que precisaríamos considerar

com bastante segurança e respeito recíproco. Vamos dizer: Se as potências do homem na

visão, na audição, nos recursos imensos do cérebro, nos recursos gustativos, nas mãos, na

tactividade com que as mãos executam trabalhos manuais, nos pés, se todas essas

potências foram dadas ao homem para a educação, para o rendimento no bem, isto é, potências consagradas ao bem e à luz, em nome de Deus, seria o sexo em suas várias

manifestações sentenciado às trevas?

Almir — Dona Hilda Jorrad, da rua Major Diogo, 699, pergunta muito triste. Diz ela: ”Perdi um filho há um ano. Choro muito. Quero saber se as minhas lágrimas estão

prejudicando meu filho?”

Chico Xavier — Quando as lágrimas nascem do nosso reconhecimento a Deus pelos


Pinga Fogo 19 Chico Xavier


benefícios que recebemos; quando as lágrimas refletem a nossa saudade tocada de

esperança, os nossos amigos desencarnados nos dizem que as lágrimas fazem a eles muito

bem, porque elas são luzes no caminho daqueles que são lembrados com imenso carinho.

Mas quando as nossas lágrimas traduzem revolta de nossa parte diante dos desígnios

divinos, que nós não podemos de imediato sondar, quando essas lágrimas retratam rebeldia,

essas lágrimas prejudicam os desencarnados. Tanto quanto prejudicam os encarnados

também.

Almir — Carlos Alexandre Cavalieri está no auditório. com base na sua explicação da

criação, de uma vida em tubo de ensaio pergunta: ”1) Como se daria a ligação pelo espírito;

2) O novo ser nasceria sem as neuroses provocadas por possíveis desentendimentos entre

os pais; 3) Como se manifestaria o amor maternal e filial se ele se inicia normalmente na

fase uterina? ”

Chico Xavier — Os espíritos amigos nos dizem que o problema, por exemplo, do

complexo de Édipo e as derivações dele que nós chamamos de complexo de Electra, foram

inicialmente estudados por Freud e que hoje são desenvolvidos por uma plêiade brilhante de

cientistas da psiquiatria e da análise. Esses fenômenos podem ser perfeitamente estudados

com muita segurança e com muito êxito à luz da reencarnação. E nós vamos compreender

que precisamos hoje da psiquiatria e da análise porque as nossas ligações afetivas na Terra

quase até agora têm sido filiadas a um amor muito selvagem. Nós nos queremos uns aos

outros dentro, vamos dizer, das peias da consangüinidade ou das peias da afetividade com

um espírito de egoísmo que vai ao superlativo da absorção, de modo que a psiquiatria e a

análise vão nos ajudar no mundo, em nome da providência divina a nos estudarmos e a

estudar esses vínculos para depois voltarmos a esses mesmos vínculos com um amor mais

educado. Então se formos dignos de receber o tubo de ensaio como sendo um claustro

materno estruturado pela Ciência, vamos esperar que no tubo de ensaio a reencarnação se

faça com muito mais facilidade para as garantias de saúde do espírito reencarnante, porque

nós, como espírito reencarnante na Terra, estaremos libertos de muitos traumas que

acontecem em nossa condição de vida embrionária, quando na companhia mais íntima de

nossa mãezinha sobre a Terra. Mas, a vinculação do amor não terminará nunca porque o

amor é a presença de Deus. O amor continuará a nos unir, uns aos outros, para sempre e

nós nos amaremos cada vez mais. Agora, vamos educar o amor porque não temos sabido

amar uns aos outros conforme Jesus nos amou.

• Umbanda e o Tráfico Negreiro •

Reale Jr. — O senhor acha que os espíritos que se manifestam nos terreiros de

umbanda, dizendo-se guias de cura, pretos velhos, índios, caboclos, são espíritos evoluídos?

Como explica as curas conseguidas por muita gente conhecida, em terreiros? Será que o mal

pode apresentar-se através do bem, ou então tomando a sua forma?

Chico Xavier — Nós respeitamos a religião de Umbanda como devemos respeitar

todas as religiões. Vamos recorrer aos casos das leis cármicas. Nos séculos passados, nos

três, quatro séculos passados, nós — vamos dizer coletivamente — não estamos falando do

ponto de vista individual, mas na condição de brasileiros, buscamos no berço onde nasceram

milhões de irmãos nossos reencarnados nas plagas africanas, para que eles servissem nas

nossas casas, nas nossas famílias, instituições e organizações, na condição de alimárias. Eles se incorporam, depois de desencarnados, às nossas famílias. Eles renasceram do nosso

próprio sangue, nas condições de nossos irmãos, para receberem, de nossa parte, uma

compensação que é a compensação chamada de amor, para que eles sejam devidamente

educados, encaminhados, tanto quanto nós pretendemos educar-nos e encaminhar-nos para

o progresso. Então temos a religião de Umbanda que vem como uma organização dos

espíritos, recentemente, porque quatro séculos significam um tempo curto nos caminhos da

eternidade. Recentemente trazidos para o Brasil eles se organizaram agora, seja numa

condição ou noutra. Nós no Brasil, não conseguimos pensar em termos de cor. Nós todos

somos irmãos. De modo que eles organizaram uma religião sumamente respeitada também.


Pinga Fogo 20 Chico Xavier


Eles também veneram a Deus, com outros nomes. Veneram os emissários de Deus, com

outros nomes. Respeitamos todos e acreditamos que em toda parte onde o nome de Deus é

pronunciado, o bem pode se fazer. Agora encontramos na Doutrina Espírita, individualmente

e coletivamente, a faixa que nos compete no campo de nossa evolução, para estudos do

nosso destino, para estudos da imortalidade. Quanto a problemas de cura, permitimonos

lembrar uma coisa: às vezes nós pedimos socorro a determinadas organizações para a cura

imediata de determinados impedimentos físicos. Essa cura, parece, talvez, forçada por

nossas exigências, porque muitas vezes os nossos irmãos, trazidos das plagas africanas, se

habituaram, de certo modo, a obedecer-nos quase que cegamente. Eles se afeiçoam a nós

com uma afeição terrível, do ponto de vista do egoísmo de que nós todos, por enquanto, principalmente se referindo a mim, somos portadores. Então exigimos uma cura que se faz

de imediato no campo físico, mas nos esquecemos de que, às vezes, a cura física é um

caminho para encontrarmos, mais adiante, desastres morais de conseqüências imprevisíveis.

Então se as curas demoram no ambiente kardequiano, ou se demoram no campo da

medicina, vamos respeitar o problema dessa demora, porque aquilo se verifica em nosso

próprio benefício. Porque muitas vezes uma doença física, ou determinada provação em

nossa vida doméstica, nos poupa de acidentes afetivos ou acidentes materiais, ou de

fenômenos extremamente desagradáveis em nossa vida.

Telespectador de Machado, no sul de Minas — Gostaria de saber se Judas foi um

traidor ou fazia parte de um programa para salvar Jesus Cristo?

Chico Xavier — Sinceramente eu sou uma formiguinha diante de um processo que

teve conseqüências tão grandes na História da Humanidade. Mas, eu creio que nós podemos

nascer ou renascer com as nossas tendências anteriores e, naturalmente, induzidos ao mal, porque nós todos — nós todos não — eu sou portador de tendências inferiores muito pouco

recomendáveis. Mas, se eu deixo essas tendências à solta e se vou praticar, com elas, males

maiores do que aqueles que eu já cometi em existências passadas, eu sou responsável,

conquanto possa ser um instrumento para o resgate de determinadas situações, ou peça na

engrenagem da história de grupos ou coletividades, com conseqüências agradáveis ou

desagradáveis para o futuro. Individualmente devemos pensar que nós temos determinadas

tendências, tentações, mas devemos resistir às tentações. Creio que Judas poderá ter

renascido com tentações muito grandes para se apropriar da autoridade política e exigir que

Nosso Senhor Jesus Cristo tomasse as rédeas do poder humano. Acredito. Mas creio que ele

não devia ter deixado essas tendências assumirem o caráter que assumiram. É o que eu

penso.

• Homem, Mulher e Reencarnação •

Hele Alves — É muito comum a gente ouvir os espíritas falarem que em outra

encarnação tal pessoa, quer dizer, no mesmo grupo de familiares, ou de convivência, fulana

foi mãe de sicrano na outra encarnação ou beltrano foi irmão de não sei quem. Então tem-se

a impressão de que as reencarnações se fazem no mesmo grupo familiar. Como a gente se

aprimora na medida que tem v experiências mais variadas, eu queria saber se de fato existe

essa limitação nas reencarnações a determinados grupos e, também, outra coisa: se o

homem sempre nasce homem, mulher, mulher, porque é injusto né? A gente precisa ter

mais chance de experiência. Mas sempre se ouve falar de homem nascer sempre homem.

Chico Xavier — Isso não é propriamente uma limitação, porque pode acontecer fora

dos grupos afins. A nossa reencarnação pode ocorrer à distância do nosso grupo eleito, mas

em geral, atendendo-se às ligações do amor que nos prende uns aos outros, renascemos

naqueles grupos de ordem familiar a que nos vinculamos para continuar com o trabalho de

assistência mútua. Muitas vezes nós queremos determinada conquista na Terra, seja nos

domínios da atividade ou nos domínios culturais, e, às vezes, nós vamos encontrar proteção

para isso junto de uma criatura que nos foi muito amada em outra existência, junto de um

coração materno, de um pai amigo, capazes de compreender-nos e auxiliar-nos nessas

empresas, então isso é muito comum, que voltemos no mesmo grupo de ordem, de ordem

sentimental, dentro da mesma faixa de atividade. Agora, quanto ao fato da transposição de


Pinga Fogo 21 Chico Xavier


sexo, O Livro dos Espíritos nos ensina que isso pode acontecer muitas vezes. Muitas vezes

nós renascemos com problemas de inversão, por efeito de provação educativa depois de

determinados excessos praticados em outras vidas, seja na condição de homem, seja na

condição de mulher. E, às vezes, nascemos também na condição inversiva para

encontrarmos no corpo uma célula de trabalho que nos afaste de determinados riscos para a

execução de tarefas específicas. Muitas vezes um grande homem terá de cumprir

determinada tarefa, vamos dizer, no ensino, isso é, às vezes, comum. Não vamos cogitar do

problema da inversão na faixa de prova, na faixa de sofrimento reparador que ocorre muitas

vezes. Mas vamos pensar na inversão do seu ponto de vista mais elevado, mais alto, um

grande homem que se tenha apaixonado pelos problemas de educação na Terra, desejando

voltar a este mundo para uma obra educacional muito séria, muito extensa em benefício da

coletividade que ele ama; ele pode pedir aos seus instrutores para voltar num corpo de

mulher e será então uma grande professora. Ela terá talvez conflitos íntimos muito grandes,

mas ela terá compensações muito maiores na missão que cumpre. O mesmo pode acontecer

com a mulher que evoluiu muito e, às vezes, do ponto de vista de inteligência e que

desejando voltar à Terra para determinada tarefa do coração, junto da comunidade, é

possível que esse espírito, que esteve longamente na fileira das reencarnações femininas e

por isso mesmo obtém, e fixando em si mesma as qualidades femininas com muita

intensidade, é possível que esse espírito afeiçoado às questões femininas venha no corpo de

um homem para se isolar de compromissos que colocariam em risco o seu trabalho junto da

comunidade.

Hele Alves — Mas então, se o homem teve muito mais chance de fazer experiências, de ter uma vida mais desenvolta, mais ativa, ele teve também mais chance de se aprimorar.

A mulher só neste século é que está podendo fazer alguma coisa. Ela não teve a menor

chance de aprender.

Chico Xavier — Não. Nós devemos compreender que a misericórdia de Deus, a

sabedoria de Deus instituiu leis que nos favorecem a todos, que nos beneficiam a todos e

que a vida é sempre bela, e que a vida é sempre uma dádiva preciosa seja em qualquer

posição que estivermos. É verdade que a mulher tem sofrido muito nos séculos todos de

nosso conhecimento. E a mulher tem sofrido tanto que em determinada assembléia

religiosa, há séculos passados, mas muito tempo depois do Nosso Senhor Jesus Cristo, em

determinada assembléia religiosa, uma das questões que foram estudadas era aquela de se

saber se a mulher era portadora de uma alma. Quer dizer que a mulher tem sofrido muito. Mas isso não impediu que a mulher fosse e seja a detentora dos poderes de criar a vida em

nome de Deus. Homem nenhum da Terra até agora impediu a mulher do privilégio, da glória

de ser mãe, e isso é muito importante. Ter um filho, ter filhos, isso é sublime na vida de um

espírito e a mulher dispõe desse privilégio. Nós conhecemos os santos, os heróis, os grandes

homens, as grandes inteligências que se distinguiram no mundo masculino, mas nenhum

deles apareceu sem o carinho da mulher, e é tão importante a tarefa da mulher que quando

a Divina Providência, através de poderes que nós não temos recursos para definir, necessitou de alguém para confiar o maior tesouro de Deus na Terra, que foi Nosso Senhor

Jesus Cristo, esses poderes da Divina Providência que nós respeitamos todos, em todas as

partes do mundo, quando temos a semente da fé desabrochada em nossos corações, esses

poderes não chamaram nem Tibério, nem outros Césares, por exemplo,

nem Augusto que era o César de então, não chamaram os filósofos gregos, chamaram uma jovem que se chamava Maria de Nazaré e em cuja personalidade nós todos

reverenciamos aquela que foi mãe de Jesus e que ficou sendo para nós todos, o símbolo de

mãe para a humanidade, pelo menos na faixa do desenvolvimento cristão que abrange

muitos milhões de criaturas humanas.

Almir Guimarães — Está presente no auditório uma senhora e envia a você um

bilhete. Diz ela o seguinte: ”Sendo eu médium vidente, gostaria de saber por que as

entidades presentes ao seu lado se fazem visíveis para mim, ora jovens, ora idosos. São as

mesmas entidades? ”


Pinga Fogo 22 Chico Xavier


Chico Xavier — Nossa amiga naturalmente estará entrando numa faixa de observação

dentro da qual eu não me encontro no momento, pela necessidade de atender com muita

atenção à responsabilidade diante de auditório tão distinto e diante de milhares de

telespectadores. Mas acredito perfeitamente na autenticidade da nossa irmã e agradeço

muito a esses amigos que nos assistem e que particularmente me ajudam a compreender o

meu dever para que eu esteja atento às instruções de Emmanuel, no sentido de responder

com tanta clareza como for possível, às perguntas enunciadas.

Almir Guimarães — Mauro Marcondes Filho, advogado, deseja saber se os seus guias

espirituais já o informaram sobre a situação espiritual de Kennedy, De Gaulle, Stalin e

Churchill, os maiores líderes políticos deste século.

Chico Xavier — Seria para mim muito difícil estabelecer um sistema de informações

nesse particular, conquanto admire profundamente o presidente Kennedy. Não tenho maior

conhecimento da missão do general De Gaulle, que admiro também muitíssimo, e Churchill, por haver comandado a empresa de defender a civilização ocidental; e de Stalin também

não tenho maior conhecimento. Sei por informações de amigos norte-americanos que o

presidente Kennedy continua trabalhando (no mundo espiritual) pelo progresso das idéias de

emancipação e pela integração das raças e pela fraternidade do povo americano e dos povos

dos continentes do mundo. É o único de que eu posso dar informações.

Almir Guimarães — Benedito Alves de Oliveira, rua Almirante de Noronha, 465, pergunta: ”Chico sofre de uma das vistas, qual a razão de não ter sido operado pelo Arigó?

Não tem fé ou não houve oportunidade? ”

Chico Xavier — O problema é que, certa feita, o Dr. Fritz, conversando conosco

depois de uma reunião, me disse: ”Chico, você não admita que as operações mediúnicas se

verifiquem simplesmente como privilégio. Quando vocês dormem na Terra, quando se

entregam à hipnose do sono, são inúmeros os benfeitores espirituais que trabalham e

operam socorro cirúrgico, ou socorro de outra natureza em favor de todos, seja no mundo

orgânico ou seja no campo mental.” Quanto ao meu caso ocular, que não foi operável desde

o princípio quando a doença se manifestou, eu creio que esse problema foi uma bênção para

que eu pudesse me manter mais ou menos, relativamente sem ferir os interesses dos bons

espíritos durante esses anos da mediunidade. Se eu sair do dever eu sofro muito com os

olhos, então estou como um animal que não posso me afastar dos donos, né?

Almir Guimarães — E exato que quase todos os membros de sua equipe espiritual

sofriam da vista?

Chico Xavier — Não, isso pode ser uma informação interessante, mas não é

verdadeira.

Almir Guimarães — O Sr. Eloy Fernandes rualguape, 6. A. Opinião de Chico Xavier

sobre a cremação de corpos que será implantada no Brasil.

Chico Xavier — Já ouvimos Emmanuel a esse respeito e ele diz que a cremação é

legítima para todos aqueles que a desejem, desde que haja um período de pelo menos 72

horas de expectação para a ocorrência em qualquer forno crematório, o que poderá se

verificar com o depósito de despojos humanos em ambiente frio.

• As Crianças do Tubo de Ensaio •

Reale Jr. — Houve alguma coisa entre o senhor e José Arigó? Eu pergunto porque

neste programa o senhor afirmou que conviveu com Zé Arigó de 54 a 56 e que, depois

dessa data, se afastou dele e não tem mais condições para ajuizar suas qualidades

mediúnicas. O que o afastou de Arigó? Apenas os quilômetros entre Congonhas do Campo e

Uberaba?


Pinga Fogo 23 Chico Xavier


Chico Xavier — Justamente a distância. Porque vindo para Uberaba, abraçamos uma

tarefa em que o tempo se tornou para nós cada vez mais estreito, conquanto quiséssemos

visitar pessoalmente José Arigó e contanto o admirássemos muito, não foi mais possível

dispor de tempo para uma visita, para uma troca de presença pessoal. Só a distância.

Saulo Gomes — Como nossa oportunidade é rara, eu fujo até de uma seqüência

lógica de perguntas, para deixar aos milhares de telespectadores uma palavra sobre um

assunto muito profundo. - Em recentes experiências todos nós ouvimos falar de que cientistas pretendem

iniciar um processo gerando uma criança num tubo de ensaio. Qual seria o destino da

humanidade, dentro da sua experiência no campo espiritual para os seres humanos que um

dia a Ciência, num tubo de ensaio, viesse colocar no nosso meio. Qual seria a forma interior

dessa gente?

Chico Xavier — Há tempos quando comparecemos num programa de televisão aqui

mesmo em São Paulo, foi aventada essa questão do tubo de ensaio. E com a assistência do

espírito de Emmanuel, declaramos que o poder da Ciência é infinito, porque a Ciência está

credenciada pela misericórdia, pela sabedoria de Deus para entrar em relação com todos os

setores do progresso humano. Então nós não podíamos duvidar de que a Ciência chegaria a

esta realização. Mas indagamos quanto ao amor de que a criança necessitaria ou

necessitará, vamos dizer, qualquer um de nós, para renascermos no tubo de ensaio. Por

exemplo: Nós teremos o tubo de ensaio e teremos todo o equipamento de recursos para que

o nosso corpo seja tão sadio, tão robusto quanto possível. E o amor, o amor dos pais, o

amor da família? Perguntávamos de nós. Mas os espíritos amigos em entendimento conosco

nos últimos tempos, afirmam que esse assunto está sendo cogitado no mundo espiritual

com muito interesse. A nossa querida Hele Alves se referiu ao trabalho sacrificial da mulher

em relação ao trabalho mais livre do homem em todos os séculos que precedem à nossa

civilização, ela tem razão, porque a mulher tem sido sempre muitíssimo sacrificada. Mas, é

possível, não vamos dizer isso como profecia dentro de ciências exatas, mas vamos estudar

isso como um problema de solução provável.

É possível que a Divina Providência esteja mesmo promovendo a confecção do tubo

de ensaio na Terra, para que a reencarnação possa se realizar sem tantos sacrifícios da

mulher. É possível que a mulher esteja se aproximando de uma época em que ela também

será exonerada da carga de sacrifícios que a maternidade impõe, conquanto nós estejamos

convencidos de que a maioria de milhões de mulheres de todo o planeta se sinta

imensamente feliz com a maternidade. Mas é possível que o tubo de ensaio para que o

homem e a mulher não fiquem na Terra diante de Deus como criaturas em delito

permanente — vamos dizer — perdoem-me estas palavras ”assassinando crianças”. Nós

sabemos que nações de vanguarda estão legalizando o aborto, não vamos declarar nomes,

isso seria injuriar povos que nós amamos e respeitamos muito. Mas é possível que o tubo de

ensaio venha mais tarde como uma complementação para que os filhos de Deus que

venham nascer na Terra, todos eles dignos do nosso maior respeito e do nosso máximo


carinho, sejam então recebidos por pais e mães responsáveis, que possam realmente amá-

los, que possam pedir o nascimento desses filhos a governos magnânimos, que ajudem a


questão demográfica, governos que possam realizar estatísticas adequadas e aceitar novos

filhos entre os seus tutelados, permitindo que esses pais responsáveis possam receber os

filhos de Deus, que somos nós todos. Nesse sentido digo de coração, pessoalmente, falo isso

porque os espíritos mantém essa opinião em entendimentos conosco. Agora, pessoalmente, digo, que se minha mãe, em seu infinito amor, em sua fé religiosa tivesse tido medo de

mim, eu não sei onde é que eu estaria.

• O Trabalho de Cada Um •

Reale Jr. — A Igreja Católica cada dia tem aumentado mais sua atuação no sentido

de que haja mais justiça social no mundo, melhor distribuição de renda. Aqui mesmo no


Pinga Fogo 24 Chico Xavier


Brasil, a participação da Igreja, na área social, tem sido muito grande, o que aliás, lhe tem

causado até alguns problemas. O que o Espiritismo no Brasil tem feito nesse sentido; ou por

acaso prega o conformismo na vida material?

Chico Xavier — O Espiritismo não prega o conformismo do ponto de vista em que o

conformismo é interpretado. O Espiritismo nos pede paciência para esperar os processos da

evolução e as realizações dos homens dignos que presidem os governos, cooperando de

nossa parte, tanto quanto possível, para que as leis desses mesmos governos sejam

executadas. De modo que, se estamos subordinados ao critério de Nosso Senhor Jesus

Cristo que estabelece aquele princípio ”dê a Deus o que é de Deus e a César o que é de

César”, isto é, aquilo que pertence ao mundo superior da nossa mente, as realizações com

Deus, que constituem o progresso e o aprimoramento de nossa alma e aquilo que nós

devemos aos poderes constituídos do mundo que nos orientam e que administram os nossos

interesses, então o Espiritismo evangélico não se sente absolutamente inclinado a qualquer

participação no partidarismo de ordem política para solucionar os problemas da vida

material, conquanto reconheça que todos devemos trabalhar. O Espiritismo nos ensina que

se existe fome não é por culpa da Terra, assim como o rio não tem culpa quando passamos

por cima dele uma ponte cometendo um delito contra a higiene. As leis são magnânimas, mas a vacina contra a ignorância é a instrução e a vacina contra a penúria é o trabalho. Ao

invés de pedir melhoria de rendas, vamos pensar assim conquanto precisemos de dinheiro, todos necessitamos do dinheiro como o sangue de nossas realizações materiais e seiva da

nossa civilização. Nós todos precisamos do dinheiro, seja ele apresentado de que forma for, em qualquer regime, porque o dinheiro é um documento daqueles que nos governam e que

nos credenciam para o serviço aquisitivo onde estejamos.

Conquanto precisemos todos do dinheiro, vamos pensar, por exemplo, em trabalhar

todos e em organizar vamos dizer, a questão do trabalho com o aproveitamento das nossas

energias integrais.

Então, cremos que o problema seria quase que imediatamente resolvido. Vamos dizer

que na atualidade déssemos ou que venhamos a dar a liderança das empresas, a chefia das

equipes às inteligências juvenis, como vem acontecendo quase em todos os países de

vanguarda. Mas, sem valorizarmos a madureza que começa de 40 a 45, 50 anos, colocando

a madureza com seu discernimento a serviço da coletividade, proporcionando aos homens e

às mulheres que já amadureceram na experiência física, trabalho e mais trabalho, desde

que eles tenham condições orgânicas compatíveis com essa necessidade, mas prestigiando a

personalidade humana em sua condição de pessoa amadurecida no trabalho remunerado ou

tão altamente remunerado quanto possível, nós resolveríamos o problema, sem entrarmos

em atrito com a autoridade legal.

• ”Então Cale a Boca e Morra com Educação” •

Almir Guimarães — Chico, um telespectador, eu não sei se isso aconteceu, pede que

você conte um fato ocorrido num avião em que você viajava, cujos motores entraram em

pane, e você também como os demais passageiros, o que era perfeitamente natural, entrou

em pânico. O que aconteceu dentro desse avião?

Chico Xavier — A resposta exige uma atitude talvez de fazer um pouco de humor, mas é a verdade o que eu you contar. Em 1959 eu me dirigia de Uberaba, para onde eu me

transferira recentemente, eu me dirigia para Belo Horizonte junto da qual está Pedro

Leopoldo, a terra onde nasci na presente encarnação. Então o avião decolou de Uberaba e

fez uma breve parada na cidade de Araxá. Depois, o avião decolou de novo. Depois de uns

10 minutos o avião começou a se inclinar para um lado, para outro, às vezes fazia uma

pirueta e o pessoal começou todo a gritar e a pedir a Deus, pedir socorro, e eu estou ali

acompanhando. Veio o comandante do avião e disse que não nos impressionássemos, que

era um fenômeno chamado ”vento de cauda”, que apenas chegaríamos um pouco mais

depressa. Mas algumas pessoas disseram: ”Mais depressa no outro mundo.” Eu então

comecei também a me impressionar porque eu não sei qual é o nome técnico da evolução

que o aparelho fazia. Uma pessoa entendida em aeronáutica saberá descrever o caso,


Pinga Fogo 25 Chico Xavier


dizendo os nomes em que um avião roda de cabeça para baixo. E nós iamos e muita gente

começou a vomitar e a gritar, apertar o cinto, aqueles amigos começaram a orar, senhoras

começaram a fazer o terço, e eu com muito respeito. Mas quando vi aquela atmosfera, comecei a gritar também, eu pensei: Todo mundo está gritando, eu também vou gritar. É a

hora da morte. Então comecei a gritar: ”Valei-me, meu Deus.” Comecei a pedir socorro, misericórdia de Deus, mas com fé, com escândalo, mas com fé. Então nisso, peço até

permissão para dizer, ouço alguém dizer assim a um sacerdote católico que estava não

muito longe de mim: ”O Chico Xavier está ali, ele é médium e espírita” e esse sacerdote com

muita bondade disse: ”Mas eu sei que o Chico tem pedido orações em muitos documentos e

o Chico está orando conosco no terço.” Eu disse: ”Graças a Deus padre, eu também estou

orando.” Mas comecei a gritar: ”Valei-me meu Deus.” Então aí entra o espírito de

Emmanuel. Parece que é uma coisa de anedota, uma coisa fantástica, mas é a verdade, ele

entrou no avião.

Almir Guimarães — Mas você viu o espírito entrar?

Chico Xavier — Então passou no meio do pessoal e o pessoal não via, como a maioria

dos nossos amigos naturalmente não está vendo a presença dele aqui. Então ele me disse

assim: ”Por que você está gritando? Eu escutei o seu pedido: O que é que há?” Porque

aquilo já tinha mais ou menos 20 minutos. Então eu falei: ”O senhor não acha que estamos

em perigo de vida?” Ele falou: ”Estão. E o que é que há com isso? Tem muita gente em

perigo de vida, vocês não são privilegiados, não é?” Então eu falei assim: ”Está bem, se

estamos em perigo de vida eu vou gritar.” E continuei gritando: ”Valei-me, socorro meu

Deus”, e o povo todo gritando socorro. Então ele me disse: ”Você não acha melhor se calar, parar com isso? Dá testemunho da tua fé, da tua confiança na imortalidade.” Eu disse: ”Mas

é a morte, nós estamos apavorados diante da morte.” Ele disse: ”Estão”. Eu disse: ”Está

bem, eu estou com muito medo e estou apavorado, como todo mundo eu estou partilhando, eu também sou uma pessoa humana, eu estou com medo também desta hora e de morrer

neste desastre.” Ele disse: ”Está bem, então morra com educação, cale a boca e morra com

educação para não afligir a cabeça dos outros com os seus gritos. Morra com fé em Deus.” Eu disse então: ”Eu quero só saber como é que a gente pode morrer com educação.”

• As Cidades de Vidro O Fim do Período Bélico • Saulo Gomes— O Luiz Lopes, que é o nosso companheiro da TV-Globo, formula esta

pergunta: Nossa humanidade assiste neste momento a mais um lance dramático da corrida

espacial ”Apoio 15” se encaminha para a Lua. ’• Acreditam os mestres espirituais de Chico

Xavier que ainda em nossa atual civilização o homem poderá entrar em contato com

civilizações de outros planetas?

Chico Xavier — Estamos subordinando a resposta ao mesmo critério com que foi

estruturada a informação para a nossa estimada entrevistadora que falou sobre a nova era. Se não entrarmos numa guerra de extermínio nos próximos 50 anos, então nós podemos

esperar realizações extraordinárias da ciência humana partindo da Lua. Então diz o nosso

Emmanuel, que está presente, que quando Cristóvão Colombo perambulava pelas cortes

européias, pedindo socorro para descobrir um caminho mais fácil para as índias, muita gente

considerou o programa dele como absolutamente inútil para a humanidade, que aquilo era

uma despesa absolutamente inócua e que iria pesar demasiadamente no orçamento de

qualquer povo, até que ele conseguisse o apoio de Fernando e Isabel, os então soberanos de

Castela. Mas nós hoje sabemos, depois de quase 5 séculos, qual a importância do feito. Então nós não podemos, também, acusar os nossos irmãos que estão se dirigindo à Lua

para pesquisas que devem ser consideradas da máxima importância para o nosso progresso

futuro, porque as despesas efetuadas com isso serão naturalmente compensadas, talvez

com a tranqüilidade para uma sociedade mais pacífica na Terra, porque se não entrarmos, por exemplo, num conflito de proporções imensas, então na Lua é possível que o homem

construa as cidades de vidro, as cidades-estufas, onde cientistas possam estabelecer pontos

de apoio para observação da nossa Galáxia.


Pinga Fogo 26 Chico Xavier

Essas cidades não são sonhos da Ciência, essas cidades, naturalmente com muito

sacrifício da humanidade terrestre, podem ser feitas e provavelmente — vamos dizer — vai

se obter azoto e oxigênio e usinas de alumínio e formações de vidro e matéria plástica na

própria Lua para a construção desses redutos, produtos da ciência terrestre e provavelmente

a água fornecida pelo próprio solo lunar. Então, teremos, quem sabe, a possibilidade de

entrar em contato com outras comunidades da nossa Galáxia. Então vamos, definitivamente, encerrar o período bélico na evolução dos povos terrestres, porque nós

vamos compreender que fazemos parte de uma só família universal, que não somos o único

mundo criado por Deus. O próprio Jesus a quem reverenciamos como Nosso Senhor e

mestre, disse: ”Há muitas moradas na casa de meu pai.” Portanto, nós precisamos prestigiar

a paz dos povos, a tranqüilidade de todos com o respeito de todos, com a veneração

máxima pela Ciência para que nós possamos auferir esses benefícios num futuro talvez mais

próximo do que remoto, se nós fizermos por merecer.

• É o Limiar dos Tempos Novos •

Almir Guimarães — O Sr. José Polianzi, rua Horto Florestal, 70, pergunta: ”Por que

em 1935 Chico Xavier anunciou em um livro que o planeta Marte era habitado e as sondas

americanas comprovaram que o planeta era deserto igual à Lua? ”

Chico Xavier — O caso tem sido estudado por nós com o espírito de Emmanuel, mas

conquanto acatemos com muita sinceridade todas as afirmações da Ciência, nós precisamos

considerar, e isto entre parênteses; não é uma resposta despistadora, nós precisamos

esperar o progresso da Ciência na descoberta mais ampla e na definição mais precisa

daquilo que nós chamamos de antimatéria, que muitos cientistas hoje chamam de matéria

às avessas, para que possamos compreender o assunto de modo popular. Então nós

sabemos que o espaço não está vazio, conquanto as afirmações da Ciência e as sondas

possam trazer respostas negativas do ponto de vista físico, nós precisamos compreender

que a vida se estende em outras dimensões. E nós estamos no limiar de tempos novos em

que a Ciência descortinará para nós todos um futuro imenso diante do Universo. Então, será

necessário esperar que a Ciência possa compreender e interpretar para nós outros, os filhos

da Terra, a vida em outras dimensões, outros campos vibratórios. Allan Kardec, nas

perguntas e respostas de números 56 e 57, se a memória não me está falhando, em O Livro

dos Espíritos, explica que a Natureza dos mundos e a Natureza material ou física dos

habitantes desses outros mundos podem ser muito diferentes dos habitantes da Terra. Nós

podemos perfeitamente encontrar um mundo que, para nós, do ponto de vista fisiológico da

matéria considerada matéria densa na Terra, nós podemos encontrar um grande espaço

físico despovoado e esse espaço, considerado por nós, de momento, não podemos entender.

O nosso André Luiz nos fala com tanta precisão e segurança da cidade denominada Nosso

Lar, nos espaços terrestres sobre determinada região do Brasil. É uma cidade perfeitamente

constituída de entidades espirituais, mas uma cidade com todos os apetrechos de trabalho e

com todos os elementos de estudos para satisfazer a nossa fome de conhecimento e de

progresso.

Almir Guimarães — Chico, tenho aqui uma outra pergunta do telespectador. Pergunta

do Sr. Milton Antonioli, morador na rua Urânio, n.° 8.— ”Como Chico Xavier explica a

fotografia tirada por um espírita, de um espírito? ”

Chico Xavier — Naturalmente que se o espírito se materializa para ser colhido em sua

expressão física, vamos dizer assim, pela objetiva fotográfica, naturalmente que ali perto ou

junto dele está alguém com potencialidades mediúnicas para efeitos físicos muito

pronunciados.

Reale Jr. — Eu gostaria de ter um depoimento de Chico Xavier sobre a atuação

desenvolvida pelo arcebispo do Recife, D. Helder Câmara.

Chico Xavier — Conheço as notícias do nosso amigo Arcebispo mencionado através da


Pinga Fogo 27 Chico Xavier


imprensa. Não posso emitir qualquer julgamento porque, conquanto respeite com todo o

meu coração e com toda a minha alma a Igreja Católica e as doutrinas católicas, eu não

posso dizer coisa alguma porque não estou na área católica presentemente e não poderia

estabelecer um critério de qualquer crítica, crítica essa de qualquer sentido sobre as

atividades do arcebispo residente em Pernambuco.

• A Síntese Poética •

Almir Guimarães pediu a Chico Xavier, em seu nome e em nome do auditório e dos

telespectadores após 2 horas e 45 minutos de programa, que tentasse psicografar ”uma

mensagem dos seus Guias ”.

Chico Xavier respondeu: ”Vamos tentar.” Almir pediu silêncio. No auditório repleto o

silêncio foi absoluto. Chico pediu: ”Um pouquinho de música para ajudar.” Ouviu-se uma

suave melodia e o médium se pôs a psicografar com extrema rapidez.

Terminada a recepção, Almir anunciou que Chico Xavier ia ler. Nem ele mesmo

parecia ter percebido o que psicografara. Leu em tom de prosa, com certa dificuldade. E era

um soneto, um primoroso alexandrino de Ciro Costa, no estilo e no espírito do saudoso

poeta de ”Pai João” e ”Mãe Preta”.

Surpresa geral. A maioria dos presentes não conhecia o poeta. Ninguém pensara

nesse nome. E o soneto era um improviso inegável, porque verdadeira síntese poética dos

assuntos ali tratados. E a surpresa maior foi na casa dos familiares do poeta, que assistiam

o programa pela televisão. As filhas de Ciro Costa receberam com lágrimas de emoção, à

distância, longe do auditório emocionado, o soneto do pai, que assim lhes demonstrava

estar participando com elas da noite inesquecível.]

O milagre da mediunidade estreitava, através do milagre da televisão, na madrugada

paulista, os corações que a morte parecia haver separado para sempre. Ciro Costa, o poeta

altissonante de ”Terra Prometida”, disse presente à sua querida São Paulo, como se o tempo

não existisse.

Segundo Milênio

Apaga-se o milênio. A sombra deblatera. Vejo a noite avançar, do anseio em que me

agito. Guerra e sonho de paz estadeiam conflito. De polo a polo a dor reclama em longa

espera.

Explode a transição no ápice irrestrito. A cultura perquire; a crença se oblitera. A

forma antiga, em luta, aguarda a nova era. Roga-se tempo novo ao tempo amargo e aflito.

A civilização atônita, insegura, (Lembra um tesouro ao mar que a treva desfigura. Vagando aos turbilhões de maré desvairada.

Entretanto, no mundo a nau que estala e treme, A luz prossegue e brilha. O Cristo

está no leme Preparando na Terra a nova madrugada.

Uma nota curiosa: o verbo estadear, tão bem aplicado pelo poeta, revelou-se

geralmente desconhecido.

Por toda a parte foi publicado de maneira errada até mesmo nos órgãos oficiais dos

legislativos do país. O soneto impecável foi publicado com erros que o poeta não cometera. Damo-lo acima na sua forma certa, na primorosa forma dos alexandrinos de Ciro Costa.

•Essa Emoção, Essas Lágrimas

Chico Xavier Vai Rezar, O Programa Chega ao Fim Nestas Páginas •

Chico Xavier — Esta reunião do ”Pinga-Fogo” nos levou tão longe que nós pedimos

licença para agradecer. Às vezes nós não queremos chorar. Estamos educados para evitar

isso.

Mas a nossa emoção é tão grande com este contato que nós nos lembramos de


Pinga Fogo 28 Chico Xavier

quando a mediunidade começou em nossa vida, quando tínhamos quatro para cinco anos de

idade e conversávamos com o espírito de minha mãe.

Agradecemos a todos os nossos amigos de São Paulo, à TV-Tupi, ao Canal 4, aos

queridos amigos do auditório, a todos os nossos companheiros que nos honraram com a sua

atenção, em seus lares ou em cidades distantes. Agradeço aos nossos companheiros

entrevistadores que foram tão generosos com a Doutrina Espírita, em nossa presença,

formulando perguntas tão respeitosas para com as nossas idéias.

Agradecemos a todos, na pessoa do nosso querido diretor, Sr. Almir Guimarães.

Pedimos ainda, permissão, daqui, de tão longe, à terra generosa da cidade de

Uberaba. Aquela comunidade amiga que nos recebeu há quase treze anos consecutivos. Que

nos abraçou e que nos abençoa maternalmente, como um filho entre os seus filhos. Devo à

Uberaba aquilo que nunca resgatarei. Por mais que trabalhe dentro da minha existência, devo carinho, amor, consideração, respeito e isso faz a nossa alegria de trabalhar e viver.

Mas, em homenagem a todas as mães presentes e esquecendo o problema das

nossas vacilações estudadas pela Ciência, desejando de todo o coração homenagear aquela

que me deu a vida, na presença de todas aquelas mães, porque nós todos temos mães

adoráveis, maravilhosas. Em homenagem a todas elas, nossas mães e nossas irmãs, que

são mães, já que não sei agradecer a São Paulo o que eu passo a dever e já que não sei

agradecer à Uberaba o que eu devo, peço permissão para refletir, neste recinto, do qual

recebemos tantas mensagens de cultura, de consolação, de bondade e de otimismo, através

dos canais de televisão, através da imagem e do som transmitidos a longas distâncias, peço

permissão para condensar o meu agradecimento, recitando a oração que ela orava comigo

em espírito, quando eu tinha quatro para cinco anos de idade.

Pai nosso que estais no Céu. Santificado seja o Vosso nome. Venha a nós o Vosso

reino. Seja feita Senhor, a Vossa Vontade, assim na Terra como nos Céus. O pão nosso de

cada dia dai-nos hoje, Senhor. Perdoai as nossas dívidas assim como perdoamos aos nossos

devedores. Não nos deixeis, Senhor, cair em tentação, mas livrai-nos do mal, porque Vosso

são o poder, a majestade, a glória, o amor e a bênção para sempre. Assim seja.


This document was created with Win2PDF available at http://www.win2pdf.com.

The unregistered version of Win2PDF is for evaluation or non-commercial use only.

This page will not be added after

Nenhum comentário:

Postar um comentário